    KEN FOLLETT
OS PILARES DA TERRA
       Volume 2
       Parte trs
       1140 - 1142

       Captulo 8
         A prostituta que William escolheu no era muito bonita, mas tinha seios
grandes e sua imensa cabeleira crespa o atrara. Circulou em torno dele,
balanando as cadeiras, e William viu que era um pouco mais velha do que
pensara, talvez vinte e cinco ou trinta anos, e, embora sua boca sorrisse
inocentemente, tinha olhos duros e calculistas.
         Walter escolheu a outra. Preferiu uma garota pequena que parecia
vulnervel, com corpo de garoto, de peito chato. Depois que William e Walter
fizeram sua escolha, os outros quatro cavaleiros entraram.
         William os trouxera ao bordel porque precisavam se aliviar de algum
modo. No participavam de uma batalha h meses e estavam se tornando
descontentes e briges.
         A guerra civil que irrompera um ano antes, entre o rei Estvo e sua rival
Matilde, chamada de Imperatriz, atingira um intervalo de calmaria. William e seus
homens seguiram Estvo por todo o sudoeste da Inglaterra. A estratgia dele era
enrgica mas caprichosa. Atacava uma das fortalezas de Matilde com tremendo
entusiasmo, mas se no conquistasse logo uma vitria, rapidamente se cansava do
stio, e seguia em frente. A liderana militar dos rebeldes no cabia a Matilde, e
sim a seu meio irmo Robert, conde de Gloucester; e at aquele momento
Estevo no conseguira for-lo a um confronto. Era uma guerra indefinida, com
muito movimento e pouco combate de verdade, e assim os homens ficavam
inquietos.
         O prostbulo era dividido por biombos em pequenos aposentos, com um
colcho de palha em cada um. William e seus cavaleiros levaram as mulheres que
escolheram para esses quartinhos. A de William ajustou o biombo para assegurar
sua privacidade e arriou a parte de cima da camisa, expondo os seios. Eram
fartos, como William vira antes, mas tinham os mamilos grandes e as pequenas
veias de uma mulher que amamentara, e ele ficou um pouco desapontado.
Mesmo assim, puxou-a para junto de si e os tomou nas mos, apertando-os e
beliscando os mamilos.
         - Devagar - disse ela, num tom de suave protesto. Depois o abraou e
puxou-lhe os quadris, esfregando-se contra ele. Aps alguns momentos enfiou a
mo por entre os corpos unidos e procurou seu membro.
         William resmungou uma praga. Seu corpo no estava reagindo.
         - No se preocupe - murmurou ela. Seu tom condescendente o
enfureceu, mas ele nada disse quando a mulher se soltou do seu abrao e,
ajoelhando-se, ergueu a parte da frente da sua tnica e comeou a trabalhar com
a boca.
         A princpio a sensao lhe agradou, e ele pensou que tudo fosse dar
certo, mas logo perdeu o interesse de novo. Olhou para o rosto dela, coisa que s
vezes o inflamava, mas que agora s serviu para se lembrar do papel nada
admirvel que estava fazendo. Comeou a se sentir furioso, o que fez seu pnis
encolher mais ainda.
         A mulher parou.
         - Tente relaxar - disse, mas quando comeou de novo, chupou com tanta
fora que o machucou. Ele recuou, e os dentes dela arranharam a pele delicada da
glande, fazendo-o gritar. Com as costas da mo deu uma bofetada no seu rosto.
Ela arquejou e caiu de lado.
         - Puta desajeitada! - rosnou William. A mulher ficou deitada no colcho a
seus ps, olhando-o receosamente. Ele deu-lhe um pontap ao acaso, mais de
irritao que de maldade. Pegou na barriga. Foi com mais fora do que
tencionara, e ela se dobrou ao meio de dor.
         William percebeu que seu membro finalmente estava reagindo.
         Ajoelhou-se, rolou o corpo dela para que ficasse de costas e montou. A
mulher fitou-o com dor e medo nos olhos. William puxou-lhe a saia at a cintura.
O plo entreas pernas era grosso e crespo. Ele gostou disso. Acariciou a si
prprio enquanto olhava para o seu corpo. A ereo ainda no estava completa.
O medo comeava a desaparecer dos olhos dela. Ocorreu-lhe que podia estar
deliberadamente se esquivando, tentando esvaziar seu desejo para no ter que
servi-lo.
         A ideia o enfureceu. Cerrou o punho e deu-lhe um soco com fora no
rosto.
         Ela gritou e tentou sair de baixo dele. William descansou o peso sobre a
mulher, prendendo-a no cho, mas ela continuou a lutar e a gritar. Agora o pnis
estava totalmente ereto. Tentou abrir-lhe as coxas  fora, mas ela resistiu.
         O biombo foi empurrado para um lado e Walter entrou, usando apenas
as botas e a camisa de baixo, com o membro duro lembrando um mastro de
bandeira. Dois outros cavaleiros o seguiram: Gervase Feio e Hugh Machado.
         - Segurem-na para mim, rapazes - ordenou William. Os trs cavaleiros
ajoelharam-se em torno da mulher e a imobilizaram.
         William colocou-se em posio para penetr-la e parou, desfrutando a
expectativa.
         - O que aconteceu, milorde? - perguntou Walter.
         - Mudou de ideia quando viu o tamanho dele - disse William, com um
sorriso.
         Todos caram na gargalhada. William penetrou-a. Gostava quando tinha
gente olhando. Comeou a se mover para dentro e para fora.
        - Voc me interrompeu quando eu ia enfiar o meu - disse Walter.
        William pde ver que Walter ainda no ficara satisfeito.
        - Pois enfie o pau na boca desta aqui - disse. - Ela gosta.
        - Vou experimentar. - Walter mudou de posio e agarrou a mulher pelos
cabelos, levantando sua cabea. A essa altura estava assustada o bastante para
fazer qualquer coisa, e cooperou prontamente. Gervase e Hugh no eram mais
necessrios para segur-la, mas ficaram para assistir. Pareciam fascinados.
Provavelmente nunca tinham visto uma mulher servindo a dois homens ao
mesmo tempo. William tambm nunca vira. Havia algo curiosamente excitante
naquilo. Walter parecia sentir o mesmo, porque aps alguns momentos comeou
a respirar com fora e a se mexer mais e mais, at que gozou. Vendo-o, William
gozou tambm um segundo ou dois mais tarde.
        Um instante depois eles se levantaram. William ainda se sentia excitado.
        - Por que vocs dois no trepam com ela? - disse a Gervase e a Hugh.
Agradava-lhe a ideia de assistir  repetio do espetculo.
        Eles no se mostraram entusiasmados, contudo.
        - Tenho uma bonequinha me esperando - disse Hugh.
        - E eu tambm - disse Gervase.
        A mulher se levantou e ajeitou o vestido. A expresso do seu rosto era
imperscrutvel.
        - No foi to ruim, foi? - perguntou-lhe William.
        Ela parou na sua frente, encarou-o por um momento, contraiu os lbios e
cuspiu. William sentiu o rosto coberto por um lquido quente e viscoso: ela
retivera o smen de Walter na boca. Aquilo toldou-lhe a vista. Furioso, ergueu a
mo para bater nela, mas a mulher fugiu, esgueirando-se por entre os biombos.
Walter e os outros cavaleiros caram na risada. William no achou nada
engraado, mas no podia correr atrs dela com o rosto coberto de smen, e
concluiu que o nico modo de preservar a dignidade era fingir que no se
importava, de modo que riu tambm.
        - Bem, milorde - disse Gervase Feio -, espero que no v ter um beb de
Walter agora! - E todos caram na gargalhada mais uma vez. At mesmo William
achou engraado.
        Saram juntos do pequeno reservado, apoiando-se uns nos outros e
esfregando os olhos. As outras mulheres os olhavam, ansiosas; tinham ouvido o
grito da que estava com William e sentiam medo. Um ou dois clientes olharam
curiosamente de seus compartimentos.
        - Primeira vez que vejo aquele tipo de coisa cuspido por uma mulher! -
disse Walter, fazendo com que todos comeassem a rir novamente.
        Um dos escudeiros de William estava de p junto  porta, parecendo
ansioso. No passava de um rapazinho, e provavelmente nunca estivera num
bordel. Sorriu, nervoso, sem saber se tinha direito de se associar s gargalhadas.
        - O que voc est fazendo aqui, seu cara de tacho? - perguntou William.
        - Chegou uma mensagem para o senhor, milorde - disse o escudeiro.
        - Bem, no perca tempo, diga-me o que !
        - Sinto muito, milorde - disse o menino. Estava to assustado que
William achou que ia se virar e sair correndo.
        - O que voc sente tanto, seu monte de estrume? - vociferou o lorde. -
Passe-me a mensagem!
        - Seu pai est morto - deixou escapar o rapaz, caindo no choro.
        William arregalou os olhos, estupefato. Morto?, pensou. Morto?
        - Mas ele est em perfeito estado de sade! - gritou estupidamente. Era
verdade que seu pai j no era capaz de lutar num campo de batalha, mas isso
no era de espantar num homem de quase cinquenta anos. O escudeiro
continuou a chorar. William rememorou a aparncia de seu pai na ltima vez em
que o vira: corpulento, o rosto vermelho, vigoroso e irascvel, to cheio de vida
quanto um homem poderia ser, e isso apenas h... William percebeu, com um
pequeno choque, que j fazia quase um ano que no via o pai.
        - O que aconteceu? - perguntou ao escudeiro. - O que aconteceu a ele?
        - Teve um ataque, milorde - soluou o escudeiro.
        Um ataque. A notcia comeou a ser digerida. Seu pai estava morto.
Aquele homem grande, forte, dado a rompantes, irritadio, estava deitado
impotente e frio sobre uma laje de pedra.
        - Tenho que ir para casa - disse William, de sbito.
        - Primeiro vai ter que pedir ao rei para liber-lo - lembrou Walter
delicadamente.
        - Sim, sim, tem razo - concordou ele, meio confuso.  Tenho que pedir
permisso. - No conseguia pensar direito.
        - Devo dar dinheiro  cafetina? - perguntou Walter.
        - Sim. - William entregou-lhe sua bolsa. Algum ps a capa dele sobre os
seus ombros. Walter murmurou qualquer coisa para a cafetina e lhe deu dinheiro.
Hugh abriu a porta para William.Todos saram.
        Atravessaram as ruas da cidadezinha em silncio. William se sentia alheio,
como se estivesse observando tudo de cima. No podia aceitar o fato de que seu
pai j no existia. Quando se aproximou do quartel-general, tentou recuperar o
controle.
        O rei Estvo instalara sua corte na igreja, pois no havia castelo ou
prefeitura ali. Era uma igreja pequena e simples, de pedra, com as paredes
internas pintadas de vermelho, azul e laranja brilhantes. Um fogo fora aceso no
meio do cho. O rei, um homem bonito, de cabelo castanho-alourado, estava
sentado perto do fogo num trono de madeira, com as pernas esticadas na posio
em que costumava relaxar. Usava roupas de soldado, botas altas e tnica de
couro, mas tinha uma coroa em vez de um elmo. William e Walter abriram
caminho por entre a multido de peticionrios nas proximidades da porta da
igreja, balanaram a cabea para os guardas que mantinham o pblico em geral a
distncia e entraram. Estvo conversava com um conde recm-chegado, mas viu
William e interrompeu imediatamente.
         - William, meu amigo. Voc j soube...
         William fez uma reverncia.
         - Majestade.
         Estvo levantou-se.
         - Lamento por voc - disse. Abraou William por um momento.
         Sua solidariedade trouxe as primeiras lgrimas aos olhos do lorde.
         - Tenho que lhe pedir licena para ir  minha casa - disse ele.
         - Concedida de boa vontade, embora no alegremente  disse o rei. -
Sentiremos falta de seu forte brao direito.
         - Muito obrigado, majestade.
         - Concedo-lhe tambm a custdia do condado de Shiring, e todas as
rendas por ele geradas, at que a questo da sucesso seja decidida. V para casa,
enterre seu pai e volte para ns o mais cedo que puder.
         William fez outra reverncia e retirou-se. O rei retomou  sua conversa.
Cortesos acercaram-se de William para lhe apresentar os psames. Foi nessa
hora que o significado do que o rei lhe dissera o atingiu. Ele dera a William a
custdia do condado at que a questo da sucesso fosse decidida. Que questo?
William era filho nico. Como poderia haver uma questo? Olhou para os rostos
 sua volta e se deteve num jovem padre que era o mais inteligente dos clrigos
do rei. Puxou-o para junto de si e perguntou baixinho:
         - Que diabo ele quis dizer com a "questo" da sucesso, Joseph?
         - H outro pretendente ao condado - respondeu Joseph.
         - Outro pretendente? - repetiu William, atnito. No tinha meios irmos,
irmos ilegtimos, primos... - Quem ?
         Joseph apontou para um vulto de costas para eles. Estava com os recm-
chegados. Usava traje de escudeiro.
         - Mas ele no  nem sequer cavaleiro! - disse William, em voz alta. - Meu
pai era o conde de Shiring!
         O escudeiro o ouviu e se virou.
         - Meu pai tambm era o conde de Shiring.
         A princpio William no o reconheceu. Era um rapaz bonito, de ombros
largos, de cerca de dezoito anos, bem-vestido para um escudeiro, e com uma bela
espada. Havia confiana e at mesmo arrogncia na sua atitude. O mais
impressionante de tudo era que o olhava com tanto dio que William se
encolheu.
         O rosto era muito familiar, mas mudado. Ainda assim, no conseguiu se
lembrar de quem era. Depois viu que havia uma feia cicatriz na orelha direita do
escudeiro, onde o lobo fora cortado. Num lampejo vvido da memria ele viu um
pedacinho de carne branca caindo no peito arfante de uma virgem aterrorizada, e
ouviu o grito de dor de um menino. Aquele era Richard, o filho do traidor
Bartholomew, irmo de Aliena. O garotinho que tinha sido forado a assistir a
dois homens estuprando sua irm, crescera e se tornara um homem temvel, com
o brilho da vingana nos olhos azul-claros. William sentiu-se, de repente,
terrivelmente amedrontado.
        - Voc se lembra, no se lembra? - perguntou Richard, num tom delicado
que no disfarou o frio dio que sentia.
        - Eu me lembro. - assentiu William.
        - Eu tambm, William Hamleigh - disse Richard. - Eu tambm.

         William estava sentado na cadeira grande,  cabeceira da mesa, onde seu
pai costumava sentar-se. Sempre soubera que ocuparia aquele lugar um dia.
Imaginara que se sentiria imensamente poderoso quando o fizesse, mas na
verdade estava um pouco assustado. Tinha medo de que dissessem que ele no
era o homem que seu pai fora e que o desrespeitassem.
         Sua me ficava  sua direita. Frequentemente a observara, com seu pai
sentado  cabeceira, e vira o modo como jogava com os medos e fraquezas do
marido para conseguir o que queria. Estava determinado a no deixar que fizesse
o mesmo com ele.
          sua esquerda estava sentado Arthur, um homem grisalho e de maneiras
conciliadoras que tinha sido alcaide de Bartholomew. Depois que se tornara
conde, Percy contratara Arthur por ter um bom conhecimento da propriedade.
William sempre tivera suas dvidas quanto a esse argumento. Os empregados de
outras pessoas sempre tendem a se manter aferrados aos hbitos do antigo
empregador.
         - O rei Estvo no pode fazer de Richard o conde - estava dizendo sua
me furiosamente. - Ele no passa de um escudeiro!
         - No compreendo nem como conseguiu ser escudeiro  disse William,
irritado. - Pensei que tinha ficado completamente sem dinheiro. Mas estava bem-
vestido e com uma boa espada. Onde arranjou o dinheiro?
         - Ele se estabeleceu como mercador de l - disse Regan.
         - Tem muito dinheiro. Ou melhor, sua irm tem; soube que  Aliena que
dirige o negcio.
         Aliena. Ento ela estava por trs daquilo. William nunca a esquecera, mas
ela no atormentava tanto os seus pensamentos desde que a guerra irrompera, at
que tinha encontrado Richard. Desde ento estivera em sua lembrana
continuamente, to jovem e bonita, to frgil e desejvel como sempre. William a
odiava pelo poder que exercia sobre ele.
        - Ento Aliena est rica agora? - perguntou, afetando indiferena.
        - Sim. Mas voc combateu pelo seu rei durante um ano. Ele no pode
recusar sua herana.
        - Parece que Richard lutou corajosamente tambm - disse William. - Fiz
investigaes. Pior ainda, sua coragem chegou ao conhecimento do rei.
        A expresso de sua me mudou do escrnio colrico para um ar
pensativo.
        - Ento ele realmente tem uma chance.
        - Receio que sim.
        - Certo. Ento temos que repeli-lo.
        - Como? - perguntou William automaticamente. Tinha resolvido no
deixar sua me assumir o comando, mas acabara de lhe dar mais uma
oportunidade.
        - Voc precisa voltar para junto do rei com um maior efetivo de
cavaleiros, novas armas e melhores cavalos, e com muitos escudeiros e homens
de armas.
        William teria gostado de discordar, mas viu que ela estava com a razo.
No final o rei provavelmente daria o condado ao homem que prometesse ser seu
partidrio mais efetivo, a despeito do que fosse certo ou errado no caso.
        - E isso no  tudo - prosseguiu sua me. - Voc deve se cuidar para ter
atitudes e aparncia de um conde. Assim o rei comear a ver sua designao
como algo inevitvel.
        A despeito de si prprio, William ficou intrigado.
        - E como um conde deve parecer e agir?
        - Diga mais o que pensa. Tenha uma opinio a respeito de tudo: como o
rei deveria conduzir a guerra, a melhor ttica para cada batalha, a situao poltica
no norte e - especialmente isto - a capacidade e a lealdade dos outros condes.
Fale com um homem sobre o outro. Diga ao conde de Huntingdon que o conde
de Warenne  um grande combatente; diga ao bispo de Ely que no confia no
xerife de Lincoln. As pessoas diro ao rei: "William de Shiring est na faco do
conde de Warenne", ou "William de Shiring e seus seguidores so contra o xerife
de Lincoln". Se voc parecer poderoso, o rei se sentir  vontade lhe dando mais
poder.
        William tinha pouca f em tamanha sutileza.
        - Acredito que o tamanho do meu exrcito ter mais importncia. - Ele se
virou para o alcaide. - Quanto h no meu tesouro, Arthur?
        - Nada, milorde - respondeu Arthur.
        - Que diabo  isso que voc est falando? - perguntou William de modo
spero. - Tem que haver alguma coisa. Quanto ?
        Arthur tinha um ar ligeiramente superior, como se no tivesse nada a
temer de William.
        - Milorde, no h dinheiro algum no tesouro.
        William teve mpetos de estrangul-lo.
        - Isto aqui  o condado de Shiring! - exclamou, alto o bastante para fazer
os cavaleiros e os funcionrios do castelo sentados mais longe levantarem a
cabea. - Tem que haver dinheiro!
        - O dinheiro entra o tempo todo, milorde,  claro - disse Arthur,
maneirosamente. - Mas sai de novo, sobretudo em tempo de guerra.
        William examinou o rosto plido e barbeado. Arthur era por demais
pretensioso. Seria honesto? No havia como dizer. Gostaria de ter olhos capazes
de enxergar o corao de um homem.
        Regan sabia o que o filho estava pensando.
        - Arthur  honesto - disse, sem se importar com a presena do homem ao
seu lado. - Est velho,  indolente e teimoso, mas  honesto.
        William ficou desolado. Acabara de se sentar naquela cadeira e seu poder
j estava encolhendo, como que por mgica. Sentiu-se amaldioado. Parecia
haver uma lei dizendo que William seria sempre um menino entre os homens,
no importa quo velho ficasse.
        - Como foi que isso aconteceu? - perguntou debilmente.
        - Seu pai esteve doente a maior parte do ano antes de morrer - disse a
me. - Vi que estava deixando as coisas se descontrolarem, mas no pude fazer
com que tomasse uma providncia qualquer.
        Era novidade para William que sua me no fosse onipotente. Jamais a
vira antes incapaz de conduzir os acontecimentos ao seu modo. Virou-se para
Arthur:
        - Temos algumas das melhores fazendas do reino aqui. Como podemos
estar sem dinheiro?
        - Algumas das fazendas passam por dificuldades, e diversos arrendatrios
esto em atraso com suas contribuies.
        - Mas por qu?
        - Uma das razes que ouo frequentemente  que os rapazes no querem
trabalhar na terra; preferem ir para as cidades.
        - Ento temos que det-los!
        Arthur deu de ombros.
        - Uma vez que um servo tenha vivido numa cidade por um ano, torna-se
um homem livre.  a lei.
        - E o que me diz dos rendeiros que no pagaram? O que fez com eles?
        - O que se pode fazer? Tirando seu ganha-po, jamais sero capazes de
pagar. Temos ento que ser pacientes, e esperar que uma boa colheita os capacite
a pagar o que devem.
        Arthur estava alegre demais com sua incapacidade para resolver qualquer
problema, pensou William furioso; porm, conteve a irritao por aquele
momento.
        - Bem, se todos os rapazes esto indo para as cidades, o que h com os
aluguis das casas de nossa propriedade em Shiring? Devia entrar algum dinheiro
por a.
        - Pode parecer estranho, mas no tem entrado nada - disse Arthur. - H
muitas casas vazias em Shiring. Os jovens devem estar indo para algum outro
lugar.
        - Ou as pessoas esto mentindo para voc - disse William.
        - Suponho que v dizer que a receita do mercado de Shiring e da feira de
l tambm caiu?
        - Sim...
        - Ento por que no aumenta os aluguis e os impostos?
        - J aumentamos, milorde, seguindo ordens do seu falecido pai, mas
assim mesmo a receita continuou caindo.
        - Com uma propriedade to improdutiva, como Bartholomew conseguia
sobreviver? - exclamou William, exasperado.
        Arthur tinha uma resposta at mesmo para isso.
        - Ele tambm tinha a pedreira. Gerava uma grande soma de dinheiro,
antigamente.
        - E agora est nas mos daquele maldito monge! - William estava abalado.
Justamente quando precisava fazer uma dispendiosa exibio, diziam-lhe que no
tinha dinheiro.
        A situao era muito perigosa. O rei apenas lhe concedera a custdia de
um condado. Era uma espcie de prova. Se retornasse  corte com um exrcito
diminuto, pareceria ingrato, at mesmo desleal.
        Alm disso, o quadro que Arthur pintara no podia ser inteiramente
verdadeiro. William tinha certeza de que as pessoas o estavam enganando - e que
provavelmente riam s suas costas, tambm. A ideia o enfureceu. No iria tolerar
aquilo. Mostraria a eles. Haveria sangue derramado antes que aceitasse a derrota.
        - Voc tem uma desculpa para tudo - disse a Arthur.  A verdade  que
deixou esta propriedade se deteriorar durante a doena do meu pai, quando
deveria ter sido mais cuidadoso.
        - Mas, milorde...
        - Cale a boca ou mandarei aoit-lo - disse William, erguendo a voz.
        Arthur empalideceu e ficou em silncio.
        - A partir de amanh - disse William -, vamos percorrer o condado.
Visitaremos todas as aldeias de minha propriedade, e vamos sacudi-las. Voc
pode no saber como lidar com camponeses chores e mentirosos, mas eu sei.
Verificaremos quanto o meu condado est empobrecido. E, se voc tiver
mentido, juro por Deus que ser o primeiro de muitos enforcados.
         Juntamente com Arthur, ele levou seu criado Walter, e os outros quatro
cavaleiros que haviam combatido com ele no ltimo ano: Gervase Feio, Hugh
Machado, Gilbert de Rennes e Miles Dados. Eram todos homens grandes,
violentos, que se enfureciam rapidamente e estavam sempre prontos para lutar.
Montaram seus melhores cavalos e se armaram at os dentes, para assustar os
camponeses. William acreditava que um homem era impotente a menos que o
temessem.
         Era um dia quente do final do vero, e o trigo podia ser visto empilhado
em feixes volumosos no campo. A abundncia daquela riqueza visvel enfureceu
William mais ainda. Algum tinha que estar roubando o condado de Shiring. Era
preciso que ficassem to assustados que no se atrevessem a roub-lo. Sua famlia
ganhara o condado quando Bartholomew cara em desgraa, e no entanto ele
estava sem dinheiro, enquanto o filho de Bartholomew tinha muito! A idia de
que o estivessem roubando e rindo de sua ignorncia ingnua assaltou-o como
uma dor de estmago, e ele ficou ainda mais furioso  medida que prosseguia a
viagem.
         Decidira comear por Northbrook, uma pequena aldeia um tanto
afastada do castelo. Os aldees eram uma mistura de servos com homens livres.
Os servos eram propriedade de William, e no podiam fazer nada sem a sua
permisso.
          Eles lhe deviam um certo nmero de dias de trabalho em determinadas
pocas do ano, mais uma frao daquilo que colhiam. Os homens livres s lhe
pagavam aluguel, em dinheiro ou em espcie. Cinco deles estavam atrasados.
William achava que eles pensavam que ficariam impunes, por causa da grande
distncia do castelo. Talvez fosse um lugar bom para comear a acertar as coisas.
         Era uma longa jornada, e o sol estava alto quando se aproximaram do
vilarejo. Havia vinte ou trinta casas cercadas por trs campos extensos, todos
agora ceifados.
         Perto das casas, na orla de um dos campos, havia um grupo de trs
grandes carvalhos. Quando William e seus homens se aproximaram, viram que a
maioria dos aldees parecia estar sentada  sombra dos carvalhos, comendo.
Esporeou seu cavalo, diminuindo o galope nas ltimas centenas de jardas, e os
outros o seguiram. Pararam em frente aos aldees, em meio a uma nuvem de p.
         Enquanto estes se punham de p apressadamente, engolindo o po de
massa grossa e tentando impedir que a poeira lhes entrasse nos olhos, o olhar
desconfiado de William acompanhou um curioso pequeno drama. Um homem
de meia-idade de barba preta falou baixo mas com premncia com uma garota de
cara vermelha e gorda, que tinha no colo um beb tambm gordo e de bochechas
vermelhas. Um rapaz juntou-se a eles e foi afastado pelo homem mais velho.
Ento a garota saiu na direo das casas, aparentemente sob protesto, e
desapareceu na poeira. William ficou intrigado. Havia algo de furtivo naquela
cena, e ele gostaria que sua me estivesse presente para interpret-la.
         Decidiu nada fazer por ora. Dirigiu-se a Arthur falando alto o bastante
para que todos o ouvissem:
         - Cinco dos meus arrendatrios livres aqui esto atrasados no pagamento,
est correto?
         - Sim, milorde.
         - Quem  o pior?
         - Athelstan no paga h dois anos, mas tem tido muita falta de sorte com
seus porcos...
         William falou por cima de Arthur, interrompendo-o.
         - Qual de vocs  Athelstan?
         Um homem alto, de ombros curvados e cerca de quarenta e cinco anos,
adiantou-se. Seu cabelo era ralo, e os olhos lacrimosos.
         - Por que voc no me paga o aluguel? - indagou William.
         - Milorde,  uma pequena propriedade arrendada, e no tenho ningum
para me ajudar, agora que meus filhos foram trabalhar na cidade, e houve a febre
suna...
         - Espere um pouco - interrompeu William. - Para onde seus filhos foram?
         - Para Kingsbridge, lorde, trabalhar na obra da nova catedral, pois
querem se casar, como todos os rapazes, e minha terra no d para sustentar trs
famlias.
         William guardou num canto da memria, para reflexo futura, a
informao de que os rapazes tinham ido trabalhar na Catedral de Kingsbridge.
         - A sua terra  suficiente para sustentar uma famlia, de qualquer modo,
mas ainda assim voc no paga o que deve.
         Athelstan comeou a falar sobre os porcos de novo. William fixou nele
um olhar malvolo, sem ouvir o que falava. Eu sei por que voc no pagou,
pensou ele; voc sabia que o seu lorde estava doente e decidiu engan-lo
enquanto ele era incapaz de fazer valer seus direitos. Os outros quatro
delinquentes pensaram da mesma forma.
         Vocs nos roubam quando estamos fracos!
         Por um momento ele se encheu de autocomiserao. Os cinco haviam
rido um bocado, exultantes com a sua esperteza, no tinha dvida. Pois bem,
agora aprenderiam sua lio.
         - Gilbert e Hugh - disse serenamente. - Peguem este campons e o
imobilizem.
         Athelstan ainda estava falando. Os dois cavaleiros desmontaram e se
aproximaram dele. Sua histria de febre suna deu em nada. Os cavaleiros o
seguraram pelos braos.
         Ele ficou branco de medo.
         William dirigiu-se a Walter no mesmo tom de voz sereno.
         - Trouxe suas luvas de cota de malha?
         - Sim, milorde.
         - Calce-as. D uma lio em Athelstan. Mas assegure-se de que ele viva,
para espalhar a notcia.
         - Sim, milorde. - Walter apanhou no alforje um par de manoplas de couro
com uma fina malha de ferro costurada nos ns e na parte de trs dos dedos.
Calou-as lentamente.
         Todos os aldees assistiam, aterrorizados, e Athelstan comeou a gemer
de medo.
         Walter desmontou, aproximou-se do campons e deu-lhe um soco no
estmago com punho de ferro. O barulho foi incrivelmente alto. Athelstan
dobrou-se ao meio, to sem ar que no pde gritar. Gilbert e Hugh o puseram na
vertical, e Walter acertou-lhe o rosto.
         O sangue jorrou da sua boca e do nariz. Um dos observadores, uma
mulher, que presumivelmente era sua esposa, pulou em cima de Walter, gritando:
         - Pare! Deixe-o! No o mate!
         Walter empurrou-a para longe, e duas outras mulheres a agarraram e
puxaram para trs. Ela continuou a lutar e a gritar. Os outros camponeses
observaram em silncio revoltado Walter surrar Athelstan sistematicamente at
que seu corpo arriou, o rosto coberto de sangue e os olhos fechados,
inconscientes.
         - Soltem-no - disse William por fim.
         Gilbert e Hugh o largaram. Ele caiu no cho e ficou imvel. As mulheres
soltaram a esposa dele, e ela correu, soluando, indo ajoelhar-se ao seu lado.
Walter tirou as manoplas e limpou o sangue e os pedaos de carne que tinham
ficado presos na malha.
         William j perdera o interesse em Athelstan. Correndo os olhos pela
aldeia, viu uma estrutura de madeira que parecia nova, com dois andares, erguida
s margens de um regato. Apontou para ela e perguntou a Arthur:
         - O que  aquilo?
         - Ainda no tinha visto, milorde - respondeu Arthur, nervosamente.
         William achou que ele estava mentindo.
         -  um moinho d'gua, no ?
         Arthur deu de ombros, mas sua indiferena no foi convincente.
         - No posso imaginar o que mais poderia ser, estando ali na margem do
riacho.
         Como podia ser to insolente, quando acabara de ver um campons ser
espancado quase at a morte por sua ordem? Quase em desespero, William
perguntou:
         - Os meus servos podem construir moinhos sem a minha permisso?
         - No, milorde.
        - Sabe por que isso  proibido?
        - Para que eles tenham que levar seu cereal aos moinhos do lorde e
paguem pela moagem.
        - E com isso o lorde lucra.
        - Sim, milorde. - Arthur falou no tom condescendente de quem explica
alguma coisa elementar a uma criana. - Mas se pagarem uma multa pela
construo do moinho, o lorde lucrara do mesmo modo.
        William achou seu tom de voz exasperador.
        - No, ele no lucrar a mesma coisa. A multa nunca representa o mesmo
que os camponeses teriam que pagar de outro modo.  por isso que eles adoram
construir moinhos. E  por isso que meu pai nunca lhes concedeu permisso. -
Sem dar a Arthur uma chance para replicar, William esporeou o cavalo e foi at o
moinho. Seus cavaleiros o seguiram, e os aldees vieram atrs, um bando
esfarrapado.
        William desmontou. No havia dvida do que era a construo. Uma
grande roda de moinho girava sob a presso da rpida correnteza do riacho. A
roda acionava um eixo que atravessava a parede lateral do moinho. Era uma
slida construo de madeira, feita para durar. Quem quer que a tivesse
levantado, esperava claramente ser livre para us-la por muitos anos.
        O moleiro ficou parado do lado de fora da porta aberta, exibindo uma
expresso ensaiada de inocncia ofendida. No aposento s suas costas havia
sacos de gro em pilhas bem arrumadas. O moleiro fez uma reverncia polida,
mas no haveria um qu de escrnio no seu olhar? Mais uma vez William teve a
penosa sensao de que aquela gente pensava que ele era um joo-ningum, e sua
incapacidade de impor sua vontade fazia com que se sentisse impotente. A
indignao e a frustrao o dominaram e ele gritou com o moleiro furiosamente:
        - O que o fez pensar que conseguiria sair impune com isso? Imagina que
sou estpido?  isso?  isso o que pensa? Nesse momento ele deu um soco na
cara do homem.
        O moleiro deu um grito exagerado de dor e caiu no cho
desnecessariamente.
        William passou por cima dele e entrou. O eixo da roda do moinho estava
ligado, por um conjunto de engrenagens de madeira, ao eixo da pedra do moinho
no andar de cima. O gro modo caa por uma calha na eira, no nvel do solo. O
segundo andar, que tinha que sustentar o peso da pedra de amolar, era escorado
por quatro vigas grossas (tiradas da floresta de William sem permisso,
indubitavelmente). Se as vigas fossem cortadas, toda a construo desmoronaria.
        William saiu. Hugh carregava a arma que lhe dera o nome, amarrada na
sela.
        - D-me seu machado de batalha - disse William. O cavaleiro obedeceu.
William entrou de novo e comeou a dar machadadas nas vigas que sustentavam
o andar de cima.
         Deu-lhe grande satisfao ouvir o barulho surdo da lmina do machado
batendo na construo que os camponeses tinham levantado to
cuidadosamente, na sua tentativa de fraud-lo, no pagando as taxas de moagem.
No esto rindo de mim agora, pensou, furioso.
         Walter entrou e ficou olhando. O lorde abriu uma inciso profunda em
um dos suportes e partiu para outro. A plataforma acima, que sustentava o peso
enorme da pedra do moinho, comeou a tremer.
         - Arranje uma corda - disse William. Walter saiu.
         O lorde cortou mais duas vigas to profundamente quanto se atreveu. A
construo estava pronta para ruir. Walter voltou com um pedao de corda.
William amarrou a corda a uma das vigas e carregou a outra ponta para fora,
atando-a ao pescoo do seu cavalo de batalha.
         Os camponeses assistiram a tudo em taciturno silncio.
         - Onde est o moleiro? - perguntou William, quando a corda foi
amarrada.
         O moleiro se aproximou, ainda tentando parecer uma pessoa que estava
sendo tratada injustamente.
         - Gervase - disse William -, amarre-o e coloque-o l dentro.
         O moleiro tentou fugir, mas Gilbert o derrubou e se sentou em cima
dele; Gervase amarrou-lhe as mos e os ps com tiras de couro. Os dois
cavaleiros o levantaram.
         Ele comeou a lutar e a suplicar misericrdia.
         - Voc no pode fazer isto - disse um dos aldees, destacando-se da
multido. -  assassinato. Nem mesmo um lorde pode cometer assassinatos.
         William apontou um dedo trmulo para ele.
         - Se voc abrir de novo a boca eu o porei l dentro com ele. Por um
momento o homem pareceu disposto a continuar desafiando William; depois
pensou melhor e desistiu, afastando-se.
         Os cavaleiros saram do moinho. William fez seu cavalo adiantar-se at
esticar a corda. Bateu na garupa do animal e ele comeou a puxar.
         Dentro do moinho, o moleiro comeou a gritar. O barulho era pavoroso,
de um homem tomado por terror mortal, um homem que sabia que dentro de
momentos seria esmagado at morrer.
         O cavalo balanou a cabea, tentando afrouxar a corda passada no seu
pescoo. William gritou e bateu na sua garupa para obrig-lo a puxar, depois
gritou com os cavaleiros:
         - Puxem a corda, homens!
         Os quatro agarraram a corda e puxaram juntamente com o cavalo. Os
aldees gritaram, protestando, mas estavam por demais apavorados para
interferir. Arthur ficou de lado, parecendo nauseado.
         Os gritos do moleiro ficaram mais agudos. William imaginou o terror
cego que devia estar se apoderando do homem enquanto aguardava sua morte
horrorosa. Nenhum daqueles camponeses jamais se esquecer da vingana dos
Hamleighs, pensou.
         A viga rangeu ruidosamente; em seguida houve um forte estalo quando
quebrou. O cavalo deu um pulo para a frente e os cavaleiros largaram a corda.
Um canto do telhado cedeu. As mulheres comearam a gemer. As paredes de
madeira do moinho pareceram estremecer; os gritos do moleiro ficaram mais
altos; houve um estrondo violento quando o andar de cima cedeu; e os gritos
cessaram abruptamente quando a pedra caiu no andar trreo. As paredes se
estilhaaram, o telhado desabou e, num instante, o moinho no passava de uma
pilha de lenha com um homem morto embaixo.
         William comeou a sentir-se melhor.
         Alguns aldees correram e comearam a cavar freneticamente por entre
os escombros. Se esperavam encontrar o moleiro vivo, ficariam desapontados.
Seu corpo seria uma viso medonha. Tanto melhor.
         Olhando em torno, William localizou a garota de rosto vermelho com o
beb de rosto tambm vermelho, bem atrs da multido, como se tentasse passar
despercebida.
         Lembrou-se de como o homem da barba escura - presumivelmente seu
pai insistira para que se mantivesse escondida. Decidiu resolver aquele mistrio
antes de deixar o vilarejo. Seu olhar encontrou o dela, e fez um sinal para que se
aproximasse. Ela olhou para trs, na esperana de que William estivesse
indicando outra pessoa.
         - Voc - confirmou William. - Venha c.
         O homem de barba preta a viu e deixou escapar um grunhido de
exasperao.
         - Quem  o seu marido, garota? - perguntou William.
         - Ela no tem... - comeou o pai.
         Era tarde demais, contudo, pois a garota respondeu:
         - Edmund.
         - Ento voc  casada. Mas quem  o seu pai?
         - Sou eu - disse o homem da barba preta. - Theobald.
         William virou-se para Arthur.
         - Theobald  um homem livre?
         -  um servo, lorde.
         - E quando a filha de um servo se casa, o lorde no tem o direito, como
seu dono, de desfrut-la na noite de npcias?
         Arthur ficou chocado.
         - Milorde! Esse costume primitivo no tem sido obedecido nesta parte do
mundo h tanto tempo que no h lembrana de quando era!
        -  verdade - concordou William. - Em vez disso, o pai paga uma multa.
Quanto foi que Theobald pagou?
        - Ele ainda no pagou, milorde, mas. ..
        - No pagou! E ela com um filho gordo de cara vermelha!
        - Nunca tivemos o dinheiro - disse Theobald -, e ela ficou grvida de
Edmund e quis se casar, mas agora podemos pagar, pois a safra j foi colhida.
        William sorriu para a garota.
        - Deixe-me ver o beb.
        Ela o encarou medrosamente.
        - Venha. D-me a criana.
        Ela estava com medo, mas no foi capaz de resistir. William adiantou-se e
pegou a criana delicadamente. Os olhos da mulher encheram-se de terror, mas
ela no foi capaz de fazer nada.
        O beb comeou a gritar. William segurou-o por um momento, depois o
agarrou pelos tornozelos com uma das mos e, com um movimento rpido,
atirou-o no ar, o mais alto que pde.
        A me berrou como uma alma do outro mundo anunciando uma morte e
ficou olhando para cima, vendo o beb voar para o alto.
        O pai correu com os braos estendidos para peg-lo quando casse.
        Enquanto a garota olhava o que acontecia com seu filho e gritava,
William agarrou um pedao do seu vestido e o rasgou. Seu corpo era redondo,
cor-de-rosa.
        O pai pegou o beb em segurana.
        A garota virou-se para correr, mas William pegou-a e atirou-a ao cho.
        Edmund entregou o beb a uma mulher e virou-se para encarar William.
         Como no me foi dado o devido na noite de npcias, e a multa no foi
paga, tomarei o que me  devido agora.
        O pai correu para cima dele.
        William desembainhou a espada.
        O pai se deteve.
        O lorde olhou para a garota, cada no cho, tentando cobrir a nudez com
as mos. O medo dela o excitou.
        - E quando eu tiver acabado, meus cavaleiros a possuiro tambm - disse,
com um sorriso satisfeito.


       II

       Em trs anos Kingsbridge mudara ao ponto de no poder ser
reconhecida.
       William no ia l desde o domingo de Pentecostes, quando Philip e seu
exrcito de voluntrios frustraram o esquema de Waleran Bigod. Havia ento
umas quarenta ou cinquenta casas de madeira agrupadas em torno do porto do
priorado e espalhadas ao longo da trilha lamacenta que levava  ponte. Agora, ele
podia ver, ao se aproximar da aldeia atravessando os campos ondulados, que
havia um nmero de casas trs vezes maior, no mnimo. Formavam uma orla
marrom  volta do muro cinzento de pedra, e enchiam por completo o espao
entre o priorado e o rio. Diversas casas pareciam grandes. No interior do adro
havia novas construes de pedra, e as paredes da igreja pareciam estar subindo
depressa. Havia dois novos embarcadouros na margem do rio. Kingsbridge
tornara-se uma cidade.
        A aparncia do lugar confirmou uma suspeita que viera aumentando na
sua cabea desde que voltara da guerra. Ao percorrer o condado, cobrando
aluguis em atraso e aterrorizando servos desobedientes, sempre ouvia falar em
Kingsbridge. Rapazes sem terra iam para l, a fim de trabalhar; famlias prsperas
mandavam os filhos estudarem na escola do priorado; pequenos arrendatrios
vendiam ovos e queijos aos homens que trabalhavam no canteiro da obra; e
todos que podiam iam l nos dias santos, muito embora no houvesse uma
catedral. Aquele era um dia santo - dia de So Miguel, que, naquele ano, cara
num domingo. Era uma manh de incio de outono, com uma temperatura
agradvel para viajar, de modo que devia encontrar uma boa multido. William
esperava descobrir o que atraa toda aquela gente a Kingsbridge.
        Seus cinco sequazes o acompanhavam. Tinham feito um excelente
trabalho nas aldeias. A notcia da viagem de William pelo condado espalhou-se
com fantstica rapidez, e depois dos primeiros dias, todos sabiam o que esperar.
Quando o lorde se aproximava mandavam as crianas e as mulheres novas se
esconderem nos bosques. Agradava a William causar medo no corao daquela
gente. Sem dvida nenhuma agora sabiam quem estava no comando!
        Quando o grupo se aproximou de Kingsbridge, ele esporeou o cavalo,
passando para um trote, e os outros o imitaram. Chegar numa andadura mais
rpida era sempre mais impressionante. As pessoas se encolhiam do lado da
estrada ou pulavam no mato, para sair da frente dos enormes cavalos.
        Atravessaram ruidosamente a ponte de madeira, ignorando o posto de
pedgio mas a rua estreita adiante deles estava bloqueada por uma carroa
carregada de barris de cal e puxada por uma parelha de bois enormes e lentos; os
cavalos foram forados a reduzir a marcha de maneira abrupta.
        William olhou em torno enquanto subiam a elevao atrs do carro de
boi. Casas novas, construdas apressadamente, enchiam os espaos entre as
antigas. Notou uma locanda, uma cervejaria, um ferreiro e um fabricante de
calados. O ar de prosperidade era inconfundvel. William sentiu inveja.
        No havia muita gente na rua, contudo. Talvez todos estivessem no
priorado.
         Com os cavaleiros  sua retaguarda, ele seguiu o carro de boi quando
passou pelo porto do priorado. No era o tipo de entrada que preferia, e sentiu
uma pontada de ansiedade, com medo de que notassem sua presena e rissem
dele, mas por sorte ningum sequer olhou.
         Por contraste com a cidade deserta do lado de fora das muralhas, o adro
fervilhava de atividade.
         William sofreou sua montaria e deu uma olhada em torno, tentando
registrar tudo. Havia tanta gente, e tanta coisa estava acontecendo, que a
princpio achou tudo aquilo estonteante. Depois a cena pde ser classificada em
trs sees.
         Bem perto dele, na extremidade oeste do adro, havia um mercado. As
bancas eram dispostas em fileiras no sentido norte-sul, e centenas de pessoas
circulavam por entre elas, comprando comida e bebida, chapus e sapatos, facas,
cintos, patinhos, cachorrinhos, panelas, brincos, l, linha, corda, e dzias de
outras necessidades e luxos. No havia dvida de que o mercado era muito
prspero, e o dinheiro que trocava de mos ali devia constituir uma grande soma.
         No era de admirar, pensou William amarguradamente, que o mercado
de Shiring estivesse em declnio, quando havia uma alternativa florescente ali em
Kingsbridge.
         Os aluguis das bancas, o pedgio cobrado dos fornecedores e os
impostos sobre as vendas deviam estar enchendo as burras do priorado de
Kingsbridge.
         Mas um mercado precisava de uma licena do rei, e William tinha certeza
de que o prior Philip no possua essa licena. Provavelmente planejava requer-
la assim que fosse apanhado, como o moleiro de Northbrook. Lamentavelmente
no seria to fcil para William dar-lhe uma lio, como acontecera com o
moleiro.
         Aps o mercado havia uma zona de tranquilidade. Do lado do claustro,
onde era antes a nterseo da nave com os transeptos da igreja velha, havia um
altar sob um dossel, com um monge de cabelos brancos em frente, lendo
qualquer coisa que estava num livro. Do lado mais distante do altar, monges
dispostos em fileiras precisas cantavam hinos, embora a distncia seu canto
desaparecesse com o barulho do mercado. A congregao era pequena; com
certeza eram as nonas, um culto que s dizia respeito aos monges, pensou
William; todo o trabalho e as vendas no mercado seriam interrompidos pelo
culto principal de So Miguel, claro.
         Na ponta mais longqua do adro, a extremidade leste da catedral estava
sendo construda. Era ali que o prior Philip gastava o lucro imerecido que tinha
com o mercado, pensou William, amargurado. As paredes estavam com trinta ou
quarenta ps de altura, e j era possvel ver o contorno das janelas e dos arcos.
Trabalhadores fervilhavam por toda parte. William estranhou a aparncia deles, e
aps um momento se deu conta de que era a roupa colorida. No eram
trabalhadores regulares, claro o efetivo que trabalhava por dinheiro certamente
estaria de folga. Eram voluntrios.
         No esperava que houvesse tantos. Centenas de homens e mulheres
carregavam pedras e madeira, rolavam barris e empurravam carroas de areia da
margem do rio, todos trabalhando por nada, a no ser a remisso dos pecados.
         O astuto prior tinha um esquema to astuto quanto ele, observou William
invejosamente. As pessoas que vinham trabalhar na catedral gastavam dinheiro
no mercado.
         As pessoas que iam ao mercado davam algumas horas de trabalho 
catedral, pelos seus pecados. Uma mo lavava a outra.
         Esporeou o cavalo e atravessou o cemitrio, curioso para ver mais de
perto o canteiro da obra.
         Os oito macios pilares da arcada situavam-se de ambos os lados, em
quatro pares opostos. A distncia, William pensara ter visto os arcos redondos
unindo uma pilastra com a seguinte, mas agora percebia que ainda no haviam
sido construdos - o que vira eram moldes de madeira, feitos com a mesma
forma, sobre os quais as pedras descansariam enquanto os arcos eram edificados
e a massa secava. O molde no se apoiava no solo, e sim nos capitis.
         Paralelas s arcadas, erguiam-se as paredes externas, com espaos
regulares para as janelas. A meio caminho entre a abertura de cada uma, um
arcobotante projetava-se da linha da parede. Olhando as extremidades abertas
das paredes inacabadas, William pde ver que no eram de pedra slida; na
verdade eram paredes duplas, com um espao no meio. A cavidade parecia ter
sido enchida com fragmentos de pedras e massa.
         O andaime era feito de slidas vigas amarradas por cordas, com cavaletes
de arbusto flexveis e canios entrelaados por entre elas.
         Muito dinheiro tinha sido gasto ali, observou William.
         Contornou a parte externa do coro, seguido por seus cavaleiros. De
encontro s paredes havia galpes de meia-gua, que serviam como oficinas e
depsitos para os artesos. A maioria estava trancada, pois naquele dia no havia
pedreiros assentando pedras ou carpinteiros fazendo formas - eles estavam
dirigindo o trabalho dos voluntrios, dizendo onde empilhar as pedras, a madeira,
a areia e a cal que traziam da margem do rio.
         William contornou a extremidade leste da igreja seguindo para o lado sul,
onde seu caminho foi bloqueado pelas construes monsticas. Voltou ento,
maravilhado com a esperteza do prior Philip, que tinha seus mestres artesos
ocupados num domingo e os operrios trabalhando de graa.
         Ao refletir no que estava vendo, pareceu-lhe devastadoramente claro que
o prior Philip era o grande responsvel pelo declnio do condado de Shiring. As
fazendas estavam perdendo seus braos jovens para a obra da catedral nova, e
Shiring a prola do condado - comeava a ser eclipsada pela crescente e nova
cidade de Kingsbridge.
         Os residentes ali pagavam o aluguel a Philip e no a William, e as pessoas
que compravam e vendiam bens naquele mercado geravam renda para o
priorado, e no para o condado.
         E Philip tinha a madeira, os pastos de carneiros e a pedreira que antes
enriqueciam o conde.
         William e seus homens atravessaram o adro de volta na direo do
mercado. Decidiu olhar mais de perto. Meteu o cavalo no meio da multido. O
cavalo avanou com dificuldade. As pessoas no se espalhavam apavoradas,
saindo do caminho. Quando o animal encostava nelas, olhavam para William
com irritao e aborrecimento, em vez de medo, e saam da frente quando bem
entendiam, com uma expresso condescendente. Ningum ali tinha medo dele. E
isso o deixou nervoso. Se as pessoas no tinham medo, era impossvel dizer o
que seriam capazes de fazer.
         Desceu por uma passagem e subiu pela seguinte, com os cavaleiros 
retaguarda. Ficou frustrado com o movimento vagaroso da multido. Haveria
sido mais rpido caminhar; mas ento, tinha certeza, aquela insubordinada gente
de Kingsbridge provavelmente seria atrevida o bastante para empurr-lo.
         Percorrera a metade do caminho de volta quando viu Aliena.
         Deteve o cavalo de sbito e olhou-a fixamente, imvel.
         No era mais a garota magra, tensa e assustada, calando tamancos, que
vira num domingo de Pentecostes, trs anos antes. Seu rosto, desfigurado
naquele tempo pela tenso, ficara cheio de novo, e a aparncia dela era feliz e
saudvel. Seus olhos escuros brilhavam de alegria, e os cachos balanavam em
torno do seu rosto quando sacudia a cabea.
         Estava to bonita que William sentiu uma vertigem de desejo.
         Vestia um manto vermelho, ricamente bordado, e suas mos expressivas
cintilavam com vrios anis. Havia uma mulher mais velha com ela, um pouco
para o lado, como uma criada. "Muito dinheiro", dissera sua me; tinha sido
assim que Richard conseguira tornar-se escudeiro e integrar o exrcito do rei
Estvo equipado com boas armas. Maldita. Fora deixada sem dinheiro,
impotente, desvalida - como conseguira enriquecer?
         Ela estava numa banca que vendia agulhas de osso, linha de seda, dedais
de madeira e outros artigos de costura, e discutia animadamente com o judeu
baixinho e de cabelos escuros que os vendia. Sua atitude era positiva, e ela estava
relaxada e autoconfiante. Havia recuperado a pose que tinha como filha do
conde.
         Parecia-mais velha. Estava mais velha, claro: se William tinha vinte e
quatro anos, ela devia ter agora vinte e um. Mas parecia ser mais velha. No havia
mais nada de criana em Aliena. Era uma mulher madura.
         Ela ergueu a cabea e encontrou seu olhar.
         Da ltima vez em que a encarara, ficara ruborizada de vergonha e fugira.
Dessa vez sustentou sua posio e o encarou.
         Ele tentou um sorriso elegante.
         Uma expresso de custico desprezo surgiu no rosto dela.
         William sentiu que ruborizava. Aliena ainda era arrogante como sempre
fora, e o menosprezava tal como cinco anos antes. Ele a humilhara e a estuprara,
mas ela no tinha mais medo dele. Teve vontade de lhe falar e dizer que poderia
fazer de novo tudo o que fizera antes, mas no estava disposto a gritar isso por
cima da multido de cabeas. O olhar firme de Aliena o fez sentir-se pequeno.
Tentou sorrir com uma expresso escarninha, mas no conseguiu, e no teve
dvida de que estava fazendo uma careta ridcula. Na agonia do embarao que
sentiu, virou-se e esporeou o cavalo; mesmo assim, a multido o reteve, e o olhar
fulminante de Aliena ficou queimando um ponto da sua nuca enquanto se
afastava poucas e penosas polegadas.
         Quando por fim emergiu do mercado, defrontou-se com o prior Philip.
         O gals de baixa estatura estava com as mos nas cadeiras e o queixo
projetado de maneira agressiva para a frente. No era mais to magro como
antes, e o pouco cabelo que tinha estava ficando prematuramente grisalho.
Tambm no parecia mais to jovem para o cargo. Seus olhos azuis faiscavam de
raiva.
         - Lorde William! - exclamou em tom desafiador. William obrigou-se a
esquecer Aliena e lembrou que tinha uma acusao a fazer contra Philip.
         - Que bom encontr-lo aqui, prior!
         - O mesmo digo eu - disse Philip, irritado; porm a sombra de uma
dvida cruzou-lhe a fisionomia.
         - Estou vendo que tem um mercado aqui - disse William acusadoramente.
         - E da?
         - No creio que o rei Estvo jamais tenha licenciado um mercado em
Kingsbridge, nem tampouco qualquer outro rei, que seja do meu conhecimento.
         - Como se atreve? - disse Philip.
         - Eu ou qualquer pessoa...
         - Voc! - gritou Philip, mais alto do que ele. - Como se atreve a vir aqui
falar em licena? Voc, que no ms passado atravessou este condado
incendiando, roubando, estuprando e cometendo pelo menos um assassinato!
         - Isso no tem nada a ver...
         - Como se atreve a entrar num mosteiro e falar de licena? - gritou
Philip. Adiantou-se, sacudindo um dedo para William, e o seu cavalo andou de
lado, nervosamente. A voz do prior era mais aguda que a de William, que no
conseguia fazer ouvir uma s palavra. Bandos de monges, trabalhadores
voluntrios e fregueses do mercado comearam a se juntar, assistindo  briga.
Nada era capaz de deter Philip. - Depois do que fez, s h uma coisa que deveria
dizer: "Padre, pequei!" Devia ajoelhar-se neste priorado! Devia implorar perdo
para os seus pecados, se  que quer escapar das chamas do inferno!
         William ficou lvido. Mencionar o inferno o enchia de terror
incontrolvel. Tentou desesperadamente interromper a torrente de palavras de
Philip, dizendo:
         - E o seu mercado? E o seu mercado?
         O prior mal o ouvia, tomado por um acesso de fria.
         - Implore perdo pelas coisas horrveis que fez! - gritou. - De joelhos! De
joelhos, se no quiser arder no inferno!
         William estava to assustado que quase acreditou que iria mesmo para o
inferno se no se ajoelhasse e rezasse na frente de Philip ali mesmo. Sabia que j
devia ter se confessado, pois matara muita gente na guerra, para no falar nos
pecados que cometera durante a inspeo do condado. E se ele morresse antes de
se confessar?
         Comeou a se sentir muito inseguro ao pensar nas chamas eternas e nos
demnios com suas facas amoladas.
         - De joelhos! - gritou Philip, apontando o dedo e avanando sobre ele.
         O lorde fez o cavalo recuar. Olhou  sua volta desesperadamente. A
multido o cercou. Seus cavaleiros estavam atrs dele, parecendo achar graa: no
podiam decidir como lidar com uma ameaa espiritual vinda de um monge
desarmado. William no podia mais aguentar tanta humilhao. Depois de
Aliena, aquilo era demais. Sofreou as rdeas, fazendo o imponente cavalo de
batalha recuar. A multido afastou-se ante seus cascos poderosos. Quando as
patas dianteiras tocaram no cho de novo, William esporeou o animal com fora
e ele deu um pulo para a frente. Os observadores se dispersaram. Repetiu a dose
e o cavalo rompeu num pequeno galope. Ardendo de vergonha, fugiu
rapidamente pelo porto do priorado, seguido pelos cavaleiros, como um bando
de cachorros, rosnando mas perseguidos por uma velha com uma vassoura.

        William confessou os pecados, apavorado e trmulo, sobre o cho de
pedra fria da capelinha do pulado do bispo. Waleran escutou em silncio, o rosto
numa mscara de averso, enquanto o lorde desafiava a lista das mortes, surras e
estupros de que era culpado. Mesmo enquanto se confessava, William sentia dio
do arrogante bispo, com suas mos brancas e limpas entrelaadas sobre o
corao e as translcidas narinas tambm muito brancas ligeiramente abertas,
como se sentisse mau cheiro no ar poeirento. Afliga-o pedir a Waleran sua
absolvio, mas os pecados que cometera eram to graves que nenhum padre
comum poderia perdo-los. Assim ele se ajoelhou, tomado de medo, e Waleran
mandou que acendesse uma vela perpetuamente na capela de Earlscaste, e disse
que seus pecados estavam perdoados. O medo foi desaparecendo lentamente,
como neblina. Saram da capela para a enfumaada atmosfera do salo grande e
se sentaram junto ao fogo. O outono estava se transformando em inverno e fazia
frio na grande casa de pedra. Um ajudante de cozinha trouxe po quente
temperado, feito com mel e gengibre. William comeou a se sentir bem, por fim.
Ento se lembrou dos seus outros problemas. O filho de Bartholomew, Richard,
estava pleiteando o condado, e William, com pouco dinheiro, no tinha como
organizar um exrcito grande o bastante para impressionar o rei. Conseguira
recolher uma quantia considervel no ms anterior, mas ainda no era suficiente.
         - Aquele maldito monge est sugando o sangue do condado de Shiring -
disse, suspirando.
         Waleran pegou um pedao de po com a mo plida, de dedos
compridos, que lembrava uma garra.
          Eu estava me perguntando quanto tempo voc levaria para chegar a
essa concluso.
         Claro que o bispo teria resolvido o problema muito antes de William. Ele
era to superior!... O lorde preferia no ter que lhe falar, mas queria a opinio do
bispo sobre um ponto legal.
         - O rei j licenciou algum mercado em Kingsbridge?
         - Que eu saiba, no.
         - Ento Philip est contrariando a lei.
         - Sem garantir que seja uma coisa importante, est.
         Waleran parecia desinteressado, mas William insistiu.
         - Ele devia ser detido.
         O bispo deu um sorriso de superioridade.
         - Voc no pode lidar com ele do mesmo modo como lida com um servo
que casou a filha sem sua permisso.
         William ficou vermelho: ele se referia a um dos pecados que acabara de
confessar.
         - Como se pode lidar com ele, ento?
         Waleran pensou um pouco.
         - Mercados so uma prerrogativa do rei. Em tempos mais pacficos ele
provavelmente cuidaria disso em pessoa.
         O sorriso do lorde foi escarninho. Apesar de toda a sua esperteza, o
bispo no conhecia o rei to bem quanto ele.
         - Nem mesmo em tempos de paz o rei me agradeceria por me queixar de
um mercado sem licena.
         - Bem, ento o seu representante, para tratar dos problemas locais,  o
xerife de Shiring.
         - O que ele pode fazer?
         - Pode apresentar um mandado contra o priorado no tribunal do
condado.
        William sacudiu a cabea.
        - Isso  a ltima coisa que quero. O tribunal imporia uma multa, e o
mercado continuaria. Seria quase o mesmo que conceder uma licena.
        - O problema  que, na verdade, no h motivo para no deixar que
Kingsbridge tenha um mercado.
        - H, sim! - exclamou o lorde, indignado. - Rouba os negcios do
mercado de Shiring.
        - Shiring fica a um dia inteiro de viagem de Kinsgbridge.
        - As pessoas andaro essa distncia.
        O bispo deu de ombros novamente. William percebeu que ele fazia esse
gesto quando discordava.
        - A tradio - disse Waleran - afirma que um homem gasta um tero do
dia andando at o mercado, um tero do dia no mercado e um tero andando de
volta para casa. Assim sendo, um mercado serve para as pessoas que esto a uma
distncia de um tero de dia de viagem, ou seja, cerca de sete milhas. Se dois
mercados se encontram separados mais de catorze milhas, suas reas de
influncia no se sobrepem. Shiring fica a vinte milhas de Kingsbridge. De
acordo com a regra, Kingsbridge tem direito a um mercado, e o rei dever
conceder sua permisso.
        - O rei faz o que bem entender - esbravejou William, mas estava
preocupado. No conhecia aquela regra. Ela deixava o prior Philip numa posio
mais forte.
        - De qualquer forma - disse o bispo -, no estaremos tratando com o rei,
e sim com o xerife. - Ele fechou a cara.
        - O xerife poderia simplesmente ordenar que o priorado desistisse de
manter um mercado sem licena.
        - Seria perda de tempo - disse o lorde desdenhosamente.
        - Quem d ateno a uma ordem que no seja reforada por uma
ameaa?
        - Philip poderia dar.
        William no acreditou.
        - Por que haveria ele de atender a uma ordem dessas?
        Um sorriso zombeteiro brincou nos lbios descorados de Waleran.
        - No sei se sou capaz de lhe explicar - disse. - Philip acredita que a lei
deve reinar.
        - Uma ideia estpida - comentou William. - Quem reina  o rei.
        - Eu disse que voc no entenderia.
        Seu ar de sapincia enfureceu William, que se levantou e foi at a janela.
Podia ver do lado de fora, no topo da elevao vizinha, o movimento de terra no
lugar onde Waleran comeara a construir seu castelo quatro anos antes. O bispo
esperara pag-lo com a receita do condado de Shiring. Philip frustrara os planos
dele, e o capim crescera em cima dos montes de terra e espinheiros enchiam a
vala seca. William lembrou que Waleran tivera esperanas de usar na construo a
pedra a ser retirada do condado. Agora Philip tinha a pedreira.
         - Se eu recuperasse minha pedreira - disse William, pensativo, poderia
us-la como garantia e levantar o dinheiro necessrio para armar um exrcito.
         - Ento por que no a toma de volta? - perguntou Waleran.
         O lorde sacudiu a cabea.
         - J tentei.
         - E Philip manobrou de modo a pass-lo para trs. Mas no h monges l
agora. Voc poderia mandar uma esquadra de homens para despejar os operrios.
         - E como impediria Philip de voltar, como da ltima vez?
         - Construa uma cerca alta em torno da pedreira e deixe uma guarda
permanente.
         Era possvel, pensou William, animado. E resolveria seu problema de um
golpe. Mas qual seria o motivo pelo qual o bispo sugeria aquilo? Sua me o
advertira para ter cuidado com aquele homem inescrupuloso. "A nica coisa que
voc precisa saber sobre Waleran Bigod", disse ela, " que tudo o que faz 
cuidadosamente calculado. Nada espontneo, nada descuidado, nada casual, nada
suprfluo. Acima de tudo, nada generoso." Mas Waleran odiava Philip, e tinha
jurado impedi-lo de construir a catedral. Era motivo suficiente.
         William olhou-o pensativamente. A carreira dele estava estagnada. Fora
nomeado bispo muito jovem, mas Kingsbridge era uma diocese insignificante e
pobre, e Waleran certamente tencionara transform-la num degrau para maiores
conquistas. No entanto, era o prior e no o bispo quem estava ganhando fortuna
e fama. Estava definhando  sombra de Philip tanto quanto William. Ambos
tinham motivo para querer destru-lo.
         O lorde decidiu, ainda uma vez, vencer a averso que sentia por Waleran
em benefcio de seus interesses de longo prazo.
         - Muito bem - disse. - Pode ser que funcione. Mas suponha que Philip se
queixe ao rei?
         - Voc dir que agiu assim em represlia ao mercado sem licena de
Philip - sugeriu Waleran.
         - Qualquer desculpa serve, desde que eu volte para a guerra com um
exrcito suficientemente grande.
         Os olhos de Waleran faiscaram de maldade.
         - Tenho a impresso de que Philip no poder construir a catedral se
tiver que comprar pedra a preos de mercado. E se ele parar a obra, Kingsbridge
entrar em declnio. Isso poder resolver todos os seus problemas, William.
         Hamleigh no ia mostrar gratido.
         - Voc realmente odeia Philip, no ?
         - Ele est no meu caminho - disse Waleran, mas por um momento
William vislumbrou toda a crueldade existente por baixo dos modos frios e
calculistas do bispo.
         O lorde voltou a tratar de assuntos prticos.
         - Deve haver uns trinta operrios l, alguns com mulheres e filhos - disse.
         - E da?
         - Pode haver derramamento de sangue.
         O bispo levantou as sobrancelhas negras.
         -  mesmo? Ento lhe darei a absolvio.

         Quando saram ainda estava escuro, a fim de chegarem ao raiar do dia.
Carregavam archotes acesos, o que deixava os cavalos nervosos.
         Alm de Walter e dos outros quatro cavaleiros, William levou seis
homens de armas.  retaguarda seguiam doze camponeses que cavariam a
trincheira e construiriam a cerca.
         William acreditava firmemente em planejamento militar cuidadoso -
motivo pelo qual ele e seus homens eram to teis ao rei Estvo -, mas naquela
oportunidade no tinha um plano de batalha. Era uma operao to fcil que
seria aviltante fazer preparativos como se fosse um combate de verdade. Uns
poucos operrios cortadores de pedra e suas famlias no poderiam apresentar
oposio muito forte; e, de qualquer maneira, William lembrava que tinham lhe
contado que o lder deles, o nome era Otto? Sim, Otto Cara Preta - se recusara a
lutar, no primeiro dia em que Tom Construtor levara seus homens  pedreira.
         Raiou um dia frio de dezembro, com trapos e frangalhos de neblina
parecendo pender das rvores, como roupa lavada de gente pobre. William no
gostava daquela poca do ano. Era frio de manh e escurecia cedo; alm disso o
castelo estava sempre mido. Era servida uma quantidade excessiva de carne e
peixe salgados. Sua me ficava irritadia, e os criados, mal-humorados. Seus
cavaleiros brigavam a toda hora. Aquele pequeno combate faria bem a eles. Seria
bom tambm para os Hamleighs: William j arranjara um emprstimo de
duzentas libras com os judeus de Londres dando a pedreira como garantia. Ao
fim daquele dia o seu futuro estaria assegurado.
         Quando estavam a uma milha da pedreira, William parou, escolheu dois
homens e mandou-os  frente, a p.
         - Pode ser que haja uma sentinela, ou cachorros - advertiu. - Tenham um
arco  mo, com uma flecha pronta para ser disparada.
         Um pouco depois a estrada fazia uma curva para a esquerda, e terminava
de repente junto a um morro mutilado. Era a pedreira. Tudo estava quieto. Ao
lado da estrada, os homens de William seguravam um garoto apavorado -
presumivelmente um aprendiz que fora mandado atuar como sentinela - e a seus
ps havia um co sangrando at a morte com uma flecha atravessada no pescoo.
         O destacamento atacante deteve os cavalos, sem fazer esforo algum para
guardar silncio. William tambm parou e examinou a cena. Grande parte do
morro desaparecera desde a ltima vez que o vira. O andaime subia at reas
inacessveis, e descia numa escavao profunda aberta ao p do morro. Blocos de
pedra de diferentes formas e tamanhos se empilhavam do lado da estrada, e havia
dois enormes carros de madeira, com imensas rodas, carregados de pedra pronta
para ser levada. Tudo estava coberto de p cinzento, inclusive arbustos e rvores.
Uma grande rea do bosque tinha sido derrubada - Meu bosque, pensou William,
furioso, e havia umas dez ou doze construes de madeira, algumas com
pequenas hortas e uma com um chiqueiro. Era uma pequena aldeia.
         A sentinela provavelmente estivera dormindo - e seu cachorro tambm.
         - Quantos homens h aqui, rapaz?
         O garoto podia estar assustado, mas era corajoso.
         - Voc  lorde William, no ?
         - Responda  pergunta, menino, ou lhe cortarei a cabea com esta espada.
         Ele ficou branco de medo, mas replicou, com uma voz de trmulo
desafio:
         - Est tentando roubar esta pedreira do prior Philip? O que ser que h
comigo?, pensou William. No consigo sequer assustar uma criana magrela,
imberbe? Por que as pessoas pensam que podem me desafiar?
         - Esta pedreira  minha! - disse, por entre os dentes.  Esquea o prior
Philip; ele no pode fazer nada por voc agora. Quantos homens?
         Em vez de responder, o garoto atirou a cabea para trs e comeou a
gritar:
         - Socorro! Cuidado! Ataque! Ataque!
         William levou a mo  espada, mas hesitou, olhando para as casas. Um
rosto assustado apareceu num portal. Decidiu esquecer o aprendiz. Pegou uma
tocha com um dos seus homens e esporeou o cavalo.
         Galopou na direo das casas, carregando a tocha bem alto, e ouvindo
seus homens atrs. A porta da cabana mais prxima se abriu e um homem de
olhos vermelhos e camisa de baixo apareceu. William atirou a tocha em chamas
por cima dele. Caiu no cho, s suas costas, e incendiou imediatamente a palha.
William soltou um grito de vitria e seguiu em frente.
         Avanou por entre o pequeno grupo de casas. s suas costas, seus
homens gritavam e atiravam as tochas nos telhados de palha.
         Todas as portas se abriram, e homens aterrorizados, mulheres e crianas
comearam a surgir, gritando e tentando se desviar dos cascos dos cavalos.
Ficaram rodando em pnico, enquanto as chamas progrediam. William parou o
cavalo na orla da confuso e ficou olhando por um momento. Os animais
domsticos, se soltaram, e um porco desesperado comeou a girar cegamente,
enquanto uma vaca ficava parada no meio de tudo, a cabea estpida balanando
de um lado para o outro, espantada. At mesmo os homens mais moos,
normalmente o grupo mais beligerante, estavam confusos e amedrontados. A
madrugada era de fato a melhor hora para aquele tipo de luta: havia qualquer
coisa quanto a estar meio nu que eliminava a agressividade das pessoas.
         Um homem moreno, de cabeleira negra, saiu de uma das cabanas, com as
botas caladas, e comeou a dar ordens. Devia ser Otto Cara Preta. William no
podia ouvir o que estava dizendo. Mas pelos gestos podia adivinhar que Otto
mandava que as mulheres pegassem as crianas e se escondessem na floresta;
porm, o que estaria falando com os homens? Um momento depois William
descobriu. Dois rapazes correram at um galpo separado dos outros e abriram a
porta, que estava trancada pelo lado de fora.
         Entraram e saram logo depois com os pesados martelos usados na
extrao de pedras. Otto mandou que outros homens fossem at a mesma
barraca, que obviamente era o depsito de ferramentas. Eles iam resistir.
         Trs anos antes Otto se recusara a lutar por Philip. O que o fizera mudar
de ideia?
         Fosse o que fosse, ia lhe custar a vida. William sorriu tristemente e
desembainhou a espada.
         Havia agora seis ou oito homens armados com marretas e machados de
cabo comprido. William esporeou o cavalo e avanou contra o grupo reunido em
torno do depsito de ferramentas. Os homens se dispersaram, fugindo do seu
caminho, mas ele brandiu a espada e conseguiu pegar um deles com um corte
profundo no brao. O homem largou o machado.
         William afastou-se galopando e depois virou o cavalo. Respirava fundo e
se sentia bem: no calor da batalha no havia medo, s excitao. Alguns de seus
homens tinham visto o que estava acontecendo e olharam para William, em
busca de orientao. Fez um sinal para que o seguissem, e carregou contra os
operrios de novo. Eles no podiam se esquivar de seis cavaleiros to facilmente
quanto de um. William pegou dois, e diversos outros caram sob as espadas dos
seus homens, embora ele estivesse se movendo depressa demais para ver se
estavam mortos ou apenas feridos.
         Ao se virar de novo, Otto estava reunindo as foras. Quando os
cavaleiros carregaram, os operrios se dispersaram por entre as cabanas em
chamas. Foi uma ttica inteligente, lastimou William. Os cavaleiros o seguiram,
mas era mais fcil para os operrios se esquivarem, estando separados, e os
cavalos se amedrontaram com as chamas. William perseguiu um homem de
cabelos grisalhos com uma marreta e deixou de acert-lo por muito pouco
diversas vezes, at que ele fugiu, metendo-se numa casa cujo telhado pegava
fogo.
         O lorde percebeu que o problema era Otto. No s dava coragem para
os seus homens como tambm os organizava. Assim que casse, os outros
desistiriam. Ele conteve o seu cavalo e procurou o homem moreno. Todas as
mulheres e crianas haviam desaparecido, exceto por duas crianas de cinco anos,
no meio do campo de batalha, de mos dadas e chorando. Os cavaleiros de
William galopavam por entre as casas, caando os operrios. Para sua surpresa,
viu que um dos seus homens de armas fora derrubado, e jazia no cho, gemendo
e chorando. Ficou atnito. No antecipara baixas do seu lado.
        Uma mulher desesperada entrava e saa das casas em chamas, gritando
qualquer coisa que William no conseguia distinguir. Estava procurando algum.
Finalmente viu as duas crianas e pegou uma com cada brao. Quando correu,
quase esbarrou em um dos cavaleiros de William, Gilbert de Rennes. Gilbert
levantou a espada para golpe-la.
        De repente, Otto pulou de trs de uma cabana e atirou um machado de
cabo comprido. O lanamento foi feito com extrema percia e a lmina do
machado atravessou a coxa de Gilbert, ficando presa na madeira da sela. A perna
cortada caiu no cho, e o cavaleiro gritou e caiu.
        Nunca mais lutaria.
        Gilbert era um cavaleiro valoroso. Cheio de dio, William esporeou seu
cavalo. A mulher com as crianas desaparecera. Otto lutava para arrancar a
lmina do seu machado da sela de Gilbert. Levantou a cabea e viu William se
aproximando. Se tivesse corrido naquele momento poderia ter escapado, mas
ficou s voltas com o machado. Conseguiu liber-lo quando o lorde estava quase
em cima dele. O cavaleiro levantou a espada. Otto sustentou sua posio e
levantou o machado. S no ltimo momento William percebeu que o machado
seria usado contra o cavalo, e Otto poderia estropiar o animal antes que ele
pudesse se aproximar o bastante para derrub-lo. Puxou as rdeas
desesperadamente, e o cavalo escorregou mas parou, empinando, e assim afastou
a cabea. O golpe pegou em cheio o pescoo do animal, com a lmina do
machado entrando fundo nos msculos poderosos. O sangue jorrou como de um
chafariz, e o cavalo caiu. William desmontou antes que o corpo gigantesco casse
no cho.
        Estava furioso. O cavalo de batalha custara uma fortuna e sobrevivera
com ele um ano de guerra civil; era de enlouquecer de raiva perd-lo para o
machado de um trabalhador de pedreira. Pulou por cima do seu corpo e
arremeteu furiosamente contra Otto.
        O mestre no era uma vtima fcil. Segurou o machado com ambas as
mos e usou seu cabo de carvalho muito duro para aparar os golpes da espada de
William. Este investiu cada vez com mais fora, obrigando-o a recuar. A despeito
da idade, Otto era um homem de msculos poderosos, e os golpes de Hamleigh
praticamente no tinham efeito sobre ele. William empunhou a espada com
ambas as mos e bateu mais forte. O cabo do machado aparou o golpe
novamente, mas agora a lmina ficou presa na madeira.
        Otto passou  ofensiva, com o lorde recuando. William estava quase em
cima dele. De repente, Hamleigh temeu pela prpria vida. Otto levantou o
machado. William esquivou-se, para trs. Seu calcanhar prendeu em alguma coisa,
e ele caiu sobre o corpo do cavalo. Mergulhou numa poa de sangue quente, mas
conseguiu continuar empunhando a espada. Otto parou em cima dele, com o
machado no ar. Quando a ferramenta desceu, William rolou freneticamente para
o lado. Sentiu o vento da lmina cortando o ar junto ao rosto; ento ps-se de p
de um pulo e investiu com a espada contra Otto.
         Um soldado teria se desviado para um lado antes de libertar a arma presa
no cho, sabendo que um homem  mais vulnervel quando acaba de desfechar
um golpe e errar; porm Otto no era soldado, s um tolo corajoso, e estava de
p com uma das mos no cabo do machado e o outro brao esticado, para se
equilibrar, tornando assim todo o seu corpo um alvo fcil. A estocada de William
foi s cegas, mas, mesmo assim, acertou o alvo. A ponta da espada perfurou o
trax de Otto. William empurrou com mais fora e a lmina deslizou por entre as
costelas do homem. O mestre largou o cabo do machado, e no seu rosto surgiu
uma expresso que William conhecia bem.
         Os olhos demonstravam surpresa, a boca abriu-se como se fosse gritar,
embora no sasse som algum, e sua pele ficou repentinamente acinzentada. Era a
expresso de um homem ferido mortalmente. O lorde empurrou mais a espada,
para evitar dvidas, e depois a puxou. Os olhos de Otto giraram para cima das
rbitas, uma mancha vermelha viva apareceu na sua camisa, alargando-se logo, e
ele caiu.
         William olhou em torno, examinando a cena. Viu dois operrios fugirem
correndo, presumivelmente por causa da morte do seu lder. Ao correrem,
gritaram para os outros.
         O combate transformou-se numa retirada. Os cavaleiros perseguiram os
fugitivos.
         Ele ficou parado, respirando com dificuldade. Os malditos tinham
resistido! Olhou para Gilbert. Jazia imvel, numa poa de sangue, os olhos
fechados. Ps a mo no seu peito: o corao no batia. Estava morto.
         Deu uma volta por entre as casas ainda em chamas, contando os corpos.
Trs operrios estavam mortos, mais uma mulher e uma criana que pareciam ter
sido pisoteados pelos cavalos. Trs dos homens de armas de William estavam
feridos, e quatro cavalos mortos ou estropiados.
         Quando completou a contagem, veio parar junto ao corpo do seu cavalo.
Gostara dele mais do que da maioria das pessoas. Aps uma batalha
normalmente se sentia animado, mas agora estava deprimido. Aquilo fora uma
carnificina. Era para ter sido uma operao simples, destinada a expulsar um
grupo de operrios desarmados de uma pedreira, mas se transformara numa
batalha campal, com grande nmero de baixas.
         Os cavaleiros perseguiram os fugitivos at o bosque, mas ali os cavalos
no seriam teis, de modo que voltaram. Walter foi ao lugar onde estava William
e viu Gilbert morto no cho. Fez o Sinal-da-Cruz e disse:
        - Gilbert matou mais homens que eu.
        - No h muitos iguais a ele, para que eu possa me dar ao luxo de perd-
lo numa disputa com um maldito monge  disse William amargamente. - Para
no falar dos cavalos.
        - Que resultado mais inesperado! - comentou Walter.  Essa gente lutou
com mais empenho que os rebeldes de Robert de Gloucester!
        William balanou a cabea, revoltado.
        - No sei - disse, olhando para os corpos. - Por que diabo eles pensavam
que estavam combatendo?
       Captulo 9
         Logo aps o amanhecer, quando a maioria dos irmos estava na cripta
para o servio das primas, havia apenas duas pessoas no dormitrio: Johnny Oito
Pence, varrendo o cho num canto do salo comprido, e Jonathan, brincando de
escola no outro.
         O prior Philip parou  porta e observou Jonathan. Estava quase com
cinco anos e era um garoto esperto e confiante, com uma gravidade infantil que
encantava a todos.
         Johnny ainda o vestia com uma miniatura de hbito de monge. Ele estava
fazendo de conta que era o mestre dos novios, dando aulas para uma fileira
imaginria de alunos.
         - Est errado, Godfrey! - disse severamente para o banco vazio. - No vai
ter jantar se no aprender os bervos! Ele queria dizer "verbos". Philip sorriu,
afetuoso.
         No poderia ter amado mais a um filho. Jonathan era a nica coisa na
vida que lhe dava uma alegria absolutamente pura.
         A criana corria por todo o priorado como um cachorrinho de estimao,
protegido e mimado por todos os monges. Para a maioria deles era mesmo como
um animalzinho, um brinquedo divertido; porm, para Philip e Johnny, era mais.
Este o amava como uma me; e aquele, embora procurasse ocult-lo, se sentia
como o pai do menino. Ele prprio tinha sido criado desde muito novo por um
abade bondoso, e lhe parecia a coisa mais natural do mundo desempenhar o
mesmo papel com Jonathan. No lhe fazia ccegas ou corria atrs dele do jeito
como faziam os outros monges, mas narrava-lhe histrias da Bblia, brincava de
contar e ficava de olho em Johnny.
         Entrou no dormitrio, sorriu para o monge e sentou-se no banco junto
com os alunos imaginrios.
         - Bom dia, padre - disse Jonathan, solene. Oito Pence o ensinara a ser
cuidadosamente polido.
         - Voc gostaria de ir para a escola? - perguntou Philip.
         - J sei latim - gabou-se Jonathan.
         -  mesmo?
         - . Oua: omnius pluvius buvius tuvius nomine patri amen.
         Philip tentou no rir.
         - Isso parece mas no  bem latim. O irmo Osmund, o mestre dos
novios, ensinar voc a falar latim direito.
         Jonathan ficou um pouco sem graa por descobrir que afinal no sabia
latim.
         - De qualquer modo - disse ele -, posso correr muito, muito depressa,
olhe! - E correu em alta velocidade de um lado para o outro do dormitrio.
        - Maravilhoso! - aplaudiu Philip. - Voc corre realmente muito depressa.
        - Sim, e posso correr ainda mais depressa...
        - Agora no - disse Philip. - Oua-me por um instante. vou me afastar
por algum tempo.
        - Volta amanh?
        - No, no voltarei to depressa.
        - Semana que vem?
        - Nem mesmo a semana que vem.
        Jonathan ficou atnito. No podia conceber um tempo alm de uma
semana. Outro mistrio ocorreu-lhe:
        - Mas por qu?
        - Tenho que falar com o rei.
        - Oh! - Isso tambm no tinha grande significado para Jonathan.
        - E gostaria que voc fosse para a escola enquanto eu estiver fora. Voc
gostaria de ir?
        - Sim!
        - Voc j tem quase cinco anos. Seu aniversrio  na semana que vem.
Veio para ns no primeiro dia do ano.
        - De onde foi que vim?
        - De Deus. Todas as coisas vm de Deus. Jonathan sabia que aquilo no
era resposta.
        - Mas onde eu estava antes?
        - No sei.
        43
        Jonathan franziu a testa. Era engraado ver aquilo numa carinha to
despreocupada.
        - Eu tinha que estar em algum lugar.
        Um dia, Philip sabia disso, algum teria que contar a Jonathan como os
bebs nasciam. Fez uma careta ante essa idia. Ainda bem que no era agora.
Mudou de assunto.
        - Enquanto eu estiver fora, quero que aprenda a contar at cem.
        - Sei contar - disse Jonathan: - um dois trs quatro cinco seis sete oito
nove dez onze doze treze catorze catorze cinco quinze seis dezessete oito.. .
        - Nada mal - disse Philip -, mas o irmo Osmund vai lhe ensinar mais.
Voc tem que se sentar quieto na sala de aula e fazer tudo que ele mandar.
        - Vou ser o melhor da escola! - disse Jonathan.
        - Veremos. - Philip examinou-o por mais algum tempo. Fascinava-o o
desenvolvimento da criana, o modo como aprendia as coisas e as fases que
atravessava. A atual insistncia em saber falar latim, contar ou correr depressa era
curiosa; seria um preldio necessrio ao verdadeiro aprendizado? Devia atender a
algum propsito nos planos de Deus. E um dia Jonathan se tornaria um homem.
Como seria ele? O pensamento fez Philip ficar impaciente para que Jonathan
crescesse. Mas isso levaria tanto tempo quanto a construo da catedral.
         - D-me um beijo, ento, e diga adeus - disse Philip.
         O menino levantou o rosto e Philip beijou a bochecha macia.
         - Adeus, padre.
         - Adeus, meu filho.
         Ele apertou afetuosamente o brao de Johnny Oito Pence e saiu.
         Os monges estavam saindo da cripta e se dirigindo para o refeitrio.
Philip foi no rumo contrrio, e entrou na cripta para rezar pelo sucesso da sua
misso.
         Ficara profundamente desgostoso quando lhe contaram o que acontecera
na pedreira. Cinco pessoas mortas, uma delas uma garotinha! Cinco integrantes
do seu rebanho, dizimados por William Hamleigh e seu bando de animais. Philip
conhecera todos: Harry de Shiring, que tinha sido o capataz de lorde Percy; Otto
Cara Preta, o homem de pele escura encarregado da explorao da pedreira desde
o primeiro dia; o bonito filho de Otto, Mark; a mulher de Mark, Alwen, que
tocava msicas nas sinetas dos carneiros  noite; e a pequena Norma, a neta de
sete anos de Otto e sua favorita. Gente trabalhadora, de bom corao e temente a
Deus, que tinha o direito de esperar paz e justia dos seus lordes. William os
trucidara como uma raposa mata galinhas. Aquilo com certeza fizera chorar os
anjos.
         Philip se mortificara por eles, e depois fora a Shiring exigir justia. O
xerife se recusara, sem a menor cerimnia, a fazer qualquer coisa. "Lorde William
tem um pequeno exrcito, como eu poderia prend-lo?", dissera o xerife Eustace.
"O rei precisa de cavaleiros para lutar contra Matilde. O que dir se eu encarcerar
um de seus melhores homens? Se eu acusar William de assassinato, ou serei
morto imediatamente pelos seus cavaleiros ou enforcado como traidor mais tarde
pelo rei Estvo."
         A primeira baixa numa guerra civil era a justia, constatou Philip.
         Em seguida o xerife lhe dissera que William apresentara uma reclamao
formal contra o mercado de Kingsbridge.
         Era ridculo, claro, que ele pudesse sair impune de um homicdio e ao
mesmo tempo acusasse Philip de no cumprir uma tecnicidade; mas o prior se
sentiu impotente.
         Era verdade que no possua permisso para ter um mercado, que estava
errado, falando num sentido estrito. Entretanto no podia permanecer em erro.
Era o prior de Kingsbridge. Tudo o que tinha era sua autoridade moral. William
podia convocar um exrcito de cavaleiros; o bispo Waleran podia usar os seus
contatos nas altas esferas; o xerife podia alegar a autoridade real; mas tudo o que
Philip podia fazer, porm, era dizer que isto era certo e aquilo errado; se fosse
abdicar dessa posio realmente ficaria desamparado. Por isso mandara
suspender o mercado.
         O que o deixou numa posio verdadeiramente desesperadora.
         As finanas do priorado tinham melhorado de modo impressionante,
graas, por um lado, aos controles mais estritos, e, por outro, s receitas sempre
maiores do mercado e da criao de carneiros; mas Philip sempre gastara cada
penny na construo, e se endividara pesadamente com os judeus de Winchester,
um emprstimo que ainda tinha que pagar. Agora, de um golpe s, perdera seu
suprimento de pedras grtis e a receita gerada pelo mercado, e seus voluntrios -
a maioria dos quais tinha um interesse maior pelo mercado - provavelmente
diminuiriam de nmero.
         Perguntou-se se a crise seria culpa sua. Fora confiante demais, ambicioso
demais? O xerife Eustace no fizera por menos. "Voc quer voar alto demais,
Philip", dissera, irritado. "Dirige um mosteiro pequeno e no passa de um
priorzinho, mas quer mandar no bispo, no conde e no xerife. Pois muito bem,
no pode. Somos poderosos demais paravoc. A nica coisa que pode fazer 
causar encrenca." Eustace era um homem feio, estrbico e com dentes
irregulares, e estava vestindo um manto amarelo sujo; porm, por menos
impressionante que fosse a aparncia dele, suas palavras tinham apunhalado
Philip no corao. O prior sentia-se dolorosamente convicto de que aquelas
cinco pessoas no teriam morrido se ele no houvesse feito de William Hamleigh
um inimigo. S que no podia ser outra coisa seno inimigo do lorde. Se
desistisse, mais pessoas ainda iriam sofrer, gente como o moleiro que ele matara e
a filha do servo que ele e seus cavaleiros haviam estuprado. Philip precisava
continuar sua luta.
         E isso significava que teria de ir ver o rei. Detestava a idia. Aproximara-
se do rei uma vez, em Winchester, quatro anos antes, e embora tivesse obtido o
que desejava, sentira-se horrivelmente mal na corte. Estvo era cercado por
pessoas astuciosas e sem escrpulos que disputavam sua ateno e lutavam por
seus favores, e Philip considerou-as desprezveis. O que tentavam era conseguir
uma riqueza e uma posio que no mereciam. No compreendia
verdadeiramente seu jogo: no seu mundo, o melhor modo de conseguir alguma
coisa era fazer por merecer, e no bajular o doador. Entretanto, agora no tinha
alternativa seno entrar naquele mundo e jogar aquele jogo.
         Somente o rei poderia conceder-lhe permisso para ter um mercado. S o
rei poderia salvar a catedral.
         Terminou as preces e deixou a cripta. O sol estava nascendo e havia um
leve tom de rosa nas paredes cinzentas de pedra da catedral em construo. Os
operrios, que trabalhavam do raiar ao pr-do-sol, estavam comeando, abrindo
seus galpes e amolando as ferramentas, ou misturando a primeira massa. A
perda da pedreira ainda no afetara a obra: sempre a haviam explorado mais
depressa do que poderiam usar as pedras, e agora tinham um estoque que duraria
muitos meses.
         Era hora de Philip partir. Todas as providncias haviam sido tomadas. O
rei estava em Lincoln. O prior teria um companheiro de viagem: Richard, o
irmo de Aliena.
         Aps combater por um ano como escudeiro, ele fora sagrado cavaleiro
pelo rei. Tinha ido para casa se reequipar e agora se reintegraria ao exrcito real.
         Aliena se sara estupendamente bem como comerciante de l. No vendia
mais para Philip, negociando direto com os compradores flamengos.
         Na verdade, naquele ano ela quisera comprar toda a produo do
priorado. Teria pago menos que os flamengos, mas o prior receberia o dinheiro
antes. Ele no aceitara sua oferta. O simples fato de haver feito tal proposta,
contudo, era uma boa medida do seu sucesso.
         Ela estava no estbulo com o irmo, foi o que Philip viu quando
atravessou o ptio. Uma multido havia se formado para dizer adeus aos
viajantes. Richard estava montado num cavalo de batalha castanho que devia ter
custado a Aliena vinte libras. Ele se transformara num bonito rapaz de ombros
largos, as feies regulares prejudicadas apenas por uma feia cicatriz na orelha
direita; o lobo fora cortado, sem dvida num acidente de esgrima. Estava
esplendidamente vestido de vermelho e verde, e equipado com nova espada,
lana, machado de batalha e adaga. Sua bagagem era carregada por um segundo
cavalo que puxava por uma correia. Com ele seguiam dois homens de armas,
montados em corcis, e um escudeiro, num cavalo robusto e de pernas curtas.
         Aliena desmanchava-se em lgrimas, embora Philip no pudesse dizer se
lamentava ver o irmo partir, se estava orgulhosa por v-lo to bonito ou se tinha
medo de que ele pudesse no voltar. Todas as trs coisas, talvez. Alguns aldees
haviam vindo para se despedir, inclusive a maioria dos rapazes e meninos. Sem
dvida Richard era o heri deles. Todos os monges estavam presentes tambm, a
fim de desejar a seu prior uma viagem em segurana.
         Os cavalarios trouxeram dois cavalos, um palafrm arriado para Philip e
um cavalinho baixo carregado com sua bagagem modesta - basicamente comida
para a viagem.
         Os operrios descansaram as ferramentas e se aproximaram, liderados
por tom e seu ruivo enteado, Jack.
         Philip abraou formalmente Remigius, seu subprior, despediu-se de
maneira calorosa de Milius e Cuthbert, e por fim montou. Estaria sentado
naquela sela dura por longo tempo, pensou, com tristeza. Da sua posio elevada
abenoou a todos. Os monges, trabalhadores e aldees acenaram e gritaram suas
despedidas enquanto ele e Richard saam lado a lado pelos portes do priorado.
         Desceram a rua estreita que atravessava a aldeia, acenando para as
pessoas que olhavam das portas de suas casas, e, transpondo ruidosamente a
ponte de madeira, pegaram a estrada que seguia por entre os campos. Um pouco
mais tarde, Philip olhou para trs, por cima do ombro, e viu o sol nascente
brilhando atravs do espao da janela na face leste semiconstruda da nova
catedral. Se falhasse em sua misso, a obra talvez nunca fosse terminada. Depois
de tudo por que passara para chegar quele ponto, no podia tolerar a idia de
derrota agora. Virou-se de novo e concentrou a ateno na estrada  frente.
         Lincoln era uma cidade que ficava em cima de uma elevao. Philip e
Richard aproximaram-se dela pelo sul, numa estrada antiga e movimentada
chamada Ermine Street.
         Mesmo de longe podiam ver, l em cima, as torres da catedral e as ameias
do castelo. Mas ainda se encontravam a trs ou quatro milhas de distncia,
quando, para assombro de Philip, chegaram a um porto da cidade. Os subrbios
devem ser imensos, pensou; e a populao deve atingir milhares de pessoas.
         No Natal a cidade fora tomada por Ranulf de Chester, o homem mais
poderoso no norte da Inglaterra, e parente de Matilde. O rei Estvo retomara a
cidade, mas as foras de Ranulf ainda estavam de posse do castelo. Ao se
aproximarem mais, Philip e Richard souberam que Lincoln estava na posio
peculiar de ter dois exrcitos rivais acampados dentro das muralhas. Philip no
simpatizara com Richard nas quatro semanas que haviam passado juntos. O
irmo de Aliena era um jovem revoltado, que odiava os Hamleighs e estava
decidido a se vingar; falava como se o prior sentisse do mesmo modo. Mas havia
uma diferena. Philip detestava os Hamleighs pelo que tinham feito a seus
vassalos: sem eles o mundo seria um lugar melhor. Richard s poderia fazer as
pazes consigo prprio quando tivesse derrotado os Hamleighs: seu motivo era
inteiramente egosta. O cavaleiro, fisicamente corajoso e sempre pronto para
lutar, era, sob outros aspectos, contudo, fraco. Confundia seus homens de armas,
tratando-os s vezes como seus iguais e em outras ocasies dando-lhes ordens
como se fossem criados comuns. Nas tavernas tentava impressionar pagando
cerveja para estranhos. Fingia saber o caminho, quando na realidade no tinha
certeza, e s vezes fazia o grupo se perder, porque era incapaz de admitir que
cometera um erro. Quando chegaram a Lincoln, Philip estava convencido de que
Aliena valia dez Richards.
         Passaram por um lago cheio de barcos; depois, ao p da colina, cruzaram
o rio que formava a fronteira sul da cidade propriamente dita. Lincoln, era bvio,
vivia de atividades relacionadas com o rio. Ao lado da ponte havia um mercado
de peixe.
         Atravessaram outro porto guardado por sentinelas. A partir desse
porto, deixaram para trs a vasta extenso dos subrbios e entraram na cidade
fervilhante. Uma rua estreita, apinhada de gente, subia a colina bem em frente a
eles. As casas, erguidas lado a lado em ambas as caladas, eram parcial ou
totalmente de pedra, sinal de considervel riqueza. A colina era to ngreme que a
maioria das casas tinha o andar principal vrios ps acima do nvel do solo num
lado e abaixo do outro. A rea situada na parte de baixo era, invariavelmente,
uma oficina de um arteso ou uma loja. Os nicos espaos abertos eram os
cemitrios perto das igrejas, e em cada um havia um mercado, onde se vendiam
cereais, aves, l, couro e outros. Philip e Richard, juntamente com a escolta deste,
tiveram que lutar para abrir caminho por entre a densa multido de moradores
comuns, homens de armas, animais e carroas. Philip percebeu, com assombro,
que havia pedras sob seus ps. A rua era toda pavimentada! Que fortuna deve
haver aqui, pensou, para calar as ruas com pedras, como se fosse um palcio ou
uma catedral. O piso ainda era um pouco escorregadio, por causa do lixo e do
estrume dos animais, mas mesmo assim era muito melhor que o rio de lama em
que se transformavam as ruas da maioria das cidades no inverno.
         Atingiram a crista da elevao e passaram por mais um porto. Entravam
agora na parte mais central da cidade e, de repente, a atmosfera se modificou por
completo: ficou mais silenciosa, e contudo tensa. Imediatamente  esquerda
ficava a entrada do castelo. A grande porta guarnecida de ferro na passagem em
arco estava trancada.
         Vultos obscuros moviam-se atrs das seteiras, e sentinelas de armadura
patrulhavam as fortificaes providas de ameias, o sol fraco rebrilhando nos
elmos polidos.
         Philip observou-os andando de um lado para o outro. No havia
conversa entre eles, nada de troas e risadas, ou de se debruar na balaustrada a
fim de assobiar para as garotas que passavam: estavam alerta, atentos e
cautelosos.
          direita de Philip, a no mais de um quarto de milha do porto do
castelo, ficava a fachada oeste da catedral, e Philip viu imediatamente que a
despeito de sua proximidade do castelo ela estava sendo usada como quartel-
general do rei. Uma linha de sentinelas barrava a estreita rua entre a casa do
cabido e a igreja. Alm das sentinelas, cavaleiros e homens de armas entravam e
saam pelas trs portas da catedral. O cemitrio era um acampamento militar,
com barracas, cozinhas e cavalos pastando. No havia prdios monsticos: a
Catedral de Lincoln no era administrada por monges, mas por padres
denominados cnegos, que moravam em casas comuns nas proximidades da
igreja.
         O espao entre a catedral e o castelo estava vazio, exceto por Philip e
seus companheiros. De repente o prior percebeu que estavam merecendo toda a
ateno dos guardas do lado do rei e das sentinelas nas ameias opostas. Ele se
encontrava numa terra de ningum entre os dois campos armados,
provavelmente o ponto mais perigoso em Lincoln. Olhando em torno, viu que
Richard e os outros tinham seguido em frente e apressou-se a alcan-los.
         As sentinelas do rei deixaram-nos entrar de imediato: Richard era bem
conhecido. Philip admirou a fachada oeste da catedral. Tinha um arco de entrada
enormemente alto e dois outros arcos auxiliares, um de cada lado, da metade da
altura do central mas mesmo assim imponentes. Parecia o porto do cu - o que
era mesmo, de certa forma. Decidiu no mesmo instante que queria arcos altos na
fachada oeste de sua catedral.
        Deixando os cavalos com o escudeiro, Philip e Richard atravessaram o
acampamento e entraram na igreja. Estava ainda mais apinhada do lado de dentro
do que de fora.
        Os corredores tinham sido transformados em estbulos, e centenas de
cavalos estavam amarrados nas colunas da arcada. Homens armados
aglomeravam-se na nave, e aqui e ali havia fogos acesos para preparao de
comida e acomodaes para dormir. Alguns falavam ingls, outros francs e uns
poucos flamengo, a lngua gutural dos mercadores de l de Flandres. De modo
geral, os cavaleiros estavam no interior da igreja e os homens de armas, do lado
de fora. Philip lamentou ver diversos homens jogando o jogo das nove pedras a
dinheiro, e ficou ainda mais perturbado com a aparncia de algumas mulheres,
vestidas muito sumariamente para o inverno e parecendo estar flertando com os
homens quase, pensou ele, como se fossem pecadoras, ou mesmo, santo Deus,
prostitutas.
        A fim de no olhar para elas, ergueu os olhos para o teto. Era de madeira
e lindamente pintado com tintas de cores vivas, mas representava um terrvel
risco de incndio, com toda aquela gente cozinhando na nave. Seguiu Richard
por entre a multido. Ele parecia  vontade ali, seguro e confiante,
cumprimentando bares e lordes e dando tapinhas nas costas de cavaleiros.
        A interseo e a extremidade leste estavam demarcadas com cordas. A
extremidade leste parecia ter sido reservada para os padres - Eu faria o mesmo,
pensou Philip -, e a interseo passara a ser o alojamento do rei.
        Havia outra linha de guardas atrs da corda, depois um grupo de
cortesos, e por fim um crculo mais fechado de condes, com Estvo ao centro,
sentado num trono de madeira. O rei envelhecera desde a ltima vez em que o
vira, em Winchester, h cinco anos. Havia agora rugas de ansiedade no seu rosto
bonito e fios brancos no cabelo alourado; alm disso, um ano de guerra fizera
com que emagrecesse. Parecia estar tendo uma discusso amvel com os condes,
discordando, mas sem raiva. Richard caminhou at a orla do crculo mais fechado
e fez uma larga reverncia cerimonial. O rei olhou-o e, reconhecendo-o, disse
numa voz retumbante:
        - Richard de Kingsbridge! Que bom t-lo de volta!
        - Muito obrigado, majestade - disse Richard.
        Philip colocou-se ao lado dele e fez uma reverncia igual.
        - Trouxe um monge como seu escudeiro? - disse Estvo, fazendo rir
todos os cortesos.
        - Este  o prior de Kingsbridge, majestade - disse Richard. Estvo o
fitou de novo, e Philip viu o brilho do reconhecimento nos seus olhos.
         - Claro, conheo o prior... Philip - disse, mas seu tom de voz no foi mais
to caloroso como quando cumprimentara Richard. - Veio combater por mim? -
Os cortesos riram mais uma vez.
         Philip ficou satisfeito com o fato de o rei ter se lembrado do seu nome.
         - Estou aqui porque a obra divina de reconstruo da Catedral de
Kingsbridge precisa da ajuda urgente de vossa majestade.
         - Tenho que saber de tudo a esse respeito - interrompeu Estvo
apressadamente. - Venha me ver amanh, quando teremos mais tempo. - com
isso ele se virou de novo para os condes e retomou a conversa, agora num tom
de voz mais baixo.
         Philip no falou com o rei Estvo no dia seguinte, nem no outro dia e
tampouco no que se seguiu.
         Na primeira noite ficou numa cervejaria, mas se sentiu oprimido com o
cheiro constante de carne assando e com a risada das mulheres da vida.
Infelizmente no havia um mosteiro na cidade. Normalmente o bispo lhe teria
oferecido acomodaes, mas o rei estava morando no palcio do bispo e todas as
casas em torno da catedral estavam superlotadas com membros da comitiva real.
Na segunda noite Philip saiu da cidade e se dirigiu para alm do subrbio de
Wigford, onde havia um mosteiro que mantinha um asilo para leprosos. Ali teve
po de massa grossa e cerveja aguada na ceia, um colcho duro no cho, silncio
do pr-do-sol at a meia-noite, cultos religiosos na madrugada e um desjejum de
mingau ralo sem sal, e se sentiu feliz.
         Philip ia  catedral todos os dias, de manh bem cedo, levando a preciosa
carta rgia que dava ao priorado o direito de explorar a pedreira. Dia aps dia o
rei no notava a sua presena. Enquanto os outros peticionrios conversavam
entre si, discutindo quem estava e quem no estava nas graas do rei, Philip se
mantinha alheado.
         Sabia por que o faziam esperar. Toda a Igreja estava tendo uma rixa com
o rei. Estvo no cumprira as promessas generosas que lhe haviam extrado no
incio do reinado. Fizera do prprio irmo, o astuto bispo Henry de Winchester,
um inimigo, por dar seu apoio a outro, para o cargo de arcebispo de Canterbury;
o que tambm desapontara Waleran Bigod, que queria subir agarrado  batina de
Henry. Mas o maior pecado de Estvo, aos olhos da Igreja, tinha sido prender o
bispo Roger de Salisbury e dois sobrinhos seus, que eram os bispos de Lincoln e
Ely, todos no mesmo dia, sob a acusao de estarem construindo castelos sem
licena. Um coro de reclamaes se fizera ouvir, partindo das catedrais e dos
mosteiros de todo o pas, contra aquele sacrilgio. Estvo ficara magoado.
Como homens de Deus, os bispos no precisavam de castelos, disse; e se os
construam, no podiam esperar ser tratados puramente como homens de Deus.
Era sincero, embora ingnuo.
         O rompimento fora remendado, mas Estvo no se mostrava mais
ansioso por ouvir as peties de religiosos, de modo que Philip teve que esperar.
Aproveitou a oportunidade para meditar. Era uma coisa para a qual tinha pouco
tempo, como prior, e de que sentia falta. Agora, de repente, no tinha nada para
fazer por horas a fio, e passava o tempo imerso em meditaes.
         Os outros cortesos foram deixando um espao  sua volta, tornando-o
bastante conspcuo, e devia ter sido cada vez mais difcil para Estvo ignor-lo.
Estava profundamente mergulhado na contemplao do sublime mistrio da
Santssima Trindade, na manh do seu stimo dia em Lincoln, quando percebeu
que havia algum bem  sua frente, olhando-o e falando com ele, e que essa
pessoa era o rei.
         - Est dormindo com os olhos abertos, homem? - dizia Estvo, com um
tom de voz entre irritado e divertido.
         - Desculpe, majestade, eu estava pensando - disse Philip, fazendo uma
reverncia tardia.
         - No faz mal. Quero suas roupas emprestadas.
         - O qu? - Philip ficou surpreso demais para se preocupar com as boas
maneiras.
         - Quero dar uma olhada no castelo, e se eu for vestido de monge eles no
atiraro flechas em mim. Venha; entre numa das capelas e tire o hbito.
         Philip estava s com uma camisa por baixo.
         - Mas, majestade, o que irei vestir?
         - Esqueci como vocs monges so recatados. - Estvo estalou os dedos
para um jovem cavaleiro. - Robert, empreste-me sua tnica, rpido.
         O cavaleiro, que estava conversando com uma garota, tirou a tnica com
um movimento rpido, deu-a ao rei com uma reverncia e fez um gesto vulgar
para a garota.
         Seus amigos riram e aplaudiram.
         O rei Estvo entregou a tnica a Philip.
         O prior meteu-se na pequenina capela de So Dunstan, pediu perdo ao
santo com uma prece rpida, depois tirou o hbito e vestiu a tnica escarlate e
curta do cavaleiro.
         Pareceu-lhe verdadeiramente muito estranho: usava roupas monsticas
desde os seis anos de idade, e no poderia ter se sentido mais esquisito nem se
tivesse se vestido de mulher. Saiu da capela e entregou o hbito a Estvo, que o
enfiou pela cabea rapidamente.
         - Venha comigo, se quiser - disse o rei, surpreendendo-o. - Poder me
falar a respeito da Catedral de Kingsbridge.
         Philip ficou atnito. Seu primeiro instinto foi recusar. Uma sentinela do
castelo poderia se ver tentada a dar-lhe uma flechada, j que no estaria protegido
pelo traje religioso. Mas estava lhe sendo oferecida uma oportunidade de ficar
inteiramente a ss com o rei, com tempo bastante para explicar as questes da
pedreira e do mercado. Talvez nunca mais tivesse uma chance como aquela.
         Estvo apanhou seu manto, que era prpura com uma guarnio de pele
branca na gola e na bainha.
         - Use isto - disse a Philip. - Voc atrair o fogo inimigo, desviando-o de
mim.
         Os outros cortesos ficaram quietos, observando, perguntando-se o que
aconteceria.
         O rei queria demonstrar algo, pensou Philip. Estava dizendo que o prior
no tinha nada que fazer ali, num campo armado, e no podia esperar que lhe
concedessem privilgios s custas de homens que arriscavam a vida pelo rei. No
era injusto. Entretanto, Philip sabia tambm que, se aceitasse esse ponto de vista,
podia muito bem voltar para casa e desistir de retomar a pedreira ou de reabrir o
mercado. Precisava aceitar o desafio.
         - Talvez seja vontade de Deus que eu morra para salvar a vida do rei -
disse, respirando fundo, e colocou o manto prpura.
         Houve um murmrio de surpresa na multido, e o prprio Estvo deu a
impresso de ter se espantado. Todos esperavam que Philip recuasse. Quase
imediatamente ele desejou que o tivesse feito. Mas agora j se comprometera.
         Estvo virou-se e caminhou na direo da porta norte. Philip o seguiu.
Diversos cortesos fizeram meno de acompanh-los, mas o rei os dispensou,
dizendo:
         - At mesmo um monge pode atrair a ateno, se for seguido por toda a
corte real. - Depois cobriu a cabea com o capuz do hbito de Philip e os dois
passaram para o cemitrio.
         O rico manto real atraiu olhares de curiosidade quando atravessaram o
acampamento: os homens presumiram que ele fosse um baro e ficaram
intrigados por no reconhec-lo.
         Os olhares fizeram-no sentir-se culpado, como se fosse um impostor.
Ningum olhou para Estvo.
         No foram diretamente para o porto principal do castelo. Seguiram por
um labirinto de vielas muito estreitas e foram sair ao lado da Igreja de St.-Paul-in-
the-Bail, em frente ao canto nordeste do castelo. As muralhas do castelo se
erguiam sobre vastas rampas de terra, e um fosso seco as cercava. Havia um
espao limpo de cinquenta jardas de largura entre a orla do fosso e as
construes mais prximas. Estvo pisou na grama e comeou a caminhar no
rumo oeste, estudando a muralha norte do castelo, permanecendo junto dos
fundos das casas na orla externa do espao limpo. O prior o acompanhou. O rei
o fez caminhar  sua esquerda, entre ele e o castelo. O espao aberto estava ali a
fim de dar aos arqueiros um bom campo de tiro para flechar quem se
aproximasse das muralhas, claro. O prior no tinha medo de morrer, mas temia
sentir dor, e o pensamento predominante na sua cabea era quanto doeria uma
flecha.
         - Com medo, Philip? - perguntou Estvo.
         - Apavorado - respondeu ele, com sinceridade; em seguida, o medo
tornando-o atrevido, acrescentou: - E voc?
         O rei riu da audcia dele.
         - Um pouco - admitiu.
         Philip se lembrou de que aquela era a sua chance de falar a respeito da
catedral. Mas no podia se concentrar, com sua vida correndo tanto perigo. Seus
olhos desviavam-se constantemente para o castelo, e ele esquadrinhava a
muralha, na expectativa de ver um homem manejando um arco.
         O castelo ocupava todo o canto sudoeste da parte central da cidade, e sua
muralha oeste fazia parte da muralha da cidade, de modo que, se algum
caminhasse o tempo todo em torno dele, teria que sair da cidade. Estvo levou
Philip a cruzar o porto oeste, e ento eles passaram para o subrbio chamado
Newland. Ali as casas pareciam choas de camponeses, feitas de taipa, com
grandes pomares, como era caracterstico numa aldeia. Um cortante vento frio
soprava da direo dos campos abertos alm das casas. Estvo virou para o sul,
ainda margeando o castelo. Apontou para uma portinha na muralha.
         - Foi por ali que Ranulf de Chester fugiu quando tomei a cidade,
presumo - disse.
         Philip estava menos assustado ali. Havia outras pessoas no caminho, e as
fortificaes daquele lado eram menos fortemente defendidas, pois os ocupantes
do castelo temiam um ataque vindo da cidade, no do campo. Philip respirou
fundo e perguntou, impulsivamente:
         - Se eu morrer, voc dar um mercado a Kingsbridge e far William
Hamleigh devolver a pedreira?
         Estvo no respondeu de imediato. Desceram a colina at o canto
sudoeste do castelo e olharam para cima, examinando a fortaleza. Da posio em
que estavam, parecia magnificamente inexpugnvel. Logo abaixo daquele canto
passaram por outro porto e entraram na parte baixa da cidade, seguindo agora
ao longo do lado sul do castelo.
         Philip sentiu-se em perigo de novo. No seria difcil para algum no
interior do castelo deduzir que os dois homens que faziam um circuito em torno
das muralhas deveriam estar numa expedio de reconhecimento, e, dessa forma,
eram alvos legtimos, sobretudo o de manto prpura. Para esquecer o medo,
resolveu estudar a fortaleza.
         Havia pequenos buracos na muralha, que serviam para escoar as latrinas,
e o lixo e a sujeira resultantes das lavagens simplesmente iam se amontoando e
ficavam ali at que apodrecessem. No era de admirar aquele fedor. Philip tentou
no respirar fundo, e os dois homens se apressaram.
         Havia outra torre menor no canto sudeste. Philip e Estvo j tinham
percorrido trs lados do quadriltero. O prior perguntou-se se o rei esquecera sua
pergunta. Sentia-se apreensivo, para repeti-la. Estvo podia achar que estava
sendo pressionado e se ofender.
         Chegaram  rua principal, que cortava o meio da cidade, e viraram de
novo, mas antes que Philip tivesse tempo de se sentir aliviado, passaram por
outro porto e entraram na parte mais central da cidade; momentos depois,
estavam na terra de ningum entre a catedral e o castelo. Para horror de Philip, o
rei se deteve ali.
         Ele parou para falar com o prior, colocando-se de tal modo que podia
examinar o castelo por cima do ombro de Philip. Suas costas vulnerveis,
cobertas de arminho e prpura, estavam expostas ao porto, que fervilhava de
sentinelas e arqueiros. O prior ficou imvel como uma esttua, esperando uma
flecha ou uma lana nas costas a qualquer momento. Comeou a suar, apesar do
vento frio.
         - Dei-lhe a pedreira h alguns anos, no foi? - disse o rei Estvo.
         - No exatamente - respondeu Philip, com os dentes rangendo. -
Ganhamos o direito de explorar a pedreira para a construo da catedral. Mas ela
foi entregue a Percy Hamleigh. Agora o filho de Percy, William, expulsou de l os
meus homens, matando cinco pessoas, inclusive uma mulher e uma criana e se
recusa a nos dar acesso.
         - Ele no devia fazer essas coisas, especialmente se quer que eu o faa
conde de Shiring - disse Estvo pensativamente. Philip animou-se. Mas um
momento depois o rei disse:  Diabos me levem se consigo ver um jeito de entrar
nesse castelo!
         - Por favor, faa William reabrir a pedreira! - pediu Philip. - Ele o est
desafiando e roubando de Deus.
         Estvo pareceu no ouvir.
         - No creio que eles tenham muitos homens a dentro disse ele, no
mesmo tom pensativo. - Suspeito que quase todos estejam na muralha, para uma
exibio de fora. O que disse sobre um mercado?
         Aquilo tudo era parte do teste, decidiu Philip; faz-lo ficar em campo
aberto, de costas para um bando de arqueiros. Enxugou a testa com o arminho
do punho do manto do rei.
         - Majestade, todos os domingos vem gente de toda parte para assistir ao
culto em Kingsbridge e para trabalhar, de graa, no canteiro de obra da catedral.
Quando comeamos, uns poucos homens empreendedores apareceram para
vender tortas de carne, vinho, chapus e facas para os voluntrios. Assim,
gradualmente se formou um mercado. E agora estou lhe pedindo para licenci-
lo.
         - Voc pagar pela licena?
        Um pagamento era normal, Philip sabia, mas tambm podia ser
dispensado, quando se tratava de uma organizao religiosa.
        - Sim, milorde, eu pagarei... a menos que seja sua vontade nos conceder a
licena sem pagamento, pela maior glria de Deus.
        Estvo o encarou diretamente pela primeira vez.
        - Voc  um homem corajoso, para ficar a, com o inimigo s costas, e
barganhar comigo.
        Philip o encarou com igual franqueza.
        - Se Deus decidir que minha vida deve acabar, nada poder me salvar -
disse, parecendo mais corajoso do que se sentia. - Mas se Deus quiser que eu viva
e construa a Catedral de Kingsbridge, nem dez mil arqueiros podero me abater.
        - Muito bem dito! - exclamou Estvo, e batendo com a mo no ombro
de Philip, virou-se na direo da catedral. Fraco, de to aliviado, o prior
caminhou ao lado dele, sentindo-se melhor a cada passo que o afastava mais do
castelo. Parecia ter passado no teste. Mas era importante conseguir uma
declarao direta do rei. A qualquer momento ele lhe escaparia no meio dos
cortesos novamente. Ao passarem pela linha de sentinelas, Philip reuniu toda a
coragem e disse:
        - Majestade, se escrever uma carta para o xerife de Shiring.
        Foi interrompido. Um dos condes aproximou-se correndo, parecendo
perturbado.
        - Robert de Gloucester se aproxima daqui, majestade  disse ele.
        - O qu? A que distncia?
        - Est perto. Um dia, no mximo...
        - Por que no fui alertado? Coloquei homens por toda parte!
        - Eles vieram pela via do fosso e saram da estrada para se aproximarem
atravs do campo.
        - Quem est com ele?
        - Todos os condes e cavaleiros que perderam suas terras nos ltimos dois
anos. Ranulf de Chester tambm o acompanha...
        - Claro! Co traioeiro...
        - Ele trouxe todos os seus cavaleiros de Chester, mais um bando de
galeses selvagens e gananciosos.
        - Quantos homens ao todo?
        - Cerca de mil.
        - Maldito! Cem a mais do que tenho.
        A essa altura diversos bares tinham se reunido em torno do rei.
        - Majestade - disse um deles -, se ele est se aproximando atravs do
campo, vai ter que atravessar o rio no vau...
        - Bem pensado, Edward! - disse Estvo. - Leve os seus homens para o
vau e veja se consegue det-lo. Precisar de arqueiros, tambm.
         - A que distncia eles esto daqui, algum sabe? - perguntou Edward.
         Foi o primeiro conde que trouxera a notcia quem respondeu.
         - Muito perto, segundo o mensageiro. Pode ser que cheguem ao vau
antes de voc.
         - Irei imediatamente - afirmou Edward.
         - Bom homem! - disse o rei Estvo. Cerrou o punho direito e deu um
soco na palma da mo esquerda. - Finalmente vou me encontrar com Robert de
Gloucester no campo de batalha. S quisera dispor de mais homens. Ainda
assim... uma vantagem de cem no  muito.
         Philip ouviu tudo aquilo em amargurado silncio. Tinha certeza de que
estivera quase conseguindo a concordncia de Estvo. Agora a cabea do rei
estava em outra coisa. O prior, contudo, no se sentia pronto para desistir. Ainda
vestia o manto do rei. Tirou-o de cima dos ombros e o levantou, dizendo:
         - Talvez devssemos voltar a ser o que somos, majestade.
         Estvo concordou distraidamente. Um corteso adiantou-se e ajudou-o
a tirar o hbito do monge. Philip entregou o manto real e disse:
         - Majestade, achei-o inclinado a conceder meu pedido.
         Estvo deu a impresso de ficar irritado por ser lembrado.
         Enfiou o manto e estava a ponto de falar quando uma nova voz foi
ouvida.
         - Majestade!
         Philip reconheceu a voz. Seu corao desfaleceu. Virou-se e deu com
William Hamleigh.
         - William, meu garoto! - exclamou o rei, no tom de voz cordial que usava
com seus guerreiros. - Chegou bem a tempo!
         O lorde fez uma reverncia.
         - Majestade - disse,  trouxe cinquenta cavaleiros e duzentos homens do
meu condado.
         As esperanas de Philip se desfizeram em p. Estvo ficou visivelmente
jubiloso.
         - Que homem bom voc ! - exclamou de maneira calorosa. - Isso nos d
vantagem sobre o inimigo! - Passou um brao pelos ombros de William e
caminhou com ele na direo da catedral.
         Philip ficou parado onde estava, olhando os dois se afastarem. Estivera
incrivelmente perto do sucesso, mas no fim o exrcito de William fora mais
importante que a justia, pensou, amargurado. O corteso que ajudara o rei a tirar
o hbito de Philip entregou-o de volta. Philip o apanhou; seguiu o rei e o seu
squito e todos entraram na catedral. O prior vestiu o hbito monstico. Estava
profundamente decepcionado. Olhou para os trs imensos portais em arco da
catedral. Tivera esperana de construir arcos como aqueles em Kingsbridge. Mas
Estvo ficara do lado de William Hamleigh. O rei se defrontara com um dilema
onde s havia duas alternativas: a justia do caso apresentado por Philip ou a
vantagem representada pelo exrcito de William. O prior falhara no seu teste.
        Restava-lhe apenas uma nica esperana: que o rei Estvo fosse
derrotado na batalha que se aproximava.

        O bispo rezou a missa na catedral quando o cu estava comeando a
mudar de preto para cinzento. A essa altura os cavalos j estavam selados, os
cavaleiros envergavam a cota de malha, os homens de armas tinham sido
alimentados, e uma medida de vinho forte fora servida a todos para dar coragem.
        William Hamleigh ajoelhou-se na nave com outros cavaleiros e condes,
enquanto os cavalos de batalha batiam os cascos e bufavam nos corredores, e foi
perdoado por antecedncia pela matana que realizaria mais tarde.
        O medo e a excitao deixaram-no um pouco aturdido. Se o rei
conquistasse uma vitria naquele dia, o nome de William estaria associado para
sempre a ela, pois diriam que ele trouxera os reforos que haviam desequilibrado
a balana.
        Se o rei perdesse... qualquer coisa poderia acontecer. Estremeceu sobre o
cho frio de pedra.
        O rei estava na frente, num manto branco de tecido leve, com uma vela
na mo. Quando a hstia foi elevada, a vela se partiu e a chama apagou. William
tremeu de medo: era um mau agouro. Um padre trouxe uma vela nova e levou
embora a quebrada. Estvo riu indiferentemente, mas a sensao do horror
sobrenatural permaneceu com William, que, ao olhar em torno, pde dizer que
os outros sentiam a mesma coisa.
        Aps o culto o rei vestiu sua armadura, ajudado por um valete. Tinha
uma cota de malha da altura do joelho feita de couro com anis de ferro
costurados. O casaco era aberto at a cintura na frente e atrs, para que pudesse
montar. O valete o apertou com fora no pescoo. Depois ele colocou um gorro
justo onde estava preso um capuz comprido de malha, cobrindo o cabelo
alourado e protegendo o pescoo. Por cima do gorro ps um elmo de ferro com
um protetor de nariz. Suas botas de couro tinham enfeites de malha e esporas
pontudas.
        Quando Estvo ps a armadura, os condes se reuniram  sua volta.
William seguiu o conselho da me e agiu como se j fosse um deles, abrindo
caminho por entre a multido para se juntar ao grupo em torno do rei. Aps
escutar por um momento, percebeu que estavam tentando persuadir o rei a bater
em retirada e deixar Lincoln com os rebeldes.
        - Voc tem mais territrio que Matilde; pode montar um exrcito maior -
disse um homem mais velho, que William reconheceu como lorde Hugh. - V
para o sul, consiga reforos, volte e lute com efetivo maior que o deles.
        Aps o augrio da vela partida, Hamleigh quase desejava bater em
retirada, ele mesmo; o rei porm, no tinha tempo para esse tipo de conversa.
         - Somos fortes o bastante para bat-los agora - disse animadamente. -
Onde est sua fibra? - Afivelou um cinto com uma espada de um lado e uma
adaga do outro, ambas com bainhas de madeira e couro.
         - Os exrcitos esto praticamente com a mesma fora disse um homem
alto, de cabelo grisalho e barba aparada rente:  o conde de Surrey. -  arriscado
demais.
         Aquele argumento era muito fraco para usar com Estvo, e William
sabia disso: o rei era um cavaleiro de verdade, nobre e audaz.
         - A mesma fora? - repetiu com escrnio. - Pois prefiro um combate
justo. - Calou as manoplas com malha na parte de trs dos dedos. O valete lhe
entregou um escudo comprido, de madeira coberta com couro. William prendeu
o tirante do escudo no pescoo e segurou-o com a mo esquerda.
         - Temos pouco a perder, nos retirando neste ponto - insistiu Hugh. - No
estamos sequer de posse do castelo.
         - Eu perderia a chance de me encontrar com Robert de Gloucester no
campo de batalha - disse Estvo. - H dois anos ele me evita. Agora que tenho
uma oportunidade para acabar com o traidor de uma vez por todas, no vou
retrair s porque temos efetivos praticamente iguais!
         Um cavalario trouxe o seu cavalo, j arreado. Quando Estvo estava
prestes a montar, houve uma movimentao na porta da fachada oeste da
catedral, e um cavaleiro avanou correndo pela nave, coberto de lama e sangue.
William teve uma premonio de que trazia uma m notcia. Quando fez uma
reverncia para o rei, reconheceu-o como sendo um dos homens de Edward, que
fora mandado para defender o vau.
         - Chegamos tarde demais, majestade - disse ele, ofegante. - O inimigo
atravessou o rio.
         Era outro mau sinal. William de repente sentiu frio. Agora no havia
seno campo aberto entre o inimigo e Lincoln.
         Estvo tambm pareceu abatido por um momento, mas recuperou a
compostura rapidamente.
         - No faz mal! - disse. - Ns os encontraremos mais cedo! - E montou
seu cavalo de batalha.
         O rei tinha um machado de guerra amarrado na sela. O valete entregou-
lhe uma lana de madeira com uma ponta de ferro brilhante, completando seu
armamento. Estvo estalou a lngua, e o cavalo, obediente, deslocou-se para a
frente.
          medida que ia progredindo pela nave, os condes, bares e cavaleiros
montaram e seguiram  sua retaguarda, e assim todos deixaram a catedral em
procisso. No lado de fora, os homens de armas se incorporaram. Aquela era a
hora em que os homens comeavam a sentir medo e a procurar uma chance para
fugir; porm, seu ritmo digno e a atmosfera quase cerimonial, com os habitantes
da cidade observando, tornava muito difcil a fuga para os fracos de corao.
         Seu efetivo foi aumentado por uma centena ou mais de habitantes da
cidade, padeiros gordos, teceles mopes e cervejeiros rubicundos, mal armados e
montando cavalinhos de perna curta ou animais bem mansos. A presena
daquela gente era um sinal da impopularidade de Ranulf.
         O exrcito no poderia passar pelo castelo, pois os homens ficariam
expostos aos tiros dos arqueiros, de modo que deixaram a cidade pelo porto
norte, que era chamado de Arco Newport, e viraram para oeste. Era ali que a
batalha seria travada.
         William estudou o terreno com um olhar penetrante. Embora a colina do
lado sul da cidade mergulhasse subitamente no rio, a oeste a elevao era suave,
at se confundir com a plancie. Viu imeditamente que Estvo escolhera a
posio correta para defender a cidade, pois fosse qual fosse o modo como o
inimigo se aproximasse, estaria sempre num plano inferior ao do exrcito do rei.
         Quando Estvo estava a um quarto de milha de distncia da cidade, dois
batedores subiram a elevao, a galope. Localizaram o rei e foram diretamente at
ele. William juntou-se ao grupo que queria ouvir seu relatrio.
         - O inimigo est se aproximando depressa, majestade  disse um dos
batedores.
         William dirigiu o olhar para a plancie. Sem dvida, podia ver uma massa
negra a distncia, deslocando-se lentamente na direo onde eles se encontravam:
o inimigo.
         Sentiu um calafrio de medo. Sacudiu-se, mas o medo persistiu.
Desapareceria quando a batalha tivesse incio.
         - Qual  o dispositivo deles? - perguntou o rei Estvo.
         - Ranulf e os cavaleiros de Chester formam o centro, majestade -
comeou o batedor. - Esto a p.
         William perguntou-se como o batedor teria sabido daquilo. Devia ter
entrado no campo inimigo e ouvido as ordens de combate serem dadas. Exigia
muita coragem e frieza.
         - Ranulf no centro? Como se ele fosse o lder, e no Robert?
         - Robert de Gloucester est no seu flanco esquerdo, com um exrcito de
homens que se autodenominam os Deserdados - prosseguiu o batedor. William
sabia por que usavam aquele nome: todos tinham perdido suas terras desde que a
guerra civil comeara.
         - Robert ento deu a Ranulf o comando da operao  disse Estvo
pensativamente. - Uma pena. Conheo bem Robert - praticamente fui criado
com ele -, e poderia adivinhar sua ttica. Ranulf  um estranho para mim. No
faz mal. Quem est na direita?
         - Os galeses, majestade.
         - Arqueiros, suponho. Os homens de Gales do Sul tm boa reputao
como arqueiros.
         - No so esses - contraps o batedor. - No caso  uma multido de
loucos furiosos, de rosto pintado, cantando canes brbaras e armados de
martelos e porretes. Muito poucos tm cavalos.
         - Devem ser de Gales do Norte - ponderou Estvo.  Acredito que
Ranulf lhes tenha prometido o fruto da pilhagem. Que Deus ajude Lincoln se
conseguirem entrar na cidade. Mas no entraro! Qual  o seu nome, batedor?
         - Roger, chamado de Sem-Terra - respondeu o homem.
         - Sem-Terra? Voc ter dez acres por esse trabalho.
         O homem ficou entusiasmado.
         - Muito obrigado, majestade!
         - Agora... - Estvo virou-se e olhou para os seus condes. Estava prestes
a tomar decises. William ficou tenso, perguntando-se qual seria o papel que o rei
lhe designaria.  Onde est o meu lorde Alan da Bretanha?
         Alan fez seu cavalo adiantar-se. Ele liderava uma fora de mercenrios
bretes, homens sem razes, que combatiam por dinheiro e cuja nica lealdade
era para com eles prprios.
         - Terei voc e os seus bravos bretes na linha de frente,  minha esquerda
- disse-lhe Estvo.
         William percebeu a sabedoria daquela ordem: mercenrios bretes contra
aventureiros galeses, indignos de confiana versus indisciplinados.
         - William de Ypres! - exclamou Estvo.
         - Majestade... - Um homem moreno, num cavalo de batalha negro,
levantou a lana. Aquele William era o lder de outra fora de mercenrios,
homens flamengos, pouco mais confiveis que os bretes, segundo o que se
dizia.
         - Voc tambm ir  minha esquerda - disse Estevo,  mas  retaguarda
dos bretes de Alan.
         Os dois lderes mercenrios fizeram uma volta e retornaram para junto
dos seus homens, a fim de organiz-los. William perguntou-se onde seria
colocado. No tinha a menor vontade de estar na linha de frente. J fizera
bastante para se distinguir, trazendo seu exrcito. Uma posio segura e tranquila
na retaguarda seria bem-vinda.
         - Meus lordes de Worcester, Surrey, Northampton, York e Hertford, com
seus cavaleiros, formaro o meu flanco direito.
         Uma vez mais William reconheceu o bom senso das disposies de
Estvo. Os condes e seus cavaleiros, a maioria a cavalo, enfrentariam Robert de
Gloucester e os nobres "deserdados" que o apoiavam, que, na maioria, estariam
montados tambm.
         Entretanto, William ficou desapontado por no ter sido includo no
grupo dos condes. Teria o rei se esquecido dele?
         - Ficarei no centro, desmontado, com soldados a p - disse Estvo.
         Pela primeira vez William desaprovou uma deciso sua. Sempre era
melhor ficar montado o maior tempo possvel. Mas Ranulf,  frente do exrcito
adversrio, estava a p, segundo as informaes, e o esprito cavalheiresco de
Estvo o compelia a enfrentar o inimigo em igualdade de condies.
         - Comigo no centro terei William de Shiring e seus homens - disse o rei.
         William no sabia se ficava emocionado ou apavorado. Era uma grande
honra ser escolhido para ficar ao lado do rei - sua me teria se sentido gratificada,
mas essa escolha o colocava na mais perigosa das posies. Pior ainda, estaria a
p. O que significava tambm que o rei poderia v-lo e julgar seu desempenho.
Teria que aparentar no ter medo e se antecipar, levando o combate ao inimigo,
em vez de se manter fora de problemas e combater s quando se visse forado,
como era sua ttica favorita.
         - Os leais cidados de Lincoln comporo a retaguarda  disse Estvo, no
que era uma mistura de compaixo e bom senso militar. Os cidados no seriam
de muita utilidade em parte alguma, mas na retaguarda poderiam causar menos
prejuzo e sofreriam menos baixas.
         William levantou o estandarte do conde de Shiring. Tratava-se de outra
idia de sua me. No sentido estrito, ele no tinha direito ao estandarte, porque
no era o conde; porm, os homens que o acompanhavam estavam acostumados
a seguir o estandarte de Shiring - ou pelo menos era o que diria, se houvesse
comentrios. E, ao final do dia, se a batalha fosse bem-sucedida, ele poderia ser
conde.
         Seus homens reuniram-se em torno dele. Walter ao seu lado, como
sempre, uma presena forte e tranquilizadora. Da mesma forma Gervase Feio,
Hugh Machado e Miles Dados.
         Gilbert, que morrera na pedreira, tinha sido substitudo por Guillaume de
St. Clair, um jovem de ar petulante e carter perverso.
         Olhando  sua volta, William ficou furioso ao ver Richard de Kingsbridge
usando uma reluzente armadura nova e montado num esplndido cavalo de
batalha. Estava com o conde de Surrey. No trouxera um exrcito para o rei,
como William, mas impressionava - rosto jovem, vigoroso, bravo, e se fizesse
grandes coisas naquele dia poderia ganhar os favores reais. As batalhas eram
imprevisveis, assim como os monarcas.
         Por outro lado, talvez Richard viesse a perder a vida. Com um pouco de
sorte, era o que aconteceria. William desejou a morte do irmo de Aliena mais do
que jamais desejara uma mulher.
         Olhou para oeste. O inimigo estava mais prximo.

        Philip estava no telhado da catedral e podia ver Lincoln como num mapa.
A cidade velha cercava a catedral no topo da colina. Tinha ruas retas, jardins e
pomares bem tratados e o castelo no canto sudoeste. A parte nova, barulhenta e
superpovoada, ocupava a parte mais ngreme ao sul, entre a cidade velha e o rio
Witham. Aquela regio normalmente fervilhava de atividade comercial, mas
naquele dia estava coberta por um silncio temeroso, como um pano morturio,
e as pessoas tinham ido para cima dos telhados a fim de assistir  batalha. O rio
vinha do leste, corria ao longo do sop da elevao, e depois se alargava num
grande porto natural chamado Brayfield Pool, cercado de atracadouros e cheio de
navios e barcos. Um canal chamado Fosdyke corria na direo oeste a partir de
Brayfield Pool at o rio Trent, segundo o que haviam dito a Philip. Ali de cima,
Philip maravilhou-se ao constatar como seguia reto por milhas e milhas. Dizia-se
que fora construdo nos tempos antigos.
        O canal formava o limite do campo de batalha. Philip viu o exrcito do
rei Estvo marchar para fora da cidade, uma multido esfarrapada, e lentamente
se organizar em trs colunas sobre a colina. O prior sabia que Estvo colocara
os condes  sua direita porque eram os mais coloridos, com suas tnicas
vermelhas e amarelas e seus estandartes vistosos. Eram tambm os mais ativos,
indo e vindo em seus cavalos, dando ordens, consultando uns e outros e fazendo
planos. O grupo  esquerda do rei, na parte da colina que descia at o canal,
vestia-se de cinza e marrom, tinha menos cavalos e se agitava menos,
economizando energia - deviam ser os mercenrios.
        Alm do exrcito de Estvo, onde a linha do canal se tornava indistinta
e se confundia com a vegetao da margem, o exrcito rebelde cobria os campos
como um enxame de abelhas. A princpio parecia estar parado; porm, quando se
olhava de novo aps algum tempo, via-se que tinha se aproximado mais; agora,
prestando bastante ateno, j dava para distinguir o movimento. Gostaria de
saber seu efetivo. Todas as indicaes eram de que os dois lados estavam bem
equilibrados.
        No havia nada que Philip pudesse fazer para influenciar o resultado -
uma situao que detestava. Tentou acalmar o esprito e ser fatalista. Se Deus
quisesse uma nova catedral em Kingsbridge, faria com que Robert de Gloucester
derrotasse o rei Estvo hoje, de modo que Philip pudesse pedir  vitoriosa
Matilde para que o reintegrasse na posse da pedreira e o deixasse reabrir o
mercado. E se Estvo viesse a derrotar Robert, Philip teria que aceitar a vontade
de Deus, desistir dos seus planos ambiciosos e deixar Kingsbridge mais uma vez
mergulhar na sua sonolenta obscuridade.
        Por mais que se esforasse, no conseguia pensar desse jeito. Queria que
Robert vencesse.
        Um vento forte soprou sobre as torres da catedral e ameaou derrubar os
espectadores mais frgeis de cima das folhas de chumbo do telhado e atir-los no
cemitrio ali embaixo. O vento era cortantemente frio. Philip estremeceu e se
enrolou com mais fora na capa.
       Os dois exrcitos estavam agora a uma milha de distncia.

         O exrcito rebelde parou quando estava a uma milha da linha de frente
do rei. Era uma verdadeira tortura ser capaz de ver a massa do exrcito deles,
mas no conseguir distinguir os detalhes. William queria saber quo bem armados
estavam, se se mostravam determinados e agressivos ou cansados e relutantes, e
at mesmo qual seria sua altura. Continuaram a avanar lentamente, enquanto os
que se encontravam  retaguarda, motivados pela mesma ansiedade que William
estava sentindo, pressionavam para a frente a fim de ver o inimigo.
         No exrcito de Estvo, os condes e seus cavaleiros alinharam-se nos
cavalos, com as lanas em posio de combate, como se estivessem num torneio,
prontos a dar incio  justa. Relutantemente, William mandou todos os cavalos do
seu contingente para a retaguarda. Disse aos escudeiros que no voltassem 
cidade com os animais, mas sim que os segurassem mantendo-os disponveis
para o caso de serem necessrios - para fugir, foi o que pensou, embora no
tivesse falado. Quando se perdia uma batalha, era melhor fugir do que morrer.
         Houve uma calmaria, quando teve a impresso de que o combate jamais
comearia. O vento cedeu e os cavalos se acalmaram, embora os homens no. O
rei Estvo tirou o elmo e coou a cabea. William ficou desassossegado.
Combater no era problema, mas pensar no combate o deixava nauseado.
         Ento, sem nenhum motivo aparente, a atmosfera tornou-se tensa de
novo. Um grito de batalha subiu aos cus. Todos os cavalos de repente ficaram
irritadios. Um grito de encorajamento teve incio, quase que instantaneamente
abafado pelo tropel dos cascos. A batalha comeava. William sentiu o cheiro
azedo e suado do medo.
         Olhou em torno de si, desesperado, tentando descobrir o que estava
acontecendo, mas tudo era uma grande confuso e, estando de p, s conseguia
enxergar o que o cercava mais de perto. Os condes  sua direita pareciam ter
iniciado a batalha, carregando contra o inimigo. Presumivelmente, as foras que
se antepunham a eles, o exrcito de nobres deserdados do conde Robert, reagiam
do mesmo modo, atacando em formao. Quase que ao mesmo tempo ouviu um
grito  esquerda; virou-se e viu os mercenrios bretes que estavam montados
esporearem os cavalos. Com isso, um horrendo som ergueu-se da seo
correspondente do exrcito inimigo - a horda galesa, ao que parecia. No deu
para ver quem levou vantagem.
         William perdera Richard de vista.
         Dzias de flechas, como um bando de pssaros, vieram de trs das linhas
inimigas e comearam a cair em torno dele. O lorde segurou o escudo acima da
cabea. Odiava flechas - matavam aleatoriamente.
         O rei Estvo urrou o seu grito de guerra e investiu. William
desembainhou a espada e precipitou-se para a frente, gritando para que seus
homens o seguissem. Entretanto, os cavaleiros tinham se aberto em leque
quando partiram para o ataque, colocando-se entre ele e o inimigo.
         Da sua direita veio o barulho ensurdecedor de ferro batendo em ferro, e
o ar se encheu com um cheiro metlico que ele conhecia muito bem. Os condes e
os Deserdados tinham entrado na batalha. Ele s conseguia ver homens e cavalos
colidindo, girando, investindo, caindo. O relinchar dos animais era indistinguvel
dos gritos de guerra dos homens, e em algum lugar, em meio a todo aquele
barulho, William ouviu os gritos pavorosos, de congelar os ossos, dos homens
feridos que agonizavam. Esperava que Richard fosse um dos que estavam
gritando.
         Olhou para a esquerda e ficou horrorizado ao ver que os bretes
recuavam ante os porretes e os machados dos selvagens galeses; estes, tomados
de fria cega, gritavam, berravam e se atropelavam na nsia de atacar o inimigo.
Talvez estivessem sfregos para pilhar a rica cidade. Os bretes, sem nada mais
que a perspectiva de outra semana de pagamento para estimul-los, lutavam
defensivamente, cedendo terreno. William ficou enojado.
         Sentiu-se frustrado por no ter desferido ainda um nico golpe. Estava
cercado pelos seus cavaleiros, e mais adiante se encontravam os cavalos dos
condes e dos bretes.
         Adiantou-se, colocando-se ligeiramente  frente e ao lado do rei. Havia
luta por toda parte: cavalos tombados, homens brigando corpo a corpo com a
ferocidade de lees, o retinir ensurdecedor das espadas e o cheiro enjoativo de
sangue; William e o rei Estvo, porm, estavam naquele momento presos numa
zona morta.
         Philip podia ver tudo, mas no entendia nada. No tinha ideia do que
estava acontecendo. Era tudo uma confuso: lminas faiscando, cavalos
investindo, estandartes voando e caindo, e o barulho da batalha, carregado pelo
vento, abafado pela distncia. Era enlouquecedoramente frustrante. Alguns
homens caam e morriam, outros venciam e continuavam lutando, mas ele no
podia dizer quem estava ganhando e quem estava perdendo.

        - O que  que est acontecendo? - perguntou-lhe um padre a seu lado,
com uma capa de pele.
        - No sei dizer - respondeu Philip, sacudindo a cabea.
        Entretanto, no prprio momento em que falava ele conseguiu discernir
um movimento.  esquerda do campo de batalha, alguns homens desciam
correndo a colina na direo do canal. Tratava-se de mercenrios vestidos com
roupas pardacentas e, pelo que Philip podia dizer, eram os homens do rei que
fugiam e os da tribo galesa de rosto pintado que os perseguiam. Os gritos
vitoriosos dos galeses podiam ser ouvidos dali de cima. Philip se encheu de
esperanas: os rebeldes estavam vencendo!
       Houve ento uma transformao no outro lado.  direita, onde os
homens montados estavam engajados, o exrcito do rei parecia recuar. O
movimento a princpio foi insignificante, depois firme e por fim rpido; e
enquanto Philip olhava, a retirada transformou-se numa debandada, e inmeros
homens do rei viraram o cavalo e comearam a fugir do campo de batalha.
       Philip ficou exultante: aquela devia ser a vontade de Deus!

         Poderia estar terminando to rapidamente? Os rebeldes avanavam, mas
o centro ainda se mantinha firme. Os homens  volta do rei Estvo lutavam
mais impetuosamente que os dos lados. Seriam capazes de deter o fluxo? Talvez
Estvo e Robert de Gloucester lutassem um com o outro: o combate entre dois
lderes s vezes podia resolver a questo independentemente do que estivesse
acontecendo no resto do campo de batalha. Ainda no terminara.
         A mar virou com horrvel velocidade. Num momento os dois exrcitos
estavam em igualdade de condies, e no momento seguinte os homens do rei
recuavam depressa.
         William sentiu-se profundamente desalentado.  sua esquerda, os
mercenrios bretes desciam correndo a colina, perseguidos at o canal pelos
galeses; e,  direita, os condes, com seus cavalos de batalha, viravam de costas e
tentavam fugir na direo de Lincoln. S o centro sustentava sua posio: o rei
Estvo estava onde a luta era mais renhida, dando golpes de espada a torto e a
direito, com os homens de Shiring  sua volta como uma alcatia. Mas a situao
era instvel. Se os flancos continuassem a se retrair, o rei terminaria cercado.
William queria que Estvo recuasse. Mas o rei era mais corajoso que sbio, e
continuou lutando.
         O lorde sentiu que toda a batalha dava uma guinada para a esquerda.
Olhando  sua volta, viu que os mercenrios flamengos vinham de trs e caam
sobre os galeses, que foram forados a parar de perseguir os bretes na encosta
da colina para se defenderem. Por um momento houve uma tremenda confuso.
Em seguida, os homens de Ranulf de Chester, no meio da linha de frente do
inimigo, atacaram os flamengos, que assim se viram espremidos entre os homens
de Chester e os galeses.
         Ao ver a incurso inimiga, o rei Estvo instou a seus homens para que
pressionassem mais frontalmente. William achou que Estvo tinha cometido um
erro. Se as foras do rei pudessem estreitar contato com os homens de Ranulf,
seria este quem se veria encurralado entre dois lados.
         Um dos cavaleiros de William caiu na frente dele, que subitamente se viu
no meio do combate.
         Um nortista musculoso, com sangue na espada, investiu contra ele. O
lorde aparou o golpe facilmente: estava descansado, e seu antagonista, pelo
contrrio, j bastante fatigado. William procurou atingir a cara do homem, errou,
e teve que aparar outro golpe. Ento levantou a espada bem alto, abrindo a
guarda deliberadamente; quando o outro adiantou-se com outra estocada,
William esquivou-se e, segurando a espada com as duas mos, acertou o ombro.
O golpe partiu-lhe a armadura, quebrando a clavcula, e ele caiu.
         O lorde desfrutou um momento de jbilo. Seu medo desaparecera.
         - Venham, seus cachorros! - trovejou.
         Dois outros homens tomaram o lugar do cavaleiro cado e atacaram
William simultaneamente. Ele os manteve afastados mas foi forado a ceder
terreno.
         Houve um movimento maior  direita, e um dos seus oponentes teve que
se virar e se defender de um homem de rosto vermelho armado com uma
machadinha, e que parecia um aougueiro enlouquecido. Isso deixou apenas um
antagonista para Hamleigh. Ele sorriu selvagemente e pressionou. Seu oponente
entrou em pnico e arremeteu desvairado contra a cabea de William. Este
desviou e acertou o homem na coxa, logo abaixo da franja da sua jaqueta curta de
malha. A perna vergou e o homem caiu.
         Uma vez mais William no tinha com quem lutar. Ficou imvel, ofegante.
Por um momento pensara que o exrcito do rei seria destroado, mas suas fileiras
tinham se reorganizado, e agora nenhum dos dois lados parecia ter vantagem.
Olhou para o lado direito, perguntando-se o que teria destrudo um dos seus dois
adversrios. Para seu assombro, viu que os habitantes de Lincoln apresentavam
uma resistncia ferrenha ao inimigo. Talvez fosse porque estivessem defendendo
as prprias casas. Mas quem os organizara, depois que os condes naquele flanco
tinham batido em retirada? A pergunta foi prontamente respondida: para seu
espanto, viu Richard de Kingsbridge, em seu cavalo de batalha, insistindo que os
moradores de Lincoln persistissem. O corao de William desfaleceu. Se o rei
visse sua bravura, poderia pr a perder todo o trabalho de Hamleigh. Deu uma
olhada em Estvo. Justo naquele instante o rei surpreendeu o olhar de Richard e
acenou, encorajando-o. William deixou escapar uma praga de ressentimento.
         A presso dos habitantes de Lincoln aliviou a situao do rei, mas Apenas
por um momento.  esquerda, os homens de Ranulf tinham desbaratado os
mercenrios flamengos, e agora Ranulf se voltou contra a posio central das
foras defensivas. Ao mesmo tempo, os chamados Deserdados investiram contra
Richard e os habitantes de Lincoln, e o combate tornou-se furioso.
         William foi atacado por um homem imenso armado com um machado de
guerra. Esquivou-se, desesperado, receando pela prpria vida. A cada golpe ele
pulava para trs, e constatava, apavorado, que o grosso do exrcito do rei estava
recuando no mesmo ritmo.  sua esquerda, os galeses retomaram ao topo da
colina e, inacreditavelmente, comearam a jogar pedras. Era ridculo mas efetivo,
pois agora William tinha que, ao mesmo tempo, ficar de olho nas pedras e se
defender do gigante com a machadinha.
        Parecia haver um nmero muito maior de inimigos agora do que antes, e
William sentiu, em desespero, que o efetivo do rei fora suplantado. Um terror
histrico subiu-lhe pela garganta ao constatar que a batalha estava praticamente
perdida e ele se encontrava em perigo mortal. O rei deveria fugir agora. Por que
ainda estava lutando?
        Era insano; ele seria morto... Todos seriam mortos! O adversrio de
William levantou o machado bem alto. Os instintos de guerreiro de Hamleigh o
dominaram por um instante, e em vez de recuar, como vinha fazendo antes,
pulou para a frente e arremeteu contra a cara do homem enorme. A ponta da sua
espada entrou no pescoo dele logo abaixo do queixo. William imprimiu fora 
estocada. Os olhos do homem se fecharam, proporcionando-lhe um momento
de grato alvio. Em seguida ele puxou a espada e pulou para trs, agora para
escapar do machado que caa das mos do morto.
        Deu uma rpida olhada no rei, algumas jardas  sua esquerda. Enquanto
olhava, Estvo baixou a espada com fora no elmo de um homem e ela se partiu
em duas, como um galho seco. Pronto, pensou William com alvio; a batalha
estava acabada. O rei recuaria e se pouparia para combater em outra ocasio. Mas
a esperana foi prematura.
        Hamleigh comeara a se virar, pronto para correr, quando um habitante
de Lincoln ofereceu ao rei um machado de lenhador, de cabo comprido. Para
assombro de William, Estvo o aceitou e continuou a combater.
        Hamleigh sentiu-se tentado a fugir. Mas olhando para a sua direita, viu
Richard a p, lutando como um louco, pressionando, dando um golpe atrs do
outro com a espada, abatendo homens  esquerda,  direita e no centro. William
no podia retrair enquanto seu rival ainda estava lutando.
        Foi atacado de novo, dessa vez por um homem de baixa estatura que se
movia muito rapidamente, a espada faiscante  luz do sol. Quando suas armas se
chocaram, percebeu que estava se defrontando com um combatente temvel.
Mais uma vez se viu na defensiva e receando pela prpria vida; saber que a
batalha estava perdida minava sua vontade de lutar. Aparou as rpidas estocadas
que lhe foram dirigidas, querendo poder encaixar um golpe com fora bastante
para atravessar a armadura do homem. Viu uma chance e investiu. O outro
esquivou-se e arremeteu tambm - William sentiu o brao ficar dormente. Tinha
sido ferido. Ficou nauseado de tanto medo. Continuou a recuar ante o assalto do
outro, sentindo-se estranho e desequilibrado, como se o cho estivesse se
mexendo sob seus ps. Seu escudo ficou pendurado no pescoo, solto: no era
capaz de segur-lo firmemente com seu brao esquerdo intil. O baixinho
pressentiu a vitria e intensificou o ataque. Hamleigh anteviu seu fim e encheu-se
de pavor mortal.
        De repente Walter apareceu ao seu lado.
         William recuou. Seu cavaleiro brandiu a espada, segurando-a com as duas
mos. Pegando o baixinho de surpresa, cortou-o como um arbusto. William
subitamente sentiu-se tonto de alvio. Ps uma das mos no ombro do
companheiro.
         - Perdemos! - gritou Walter. - Vamos dar o fora!
         Recobrou a calma. O rei ainda lutava, embora a batalha estivesse perdida.
Se ao menos ele desistisse agora, e tentasse fugir, poderia deslocar-se para o sul e
montar outro exrcito. Mas quanto mais ficasse ali lutando, maior a probabilidade
de ser capturado ou morto, o que poderia significar apenas uma nica coisa:
Matilde seria a rainha.
         William e Walter deslocaram-se imperceptivelmente para trs. Por que o
rei estava sendo to tolo? Tinha que provar coragem. A galanteria seria sua
morte. Uma vez mais William sentiu-se tentado a abandonar o rei. Mas Richard
de Kingsbridge ainda estava ali, mantendo o flanco direito com a firmeza de uma
rocha, brandindo a espada e derrubando inimigos como se fosse uma ceifadeira.
         - Ainda no! - exclamou William para Walter. - Observe o rei!
         Recuaram passo a passo. O combate tornou-se menos feroz quando os
homens perceberam que o resultado j estava decidido e que no adiantava nada
se arriscar. William e Walter cruzaram espadas com dois cavaleiros, mas, como
estes se contentaram em for-los a recuar, aqueles lutaram defensivamente.
Golpes fortes eram trocados, mas ningum se expunha ao perigo.
         William recuou dois passos e arriscou olhar para o rei. Naquele exato
momento uma pedra atravessou o campo de luta e acertou o elmo de Estvo. O
rei cambaleou e caiu de joelhos.
         O adversrio de William virou a cabea para ver o que este estava
olhando. O machado caiu das mos de Estvo. Um cavaleiro inimigo correu e
tirou-lhe o elmo.
         - O rei! - gritou, triunfante. - Eu tenho o rei!
         William, Walter e todo o exrcito real se viraram e saram correndo.

         Philip sentiu-se jubiloso. A retirada comeou no meio do exrcito do rei e
espalhou-se como uma onda para os flancos. Em questo de momentos todo o
exrcito real estava batendo em retirada. Era a recompensa do rei Estvo pela
injustia praticada.
         Os atacantes perseguiram os fugitivos. Havia quarenta ou cinquenta
cavalos na retaguarda do exrcito do rei, seguros por escudeiros, e alguns dos
fugitivos montaram neles e saram galopando, no na direo da cidade de
Lincoln, mas buscando campo aberto.
         Philip perguntou-se o que teria acontecido a Estvo.
         Os cidados de Lincoln deixaram apressadamente os telhados. Crianas e
animais foram recolhidos. Algumas famlias desapareceram dentro de casa,
fechando as janelas e trancando as portas. Houve uma certa agitao nos barcos
do lago: alguns cidados tentavam fugir usando o rio. As pessoas comearam a se
dirigir  catedral, buscando refgio.
         Em cada entrada da cidade, corria gente para fechar os imensos portes
guarnecidos de ferro. De repente, os homens de Ranulf de Chester irromperam
do castelo. Dividiram-se em grupos, decerto seguindo um plano previamente
combinado, e cada grupo foi para um porto. Enrgicos, investiram contra os
cidados, derrubando-os  direita e  esquerda, e reabriram os portes para
admitir os rebeldes vitoriosos.
         Philip decidiu sair de cima do telhado da catedral. Os outros que estavam
com ele, em sua maior parte cnegos, tiveram a mesma idia. Todos se abaixaram
para passar pela pequena porta que dava na torre. Ali encontraram o bispo e os
arcediagos, que tinham ficado numa posio mais alta. Philip achou que o bispo
Alexander parecia assustado. Era uma pena: ele precisaria de coragem para
compartilhar com os outros naquele dia.
         Todos desceram cuidadosamente a comprida e estreita escada em espiral,
indo sair na nave da igreja, do lado oeste. J havia cerca de cem cidados ali
dentro, e no parava de chegar mais gente pelas trs grandes portas. Enquanto
Philip estava olhando, dois cavaleiros entraram no ptio da catedral, manchados
de sangue e enlameados, galopando; obviamente vinham da batalha. Os dois
entraram direto na igreja sem desmontar. Ao verem o bispo, um deles gritou:
         - O rei foi capturado!
         O corao de Philip deu um salto. O rei no s fora derrotado, como
tambm aprisionado! As foras leais a Estvo em todo o reino certamente
cairiam. As implicaes se atropelaram umas sobre as outras na imaginao do
prior, mas antes que pudesse orden-las, ouviu o bispo Alexander gritar:
         - Fechem as portas!
         Philip mal pde acreditar no que ouvia.
         - No! - gritou, por sua vez. - No pode fazer isso!
         O bispo o encarou, branco de medo. No tinha certeza de quem era
Philip. O prior lhe fizera uma visita formal, por cortesia, mas no se falavam
desde ento. Foi com visvel esforo que Alexander se lembrou dele.
         - Esta no  a sua catedral, prior Philip,  a minha. Fechem as portas! -
Diversos padres foram cumprir o que ele ordenara.
         Philip ficou horrorizado com aquela demonstrao de egosmo da parte
de um clrigo.
         - No pode trancar as pessoas do lado de fora! - gritou, furioso. - Podem
ser mortas!
         - Se no trancarmos as portas ns todos seremos mortos! - berrou
histericamente Alexander.
         Philip agarrou-o pela parte da frente do hbito.
        - Lembre-se de quem voc  - disse, por entre os dentes. - No se espera
que tenhamos medo, especialmente da morte. Controle-se!
        - Faam com que ele me largue! - gritou Alexander. Vrios cnegos
puxaram Philip, afastando-o do bispo.
        - No vem o que ele est fazendo? - perguntou-lhes Philip.
        - Se  to corajoso - disse um dos cnegos,  por que no vai l fora e os
protege voc mesmo?
        Philip libertou-se das mos dos cnegos.
        -  exatamente o que vou fazer - disse.
        Virou-se. A grande porta central estava sendo fechada. Correu pela nave.
Trs padres empurravam a porta, enquanto mais gente lutava para ver se
conseguia entrar pela passagem cada vez mais estreita. Espremendo-se, Philip
conseguiu sair pouco antes do fechamento.
        Nos momentos seguintes, uma pequena multido havia se reunido na
entrada da catedral. Homens e mulheres batiam e gritavam, pedindo que os
deixassem entrar, mas no havia resposta dentro da igreja.
        Subitamente Philip sentiu medo. O pnico no rosto daquelas pessoas
trancadas ali fora o assustou. Sentiu que tremia. Defrontara-se com um exrcito
vitorioso quando tinha seis anos de idade, e o horror que sentira ento voltou
agora. O momento em que os homens de armas invadiram a casa de seus pais foi
evocado to vividamente como se tivesse acontecido na vspera. Ficou
imobilizado no lugar onde estava, tentando parar de tremer, enquanto a multido
fervilhava  sua volta. Fazia muito tempo que no era atormentado por aquele
pesadelo. Viu a avidez por sangue estampada no rosto dos homens, o modo
como a espada transfixara sua me, a viso horrvel das vsceras do seu pai
saltando do abdmen, e sentiu de novo aquele mesmo terror histrico, insano,
incompreensvel, esmagador. Ento viu um monge entrar com uma cruz na mo;
os gritos cessaram. O monge ensinou a ele e a seu irmo como fechar os olhos da
me e do pai, para que pudessem dormir o longo sono. Philip se lembrou, como
se tivesse acabado de acordar de um sonho, que no era mais uma criana
assustada, que era um homem adulto e um monge; e assim como o abade Peter
salvara a ele e a seu irmo naquele dia horrvel, vinte e sete anos antes, o homem-
feito Philip, hoje fortalecido pela f e protegido por Deus, iria em auxlio
daqueles que tinham medo.
        Obrigou-se a dar um passo  frente; uma vez feito isso, o segundo passo
seria um pouco menos difcil, e o terceiro quase fcil.
        Quando chegou  rua que seguia na direo do porto oeste quase foi
derrubado por uma multido de fugitivos: homens e mulheres carregando fardos
com suas preciosas propriedades, velhos arquejando, garotas gritando, mulheres
com crianas esqulidas nos braos. A presso daquela gente o empurrou de
volta algumas jardas, mas depois ele lutou contra o fluxo. As pessoas se
encaminhavam para a catedral. Queria lhes dizer que estava fechada, e que eles
deveriam ficar quietos em suas casas e trancarem as portas. Entretanto, todos
estavam gritando e ningum estava ouvindo.
         Progrediu vagarosamente ao longo da rua, deslocando-se no sentido
contrrio ao do fluxo das pessoas. Avanara apenas algumas jardas quando
apareceu um grupo de quatro cavaleiros, a galope. Eram eles a causa da correria.
Algumas pessoas se achatavam de encontro s paredes das casas, mas outras no
podiam sair da frente a tempo e muitas caam sob as patas dos cavalos. Philip
ficou horrorizado, mas no havia nada que pudesse fazer, e se meteu numa viela
para no se tornar uma vtima. Um momento mais tarde os cavaleiros haviam
passado e a rua ficou deserta.
         Diversos corpos ficaram no cho. Quando Philip saiu da viela viu um
deles se mover: um homem de meia-idade, de casaco vermelho, tentava se
arrastar, a despeito de uma perna ferida. O prior atravessou a rua, tencionando
carregar o homem; antes que chegasse ali, porm, apareceram dois soldados de
elmo de ferro e escudo de madeira.
         - Aquele ali est vivo, Jake - disse um deles.
         Philip estremeceu. Teve a impresso, pelas maneiras dos soldados, por
suas vozes e roupas, e at mesmo pela expresso do rosto, que eram os mesmos
homens que haviam matado seus pais.
         - Ele vai render um resgate: olhe aquele casaco vermelho - disse o que se
chamava Jake e, virando-se, ps os dedos na boca e deu um assobio. Um terceiro
homem apareceu correndo. - Leve o Casaco Vermelho ali para o castelo e o
amarre.
         O terceiro homem passou os braos pelo trax do cidado ferido e o
arrastou. Quando suas pernas machucadas comearam a bater nas pedras, ele
gritou de dor.
         - Parem! - ordenou Philip. Todos pararam por um momento, olharam
para ele e riram; depois prosseguiram.
         Philip gritou de novo, mas eles o ignoraram. Ficou observando,
impotente, vendo-o ser levado embora. Outro homem de armas saiu de uma
casa, vestido num casaco de pele comprido e com seis pratos de prata debaixo do
brao. Jake viu e reparou no produto da pilhagem.
         - Essas casas so ricas - disse ao companheiro. - Devamos entrar numa
delas e ver o que podemos encontrar. - Eles subiram at a porta de uma casa de
pedra e a atacaram com um machado de guerra.
         Philip sentia-se intil, mas no estava disposto a desistir. No entanto,
Deus no o pusera naquela posio para defender as propriedades dos ricos, e ele
deixou Jake e seus companheiros e apressou-se na direo do porto oeste. Mais
homens de armas surgiram correndo ao longo das ruas. Em meio a eles havia
diversos homens morenos, baixos, de rosto pintado, vestidos com casacos de
pele de carneiro e armados com porretes. Eram os selvagens galeses, percebeu
Philip, envergonhando-se por ser da mesma terra que aqueles brutos. Encostou-
se a uma parede e tentou passar despercebido.
         Dois homens saram de uma casa de pedra arrastando pelas pernas um
homem de barba branca e solidu. Um deles espetou uma faca no pescoo do
homem e perguntou:
         - Onde est seu dinheiro, judeu?
         - No tenho dinheiro - lamentou-se o homem. Ningum acreditaria
naquilo, pensou Philip. A fortuna dos judeus de Lincoln era famosa; e, de
qualquer forma, o homem morava numa casa de pedra.
         Outro homem de armas apareceu, arrastando uma mulher pelos cabelos.
Era de meia-idade, e devia ser a esposa do judeu. O primeiro homem gritou:
         - Diga onde est o dinheiro, ou enfio a lmina na boceta dela. - Ergueu a
saia da mulher, expondo seus plos pbicos grisalhos, e apontou uma adaga
comprida.
         Philip estava a ponto de intervir, mas o velho cedeu imediatamente.
         - No a machuquem, o dinheiro est nos fundos - disse, nervoso. - Est
enterrado na horta, perto da pilha de lenha. Por favor, soltem-na.
         Os trs homens correram para os fundos da casa. A mulher ajudou o
homem a se pr de p. Outro grupo de cavaleiros surgiu galopando na rua
estreita, e Philip saiu da frente mais que depressa. Quando se ajeitou de novo, os
judeus tinham sumido.
         Viu um rapaz de armadura correndo para salvar a vida, com trs ou
quatro galeses no seu encalo. Eles o alcanaram justamente quando emparelhou
com Philip. O perseguidor que ia mais  frente brandiu a espada e tocou na
barriga da perna do rapaz. No pareceu a Philip uma ferida profunda, mas foi o
suficiente para fazer o jovem tropear e cair no cho. Outro gals correu at ele e
levantou um machado. com o corao na boca, o prior deu um passo em frente:
         - Pare! - gritou ele.
         O homem levantou mais ainda o machado.
         Philip correu em sua direo.
         O homem brandiu o machado, mas o prior o empurrou no ltimo
instante. A lmina da arma bateu ruidosamente no pavimento de pedra a um p
da cabea da vtima. O atacante recuperou o equilbrio e olhou atnito para
Philip. O religioso o encarou tambm, tentando no tremer, querendo poder se
lembrar de uma ou duas palavras de gals.
         Antes que qualquer um deles se mexesse, os outros dois perseguidores
chegaram aonde eles estavam, e um tropeou em Philip, derrubando-o - o que
provavelmente salvou sua vida, conforme percebeu um momento depois.
Quando se recuperou, todos o tinham esquecido. Estavam chacinando o pobre
rapaz com inacreditvel selvageria. Philip conseguiu se levantar, mas j era tarde
demais: seus martelos e machados estavam golpeando um cadver. Philip olhou
para o cu e gritou, furioso:
        - Se no posso salvar ningum, por que me mandou para c?
        Como que em resposta a sua pergunta, ouviu um grito vindo de uma casa
prxima. Era uma construo de pedra e madeira, de um s andar, no to cara
quanto as que a cercavam. A porta estava aberta. Philip entrou correndo. Havia
dois cmodos separados por um arco, e palha no cho. Uma mulher com dois
filhos pequenos estava encolhida num canto, aterrorizada. Trs homens de armas
no meio da casa confrontavam-se com um homem pequeno e calvo. Uma jovem
de cerca de dezoito anos jazia no cho. Seu vestido fora rasgado e um dos trs
soldados estava ajoelhado sobre o seu trax, mantendo as coxas dela abertas. Era
evidente que o careca tentava evitar que estuprassem a filha. Quando Philip
entrou, atirou-se contra um dos homens de armas, que o empurrou para um lado.
O careca recuou, cambaleando. O soldado enfiou a espada na sua barriga. A
mulher no canto gritou como uma alma perdida.
        - Parem! - gritou o prior.
        Todos olharam para ele como se fosse maluco.
        - Vocs todos iro para o inferno se fizerem isto! - disse Philip, no seu
tom de voz mais autoritrio.
        O tipo que matara o careca levantou a espada para Philip.
        - Espere um minuto - disse o homem no cho, ainda segurando as pernas
da garota. - Quem  voc, monge?
        - Sou Philip de Gwynedd, prior de Kingsbridge, e ordeno em nome de
Deus que deixem essa garota em paz, se tm amor a sua alma imortal.
        - Um prior! Logo vi! - disse o homem no cho. - Vale um resgate.
        - V para o canto com a mulher, que  o seu lugar - disse o primeiro
homem, embainhando a espada.
        - No ponha as mos no hbito de um monge - disse Philip, tentando
parecer perigoso, mas percebendo muito bem a nota de desespero que havia em
sua voz.
        - Leve-o para o castelo, John - disse o homem que estava sentado em
cima da garota. Ele parecia ser o lder.
        - V para o inferno - disse John. - Quero trepar com ela primeiro. - Ele
agarrou Philip pelos braos, e antes que pudesse resistir, jogou-o no canto. O
prior caiu no cho ao lado da mulher.
        O homem chamado John ergueu a parte da frente da tnica e atirou-se
sobre a garota. Sua me virou de lado e comeou a soluar.
        - No vou assistir a isto! - exclamou Philip. Levantou-se e agarrou o
estuprador pelo cabelo, afastando-o da garota. O homem grunhiu de dor.
        O terceiro homem levantou um porrete. O prior viu o golpe se
aproximando, mas j era tarde demais. O porrete atingiu sua cabea. Sentiu uma
dor agonizante por um momento, depois tudo escureceu, e ele perdeu a
conscincia antes de cair no cho.
         Os prisioneiros foram levados ao castelo e trancados em celas. Estas
eram slidas estruturas de madeira, como casas em miniatura, com seis ps de
comprimento e trs de largura, e apenas um pouco mais altas que a cabea de um
homem. Em vez de paredes inteirias tinham barras verticais no muito
espaadas, que possibilitavam ao carcereiro ver o lado de dentro. Em tempos
normais, quando eram usadas para confinar ladres, assassinos e hereges, havia
apenas uma ou duas pessoas por cela.
         Naquela oportunidade, os rebeldes puseram oito ou dez em cada uma, e
ainda havia mais prisioneiros. Os cativos excedentes foram amarrados com
cordas e arrebanhados para um canto do conjunto. Poderiam ter escapado
facilmente, mas no o fizeram, decerto porque estavam mais seguros ali do que
do lado de fora, na cidade.
         Philip sentou-se no canto de uma cela, com uma terrvel dor de cabea,
sentindo-se tolo e fracassado. No fim ele tinha sido to intil quanto o covarde
bispo Alexander.
         No salvara uma nica vida; nem sequer impedira um s golpe. Os
cidados de Lincoln no teriam estado em pior situao sem ele. Ao contrrio do
abade Peter, ele fora impotente para deter a violncia. Simplesmente no sou o
homem que o abade Peter era, pensou ele.
         Pior ainda: em sua v tentativa de ajudar os moradores de Lincoln ele
provavelmente tinha jogado fora a chance de conseguir as concesses que queria,
se Matilde se tornasse rainha. Agora era prisioneiro do exrcito dela. Assim,
presumiriam que estivera com as foras do rei Estvo. O priorado de
Kingsbridge teria que pagar um resgate pela sua libertao. Era bem provvel que
a coisa toda chegasse aos ouvidos de Matilde; nesse caso ela tomaria posio
contra Philip. Sentiu-se nauseado, desapontado e cheio de remorsos.
         Mais prisioneiros foram trazidos durante o dia. O fluxo terminou por
volta do anoitecer, mas o saque da cidade prosseguiu fora das muralhas do
castelo: Philip podia ouvir os gritos, brados e demais sons da destruio. Ao se
aproximar a meia-noite o barulho diminuiu, presumivelmente quando os
soldados ficaram to bbados com o vinho roubado e to saciados de estupros e
violncia que no mais puderam causar danos. Um nmero pequeno deles voltou
cambaleando para o castelo, jactando-se dos seus triunfos, discutindo e brigando
uns com os outros e vomitando no capim; acabaram por cair no cho,
insensveis, e dormiram.
         Philip adormeceu tambm, embora no tivesse espao suficiente para
deitar e precisasse se encolher no canto com as costas apoiadas nas barras de
madeira da cela.
         Acordou de madrugada, tremendo de frio, mas a dor aguda na cabea
abrandara, misericordiosamente, transformando-se numa dor mais difusa.
Levantou-se para esticar as pernas e bateu com os braos do lado do corpo para
se aquecer. Todos os prdios do castelo estavam superlotados. Os estbulos, com
a parte da frente aberta, revelavam homens dormindo nas baias, enquanto os
cavalos haviam sido amarrados do lado de fora. Pares de pernas saam pela porta
da padaria e da cozinha. A pequena minoria de soldados armara barracas. Havia
cavalos por toda parte. No canto sudeste do conjunto do castelo ficava a
fortaleza, um castelo dentro de um castelo, construdo sobre uma alta elevao,
com as poderosas muralhas de pedra circundando meia dzia ou mais de
construes de madeira. Os condes e cavaleiros do lado vencedor estariam ali
dentro dormindo aps as comemoraes.
        A cabea de Philip voltou-se para as implicaes da batalha da vspera.
Aquilo significava que a guerra terminara? Provavelmente. Estvo tinha uma
esposa, a rainha Matilda, que podia continuar a luta: ela era a condessa de
Boulogne, e com seus cavaleiros franceses tomara o Castelo de Dover no incio
da guerra e agora controlava grande parte de Kent em nome do marido. No
entanto, encontraria dificuldade para conseguir apoio dos bares enquanto
Estvo estivesse na priso. Poderia manter Kent por algum tempo, mas era
improvvel que obtivesse mais vitrias.
        O fato  que os problemas de Matilde ainda no estavam terminados.
Tinha ainda que consolidar sua vitria militar, ganhar a aprovao da Igreja e ser
coroada em Westminster. No entanto, com determinao e um pouco de
sabedoria, provavelmente teria xito.
        E isso seria uma boa notcia para Kingsbridge; ou poderia ser, se Philip
pudesse sair dali sem ser considerado partidrio de Estvo.
        No havia sol, mas esquentou um pouco quando o dia clareou. Os
companheiros de priso de Philip foram acordando gradualmente, gemendo de
dor: a maioria tinha, no mnimo, sofrido equimoses, e se sentiam pior aps uma
noite fria, com apenas a proteo mnima do teto e das barras da cela. Alguns
eram cidados ricos; outros, cavaleiros aprisionados na batalha. Quando a
maioria havia acordado, Philip perguntou:
        - Algum viu o que aconteceu com Richard de Kingsbridge? - Ele
esperava que Richard tivesse sobrevivido, pelo bem de Aliena.
        - Ele lutou como um leo - disse um homem com uma atadura
ensanguentada na cabea. - Liderou os habitantes da cidade quando as coisas
ficaram feias.
        - Viveu ou morreu?
        O homem sacudiu a cabea ferida lentamente.
        - No o vi no final.
        - E William Hamleigh? - Seria uma bno se William tivesse ficado no
campo de batalha.
         - Esteve junto do rei a maior parte do tempo. Mas fugiu no fim; eu o vi
num cavalo, a galope, bem  frente de todos.
         - Ah! - O restinho de esperana desapareceu. Os problemas de Philip no
seriam resolvidos to facilmente.
         A conversa cessou e a cela ficou em silncio. Do lado de fora, os
soldados j se mexiam, tratando de sua ressaca, verificando o que tinham pilhado,
certificando-se de que os prisioneiros ainda permaneciam em cativeiro, pegando
o desjejum na cozinha. Philip perguntou-se se os prisioneiros seriam alimentados.
Era preciso, pensou, pois de outro modo morreriam e no haveria resgates; mas
quem assumiria a responsabilidade de alimentar toda aquela gente? Esse tipo de
idia o fez comear a pensar no perodo de tempo que ficaria ali. Seus captores
teriam que mandar uma mensagem a Kingsbridge, exigindo um resgate. Os
irmos precisariam mandar um deles para negociar sua libertao. Quem seria?
Milius seria o melhor, mas Remigius, como subprior, era o encarregado na
ausncia de Philip, e poderia mandar um de seus amigos ou at mesmo vir em
pessoa. Remigius faria tudo lentamente: era incapaz de ao pronta e decisiva,
mesmo no seu prprio interesse.
         Poderia levar meses. Philip ficou ainda mais abatido.
         Outros prisioneiros tinham mais sorte. Logo aps o raiar do sol, suas
esposas, filhos e parentes comearam a aparecer no castelo, temerosos e
hesitantes a princpio, depois com mais confiana, para negociar o resgate.
Barganhariam com os captores por algum tempo, alegando falta de dinheiro,
oferecendo jias baratas ou outros bens; por fim chegariam a um acordo,
voltariam a suas casas e retornariam um pouco mais tarde com o resgate que
tivesse ficado acertado, normalmente em espcie.
         O butim ficaria cada vez mais alto, e as celas iriam se esvaziando.
         Pelo meio-dia metade dos prisioneiros j se fora. Philip presumiu que se
tratava de gente da localidade. Os remanescentes, provavelmente cavaleiros
aprisionados durante a batalha, deviam ser de cidades distantes. A impresso foi
confirmada quando o guardio do castelo apareceu e perguntou os nomes de
todos os prisioneiros: a maioria era de cavaleiros do sul. Philip notou que em
uma das celas havia um nico homem, preso numa espcie de tronco, como se
algum quisesse ter certeza absoluta de que no poderia fugir. Aps observar o
prisioneiro especial por alguns minutos, Philip percebeu de quem se tratava.
         - Vejam! - disse aos trs homens da sua cela. - Aquele homem ali,
sozinho.  mesmo quem estou pensando que ?
         Os outros olharam.
         - Por Cristo,  o rei! - disse um deles, e os outros concordaram.
         O prior ficou olhando para o homem enlameado, de cabelos alourados e
mos e ps desconfortavelmente presos nos estreitos orifcios do tronco. Parecia
ser igual aos demais. Ainda na vspera era o rei da Inglaterra, e recusara conceder
a Kingsbridge uma licena para o funcionamento de um mercado. Nesse dia no
poderia sequer se levantar sem que algum lhe desse licena. O rei tivera o que
merecera, mas mesmo assim Philip sentiu pena dele.
        No incio da tarde deram comida aos prisioneiros. Eram restos mornos
do jantar servido aos combatentes, mas eles se atiraram quela comida
sofregamente. O prior relutou em servir-se, deixando que os outros tivessem a
maior parte, porque, alm de considerar a fome uma fraqueza bsica contra a
qual, de vez em quando, se devia resistir, via qualquer jejum forado como uma
oportunidade para mortificar a carne.
        Quando os prisioneiros raspavam as tigelas, houve uma agitao na
fortaleza, e entrou um grupo de condes. Enquanto desciam as escadas e
atravessavam o conjunto do castelo, Philip observou que dois iam  frente dos
demais e eram tratados com deferncia. Deviam ser Ranulf de Chester e Robert
de Gloucester, mas Philip no sabia quem era quem. Eles se aproximaram da cela
de Estvo.
        - Bom dia, primo Robert - disse Estvo, enfatizando fortemente a
palavra "primo".
        Foi o mais alto dos dois homens quem respondeu.
        - No era minha inteno que voc passasse a noite preso no tronco.
Mandei que o tirassem, mas a ordem no foi obedecida. No entanto, parece que
sobreviveu.
        Um homem em trajes religiosos separou-se do grupo e dirigiu-se  cela de
Philip. A princpio, este no lhe deu ateno, porque Estvo estava perguntando
o que iria ser feito com ele, e Philip queria ouvir a resposta; porm, o padre
perguntou:
        - Qual de vocs  o prior de Kingsbridge?
        - Eu - respondeu Philip.
        - Solte-o - disse o religioso para um dos homens de armas que haviam
aprisionado Philip.
        O prior ficou assombrado. Nunca vira aquele padre na vida. Era evidente
que seu nome fora descoberto na lista preparada pelo guardio do castelo. Mas
por qu? Ficaria contente em sair da cela, mas no era hora de se rejubilar - no
sabia o que o aguardava.
        O homem de armas protestou.
        - Ele  meu prisioneiro!
        - No  mais - retrucou o padre. - Solte-o!
        - Por que eu deveria libert-lo sem receber um resgate? - contestou o
homem beligerantemente.
        O padre replicou com igual energia.
        - Primeiro, porque ele no  nem um combatente do exrcito do rei nem
um cidado desta cidade, de modo que voc cometeu um crime aprisionando-o.
Segundo, porque  monge, e voc  culpado de sacrilgio por ter posto as mos
num homem de Deus. Terceiro, porque o secretrio da rainha Matilde diz que
voc tem que libert-lo, e se se recusar terminar preso nessa cela, mais depressa
que um piscar de olhos, de modo que  bom que seja rpido.
        - Est bem - resmungou o homem.
        Philip ficou consternado. Havia nutrido uma leve esperana de que
Matilde no tomasse conhecimento de sua priso. Mas se o secretrio da rainha
pedira para v-lo, essa esperana estava perdida. Sentindo-se como se tivesse
atingido o fundo do poo, saiu da cela.
        - Venha comigo - disse o padre. Philip seguiu-o.
        - Vou ser libertado? - perguntou.
        - Imagino que sim. - O padre pareceu surpreso com a pergunta. - No
sabe quem vai ver agora?
        - No tenho a menor idia.
        O padre sorriu.
        - Vou deixar que ele lhe faa uma surpresa.
        Atravessaram o conjunto at a fortaleza e subiram a longa escadaria que
galgava o aterro e dava no porto. Philip fez um esforo enorme, mas no
conseguiu adivinhar por que um secretrio de Matilde estaria interessado nele.
        Seguiu o padre, passando pelo porto. O forte de pedra, que era circular,
tinha casas de dois andares construdas de encontro  muralha. No meio havia
um ptio minsculo com um poo. O religioso reconduziu Philip ao interior de
uma dessas casas.
        Dentro dela havia outro padre, de p ante o fogo e de costas para a porta.
Era baixo e esguio como Philip e tinha o mesmo cabelo preto, mas sem tonsura
nem fios brancos. De costas, era muito familiar. Philip mal pde crer na sua
sorte. Um largo sorriso iluminou-lhe o rosto.
        O padre virou-se. Tinha olhos azuis brilhantes, como os do prior, e
tambm estava sorrindo. Estendeu os braos.
        - Philip!
        - Deus seja louvado! - exclamou Philip, atnito.  Francis!
        Os dois irmos se abraaram, e os olhos do prior encheram-se de
lgrimas.

        A recepo real no Castelo de Winchester foi bem diferente. Os
cachorros desapareceram, da mesma forma como o trono simples de madeira do
rei Estvo, os bancos e as peles de animais penduradas nas paredes. Em vez
disso agora havia cortinas bordadas, tapetes ricamente coloridos, grandes taas
cheias de confeitos e cadeiras pintadas. O salo cheirava a flores.
        Philip nunca se sentia  vontade na corte real, e uma corte feminina, foi o
suficiente para p-lo em estado de palpitante ansiedade. Matilde representava sua
nica esperana de reaver a pedreira e reabrir o mercado, mas no confiava na
justia daquela mulher soberba e voluntariosa.
         A Imperatriz, de vestido azul, sentou-se num trono dourado,
delicadamente entalhado. Era alta e magra, com orgulhosos olhos escuros e
cabelo preto liso e brilhante.
         Sobre o vestido usava uma pelica, uma capa de seda comprida at os
tornozelos, com a cintura justa e a saia larga - um estilo no muito visto na
Inglaterra at a sua chegada, mas agora muito imitado. Fora casada com o
primeiro marido por onze anos e com o segundo por catorze, mas ainda parecia
ter menos de quarenta anos de idade. Todos falavam com entusiasmo de sua
beleza. Para Philip parecia um tanto angulosa e antiptica; porm, ele era mau juiz
dos encantos femininos, sendo mais ou menos indiferente a eles.
         Philip, Francis, William Hamleigh e o bispo Waleran fizeram uma
reverncia e esperaram. Ela os ignorou por algum tempo, e continuou
conversando com uma dama de companhia. O assunto parecia ser bastante
frvolo, pois ambas riam muito; Matilde, contudo, no interrompeu a conversa
para cumprimentar os visitantes.
         Francis trabalhava intimamente com a rainha, e a via quase todos os dias,
mas no eram grandes amigos. Robert, irmo de Matilde e antigo senhor de
Francis, o cedera a ela por ocasio de sua chegada  Inglaterra, pois precisava de
um secretrio de primeira classe. No entanto, no fora esse o nico motivo. O
religioso agia como elo de ligao entre irmo e irm, e ficava atento  impetuosa
Matilde. No tinha grande importncia que irmos se trassem, naquela vida falsa
da corte real, e o verdadeiro papel de Francis era tornar difcil para a rainha fazer
qualquer coisa furtivamente. Matilde sabia disso e aceitava a situao, mas mesmo
assim seu relacionamento com Francis era difcil.
         Fazia dois meses desde a batalha de Lincoln, e nesse perodo tudo correra
bem para Matilde. O bispo Henry lhe dera as boas-vindas em Winchester
(traindo desta forma o irmo dele, Estvo) e convocara um grande conselho de
bispos e abades que a aceitara como rainha; agora ela estava negociando com a
comuna de Londres sua coroao em Westminster. O rei David, da Esccia, que
por acaso era seu tio, estava a caminho para lhe fazer uma visita oficial, de um
soberano para outro.
         O bispo Henry era fortemente apoiado pelo bispo Waleran de
Kingsbridge; e, de acordo com Francis, Waleran persuadira William Hamleigh a
trocar de lado, jurando-lhe fidelidade. Agora o lorde viera buscar sua
recompensa.
         Os quatro homens esperaram: William com o homem que o apoiava, o
bispo Waleran, e Philip com seu protetor, Francis. Era a primeira vez que o prior
punha os olhos em Matilde. A aparncia dela no o tranquilizou: a despeito do
seu ar soberano, achou-a volvel.
          Quando a rainha terminou a conversa, virou-se para eles com uma
expresso de triunfo na fisionomia, como se dissesse: Vejam como vocs tm
pouca importncia, at mesmo minha dama de companhia tem prioridade sobre
os seus assuntos. Ela encarou Philip firmemente, at deix-lo embaraado, e disse
ento:
          - Bem, Francis. Voc me trouxe seu irmo gmeo?
          - Um tanto velho e grisalho para ser gmeo, majestade  disse o prior,
fazendo uma nova reverncia. Era o tipo da observao trivial, de
autocondenao, que os cortesos pareciam achar divertida, mas ela lanou-lhe
um olhar glacial e o ignorou. Ele decidiu abandonar qualquer tentativa de ser
agradvel.
          Matilde virou-se para William.
          -  Sir William Hamleigh, que combateu corajosamente contra o meu
exrcito na batalha de Lincoln, mas que agora reconheceu seus erros.
          William fez uma reverncia, e, sabiamente, manteve a boca fechada.
          Ela se voltou de novo para Philip.
          - Voc me pede que lhe conceda uma licena para o funcionamento de
um mercado.
          - Sim, majestade.
          - A renda do mercado ser toda gasta na construo da catedral,
majestade - disse Francis.
          - Em que dia da semana voc quer seu mercado?
          - Domingo.
          Ela ergueu as sobrancelhas depiladas.
          - Vocs, homens santos, geralmente se opem a mercados dominicais.
No afastam as pessoas da igreja?
          - No no nosso caso - disse Philip. - As pessoas vo trabalhar na obra e
assistir  missa, e tambm compram e vendem suas coisas.
          - Ento voc j est operando um mercado? - perguntou ela asperamente.
          Philip percebeu que havia cometido um erro grosseiro. Teve vontade de
dar um pontap na prpria canela. Francis o salvou.
          - No, majestade, o mercado no est funcionando nos dias de hoje -
disse. - Comeou informalmente, mas o prior Philip ordenou sua extino at
que fosse concedida a licena.
          Era verdade, mas no totalmente. Matilde, contudo, pareceu aceit-la.
Philip rezou para que Francis fosse perdoado.
          - No h outro mercado na regio? - perguntou Matilde. Foi William
quem respondeu.
          - H, sim, em Shiring; e a feira de Kingsbridge veio roubando negcios
de Shiring.
          - Mas Shiring fica a vinte milhas de Kingsbridge! - disse Philip.
         - Majestade - disse Francis -, a lei diz que os mercados devem estar
separados pelo menos por catorze milhas. Por esse critrio, Kingsbridge e Shiring
no competem.
         Ela aquiesceu, aparentemente disposta a aceitar a informao prestada
por Francis a respeito de matria legal. At aqui, pensou Philip, est se
encaminhando para o nosso lado.
         - Voc tambm pede o direito de explorar a pedreira do conde de Shiring
- disse Matilde.
         - Tivemos esse direito por muitos anos, mas h pouco tempo William
expulsou de l os nossos homens, matando cinco...
         - Quem lhe deu esse direito? - interrompeu ela.
         - O rei Estvo.
         - O usurpador!
         - Majestade - apressou-se a dizer Francis -, o prior Philip naturalmente
aceita o fato de que nenhum dos decretos do pretendente Estvo vigora, a
menos que validados pela senhora.
         Philip no aceitava aquilo, mas viu que no seria sbio diz-lo.
         - Fechei a pedreira como contrapartida ao seu mercado ilegal! - explodiu
William.
         Era impressionante, pensou Philip, como um caso evidente de injustia
podia parecer to equilibrado quando discutido na corte.
         - Toda essa briga aconteceu porque a deciso original de Estvo foi tola
- disse Matilde.
         O bispo Waleran falou pela primeira vez.
         - Nesse ponto concordo com vossa majestade de todo o corao - disse
servilmente.
         - Era querer causar problemas, dar uma pedreira a uma pessoa e o direito
de explorao a outra - disse ela. - A pedreira deve pertencer a um ou a outro.
         Era verdade, pensou Philip. E se ela fosse seguir o esprito da deciso
original de Estvo, a pedreira pertenceria a Kingsbridge.
         - Minha deciso - disse Matilde -  que a pedreira pertencer a meu nobre
aliado, Sir William.
         Philip ficou desolado. A construo da catedral no poderia ter
progredido to bem sem livre acesso  pedreira. Agora precisaria andar mais
devagar, esperando pelo dinheiro que ele pudesse arranjar para comprar pedra. E
tudo por causa do capricho daquela mulher! Philip teve um acesso de clera.
         - Muito obrigado, majestade - disse William.
         - No entanto - prosseguiu Matilde -, Kngsbridge ter tanto direito de
explorar um mercado quanto Shiring.
         Philip animou-se de novo. O mercado no pagaria inteiramente a pedra,
mas j seria uma grande ajuda. Significava que teria que brigar por dinheiro em
toda parte, como no princpio, mas tambm que poderia tocar a obra.
        Matilde dera a cada um uma parte do pleiteado. Talvez no fosse to tola,
afinal.
        - Direitos de mercado iguais aos de Shiring, majestade?
        - Foi o que eu disse.
        Philip no estava certo quanto ao motivo pelo qual Francis repetira
aquilo. Era comum que as licenas se referissem a direitos desfrutados por outras
cidades: tratava-se de uma questo de justia e de economia de trabalho de quem
tivesse de redigir o decreto. Philip precisaria verificar o que dizia exatamente a
carta rgia de Shiring.
        Poderia haver restries ou privilgios extras.
        - Dessa forma - disse Matilde -, os dois saram ganhando. William fica
com a pedreira, e o prior Philip, com o mercado. Em troca cada um me pagar
cem libras.  s. - Ela se afastou.
        Philip ficou estupefato. Cem libras! O priorado no tinha cem libras no
momento. Como levantaria tanto dinheiro? O mercado levaria anos para gerar
cem libras. Era um golpe devastador que faria o programa de construo estagnar
em carter permanente. Ele a encarou, mas ela aparentemente voltara a se
envolver numa animada conversa com sua dama de companhia. Francis lhe deu
uma cotovelada. Philip abriu a boca para falar. Seu irmo levou um dedo aos
lbios.
        - Mas... - comeou o prior. Francis sacudiu a cabea, nervoso.
        Philip sabia que Francis estava com a razo. Deixou cair os ombros,
derrotado. Aturdido, virou-se e retirou-se da presena real.

        Francis ficou impressionado quando Philip correu com ele o priorado de
Kingsbridge.
        - Estive aqui h dez anos, e era uma pocilga - disse irreverentemente. -
Voc deu mesmo vida a isto aqui.
        Ele gostou muito da sala de escrita, que tom terminara enquanto Philip
estava em Lincoln. Era um pequeno prdio ao lado da casa do cabido, com
grandes janelas, lareira com chamin, uma fila de mesas para escrever e um
grande armrio de carvalho para os livros. Quatro irmos j a estavam utilizando,
de p ante as altas escrivaninhas, trabalhando com penas em folhas de
pergaminho. Um copiava os Salmos de Davi, outro, o Evangelho de So Mateus,
e o terceiro, a Regra de So Bento.
        Alm deles, o irmo Timothy estava escrevendo uma histria da
Inglaterra; entretanto, por ter comeado com a criao do mundo, Philip receava
que o bom monge no fosse ter tempo para termin-la. Apesar de pequena -
Philip no quisera desviar muitas pedras da catedral -, a sala era seca, quente e
bem iluminada: exatamente do que precisavam.
         - Desgraadamente o priorado tem poucos livros, e como eles so muito
caros para serem comprados, este  o nico modo de aumentar nossa coleo -
explicou Philip.
         Na cripta sob a sala, havia uma oficina onde um velho monge ensinava
dois jovens a esticar a pele de um carneiro para preparar pergaminho, a fazer
tinta e a encadernar as folhas para fazer o livro.
         - Voc poder vender livros tambm - comentou Francis.
         - Oh, sim. A sala de escrita pagar muitas vezes o que custou.
         Eles deixaram o prdio e atravessaram o claustro. Era hora de estudo. A
maioria dos monges lia. Uns poucos meditavam, atividade suspeitamente
parecida com cochilar, conforme Francis observou, ctico. No canto noroeste
havia vinte garotos recitando verbos em latim. Philip parou e apontou.
         - Est vendo aquele garotinho na ponta do banco?
         - Escrevendo numa lousa, com a lngua de fora?
         -  o beb que voc encontrou na floresta.
         - Mas  to grande!
         - Tem cinco anos e meio, e  precoce.
         Francis balanou a cabea, admirado.
         - O tempo passa to depressa! Como vai ele?
         -  mimado pelos monges, mas sobreviver. Voc e eu sobrevivemos.
         - Quem so os outros alunos?
         - Novios, ou filhos de mercadores e da pequena nobreza local
aprendendo a ler e contar.
         Deixaram o claustro e passaram para o canteiro da obra. Agora, mais da
metade do brao leste da nova catedral estava construda. A grande fileira dupla
de enormes colunas tinha quarenta ps de altura, e todos os arcos entre elas
estavam prontos. Acima da arcada, a galeria da tribuna ia tomando forma. De
cada um dos lados, erguiam-se as paredes mais baixas da nave lateral, com seus
arcobotantes salientes. Ao contornarem a obra, Philip viu que os pedreiros
estavam trabalhando nos meios arcos que ligariam o topo dos arcobotantes ao
topo da galeria da tribuna, permitindo que estes sustentassem o peso do telhado.
         - Voc fez tudo isso, Philip - disse Francis, quase reverente. - A sala de
escrita, a escola, a igreja nova, at mesmo todas aquelas casas novas na cidade.
Est tudo a porque voc fez acontecer.
         O prior ficou comovido. Ningum jamais lhe dissera aquilo. Se lhe
perguntassem, diria que Deus abenoara seus esforos. Mas bem no fundo do
corao sabia que o que Francis dissera era verdade: aquela cidade florescente e
fervilhante era sua criao. O reconhecimento causou-lhe um clido rubor,
especialmente por vir do seu irmo mais moo, cnico e sofisticado.
         Tom Construtor os viu e se aproximou.
         - Voc conseguiu um progresso maravilhoso - disse-lhe Philip.
         - Sim, mas olhe s para aquilo. - Tom apontou para o canto nordeste do
adro, onde era empilhada a pedra.  Havia normalmente centenas de pedras
arrumadas em fileiras, mas agora no passavam de umas vinte e cinco, espalhadas
pelo cho. Lastimavelmente, esse maravilhoso progresso significa que usamos
nosso estoque de pedras.
         O entusiasmo de Philip desvaneceu-se. Tudo o que obtivera estava em
perigo, graas  impiedosa deciso de Matilde.
         Eles foram caminhando ao longo do lado norte do canteiro da obra,
onde os pedreiros mais talentosos trabalhavam em suas bancadas, lavrando as
pedras com seus martelos e cinzis. Philip parou atrs de um arteso e estudou
seu trabalho. Era um capitel, a pedra larga e saliente que sempre ficava no topo
de uma coluna. Usando um martelo leve e um cinzel pequeno, o arteso estava
cinzelando um desenho de folhas. As folhas eram cortadas fundo, num trabalho
delicado. Para surpresa de Philip, viu que o arteso era o jovem Jack, o enteado
de Tom.
         - Pensei que Jack fosse ainda um aprendiz - disse.
         - E . - Tom seguiu andando, e quando no mais podiam ser ouvidos,
disse: - O garoto  notvel. H homens aqui que vm cinzelando pedra desde que
Jack nasceu, e nenhum consegue se igualar a ele. - Riu, ligeiramente embaraado.
- E no  nem mesmo meu filho!
         O filho de Tom, Alfred, era mestre pedreiro e tinha o prprio grupo de
aprendizes e serventes, mas Philip sabia que eles no executavam o trabalho
delicado. Gostaria de saber como o construtor se sentiria a esse respeito, no
fundo do seu corao.
         A cabea de Tom retornara ao problema do pagamento da licena.
         - Certamente o mercado vai gerar um bocado de dinheiro - disse.
         - Sim, mas no o suficiente. Sero cerca de cinquenta libras por ano no
princpio.
         Tom aquiesceu, melanclico.
         - Ser quase que exatamente o que teremos de pagar pela pedra.
         - Poderamos dar um jeito, se eu no precisasse pagar a Matilde cem
libras.
         - E a l?
         A l que estava se amontoando nos depsitos de Philip seria vendida na
Feira de L de Shiring em poucas semanas, e representava cerca de cem libras.
         -  esse dinheiro que vou usar para pagar  rainha. Mas ento no me
sobrar nada para pagar aos operrios nos prximos doze meses.
         - No pode pedir emprestado?
         - J pedi. Os judeus no me emprestaro mais. Perguntei, quando estava
em Winchester. Eles no emprestam dinheiro se acham que voc no pode
pagar.
         - E Aliena?
         Philip se espantou. No tinha pensado em pedir-lhe dinheiro emprestado.
A jovem tinha ainda mais l que ele em seus depsitos. Aps a feira poderia ter
duzentas libras.
         - Mas ela precisa do dinheiro para viver. E cristos no podem cobrar
juros. Se ela me emprestar o dinheiro no vai ter como negociar. No entanto... -
enquanto falava, Philip comeou a ter uma nova ideia. Lembrou-se de que Aliena
quisera comprar toda a sua produo de l do ano. Talvez eles pudessem
encontrar uma soluo.
         - Acho que falarei com ela, de qualquer modo - disse Philip. - Ser que
est em casa agora?
         - Acho que sim, eu a vi hoje de manh.
         - Vamos, Francis. Voc vai conhecer uma jovem notvel.
         Os dois irmos deixaram Tom e saram apressadamente do adro, indo
para a cidade. Aliena tinha duas casas, uma do lado da outra, encostadas no muro
oeste do priorado. Morava numa e usava a outra como depsito. Estava muito
rica. Tinha que haver um modo de poder ajudar o priorado a pagar a extorsiva
taxa que Matilde cobrara para conceder a licena. Uma vaga idia comeou a
tomar forma na cabea de Philip.
         Aliena estava no depsito, supervisionando a descarga de um carro de
boi carregado com uma pilha enorme de sacos de l. Usava uma capa de brocado,
como a que Matilde vestira na audincia, e seu cabelo estava preso numa touca
branca. Tinha um ar autoritrio, como sempre, e os dois homens que
descarregavam o carro de boi obedeciam s suas ordens sem questionamentos.
Todos a respeitavam, embora - o que era estranho - no tivesse amigos ntimos.
Cumprimentou Philip calorosamente.
         - Quando soubemos da batalha ficamos com medo de que voc pudesse
ter morrido! - disse. Havia real preocupao em seus olhos, e Philip ficou
comovido ao pensar que havia pessoas que tinham se afligido por sua causa.
Apresentou-a a Francis.
         - Conseguiu obter justia em Winchester? - perguntou Aliena.
         - No exatamente - respondeu Philip. - A rainha nos concedeu o
mercado, mas negou a pedreira. Um compensa relativamente o outro. Porm, me
cobrou cem libras pela licena do mercado.
         Aliena ficou chocada.
         - Que horror! Voc lhe disse que a renda se destina  construo da
catedral?
         - Oh, sim.
         - Mas onde vai arranjar cem libras?
         - Achei que voc podia ajudar.
         - Eu? - Aliena levou um susto.
        - Dentro de poucas semanas, depois que vender sua l para os flamengos,
ter duzentas libras ou mais.
        Aliena ficou perturbada.
        - E eu as daria para voc alegremente, mas vou precisar delas para
comprar mais l no ano que vem.
        - Lembra que queria comprar minha l?
        - Sim, mas  demasiado tarde agora. Quis compr-la no incio da estao.
Alm disso, voc mesmo poder vend-la em breve.
        - Eu estava pensando... - disse Philip. - Poderia lhe vender a l do
prximo ano?
        Ela franziu a testa.
        - Mas voc ainda no a tem!
        - No posso vend-la antes de t-la?
        - No vejo como.
        - Simples. Voc me d o dinheiro agora. Eu lhe dou a l dentro de um
ano.
        Evidentemente Aliena no sabia o que dizer daquela proposta: era
diferente de qualquer maneira conhecida de fazer negcio. Era nova para Philip
tambm: ele acabara de invent-la.
        - Eu teria que lhe oferecer um preo um pouco menor do que o que voc
poderia obter, para compensar a espera - disse Aliena, lenta e pensativamente. -
Alm disso, talvez o preo suba at o prximo vero - como tem acontecido
todos os anos, desde que estou neste negcio.
        - Ento perderei um pouco e voc ganhar um pouco disse Philip. - Mas
serei capaz de tocar a obra por mais um ano.
        - E o que far no outro?
        - No sei. Talvez lhe venda antecipadamente a nossa l mais uma vez.
        Aliena aquiesceu.
        - Tem sentido.
        Philip segurou-lhe as mos e fitou-a nos olhos.
        - Se fizer isso, Aliena, salvar a catedral - disse fervorosamente.
        Ela assumiu uma expresso muito solene.
        - Voc me salvou uma vez, no foi?
        - Foi.
        - Ento farei o mesmo por voc.
        - Deus a abenoe! - Num excesso de gratido ele a abraou; depois
lembrou que se tratava de uma mulher e afastou-se rapidamente. - No sei como
lhe agradecer - disse. - J estava comeando a perder o juzo.
        Aliena riu.
        - No estou certa se mereo tanta gratido. Provavelmente me sairei
muito bem com esse trato.
         - Espero que sim.
         - Vamos beber um copo de vinho juntos para selar o compromisso -
disse ela. - S vou pagar ao carroceiro.
         O carro de boi estava vazio, e a l, empilhada cuidadosamente. Philip e
Francis saram, enquanto Aliena acertava as contas com o carroceiro. O sol
estava se pondo e os trabalhadores na construo retornavam para suas casas. A
animao de Philip voltou. Encontrara um modo de continuar, apesar de todos
os percalos.
         - Graas a Deus por Aliena! - disse.
         - Voc no me disse que ela era to bonita - comentou Francis.
         - Bonita? Suponho que seja. Francis riu.
         - Philip, voc  cego! Ela  uma das mulheres mais bonitas que j vi na
vida. Bonita a ponto de fazer um homem desistir do sacerdcio.
         Philip lanou um olhar severo para Francis.
         - Voc no devia falar assim.
         - Desculpe.
         Aliena saiu tambm e trancou o depsito; depois foram todos para a sua
casa. Era grande, com um salo principal e um quarto de dormir separado. Havia
um barril de cerveja a um canto, um presunto inteiro pendurado no teto e uma
toalha de linho branco estendida em cima da mesa. Uma criada de meia-idade
serviu vinho para os convidados em clices de prata. Aliena vivia
confortavelmente. Se  to bonita, pensou Philip, por que no tem marido? No
havia falta de pretendentes: j fora cortejada por todos os homens do condado
em condies de se casar, mas repelira a todos. Philip se sentia to agradecido
que queria que ela fosse feliz.
         A cabea da jovem ainda estava ocupada com assuntos prticos.
         - No terei o dinheiro seno depois da Feira de l de Shiring - disse,
depois que brindaram ao acordo.
         Philip virou-se para Francis.
         - Matilde esperar?
         - Quanto tempo?
         - A feira  trs semanas depois da quinta-feira. Francis fez que sim.
         - Eu lhe falarei. Ela esperar.
         Aliena desamarrou a touca da cabea e soltou o cabelo escuro ondulado.
Deixou escapar um suspiro de cansao.
         - Os dias so demasiadamente curtos! No consigo dar conta de tudo o
que tenho para fazer. Quero comprar mais l, mas tenho que achar carroceiros
em nmero suficiente para transportar tudo para Shiring.
         - E no ano que vem vai ter mais ainda - disse Philip.
         - Gostaria que pudssemos fazer os flamengos virem aqui para comprar.
Seria muito mais fcil para ns do que levar toda a l para Shiring.
        - Mas vocs podem - interps Francis. Ambos olharam para ele.
        - Como? - perguntou Philip.
        - Faam sua prpria feira de l.
        Philip comeou a ver aonde ele queria chegar.
        - Podemos?
        - Matilde lhe deu os mesmos direitos que Shiring. Fui eu mesmo que
escrevi a carta rgia. Se Shiring pode organizar uma feira de l, Kingsbridge
tambm pode.
        - Puxa, seria maravilhoso! - disse Aliena. - No teramos que transportar
toda essa l a Shiring. Faramos todos os negcios aqui e despacharamos a l
diretamente para Flandres.
        - E isso para no falar no resto - disse Philip, entusiasmado. - Uma feira
de l faz tanto dinheiro numa semana quanto um mercado funcionando aos
domingos num ano inteiro. Isso no acontecer este ano,  claro - ningum ter
conhecimento da nossa feira. Mas podemos espalhar a notcia por ocasio da
Feira de Shiring, assegurando-nos de que todos os compradores saibam a data...
        - Far muita diferena para Shiring - comentou Aliena.
        - Voc e eu somos os maiores vendedores de l do condado, e se ambos
nos retirarmos, a feira deles se reduzir a menos da metade do seu atual tamanho.
        - William Hamleigh perder dinheiro - disse Francis. Vai ficar furioso
como um touro.
        Philip no pde evitar um estremecimento de irritao. Um touro furioso
era exatamente o que William era.
        - E da? - disse Aliena. - Se Matilde nos deu permisso, podemos ir em
frente. No h nada que William possa fazer, h?
        - Espero que no - disse Philip fervorosamente. - Espero que no.
        Captulo 10
         O trabalho terminou ao meio-dia no dia de santo Agostinho. A maioria
dos operrios saudou o sino com um suspiro de alvio. Normalmente
trabalhavam do raiar ao pr-do-sol, seis dias por semana, e precisavam do
descanso que tinham nos dias santos. Jack, contudo, estava por demais absorvido
no trabalho para ouvir o sino.
         Fascinava-o o desafio de gravar formas macias e arredondadas na pedra
dura. A pedra tinha vontade prpria; se tentasse fazer algo que ela no queria,
lutaria contra ele, e o cinzel lhe escaparia da mo, ou se enterraria com demasiada
fora, estragando as formas. Mas uma vez que conseguisse conhecer o pedao de
pedra  sua frente, seria capaz de transform-la. Quanto mais difcil a tarefa, mais
fascinado se sentia. Comeou a achar que a talha decorativa imaginada por tom
era fcil demais.
         Ziguezagues, losangos, dentculos, espirais e volutas o entediavam; at
mesmo aquelas folhas eram um tanto desgraciosas e repetitivas. Queria entalhar
folhagem com aspecto natural, flexvel e irregular, e copiar as diferentes formas
de folhas reais, de carvalho, freixo e btula, mas tom no deixava. Desejava acima
de tudo gravar cenas de histrias bblicas. Ado e Eva, Davi e Golias e o dia do
Juzo Final, com monstros, demnios e gente nua, mas no se atrevia a pedir.
         Algum tempo depois Tom o fez parar.
         -  feriado, rapaz - disse. - Alm disso, voc ainda  meu aprendiz e
quero que me ajude a arrumar tudo. Todas as ferramentas tm que estar
guardadas antes da refeio.
         Jack guardou o martelo e os cinzis e depositou cuidadosamente a pedra
em que estivera trabalhando no galpo de Tom; depois foi percorrer a obra com
ele. Os outros aprendizes estavam arrumando tudo e varrendo os fragmentos de
pedra, areia, torres de massa seca e cavacos de madeira que juncavam o cho.
tom apanhou seus compassos e o nvel, Jack, as medidas de comprimento
menores e os fios de prumo, e, juntos, os dois levaram tudo para o depsito.
         Era ali que Tom guardava suas varas de medida. Eram barras de ferro de
seo quadrangular e absolutamente retas, todas exatamente do mesmo tamanho.
Eram guardadas num suporte especial de madeira, que estava trancado.
         Enquanto continuavam a caminhar pela obra, apanhando pranchas de
mexer massa e ps, Jack pensava nelas.
         - Qual  o tamanho de uma vara? - perguntou. Alguns pedreiros ouviram
e deram risada. Frequentemente achavam engraadas as perguntas de Jack.
         - Uma vara  uma vara - disse Edward Baixo, um homem pequeno de
pele enrugada e nariz torto. Todos riram de novo.
         Eles gostavam de provocar os aprendizes, sobretudo quando tinham
chance de exibir seu conhecimento. Jack detestava que rissem dele, mas
aguentava firme porque era muito curioso.
         - No compreendo - disse pacientemente.
         - Uma polegada  uma polegada, um p  um p e uma vara  uma vara -
disse Edward.
         Ento a vara era uma unidade de comprimento.
         - E quantos ps h numa vara?
         - Ah! Isto depende. Dezoito, em Lincoln. Dezesseis, na Anglia Oriental.
         Tom interrompeu para dar uma resposta sensata.
         - Nesta obra uma vara tem quinze ps.
         - Em Paris no usam a vara, s a medida de uma jarda - disse uma mulher
de meia-idade, que tambm trabalhava na construo.
         Tom dirigiu-se a Jack.
         - Todo o projeto da igreja  baseado em varas. Apanhe uma para mim
que lhe mostrarei. Est na hora de voc entender essas coisas. - Deu uma chave a
Jack.
         O rapaz foi at o depsito e apanhou uma vara na prateleira. Era bastante
pesada. Tom gostava de dar explicaes, e Jack adorava ouvir. A organizao do
canteiro da obra tinha um padro intrigante, como a trama de um casaco de
brocado, e quanto mais entendia, mais fascinado ficava.
         Tom o esperava na extremidade aberta do coro semiconstrudo, onde
seria a interseo da nave com os transeptos. Ele pegou a vara e a colocou no
cho, de modo a atravessar todo o corredor.
         - Da parede externa at a metade do pilar da arcada  uma vara. - Ele
virou o instrumento. - Dali at o meio da nave  uma vara. - Ele o virou mais
uma vez, alcanando a metade do pilar oposto. - A nave tem duas varas de
largura. - Tom repetiu a operao e dessa vez foi at a parede da nave lateral mais
afastada. - A igreja toda tem quatro varas de largura.
         - Sim - disse Jack. - E cada intercolnio tem que ter uma vara de
comprimento.
         Tom pareceu ficar ligeiramente irritado.
         - Quem foi que lhe disse isto?
         - Ningum. Os intercolnios so quadrados, de modo que, se tm uma
vara de comprimento, tm que ter uma vara de largura. E os intercolnios da
nave so do mesmo tamanho dos das naves laterais,  claro.
         - Evidentemente - concordou Tom. - Voc devia ser filsofo. - Na sua
voz havia uma mistura de orgulho e irritao. Gostava que Jack fosse rpido para
entender, e se irritava ao ver os mistrios do seu ofcio serem entendidos com
tanta facilidade por um mero garoto.
         Jack estava demasiado absorvido pela esplndida lgica de tudo aquilo
para prestar ateno s suscetibilidades de Tom.
         - Ento o coro tem quatro varas de comprimento - disse. - E a igreja,
quando pronta, ter doze. - Outra ideia lhe ocorreu. - Quanto ter de altura?
         - Seis varas. Trs para a arcada, uma para a galeria e duas para o
clerestrio.
         - Mas qual a vantagem de planejar tudo medido por varas? Por que no
construir de qualquer maneira, como numa casa.
         - Primeiro porque  mais barato assim. Todos os arcos da arcada so
idnticos, e assim podemos reutilizar as formas de madeira. Quanto menos
tamanhos diferentes e formatos de pedras, menos gabaritos terei que fazer. E
assim por diante. Segundo, simplifica cada um dos aspectos daquilo que estamos
fazendo, desde a planta baixa original - onde tudo  baseado numa vara quadrada
- at a pintura das paredes - ser mais fcil estimar de quanta cal precisaremos. E
quando as coisas so simples, menos erros so cometidos. O que mais encarece
uma construo so os erros. Terceiro, quando tudo  baseado no comprimento
de uma vara, a igreja parece simplesmente certa. A proporo  a essncia da
beleza.
         Jack assentiu, encantado. O esforo para controlar uma operao to
ambiciosa e complicada quanto a construo de uma catedral era
interminavelmente fascinante.
         A noo de que os princpios da regularidade e da repetio podiam
simplificar a construo e resultar numa obra harmoniosa era sedutora. Mas no
estava convicto de que a proporo fosse a essncia da beleza. Gostava de coisas
selvagens, que se espalhassem, desordenadas: altas montanhas, velhos carvalhos,
e o cabelo de Aliena.
         Comeu vida mas rapidamente e depois foi para a aldeia, na direo
norte. Era um dia quente de incio de vero, e estava descalo. Desde que ele e
sua me tinham ido morar em Kingsbridge definitivamente e comeara a
trabalhar, gostava de voltar  floresta de vez em quando. A princpio passava o
tempo liberando a energia que sobrava, correndo e pulando, trepando em rvores
e matando patos com sua funda. Isso enquanto estava se acostumando com seu
novo corpo, mais alto e mais forte.
         A novidade acabara por cansar. Agora, quando ia  floresta, pensava em
coisas: por que a proporo devia ser bonita, como os edifcios no caam, e que
tal seria acariciar os seios de Aliena.
         H anos a adorava a distncia. A viso permanente que tinha dela era a da
primeira vez em que a encontrara, descendo a escada no castelo em Earlscastle, e
ele pensara que devia ser a princesa de uma histria. Aliena continuara sendo
uma figura remota. Falava com o prior Philip, com Tom Construtor, com o
judeu Malachi e com outras pessoas ricas e poderosas de Kingsbridge; porm,
Jack nunca tivera um motivo para lhe dirigir a palavra. Simplesmente a observava,
rezando na igreja, ou atravessando a ponte montada no seu palafrm, sentada ao
sol, do lado de fora da sua casa; usando peles caras no inverno e os mais finos
linhos no vero, com o cabelo rebelde emoldurando o lindo rosto. Antes de
dormir pensava em como seria tirar suas roupas, v-la nua e beijar-lhe
delicadamente a boca.
         Nas ltimas semanas tornara-se insatisfeito e deprimido com esses
devaneios sem esperana. O fato de v-la a distncia, ouvir suas conversas com
os outros e imaginar-se fazendo amor com ela no mais o satisfazia. Precisava de
coisas concretas.
         Havia diversas garotas de sua prpria idade que poderiam lhe dar coisas
concretas. Entre os aprendizes havia muita conversa sobre quais das jovens de
Kingsbridge eram lascivas e sobre o que exatamente cada uma delas deixava um
rapaz fazer.
         A maioria estava determinada a permanecer virgem at o casamento, de
acordo com os ensinamentos da Igreja, mas havia certas coisas que se podiam
fazer e ainda assim se continuar virgem, ou pelo menos era o que os aprendizes
diziam. Todas as garotas achavam Jack um pouco estranho - e provavelmente
estavam certas, na opinio dele prprio, mas uma ou duas haviam considerado tal
estranheza atraente. Um domingo, aps a missa, ele ficara conversando com
Edith, irm de um colega; porm, quando dissera quanto gostava de cinzelar
pedra, ela cara na risada. No domingo seguinte fora passear nos campos com
Ann, a loura filha do alfaiate. No lhe dissera muitas coisas, mas a beijara e
depois sugerira que se deitassem num campo de cevada. Ento a beijara outra
vez, passara a mo nos seus seios, e ela retribura o beijo entusiasticamente; aps
algum tempo, contudo, afastara-se e perguntara: "Quem  ela?" Jack estava
pensando em Aliena naquele exato momento e ficou estupefato. Tentou fingir
que no ligara e quis beij-la de novo, mas ela virou o rosto e disse: "Quem quer
que seja,  uma garota de sorte". Voltaram juntos para Kingsbridge, e quando se
separaram, Ann disse: "No perca seu tempo tentando esquec-la.
          uma causa perdida.
          ela quem voc quer, de modo que o melhor  tentar conquist-la". Ela
sorriu afetuosamente e acrescentou: "Voc tem o rosto bonito. Pode ser que no
seja to difcil quanto pensa".
         Sua delicadeza fez com que ele se sentisse mal, ainda mais porque, sendo
uma das garotas que os aprendizes diziam ser libidinosa, ele dissera a todo
mundo que ia tentar apalp-la. Agora isso lhe parecia to juvenil que se retorceu
de raiva. Mas se lhe houvesse dito o nome da mulher em que pensava, talvez no
tivesse se mostrado to encorajadora. Jack e Aliena eram o casal mais improvvel
que se podia conceber. Aliena tinha vinte e dois anos, e ele, dezessete; ela era
filha de um conde, e ele, bastardo; ela era uma rica comerciante de l, e ele, um
aprendiz sem dinheiro. Pior ainda, ela era famosa pelo nmero de pretendentes
que rejeitara. Todos os jovens lordes apresentveis do condado e os
primognitos dos comerciantes mais prsperos tinham ido a Kingsbridge para
lhe fazer a corte, e todos voltaram a suas casas desapontados. Que chance haveria
para Jack, sem nada para oferecer, a no ser o "rosto bonito"?
         Ele e Aliena tinham uma coisa em comum: gostavam da floresta. Eram
diferentes, nesse aspecto: a maioria das pessoas preferia a segurana dos campos
e das aldeias, e mantinha-se distante das florestas. Mas Aliena frequentemente ia
caminhar num bosque perto de Kingsbridge, onde havia um lugar afastado em
que gostava de parar e se sentar. Jack a vira ali uma ou duas vezes. Aliena no o
tinha visto: ele caminhava silenciosamente, como aprendera em criana, no
tempo em que era preciso encontrar seu almoo na floresta.
         Dirigia-se para a tal clareira sem a menor ideia do que faria se a
encontrasse. Sabia qual era seu desejo: deitar-se ao seu lado e acariciar-lhe o
corpo. Podia lhe falar, mas o que iria dizer? Era fcil conversar com garotas da
sua idade. Brincara com Edith, dizendo: "No acredito em nenhuma das coisas
terrveis que seus irmos contam de voc", e  claro que ela quisera saber que
coisas terrveis eles falavam. com Ann fora direto: "Voc gostaria de passear
comigo nos campos, hoje  tarde?" Entretanto, quando tentara imaginar uma
frase de abordagem para Aliena, dera um branco na sua cabea. No podia deixar
de pensar nela como pertencendo a uma gerao mais velha. Era to sria e
responsvel! No fora sempre assim, ele sabia; com dezessete anos Aliena
gostava de brincar. Sofrera terrveis problemas desde ento, mas a garota
brincalhona ainda devia se esconder em algum lugar no interior da mulher solene.
Para Jack isso a tornava ainda mais fascinante.
         Faltava pouco para o lugar favorito de Aliena. A floresta estava quieta, na
hora mais quente do dia. Jack deslocou-se silenciosamente por baixo das rvores.
Queria v-la antes que ela o visse. Ainda no estava seguro se teria coragem para
abordla. Acima de tudo temia ofend-la. Falara com ela no primeiro dia do seu
retorno a Kingsbridge, no domingo de Pentecostes em que todos os voluntrios
foram trabalhar na obra da catedral, e lhe dissera a coisa errada; por isso ele mal
lhe dirigira de novo a palavra naqueles quatro anos. No queria cometer um erro
to grosseiro quanto aquele agora.
         Poucos momentos depois se escondeu atrs do tronco de uma faia e a
viu.
         Aliena escolhera um lugar extraordinariamente bonito. Havia uma
pequena queda d'gua escorrendo para um laguinho fundo cercado de pedras
cobertas de limo. o sol brilhava nas suas margens, mas uma ou duas jardas atrs
havia a sombra das arvores. Aliena estava sentada ao sol, lendo um livro.
         Jack ficou atnito. Uma mulher? Lendo um livro? Ao ar livre? As nicas
pessoas que liam livros eram os monges, e mesmo assim muitos nada liam a no
ser os textos dos cultos. Era um livro pouco comum tambm - muito menor que
os tomos que havia na biblioteca do priorado, como se tivesse sido feito
especialmente para uma mulher, ou para algum que o quisesse carregar. Ficou
to espantado que se esqueceu de ser tmido. Abriu caminho por entre os
arbustos e apareceu na clareira, perguntando:
         - O que voc est lendo?
         Ela se sobressaltou e encarou-o com terror nos olhos. Jack percebeu que
a assustara. Sentiu-se muito desajeitado, com medo de mais uma vez ter
comeado com o p esquerdo. Aliena levou depressa a mo direita  manga
esquerda. Ele se lembrou que antigamente era onde carregava uma faca - talvez
ainda fosse. No momento seguinte
         Aliena o reconheceu, e seu medo desapareceu com a mesma rapidez com
que surgira. Pareceu aliviada, e, logo em seguida - para mortificao de Jack -,
levemente irritada. Sentiu que no era bem-vindo e teve vontade de se virar e
desaparecer na floresta. Mas como isso tornaria muito difcil falar com ela outra
vez, ele ficou, enfrentando seu olhar nada amistoso, e disse:
         - Desculpe por ter assustado voc.
         - Voc no me assustou - contraps Aliena rapidamente. Jack sabia que
no era verdade, mas no ia discutir. Repetiu a pergunta inicial:
         - O que est lendo?
         Ela deu uma olhada no livro sobre os joelhos e a expresso do seu rosto
se modificou de novo: ficou tristonha.
         - Meu pai me trouxe este livro de sua ltima viagem  Normandia.
Poucos dias depois foi preso.
         Jack aproximou-se mais e deu uma olhada na pgina aberta.
         -  em francs! - exclamou.
         - Como voc sabe? - quis saber ela, espantada. - Sabe ler?
         - Sei, mas pensava que todos os livros fossem em latim.
         - Quase todos. Este  diferente.  um poema chamado O romance de
Alexandre.
         Consegui, estou falando com ela!, pensava Jack.  maravilhoso! Mas o
que vou dizer a seguir? Como sustentar esta conversao?
         - Hum, bem... de que se trata? - perguntou.
         -  a histria de um rei chamado Alexandre, o Grande, e de como ele
conquistou terras maravilhosas no Oriente, onde as pedras preciosas crescem em
videiras e as plantas podem falar.
         Jack ficou suficientemente intrigado para esquecer a ansiedade.
         - Como as plantas falam? Elas tm boca?
         - Aqui no diz.
         - Voc acha que a histria  verdadeira?
         Ela o fitou, com interesse, e ele se perdeu naqueles lindos olhos escuros.
         - No sei - respondeu. - Sempre fico pensando se as histrias so
verdadeiras ou no. A maioria das pessoas no liga, simplesmente gosta delas.
         - Exceto os padres. Eles acham sempre que as histrias sagradas so
verdadeiras.
         - Bem, mas  claro que essas so verdadeiras.
         Jack era ctico em relao  veracidade das histrias sagradas tanto
quanto em relao s demais; mas sua me, que o ensinara a ser ctico, o ensinara
tambm a ser discreto, de modo que no discutiu. Estava tentando no olhar
para o colo de Aliena, bem no limite de sua viso; claro que se baixasse os olhos
ela saberia o que estaria fitando. Tentou pensar em outra coisa qualquer para
dizer.
         - Sei um bocado de histrias - afirmou. - Sei A cano de Rolando, e A
peregrinao de Guilherme de Orange...
         - O que quer dizer com saber essas histrias?
         - Sou capaz de recit-las.
         - Como um menestrel?
         - O que  um menestrel?
         - Um homem que anda por a contando histrias. Era uma ideia nova
para Jack.
         - Nunca ouvi falar em homens assim.
         - H muitos na Frana. Eu costumava ir  Frana com meu pai quando
era criana. Adorava os menestris.
         - Mas o que eles fazem? Ficam parados no meio da rua e falam?
         - Depende. So admitidos nas casas dos lordes em dias de festa.
Apresentam-se em mercados e feiras. Entretm os peregrinos do lado de fora das
igrejas. Os grandes bares s vezes tm o seu prprio menestrel.
         Ocorreu a Jack que no apenas estava conversando com ela, mas que
aquela conversa no seria possvel com nenhuma outra garota de Kingsbridge.
Tinha certeza de que ele e Aliena eram as nicas pessoas na cidade, com exceo
de sua me, que conheciam os poemas romnticos franceses. Tinham um
interesse em comum e estavam conversando sobre ele. A ideia o entusiasmou
tanto que ele perdeu o fio da meada, esqueceu o que estava dizendo e se sentiu
confuso e estpido.
         Por sorte ela prosseguiu.
         - Geralmente o menestrel toca um violino enquanto recita a histria.
Toca rpido e alto quando fala numa batalha, baixo e devagar quando duas
pessoas esto apaixonadas, aos saltos nas partes engraadas.
         Jack gostou da idia: msica de fundo para sublinhar os pontos altos da
histria.
         - Eu gostaria de saber tocar violino - disse ele.
         - Voc sabe mesmo recitar histrias?
         Ele mal podia crer que ela estivesse realmente interessada, fazendo
perguntas a seu respeito. E o seu rosto era ainda mais lindo quando animado pela
curiosidade.
        - Minha me me ensinou - disse. - Ns morvamos na floresta, s ns
dois. Ela me contou as histrias um sem-nmero de vezes.
        - Mas como voc consegue se lembrar delas? Algumas levam dias para
chegarem ao fim.
        - No sei.  como aprender um caminho na floresta. Voc no guarda
toda a floresta na cabea, mas, em qualquer lugar que esteja, sabe aonde ir em
seguida. - Dando uma olhada no texto do livro dela, Jack percebeu uma coisa.
Sentou-se na grama ao lado de Aliena para olhar mais de perto. - As rimas so
diferentes - disse.
        Ela no entendeu direito o que ele quis dizer.
        - De que maneira?
        - Essas so melhores. Em A cano de Rolando a palavra "espada" rima
com "cavalo", ou "perdido", ou "baile". No seu livro, "espada" rima com "fada",
mas no com "fala"; com "nada", mas no com "ningum"; com "amada", mas
no com "amor".  um modo completamente diferente de rimar. Mas  muito,
muito melhor. Gosto dessas rimas.
        - Ser que voc... - ela interrompeu-se, hesitante. - Voc me contaria um
pedao da Cano de Rolando!
        Jack mudou de posio um pouco para poder fit-la. A intensidade do
seu olhar e o brilho da ansiedade naqueles olhos fascinantes quase o deixaram
sem poder respirar.
        Engoliu em seco e comeou.

        "O lorde e rei de toda a Frana, Carlos, o Grande,
        Passou sete longos anos lutando na Espanha.
        Conquistou as montanhas e a plancie.
        Diante dele nem um nico forte fica de p,
        Nenhuma cidade ou muralha a ele resiste,
        A no ser Saragoa, numa montanha alta,
        Governada pelo rei Marsilly, o Sarraceno.
        Ele serve a Maom e reza a Apolo,
        Mas mesmo ali nunca estar em segurana."

         Jack fez uma pausa.
         - Voc sabe! Voc sabe mesmo! Igualzinho a um menestrel!
         - Entendeu o que falei sobre as rimas, no?
         - Sim, mas no faz mal;  a histria que gosto. Os olhos dela cintilaram de
felicidade.
         - Conte-me mais.
         Jack teve a impresso de que ia desmaiar de felicidade.
         - J que voc quer... - disse, baixinho. Fitou-a nos olhos e comeou a
segunda estrofe.

        A primeira brincadeira da festa que celebrava a vspera do solstcio de
vero era comer o po do quantos. Como muitos desses jogos, tinha um travo de
superstio que deixava Philip contrafeito. No entanto, se tentasse banir todos os
rituais derivados das antigas religies, metade das tradies do povo seria
proibida, e, de qualquer forma, todos o desafiariam; assim, tolerava discretamente
a maioria das coisas e controlava com firmeza um ou dois excessos.
        Os monges tinham instalado mesas no gramado situado na extremidade
ocidental do adro. Ajudantes de cozinha j carregavam caldeires fumegantes. O
prior era o lorde da propriedade, de modo que tinha a responsabilidade de servir
um banquete para os seus inquilinos nos feriados importantes. A poltica de
Philip era ser generoso com a comida e mesquinho com a bebida, e por isso
servia cerveja aguada e nenhum vinho. Mesmo assim, havia cinco ou seis
incorrigveis que conseguiam beber at desmaiar em todos os dias de festa.
        Os principais cidados de Kingsbridge se sentavam  mesa de Philip:
Tom Construtor e sua famlia; os mestres artesos mais velhos, entre eles o filho
de Tom, Alfred; e os comerciantes, inclusive Aliena, mas no Malachi, o Judeu,
que se incorporaria s festividades mais tarde, aps o culto religioso.
        Philip pediu silncio e deu graas; depois entregou o po do quantos a
Tom.  medida que os anos se passavam, mais e mais Philip valorizava o
construtor. No havia muitas pessoas que diziam o que pensavam e que faziam o
que diziam. Tom reagia a surpresas, crises e desastres analisando com calma as
consequncias, avaliando os danos e planejando a melhor reao. Philip olhou
para ele afetuosamente. Tom se tornara bem diferente do homem que aparecera
no priorado cinco anos antes implorando trabalho. Naquele dia estava exausto,
perturbado, e to magro que seus ossos pareciam prestes a furar a pele curtida.
Desde ento ele ganhara peso, especialmente depois que sua mulher voltara. No
estava gordo, mas agora via-se carne na sua grande estrutura, e h muito tempo o
desespero desaparecera dos seus olhos. Estava dispendiosamente vestido, de
tnica verde de Lincoln, sapatos de couro macio e cinto com fivela de prata.
        Philip tinha que fazer a pergunta que seria respondida pelo po do
quantos:
        - Quantos anos vai levar para terminar a catedral?
        Tom deu uma mordida no po. Ele era assado com sementes pequenas e
duras, e quando Tom as cuspiu na mo, todos contaram em voz alta. s vezes,
quando o nmero de sementes era muito elevado, os circunstantes no sabiam
contar tudo; porm no havia mais perigo de ocorrer isso, com todos os
comerciantes e artesos presentes.
        A resposta foi trinta. Philip fingiu ficar consternado.
        - Vou ter que viver um bocado de tempo! - disse Tom, e todos riram.
         O construtor passou o po para sua mulher, Ellen. O prior desconfiava
muito daquela mulher. Como Matilde, Ellen tinha poder sobre os homens, um
tipo de poder com que Philip no podia competir. No dia em que fora expulsa
do priorado, ela fizera uma coisa horrorosa, uma coisa a respeito da qual o prior
ainda no podia nem pensar.
         Presumira que jamais a veria de novo, mas para seu horror ela voltara e
Tom lhe implorara para perdo-la. Astutamente, ele argumentara que se Deus
podia perdoar seu pecado, Philip no tinha o direito de recusar-lhe a absolvio.
O prior suspeitava que ela no se arrependera muito. Entretanto, Tom lhe fizera
o pedido no dia em que os voluntrios tinham aparecido e salvado a catedral, e
Philip acabara cedendo, contrariando todos os seus instintos. Haviam se casado
na igreja da parquia, uma pequena construo de madeira na aldeia, mais antiga
que o priorado. Desde ento Ellen se comportara e no dera motivo a Philip para
se arrepender da deciso.
         Mesmo assim, ela o deixava inquieto.
         - Quantos homens a amam? - perguntou Tom.
         Ela deu uma mordida minscula no po, o que fez todo mundo rir de
novo. Naquele jogo as perguntas tendiam a ser levemente sugestivas. Philip
achou que se no estivesse presente eles se comportariam com mais irreverncia.
         Ellen contou trs sementes. Tom fingiu estar se sentindo ultrajado.
         - Eu lhe direi quem so os meus trs amantes - disse Ellen. Philip torceu
para que ela no dissesse nada ofensivo. - O primeiro  Tom. O segundo, Jack. E
o terceiro, Alfred.
         Houve uma salva de palmas pela sada inteligente, e o po foi passado
adiante. A seguir era a vez de Martha, a filha de Tom. Estava com doze anos de
idade e era tmida. O po predisse que teria trs maridos, o que era altamente
improvvel.
         Martha passou o po para Jack, e nessa hora Philip viu um brilho de
adorao nos olhos da garota; no havia dvida de que idolatrava o filho da
madrasta como quem adorava um heri.
         Jack intrigava o prior. Fora uma criana feia, de cabelo cor de cenoura,
pele branca e olhos azuis arregalados, mas agora era um rapaz cujas feies
tinham se harmonizado, e seu rosto era to atraente que fazia estranhos se
virarem para olh-lo. Mas de temperamento era to selvagem quanto a me.
Tinha muito pouca disciplina e nenhuma idia de obedincia. Como servente de
pedreiro fora quase intil, pois em vez de assegurar um fluxo contnuo de massa
e pedras, tentava empilhar o suprimento de um dia e ia fazer outra coisa
qualquer. Estava sempre desaparecendo. Um dia decidiu que nenhuma das
pedras que havia ali no canteiro da obra servia para um determinado trabalho de
cinzelagem que estava fazendo, e, sem falar com ningum, fora at a pedreira
escolher uma de que gostasse. Trouxe-a num pnei emprestado, dois dias mais
tarde. Mas desculpavam suas transgresses, em parte porque ele era
verdadeiramente um gravador excepcional, e em parte porque era uma pessoa de
quem todos gostavam - uma caracterstica que, em definitivo, no herdara da
me, na opinio de Philip. O prior andara pensando no que Jack faria da vida. Se
entrasse para a igreja poderia facilmente terminar como bispo.
         - Quantos anos se passaro at voc se casar? - perguntou Martha a Jack.
         O rapaz deu uma mordida pequena: aparentemente estava interessado em
se casar. Philip perguntou-se se teria algum em mente. Para clara consternao
dele, sua boca se encheu de sementes, e quando foram contadas, seu rosto se
transformou numa mscara de indignao. O total foi trinta e um.
         - Estarei com quarenta e oito anos de idade! - protestou. Todos acharam
muito engraado, exceto Philip, que fez o clculo, achou correto e maravilhou-se
com o fato de Jack t-lo realizado to depressa. Nem mesmo Milius, que tomava
conta do dinheiro do priorado, seria capaz daquilo.
         Jack estava sentado ao lado de Aliena. Philip se deu conta de que tinha
visto os dois juntos diversas vezes naquele vero. Provavelmente era por serem
to inteligentes.
         No havia muitas pessoas em Kingsbridge que pudessem conversar com
Aliena no nvel dela; e Jack, apesar de seus modos rebeldes, era mais
amadurecido que os outros aprendizes. Ainda assim, sentiu-se intrigado com a
amizade deles, pois, naquela idade, cinco anos faziam uma grande diferena.
         Jack passou o po para Aliena e lhe fez a pergunta que Martha lhe fizera:
         - Quantos anos se passaro at voc se casar? Todos resmungaram,
reclamando, pois era muito fcil repetir uma pergunta. O jogo visava ser uma
prova de inteligncia, dando ensejo a muitas zombarias. Mas Aliena, que era
famosa pelo nmero de pretendentes que rejeitara, fez com que todos rissem
dando uma mordida enorme no po, indicando assim que no queria se casar.
Entretanto, seu truque no teve xito: cuspiu apenas uma semente.
         Se ela fosse se casar no ano seguinte, pensou Philip, o noivo ainda no
fizera sua entrada em cena. Claro que ele no acreditava no poder de predio do
po. Provavelmente morreria solteirona - mas no virgem, de acordo com os
boatos, pois fora seduzida ou estuprada por William Hamleigh, segundo dizia o
povo.
         Aliena passou o po para Richard, seu irmo, mas o prior no ouviu o
que lhe perguntou. Ainda estava pensando nela. Inesperadamente, tanto Aliena
quanto o prprio Philip no tinham vendido toda a l naquele ano. A sobra no
fora grande - menos de um dcimo do estoque do prior, e uma proporo ,
menor ainda para Aliena -, mas mesmo assim era desencorajador. Depois disso,
Philip receara que Aliena no cumprisse o trato referente  l do ano seguinte; ela
porm lhe pagara cento e sete libras.
         A grande notcia na Feira de L de Shiring fora o anncio feito por Philip
de que no ano seguinte Kingsbridge teria sua prpria feira. A maioria das pessoas
gostara da idia, pois os aluguis e taxas cobrados por William Hamleigh eram
extorsivos, e o prior planejava cobrar preos muito mais baixos. At agora o
conde Williamno dera a conhecer sua reao.
        De um modo geral, Philip achava que as perspectivas do priorado eram
muito mais brilhantes agora do que haviam sido seis meses antes. Sobrepujara o
problema causado pelo fechamento da pedreira e derrotara a tentativa de William
de fechar o seu mercado. O mercado de domingo agora prosperava de novo e
gerava dinheiro suficiente para comprar uma pedra cara, extrada em
Marlborough. Durante toda a crise, a construo da catedral continuara
inalterada, embora praticamente sem sobras. A nica ansiedade remanescente de
Philip era Matilde ainda no ter sido coroada. Embora fosse indiscutvel que
estivesse no comando, tendo sido aprovada pelos bispos, a autoridade dela se
apoiava exclusivamente no seu poder militar, at haver uma coroao adequada.
A mulher de Estvo ainda controlava Kent, e a comuna de Londres no se
definira. Um nico golpe de azar ou uma deciso errada poderia derrub-la,
como a batalha de Lincoln destrura Estvo, e ento haveria anarquia de novo.
        Philip disse a si prprio para no ser pessimista. Olhou para as pessoas
sentadas  mesa. O jogo terminara e estavam comendo. Eram homens e
mulheres honestos e de bom corao, que trabalhavam duro e iam  igreja. Deus
olharia por eles. A comida era sopa de verduras, peixe assado temperado com
pimenta e gengibre, pato e um creme habilmente colorido com listras vermelhas
e verdes. Aps o jantar todos carregaram seus bancos para a igreja inacabada, a
fim de assistir  pea.
        Os carpinteiros tinham feito dois biombos, que foram colocados nas
naves laterais, fechando o espao entre a parede e a primeira pilastra da arcada,
de modo que escondiam efetivamente o ltimo intercolnio de cada nave lateral.
Os monges que representariam os papis j estavam atrs dos biombos,
aguardando o momento de entrar no meio da nave e encenar a histria. O que
faria o papel de santo Adolfo, um novio imberbe de rosto angelical, estava
deitado sobre uma mesa no lado mais afastado da nave, enrolado numa mortalha,
fingindo estar morto e se esforando para no rir.
        A mesma dvida que assaltava Philip com relao ao po do quantos o
assaltava tambm com relao a representaes teatrais: era possvel escorregar
facilmente para a irreverncia e a vulgaridade. Mas todos gostavam tanto que, se
no permitisse, representariam sua prpria pea, longe da igreja, e a sim, livres da
superviso dele, a coisa ficaria mesmo indecente. Alm disso, quem mais gostava
do teatro eram os monges que trabalhavam como atores. Vestir roupas
diferentes, fingir ser outra pessoa e agir de modo extravagante - at mesmo
sacrlego parecia lhes servir de vlvula de escape, provavelmente por passarem o
resto da vida sendo to solenes.
        Antes da pea tiveram um culto regular, que o sacristo tornou bastante
breve. Em seguida Philip fez um relato sucinto da vida imaculada e dos milagres
de santo Adolfo. Depois sentou-se junto com a plateia para assistir ao espetculo.
        De trs do biombo do lado esquerdo surgiu uma figura grande, vestida
com o que parecia ser um traje sem forma e alegremente colorido, mas que, se
examinado com mais ateno, no passava de pedaos de pano coloridos
enrolados em torno do seu corpo e presos com alfinetes. Seu rosto estava
pintado, e carregava uma bolsa de dinheiro bojuda. Era o brbaro rico. Houve
um murmrio de admirao pela composio do ator, seguido por risadas
quando a plateia descobriu quem estava por baixo da roupa do personagem: o
gordo irmo Bernard, o cozinheiro, que todos conheciam e amavam.
        Ele desfilou de um lado para o outro diversas vezes, a fim de que todos
pudessem admir-lo, e correu na direo de umas criancinhas na primeira fila,
causando gritinhos de medo; depois esgueirou-se na direo do altar, olhando em
torno como que para se certificar de que estava sozinho, e colocou a bolsa de
dinheiro atrs dele. Virou-se para a platia, lanou um olhar de soslaio e disse,
bem alto:
        - Esses tolos cristos vo ficar com medo de roubar minha prata, porque
imaginam que est protegida por santo Adolfo. Ah! - E com isso desapareceu
atrs do biombo.
        Do lado oposto entrou um grupo de fora-da-lei, vestindo roupas
esfarrapadas, com espadas e machadinhas de madeira, as caras sujas de fuligem e
giz. Andaram pela nave, parecendo atemorizados, at que um deles viu a bolsa de
dinheiro atrs do altar. Seguiu-se uma discusso: deveriam furt-la ou no? O
bom Fora-da-Lei alegou que a bolsa certamente lhes traria m sorte; o Mau Fora-
da-Lei disse que um santo morto no lhes poderia causar mal algum. No final
eles pegaram a bolsa e se retiraram para um canto a fim de contar o dinheiro.
        O brbaro reapareceu e, depois de procurar seu tesouro em toda parte,
afastou-se num ataque de raiva. Foi at o tmulo e amaldioou santo Adolfo por
no ter protegido o seu dinheiro.
        Nesse ponto, o santo levantou-se da tumba.
        O brbaro tremeu violentamente de medo. O santo ignorou-o e
aproximou-se dos proscritos. Dramaticamente, derrubouos um por um, apenas
apontando para eles, que simularam as convulses da agonia, rolando no cho de
forma grotesca e fazendo caretas horrorosas.
        Foi poupado apenas o bom Fora-da-Lei, que ps o dinheiro de volta
atrs do altar. com isso, o santo se virou para a audincia e disse:
        - Cuidado, todos vocs que duvidam do poder de santo Adolfo!
        A platia gritou entusiasmada e bateu palmas. Os atores ficaram no meio
da nave por algum tempo, exibindo sorrisos alvares. O propsito do drama era
sua moral, claro, mas Philip sabia que as partes de que todos gostavam mais eram
as grotescas, o ataque de raiva do brbaro e as convulses da morte dos fora-da-
lei.
         Quando os aplausos cessaram, Philip levantou-se, agradeceu aos atores e
anunciou que as corridas comeariam dentro de pouco tempo no pasto ao lado
do rio.
         Foi naquele dia que Jonathan, aos cinco anos de idade, descobriu que no
era, afinal, o corredor mais veloz de Kingsbridge. Entrou na corrida infantil,
envergando seu hbito de monge em miniatura, e fez com que todos cassem na
gargalhada quando o enrolou na cintura e exps o traseiro minsculo ao mundo.
Estava, contudo, competindo entre crianas mais velhas e terminou entre os
ltimos. Sua expresso quando percebeu que tinha perdido foi de to grande
desapontamento que Tom morreu de pena e o pegou no colo para consol-lo.
         O relacionamento especial entre Tom e o rfo do priorado intensificara-
se gradualmente, e ningum na aldeia se perguntava se no haveria uma razo
secreta para aquilo. O construtor passava o dia inteiro no adro, onde Jonathan
corria de um lado para o outro em liberdade, de modo que era inevitvel que se
vissem muito; e Tom estava naquela idade em que os filhos so muito velhos
para serem engraadinhos mas ainda no deram netos ao pai, que s vezes se
interessa pelos filhos dos outros. Pelo que sabia, ningum jamais suspeitara que
ele fosse o pai de Jonathan. Se houvesse alguma suspeita, seria de Philip ser o pai
verdadeiro do garoto. Uma suposio muito mais natural - embora o prior, sem
dvida, ficaria horrorizado se tomasse conhecimento dela.
         Jonathan localizou Aaron, o filho mais velho de Malachi, e livrou-se dos
braos de Tom para ir brincar com seu amigo, o desapontamento esquecido.
         Enquanto as corridas dos aprendizes estavam sendo disputadas, o prior
sentou-se na grama ao lado de Tom. Era um dia quente e ensolarado, e a tonsura
de Philip estava coberta de gotas de suor. A admirao de Tom por ele crescia de
ano para ano. Olhando em torno, os rapazes correndo, os velhos cochilando 
sombra, as crianas chapinhando no rio, ele pensou que era Philip quem
conservara tudo aquilo junto. Ele governava a aldeia, distribuindo justia,
decidindo onde deveriam ser construdas as casas novas e resolvendo brigas;
empregava tambm a maior parte dos homens e das mulheres, como operrios
da obra ou como criados do priorado; e administrava o mosteiro, que era o
corao de tudo. Lutou com bares ambiciosos, negociou com reis, e manteve o
bispo a distncia. Todas aquelas pessoas bem alimentadas, divertindo-se ao sol,
deviam sua prosperidade, de alguma maneira, a ele. O prprio Tom era um
magnfico exemplo.
         Tom era perfeitamente cnscio da profundidade da clemncia de Philip
ao perdoar Ellen. Era uma coisa extraordinria para um monge perdoar o que ela
fizera. E o significado fora to grande para ele!
         Quando Ellen partiu, a sua alegria por estar construindo a catedral fora
toldada pela solido. Agora que ela estava de volta, sentia-se completo. Ainda era
caprichosa, irritante, brigona e intolerante, mas, de alguma forma, essas coisas
no tinham importncia: havia uma paixo em Ellen que queimava como uma
vela e iluminava sua vida.
         Tom e Philip assistiram a uma corrida em que os garotos precisavam se
apoiar nas mos, de cabea para baixo. Jack ganhou.
         - Aquele menino  excepcional - disse Philip.
         - No so muitas as pessoas capazes de andar to depressa se apoiando
nas mos - disse Tom.
         Philip riu.
         -  verdade, mas eu no estava me referindo a suas habilidade
acrobticas.
         - Eu sei. - H muito tempo a inteligncia de Jack era, simultaneamente,
uma fonte de alegria e dor para Tom. O garoto tinha viva curiosidade quanto a
construes - uma coisa que Alfred nunca tivera, e Tom gostava de lhe ensinar os
truques da profisso. Entretanto Jack no tinha tato, e discutia com os mais
velhos. Sempre era melhor ocultar a prpria superioridade, mas ele ainda no
aprendera isso, nem mesmo aps tantos anos de perseguio de Alfred.
         - Esse garoto devia receber educao - prosseguiu Philip. Tom franziu a
testa, sem entender. Jack estava sendo educado. Era um aprendiz.
         - O que voc est querendo dizer?
         - Devia aprender a escrever bem, estudar gramtica latina e ler os
filsofos antigos.
         Tom ficou ainda mais intrigado.
         - Com que finalidade? Ele vai ser pedreiro. Philip o encarou bem nos
olhos.
         - Tem certeza? - perguntou. - Jack  um garoto que nunca faz o que se
espera.
         Tom nunca tinha pensado naquilo. Havia jovens que desafiavam as
expectativas: filhos de condes que se recusavam a combater, filhos de reis que
ingressavam em mosteiros, camponeses bastardos que se tornavam bispos. Sim,
era verdade, Jack era daquele tipo.
         - Bem, o que voc pensa que ele far?
         - Depende do que aprender - respondeu Philip. - Mas o quero para a
Igreja.
         Tom ficou surpreso: Jack parecia um clrigo muito pouco provvel. E,
estranhamente, ficou tambm um pouco magoado. Estava ansioso para que Jack
viesse a ser mestre pedreiro, e ficaria terrivelmente desapontado se o menino
escolhesse outro rumo para sua vida.
         - Deus precisa que os rapazes melhores e mais inteligentes trabalhem
para Ele - continuou Philip, sem perceber a tristeza de Tom. - Olhe s esses
aprendizes, competindo para ver quem pula mais alto. Todos so capazes de se
tornar carpinteiros, pedreiros ou cortadores de pedra. Mas quantos poderiam ser
bispos? Somente um: Jack.
         Aquilo era verdade, pensou Tom. Se o rapaz tivesse chance para uma
carreira na Igreja, com um protetor poderoso em Philip, provavelmente a
aproveitaria, pois poderia ganhar muito mais dinheiro e poder do que como
simples pedreiro. Foi com relutncia que Tom perguntou:
         - O que voc est pensando, exatamente?
         - Quero que Jack se torne um monge novio.
         - Um monge! - No caso de Jack parecia ainda mais improvvel do que ser
padre. O garoto se impacientava com a disciplina de um canteiro de obra - como
iria tolerar a regra monstica?
         - Ele passaria a maior parte do tempo estudando - disse Philip. -
Aprenderia tudo o que nosso mestre de novios pode ensinar, e eu tambm lhe
daria aulas.
         Quando um menino ia ser monge, era normal que seus pais fizessem uma
doao generosa ao mosteiro. Tom perguntou-se quanto lhe custaria essa
proposta.
         Philip adivinhou seus pensamentos.
         - Eu no ia esperar que voc desse um presente ao priorado - disse. -
Basta que d um filho a Deus.
         O que Philip no sabia era que Tom j dera um filho ao priorado: o
pequeno Jonathan, que agora estava brincando na gua, na margem do rio, mais
uma vez com o pequeno manto amarrado na cintura. No entanto, Tom sabia que
tinha de reprimir o que sentia a esse respeito. A proposta de Philip era generosa:
obviamente ele queria muito Jack. A oferta era uma tremenda oportunidade para
o rapaz. Qualquer pai daria o brao direito para capacitar um filho a tal carreira.
Tom sofreu uma pontada de ressentimento por ser a seu enteado, e no a Alfred,
que aquela oportunidade maravilhosa estava sendo oferecida. Mas era um
sentimento indigno e ele o abafou. Devia ficar alegre e esperar que o rapaz se
adaptasse ao regime monstico.
         - Deve ser feito logo - acrescentou Philip. - Antes que ele se apaixone por
alguma garota.
         Tom assentiu. Na campina, a corrida das mulheres chegava ao ponto
culminante. Tom ficou olhando, pensativo. Aps um momento percebeu que
Ellen estava na dianteira.
         Aliena a perseguia muito de perto, mas quando cruzaram a linha de
chegada, Ellen ainda estava um pouco  frente. Ela ergueu as mos num gesto de
vitria.
         Tom apontou para ela.
         - No sou eu que tem de ser persuadido - disse para Philip. -  ela.
        Aliena ficou surpresa por ter sido vencida por Ellen. Embora esta fosse
muito moa para ter um filho de dezessete anos, mesmo assim devia ser pelo
menos dez anosmais velha que a garota. Sorriram uma para a outra, ofegantes e
suando, na linha de chegada. Aliena observou que Ellen tinha pernas esguias,
musculosas e bronzeadas e corpo compacto. Todos aqueles anos na floresta a
haviam tornado vigorosa.
        Jack apareceu para congratular sua me pela vitria. Eles gostavam muito
um do outro, Aliena no tinha a menor dvida. Os dois diferiam muito: Ellen era
uma morena bronzeada, de olhos dourados, fundos, e Jack era ruivo, de olhos
azuis. Devia ser parecido com o pai, pensou Aliena. Nada jamais fora dito a
respeito do pai de Jack, o primeiro marido de Ellen. Talvez tivessem vergonha
dele.
        Vendo os dois juntos, ocorreu a Aliena que Jack devia lembrar a Ellen o
marido que perdera. Devia ser por isso que gostava tanto dele. Talvez o filho
fosse tudo o que restava de um homem a quem adorara. A semelhana fsica
podia ser excessivamente poderosa num caso desses. Richard s vezes fazia com
que Aliena se lembrasse do pai, e era nessas oportunidades que sentia uma onda
de afeto pelo irmo, embora isso no a impedisse de desejar que fosse mais
parecido com o pai no carter.
        Sabia que no devia se sentir insatisfeita com Richard. Ele fora  guerra e
lutara corajosamente, e isso era tudo o que era exigido dele. Mesmo assim,
andava desgostosa.
        Tinha riqueza e segurana, uma casa e criados, roupas finas, lindas jias e
uma posio de respeito na cidade. Se algum lhe perguntasse, teria dito que se
sentia feliz. Mas sob a superfcie havia uma inequvoca inquietude. Nunca
perdera o entusiasmo pelo trabalho, mas em algumas manhs se perguntava se
tinha importncia que vestido poria ou se usaria jias ou no. Ningum se
importava com sua aparncia, ento por que ela deveria importar-se?
Paradoxalmente, tomara mais conscincia do corpo. Ao caminhar, podia sentir o
balano dos seios. Quando descia para a praia das mulheres a fim de tomar
banho, sentia-se embaraada por ser muito peluda.
        Montada, era perfeitamente consciente das partes do corpo que tocavam
na sela. Era algo esquisito. Como se um voyeur a observasse o tempo todo,
tentando enxergar atravs de suas roupas para v-la nua, e esse voyeur fosse ela
mesma, invadindo sua prpria privacidade.
        Deitou-se na grama, sem flego. O suor corria por entre seus seios e pela
parte interna das coxas. Impaciente, desviou a ateno para um problema mais
imediato.
        No tinha vendido toda a l naquele ano. A culpa no fora sua; com a
maior parte dos comerciantes acontecera o mesmo, assim como com o prior
Philip. Este mostrava-se muito calmo, mas Aliena estava ansiosa. O que ia fazer
com toda aquela l? Podia guard-la at o ano seguinte, claro. Mas e se no
conseguisse vend-la de novo?
         No sabia quanto tempo a l crua levava para se deteriorar. Tinha a
impresso de que talvez ressecasse, tornando-se quebradia e difcil de trabalhar.
         Se as coisas sassem muito mal seria incapaz de sustentar Richard. Ser
cavaleiro era um negcio muito dispendioso. O cavalo, que custara vinte libras,
perdera a coragem aps a batalha de Lincoln e agora era praticamente intil; em
breve ele iria querer outro. Aliena poderia compr-lo, mas faria um enorme
rombo nas suas finanas.
         Richard no se sentia  vontade por depender dela - no era a situao
usual para um cavaleiro, e esperara ganhar bastante com as pilhagens para se
sustentar, mas nos ltimos tempos havia estado do lado perdedor. Se era para
Richard recuperar o condado, Aliena teria que continuar a prosperar.
         No seu pior pesadelo, ela perdia todo o dinheiro, e os dois voltavam a ser
miserveis, presa fcil de padres desonestos, nobres devassos e fora-da-lei
sanguinrios; e terminariam na masmorra fedorenta em que vira seu pai pela
ltima vez, acorrentado  parede e moribundo.
         Para contrastar com esse pesadelo, tinha um sonho de felicidade. Nele,
ela e Richard moravam juntos no castelo, sua antiga casa. Richard governava to
sabiamente quanto Bartholomew, e Aliena o ajudava como ajudara o pai,
recebendo convidados importantes, assegurando hospitalidade a todos e
sentando-se  sua esquerda na mesa do jantar. Mas at mesmo esse sonho a
estava deixando descontente.
         Sacudiu a cabea, para dissipar aquela onda de melancolia, e pensou de
novo na l. O modo mais simples de lidar com o problema seria no fazer nada.
Podia armazenar o excesso at o ano seguinte, e ento, se no conseguisse vend-
la, assumiria o prejuzo. Era possvel assumi-lo. Havia, contudo, o perigo remoto
de que o mesmo acontecesse no outro ano, dando incio a uma tendncia
declinante; tinha que tentar arranjar outra soluo. Tentara vend-la para um
tecelo de Kingsbridge, mas ele j havia comprado tudo de que precisava.
         Ocorreu-lhe agora, olhando para as mulheres de Kingsbridge, enquanto
elas voltavam  calma aps a corrida, que praticamente todas sabiam tecer a partir
da l crua.
         Era um negcio tedioso, mas simples: os camponeses faziam isso desde
Ado e Eva. A l tinha que ser lavada, depois penteada com um pente de cardar,
para ficar desemaranhada, e ento era tecida em fio. O fio depois era urdido e
transformado em pano. Por fim, frouxamente tecido, era feltrado ou pisoado,
encolhendo e engrossando, transformando-se assim em algo que podia ser usado
na confeco de roupas. As mulheres da cidade provavelmente estariam dispostas
a fazer isso por um penny por dia. Mas quanto tempo seria necessrio? E que
preo alcanaria a l transformada em tecido?
         Teria que experimentar o plano com uma pequena quantidade. Depois,
se desse certo, poderia arranjar diversas pessoas para fazer o servio durante as
longas noites de inverno.
         Sentou-se direito, animada com a nova idia. Ellen estava deitada ao seu
lado. Jack, sentado do outro lado da me, sorriu timidamente e desviou o rosto,
como se houvesse ficado envergonhado por ter sido apanhado olhando para ela.
Era um garoto engraado, com a cabea cheia de idias. Aliena se lembrava dele
quando era pequeno, com uma aparncia esquisita, sem saber como as crianas
eram concebidas. Mal percebera quando ele viera morar em Kingsbridge,
contudo. E agora parecia to diferente, uma pessoa to completamente nova, que
era como se tivesse surgido do nada, uma flor que desabrocha uma manh onde
na vspera havia apenas terra nua. Para comear, sua aparncia no era mais
estranha. Na verdade, pensou Aliena, examinando-o com um leve sorriso, as
garotas decerto o consideravam terrivelmente bonito. Claro que tinha um lindo
sorriso. A jovem no se preocupava muito com a aparncia dele, mas ficava um
pouco intrigada com sua estonteante imaginao. Descobrira que no s sabia
diversas narrativas completas - algumas com milhares e milhares de versos -,
como tambm podia inventar o que dizia, quando recitava, de tal modo que
Aliena nunca tinha certeza se estava se recordando ou improvisando. E as
histrias no eram a nica coisa surpreendente nele. Jack era curioso a respeito de
tudo e se intrigava com coisas que todas as pessoas tomavam como certas e
definitivas. Um dia perguntara de onde vinha toda a gua do rio. "A cada hora,
milhares e milhares de gales de gua passam por Kingsbridge, dia e noite, o ano
inteiro. Tem sido assim desde antes de nascermos, de antes de nossos pais
nascerem, ou de os pais dos nossos pais terem nascido. De onde vem toda essa
gua? Existe algum lago imenso que alimenta o rio? Esse lago ento deve ser do
tamanho de toda a Inglaterra! E se um dia secar?" Jack estava sempre dizendo
coisas desse tipo, algumas menos fantasiosas, o que fazia com que Aliena
percebesse quanto ansiava por uma conversa inteligente. Quase todo mundo em
Kingsbridge s era capaz de falar sobre agricultura e adultrio, assuntos que no
a interessavam. O prior Philip era diferente, claro, mas no era com frequncia
que se entregava a conversas ociosas: estava sempre ocupado, vendo coisas no
canteiro da obra, s voltas com os monges ou com a cidade.
         Aliena suspeitava que Tom Construtor tambm fosse muito inteligente,
mas era do tipo que pensava mais que falava. Jack era o primeiro amigo
verdadeiro que fizera.
         Uma descoberta maravilhosa, apesar da sua pouca idade. Na verdade,
quando se afastava de Kingsbridge, surpreendia-se s vezes ansiosa por voltar a
fim de conversar com ele.
         Gostaria de saber de onde viriam suas idias. Esse pensamento fez com
que reparasse na me dele. Que mulher estranha devia ser, para criar um filho na
floresta!
         Aliena conversara com Ellen e encontrara nela um esprito parecido com
o seu, uma mulher independente e auto-suficiente, de certa forma ressentida com
o modo como a vida a tratara. Cedendo a um impulso, Aliena perguntou:
         - Ellen, onde voc aprendeu as histrias?
         - Com o pai de Jack - respondeu ela sem pensar. Uma expresso
reservada toldou-lhe a fisionomia e Aliena percebeu que no devia fazer mais
perguntas.
         Outro pensamento lhe ocorreu.
         - Voc sabe tecer?
         - Claro - disse Ellen. - Todo mundo sabe.
         - Gostaria de tecer por dinheiro?
         - Talvez. Em que voc est pensando?
         Aliena explicou. Ellen no precisava de dinheiro, claro, mas era Tom
quem o ganhava, e Aliena suspeitava que ela podia querer ganhar o seu prprio.
         A suspeita estava correta.
         - Sim, vou fazer uma tentativa - disse ela.
         Naquele momento, Alfred, enteado de Ellen, apareceu. Como o pai,
Alfred era um gigante. A maior parte do seu rosto se ocultava atrs de uma barba
cerrada, mas os olhos acima dela eram implantados muito prximos um do
outro, dando-lhe um ar interessante. Sabia ler, escrever e fazer contas, mas a
despeito disso era bastante estpido. No obstante ele prosperara, e tinha o seu
prprio grupo de pedreiros, aprendizes e serventes. Aliena observara que homens
grandes com frequncia conquistavam posies de poder, independentemente de
sua inteligncia. Como capataz Alfred tinha outra vantagem, claro: podia ter
certeza de conseguir sempre trabalho para os seus operrios, pois o pai era
mestre construtor da Catedral de Kingsbridge.
         Alfred sentou-se na grama ao lado dela. Tinha ps enormes, metidos em
botas de couro cinzentas de tanto p de pedra. Aliena raramente lhe dirigia a
palavra. Deviam ter muita coisa em comum, pois eram os nicos jovens
pertencentes  nata de Kingsbridge, a classe que vivia nas casas mais prximas do
muro do priorado; Alfred contudo parecia sempre to sem graa!
         - Devia haver uma igreja de pedra - disse ele abruptamente, aps um
momento.
         Era evidente que os outros tinham que descobrir o contexto a que se
aplicava aquela observao. Aliena pensou um pouco e disse:
         - Voc est se referindo  igreja da parquia?
         - Sim - disse ele, como se fosse bvio.
         A igreja da parquia agora era muito usada, pois a cripta da catedral,
utilizada pelos monges, era apertada e abafada, e a populao de Kingsbridge
crescera. No entanto, era uma construo de madeira com telhado de palha e
cho de terra.
         - Voc tem razo - disse ela. - Deveramos ter uma igreja de pedra.
         Alfred olhava para ela, ansioso. Aliena perguntou-se o que estaria
querendo que dissesse.
         - Em que est pensando, Alfred? - perguntou Ellen, que provavelmente
estava acostumada a fazer com que ele se expressasse de modo compreensvel.
         - Como  que se comea a construir igrejas, afinal? - perguntou ele. - O
que quero saber : se queremos uma igreja de pedra, o que fazemos?
         Ellen deu de ombros.
         - No tenho a menor idia. Aliena parou para pensar.
         - Voc podia formar uma associao paroquial - sugeriu. Ela se referia a
uma associao de pessoas que davam banquetes de vez em quando e
arrecadavam dinheiro entre elas prprias, geralmente a fim de comprar velas para
a sua igreja, ou de ajudar vivas e rfos da vizinhana. Algumas aldeias no
tinham associaes, mas Kingsbridge no era mais uma aldeia.
         - Como  que funcionaria? - perguntou Alfred.
         - Os membros da associao arcariam com as despesas da nova igreja -
disse Aliena.
         - Ento deveramos fundar uma associao - disse Alfred. A jovem
perguntou-se se no teria se enganado a respeito dele. Nunca lhe parecera ser do
tipo piedoso, mas ali estava ele tentando levantar dinheiro para construir uma
igreja nova. Talvez tivesse facetas ocultas.
         S ento se lembrou de que Alfred era o nico empreiteiro de
Kingsbridge, de modo que estava certo de que lhe incumbiria o trabalho de
construo. Podia no ser inteligente, mas era bastante esperto.
         Mesmo assim, ela gostou da idia. Kingsbridge estava se transformando
numa cidade, e as cidades sempre tm mais que uma igreja. com uma alternativa
para a catedral, a cidade no seria dominada to completamente pelo mosteiro.
Naquele momento Philip era o lorde e senhor inconteste ali. Era um tirano
benevolente, mas Aliena podia antever uma poca em que poderia atender aos
interesses dos comerciantes a existncia de uma igreja alternativa.
         - Voc explicaria essa coisa da associao para alguns dos outros? -
perguntou Alfred.
         Aliena recuperara o flego aps a corrida. Relutava em trocar a
companhia de Ellen e Jack pela de Alfred, mas estava um bocado entusiasmada
com a idia dele, e, de qualquer modo, teria sido um pouco grosseiro recusar.
         - Ser um prazer - disse, e saiu com ele.
         O sol estava se pondo. Os monges tinham acendido a fogueira e serviam
a tradicional cerveja temperada com gengibre. Jack queria fazer uma pergunta 
sua me, agora que se encontravam sozinhos, mas estava nervoso. Ento algum
comeou a cantar, e como sabia que ela cantaria tambm a qualquer momento,
deixou escapar:
        - Meu pai era menestrel?
        Ela o encarou. Estava espantada, mas no zangada.
        - Quem lhe ensinou essa palavra? Voc nunca viu um menestrel.
        - Aliena. Ela costumava ir  Frana com o pai.
        Sua me olhou na direo da fogueira, no outro lado da campina escura.
        - Sim, era menestrel. Foi ele quem me ensinou todos aqueles poemas,
exatamente como os ensinei a voc. Voc agora os est recitando para Aliena?
        - Sim. - Jack se sentiu um pouco sem graa.
        - Voc a ama de verdade, no ?
        -  to evidente assim?
        Ela sorriu afetuosamente.
        - S para mim, creio. Ela  muito mais velha que voc.
        - Cinco anos.
        - Mas voc a conquistar, mesmo assim. Voc  como seu pai. Ele podia
conquistar qualquer mulher que quisesse.
        Jack estava embaraado de falar sobre Aliena, mas entusiasmado por
saber coisas a respeito do pai, e ansioso por mais informaes; para seu enorme
aborrecimento, porm, Tom surgiu naquele exato instante e sentou-se com eles.
Comeou a falar imediatamente.
        - Estive conversando com o prior Philip a respeito de Jack - disse. O tom
de sua voz era leve, mas o rapaz percebeu que havia nele uma certa tenso, e viu
que vinha problema. - Philip diz que o garoto deveria ser educado.
        A reao de Ellen foi previsivelmente indignada.
        - Ele  educado - disse. - Sabe ler e escrever em ingls e francs, conhece
nmeros,  capaz de recitar livros inteiros de poesia...
        - No me entenda mal deliberadamente - disse Tom, com firmeza. -
Philip no disse que Jack  ignorante. Muito pelo contrrio. O que est dizendo 
que ele  to inteligente que deveria ter mais instruo.
        O rapaz no ficou satisfeito com aqueles elogios. Ele partilhava das
suspeitas que a me nutria com relao a religiosos. Decerto tinha uma armadilha
qualquer escondida naquela conversa.
        - Mais? - contraps Ellen ironicamente. - O que mais aquele monge quer
que ele aprenda? Eu lhe digo. Teologia. Latim. Retrica. Metafsica. Estrume de
vaca. Bobagens.
        - No faa pouco de tudo to rapidamente - disse Tom, com brandura. -
Se Jack aceitar a oferta de Philip e for para a escola aprender a escrever com
rapidez e a boa caligrafia de um secretrio, estudar latim, teologia e todos os
outros assuntos que voc chama de estrume de vaca, poder trabalhar para um
conde ou para um bispo, e acabar sendo um homem rico e poderoso. "Nem
todos os bares so filhos de bares", como diz o ditado.
         Ellen semicerrou os olhos perigosamente.
         - Se ele aceitar a oferta de Philip, foi o que voc disse. E qual  a oferta
de Philip, exatamente?
         - Que Jack se torne um monge novio...
         - S por cima do meu cadver! - gritou Ellen, pondo-se de p com um
salto. - A maldita Igreja no vai levar o meu filho! Aqueles padres mentirosos e
traioeiros me tiraram o pai dele mas no vo me tirar Jack. Antes enfiarei uma
faca na sua barriga, juro por todos os deuses!
         Tom j vira Ellen ter ataques como aquele antes, de modo que no ficou
to impressionado como ficaria, se fosse novidade.
         - Que diabo h com voc, mulher? - perguntou calmamente. -
Ofereceram ao garoto uma magnfica oportunidade.
         O que deixou Jack mais intrigado foi a frase: "Aqueles padres mentirosos
e traioeiros me tiraram o pai dele". O que ela teria querido dizer com aquilo?
Sentiu vontade de perguntar, mas Ellen no lhe deu oportunidade.
         - Ele no vai ser monge! - berrou ela.
         - Se ele no quiser ser monge, no ter que ser monge.
         Ellen pareceu ficar emburrada.
         - Aquele prior ardiloso sempre d um jeito de no fim conseguir o que
deseja - disse ela.
         Tom se virou para Jack.
         - Est na hora de dizer alguma coisa, rapaz. O que voc quer fazer da sua
vida?
         Jack nunca pensara naquilo, mas a resposta veio sem hesitao, como se
tivesse se decidido muito tempo antes.
         - Vou ser mestre construtor, como voc - disse ele. vou construir a mais
linda catedral que o mundo j viu.
         As franjas vermelhas do sol mergulharam debaixo do horizonte e a noite
caiu. Hora do ltimo ritual da vspera do solstcio de vero: pedidos flutuantes.
Jack j tinha um toco de vela e um pedao de madeira. Ele olhou para Ellen e
Tom. Ambos o encaravam, de certa forma perplexos: a convico com que se
manifestara sobre seu futuro os surpreendera. Bem, no era de admirar:
surpreendera tambm o prprio Jack.
         Vendo que nada mais tinham a dizer, o garoto ficou de p de um pulo e
correu para a fogueira. Acendeu um galhinho seco no fogo, derreteu um pouco a
base da vela e prendeu-a no pedao de madeira, acendendo-a. A maioria dos
aldees estava fazendo o mesmo. Os que no podiam comprar uma vela faziam
uma espcie de barquinho com capim seco e torciam o capim na parte central
para fazer um pavio.
        Jack viu que Aliena estava bem do seu lado. Seu perfil era delineado pelo
claro da fogueira, e ela parecia imersa em profunda meditao. Cedendo a um
impulso, ele perguntou:
        - Qual  o seu pedido, Aliena?
        - Paz - respondeu ela, sem parar para pensar. Depois, parecendo
assustada, virou o rosto.
        Jack perguntou-se se no seria maluco por amar Aliena. Ela gostava dele,
sem dvida - tinham se tornado amigos, mas a idia de se virem nus, deitados
lado a lado, acariciando a pele quente um do outro, estava to longe do corao
dela quanto perto do seu.
        Quando todos estavam prontos, ajoelharam-se  margem do rio ou
entraram dentro d'gua, nas partes mais rasas. Segurando as velas bruxuleantes,
fizeram um pedido.
        Jack fechou os olhos com fora e visualizou Aliena, deitada numa cama,
com os seios nus para fora da colcha, abrindo os braos para ele e dizendo: "Faa
amor comigo, marido". Depois todos colocaram cuidadosamente suas velas
sobre a gua. Se o barquinho afundasse ou o fogo se apagasse, o pedido jamais
seria atendido. Assim que Jack largou o seu, e a pequenina embarcao se
afastou, a base de madeira tornou-se invisvel, e apenas a chama pde ser vista.
Ele permaneceu olhando intensamente para ela durante algum tempo, e depois a
perdeu entre as centenas de luzes que danavam, boiando na superfcie da gua,
trmulos pedidos descendo a correnteza, at que desapareceram na curva do rio e
no mais puderam ser vistos.

        Todo aquele vero, Jack contou histrias a Aliena.
        Eles se encontravam aos domingos, a princpio ocasionalmente e depois
com regularidade, na clareira perto da pequena queda-d'gua. Ele lhe falou sobre
Carlos Magno e seus cavaleiros, e Guilherme de Orange e os sarracenos. Jack
ficava completamente absorto nas histrias quando as estava contando. Aliena
gostava de ver como as expresses mudavam no seu rosto jovem. Mostrava-se
indignado com a injustia, horrorizado com a traio, emocionado com a
coragem de um cavaleiro e comovido at as lgrimas com uma morte herica; e,
como suas emoes eram contagiosas, ela tambm ficava comovida. Alguns dos
poemas eram longos demais para serem recitados numa tarde, e quando ele tinha
que contar uma histria em captulos, interrompia sempre num momento de
tenso, de modo que Aliena passava a semana inteira imaginando o que
aconteceria a seguir.
        Ela nunca falou a ningum sobre aqueles encontros. No sabia ao certo
por qu. Talvez os outros no fossem entender o fascnio das histrias. Qualquer
que fossea razo, deixou que pensassem que estava saindo na sua costumeira
caminhada dos domingos, e, sem consult-la, Jack fez o mesmo; assim, chegaram
a um ponto onde j no poderiam contar a ningum sem que dessem a impresso
de estar confessando algo de que se sentiam culpados. Dessa forma, quase que
por acidente, os encontros se tornaram secretos.
        Um domingo Aliena leu O romance de Alexandre para ele, s para variar.
Diferentemente dos poemas de Jack, de intriga nas cortes, poltica internacional e
morte sbita no campo de batalha, o romance de Aliena tratava de casos de amor
e magias. Jack ficou muito impressionado com esses novos elementos, e no
domingo seguinte deu incio a um novo romance de sua prpria inveno.
        Era um dia quente, no final de agosto. Aliena, de sandlias, trajava um
vestido leve de linho. A floresta estava em silncio, a no ser pelo rumorejar da
gua e a modulao da voz de Jack, ora mais alta, ora mais baixa. A histria
comeou do modo convencional, com a descrio de um bravo cavaleiro, grande
e forte, poderoso nas batalhas e armado com uma espada mgica, a quem fora
ordenada uma tarefa difcil: viajar at um distante pas no oriente e trazer uma
videira que desse rubis.
        Mas ele rapidamente a desviou do padro comum. O cavaleiro foi morto
e o foco passou para o seu escudeiro, um bravo mas pobre jovem de dezessete
anos perdidamente apaixonado pela filha do rei, uma linda princesa. O escudeiro
jurou cumprir a misso dada a seu amo, muito embora fosse jovem e
inexperiente e tivesse apenas um cavalinho malhado e um arco.
        Em vez de vencer o inimigo com um tremendo golpe de uma espada
mgica, como o heri costumava fazer nessas histrias, o escudeiro lutava
desesperadamente e ganhava suas batalhas apenas por sorte ou esperteza, quase
sempre escapando da morte por um triz. com frequncia tinha medo dos
inimigos com que se defrontava - ao contrrio dos cavaleiros destemidos de
Carlos Magno, mas nunca se desviava de seu compromisso. Mesmo assim, tanto
a misso quanto seu amor pela princesa pareciam no ter esperanas.
        Aliena descobriu que ficava mais cativada pela bravura do escudeiro que
pela fora do seu amo. Mordia os ns dos dedos de ansiedade quando ele
cavalgava pelo territrio inimigo, assustava-se quando a espada de um gigante por
pouco no o acertava e suspirava quando ele deitava a cabea solitria para
dormir e sonhar com a distante princesa. Seu amor por ela parecia ser da mesma
qualidade da constncia do seu esprito. No final, o escudeiro trouxe a videira que
produzia rubis, espantando toda a corte.
        - Mas no se importou muito - afirmou Jack, estalando desdenhosamente
os dedos - no que dizia respeito a todos aqueles bares e condes. Estava
interessado numa pessoa apenas. Naquela noite conseguiu entrar no quarto dela,
usando um brilhante ardil que aprendera na viagem ao oriente. At que por fim
se viu de p ao lado da cama da princesa, olhando para o seu rosto. - E Jack
olhou dentro dos olhos de Aliena. - Ela acordou imediatamente, mas no teve
medo. Ele adiantou-se e, com delicadeza, segurou-lhe a mo. - Jack representou a
histria, pegando a mo de Aliena e segurando-a entre as suas. Ela estava
fascinada pela intensidade do seu olhar e pelo poder do amor do jovem
escudeiro, e mal sentiu que ele estava segurando sua mo. - O escudeiro lhe disse:
"Eu a amo muito", e beijou-a nos lbios. -Jack inclinou-se e beijou Aliena. Seus
lbios tocaram nos dela to suavemente que Aliena mal sentiu. Aconteceu muito
depressa, e ele retomou a narrativa prontamente: - A princesa dormiu -
continuou. E Aliena pensou: Isto realmente aconteceu? Jack me beijou mesmo?
Mal podia crer, mas ainda sentia o toque da boca dele na sua. - No dia seguinte, o
escudeiro perguntou ao rei se podia se casar com a princesa, como recompensa
por ter trazido a videira que produzia rubis. - Jack me beijou sem pensar, decidiu
Aliena. Era s parte da histria. Ele nem mesmo sabe que o fez. vou
simplesmente esquecer o que houve. - O rei no consentiu. O escudeiro ficou
com o corao partido. Todos os cortesos riram. Naquele dia mesmo o
escudeiro deixou aquele reino, montado no seu cavalinho malhado; porm, jurou
que voltaria, e que no dia de seu regresso desposaria a linda princesa. - Jack
calou-se e largou a mo de Aliena.
         - E o que aconteceu depois?
         - No sei - respondeu Jack. - Ainda no pensei.

          Todas as pessoas importantes de Kingsbridge entraram para a associao
da parquia. A idia era nova para a maioria, mas gostaram de ver que
Kingsbridge agora era uma cidade, e no mais uma aldeia, e sua vaidade
sensibilizou-se com o apelo feito a eles para que, como cidados importantes,
doassem uma igreja de pedra.
          Aliena e Alfred recrutaram os membros e organizaram o primeiro jantar
da associao em meados de setembro.
          Os grandes ausentes foram o prior Philip, que de certa forma era hostil
ao empreendimento, embora no o bastante para proibi-lo; Tom Construtor, que
declinou, devido ao modo de pensar de Philip; e Malachi, excludo pela sua
religio.
          Nesse espao de tempo, Ellen tecera um rolo de fazenda com L da
sobra de Aliena. Era spera e sem cor, mas boa o bastante para confeccionar
hbitos de monge, e o despenseiro do priorado, Cuthbert Cabea Branca, a
comprara. Embora fosse barata, ainda tinha o dobro do preo da l crua, e
mesmo depois de haver pago um penny por dia a Ellen, Aliena lucrara, meia
libra. Cuthbert foi perspicaz o bastante para comprar mais tecido quele preo,
de modo que Aliena comprou a sobra de l de Philip, a fim de aumentar seu
estoque, e arranjou mais doze pessoas, a maioria mulheres, para fazer o servio
de tecelagem. Ellen concordou em fazer outro fardo de tecido, mas no em pis-
lo, j que, conforme alegou, o trabalho era muito duro. Aliena disse a suas tecels
que fossem em frente e fizessem um pano frouxamente tecido; depois contrataria
homens para pis-lo ou venderia para um mestre pisoeiro em Winchester.
         O almoo da associao foi na igreja de madeira. Aliena organizou-o.
Dividiu a responsabilidade da preparao com os outros membros, a maioria dos
quais tinha pelo menos uma criada domstica. Alfred e seus homens construram
uma mesa comprida de tbuas, apoiada em cavaletes. Compraram cerveja forte e
um barril de vinho.
         Sentaram-se dos dois lados da mesa, sem ningum nas cabeceiras, pois
todos eram iguais dentro da associao. Aliena ps um vestido de seda vermelho-
escuro, ornamentado por um broche de ouro com rubis, e uma capa comprida
cinza-escura com mangas largas, como era moda. O proco deu graas:  claro
que estava deleitado com a idia da associao, pois uma nova igreja aumentaria
seu prestgio e multiplicaria sua renda.
         Alfred apresentou um oramento e um cronograma para a construo da
nova igreja. Falou como se tudo fosse fruto do seu trabalho, mas Aliena sabia
que Tom fizera quase todos os clculos. A obra levaria dois anos e custaria
noventa libras, e Alfred props que cada um dos quarenta membros da
associao desse seis pence por semana.
         Era um pouco mais do que alguns tinham imaginado, Aliena podia
assegurar, examinando-lhes o rosto. Todos concordaram, mas a jovem achou que
a associao podia prever uma ou duas desistncias.
         Ela poderia dar aquela contribuio com facilidade. Olhando para as
pessoas sentadas em torno da mesa, constatou que provavelmente era a pessoa
mais rica presente. Estava numa pequena minoria de mulheres: as nicas outras
eram uma cervejeira com fama de fabricar uma boa cerveja forte, uma alfaiata
que empregava duas costureiras e algumas aprendizes, e a viva de um sapateiro,
que administrava o negcio deixado pelo marido. Aliena era a mais jovem, sendo
mais jovem tambm que todos os homens, exceto Alfred, um ou dois anos mais
moo que ela.
         Aliena sentiu falta de Jack. Ainda no ouvira o segundo captulo da
histria do jovem escudeiro. Aquele dia era feriado, e seria bom se tivesse ido
encontr-lo na clareira. Talvez ainda fosse, mais tarde.  mesa conversavam
sobre a guerra civil. A mulher de Estvo, a rainha Matilda, apresentara uma
resistncia mais forte do que se esperara: recentemente tomara Winchester e
capturara Robert de Gloucester. Robert era irmo de Matilde, a Imperatriz, e
comandante-chefe de suas foras militares. Algumas pessoas diziam que ela era
apenas testa-de-ferro, e que Robert era o verdadeiro lder da rebelio. De
qualquer modo, a captura dele fora quase to ruim para Matilde quanto a de
Estvo para os legalistas, e todo mundo tinha uma opinio sobre o rumo que a
guerra tomaria a seguir.
         A bebida era muito mais forte que a habitualmente servida pelo prior
Philip, e,  medida que a refeio progredia, os convivas iam falando mais alto. O
proco no exerceu uma influncia restritiva, provavelmente por estar bebendo
tanto quanto os demais. Algo parecia preocupar Alfred, sentado ao lado de
Aliena, mas o rosto dele tambm estava congestionado. Quanto a Aliena, no
gostava de bebidas fortes e tomou um copo de sidra com o seu jantar.
         Quando a maior parte da comida tinha sido consumida, algum props
um brinde a Alfred e Aliena. Alfred ficou radiante de satisfao. Depois que o
canto comeou, Aliena comeou a se perguntar em quanto tempo conseguiria dar
o fora.
         - Ns nos samos bem juntos - disse-lhe Alfred.
         Aliena sorriu.
         - Vamos ver quantos deles ainda estaro pagando seis pence por semana
dentro de um ano.
         Alfred no queria saber de apreenses ou dvidas.
         - Ns nos samos bem - repetiu. - Somos uma boa equipe. - Ergueu o
copo na direo dela e bebeu. - No acha que somos uma boa equipe?
         - Certamente que sim - respondeu, para agradar Alfred.
         - Gostei disso - prosseguiu ele. - Quero dizer, de fazer isso com voc,
organizar a associao.
         - Tambm gostei - disse ela polidamente.
         -  mesmo? Isso me faz muito feliz.
         Ela o fitou com mais cuidado. Por que estaria sendo to insistente? Sua
fala era clara e precisa, no exibia sinais de embriaguez.
         - Foi agradvel - disse ela, procurando manter um tom neutro.
         Ele ps uma das mos sobre o seu ombro. Aliena detestava ser tocada,
mas treinara no se esquivar, porque os homens ficavam ofendidos.
         - Diga-me uma coisa - disse ele, baixando a voz para um Tom mais
ntimo. - O que voc est procurando num marido?
         Espero que ele no v me pedir em casamento, pensou Aliena, desolada.
Deu sua resposta padronizada.
         - No preciso de marido. Meu irmo j me d bastante trabalho.
         - Mas precisa de amor - disse ele. Ela gemeu no ntimo.
         Estava prestes a responder quando ele ergueu a mo para silenci-la - um
hbito masculino que achava particularmente irritante.
         - No me diga que no precisa de amor - disse. - Todo mundo precisa.
         Ela o encarou com firmeza. Sabia que havia algo de diferente em si: a
maioria das mulheres gostava da idia de se casar, e se ainda estavam solteiras,
como Aliena, aos vinte e dois anos de idade, mostravam-se mais que interessadas
- desesperadas para se casar. Alfred era jovem, saudvel e prspero: metade das
garotas de Kingsbridge gostaria de se casar com ele. Por um momento brincou
com a idia de dizer sim. Mas a idia de morar com Alfred, almoar com ele
todos os dias, cear todas as noites, ir  missa em sua companhia e ter os seus
filhos era aterrorizante. Preferia ficar sozinha. Sacudiu a cabea.
         - Esquea, Alfred - disse resolutamente. - No preciso de marido, por
amor ou por qualquer outra coisa.
         Ele no se desencorajou.
         - Eu a amo, Aliena - disse. - Trabalhando com voc me senti
verdadeiramente feliz. Preciso de voc. Quer ser minha mulher?
         Pronto, ele concretizara o pedido. Era uma pena, porque agora precisava
rejeit-lo formalmente. Aprendera que no adiantava tentar proceder com
delicadeza nesses casos: os homens tomavam uma recusa bondosa como sinal de
indeciso e pressionavam mais ainda.
         - No, no quero - disse ela. - No o amo, no gostei muito de ter
trabalhado em sua companhia e no o desposaria nem que fosse o ltimo homem
na face da terra.
         Alfred ficou ofendido. Devia ter pensado que suas chances eram boas.
Aliena tinha certeza de que nada fizera para encorajlo. Tratara-o como um
scio, em igualdade de condies, ouvindo quando falava, falando com ele franca
e diretamente, cumprindo suas responsabilidades e esperando que Alfred
cumprisse as dele. S que alguns homens encaram essas coisas como sinal de
encorajamento.
         - Como voc pode dizer isso? - gaguejou Alfred.
         Ela suspirou. Estava magoado, e tinha pena dele; mas dentro de um
instante se mostraria indignado, e agiria como se tivesse sido acusado
injustamente; por fim se convenceria de que ela o insultara sem motivos, e se
tornaria ofensivo. Nem todos os pretendentes rejeitados se comportavam assim,
mas um certo tipo sempre repetia tal padro, e Alfred era desse tipo. Ia ter que se
retirar.
         Ela se levantou.
         - Respeito sua proposta e agradeo a honra que me concede - disse. - Por
favor, respeite minha recusa, e no me pea de novo.
         - Suponho que voc esteja saindo para correr ao encontro daquele
desprezvel garotinho que  o filho da minha madrasta - disse Alfred
grosseiramente. - No posso imaginar que Jack seja capaz de lhe dar uma boa
trepada.
         Aliena corou, envergonhada. Ento estavam comeando a notar sua
amizade com Jack. Podia contar com Alfred para uma interpretao obscena.
Pois bem, estava correndo mesmo para ir ver Jack, e no ia deixar que Alfred a
impedisse. Abaixou-se e quase encostou o rosto ao dele. O rapaz ficou
espantado. Calma e deliberadamente, ela disse:
         - V para o inferno.
         Ento se virou e foi embora.
         O prior Philip instalava um tribunal na cripta uma vez por ms. Antes o
fazia uma vez por ano, e mesmo assim raramente tomava o dia inteiro. Mas a
populao triplicara, e o nmero de violaes da lei decuplicara.
         A natureza das transgresses mudara tambm. Antes a maior parte tinha
a ver com a terra, as colheitas ou o gado. Um campons ambicioso tentava
subrepticiamente mudar o limite de um campo para expandir sua terra  custa de
um vizinho; um trabalhador furtava um saco de milho da viva que o empregara;
uma mulher pobre com muitos filhos ordenhava uma vaca que no era sua.
Agora a maior parte dos casos envolvia dinheiro, pensou Philip, enquanto atuava
na sua corte, naquele primeiro dia de dezembro.
         Aprendizes furtavam dinheiro dos mestres, um marido roubava as
economias da mulher, comerciantes passavam dinheiro falso e mulheres ricas
pagavam quantias miserveis s suas criadas ignorantes, que mal sabiam contar os
salrios semanais. No havia crimes desse tipo em Kingsbridge cinco anos antes,
porque naquele tempo ningum tinha muito dinheiro em espcie.
         Philip arbitrava para quase todas as violaes uma multa. Podia tambm
mandar aoitar, prender no tronco ou aprisionar na cela que ficava sob o
dormitrio dos monges, mas essas punies estavam ficando cada vez mas raras,
reservadas basicamente para crimes violentos. Ele tinha o direito de enforcar
ladres, e o priorado era dono de uma forca de madeira bastante forte; porm ele
nunca a usara, e tinha a secreta esperana de que jamais a usaria. Os crimes mais
srios - assassinato, abate de um dos deados do rei e roubo em estradas - eram
julgados pela corte real em Shiring, presidida pelo xerife Eustace, que j
enforcava mais do que o suficiente.
         Nesse dia Philip tivera sete casos de moagem de gros sem autorizao.
Deixou todos para o fim, para resolv-los juntos. O priorado construra um novo
moinho de gua para funcionar juntamente com o velho - Kingsbridge agora
precisava de dois. Mas o mais recente tinha que ser pago, o que significava que
todos precisavam levar seus gros para o moinho do priorado. Falando num
sentido estrito, a lei sempre fora assim, em cada grande propriedade no pas: os
camponeses no eram autorizados a moer seus gros em casa; tinham que pagar
ao seu lorde para fazer isso por eles. Nos ltimos anos, quando a cidade crescera
e o velho moinho comeara a quebrar com frequncia,
         Philip fizera vista grossa ao nmero crescente de moagens ilcitas, mas
agora precisava pr fim quilo.
         Mandou que escrevessem os nomes dos transgressores numa lousa e os
leu em voz alta, um por um, comeando pelo mais rico.
         - Richard Longacre, voc tinha um moinho grande operado por dois
homens, segundo o irmo Franciscus. - Franciscus era o moleiro do priorado.
         Um pequeno proprietrio rural de aparncia prspera adiantou-se.
        - Sim, milorde prior, mas j o quebrei.
        - Pague sessenta pence. Enid Brewster, voc tinha um moinho manual na
sua cervejaria. Eric Enidson foi visto utilizando o, de modo que ele tambm 
acusado.
        - Sim, milorde - disse Enid, uma mulher de rosto vermelho e ombros
vigorosos.
        - E onde est o moinho agora?
        - Joguei-o no rio, milorde.
        Philip no acreditou, mas no havia muito que pudesse fazer.
        - Multada em vinte e quatro pence, e doze pelo seu filho. Walter Curtidor?
        Philip foi at o fim da lista, multando as pessoas de acordo com a escala
de suas operaes ilegtimas, at que chegou  ltima e mais pobre. - Viva
Goda?
        Uma mulher de aparncia miservel, com roupas pretas desbotadas,
adiantou-se.
        - O irmo Franciscus diz que a viu moendo gro com uma pedra.
        - Eu no tinha um penny para o moinho, milorde - disse ela, ressentida.
        - Mas teve o penny para comprar o gro - disse Philip.
        - Ser punida como todos os outros.
        - Vai querer que eu morra de fome? - retrucou ela desafiadoramente.
        Philip suspirou. Gostaria que o irmo Franciscus tivesse fingido no ver
Goda violando a lei.
        - Quando foi a ltima vez em que algum morreu de fome aqui em
Kingsbridge? - Olhou para os cidados ali reunidos. - Algum aqui se lembra de
quando foi a ltima vez em que algum morreu de fome na nossa cidade? - Parou
por um momento, como que esperando uma resposta, e depois disse:
        - Acho que vo descobrir que foi antes do meu tempo.
        - Dick Casa Pequena morreu no inverno passado - disse Goda.
        Philip se lembrava do homem, um mendigo que dormia nos chiqueiros e
estbulos.
        - Dick desmaiou de tanta bebida na rua,  meia-noite, e morreu
congelado quando nevou - disse. - No morreu de fome, e se estivesse sbrio o
bastante para caminhar at o priorado, tampouco teria morrido de frio. Se voc
tiver fome, no tente me enganar - v me procurar e conte com a nossa caridade.
E se for orgulhosa demais para isso, e preferir violar a lei, vai ter que ser punida
como todos os outros. Est me ouvindo?
        - Sim, milorde - disse a mulher, emburrada.
        - Multada em uma farthing - disse Philip. - A corte est encerrada.
        Ele se levantou e saiu, subindo a escada que levava da cripta ao andar
trreo.
        O trabalho na nova catedral tivera seu ritmo reduzido de maneira
drstica, como sempre acontecia mais ou menos um ms antes do Natal. As
superfcies laterais e a parte de cima das pedras colocadas mais recentemente
eram cobertas com palha e estrume recolhido dos estbulos do priorado - para
evitar o efeito do frio. Os pedreiros no podiam construir no inverno, devido ao
frio intenso, segundo diziam. Philip perguntara por que no podiam descobrir as
paredes todas as manhs e cobri-las de novo  noite; com frequncia no fazia
tanto frio assim durante o dia. Tom disse que as paredes construdas no inverno
caam. Philip acreditava, mas no achava que fosse por causa do frio. O motivo
verdadeiro talvez fosse o de que a massa levasse alguns meses para endurecer
apropriadamente. A pausa do inverno permitia que isso acontecesse, antes que
novas pedras fossem colocadas. Isso explicaria tambm a superstio dos
pedreiros de que dava m sorte construir mais que vinte ps de altura num nico
ano; se excedessem isso as fileiras mais baixas seriam deformadas com o peso
colocado por cima antes de a massa secar.
         Philip ficou surpreso ao ver todos os pedreiros ao ar livre, onde seria o
coro da igreja. Foi verificar o que estavam fazendo.
         Tinham construdo um arco semicircular de madeira e colocado na
vertical, sustentando-o em ambos os lados por estacas. Philip sabia que o arco de
madeira era uma pea daquilo que chamavam de forma: sua finalidade era escorar
o arco de pedra enquanto este estivesse sendo construdo. Agora, contudo, os
pedreiros estavam montando o arco de pedra no nvel do solo, sem massa, para
verificar se as pedras se ajustavam perfeitamente. Aprendizes e serventes erguiam
as pedras e as colocavam na forma, sob a superviso dos pedreiros.
         - Para que  isto? - perguntou Philip, depois de atrair a ateno de Tom.
         -  um arco para a galeria da tribuna.
         Philip ergueu os olhos pensativamente. A arcada fora completada no
ltimo ano e a galeria sobre ela ficaria pronta no ano seguinte. Ento, o ltimo
nvel, o do clerestrio, ficaria para ser construdo antes que o telhado tivesse
incio. Agora que as paredes haviam sido cobertas para o inverno, os pedreiros
cortavam as pedras para o trabalho do ano seguinte. Se aquele arco estivesse
correto, as pedras para todos os outros seriam cortadas de acordo com os
mesmos padres.
         Os aprendizes, entre os quais Jack, o enteado de Tom, montaram o arco
comeando de ambos os lados, com pedras em forma de cunha, chamadas de
aduelas.
         Embora o arco fosse destinado a ficar numa parte alta da igreja, teria
elaborados trabalhos de cinzelagem; assim, cada pedra exibiria na superfcie
visvel uma linha de grandes dentculos, outra de pequenos medalhes e uma
terceira, por baixo, de volutas, ou espirais simples.
         Quando as pedras estivessem dispostas em seus lugares, o trabalho de
cinzelagem ficaria perfeitamente alinhado, formando trs arcos contnuos, com
cada um daqueles motivos.
        Isso dava a impresso de que ele era feito de diversos arcos
semicirculares de pedra, um em cima do outro, mesmo que, na verdade,
consistisse em pedras em forma de cunha colocadas lado a lado. No entanto,
tinham que ficar perfeitamente ajustadas, pois de outro modo as cinzeladuras no
se alinhariam e a iluso se perderia.
        Philip observou Jack baixando a pedra central para colocla em posio.
Agora o arco estava completo. Quatro pedreiros pegaram marretas e derrubaram
as cunhas que sustentavam a forma de madeira algumas polegadas acima do
cho. De uma forma impressionante, o suporte de madeira caiu. Mas, embora
no houvesse massa entre as pedras, o arco resistiu de p. Tom Construtor
deixou escapar um grunhido de satisfao.
        Algum puxou a manga de Philip. Ele se virou e viu que era um jovem
monge.
        - Visita para o senhor, padre. Est esperando na sua casa.
        A visita era seu irmo, Francis. Philip o abraou calorosamente. Francis
parecia ansioso.
        - J lhe ofereceram algo para comer? - perguntou Philip.
        - Voc est com ar fatigado.
        - Trouxeram-me po e carne, obrigado. Passei o outono percorrendo a
cavalo o caminho entre Bristol, onde o rei Estvo estava aprisionado, e
Rochester, onde conde
        Robert era prisioneiro.
        - Voc usou o verbo no passado.
        Francis aquiesceu.
        - Negociei uma troca: Estvo por Robert. Foi concretizada no Dia de
Todos os Santos. O rei Estvo est agora de novo em Winchester.
        Philip ficou surpreso.
        - Parece-me que Matilde ficou com a pior parte da barganha - deu um rei
para ganhar um conde.
        Francis sacudiu a cabea.
        - Matilde nada podia fazer sem Robert. Ningum gosta dela, ningum
confia nela. O apoio de que dispunha estava entrando em colapso. Precisava
recuper-lo. A rainha
        Matilda foi esperta. No aceitava nada menos que o rei Estvo para
ceder Robert.
        Agarrou-se a essa posio e no fim conseguiu o que queria.
        Philip foi at a janela. Comeara a ventar e a chover, uma chuva fria que
escurecia as paredes altas da catedral e gotejava dos telhados baixos de palha dos
galpes dos artesos.
        - O que significa isto? - perguntou.
        - Significa que Matilde mais uma vez no passa de uma pretendente ao
trono. Afinal de contas, Estvo foi coroado, enquanto ela nunca chegou a s-lo,
propriamente.
        - Mas foi Matilde quem licenciou meu mercado.
        - Sim. Isso pode vir a ser um problema.
        - Minha licena perdeu o valor?
        - No. Ela foi concedida de forma adequada por um governante legtimo
que tinha sido aprovado pela Igreja. O fato de no ter sido coroada no faz a
menor diferena, mas Estvo pode cancel-la.
        - O mercado  que est pagando a pedra - disse Philip ansiosamente. -
No posso construir sem ele. Isso foi mesmo uma m notcia.
        - Sinto muito.
        - E as minhas cem libras? Francis deu de ombros.
        - Estvo lhe dir para receb-las de Matilde. Philip ficou angustiado.
        - Todo aquele dinheiro!... Era dinheiro de Deus, e o perdi.
        - Voc ainda no o perdeu - contraps Francis. - Pode ser que Estvo
no revogue sua licena. De um modo ou de outro, ele nunca demonstrou muito
interesse em mercados.
        - O conde William pode pression-lo.
        - William trocou de lado, lembra? Apostou tudo em Matilde. l no ter
muita influncia sobre Estvo.
        - Espero que tenha razo - disse Philip fervorosamente.
        - Espero em Deus que voc esteja com a razo.

         Quando ficou frio demais para se sentar na clareira, Aliena passou a
visitar a casa de Tom Construtor todas as noites. Alfred estava normalmente na
cervejaria, de modo que a famlia consistia em Tom, Ellen, Jack e Martha. Agora
que Tom estava indo to bem, tinham cadeiras confortveis, um bom fogo e
muitas velas. Ellen e Aliena trabalhavam, tecendo. Tom desenhava planos e
diagramas, riscando pedaos de lousa polida com uma pedra aguada. Jack fingia
fazer um cinto, amolar facas ou tranar um cesto, embora passasse a maior parte
do tempo contemplando furtivamente o rosto de Aliena iluminado pelas velas,
observando seus lbios se moverem quando falava ou estudando seu alvo
pescoo quando bebia um copo de cerveja.
         Riram muito naquele inverno. Jackamava fazer Aliena rir.
         Ela em geral era to controlada e reservada que era uma alegria vla se
soltar, quase como se a vislumbrasse nua. Ele estava constantemente pensando
em coisas para dizer que a divertissem. Fazia imitaes dos artfices que
trabalhavam no canteiro da obra, reproduzia o sotaque de um pedreiro parisiense
ou o caminhar das pernas arqueadas de um ferreiro. Uma vez inventou uma
narrativa cmica da vida com os monges, dando a cada um pecados plausveis -
orgulho para Remigius, gula para Bernard Cozinheiro, embriaguez para o
encarregado da hospedaria e luxria para Pierre Circuitor. Martha quase sempre
no se aguentava de tanto rir e at mesmo o taciturno Tom arriscava um sorriso.
         - No sei se vou conseguir vender todo este tecido - disse Aliena numa
dessas noites.
         De certa forma eles ficaram espantados.
         - Ento por que estamos tecendo? - perguntou Ellen.
         - No abandonei a esperana - respondeu Aliena. - S tenho um
problema.
         Tom levantou os olhos da lousa.
         - Pensei que o priorado estivesse ansioso para comprar seu tecido.
         - O problema no  esse. No consigo encontrar quem faa o trabalho de
pisoar, e o priorado no quer o tecido frouxo - ningum quer.
         -  um trabalho exaustivo - disse Ellen. - No admira que ningum
queira faz-lo.
         - Voc no consegue homens para o pisoamento? - sugeriu Tom.
         - No aqui, na prspera Kingsbridge. Todos os homens tm bastante
trabalho. Nas grandes cidades h pisoeiros profissionais, mas a maioria trabalha
para tecelos e esto proibidos de pisoar para os rivais dos seus empregadores.
De qualquer modo, custaria muito caro o transporte de ida e volta para
Winchester.
         - De fato  um problema - reconheceu Tom, e voltou ao seu trabalho.
         Jack foi assaltado por uma idia.
         -  uma pena que no possamos dar esse trabalho para os bois fazerem.
         Os outros riram.
         - Voc bem que poderia ensinar bois a construir igrejas - disse Tom.
         - Ou um moinho - persistiu Jack. - Geralmente h maneiras fceis de
fazer o trabalho mais duro.
         - Ela quer pisoar o tecido, no mo-lo - disse Tom.
         Jack no estava ouvindo.
         - Ns usamos equipamento especial e sarilhos para levantar as pedras at
a parte superior dos andaimes.
         - Oh, se houvesse algum mecanismo engenhoso para pisoar tecidos seria
uma maravilha - disse Aliena.
         Jack pensou em como ela ficaria satisfeita se pudesse resolver aquele
problema. Decidiu que tinha que achar um jeito.
         - J ouvi falar de um moinho de gua usado para acionar o fole de uma
forja, mas nunca o vi - disse Tom pensativamente.
         - A est! - exclamou Jack. - Prova que  possvel a minha idia!
         - Um moinho gira circularmente - disse Tom, e a m tambm, de modo
que um pode acionar o outro; mas o basto do pisoeiro sobe e desce. Voc no
pode fazer um moinho acionar um basto de pisoeiro.
         - Mas o fole tem movimento vertical - ele sobe e desce.
         -  verdade,  verdade; porm, nunca vi essa forja, s ouvi falar que
existia.
         Jack tentou visualizar a maquinaria de um moinho. A fora da gua
acionava a roda. O eixo dessa roda era conectado a outra roda dentro do
moinho. A roda interior, que era vertical, tinha dentes engrazados com os dentes
de outra roda que girava na horizontal. Esta ltima roda girava a pedra do
moinho.
         - Uma roda vertical pode fazer girar uma roda horizontal - murmurou
Jack, pensando em voz alta.
         Martha riu.
         - Jack! Pare! Se os moinhos pudessem pisoar tecidos, as pessoas espertas
j teriam pensado nisso.
         Jack ignorou-a.
         - Os bastes podiam ser fixados ao eixo da roda do moinho - disse. - O
tecido podia ficar na horizontal onde os bastes cassem.
         - Mas os bastes bateriam uma vez e ficariam presos - disse Tom. - E a
roda pararia. Eu lhe disse: rodas giram, mas bastes tm que subir e descer.
         - Deve haver um jeito - disse Jack obstinadamente.
         - No h - disse seu padrasto, no tom de voz que usava para encerrar
conversas.
         - Mesmo assim, aposto que h - resmungou Jack, rebelde; e Tom fingiu
que no escutou.

       No domingo seguinte, Jack desapareceu.
       Foi  igreja de manh e comeu em casa, como sempre; mas no apareceu
na hora da ceia. Aliena estava na sua cozinha, preparando um caldo grosso de
presunto e repolho com pimenta, quando Ellen apareceu procurando por ele.
       - No o vejo desde a missa - disse Aliena.
       - Desapareceu depois do jantar - disse Ellen. - Achei que estivesse com
voc.
       Aliena ficou um pouco envergonhada por ela ter feito aquela suposio
to prontamente.
       - Est preocupada? Ellen deu de ombros.
       - Mes sempre se preocupam.
       - Ele brigou com Alfred? - perguntou Aliena, nervosa.
       - Fiz a mesma pergunta. Alfred diz que no. - Ellen suspirou. - No acho
que tenha lhe acontecido algum mal. J fez isso antes e me atrevo a dizer que far
de novo. Nunca lhe ensinei a cumprir horrios.
       Mais tarde, pouco antes da hora de dormir, Aliena passou pela casa de
Tom para ver se Jack reaparecera. No. Foi para a cama preocupada. Richard
estava fora, em
         Winchester, de modo que se encontrava sozinha. Ficou pensando que
Jack podia ter cado no rio e morrido afogado, ou qualquer coisa assim. Como
devia ser terrvel para Ellen: Jack era seu nico filho! Os olhos de Aliena
encheram-se de lgrimas quando imaginou a dor de Ellen por perder Jack. Aquilo
era estupidez, pensou: Estou chorando por causa da dor de outra pessoa causada
por uma coisa que no aconteceu. Controlou-se e tentou pensar no trabalho. A
sobra de tecido era seu grande problema.
         Normalmente podia ficar metade da noite pensando em negcios, mas
daquela vez no conseguia esquecer Jack. E se ele houvesse quebrado a perna, e
estivesse na floresta, incapaz de se mover?
         Acabou caindo num sono que no lhe possibilitou descansar. Acordou 
primeira luz da madrugada, ainda se sentindo cansada. Enfiou a capa pesada por
cima da camisa de dormir, calou as botas guarnecidas de pele e saiu para
procur-lo.
         Ele no estava atrs da cervejaria, onde os homens em geral caam
dormindo e eram salvos do congelamento pelo calor da ftida pocilga. Desceu
at a ponte e caminhou, cheia de medo, ao longo da margem, at uma curva onde
o lixo era despejado. Uma famlia de patos ciscava por entre os pedaos de
madeira, sapatos usados, facas enferrujadas e ossos apodrecidos. Jack no estava
ali, graas a Deus.
         Subiu de novo a colina e entrou no priorado, onde os operrios que
construam a catedral comeavam o dia de trabalho. Encontrou Tom no seu
depsito.
         - Jack j voltou? - perguntou esperanosamente. Tom sacudiu a cabea.
         - Ainda no.
         Quando ia saindo, o mestre carpinteiro apareceu, preocupado.
         - Todos os nossos martelos desapareceram - disse a Tom.
         - Engraado - disse Tom. - Eu estava procurando um martelo e no
consegui achar nenhum.
         A seguir foi a vez de Alfred aparecer na porta e perguntar:
         - Onde esto as talhadeiras dos pedreiros?
         Tom coou a cabea.
         - Parece que todos os martelos da obra desapareceram murmurou,
desconcertado. Depois sua expresso se modificou e ele disse: - Aquele garoto,
Jack, est por trs disso, sou capaz de apostar.
         Claro, pensou Aliena. Martelos. Pisoar. O moinho.
         Sem dizer o que estava pensando, deixou o galpo de Tom, atravessou
apressadamente o adro, passando pela cozinha, na direo do canto sudoeste,
onde um canal desviado do rio acionava dois moinhos, um velho e um novo.
Como suspeitara, a roda do velho estava girando. Entrou no seu interior.
         O que viu a deixou confusa e assustada a princpio. Havia uma fila de
martelos presos numa vara horizontal. Parecendo ter vontade prpria, os
martelos ergueram a cabea, como cavalos levantando o focinho. Depois
desceram, todos juntos, e bateram simultaneamente com um estrondo to forte
que fez seu corao parar.
         Deu um grito de espanto. Os martelos ergueram de novo a cabea, como
se a tivessem ouvido, e desfecharam outro golpe. Estavam batendo num pedao
do seu tecido frouxo, imerso em uma ou duas polegadas de gua, num cocho
raso de madeira do tipo usado pelos preparadores de massa no canteiro da obra.
Os martelos estavam pisoando o tecido, Aliena se deu conta, e no teve mais
medo, embora parecessem assustadoramente vivos. Mas como aquilo era feito?
Viu que a vara onde haviam sido presos corria paralela ao eixo da roda do
moinho. Uma tbua fixa no eixo girava quando ele girava. Num determinado
ponto da sua volta, ela se conectava aos cabos dos martelos, empurrando-os para
baixo, de modo que as cabeas subiam. Quando a tbua continuava a rodar, os
cabos eram liberados. Ento caam e batiam no tecido, dentro do cocho.
Exatamente o que Jack dissera naquele domingo: um moinho podia pisoar
tecidos.
         Ouviu a voz dele:
         - Os martelos deveriam ser mais pesados para cair com mais fora. -
Aliena virou-se e o viu, cansado mas triunfante.
         - Acho que resolvi seu problema - disse, com um sorriso encabulado.
         - Estou to feliz por ver que voc est bem! Estvamos preocupados por
sua causa! - exclamou ela. Sem pensar, atirou os braos em torno dele e o beijou.
Foi um beijo muito rpido, quase no passando de um beijinho estalado; mas
depois, quando seus lbios se separaram, os braos de Jack a envolveram pela
cintura, segurando-lhe o corpo delicada mas firmemente, e Aliena teve que fit-lo
nos olhos. S conseguia pensar em como se sentia feliz por ele estar vivo e
inteiro. Deu-lhe um abrao afetuoso.
         De repente, porm, teve conscincia da prpria pele; sentiu a aspereza do
tecido da camisa de baixo e a maciez do plo que forrava as botas, assim como
sentiu tambm o bico dos seios comprimidos de encontro ao peito dele.
         - Estava preocupada comigo? - perguntou Jack, admirado.
         - Claro! Nem consegui dormir direito!
         Aliena sorria, alegre, mas a expresso dele era de uma terrvel solenidade,
e, aps um momento, seu estado de esprito sobreps-se ao dela, que se sentiu
estranhamente perturbada. Ouviu o corao bater, a respirao se acelerar. s
suas costas, os martelos, em unssono, sacudiam a estrutura de madeira do
moinho com cada golpe, e Aliena teve a impresso de sentir aquela vibrao no
seu ntimo.
         - Estou bem - disse ele. - Est tudo bem.
         - Estou to feliz! - repetiu ela, dessa vez num sussurro. Aliena viu Jack
fechar os olhos, inclinar o rosto na direo do seu, e, em seguida, sentiu o
contato da sua boca. O beijo de Jack foi delicado. Seus lbios eram cheios e a
barba, macia, de adolescente.
         Fechou os olhos para se concentrar na sensao. A boca de Jack moveu-
se contra a sua e pareceu-lhe natural entreabrir os lbios. De repente sua boca se
tornou ultra-sensvel, e ela foi capaz de sentir o mais leve dos toques, o menor
dos movimentos. A ponta da lngua de Jack acariciou a parte interna do seu lbio
superior. Aliena sentiu-se to feliz que teve vontade de chorar. Estreitou o corpo
dele, comprimindo os seios macios de encontro ao seu peito musculoso,
sentindo-lhe os ossos dos quadris na barriga. No estava mais simplesmente
aliviada por v-lo so e salvo, e feliz por t-lo ali. Agora sentia uma emoo nova.
Sua presena fsica a encheu com uma sensao de xtase que a deixou
ligeiramente tonta. Abraando-lhe o corpo, quis toc-lo mais, senti-lo mais,
chegar ainda mais perto. Esfregoulhe as costas com as mos. Queria sentir sua
pele, mas as roupas dele a frustraram. Sem pensar, abriu a boca e empurrou a
lngua entre seus lbios. Ouviu um som vindo da garganta de Jack, como um
abafado gemido de prazer.
         A porta do moinho se abriu, com uma batida. Aliena afastou-se de Jack.
         Subitamente se sentiu aturdida, como se estivesse dormindo e algum a
tivesse esbofeteado para que acordasse. Ficou horrorizada com o que estavam
fazendo - beijando-se e esfregando-se como uma prostituta e um bbado num
bordel!
         Recuou e virou-se. Entre todas as pessoas do mundo, o intruso era
Alfred, o que a fez se sentir pior. Ele a pedira em casamento trs meses antes, e
ela o rejeitara desdenhosamente. Agora ele a vira como uma cadela no cio.
Parecia, de certa forma, hipcrita. Corou, envergonhada. Alfred a olhava
fixamente, a expresso uma mistura de luxria e desprezo que a fez se recordar
de William Hamleigh. Ficou enojada de si prpria por ter dado razo a Alfred
para desprez-la, e furiosa com Jack por sua participao.
         Desviou o olhar de Alfred e virou-se para Jack. Quando os olhos dele
encontraram os seus, ele registrou o choque. Aliena percebeu que a raiva que
sentia estava expressa no seu rosto, mas nada pde fazer. A expresso de Jack de
aturdida felicidade transformou-se em confuso e mgoa.
         Normalmente isso a teria feito ceder, mas agora estava demasiadamente
irritada. Odiouo pelo que lhe tinha feito fazer. Rpida como um raio, deu-lhe
uma bofetada no rosto. Jack no se mexeu, mas havia agonia no seu olhar...
         O rosto do rapaz ficou vermelho no lugar atingido. Ela no aguentou ver
a dor nos seus olhos e obrigou-se a virar o rosto.
         No podia ficar ali. Correu para a porta com o incessante barulho dos
martelos nos seus ouvidos. Alfred saiu da frente depressa, parecendo quase
assustado. Passou por ele correndo e cruzou a porta. Tom Construtor estava do
lado de fora, com uma pequena multido de operrios.
        Todos haviam se dirigido ao moinho para descobrir o que estava se
passando. Aliena passou correndo por eles, sem falar nada. Um ou dois a
olharam com curiosidade, fazendo-a arder de vergonha; porm, estavam mais
interessados no barulho das marteladas vindo do moinho. A parte friamente
lgica da cabea de Aliena lembrou que Jack tinha resolvido o problema de
pisoar o seu tecido; mas a idia de que ele ficara acordado a noite inteira fazendo
algo para ela s serviu para que se sentisse pior. Passou pelo estbulo, atravessou
o porto do priorado e seguiu pela rua, as botas escorregando e deslizando na
lama, at chegar em casa.
        Quando entrou, encontrou Richard. Estava sentado  mesa da cozinha,
com um pedao de po e uma jarra de cerveja.
        - O rei Estvo est em marcha - disse. - A guerra comeou de novo.
Preciso de outro cavalo.

        Nos trs meses seguintes Aliena mal falou duas palavras seguidas com
Jack.
         Ele se sentiu profundamente pesaroso. Ela o beijara como se o amasse,
no havia engano quanto a isso. Quando Aliena sara do moinho, ele estava certo
de que se beijariam daquele jeito de novo muito em breve.
         Andara por toda parte numa espcie de deslumbramento ertico,
pensando: Aliena me ama! Aliena me ama! Ela acariciara suas costas, pusera a
lngua dentro de sua boca e pressionara os seios contra ele.
         No podia fingir que no o amava aps aquele beijo. Esperou que ela
vencesse a timidez. com a ajuda do carpinteiro do priorado fez um mecanismo de
pisoar mais forte e permanente para o moinho velho, e Aliena teve o seu tecido
pisoado. Ela lhe agradeceu com sinceridade, mas tambm com frieza na voz e
fugindo do seu olhar.
         Quando a coisa continuou assim no apenas por uns poucos dias, mas
por diversas semanas, ele foi forado a admitir que havia algo seriamente errado.
Uma onda de desiluso o envolveu e foi como se estivesse se afogando em
tristeza. Ficou aturdido.
         Desejou angustiadamente ser mais velho; queria ter mais experincia com
as mulheres, para poder dizer se Aliena era normal ou diferente, e se deveria
ignor-la ou se defrontar com ela.
         Estando incerto, e tambm temendo dizer a coisa errada e piorar tudo,
acabou no fazendo nada; depois o constante sentimento de rejeio comeou a
importun-lo, e ele se sentiu intil, estpido e impotente. Pensou em como era
tolo por ter imaginado que a mulher mais desejvel e inalcanvel do condado
pudesse se apaixonar por ele, um mero garoto. Ele a divertira por algum tempo,
com suas histrias e anedotas, mas assim que a beijara como um homem ela
fugira. Que tolo fora por ter esperanas de qualquer outra coisa!
        Aps uma ou duas semanas dizendo a si prprio que era um idiota,
comeou a ficar furioso. Irritava-se no trabalho e os outros comearam a trat-lo
com cautela.
        Foi perverso com Martha, magoando-a quase tanto quanto Aliena o
magoara. Nas tardes de domingo, gastava o dinheiro que ganhava jogando em
brigas de galo.
        Toda a sua paixo se expressava atravs do seu trabalho. Estava
cinzelando modilhes, pedras salientes que do a impresso de suportar arcos ou
colunas que no chegam ao cho.
        Frequentemente eram decorados com folhas, mas uma alternativa
tradicional era cinzelar um homem que parecesse estar segurando o arco com as
mos ou escorando-o nas costas.
        Jack alterou s um pouco o padro costumeiro, mas o efeito foi mostrar
uma figura humana perturbadoramente retorcida, com uma expresso de dor,
condenada  eterna agonia de sustentar o imenso peso da pedra. Jack sabia que
seu trabalho era brilhante: ningum mais era capaz de gravar uma figura que
parecesse estar sentindo dor.
        Quando Tom o viu, sacudiu a cabea, sem saber se se maravilhava com a
expressividade da cinzelagem ou se desaprovava sua heterodoxia. Philip ficou
muito emocionado.
        Jack no se importou com o que pensavam: achava que quem no
gostasse daquilo era cego.
        Uma segunda-feira, na Quaresma, quando todo mundo estava irritadio
por no comer carne h trs semanas, Alfred foi trabalhar com uma expresso de
triunfo na fisionomia.
        Estivera em Shiring na vspera. Jack no sabia o que fora fazer ali, mas
era claro que estava satisfeito.
        Na pausa da metade da manh, quando Enid Brewster punha um barril
de cerveja no meio do coro e vendia aos operrios, Alfred pegou um penny e
gritou:
        - Ei, Jack, filho de Tom, apanhe um pouco de cerveja para mim.
        J sei que vai falar algo a respeito do meu pai, pensou Jack. Ignorou
Alfred.
        -  melhor fazer o que lhe mandam, garoto - disse um dos carpinteiros,
um homem mais velho chamado Peter. - Um aprendiz sempre devia obedecer a
um mestre.
        - No sou filho de Tom - disse Jack. - Tom  meu padrasto, e Alfred sabe
disso.
         - Faa o que ele manda, mesmo assim - insistiu Peter, num Tom de voz
conciliador.
         Relutantemente, Jack pegou o dinheiro de Alfred e entrou na fila.
         - O nome de meu pai era Jack Shareburg - disse, em voz alta. - Vocs
todos podem me chamar de Jack, filho de Jack, se quiserem fazer uma diferena
entre mim e Jack Ferreiro.
         - Jack Bastardo seria mais conveniente - disse Alfred.
         - Alguma vez j procuraram descobrir por que Alfred no amarra as
botas? - perguntou Jack. Todos olharam para os ps de Alfred. Sim, suas botas
pesadas e cheias de lama, que eram para ser amarradas at em cima, estavam
abertas. -  para poder ver rapidamente os dedos dos ps, no caso de precisar
contar acima de dez. - Os artesos sorriram e os aprendizes gargalharam. Jack
entregou o penny de Alfred a Enid e pegou um caneco de cerveja. Levou-o para
Alfred e o entregou com uma pequena reverncia satrica. O outro ficou
aborrecido, mas no muito; ainda tinha um trunfo escondido na manga. Jack
afastou-se e foi beber sua cerveja com os aprendizes, esperando que Alfred
desistisse.
         Mas no haveria desistncias. Poucos momentos depois ele o seguiu e
disse:
         - Se Jack Shareburg fosse meu pai eu no diria a todo mundo to
depressa. Voc no sabe o que ele era?
         - Menestrel - disse Jack, procurando dar um Tom de confiana  voz,
mas com medo do que Alfred ia dizer. - No creio que saiba o que quer dizer
"menestrel".
         - Ele era ladro - disse Alfred.
         - Oh, cale a boca, seu cabea de merda. - Jack virou-se e tomou um gole
da cerveja, mas quase no pde engolir. Alfred tinha algum motivo para dizer
aquilo.
         - Voc no sabe como foi que ele morreu? - insistiu Alfred.
         A est, pensou Jack; foi isso que ele soube ontem em Shiring;  este o
motivo pelo qual est exibindo esse sorriso idiota. Virou-se, relutantemente, e
encarou Alfred.
         - No, no sei como meu pai morreu, Alfred, mas acho que voc vai me
contar.
         - Ele foi enforcado, por ser um ladro sujo.
         Jack soltou um grito involuntrio de angstia. Sabia intuitivamente que
era verdade. Alfred estava to absolutamente seguro de si que no poderia ter
inventado aquilo.
         E, num relmpago, Jack viu que assim se explicava a reticncia de sua
me. H anos ele temia secretamente algo assim. O tempo todo fingira que no
havia nada de errado, que no era bastardo, que tinha um pai de verdade com um
nome de verdade. Mas sempre temera que houvesse alguma desgraa envolvendo
seu pai, que os insultos tivessem base real, que existisse mesmo algo de que se
envergonhar. l estava por baixo: a rejeio de Aliena o deixara se sentindo
indigno e desprezvel. A verdade sobre seu pai o atingiu como uma bofetada.
        Alfred ficou parado, sorrindo, extremamente satisfeito consigo mesmo: o
efeito daquela revelao o deleitara. Sua expresso enfureceu Jack.
        J era bastante ruim o fato de seu pai ter sido enforcado. O fato de
Alfred se sentir feliz por causa disso, ento, era demais para tolerar. Sem pensar,
atirou a cerveja no seu rosto sorridente.
        Os outros aprendizes, que assistiam satisfeitos  discusso entre o filho e
o enteado de Tom Construtor, recuaram depressa um ou dois passos. Alfred
limpou a cerveja dos olhos, urrou de raiva e lanou  frente o punho enorme,
num movimento surpreendentemente rpido para um homem to grande. O
soco atingiu o rosto de Jack com tanta fora que, em vez de causar dor,
provocou amortecimento.
        Antes que tivesse tempo de reagir, o outro punho de Alfred o acertou no
meio do corpo. Esse soco doeu terrivelmente. Jack achou que nunca mais fosse
respirar de novo. Encolheu-se e caiu no cho. Em seguida, Alfred lhe deu um
pontap na cabea e Jack por um momento nada viu, exceto uma luz branca.
        Rolou no cho, s cegas, e lutou para se levantar. Mas Alfred ainda no
estava satisfeito. Assim que Jack ficou de p, sentiu que fora agarrado. Comeou
a debater-se.
        Estava assustado agora. Alfred no teria piedade. Seria espancado e
reduzido a nada, se no conseguisse fugir. Por um momento Alfred segurouo
com muita fora e Jack no conseguiu se libertar, mas ento recuou um dos
punhos enormes para dar mais um soco, e nesse instante Jack caiu fora.
        Disparou como uma flecha e Alfred correu atrs dele. Jack desviou-se de
um barril de cal, puxando-o para que ficasse no caminho de Alfred e derramando
cal no cho.
        Alfred pulou por cima do barril mas bateu num tonel de gua que
tambm derramou. Quando a gua entrou em contato com a cal esta ferveu e
chiou. Alguns operrios, vendo o desperdcio do dispendioso material, gritaram
protestos, mas Alfred estava surdo a eles e Jack no podia pensar em nada a no
ser fugir de Alfred. E seguiu correndo, ainda dobrado ao meio de dor e meio
cego devido ao pontap na cabea.
        Alfred estava to junto dele que esticou um p e o derrubou. Jack se
estatelou no cho. vou morrer, pensou, enquanto rolava de lado; Alfred vai me
matar agora. Parou debaixo de uma escada encostada a um andaime que ia at a
parte mais alta da obra.
        Alfred lanou-se sobre ele. Jack sentiu-se como um coelho encurralado.
A escada o salvou. Quando Alfred passou por trs dela, Jack esquivou-se pela
parte da frente e pulou nos degraus. Subiu a escada como um rato numa vala de
lixo.
        Sentiu a escada balanar quando Alfred subiu no seu encalo.
Normalmente era mais rpido que ele, mas ainda estava meio tonto e recurvado.
Chegou ao topo da escada e passou para o andaime. Tropeou e caiu contra a
parede. As pedras tinham sido assentadas naquela manh e a massa ainda estava
mida.
        Quando Jack as percorreu, toda uma seo deslocou-se e trs ou quatro
pedras escorregaram de lado e caram. Pensou que fosse cair junto delas. Oscilou
em cima da parede e, quando olhou para baixo, viu as grandes pedras rolando
sobre si prprias enquanto caam mais de oitenta ps em cima dos telhados de
meia-gua dos galpes, construdos ao p da parede.
        Endireitou-se, esperando que no houvesse ningum nos galpes. Alfred
acabou de subir a escada e avanou na sua direo por cima do instvel andaime.
        Ele estava vermelho e ofegante, com os olhos cheios de dio. Jack no
tinha dvida de que, naquele estado, era capaz de matar. Se me pegar, pensou, vai
me atirar l embaixo.  medida que Alfred avanava, Jack recuava. Tropeou em
algo macio e percebeu que era um monte de massa. Inspirado, abaixou-se
rapidamente, pegou um punhado e atirou com preciso nos olhos de Alfred.
        Cego, Alfred parou de avanar e sacudiu a cabea, tentando se livrar da
massa. Finalmente Jack tinha uma chance de fugir. Correu para a outra ponta da
plataforma, tencionando descer, fugir do priorado o mais depressa possvel e
passar o resto do dia escondido na floresta. Mas, para seu horror, no havia
escada na outra ponta. No podia descer o andaime, pois este no chegava ao
cho; era construdo sobre travessas enfiadas em buracos na parede. Estava
perdido.
        Olhou para trs. Alfred recuperara a viso e avanava.
        No havia outro jeito de descer.
        Na parte inacabada da parede, onde o coro se encontraria com o
transepto, cada carreira de pedras tinha a metade do comprimento da inferior
criando um lance ngreme de degraus estreitos, s vezes usados pelos serventes
mais ousados como meio alternativo de subir na plataforma.
        Com o corao na boca, Jack subiu, cuidadosa mas rapidamente,
tentando no ver o tamanho do tombo que levaria caso escorregasse. Parou no
topo e olhou para baixo.
        Chegou a ficar um pouco tonto. Olhou para trs. Alfred vinha vindo,
sobre a parede. Ele desceu.
        Jack no conseguia entender por que Alfred estava to destemido: nunca
fora muito corajoso. Era como se o dio tivesse amortecido sua noo de perigo.
Enquanto desciam os degraus assustadoramente ngremes, ele se aproximou.
Encontravam-se ainda a mais de doze ps do cho quando Jack percebeu que
Alfred estava muito perto. Em desespero, saltou sobre o telhado de palha do
galpo dos carpinteiros. Pulou para o cho, mas caiu de mau jeito, torcendo um
tornozelo e levando um tombo.
         Cambaleando, ps-se de p. Os segundos que perdera caindo tinham
possibilitado a Alfred chegar ao cho e correr para o galpo. Por uma frao de
segundo Jack ficou de costas para a parede, e Alfred parou, esperando para ver
em que direo ele pularia.
         Jack sofreu um momento de aterrorizada indeciso; depois, inspirado,
deu um pulo e entrou no galpo.
         No havia ningum ali, pois todos estavam  volta do barril de Enid.
Sobre os bancos havia os martelos, serrotes e formes dos carpinteiros, assim
como as peas em que estavam trabalhando. No meio do cho havia um pedao
grande de uma forma nova, para ser usada na construo de um arco; no fundo,
junto  parede da igreja, crepitava um fogo, alimentado pelas aparas e sobras de
madeira.
         No havia sada.
         Jack virou-se para enfrentar Alfred. Estava encurralado. Por um
momento ficou paralisado de medo. Ento o medo cedeu lugar  raiva. No
importa que eu morra, pensou, desde que faa Alfred sangrar antes. No esperou
que Alfred atacasse. Baixou a cabea e arremeteu. Estava com tanta raiva que
nem mesmo usou os punhos. Simplesmente se atirou contra ele com toda a
fora.
         Foi a ltima coisa pela qual Alfred esperava. A testa de Jack bateu na sua
boca. O rapaz era duas ou trs polegadas mais baixo e muito mais leve, mas
assim mesmo o choque fez Alfred recuar. Quando Jack recuperou o equilbrio,
viu sangue nos lbios do outro e ficou satisfeito.
         Por um momento, o filho de Tom ficou surpreso demais para reagir. E
foi nesse mesmo instante que Jack percebeu uma grande marreta de madeira
encostada a um banco.
         Quando Alfred se recuperou e avanou, Jack levantou a marreta e a
brandiu selvagemente com toda a fora no golpe; novamente no atingiu Alfred;
atingiu, contudo, a viga que sustentava o telhado do galpo.
         O galpo no era solidamente construdo. Ningum morava dentro dele.
         Sua nica funo era capacitar os carpinteiros a trabalhar em dias de
chuva. Quando Jack atingiu a viga com a marreta, a viga se deslocou. As paredes
eram frgeis painis de ramos entrelaados, e no participavam da sustentao do
telhado, que cedeu. Alfred olhou para cima, atemorizado. Jack levantou a
marreta. O filho de Tom recuou pela porta. Jack foi atrs dele de novo. Alfred
recuou e, tropeando numa pilha de madeira de pouca altura, caiu sentado
pesadamente. Jack ergueu a marreta bem alto para desferir o golpe de
misericrdia. Nesse momento seu brao foi fortemente imobilizado.
         Ele olhou para trs e viu o prior Philip, com uma expresso que no
podia ser mais ameaadora. Este torceu sua mo e o fez largar a marreta.
         Por trs do prior, o telhado do galpo desmoronou. Jack e Philip
olharam. Quando caiu em cima do fogo, a palha seca se incendiou imediatamente
e no momento seguinte o fogo j estava bem alto.
         Tom apareceu e apontou para os trs operrios mais prximos.
         - Voc, voc e voc: tragam aquela pipa d'gua que est em frente 
ferraria. - Em seguida, virou-se para trs outros:
         - Peter, Rolf, Daniel, apanhem baldes. Vocs, aprendizes, joguem terra
em cima do fogo. E depressa com isso!
         Nos minutos que se seguiram todos se concentraram no incndio, e Jack
e Alfred fora esquecidos. O mais jovem saiu do caminho e ficou olhando,
atnito, incapaz de fazer qualquer coisa. O filho de Tom se manteve a uma certa
distncia. Eu ia realmente esmagar a cabea dele com uma marreta?, pensou Jack,
incrdulo. A coisa toda parecia irreal. Ainda se encontrava em estado de choque
quando a combinao de gua e terra apagou as chamas.
         O prior Philip parou, contemplando toda aquela confuso, ofegante aps
tanto exerccio.
         - Olhe s para isto! - exclamou para Tom, furioso. - Um galpo
arruinado. O trabalho dos carpinteiros perdido. Um barril de cal desperdiado e
toda uma seo de pedras recm assentadas destruda.
         Jack percebeu que Tom estava encrencado; era sua obrigao manter a
ordem no canteiro da obra, e Philip o responsabilizava pelo prejuzo. O fato de
os culpados serem os filhos dele ainda piorava tudo.
         - A associao dos pedreiros resolver o problema - disse com brandura,
pondo a mo no brao do prior.
         Philip no estava disposto a ceder.
         - Eu trato disso - retrucou. - Sou o prior e todos vocs trabalham para
mim.
         - Ento permita que os pedreiros deliberem antes de tomar sua deciso -
disse Tom, numa voz calma e ponderada.
         - Podemos sugerir uma soluo que seja do seu agrado. Caso contrrio,
ter liberdade de fazer o que quiser.
         Philip relutava visivelmente em deixar a iniciativa sair de suas mos, mas
a tradio estava do lado de tom: os pedreiros se autodisciplinavam.
         - Muito bem - disse o prior aps uma pausa. - Mas seja qual for a deciso
de vocs, no aceitarei que seus dois filhos continuem trabalhando nesta obra.
Um deles ter que ir embora. - Ainda fervendo de raiva, afastou-se com largas
passadas.
         Lanando um olhar sombrio a Jack e Alfred, Tom afastou-se e entrou no
maior galpo dos pedreiros.
         Seguindo Tom, Jack sabia que se metera em uma encrenca feia.
Geralmente, quando os pedreiros puniam um deles, era por transgresses como
beber no trabalho e furtar material de construo. O mais comum dos castigos
era a aplicao de uma multa. Briga entre aprendizes costumava resultar em os
dois briges sendo postos num tronco por um dia, mas claro que Alfred no era
aprendiz, e, de qualquer modo, brigas no causavam tantos danos. A associao
podia expulsar quem trabalhasse por menos que o salrio mnimo combinado.
Podia tambm punir o membro que houvesse cometido adultrio com a mulher
de outro pedreiro, embora Jack nunca tivesse visto esse tipo de coisa.
Teoricamente, os aprendizes podiam ser chicoteados; no entanto, embora s
vezes houvesse a ameaa, Jack tambm nunca vira isso acontecer.
         Os mestres pedreiros encheram o galpo de madeira, sentados nos
bancos e encostados  parede dos fundos, que, na realidade, era uma das laterais
da igreja.
         - Nosso empregador est furioso, e com razo - disse Tom, quando todos
entraram. - Esse incidente causou um bocado de danos. Pior ainda, trouxe
desonra para ns, pedreiros. Temos que ser firmes com os culpados. Ser o nico
modo de recuperar nossa boa reputao de operrios orgulhosos e disciplinados,
homens to senhores de si prprios quanto do ofcio que exercem.
         - Muito bem dito - aprovou Jack Ferreiro, e houve um murmrio de
concordncia.
         - S vi o fim da briga - prosseguiu Tom. - Algum viu o comeo?
         - Alfred atacou o rapaz - disse Peter Carpinteiro, o tal que havia
aconselhado Jack a ser obediente e ir buscar a cerveja de Alfred.
         - Jack jogou cerveja na cara de Alfred - disse um jovem pedreiro que se
chamava Dan e trabalhava para Alfred.
         - Mas Jack foi provocado - disse Peter. - Alfred insultou o pai natural do
rapaz.
         Tom olhou para Alfred.
         - Isso  verdade?
         - Eu disse que o pai dele era ladro - respondeu Alfred. -  verdade. Foi
enforcado por roubo em Shiring. O xerife Eustace me disse ontem.
         Jack Ferreiro deu sua opinio.
         - Vai ser terrvel se um mestre arteso tiver que conter a lngua, temendo
que o aprendiz no goste do que diz.
         Houve um murmrio de aprovao. Jack percebeu, desanimado, que, o
que quer que acontecesse, no ia conseguir se livrar daquela facilmente. Talvez
meu destino seja me tornar um criminoso, como meu pai, pensou; talvez eu
tambm termine na forca.
         - Ainda assim - retrucou Peter Carpinteiro, que estava assumindo o papel
de defensor de Jack, afirmo que faz diferena se o arteso se d ao trabalho de ir
enfurecer o aprendiz.
        - Continua sendo necessrio punir o aprendiz - disse Jack Ferreiro.
        - No digo o contrrio - retrucou Peter. - S acho que o arteso precisa
ser punido tambm. Os mestres artesos tm que usar a sabedoria da sua idade
para trazer paz e harmonia ao canteiro de obra. Se provocarem brigas estaro
deixando de cumprir seu dever.
        Pareceu haver alguma concordncia quanto a isso, mas Dan, que apoiava
Alfred, disse:
        -  um princpio perigoso perdoar o aprendiz porque o mestre foi mau.
Os aprendizes sempre acham que os mestres so maus. Desse jeito vamos
terminar com os mestres sem nunca falar com os aprendizes, com medo de que
os agridam devido a uma descortesia.
        Esse argumento teve acalorada aprovao, para revolta de Jack. S
demonstrava que a autoridade do mestre tinha que ser protegida, sem se dar
importncia a quem pudesse ter a razo em cada caso. Perguntou-se qual seria
seu castigo. No tinha dinheiro para pagar uma multa. Odiava a idia de ser posto
num tronco: o que Aliena pensaria? Mas o pior seria o aoitamento. Achava que
ia querer esfaquear quem tentasseaoit-lo.
        - No podemos nos esquecer - disse Tom - de que o nosso empregador
tambm tem uma forte posio a respeito disso. Diz que no ter Alfred e Jack
trabalhando na obra ao mesmo tempo. Um deles ter que ir embora.
        - Ele poder ser convencido a desistir dessa posio? - perguntou Peter.
        Tom ficou pensativo.
        - No - respondeu, aps uma pausa.
        Jack ficou chocado. No tomara o ultimato do prior Philip a srio. Mas
Tom, sem dvida, tomara.
        - Se um deles tem que ir embora - disse Dan, acredito que no haja
dvida quanto a quem ser. - Dan era um dos pedreiros que trabalhava para
Alfred, e no para o priorado, e se Alfred fosse embora provavelmente ele
tambm precisaria ir.
        Mais uma vez Tom ficou pensativo e mais uma vez disse:
        - No, no h dvida. - Ele olhou para o enteado. - Jack vai ter que ir
embora.
        Jack se deu conta de que subestimar fatidicamente as consequncias da
briga. No entanto, mal podia crer que fossem plo para fora. Como seria a vida
se no trabalhasse na Catedral de Kingsbridge? Desde que Aliena se recolhera 
sua concha, a catedral era tudo o que lhe importava. Como poderia ir embora?
        - O priorado poderia ceder e aceitar um compromisso disse Peter
Carpinteiro. - Jack seria suspenso por um ms.
        Sim, por favor, pensou Jack.
        - Fraco demais - disse Tom. - Temos que ser vistos agindo decisivamente.
O prior Philip no aceitar nenhuma soluo branda.
        - Ento, que seja assim - disse Peter, desistindo. - Esta catedral perde o
mais talentoso jovem cinzelador que a maioria de ns j viu, s porque Alfred
no consegue manter a maldita boca fechada. - Diversos pedreiros exprimiram
sua aprovao a esse sentimento. Encorajado, Peter continuou: - Eu o respeito,
Tom Construtor, mais do que respeitei qualquer outro mestre para quem tenha
trabalhado, mas  preciso que se diga que  cego no que diz respeito a esse
teimoso do seu filho.
        - Nada de injrias, por favor - disse Tom. - Vamos nos ater aos fatos do
caso.
        - Est bem - anuiu Peter. - Digo ento que Alfred deve ser punido.
        - Por qu? - indagou Alfred, indignado. - Por ter batido num aprendiz?
        - Ele no  seu aprendiz,  meu - disse Tom. - E voc fez mais que bater
nele. Voc o perseguiu por todo o canteiro da obra. Se o tivesse deixado fugir, a
cal no teria sido derramada, o trabalho de cantaria, danificado, e o galpo dos
carpinteiros, incendiado; e voc poderia ter resolvido o caso com ele quando
voltasse. No havia necessidade de fazer o que fez.
        Os pedreiros concordaram.
        Dan, que parecia ter se tornado o porta-voz dos pedreiros de Alfred,
disse:
        - Espero que voc no proponha a expulso de Alfred da associao. Eu,
por exemplo, lutaria contra isso.
        - No - disse Tom. - J  bastante ruim perder um aprendiz talentoso.
No quero perder tambm um bom pedreiro, que chefia um grupo confivel.
Alfred deve ficar, mas penso que deve ser multado.
        Os homens de Alfred pareceram aliviados.
        - Uma multa pesada - disse Peter.
        - Uma semana de salrio - props Dan.
        - Um ms; duvido que o prior Philip se satisfaa com menos.
        - Sim - concordaram diversos homens.
        - Estamos todos pensando da mesma forma a esse respeito, irmos
pedreiros? - perguntou Tom, usando uma frmula costumeira.
        - Sim - todos votaram, concordando.
        - Ento comunicarei ao prior a nossa deciso. E quanto a vocs,  melhor
que retornem ao trabalho.
        Jack, desconsolado, ficou observando os homens sarem, um aps o
outro. Alfred, cheio de si, lanou-lhe um olhar triunfante. Tom esperou que
todos tivessem sado e se virou para Jack:
        - Fiz o melhor que pude por voc. Espero que sua me veja isso.
        - Voc nunca fez nada por mim! - explodiu Jack. - No podia me
alimentar, vestir ou me dar uma casa para morar. ramos felizes at voc
aparecer, e ento passamos fome!
         - Mas no fim...
         - Voc nem sequer me protegeu desse bruto irracional que chama de seu
filho!
         - Eu tentei...
         - Voc nunca teria conseguido esse emprego se eu no tivesse incendiado
a velha catedral!
         - O que foi que voc disse?
         - Sim, eu incendiei a velha catedral. Tom ficou plido.
         - Aquilo foi um relmpago...
         - No houve relmpago. Era uma noite linda. E ningum tinha acendido
nada na catedral. Fui eu que incendiei o telhado.
         - Mas por qu?
         - Para que voc pudesse arranjar trabalho. De outro modo minha me
teria morrido na floresta.
         - Ela no...
         - Sua primeira mulher morreu, no foi?
         Tom ficou branco. De repente, pareceu muito mais velho. Jack percebeu
que o ferira profundamente. Ganhara a discusso, mas decerto perdera um
amigo. Sentiu-se amargurado e triste.
         - D o fora daqui - sussurrou Tom.
         Jack saiu.
         Afastou-se das imponentes paredes da catedral quase chorando. Sua vida
fora devastada em poucos momentos. Era inacreditvel que estivesse se
afastando daquela igreja para sempre. No porto do priorado ele parou e se
virou. Havia tantas coisas que estivera planejando!
         Queria cinzelar um portal inteiro sozinho, e persuadir Tom a ter anjos no
clerestrio; tinha um desenho inovador para a arcatura nos transeptos, que ainda
no mostrara a ningum. Agora nunca mais faria nenhuma dessas coisas. Era to
injusto! Seus olhos encheram-se de lgrimas.
         Voltou para casa com a viso enevoada. Sua me e Martha estavam
sentadas  mesa da cozinha. Ellen estava ensinando a garota a escrever com uma
pedra aguada e uma lousa. Ficaram surpresas ao v-lo.
         - No pode ser hora do jantar - disse Martha. Ellen leu a expresso do
filho.
         - O que foi?
         - Tive uma briga com Alfred e fui expulso do canteiro da obra - disse ele,
carrancudo.
         - Alfred no foi expulso? - quis saber Martha.
         Jack balanou a cabea.
         - No  justo! - exclamou Martha.
         - Por que brigaram desta vez? - perguntou Ellen, cansada daquele tipo de
coisa.
        - Meu pai foi enforcado em Shiring por roubo? - perguntou Jack.
        Martha levou um susto. Ellen pareceu triste.
        - Ele no era ladro. Mas  verdade que foi enforcado em Shiring.
        Jack estava farto de declaraes enigmticas acerca de seu pai, e
exclamou, brutalmente:
        - Por que voc nunca me diz a verdade?
        - Porque ela me faz sentir muita tristeza!
        Para horror de Jack, sua me comeou a chorar. Ele nunca a vira
derramar uma lgrima sequer. Sempre fora to forte! Quase cedeu tambm.
Engoliu em seco e insistiu.
        - Se no era ladro, por que foi enforcado?
        - No sei! - exclamou Ellen. - Nunca soube. Tampouco ele soube o
motivo. Disseram que roubou um clice ornamentado com pedrarias.
        - De onde?
        - Daqui, do priorado de Kingsbridge.
        - Kingsbridge! Foi o prior Philip quem o acusou?
        - No, no, foi muito tempo antes de Philip. - Ela fitou Jack com os
olhos cheios de lgrimas. - No comece a me perguntar quem o acusou e por
qu. No se deixe prender nesta armadilha. Voc poderia passar o resto da vida
tentando consertar um erro cometido antes de ter nascido. No criei voc para se
vingar. No faa disso a sua vida.
        Jack gostaria de saber mais alguma coisa a respeito do que ela estava
dizendo; mas naquele exato momento s queria que parasse de chorar. Sentou-se
ao lado dela no banco e passou um brao pelos seus ombros.
        - Bem, parece que a catedral no ser mais a minha vida.
        - O que voc vai fazer, Jack? - perguntou Martha.
        - No sei. No posso viver em Kingsbridge, posso?
        Martha ficou profundamente agitada.
        - Mas por que no?
        - Alfred tentou me matar e Tom me expulsou. No vou morar com eles.
De qualquer forma, sou homem. Tenho que deixar minha me.
        - Mas o que voc vai fazer?
        Jack deu de ombros.
        - A nica coisa que sei tem a ver com construo.
        - Voc poderia trabalhar em outra igreja.
        - Suponho que eu seja capaz de amar outra catedral tanto quanto esta -
disse ele, desanimado. Na verdade estava pensando: Mas nunca amarei outra
mulher como amo Aliena.
        - Como foi que Tom fez isso com voc? - indagou Ellen. Jack suspirou.
         - No creio que fosse sua vontade. O prior Philip disse que no aceitaria
ter Alfred e eu trabalhando ao mesmo tempo na obra.
         - Ento aquele maldito monge est por trs disso! - exclamou sua me,
furiosa. - Juro que...
         - Ele ficou muito zangado com o estrago que causamos.
         - Eu s queria saber se ele se deixaria convencer pela lgica.
         - O que voc quer dizer com isso?
         - Dizem que Deus  misericordioso... Os monges talvez devessem ser
misericordiosos tambm.
         - Voc acha que eu deveria implorar a Philip? - perguntou Jack, de certa
forma surpreso com o rumo do pensamento de sua me.
         - Eu estava pensando em falar com ele - disse ela.
         - Voc! - Aquilo era ainda mais estranho. Para Ellen estar disposta a pedir
misericrdia a Philip, devia estar terrivelmente perturbada.
         - O que voc acha? - ela lhe perguntou.
         Tudo indicava que Tom pensara que Philip no seria misericordioso,
rememorou Jack. Mas naquele momento, a principal preocupao de Tom fora
conseguir que a deciso partisse da associao dos pedreiros. Tendo prometido a
Philip que seriam firmes, Tom no podia pedir misericrdia. Ellen no se
encontrava na mesma posio. Jack comeou a se sentir um pouco mais
esperanoso. Podia ser que no tivesse que ir embora, afinal de contas. Talvez
pudesse ficar em Kingsbridge, perto da catedral e de Aliena.
         No tinha mais esperanas de que ela o amasse, mas mesmo assim odiava
a idia de ir embora e nunca mais v-la de novo.
         - Est bem - disse ele. - Vamos pedir ao prior Philip. Nada temos a
perder seno o nosso orgulho.
         Ellen enfiou a capa e eles saram juntos, deixando Martha sentada
sozinha na mesa, ansiosa.
         Entraram no adro e foram direto para a casa do prior. Ellen bateu  porta
e entrou. Tom estava ali com o prior Philip. Jack soube imediatamente, pela
expresso deles, que Tom no contara a Philip que fora ele, Jack, quem
incendiara a velha igreja.
         Sentiu-se aliviado. Provavelmente nunca mais contaria. Esse segredo
estava salvo.
         Tom pareceu ansioso, se  que no um pouco amedrontado, quando viu
Ellen. Jack recordou o que ele dissera: Fiz o melhor que pude por voc. Espero
que sua me veja isso. Tom estava se lembrando da ltima vez em que Jack e
Alfred tinham brigado. Em consequncia disso, Ellen o deixara. Tinha medo de
que ela o deixasse agora.
         Philip no parecia mais furioso, na opinio de Jack. Talvez a deciso da
associao de pedreiros o tivesse deixado satisfeito. Podia inclusive estar se
sentindo um pouco culpado por causa da sua dureza.
        - Vim aqui para lhe suplicar que seja misericordioso, prior Philip - disse
Ellen.
        Tom imediatamente pareceu aliviado.
        - Estou ouvindo - disse Philip.
        - Voc est propondo mandar meu filho para longe de tudo o que ele
ama - sua casa, sua famlia e seu trabalho.
        E a mulher que ele adora, pensou Jack.
        - Estou? - disse Philip. - Pensei que simplesmente o estivesse
dispensando do seu trabalho.
        - Jack nunca aprendeu outro tipo de trabalho seno este, e no h outro
canteiro de obra em Kingsbridge com servio para ele. E o desafio de construir a
imensa igreja entrou no seu sangue. Jack ir para onde quer que algum esteja
construindo uma catedral. Ir para Jerusalm, se l houver pedra para ser
cinzelada com anjos e demnios. - Como  que ela sabe?, pensou Jack. Ele
prprio mal pensara naquilo. Mas era verdade. Ela continuou: - Pode ser que
nunca mais eu o reveja. - Sua voz tremeu um pouco no fim da frase, e Jack
pensou, admirado, que ela devia am-lo muito. Sabia que nunca suplicara em seu
prprio benefcio daquele jeito.
        Philip pareceu compreensivo, mas foi Tom quem respondeu:
        - No podemos ter Jack e Alfred trabalhando na mesma obra - disse
obstinadamente. - Eles vo brigar de novo. Voc sabe disso.
        - Alfred podia ir embora - disse Ellen.
        Tom ficou triste.
        - Alfred  meu filho.
        - Mas tem vinte anos de idade, e  ruim como um urso! - Embora ela
falasse em tom afirmativo, seu rosto estava molhado de lgrimas. - Ele no liga
para a catedral mais do que eu, e se sentiria perfeitamente feliz construindo casas
para aougueiros e padeiros em Winchester e Shiring.
        - A associao no pode expulsar Alfred e ficar com Jack - disse Tom. -
Alm disso, a deciso j foi tomada.
        - Mas  a deciso errada!
        - Pode ser que haja outra resposta - disse Philip.
        Todos olharam para ele.
        - Pode ser que haja um jeito para Jack permanecer em Kingsbridge e se
devotar  catedral, sem esbarrar em Alfred.
        Jack perguntou-se o que estava por vir. Aquilo era bom demais para ser
verdade.
        - Preciso de algum para trabalhar comigo - continuou Philip. - Gasto
muito tempo tomando decises parceladas sobre a obra. Preciso de uma espcie
de assistente, que preencha o papel de encarregado da construo. Dever
resolver a maior parte dos problemas, trazendo-me apenas as questes mais
importantes. Ter tambm que controlar o dinheiro e a matria-prima, efetuando
os pagamentos aos fornecedores e aos carroceiros, e encarregando-se tambm
dos salrios. Jack sabe ler e escrever, e  capaz de fazer contas mais depressa do
que qualquer pessoa que eu j tenha conhecido...
        - E compreende cada um dos aspectos da construo da catedral -
interrompeu Tom. - Eu me responsabilizo por isso.
        A cabea de Jack estava girando a toda a velocidade. Ia poder ficar, afinal!
Seria o escrevente da obra. No faria trabalho de cinzelagem, mas supervisionaria
todo o projeto em nome de Philip. Era uma proposta estonteante. Lidaria com
Tom de igual para igual. Mas sabia que era capaz. E Tom sabia, tambm.
        Havia um obstculo. Jack o expressou em voz alta:
        - No posso mais morar na mesma casa que Alfred.
        - J est na hora de Alfred ter uma casa - disse Ellen. - Se nos deixasse,
talvez se dedicasse mais  procura de uma mulher.
        - Voc no pra de imaginar razes para se livrar de Alfred! - exclamou
Tom, furioso. - No vou atirar meu filho para fora de minha casa!
        - Vocs no me entenderam, nenhum de vocs - disse Philip. - No
compreenderam totalmente minha proposta. Jack no estaria vivendo em sua
companhia.
        Ele fez uma pausa. Jack adivinhou o que estava por vir, e foi o ltimo e
maior choque do dia.
        - Jack teria que morar aqui no priorado - disse Philip. Ele olhou para os
trs com a testa ligeiramente franzida, como se no tivesse conseguido perceber
por que no tinham compreendido o que quisera dizer.
        Jack compreendera. Lembrou-se de Ellen dizendo, na vspera da entrada
do vero, no ano anterior: Aquele prior ardiloso sempre d um jeito de no fim
conseguir o que deseja. Ela estava com a razo. Philip renovava agora a proposta
que lhes tinha feito ento. Mas dessa vez era diferente. A alternativa com que
Jack se defrontava agora era desoladora. Sair de Kingsbridge e abandonar tudo o
que amava. Podia tambm ficar, e perder a liberdade.
        - Meu escrevente da obra no pode ser leigo,  claro - concluiu Philip,
num tom de voz de quem estava afirmando o bvio. - Jack ter que se tornar
monge.

        Na noite anterior  Feira de L de Kingsbridge, o prior Philip ficou
acordado aps os servios da meia-noite, como sempre; mas em vez de ler e
meditar em sua casa, deu uma volta pelo priorado. Era uma noite quente de
vero, de cu claro e enluarada, e podia enxergar sem a ajuda de um lampio.
        Todo o adro fora tomado pela feira, com exceo dos prdios
monsticos e do claustro, que eram sagrados. Em cada um dos quatro cantos
fora escavada uma imensa latrina, para que o resto do adro no ficasse
inteiramente sujo, e as latrinas foram protegidas com biombos, a fim de
salvaguardar a sensibilidade dos monges.
         Literalmente centenas de bancas haviam sido construdas. As mais
simples no passavam de balces de madeira crua, apoiados em cavaletes. A
maioria deles era um pouco mais elaborada: tinham uma placa com o nome do
comerciante que a ocuparia, um desenho dos seus artigos, uma mesa separada
para fazer as pesagens, e um armrio ou depsito. Algumas bancas incorporavam
barracas, fosse como defesa da chuva, fosse para realizar negcios em separado.
As mais elaboradas eram pequenas casas, com grandes reas de armazenamento,
diversos balces, mesas e cadeiras, onde o comerciante poderia oferecer sua
hospitalidade aos fregueses importantes. Philip se espantara quando o primeiro
carpinteiro dos comerciantes chegara, uma semana antes da feira, e exigira que
lhe mostrassem o lugar onde construiria sua banca. Entretanto, a estrutura que
ele erigira levara quatro dias para ser feita e dois para ser abastecida.
         Philip planejara inicialmente a disposio das bancas em duas avenidas
largas, seguindo a mesma configurao do mercado semanal, mas logo percebeu
que no seria suficiente. As duas avenidas de bancas corriam agora tambm ao
longo do lado norte da igreja, virando depois para leste, at a casa de Philip; e
havia inclusive estandes dentro da igreja inacabada, nos corredores entre os
pilares. Os arrendatrios no eram, de modo algum, exclusivamente mercadores
de l; tudo era vendido na feira, desde po de massa grossa a rubis.
         Philip seguiu ao longo das fileiras de bancas iluminadas pelo luar.
Estavam todas prontas agora, claro: nenhuma outra construo seria autorizada
no dia da feira.
         A maioria j estava com os produtos que seriam vendidos. O priorado,
at agora, recolhera mais de dez libras em taxas e direitos. As nicas coisas que
poderiam ser trazidas naquele dia eram comidas recm preparadas, po, tortas
quentes e mas assadas. At mesmo os barris de cerveja tinham sido trazidos na
vspera.
         Enquanto Philip seguia seu caminho, era observado por dzias de olhos
semi-abertos, e cumprimentado por diversos grunhidos sonolentos. As pessoas
que tinham montado estandes no iriam deixar seus preciosos artigos sem uma
guarda: a maioria dormira neles, e os mais ricos deixaram criados tomando conta.
         Ele ainda no estava certo de quanto dinheiro faria com a feira, mas o
sucesso dela estava virtualmente garantido, e Philip confiava em atingir sua
estimativa original de cinquenta libras. Tinha havido momentos, naqueles ltimos
meses, em que temera que a feira no fosse se realizar. A guerra civil se arrastara,
sem que Matilde ou Estvo conseguissem superioridade um sobre o outro, mas
sua licena no fora revogada. William Hamleigh tentara sabotar a feira de
diversos modos. Dissera ao xerife que a interditasse, mas o xerife pedira uma
ordem de um dos dois monarcas rivais, que, no entanto, no fora expedida.
William proibira os moradores de suas propriedades de vender l em
Kingsbridge; porm, de qualquer forma a maioria deles j tinha o hbito de
vender para mercadores como Aliena em vez de comerci-la pessoalmente, de
modo que o principal efeito da sua determinao fora criar mais negcios para
ela.
        Por fim ele tinha anunciado que ia reduzir as taxas de aluguel e impostos
da Feira de L de Shiring para os nveis que Philip estava cobrando; mas seu
comunicado chegou muito tarde para fazer diferena, pois os grandes
compradores e vendedores j haviam feito seus planos.
        Agora, com o cu ficando perceptivelmente mais claro no oriente, na
manh do grande dia, William no podia fazer mais nada. Os vendedores ali se
encontravam com seus artigos, e em em breve os compradores estariam
comeando a chegar. Philip achava que William acabaria por descobrir que a feira
de Kingsbridge iria prejudicar a de Shiring menos do que ele temia. As vendas de
l pareciam crescer todos os anos, sem falhar: O volume dos negcios era
suficiente para duas feiras.
        Ele fizera a volta completa em torno do adro at o canto sudoeste, onde
ficavam os moinhos e o lago dos peixes. Parou um pouco, observando a gua
correr silenciosamente pelos dois moinhos. Um agora era usado apenas para
pisoar tecidos, e rendia um bocado de dinheiro. O jovem Jack era o responsvel
por isso. Tinha um crebro engenhoso. Ele ia ser uma tremenda vantagem para o
priorado.
        Parecia ter se acomodado bem como novio, embora tendesse a
considerar os servios religiosos como uma distrao da obra da catedral, em vez
de ser o contrrio.
        No entanto, aprenderia. A vida monstica era uma influncia santificante.
Philip achava que Deus tinha um propsito para Jack. No fundo, bem no fundo
do corao, ele nutria uma esperana secreta para o futuro distante: que um dia
Jack tomasse o seu lugar como prior de Kingsbridge.
        Jack se levantou de madrugada e esgueirou-se para fora do dormitrio
antes do servio da prima para fazer uma ltima inspeo do canteiro da obra. O
ar da manh era frio e claro, como a gua pura de uma nascente. Seria um dia
quente e ensolarado, bom para os negcios, bom para o priorado.
        Contornou as paredes da catedral, certificando-se de que todas as
ferramentas e peas em processo de confeco tivessem sido seguramente
trancadas dentro dos galpes.
        Tom construra leves cercas em torno das pilhas de madeira e pedra, a
fim de proteg-las de danos acidentais causados por visitantes descuidados ou
bbados.
        No queriam que indivduos mais afoitos resolvessem galgar a estrutura
da obra, de modo que todas as escadas foram escondidas, e as escadas em espiral
embutidas nas grossas paredes fechadas com portas temporrias.
          Da mesma forma, as extremidades inacabadas das paredes, que podiam
servir de degraus, foram obstrudas por blocos de madeira. Alguns dos mestres
artesos estariam patrulhando o canteiro da obra o dia inteiro, para no ter
dvida de que no haveria danos.
          Jack conseguia escapulir de um grande nmero de servios, de um jeito
ou de outro. Havia sempre algo a ser feito na obra. No tinha o dio da sua me
pela religio crist, mas era mais ou menos indiferente. No sentia entusiasmo,
mas estava disposto a fazer o que era esperado, se isso atendesse s suas
convenincias. Fazia questo de comparecer a um servio por dia, geralmente um
a que comparecesse tambm ou o prior Philip ou o mestre dos novios, que eram
os dois monges decanos que mais provavelmente notariam sua presena ou sua
ausncia.
          No daria para aguentar se tivesse que comparecer a tudo. Ser monge era
o modo de vida mais estranho e pervertido que ele podia imaginar. Os monges
passavam metade da vida submetendo-se a dores e desconfortos que poderiam
evitar, com facilidade, e a outra metade resmungando uma algaravia sem sentido
em igrejas vazias a todas as horas do dia e da noite. Abstinham-se
deliberadamente de tudo o que fosse bom - garotas, esportes, boa comida e vida
em famlia. Jack notara, no entanto, que os mais felizes entre eles tinham, em
geral, encontrado alguma atividade que lhes dava profunda satisfao: ilustrar
manuscritos, escrever histria, cozinhar, estudar filosofia, ou - como Philip -
transformar Kingsbridge numa cidade prspera com uma catedral.
          Jack no gostava do prior, mas gostava de trabalhar com ele. No
simpatizava com religiosos profissionais mais que sua me. Sentia-se embaraado
com a piedade de Philip; no gostava de sua inocncia ingnua; e desconfiava da
sua tendncia de crer que Deus cuidaria de tudo o que ele, Philip, no
conseguisse resolver. Mesmo assim, era bom trabalhar com ele. Suas ordens eram
claras, deixava espao para Jack decidir sozinho, e nunca culpava os outros pelos
seus erros.
          Jack era novio h trs meses, de modo que no lhe pediriam que fizesse
os votos seno dentro de nove meses. Os trs votos eram pobreza, celibato e
obedincia. O voto de pobreza no era bem o que parecia. Os monges no
tinham propriedades pessoais ou dinheiro, mas viviam mais como lordes que
como camponeses - tinham boa comida, roupas quentes e belas casas de pedra
para morar. O celibato no era problema, pensou Jack com amargura. Sentira
uma certa satisfao ao contar pessoalmente a Aliena que ia entrar para o
mosteiro. Ela lhe parecera abalada e culpada. Agora, sempre que sentia a
irritabilidade advinda da falta de companhia feminina, pensava em como Aliena o
tratara - os encontros secretos na floresta, as noites de inverno, as duas vezes em
que a beijara - e depois se lembrava de como de repente ela se tornara fria como
gelo e dura como uma rocha. Pensar nisso o fazia sentir que jamais iria querer ter
coisa alguma com as mulheres. No entanto, o voto de obedincia seria difcil de
cumprir, podia afirmar desde j. Gostava de receber ordens de Philip, que era
inteligente e organizado; porm, era difcil obedecer ao idiota do subprior,
Remigius, ou ao bbado do mestre dos novios, ou ainda ao pomposo sacristo.
         Mesmo assim, estava pensando em fazer os votos. No tinha que cumpri-
los. Tudo o que lhe importava era a construo da catedral. Os problemas de
suprimento, construo e administrao eram absorventes e nunca terminavam.
Um dia podia ter que ajudar Tom a imaginar um mtodo para se assegurar de que
o nmero de pedras que chegavam ao canteiro da obra fosse igual ao nmero que
saa da pedreira - um problema complexo, porque o tempo de viagem variava de
dois a quatro dias, de modo que no era possvel ter um simples registro dirio.
         Outro dia os pedreiros podiam se queixar de que os carpinteiros no
estavam fazendo as formas adequadamente. Os problemas que representavam o
maior desafio eram os de engenharia, tais como descobrir o modo de levantar
toneladas de pedras at o topo das paredes, usando equipamento improvisado
preso em andaimes frgeis. Tom Construtor discutia esses problemas com Jack
de igual para igual. Parecia ter perdoado aquele seu discurso furioso, em que
afirmara que Tom nunca tinha feito nada por ele. E agia como se tivesse
esquecido a revelao de que Jack ateara fogo  velha catedral. Trabalhavam
juntos entusiasmadamente, e os dias passavam voando. At mesmo durante os
tediosos cultos religiosos, a mente de Jack estava ocupada com alguma questo
complicada de construo ou planejamento.
         Seu conhecimento estava se ampliando com rapidez. Em vez de passar
anos cinzelando pedras, estava aprendendo a construir uma catedral. Dificilmente
poderia haver melhor treinamento para quem queria ser mestre construtor. Para
ter isso, Jack estava preparado para bocejar durante qualquer nmero de matinas
rezadas  meia-noite.
         O sol estava aparecendo sobre a muralha leste do adro. Tudo estava em
ordem no canteiro da obra. Os comerciantes que tinham passado a noite nas
bancas comeavam a dobrar e guardar os colches e arrumar seus artigos. Os
primeiros fregueses logo chegariam. Um padeiro passou por Jack carregando
uma bandeja de pes recm-assados. O cheiro do po quente fez Jack salivar.
Virou-se e voltou para o mosteiro, dirigindo-se para o refeitrio, onde em breve
serviriam o desjejum.

        Os primeiros fregueses foram as famlias dos comerciantes e os
habitantes da cidade, todos curiosos para ver a primeira Feira de L de
Kingsbridge, nenhum deles muito interessado em comprar. As pessoas
econmicas tinham enchido a barriga em casa com po e mingau, de modo que
no se sentiriam tentadas pelas ofertas muito temperadas e coloridas das bancas
de comida. As crianas andavam por toda parte com os olhos arregalados,
aturdidas com a exibio de tantas coisas desejveis. Uma prostituta madrugadora
e otimista, com lbios e botas vermelhas, saracoteava de um lado para o outro,
sorrindo esperanosamente para os homens de meia-idade, mas no havia
fregueses quela hora.
         Aliena a tudo assistia do seu estande, que era um dos maiores. Nas
semanas anteriores recebera todo o produto do rebanho do priorado, a l pela
qual pagara cento e sete libras no ltimo vero.
         Comprara tambm de fazendeiros, como sempre fazia - esse ano houvera
mais vendedores que o comum, porque William Hamleigh proibira seus
arrendatrios de vender na feira de Kingsbridge, de modo que eles tinham
vendido tudo para os comerciantes.
         E, entre eles, coubera a Aliena a maior parte dos negcios, por ser
baseada em Kingsbridge, onde a feira seria realizada.
         Sara-se to bem que ficara sem dinheiro para continuar comprando, e
pedira quarenta libras a Malachi para tocar o negcio. Agora, no depsito que
formava a parte de trs do seu estande, tinha cento e sessenta sacos de l crua, o
produto de quarenta mil carneiros, que lhe tinham custado mais de duzentas
libras, mas que venderia por trezentas, dinheiro suficiente para pagar os salrios
de um pedreiro qualificado por mais de um sculo. A escala do seu negcio a
assombrou, quando repassou os nmeros.
         No esperava ver seus compradores seno ao meio-dia. Seriam apenas
cinco ou seis. Todos se conheceriam, e ela conheceria quase todos dos anos
anteriores. Daria a cada um um copo de vinho, se sentaria e conversaria um
pouco. Depois mostraria sua l.
         O comprador lhe pediria para abrir um saco ou dois - nunca o de cima da
pilha, claro. Enfiaria a mo no fundo do saco e traria um punhado de l. Esticaria
os fios, para determinar seu comprimento, esfregaria entre o indicador e o
polegar para testar a maciez e cheiraria. Por fim proporia a compra de todo o
estoque por um preo ridiculamente baixo, que Aliena recusaria. Ela lhe diria o
preo que desejava, e ele sacudiria a cabea. Os dois tomariam outro copo de
vinho.
         Aliena passaria pelo mesmo ritual com os outros compradores. Daria
almoo a todos que ali estivessem ao meio-dia. Algum lhe ofereceria comprar
uma grande quantidade de l por um preo no muito acima do que ela pagara.
Ela faria uma contraproposta, abaixando seu preo um pouquinho. No incio da
tarde comearia a fechar negcios. Sua primeira venda seria a um preo mais
baixo. Os outros mercadores exigiriam que fizesse esse negcio com eles pelo
mesmo preo, mas se recusaria. Seu preo iria subindo no decurso da tarde. Se
subisse rpido demais, as transaes seriam lentas, enquanto os comerciantes
calculavam quanto tempo levariam para preencher suas cotas em outra parte.
         Se pedisse menos do que eles estavam dispostos a pagar, ela saberia, pela
relativa rapidez com que chegassem a um acordo.
         Fecharia os negcios um por um, e seus criados iriam dando incio ao
carregamento dos carros de boi com suas enormes rodas de madeira, e Aliena
pesaria o dinheiro.
         No tinha dvida de que nesse dia ganharia mais do que nunca. Tinha
uma quantidade duas vezes maior para vender, e os preos da l estavam
subindo. Planejava comprar a produo de Philip novamente com um ano de
antecedncia, e tinha um plano secreto para construir uma casa de pedra, com
depsitos espaosos para armazenar l, um salo elegante e confortvel e um
lindo quarto no segundo andar s para ela. Seu futuro estava seguro, e tinha
confiana de que seria capaz de sustentar Richard enquanto ele precisasse dela.
Tudo estava perfeito.
         Por isso mesmo era to estranho que se sentisse to completamente
infeliz.

        Fazia quatro anos, quase que exatamente, que Ellen retornara a
Kingsbridge, e tinham sido os melhores quatro anos da vida de Tom.
        A dor pela morte de Agnes j no era to aguda. Ainda o acompanhava,
mas no tinha mais aquela sensao embaraosa de que ia irromper em lgrimas a
qualquer instante, sem um motivo aparente. Ainda travava conversas imaginrias
com ela, nas quais lhe falava sobre as crianas, o prior Philip e a catedral, mas
eram menos frequentes. Sua agridoce lembrana no matara o amor que tinha
por Ellen. Era capaz de viver com o presente. Ver Ellen e toc-la, falar-lhe e
dormir com ela eram as alegrias da sua vida.
        Ficara profundamente sentido no dia da briga de Jack com Alfred,
porque seu enteado dissera que nunca tomara conta dele; essa acusao ofuscara
inclusive a terrvel revelao de que fora Jack quem ateara fogo  velha catedral.
Sofrera com aquilo por diversas semanas, mas no fim decidira que o rapaz estava
errado. Fizera o mximo que pudera, e nenhum homem poderia ter feito mais.
Tendo chegado a essa concluso, parara de se preocupar.
        Construir a Catedral de Kingsbridge era o trabalho mais satisfatrio que
jamais fizera. Era o responsvel pelo projeto e pela execuo. Ningum interferia
em suas decises e no havia ningum mais para culpar se algo sasse errado. 
medida que as imponentes paredes subiam, com seus arcos cheios de ritmo, suas
cornijas graciosas e seus trabalhos de cinzelagem, ele podia contemplar tudo e
pensar: Fiz isto, e fiz bem.
        O pesadelo de que se veria de novo na estrada, sem dinheiro, sem
trabalho, sem meios de alimentar as crianas, parecia muito afastado, agora que
tinha uma arca reforada cheia at a boca com pennies de prata enterrada no cho
da cozinha. Ainda estremecia quando se lembrava daquela noite extremamente
fria em que Agnes dera  luz Jonathan e morrera; mas achava que nada assim to
ruim iria acontecer de novo.
        s vezes se perguntava por que ele e Ellen no haviam tido filhos.
Ambos tinham sido comprovadamente frteis no passado, e no faltavam
oportunidades para ela engravidar - ainda faziam amor quase todas as noites,
mesmo aps quatro anos. No era, contudo, causa de grande mgoa. O
pequenino Jonathan era a menina dos seus olhos.
        Tom sabia, de experincia passada, que o melhor modo de aproveitar
uma feira era com uma criancinha, e por isso procurou Jonathan na metade da
manh, quando as multides comeavam a chegar. O menino era quase uma
atrao por si s, vestido com o seu hbito pequenino. Ultimamente pedira que
lhe raspassem a cabea; Philip consentira - o prior gostava tanto do garotinho
quanto Tom, e o resultado era que agora se parecia mais que nunca com um
monge em miniatura. Havia diversos anes de verdade no meio da multido,
fazendo truques e mendigando, e eles fascinaram Jonathan. Tom teve que faz-lo
sair correndo de perto de um que atrara um bando de gente ao expor seu pnis
avantajado.
        Havia malabaristas, acrobatas e msicos se exibindo e pedindo dinheiro a
quem assistia a eles; adivinhos, cirurgies e prostitutas procurando aliciar
fregueses; provas de fora, competies de luta e jogos de azar. Todos usavam
suas roupas mais coloridas, e quem podia tinha se banhado de perfume e passado
leo nos cabelos. Todos pareciam ter dinheiro para gastar, e o que mais se ouvia
era o retinir das moedas de prata.
        Jonathan nunca vira um urso e ficou fascinado com o esporte que estava
por se iniciar. Tratava-se de aular ces contra um urso acorrentado. O plo
castanho-acinzentado do urso tinha cicatrizes em diversos pontos, indicando que
sobrevivera pelo menos  prova anterior. Uma corrente pesada fora passada na
sua cintura e presa numa estaca enterrada fundo no cho. O urso caminhava de
quatro no limite da corrente, olhando colrico para a multido que aguardava.
Tom teve a impresso de distinguir um brilho de astcia nos olhos da fera. Fosse
um jogador, teria apostado no urso.
        Os latidos frenticos vinham de uma caixa fechada nas proximidades. Os
ces estavam ali dentro e podiam sentir o cheiro do seu inimigo. De vez em
quando o urso parava de andar de um lado para o outro, olhava para a caixa e
grunhia; ento o ladrar se intensificava at chegar s raias da histeria.
        O proprietrio dos ces e guardio do urso estava aceitando apostas.
Jonathan ficou impaciente e Tom j estava prestes a ir embora quando ele
finalmente destrancou a caixa. O urso ficou de p nas patas de trs, no limite
mximo da corrente, e rosnou.
         O homem gritou qualquer coisa e escancarou a porta da caixa.
         Cinco galgos pularam de dentro dela. Eram leves e se moviam
rapidamente; as bocas abertas exibiam dentes pequenos e agudos. Todos
correram na direo do urso, que os golpeou com as imensas patas. Acertou num
cachorro e o atirou no ar; os outros recuaram.
         A multido comprimiu-se, querendo aproximar-se mais. Tom avaliou a
posio de Jonathan; o garoto estava na frente, mas ainda bem longe do alcance
do urso. Este foi bastante esperto, recuou para junto da estaca, fazendo com que
a corrente ficasse frouxa. Desse modo no seria detido assim que arremetesse
contra algum cachorro.
         Mas os ces tambm foram espertos. Depois do frustrado ataque inicial,
eles se agruparam e se dispuseram em crculo. O urso, agitado, comeou a rodar,
tentando ver todos ao mesmo tempo.
         Um dos cachorros atirou-se contra o urso, latindo ferozmente. A fera foi
ao seu encontro e atacou. O cachorro se retraiu e os outros quatro adiantaram-se
correndo, vindo de todas as direes. O urso girou, procurando varr-los. A
multido urrou quando trs deles enfiaram os dentes na carne das suas ancas. Ele
se levantou nas patas traseiras com um urro de dor, sacudindo-os, e eles se
espalharam de qualquer maneira, fugindo ao seu alcance.
         Os cachorros repetiram a ttica. Tom pensou que o urso fosse cair na
esparrela de novo. O primeiro co se lanou, colocando-se ao alcance da fera,
que reagiu, fazendo-o recuar; mas quando os outros ces avanaram, o urso
estava preparado - virou-se rapidamente, atacou o mais prximo e deu-lhe uma
patada na ilharga. A multido se entusiasmou tanto com o urso quanto antes com
os cachorros. As garras afiadas do animal deixaram trs riscos de sangue na pele
sedosa do co, que ganiu e retirou-se da briga para lamber as feridas. A multido
vaiou sua retirada.
         Os quatro ces restantes circulavam em torno do urso cautelosamente,
encenando o ataque ocasional mas recuando bem antes do ponto perigoso.
Algum comeou a bater palmas devagar. Um co executou um ataque frontal.
         Avanou com a rapidez de um relmpago, esgueirou-se por baixo da
trajetria das patadas do urso e saltou no seu pescoo. A multido enlouqueceu.
O cachorro mergulhou os dentes pontiagudos no pescoo possante do urso. Os
outros atacaram. O urso ficou de p, batendo no que estava preso ao seu
pescoo, depois desceu e rolou no cho. Por um momento Tom no foi capaz de
dizer o que estava acontecendo: era s uma confuso de plos. At que trs
cachorros pularam fora e o urso se endireitou e ficou em cima das quatro patas,
deixando o co que o mordera esmagado no cho, morto.
         A multido ficou tensa. O urso eliminara dois cachorros, deixando trs;
mas sangrava nas costas, pescoo e patas traseiras, e parecia assustado. O ar
estava impregnado pelo cheiro de sangue e do suor de toda aquela gente. Os
cachorros haviam parado de latir e circulavam em torno do urso silenciosamente.
Tambm pareciam assustados, mas tinham provado o gosto de sangue e queriam
matar.
         Seu novo ataque comeou do mesmo modo: um deles avanou e se
retraiu rapidamente. Sem muita convico, o urso lhe deu uma patada e se virou
para encarar o segundo cachorro. Mas dessa vez este tambm recuou depressa e
colocou-se fora do alcance; depois o terceiro fez o mesmo. Os ces surgiam e
sumiam como flechas, um de cada vez, mantendo o urso em constante
movimento. Em cada corrida se aproximavam mais da fera, bem como as garras
desta se aproximavam mais deles. Os espectadores perceberam o que estava
acontecendo e a excitao da turba aumentou. Jonathan ainda estava na frente, a
poucos passos de Tom, parecendo atemorizado. Este olhou de novo para a briga
no momento em que as garras do urso atingiam um co, e outro avanava por
entre as patas traseiras da enorme fera e mordia sua barriga macia.
         O urso produziu um barulho que parecia um grito. O co recuou
velozmente e conseguiu escapar. Outro cachorro atacou. O urso reagiu, errando
por polegadas; ento o mesmo co o atacou na parte inferior da barriga. Dessa
vez, quando fugiu, deixou a fera com uma enorme ferida sangrando no abdmen.
O urso levantou-se e voltou a ficar sobre as quatro patas. Por um momento Tom
pensou que o animal estivesse liquidado, mas se enganou: ainda era capaz de
lutar. Quando foi atacado, reagiu com uma dbil patada, virou a cabea, viu o
segundo co se aproximando, girou com rapidez surpreendente e o atingiu com
um golpe poderoso que o mandou longe, voando pelos ares. A multido urrou,
deleitada.
         O animal caiu ao cho como um saco de carne. Tom observou-o por um
momento. O co estava vivo, mas parecia incapaz de se mover. Talvez tivesse
quebrado a espinha. O urso o ignorou, pois estava fora de alcance e de ao.
         Agora s havia dois cachorros remanescentes. Ambos atacaram e
recuaram diversas vezes, com velocidade, at que suas arremetidas se tornaram
perfunctrias; ento comearam a circular em torno do urso, sempre mais e mais
depressa. O urso girava, tentando no perd-los de vista.
         Exausto e sangrando copiosamente, mal conseguia ficar de p. Os ces
prosseguiram o movimento giratrio, com crculos cada vez menores. A terra
embaixo das poderosas patas do urso tinha virado lama, de tanto sangue. De um
modo ou de outro, o final estava  vista. Enfim os dois cachorros atacaram ao
mesmo tempo. Um a garganta, e o outro, a barriga. com uma ltima e
desesperada patada, o urso acertou o que o pegara no pescoo. O sangue saiu em
jorro. A turba berrou sua aprovao.
         A princpio Tom pensou que o co matara o urso, mas foi o contrrio: o
sangue vinha do galgo, que caiu no cho com a garganta aberta. Seu sangue
bombeou mais um pouco, e depois parou. Estava morto. Mas nesse meio tempo
o ltimo co rasgara a barriga do urso, cujas tripas estavam caindo. A fera tentava
se defender, sem foras, mas o co se evadia facilmente e atacava de novo,
mordendo seus intestinos.
        O urso oscilou e pareceu que ia cair. O rugido da multido foi
aumentando. As vsceras do animal exalavam um fedor repugnante. Ele reuniu o
resto de suas foras e atacou de novo. A pancada pegou no cachorro, que pulou
de lado, com sangue escorrendo de uma ferida nas costas; porm, era uma coisa
superficial, e o co sabia que o urso estava liquidado, de modo que voltou
imediatamente  ofensiva, mordendo as tripas dele at que, por fim, o grande
animal fechou os olhos e desabou no cho, morto.
        O dono do urso adiantou-se e pegou o co vitorioso pela coleira. O
aougueiro de Kingsbridge e seu aprendiz avanaram e comearam a cortar o
urso, para aproveitar sua carne: Tom sups que tivessem combinado um preo
antecipadamente. Os que tinham ganho suas apostas exigiram pagamento. Todos
queriam fazer festa no co sobrevivente. Tom procurou Jonathan. No
conseguiu v-lo.
        A criana estivera apenas a algumas jardas de distncia durante toda a
briga. Como conseguira desaparecer? Devia ter acontecido nos momentos mais
emocionantes, em que Tom se concentrara no espetculo. Agora estava com
raiva de si prprio. Procurou-o no meio da multido. Tom era umas oito
polegadas mais alto que todo mundo, e Jonathan podia ser facilmente localizado,
com seu hbito de monge e sua cabea raspada, porm no conseguia v-lo em
parte alguma.
        A criana no tinha muito o que temer no priorado, mas era bem possvel
que deparasse com coisas que o prior Philip preferia que no visse: prostitutas
atendendo a seus clientes junto ao muro, por exemplo. Olhando  sua volta, Tom
viu um andaime bem alto, encostado  obra da catedral; levantando a cabea,
distinguiu em cima dali um pequeno vulto vestido de monge.
        Teve um momento de pnico. Quis gritar: No se mexa., voc vai cair!,
mas suas palavras teriam se perdido no barulho da feira. Abriu caminho atravs
da multido, na direo da catedral. Jonathan estava correndo ao longo do
andaime, absorto em alguma brincadeira imaginria, sem tomar conhecimento do
perigo de escorregar e cair de oitenta ps de altura para a morte...
        Tom sufocou o terror que subia como blis para a sua boca.
        O andaime no repousava no solo, e sim em cima de vigas pesadas,
inseridas em buracos construdos para isso, bem no alto das paredes. Elas se
projetavam da parede cerca de seis ps. Estacas bem slidas eram colocadas
sobre as vigas e amarradas. Depois se colocavam em cima das estacas painis de
colmo entrelaado e galhos flexveis. Normalmente ia-se para o andaime pelas
escadas em espiral embutidas nas paredes.
        Mas essas escadas estavam fechadas nesse dia, por causa da feira. Ento,
como Jonathan subira? No havia escadas - Tom verificara, e depois Jack se
certificara novamente. O garoto devia ter trepado pelo lado no concludo da
parede. As sees inacabadas, que formavam naturalmente uma espcie de
escada, haviam sido bloqueadas; Jonathan, porm, podia ter escalado justo os
blocos de madeira.
         O menino tinha muita autoconfiana - mesmo que levasse um tombo por
dia, no mnimo.
         Tom chegou junto  parede e olhou para cima, apavorado. Jonathan
estava brincando alegremente a oitenta ps de altura. O medo apertou o corao
de Tom com garras de gelo, e ele berrou com toda a fora:
         - Jonathan!
         As pessoas  sua volta se espantaram e olharam para cima, querendo
saber com quem estava gritando. Quando localizaram uma criana no andaime,
apontaram para que os amigos tambm a vissem. Uma pequena multido se
reuniu.
         Jonathan no escutou. Tom ps as duas mos em torno da boca, em
forma de concha, e gritou de novo:
         - Jonathan! Jonathan!
         Dessa vez o menino ouviu. Olhou para baixo, viu Tom e acenou.
         - Desa! - gritou Tom.
         O menino parecia prestes a obedecer, mas olhou a parede em cima da
qual teria que caminhar e o ngreme lance de degraus que precisaria descer, e
mudou de idia.
         - No posso! - gritou, em resposta, e sua voz aguda veio flutuando at as
pessoas que estavam ali embaixo, olhando para ele.
         Tom percebeu que ia ter de subir para peg-lo.
         - Fique onde est at que eu o apanhe! - gritou. Empurrou para longe os
blocos de madeira que obstruam os degraus mais baixos e subiu por cima da
parede.
         Ela media cerca de quatro ps na base, mas se estreitava  medida que
ficava mais alta. Tom subiu com calma. Teve mpetos de correr, mas se
controlou. Ao olhar para cima viu Jonathan sentado na beira do andaime,
balanando as perninhas curtas sobre o espao vazio.
         No topo a parede tinha apenas dois ps de espessura. Mesmo assim, era
larga o bastante para que uma pessoa andasse por cima, desde que tivesse nervos
fortes, e Tom os tinha. Progrediu ao longo da parede, pulou para o andaime e
pegou Jonathan no colo.
         O alvio que sentiu foi imenso.
         - Seu bobo - disse, mas sua voz estava cheia de amor, e Jonathan o
abraou com fora.
         Aps um momento Tom olhou para baixo de novo. Viu um mar de
rostos: mais de cem pessoas assistiam a tudo. Provavelmente pensavam que fosse
outro espetculo, como o do urso e dos cachorros.
        - Tudo bem - disse Tom para Jonathan. - Vamos descer agora. - Colocou
o menino em cima da parede. - Estarei logo atrs de voc, de modo que no
precisa se preocupar.
        Jonathan no se convenceu.
        - Estou com medo - disse. Levantou os bracinhos para ser apanhado no
colo e, quando Tom hesitou, desatou a chorar.
        - No faz mal, eu carrego voc - disse Tom. No ficou muito satisfeito,
mas do jeito que Jonathan estava no se podia confiar nele. Adiantou-se,
ajoelhou-se ao seu lado, pegou-o no colo e se levantou.
        Jonathan se segurou com fora. com o menino no colo, Tom no
conseguiu ver as pedras que estavam diretamente sob seus ps. Mas no tinha
outro jeito. com o corao na boca, caminhou cautelosamente, colocando os ps
devagar sobre a parede, um na frente do outro. No tinha medo por si, mas, com
o garoto nos braos, estava aterrorizado. Finalmente viu o incio dos degraus.
No era mais largo no princpio, mas de certa forma parecia menos ngreme.
Comeou a descida, agradecido. A cada passo se sentia mais calmo. Quando
atingiu o nvel da galeria e a parede alargou-se para quase trs ps, parou para
esperar que o corao batesse mais devagar.
        Olhou para fora, para alm do adro, por cima de Kingsbridge, e viu algo
que o intrigou nos campos que precediam a cidade: uma nuvem de poeira sobre a
estrada que levava ao priorado, a quase uma milha de distncia.
        Aps um momento percebeu que estava olhando para o efetivo de uma
grande tropa a cavalo, aproximando-se da cidade a trote. Tentou descobrir de
que se tratava.
        A princpio pensou que podia ser um comerciante muito rico, ou um
grupo de mercadores, com uma grande comitiva, mas eles eram numerosos, e de
certa forma no pareciam gente dedicada a atividades comerciais.
        Quando se aproximaram, viu que muitos montavam cavalos de batalha, a
maioria usava elmos, e todos estavam armados at os dentes.
        De repente teve medo.
        - Jesus Cristo, quem so aquelas pessoas? - exclamou, em voz alta.
        - No diga o nome de Cristo - repreendeu-o Jonathan. Quem quer que
fossem, representavam encrenca.
        Tom desceu correndo o resto dos degraus. A multido bateu palmas
quando pulou no cho. Ignorou todas aquelas pessoas, preocupado em descobrir
onde estariam Ellen e as crianas. No as viu por perto.
        Jonathan tentou se libertar dos seus braos. Tom o segurou com fora.
Como estava com seu caula ali, a primeira coisa que tinha a fazer era coloc-lo
em algum lugar seguro. Depois podia procurar os outros. Abriu caminho por
entre a multido at a porta que dava para o claustro. Estava fechada por dentro,
a fim de preservar a privacidade do mosteiro durante a feira. Tom bateu nela e
gritou:
         - Abram! Abram!
         Nada aconteceu.
         No tinha certeza de que havia algum no claustro, mas no havia tempo
para especular. Recuou, ps Jonathan no cho, levantou o p direito enorme,
calado com uma bota, e chutou a porta. A madeira em torno da fechadura se
lascou. Chutou de novo, com mais fora. A porta se escancarou. Logo do outro
lado estava um monge j velho, parecendo atnito. Tom pegou Jonathan e o
colocou no interior do claustro.
         - Prenda-o a dentro - disse para o velho monge. - Vai haver confuso.
         O monge assentiu silenciosamente e pegou a mo de Jonathan.
         Tom fechou a porta.
         Agora precisava encontrar o resto de sua famlia numa multido de mais
de mil pessoas.
         A quase impossibilidade da tarefa o assustou.
         No localizou um rosto conhecido. Subiu num barril de cerveja vazio
para ver melhor. Era meio-dia e a feira estava no auge. A multido se deslocava
como um rio vagaroso pelas avenidas por entre os estandes, e havia remoinhos
em torno dos vendedores de comida ou bebida, onde se formavam filas para
comprar o almoo.
         Tom examinou aquela gente toda, mas no pde ver ningum da sua
famlia. Ficou desesperado. Olhou por cima dos telhados das casas. Os cavaleiros
estavam quase na ponte, e tinham passado a galopar. Eram homens de armas,
todos eles, e carregavam archotes. Tom ficou horrorizado. Haveria um massacre.
         De repente viu Jack ao seu lado, fitando-o com uma expresso divertida.
         - Por que est a em cima desse barril? - perguntou ele.
         - Vai haver problema! - disse Tom nervosamente. - Onde est sua me?
         - No estande de Aliena. Que tipo de problema?
         - Coisa sria. Onde esto Alfred e Martha?
         - Martha est com mame. Alfred, nas brigas de galo. O que ?
         - Veja voc mesmo - Tom deu a mo para ajudar Jack, que se equilibrou
precariamente na borda do barril, em frente a ele. Os cavaleiros atravessavam a
ponte a galope e entravam na aldeia.
         - Cristo Jesus! - disse Jack. - Quem so eles?
         Tom examinou o lder, um homem grande num cavalo de batalha.
Reconheceu o cabelo louro e o corpanzil.
         -  William Hamleigh - disse.
         Quando os cavaleiros atingiram a regio construda atiraram os archotes
nos telhados, ateando fogo  palha.
         - Esto queimando a cidade! - explodiu Jack.
         - Vai ser pior ainda do que eu pensava - disse Tom. - Desa.
         Os dois pularam para o cho.
         - Vou buscar mame e Martha - disse Jack.
         - Leve-as para o claustro - disse Tom, aflito. - Ser o nico lugar seguro.
Se os monges reclamarem, mande-os  merda.
         - E se eles trancarem a porta?
         - Acabei de arrombar o fecho. V depressa! Vou buscar Alfred. Ande!
         Jack saiu correndo. Tom dirigiu-se para a rinha de galos, empurrando
rudemente quem estivesse  sua frente. Alguns homens no gostaram, mas ele os
ignorou, e todos se calaram ao ver seu tamanho e a frrea determinao expressa
no seu rosto. No se passou muito tempo e a fumaa das casas incendiadas
chegou ao priorado. Tom sentiu o cheiro e notou uma ou duas pessoas fungando
o ar, curiosas. Tinha apenas alguns momentos antes de o pnico se apoderar de
todos.
         A rinha ficava perto do porto do priorado. Havia uma multido
barulhenta em torno dela. Tom abriu caminho  fora, procurando Alfred. No
meio da multido havia um buraco raso com uns poucos ps de dimetro. No
centro desse buraco, dois galos se rasgavam mutuamente em tiras com o bico e
as esporas. Havia penas e sangue por toda parte. Alfred estava perto da primeira
fila, observando atentamente, gritando a plenos pulmes, encorajando uma ou
outra das infortunadas aves.
         Tom forou o caminho e agarrou Alfred pelo ombro.
         - Venha! - gritou.
         - Estou com seis pence no preto! - respondeu Alfred, com outro grito.
         - Temos que sair daqui! - berrou Tom. Aquela altura uma nuvem de
fumaa passou por cima da rinha. - No est sentindo o cheiro do fogo?
         Um ou dois espectadores ouviram a palavra "fogo" e lanaram um olhar
de curiosidade para Tom. O cheiro veio de novo, e eles o sentiram. Alfred
tambm sentiu.
         - O que est acontecendo?
         - A cidade est pegando fogo! - respondeu Tom.
         De repente todo mundo quis ir embora. Os homens se dispersaram em
todas as direes, se empurrando e se acotovelando. Na rinha, o galo preto
matou o marrom, mas ningum se importou. Alfred partiu na direo errada.
Tom o agarrou.
         - Vamos para o claustro - disse. -  o nico lugar seguro.
         A fumaa comeou a chegar em grandes nuvens, e o medo se espalhou
pela multido. Todo mundo ficou agitado, mas ningum sabia o que fazer.
Olhando por cima da cabea dos outros, Tom viu que estavam procurando sair
pelo porto do priorado; porm o porto era estreito e, de qualquer forma, no
estariam mais seguros do lado de fora do que ali.
         Mesmo assim, mais e mais pessoas tiveram a mesma idia, e Tom e
Alfred de sbito se viram lutando contra uma onda de gente seguindo
freneticamente na direo oposta.
         Depois, ainda mais sbito, a mar virou, e todos passaram a querer ir na
mesma direo que eles. Tom olhou para trs a fim de descobrir a razo da
mudana, e viu que o primeiro dos homens a cavalo entrara no adro.
         Nesse ponto a multido se transformou numa turba. Os cavaleiros
constituam uma viso aterradora. Seus imensos cavalos, quase to amedrontados
quanto as pessoas, arremetiam, empinavam e avanavam, derrubando gente por
todos os lados. Os cavaleiros armados e protegidos por elmos se atiravam sobre
o povaru com porretes e archotes, derrubando homens, mulheres e crianas, e
ateando fogo nos estantes, nas roupas e nos cabelos das pessoas. Todo mundo
gritava. Mais cavaleiros passaram pelo porto, e mais gente desapareceu sob as
patas gigantescas. Tom gritou no ouvido de Alfred:
         - V para o claustro! Quero me certificar de que os outros conseguiram
sair. Corra! - E empurrou o filho, que saiu correndo.
         Tom disparou para o estande de Aliena. Quase que no mesmo instante,
tropeou em algum e caiu no cho. Praguejando, ficou de joelhos mas antes que
pudesse pr-se de p viu um cavalo de batalha caindo sobre ele. As orelhas do
animal estavam projetadas para trs, e suas narinas, dilatadas; Tom pde ver o
branco dos seus olhos aterrorizados. Acima da cabea do cavalo, Tom viu o
rosto gordo de William Hamleigh, retorcido numa careta de dio e triunfo.
Como um relmpago, passou pela sua cabea a idia de que seria bom ter Ellen
nos braos uma vez mais. Nesse instante uma pata enorme o acertou no centro
exato da testa, ele sentiu uma dor horrvel e assustadora, quando seu crnio
pareceu abrir-se, e o mundo inteiro ficou preto.

         A primeira vez em que Aliena sentiu o cheiro de fumaa, pensou que
viesse da refeio que estava servindo.
         Trs compradores flamengos estavam sentados na mesa ao ar livre, em
frente ao seu depsito. Eram homens corpulentos e de barba negra, que falavam
ingls com forte sotaque germnico e usavam roupas de tecido requintadamente
fino. Tudo ia correndo bem.
         Estava prestes a dar incio s vendas, e decidira servir primeiro a refeio
a fim de dar aos compradores tempo para ficarem ansiosos. No obstante isso,
ficaria contente quando aquela fortuna em l passasse para as mos de outra
pessoa. Colocou a travessa de costelas de porco tostadas na frente deles e as
examinou criticamente.
         A carne tinha sido assada ao ponto, com a beira de gordura crocante e
dourada. Serviu o vinho. Um dos compradores fungou, procurando sentir o
cheiro, e depois todos olharam ansiosos.
        Aliena sentiu-se de repente apavorada. O fogo era o pesadelo do
comerciante de l. Olhou para Ellen e Martha, que a estavam ajudando a servir a
comida.
        - Esto sentindo cheiro de fumaa? - perguntou. Antes que elas
pudessem responder, Jack apareceu. Aliena ainda no se habituara a v-lo vestido
de monge, com o cabelo cor de cenoura raspado na parte superior da cabea.
Havia uma expresso agitada no seu rosto doce.
        Sentiu mpeto de toma-lo nos braos e fazer aquela ruga de preocupao
desaparecer da sua testa com um beijo. Mas virou-se rapidamente, lembrando
como ele se decepcionara com ela no moinho velho, seis meses antes. Ainda
ficava ruborizada sempre que rememorava o incidente.
        - H problemas - gritou ele, nervoso. - Temos que nos refugiar no
claustro.
        Ela o encarou.
        - O que est acontencendo?  um incndio?
        -  o conde William e seus homens de armas - disse ele. Aliena se sentiu
rapidamente to fria quanto um tmulo.
        William. De novo.
        - Eles tocaram fogo na cidade - disse Jack. - Tom e Alfred esto indo
para o claustro. Venha comigo, por favor.
        Sem a menor cerimnia, Ellen largou a tigela de legumes que carregava
em cima da mesa, em frente a um assustado comprador flamengo.
        - Certo - disse ela. Agarrou Martha pelo brao. - Vamos.
        Aliena lanou um olhar de pnico para o seu depsito. Tinha centenas de
libras em l crua ali dentro e era preciso proteg-la do fogo - mas como? Olhou
para Jack.
        Ele a fitava, cheio de expectativa. Os compradores deixaram a mesa
apressadamente. Aliena disse a Jack:
        - V. Tenho que tomar conta do meu estande.
        - Jack - disse Ellen. - Vamos!
        - J vou - respondeu ele, e se voltou para Aliena.
        A jovem viu que Ellen hesitava. Estava claramente dividida entre salvar
Martha e esperar por Jack. Mais uma vez ela chamou:
        - Jack! Jack!
        - Me! Leve Martha! - disse ele, virando-se.
        - Est bem! - disse ela. - Mas por favor, ande depressa!
        Ela e Martha foram embora.
        - A cidade est em chamas - disse Jack. - O claustro ser o lugar mais
seguro:  feito de pedra. Venha comigo, rpido!
        Aliena podia ouvir gritos vindos da direo do porto do priorado. De
repente a fumaa estava por toda parte. Ela olhou em torno, tentando fazer uma
idia do que estava acontecendo. Tinha a sensao de que suas vsceras estavam
cheias de ns, de tanto medo. Tudo aquilo por que trabalhara durante mais de
seis anos estava empilhado ali no depsito.
        - Aliena! - gritou Jack. - Vamos para o claustro; estaremos a salvo l!
        - No posso! Minha l!
        - Ao inferno com a sua l!
        -  tudo o que tenho!
        - De nada vai adiantar se voc estiver morta!
        -  fcil para voc dizer isso, mas levei todos esses anos at chegar
posio em que estou...
        - Aliena! Por favor!
        De repente, as pessoas logo ali perto do estande estavam gritando,
mortalmente aterrorizadas. Os cavaleiros haviam entrado no adro e arremetiam
contra a multido, indiferentes a quem derrubavam, ateando fogo aos estandes.
As pessoas, apavoradas, se esmagavam umas s outras, em suas desesperadas
tentativas para sair da frente das patas dos cavalos e dos archotes.
        A frgil Cerca de madeira que formava a frente do estande de Aliena,
pressionada pela multido, logo cedeu e foi derrubada. Homens e mulheres
espalharam-se no espao aberto  frente do depsito e viraram a mesa com seus
pratos de comida e copos de vinho.
        Jack e Aliena se viram forados a recuar. Dois cavaleiros carregaram
sobre o estande, um deles brandindo aleatoriamente um porrete e o outro, um
archote flamejante. Jack colocou-se na frente de Aliena, protegendo-a. O porrete
desceu sobre a cabea dela, mas Jack ergueu o brao e recebeu o impacto no
pulso. A jovem sentiu o vento produzido pelo golpe e quando levantou a cabea
viu o rosto do segundo cavaleiro.
        Era William Hamleigh.
        Aliena gritou.
        Ele olhou para ela por um momento, com o archote ardendo na mo e o
brilho do triunfo cintilando nos olhos. Depois esporeou o cavalo e o obrigou a
entrar no depsito.
        - No! - gritou Aliena.
        Ela lutou para se libertar de todos aqueles empurres, murros e
acotovelamentos que a cercavam, inclusive de Jack. Finalmente conseguiu e
correu para o depsito.
        William continuava montado, mas se abaixara para encostar o archote
nos sacos de l.
        - No! - gritou ela de novo. Atirou-se sobre ele e tentou arranc-lo de
cima do cavalo. William a empurrou e Aliena caiu no cho. Ele encostou o
archote nos sacos de l novamente. A l pegou fogo com uma forte crepitao. O
cavalo recuou e gritou, aterrorizado com as chamas. Subitamente Jack apareceu e
tirou Aliena do caminho. William fez sua montaria girar e saiu depressa do
depsito. A jovem levantou-se.
         Pegou um saco vazio e tentou abafar as chamas com ele.
         - Aliena, voc vai morrer! - gritou Jack.
         O calor ficou insuportvel. Ela agarrou um saco que ainda no incendiara
e tentou pux-lo. De repente percebeu um barulho junto aos ouvidos e sentiu um
calor intenso no rosto; percebeu, apavorada que seu cabelo pegara fogo.
         No instante seguinte Jack jogou-se de encontro a ela, passando os braos
em torno da sua cabea e puxando-a com fora de encontro ao prprio corpo.
Ambos caram no cho. Ele ainda a segurou com fora por um momento e
depois reduziu a presso.
         O cabelo de Aliena cheirava a chamuscado mas j no estava em chamas.
Ela viu que o rosto de Jack estava queimado e suas sobrancelhas tinham
desaparecido. Ele a agarrou por um tornozelo e arrastou-a porta afora.
Continuou puxando, a despeito da reao dela, at que estavam a salvo.
         A rea do estande se esvaziara. Jack largou-a. Ela tentou se levantar, mas
ele a agarrou de novo e forou-a a ficar abaixada. Aliena continuou a lutar,
olhando fixa e furiosamente para o fogo que estava consumindo todos os seus
anos de trabalho e preocupaes, toda a sua riqueza e segurana, at que no teve
mais energia para lutar com Jack. Ento se deixou ficar ali sentada e gritou.

        Philip estava no depsito embaixo da cozinha do priorado, contando
dinheiro com Cuthbert Cabea Branca, quando ouviu o barulho. Ele e Cuthbert
se entreolharam, preocupados, e depois se levantaram para ver o que estava
acontecendo.
        Ao atravessarem a porta, deram com um tumulto.
        Philip ficou horrorizado. As pessoas corriam em todas as direes, se
empurrando, caindo e tropeando umas nas outras. Homens e mulheres gritavam
e crianas choravam.
        O ar estava impregnado de fumaa. Todo mundo parecia querer fugir do
priorado. A no ser pelo porto principal, a nica sada era pelo intervalo entre as
construes da cozinha e o moinho. No havia parede ali, mas uma vala funda
que conduzia gua do lago do moinho para a cervejaria. Philip quis gritar,
avisando que tivessem cuidado com a vala, mas ningum estava ouvindo
ningum.
        A causa da correria era obviamente um incndio, e de grandes
propores. O ar estava denso de fumaa. Philip encheu-se de medo. com tanta
gente reunida ali, a tragdia poderia ser horrvel. O que havia a fazer?
        Primeiro tinha que descobrir o que estava acontecendo exatamente.
Subiu correndo a escada da porta da cozinha para ter uma viso melhor. O que
viu o encheu de terror.
        Toda a cidade de Kingsbridge estava em chamas.
        Um grito de horror e desespero escapou de sua garganta.
        Como aquilo poderia estar ocorrendo?
        Foi ento que viu os cavaleiros galopando por entre a multido com seus
archotes e percebeu que no fora um acidente. Sua primeira idia foi de que
estava se travando ali uma batalha entre os dois lados da guerra civil. Mas os
homens de armas atacavam os cidados, e no uns aos outros. Aquilo no era
uma batalha: era um massacre.
        Philip viu um homem grande e louro, montado num imenso cavalo de
batalha, esmagando a multido. Era William Hamleigh.
        O dio subiu  garganta de Philip. Pensar que todas aquelas mortes e
tanta destruio eram causadas deliberadamente, por orgulho e ambio, deixou-
o meio enlouquecido.
        Gritou com toda a fora dos pulmes:
        - Estou vendo voc, William Hamleigh!
        William ouviu seu nome por cima dos gritos da multido. Sofreou o
cavalo e encarou Philip.
        - Voc ir para o inferno por causa disto! - gritou Philip.
        A sede de sangue congestionara o rosto de William. Nem mesmo a
ameaa daquilo que mais temia fez efeito sobre ele. Parecia um louco. Brandiu o
archote no ar como uma bandeira.
        - O inferno  isto aqui, monge! - retrucou, com outro grito. Depois girou
o cavalo e foi embora.


        De repente tudo desaparecera, tanto os cavaleiros quanto toda aquela
gente. Jack soltou Aliena e levantou-se. Sua mo direita estava dormente.
Lembrou-se de que recebera o golpe destinado  cabea dela. Ficou satisfeito
porque sua mo doa. Seria bom que doesse por muito tempo, para relembr-lo.
        O depsito de l era um verdadeiro inferno de chamas, com incndios
menores por toda parte. O cho estava juncado de corpos, uns se mexendo,
outros sangrando, e outros ainda imveis. A no ser pelo crepitar das chamas,
tudo estava em silncio. A multido se retirara, de um modo ou de outro,
deixando para trs seus mortos e feridos. Jack sentiu-se atordoado. Nunca vira
um campo de batalha, mas imaginava que deveria ser algo assim.
        Aliena comeou a chorar. Jack ps uma das mos em seu ombro,
querendo consol-la. Ela a afastou. Salvara sua vida, mas isso no importava; a
nica coisa que tinha importncia era sua maldita l, agora irrecuperavelmente
transformada em fumaa. Fitou-a por um momento, sentindo-se triste. A maior
parte do seu cabelo queimara, e sua aparncia j no podia ser considerada
bonita; no entanto, amava-a assim mesmo. Magoava-o v-la sofrer tanto e no
ser capaz de fazer nada por ela.
         Jack tinha certeza, de que ela no tentaria entrar no depsito agora.
Estava preocupado com o resto de sua famlia, de modo que deixou Aliena.
         Seu rosto doa. Tocou-o com a mo, o que foi muito doloroso. Devia ter
se queimado tambm. Olhou para os corpos no cho. Queria fazer algo pelos
feridos, mas no sabia como comear. Procurou rostos familiares no meio de
tanta gente estranha, na esperana de no achar nenhum. Sua me e Martha
haviam ido para o claustro muito tempo antes da multido.
         E Tom, teria encontrado Alfred? Virou-se na direo do claustro. Foi
ento que viu o padrasto.
         Seu corpo muito alto estava esticado no cho lamacento. Absolutamente
imvel. O rosto era reconhecvel, e tinha mesmo uma expresso de tranquilidade,
at as sobrancelhas; mas a testa estava aberta e o crnio, completamente
esmagado. Jack ficou horrorizado. No podia aceitar o que via. No era possvel
que Tom estivesse morto. Mas aquele homem no podia estar vivo. Desviou o
olhar, e examinou de novo.
         Era Tom, e estava morto.
         Jack ajoelhou-se ao lado do corpo. Ansiava por fazer algo, ou por dizer
qualquer coisa, e pela primeira vez entendeu por que as pessoas gostavam de
rezar pelos mortos.
         - Mame vai sentir muito a sua falta! - exclamou. Lembrou-se do discurso
furioso que lhe fizera, no dia da briga com Alfred. - A maior parte daquilo no
era verdade - disse, e as lgrimas comearam a correr. - Voc no falhou. Voc
me alimentou, tomou conta de mim e fez minha me feliz, verdadeiramente feliz.
         Entretanto, havia algo mais importante que tudo aquilo, pensou. O que
Tom lhe dera no era nada to comum quanto alimento e abrigo. Era algo nico,
que nenhum outro homem tinha, que nem mesmo seu prprio pai poderia ter lhe
dado; uma paixo, uma tcnica, uma arte, um modo de ganhar a vida.
         - Voc me deu a catedral - sussurrou para o homem morto. - Muito
obrigado.
       Parte quatro
       1142 - 1145

       Captulo 11
         O triunfo de William foi arruinado pela profecia de Philip; em vez de se
sentir satisfeito e exultante, ficou aterrorizado porque iria para o inferno devido
ao que fizera.
         Respondera corajosamente a Philip, mas na excitao do combate.
Quando este acabou, e ele levou seus homens para longe da cidade em chamas,
quando a andadura dos cavalos e o ritmo dos coraes ficaram mais lentos,
quando teve tempo para rememorar a incurso e pensar em quantas pessoas
havia ferido, queimado e matado, ento se lembrou do rosto colrico de Philip,
do seu dedo apontando diretamente para as profundezas da terra, e das palavras
fatdicas: "Voc ir para o inferno por causa disto!"
         No comeo da noite estava completamente deprimido. Seus homens de
armas queriam falar sobre a operao, revivendo os pontos altos e deleitando-se
com a matana, mas logo se contaminaram com o seu estado de esprito e caram
em melanclico silncio.
         Passaram aquela noite na propriedade de um dos mais importantes
arrendatrios de William.
         Na hora da ceia, os homens beberam, carrancudos, at perderem os
sentidos. O dono da casa, sabendo como normalmente os homens se sentem
aps uma batalha, trouxe algumas prostitutas de Shring; mas elas fizeram pouco
negcio. William ficou acordado a noite inteira, apavorado com a perspectiva de
morrer durante o sono e ir direto para o inferno.
         Na manh seguinte, em vez de retornar a Earlscastle, foi ver o bispo
Waleran. Ele no estava no palcio quando chegaram, mas o deo Baldwin lhe
disse que era esperado naquela tarde. William aguardou na capela, olhando
fixamente para a cruz no altar e tremendo, apesar do calor de vero.
         Quando afinal Waleran chegou, William teve mpetos de beijar-lhe os
ps.
         O bispo entrou na capela, vestido de negro, e perguntou com frieza:
         - O que voc est fazendo aqui?
         William levantou-se, tentando esconder seu terror abjeto atrs de uma
fachada de autocontrole.
         - Acabei de queimar a cidade de Kingsbridge.
         - Eu sei - interrompeu Waleran. - No ouvi outra coisa o dia inteiro. O
que deu em voc? Ficou maluco?
        Aquela reao tomou William completamente de surpresa. No discutira
a operao com Waleran antes por estar certo de que ele aprovaria: o bispo
odiava tudo o que dissesse respeito a Kingsbridge, em especial ao prior Philip.
Esperara que ele se mostrasse satisfeito, quando no exultante.
        - Acabei de arruinar o seu maior inimigo. Agora preciso confessar meus
pecados.
        - No me surpreende - disse Waleran. - Dizem que mais de cem pessoas
morreram queimadas. - Ele estremeceu. - Uma maneira horrvel de morrer.
        - Estou pronto para confessar - disse William.
        Waleran sacudiu a cabea.
        - No sei se posso lhe dar a absolvio.
        Um grito de medo escapou dos lbios de William.
        - Por que no?
        - Voc sabe que o bispo Henry de Winchester e eu passamos para o lado
do rei Estvo novamente. No creio que o rei aprove o fato de eu absolver um
partidrio da rainha Matilde.
        - Maldito seja, Waleran! Foi voc quem me convenceu a mudar de lado!
        - Mude de novo - retrucou o bispo, dando de ombros. William percebeu
que era aquele o objetivo de Waleran.
        Queria que William retornasse para o lado de Estvo. O horror do bispo
com relao ao incndio de Kingsbridge fora simulado. Apenas estivera
estabelecendo uma base para a barganha. Tal percepo trouxe enorme alvio
para Hamleigh, pois significava que Waleran no se opunha irremediavelmente a
absolv-lo. Mas queria ele mudar de lado mais uma vez? Por um momento no
disse nada, tentando pensar com calma.
        - Estvo tem obtido vitrias todo o vero - continuou Waleran. -
Matilde est implorando ao marido para que venh da Normandia a fim de ajud-
la, mas ele no vir. A mar est a nosso favor.
        Uma perspectiva horrvel abriu-se diante de William: a Igreja se recusava
a absolv-lo de seus crimes; o xerife o acusava de homicdio; um vitorioso rei
Estvo apoiava o xerife e a Igreja; e William era julgado e enforcado...
        - Faa como eu, e siga o bispo Henry: ele sabe de que lado sopra o vento
- instou Waleran. - Se tudo der certo, Winchester ser promovida a arquidiocese,
e Henry ser o arcebispo de Winchester, no mesmo nvel do de Canterbury. E
quando Henry morrer, quem sabe? Poderei ser o arcebispo seguinte. Aps isso...
bem. l existem cardeais ingleses; um dia poder haver um papa ingls...
        William olhou para o bispo, fascinado, a despeito do medo que sentia,
pela ambio revelada na fisionomia normalmente inexpressiva do bispo.
Waleran como papa? Tudo era possvel. Mas as consequncias imediatas das
aspiraes do bispo eram mais importantes.
        William podia ver que era um peo em seu jogo. Waleran ganhara
prestgio com o bispo Henry, pela sua capacidade de fazer William e os cavaleiros
de Shiring trocarem de lado na guerra civil. Era o preo que William tinha de
pagar para que a Igreja fechasse os olhos para os seus crimes.
         - Voc est querendo dizer... - Sua voz estava rouca. Tossiu e tentou
outra vez. - Voc est querendo dizer que ouvir minha confisso se eu jurar
fidelidade a Estvo e voltar para o seu lado?
         O brilho desapareceu dos olhos de Waleran e seu rosto ficou
inexpressivo de novo.
         -  exatamente o que quis dizer - confirmou. William no tinha escolha,
mas de qualquer modo no via razo para recusar. Passara para o lado de Matilde
quando tudo indicava que ela estava vencendo, e se dispunha a trocar mais uma
vez agora que Estvo parecia estar levando vantagem. De qualquer modo, teria
consentido em fazer qualquer coisa para se livrar daquele horrvel terror do
inferno.
         - Aceito, ento - disse, sem mais hesitaes. - S quero que oua minha
confisso, depressa.
         - Muito bem - disse Waleran. - Oremos.
          medida que cumpriam as formalidades do sacramento, William foi
sentindo o fardo da culpa ficar mais leve, e gradualmente comeou a se sentir
satisfeito com o seu triunfo. Quando emergiu da capela seus homens puderam
ver a mudana de estado de esprito que se operara, e logo se entusiasmaram.
William lhes disse que mais uma vez estavam lutando do lado do rei Estvo, de
acordo com a vontade de Deus, assim expressa pelo bispo Waleran, e eles usaram
a notcia como desculpa para uma celebrao. Waleran pediu vinho.
         - Agora Estvo deve me confirmar no meu condado - disse William,
enquanto esperavam o jantar.
         - Deve - concordou Waleran. - Mas no quer dizer que o far.
         - Mas voltei para o lado dele!
         - Richard de Kingsbridge nunca saiu.
         William permitiu-se um sorriso pretensioso.
         - Acho que liquidei a ameaa da parte de Richard.
         - Sim? Como?
         - Richard nunca teve terras. S tem sido capaz de manter seus homens,
como cavaleiro, usando o dinheiro da irm.
         - No  ortodoxo, mas at aqui tem dado certo.
         - Mas agora sua irm no tem mais dinheiro. Toquei fogo no seu
depsito de l ontem. Ela no tem mais nada como tambm Richard.
         Waleran balanou a cabea.
         - Nesse caso  apenas uma questo de tempo ele sair de cena. Ento,
acho que eu poderia dizer que o condado ser seu.
         O jantar foi servido. Os homens de armas de William se sentaram ao lado
dos criados e seus dependentes e flertaram com as lavadeiras do palcio. William
ficou  cabeceira da mesa, com Waleran e seus arcediagos. Agora que estava
relaxado, invejou os homens com as lavadeiras; arcediagos eram uma companhia
muito montona.
         O deo Baldwin ofereceu a William um prato de ervilhas.
         - Lorde William, como impedir uma pessoa de fazer o que o prior Philip
tentou, ou seja, ter sua prpria feira de l? - perguntou ele.
         William ficou surpreso com a pergunta.
         - Ningum se atreveria!
         - Outro monge talvez no; mas um conde poderia.
         - Precisaria de uma licena.
         - Poderia conseguir, se tivesse lutado por Estvo.
         - No neste condado.
         - Baldwin est certo, William - disse o bispo Waleran.
         - Em toda a volta dos limites do seu condado, h cidades que poderiam
abrigar uma feira de l: Wilton, Devizes, Wells, Marlborough, Wallingford...
         - Queimei Kingsbridge, posso queimar qualquer lugar - disse William,
irritado. Tomou um gole de vinho. Enfurecia-o ter sua vitria diminuda.
         Waleran pegou um pedao de po fresco e o partiu, sem comer.
         - Kingsbridge  um alvo fcil - ponderou. - No tem muralha, castelo,
nem mesmo uma igreja grande para as pessoas se refugiarem no seu interior. E 
governada por um monge que no tem cavaleiros ou homens de armas.
Kingsbridge  indefesa. A maioria das cidades no .
         - E quando a guerra civil terminar - acrescentou o deo Baldwin, - seja
quem for que vena, no ser possvel queimar uma cidade como Kingsbridge
impunemente. Seria violar a paz real. Nenhum rei deixaria de tomar providncias
em pocas normais.
         William entendeu o argumento deles e ficou furioso.
         - Ento tudo o que foi feito talvez tenha sido intil - disse. Ps de lado a
faca. A tenso revirava seu estmago e ele no pde comer mais.
         -  claro que se Aliena estiver arruinada - disse Waleran, abriu-se uma
espcie de lacuna.
         William no entendeu.
         - O que est querendo dizer?
         - A maior parte da l neste condado foi vendida a ela este ano. O que
acontecer no ano que vem?
         - No sei.
         Waleran continuou, no mesmo jeito pensativo.
         - Exceto pelo prior Philip, todos os produtores de l em muitas e muitas
milhas ocupam terras do condado ou do bispado. Voc  o conde, em tudo
menos no ttulo, e eu, o bispo. Se forarmos os nossos rendeiros a nos vender
sua l, controlaremos dois teros do comrcio do condado. E venderemos na
feira de Shiring. A no haver negcios suficientes para justificar outra feira,
mesmo que algum consiga uma licena.
         Uma idia brilhante, William viu imediatamente.
         - E ganharemos tanto dinheiro quanto Aliena - ressaltou.
         - Sem dvida. - Waleran serviu-se de um delicado pedacinho de carne e
mastigou, pensativamente. - Assim, voc incendiou Kingsbridge, arruinou seu
pior inimigo e estabeleceu uma nova fonte de renda para si. Nada mal para um
dia de trabalho.
         William tomou um gole avantajado de vinho e sentiu um calor no
estmago. Olhou para a outra extremidade da mesa e se deteve numa garota
gordinha e de cabelos escuros que sorria coquetemente para dois de seus
homens. Talvez trepasse com ela  noite. Sabia como seria. Quando a
encurralasse, a jogasse no cho e levantasse sua saia, se lembraria do rosto de
Aliena e de sua expresso de terror e desespero ao ver a l consumida pelas
chamas; ento ele seria capaz de possu-la. Sorriu com a perspectiva, e pegou
outra fatia do pernil de veado.


         O prior Philip foi profundamente abalado pelo incndio de Kingsbridge.
A surpresa da ao de William, a brutalidade do ataque, as cenas horrveis da
multido em pnico, a matana pavorosa e sua completa impotncia, tudo
combinado o deixou atnito.
         O pior mesmo fora a morte de Tom Construtor. Um homem no auge do
seu talento, mestre de todos os aspectos da sua profisso, Tom deveria continuar
como encarregado da construo da catedral at o seu trmino. Era tambm o
mais ntimo amigo de Philip fora do claustro. Conversavam pelo menos uma vez
por dia, e se esforavam juntos na busca de solues para a interminvel
variedade de problemas com que se defrontavam no seu imenso projeto. Tom
tinha uma rara combinao de sabedoria e humildade que tornava um prazer
trabalhar com ele. Parecia impossvel que houvesse morrido.
         Philip achava que no compreendia mais nada, que no tinha nenhum
poder de verdade e que no era competente para tomar conta de um curral,
muito menos de uma cidade do tamanho de Kingsbridge. Sempre acreditara que,
se fizesse o melhor que podia e confiasse em Deus, tudo acabaria dando certo no
fim.
         O incndio de Kingsbridge parecia ter provado que estava enganado.
Perdera toda a motivao, ficando sentado em sua casa no priorado o dia inteiro,
observando a vela queimando no pequeno altar, s voltas com pensamentos
desconexos e desolados, sem nada fazer.
         Foi o jovem Jack que tratara do que tinha de ser feito. Providenciara para
que os mortos fossem levados para a cripta, pusera os feridos no dormitrio dos
monges e organizara um esquema de alimentao de emergncia para os vivos na
campina do outro lado do rio. O tempo estava quente, e todos dormiam ao ar
livre. No dia seguinte ao do massacre, organizara os aturdidos moradores em
equipes de trabalho e os fizera limpar as cinzas e escombros do adro do priorado,
enquanto Cuthbert Cabea Branca e Milius Tesoureiro encomendavam comida
nas fazendas prximas. No segundo dia enterraram os mortos em cento e
noventa e trs sepulturas novas no lado norte do adro.
         Philip simplesmente expediu as ordens propostas por Jack. Este
argumentara que a maioria dos cidados sobreviventes ao incndio perdera muito
pouca coisa de valor material - s uma choa e uns poucos mveis vagabundos,
na maioria dos casos. As safras ainda estavam nos campos, e as economias onde
haviam sido enterradas, em geral sob as lareiras da casa, bem fundo, a salvo das
chamas que varreram a cidade. Os mercadores cujos estoques haviam pegado
fogo foram os maiores sofredores: alguns estavam arruinados, como Aliena;
outros tinham parte de sua fortuna em prata, bem enterrada, e seriam capazes de
comear de novo. Jack props reconstruir a cidade de imediato.
         Por sugesto dele, Philip concedeu uma permisso extraordinria para
cortar rvores gratuitamente nas florestas do priorado, com o objetivo de
construir casas, mas apenas por uma semana. Em consequncia, Kingsbridge
ficou deserta por sete dias, enquanto todas as famlias selecionavam e
derrubavam as rvores que empregariam em suas novas casas. Durante essa
semana, Jack pediu a Philip que desenhasse uma planta da nova cidade.
         A idia incendiou a imaginao do prior e ele saiu de sua depresso.
         Trabalhou no plano, sem parar, por quatro dias. Haveria casas grandes
em toda a volta dos muros do priorado, para os artesos e comerciantes ricos.
Lembrava-se do padro das ruas de Winchester, e planejou uma nova
Kingsbridge na mesma base.
         Ruas retas,largas o bastante para permitir a passagem de duas carroas,
desceriam at o rio, com as ruas transversais mais estreitas. O love seria
padronizado na largura de vinte e quatro ps, o que era uma ampla frente para
uma casa na cidade.
         Cada love teria cento e vinte ps de comprimento, proporcionando
espao para um quintal decente com uma latrina, uma horta e um estbulo ou
pocilga.
         A ponte se incendiara, e outra seria construda em posio mais
conveniente, no fim da nova rua principal. A estrada que passava pela cidade
agora subiria diretamente a colina, a partir da ponte, e passaria pela catedral,
saindo do outro lado, como em Lincoln. Outra rua larga ligaria o porto do
priorado a um novo cais na margem do rio, seguiria na mesma direo da
correnteza a partir da ponte e contornaria a curva do rio. Desse modo, os
suprimentos em grosso poderiam chegar ao priorado, sem usar a principal rua do
comrcio.
        Haveria um distrito inteiramente novo de casas pequenas em torno do
cais a ser construdo: os pobres ficariam a jusante do priorado e seus hbitos
sujos no poluiriam o suprimento de gua do mosteiro.
        Planejar a reconstruo tirou Philip do seu transe, mas toda vez que
levantava os olhos dos desenhos era invadido por uma onda de raiva e de dor
pelas pessoas que tinham morrido. Perguntava-se se William Hamleigh seria de
fato o demnio encarnado: causava mais sofrimento do que seria humanamente
possvel. Philip via sempre a mesma mistura de esperana e aflio no rosto dos
moradores da cidade, ao voltarem da floresta com seus carregamentos de
madeira. Jack e os outros monges balizaram o plano da nova cidade no cho,
com estacas e cordas, e ao escolher o love, de vez em quando algum dizia
melancolicamente: "De que adianta? Pode ser incendiada de novo no ano que
vem!" Se houvesse qualquer esperana de justia, alguma expectativa de que os
malfeitores seriam punidos, talvez no se sentissem to inconsolveis; mas
embora Philip tivesse escrito a Estvo, a Matilde, ao bispo Henry, ao arcebispo
de Canterbury e ao papa, sabia que em tempo de guerra havia pouca chance de
que um homem to poderoso e importante quanto William fosse levado a
julgamento.
        Os lotes maiores do plano de Philip foram muito procurados, a despeito
dos aluguis mais caros, de modo que ele alterou o plano a fim de permitir um
nmero maior.
        Quase ningum quis construir no bairro mais pobre, mas Philip decidiu
deixar a planta como estava, para uso futuro. Dez dias aps o incndio, novas
casas de madeira estavam subindo na maior parte dos lotes, e em mais uma
semana a maioria delas estava terminada. Uma vez que as casas foram
construdas, o trabalho recomeou na catedral. Os operrios foram pagos e
quiseram gastar seu dinheiro; as lojas reabriram, e os pequenos agricultores
trouxeram seus ovos e cebolas para a cidade; as copeiras e lavadeiras
recomearam a trabalhar para os comerciantes e artesos; assim, dia a dia, a vida
material em Kingsbridge voltou ao normal.
        Mas havia tantos mortos que parecia uma cidade de fantasmas. Cada
famlia perdera pelo menos um membro: uma criana, a me, o marido, uma
irm. No se usavam distintivos de luto, mas as rugas nos rostos exibiam a mgoa
to perfeitamente quanto as rvores nuas denunciavam o inverno. Um dos mais
atingidos foi o pequeno Jonathan, com seis anos. Ele se arrastava pelo adro do
mosteiro como uma alma perdida, e Philip acabou por perceber que sentia a falta
de Tom, que, ao que parecia, passara mais tempo com o menino do que qualquer
pessoa tivesse notado. Quando o prior se deu conta disso, fez questo de
reservar uma hora por dia para Jonathan, durante a qual lhe narrava histrias,
brincava de contar e ouvia sua volvel tagarelice.
         Philip escreveu aos abades de todos os principais mosteiros beneditinos
da Inglaterra e Frana, perguntando se podiam recomendar um mestre construtor
para substituir Tom. Um prior na posio de Philip normalmente consultaria seu
bispo a esse respeito, pois os bispos viajavam muito e tinham possibilidade de
tomar conhecimento de bons construtores, mas o bispo Waleran no o ajudaria.
O fato de os dois estarem em constante desavena tornava o cargo de Philip
ainda mais solitrio do que deveria ser.
         Enquanto o prior aguardava as respostas dos abades, os artfices
instintivamente se voltaram para Alfred, em busca de liderana. Ele era filho de
Tom e mestre pedreiro, e j h algum tempo vinha conduzindo sua equipe semi-
autnoma no canteiro da obra. No tinha o crebro do Tom, infelizmente, mas
era instrudo e tinha autoridade, de modo que aos poucos foi preenchendo o
vazio deixado pela morte do pai.
         Parecia haver muito mais problemas e dvidas a respeito da obra que no
tempo de Tom, e Alfred dava a impresso de sempre aparecer com uma pergunta
quando no se podia encontrar Jack em parte alguma. Sem dvida, aquilo era
natural: todos em Kingsbridge sabiam que os dois se odiavam. O resultado final,
contudo, foi que Philip se viu mais uma vez atormentado por interminveis
questes relativas a detalhes.
         Mas  medida que as semanas passavam, Alfred foi ganhando confiana,
at que um dia procurou Philip e perguntou:
         - No preferia que a catedral tivesse um teto de pedra abobadado?
         O projeto de Tom previa um teto de madeira no centro da igreja, e tetos
de pedra abobadados nas naves laterais mais estreitas.
         - Sim, preferia - respondeu Philip. - Mas decidimos por um teto de
madeira para economizar dinheiro.
         Alfred assentiu.
         - O problema  que um teto de madeira pode pegar fogo. Uma abbada
de pedra, no.
         Philip examinou-o por um momento, perguntando-se se teria
subestimado Alfred. No imaginava que ele apresentasse uma variao do projeto
do pai; aquilo era mais o tipo de coisa que se podia esperar que Jack fizesse. Mas
a idia de uma igreja  prova de fogo era tentadora, especialmente depois que a
cidade fora incendiada.
         - A nica construo que ficou de p na cidade aps o incndio foi a
igreja nova da parquia - acrescentou Alfred, seguindo a mesma linha de
raciocnio.
         E a igreja nova da parquia - construda por Alfred - tinha um teto
abobadado de pedra, pensou Philip. Mas lhe ocorreu uma dificuldade.
         - As paredes, do jeito que esto, aguentariam o peso extra de um teto de
pedra?
         - Teramos que reforar os arcobotantes. Ficariam um pouco mais
salientes do lado de fora, mais nada.
         Ele j pensara naquilo, percebeu Philip.
         - E o custo?
         - Vai custar mais caro a longo prazo,  claro, e a igreja precisar de mais
trs ou quatro anos para ficar pronta, mas no far diferena no seu desembolso
anual.
         Philip gostava cada vez mais da idia.
         - Mas isso significar esperar mais um ano para usar o coro nos servios?
         - No. Madeira ou pedra, no podemos comear a trabalhar no teto
seno na prxima primavera. O clerestrio precisa endurecer antes que se ponha
qualquer peso sobre ele. O teto de madeira  mais rpido de construir, por alguns
meses; mas, de qualquer modo, o coro estar coberto no final do ano que vem.
         Philip ficou pensativo. Era uma questo de pesar a vantagem de um teto
 prova de fogo contra a desvantagem de outros quatro anos de obra - e de
gastos. O custo extra parecia estar bastante longe, no futuro. E o lucro em
segurana era imediato.
         - Acho que discutirei o assunto com os irmos no cabido. - disse. - Mas
me parece uma boa idia.
         Alfred agradeceu-lhe e saiu, e depois que foi embora Philip continuou
sentado, olhando para a porta, perguntando-se se afinal precisava realmente
procurar um novo mestre construtor.
         Kingsbridge fez uma brava exibio no dia em que se comemorava a
colheita. De manh cada casa da cidade preparou um po - a safra estava
comeando, e a farinha de trigo era barata e abundante. Os que no tinham forno
em casa assaram o seu na casa de um vizinho, ou nos grandes fornos
pertencentes ao priorado ou aos dois padeiros da cidade, Peggy Baxter e Jack-
atte-Noven. Por volta do meio-dia o ar recendia a po fresco, deixando todo
mundo com fome. Os pes foram exibidos em mesas arrumadas no gramado do
outro lado do rio, e todos caminhavam por entre elas, admirando-os. No havia
dois iguais. Muitos continham frutas ou especiarias: havia pes com ameixas,
passas, gengibre, acar, cebola, alho e muitos mais. Outros tinham sido
coloridos de verde com salsa, de amarelo com gema de ovo, de vermelho com
sndalo ou de prpura com tomassol.
         Havia vrios de formas estranhas: viam-se tringulos, cones, bolas,
estrelas, ovais, pirmides, flautas, rolinhos e at mesmo oitos. Alguns eram mais
ambiciosos: pes em forma de coelhos, ursos, macacos e drages. Havia casas e
castelos de po. O mais magnfico, contudo, na opinio de todos, foi o de Ellen e
Martha, que era uma representao da catedral, baseada no projeto do seu
falecido marido, Tom.
         A dor de Ellen tinha sido terrvel de ver. Chorara como uma alma
atormentada, noite aps noite, e ningum fora capaz de consol-la. Mesmo agora,
dois meses depois, ainda estava plida e com os olhos fundos; porm, ela e
Martha pareciam capazes de se ajudar, e fazer o po com a forma da catedral lhes
proporcionara um pouco de consolo.
         Aliena passou longo tempo contemplando o trabalho de Ellen. Gostaria
de ter uma atividade que lhe trouxesse conforto. No sentia entusiasmo por nada.
Quando comearam as provas, foi para a mesa apaticamente, sem comer. Nem
mesmo havia tido vontade de construir outra casa, at que o prior Philip a
instigou a reagir e Alfred lhe trouxe a madeira e designou alguns homens para
ajud-la. Ainda estava comendo no mosteiro todos os dias, pelo menos quando
se lembrava de comer. No tinha energia. Quando lhe ocorria a idia de fazer
qualquer coisa para si mesma - um banco de cozinha com sobras da madeira, ou
o acabamento s paredes da casa, tapando as fendas com lama do rio, ou ainda
uma armadilha para pegar pssaros, de modo que pudesse se alimentar, ela se
lembrava de como trabalhara duro para chegar a uma boa posio como
mercadora de l, e de como rapidamente tudo se arruinara, e perdia o
entusiasmo. Assim ia vivendo dia a dia, sem planos, acordando tarde, indo ao
mosteiro almoar se tivesse fome, contemplando quase que o tempo todo o fluir
das guas do rio e indo dormir na palha da casa nova quando escurecia.
         A despeito da sua prostrao, sabia que aquele festival que celebrava a
colheita no passava de uma farsa. A cidade fora reconstruda, e as pessoas se
dedicavam aos seus trabalhos como antes, mas era comprida a sombra projetada
pelo massacre, e ela podia perceber, sob a aparncia de bem-estar, uma profunda
sensao de medo. A maioria das pessoas estava melhor do que Aliena, agindo
como se tudo corresse bem, mas na verdade todos se sentiam do mesmo modo
que ela, achando que aquilo no podia durar e que tudo o que construssem seria
destrudo de novo.
         Enquanto estava ali olhando apaticamente para as pilhas de po, Richard
chegou. Atravessou a ponte, vindo da cidade deserta, puxando o cavalo. Tinha
estado fora, combatendo por Estvo, desde antes do massacre, e ficou atnito
com o que encontrou.
         - Que diabo aconteceu aqui? - perguntou. - No consigo encontrar nossa
casa; a cidade toda mudou!
         - William Hamleigh apareceu no dia da feira de l, com uma tropa de
homens de armas, e incendiou a cidade - disse Aliena.
         Richard empalideceu com o choque e a cicatriz na sua orelha direita ficou
lvida.
         - William! - exclamou. - Aquele demnio!
         - Temos uma casa nova, contudo - disse Aliena inexpressivamente. - Os
homens de Alfred construram para mim. Mas  muito menor, e fica perto do
novo cais.
        - O que aconteceu com voc? - disse ele, examinando-a. - Est
praticamente careca e sem sobrancelhas.
        - Meu cabelo pegou fogo.
        - Ele no...
        Aliena sacudiu a cabea.
        - Desta vez no.
        Uma das garotas trouxe po de sal para Richard provar. Ele pegou um
pedao mas no comeu. Parecia atnito.
        - De qualquer forma, estou satisfeita por v-lo bem - disse Aliena.
        Ele assentiu.
        - Estvo est marchando sobre Oxford, onde Matilde se encontra
entocada. A guerra poder terminar em breve. Mas preciso de uma espada nova;
vim buscar dinheiro. - Ele comeu o po. A cor voltou ao seu rosto. - Por Deus,
que gosto bom! Voc pode cozinhar um pouco de carne para mim mais tarde.
        De repente, teve medo dele. Sabia que ia ficar furioso e no tinha foras
para enfrent-lo.
        - No tenho carne.
        - Ento compre no aougueiro.
        - No fique zangado, Richard. - Ela comeou a tremer.
        - No estou zangado - disse ele, irritado. - O que h com voc?
        - Toda a minha l foi queimada no incndio - respondeu Aliena, com os
olhos fixos no irmo, esperando que explodisse.
        Ele franziu a testa, olhou para ela, engoliu e jogou fora a casca do po.
        - Toda?
        - Toda.
        - Mas voc ainda deve ter algum dinheiro.
        - Nenhum.
        - Por que no? Sempre teve um cofre cheio de dinheiro enterrado no
cho...
        - No em maio. Eu tinha gasto tudo em l... at o ltimo penny. E pedi
quarenta libras ao pobre Malachi, que no posso pagar.  claro que no posso lhe
comprar uma nova espada. No posso nem mesmo comprar um pedao de carne
para a sua ceia. Estamos completamente sem dinheiro.
        - Ento como vou poder continuar? - gritou ele, furioso. Seu cavalo
levantou as orelhas e se mexeu, inquieto.
        - No sei! - disse Aliena, lacrimosa. - No grite, est assustando o cavalo.
- Ela comeou a chorar.
        - William Hamleigh fez isto - disse Richard, por entre os dentes. - Um dia
desses vou esquartej-lo como um porco gordo, juro por todos os santos.
        Alfred apareceu nessa hora, com a barba espessa cheia de migalhas e uma
fatia de po de ameixa na mo.
         - Experimente este - sugeriu a Richard.
         - No estou com fome - disse o rapaz, rudemente.
         - O que h? - perguntou Alfred, olhando para Aliena. Richard respondeu
a pergunta.
         - Ela acaba de me dizer que no temos um penny.
         Alfred assentiu.
         - Todos perderam alguma coisa, mas Aliena perdeu tudo.
         - Voc entende o que isso significa para mim - disse Richard, falando
com Alfred mas olhando acusadoramente para Aliena. - Estou liquidado. Se no
posso substituir armas, pagar meus homens e comprar cavalos, ento no posso
combater pelo rei Estvo. Minha carreira como cavaleiro est terminada... e
jamais serei o conde de Shiring.
         - Aliena podia se casar com um homem rico - disse Alfred.
         Richard riu sarcasticamente.
         - Ela rejeitou todos!
         - Um deles pode pedi-la em casamento de novo.
         - Sim. - O rosto de Richard se contorceu num sorriso cruel. - Poderamos
mandar cartas a todos os pretendentes rejeitados, dizendo que ela perdeu todo o
dinheiro e que est disposta a reconsiderar...
         - Chega - disse Alfred, segurando o brao de Richard, que se calou.
Virou-se depois para Aliena. - Lembra-se do que eu lhe disse, um ano atrs, no
primeiro jantar da associao da parquia?
         O corao dela angustiou-se. No podia acreditar que Alfred fosse
comear com aquilo outra vez. No tinha foras para enfrentar sua insistncia.
         - Eu me lembro - disse ela. - E espero que voc se lembre da minha
resposta.
         - Eu ainda a amo.
         Richard ficou espantado.
         - Ainda quero me casar com voc, Aliena - continuou Alfred. - Quer ser
minha mulher?
         - No! - exclamou ela. Queria falar mais, acrescentar algo que tornasse
sua resposta definitiva e irreversvel, mas estava muito cansada. Olhou de Alfred
para Richard e deste novamente para Alfred, e sbito no aguentou mais.
Afastou-se dos dois, saiu caminhando depressa e atravessou a ponte para a
cidade.
         Ficou zangada com Alfred por ter repetido sua proposta na frente de
Richard. Preferia que seu irmo no tomasse conhecimento dela. Tinham se
passado trs meses desde o incndio por que Alfred nada falara at agora? Era
como se tivesse aguardado a chegada de Richard para executar sua jogada.
         Ela foi caminhando pelas ruas novas, desertas. Todos estavam na festa,
provando po. A casa de Aliena ficava no bairro pobre, perto do cais. O aluguel
era barato, mas mesmo assim no tinha idia de como poderia pagar.
        Richard a alcanou, desmontou e foi caminhando ao seu lado.
        - Toda a cidade cheira a madeira nova - disse ele, em tom de conversa. -
E tudo  to limpo!
        Aliena j se acostumara com a nova aparncia da cidade, mas ele a estava
vendo pela primeira vez. Era artificialmente limpa. O incndio tinha acabado
com a madeira podre e mida das construes mais velhas, com os telhados de
palha grossos da fuligem de anos e anos de fumaa de cozinha, com os imundos
estbulos antigos e com as ftidas esterqueiras. Havia um cheiro de novo por
toda parte: madeira nova, palha nova nos telhados e no cho, e at mesmo
caiao nova nas paredes das residncias mais ricas. O fogo parecia ter
enriquecido o solo, e flores silvestres cresciam em cantos estranhos.
        Algum observara que um nmero muito pequeno de pessoas cara
doente desde o incndio, e pensava-se que isso confirmava a teoria, defendida
por muitos filsofos, de que as doenas eram disseminadas por vapores
malignos.
        Sua mente estava longe. Richard dissera qualquer coisa.
        - O qu? - perguntou ela.
        - Eu disse que no sabia que Alfred a pedira em casamento no ano
passado.
        - Voc tinha coisas mais importantes em que pensar. Foi no tempo em
que prenderam Robert de Gloucester.
        - Alfred foi bom, construindo uma casa para voc.
        - Sim, foi. E aqui est ela. - Aliena olhou para Richard enquanto ele
olhava a casa. Estava desconcertado. Teve pena do irmo: nascera no castelo de
um conde, e at mesmo a casa grande que tinham antes do incndio significara
um rebaixamento para ele.
        Agora tinha que se acostumar com o tipo de casa em que moravam
operrios e vivas.
        Aliena segurou as rdeas do seu cavalo.
        - Venha. H espao para o cavalo nos fundos. - Ela conduziu o enorme
animal por dentro da casa de um cmodo e saiu pela porta dos fundos. Havia
cercas rsticas e baixas separando os quintais. Amarrou o cavalo numa viga da
cerca e comeou a tirar a pesada sela de madeira. Vindas no se sabe de onde,
grama e ervas nasciam na terra calcinada. Quase todos tinham escavado uma
privada, plantado verduras e construdo uma pocilga ou um galinheiro no quintal,
mas o de Aliena permanecia intocado.
        Richard ficou dentro da casa, mas no havia muito para ver e, aps um
momento, seguiu Aliena no quintal.
        - A casa est um pouco vazia, sem mveis, pratos, tigelas...
         - No tenho dinheiro - disse Aliena, aptica.
         - No plantou nada tambm - disse ele, olhando  sua volta
desgostosamente.
         - No tenho energia - disse ela, irritada. Entregou-lhe a sela enorme e
entrou.
         Ela se sentou no cho, com as costas para a parede. Estava frio ali
dentro. Dava para ouvir Richard tratando do cavalo no quintal. Aps ter ficado
sentada imvel por alguns momentos viu um rato pr o focinho para fora da
palha. Milhares de ratos e camundongos deviam ter morrido no incndio, mas
agora comeavam a ser vistos de novo. Procurou alguma coisa com que pudesse
mat-lo, mas no havia nada  mo, e de qualquer modo o bicho sumiu outra
vez.
         O que vou fazer?, pensou ela. No posso ficar assim o resto da vida. Mas
a simples idia de dar incio a um novo negcio a deixava exausta. Salvara a si
prpria e a seu irmo da penria uma vez, mas o esforo gastara todas as suas
reservas, e era incapaz de repetir a dose. Teria que descobrir algum tipo de vida
passiva, controlada por algum, para que pudesse viver sem tomar decises ou
iniciativas.
         Pensou na mulher chamada Kate, de Winchester, que beijara seus lbios e
lhe apertara os seios, dizendo que nunca mais sentiria falta de dinheiro ou de
qualquer outra coisa, e que se trabalhasse para ela as duas ficariam ricas. No,
pensou, aquilo no; nunca mais.
         Richard entrou carregando seus alforjes.
         - Se voc no pode cuidar de si prpria,  melhor encontrar algum que
possa.
         - Sempre tive voc.
         - No posso tomar conta de voc! - protestou ele.
         - Por que no? - Uma minscula centelha de raiva se acendeu dentro dela.
- Cuidei de voc por seis longos anos!
         - Estive combatendo numa guerra, e s o que fez foi vender l.
         E esfaquear um fora-da-lei, pensou ela; e atirar um padre desonesto no
cho; e alimentar, vestir e proteger voc, que no era capaz de fazer nada seno
roer os ns dos dedos e tremer de medo. Mas a centelha se apagou e a raiva
esmoreceu; ela limitou-se a dizer que estava brincando.
         Richard resmungou, sem saber ao certo se deveria se sentir ofendido com
a observao da irm, at que sacudiu a cabea, irritado.
         - De qualquer modo - disse ele, - voc no devia ser to rpida em rejeitar
Alfred.
         - Oh, pelo amor de Deus, cale-se!
         - O que  que h de errado com ele?
         - No h nada de errado com ele. Ser que voc no entende? H algo de
errado comigo.
         Ele deixou a sela no cho e apontou-lhe um dedo.
         -  isso mesmo, e eu sei o que . Voc  completamente egosta. S
pensa em si prpria.
         Aquilo era to monstruosamente injusto que ela foi incapaz de sentir
raiva. As lgrimas transbordaram dos seus olhos.
         - Como pode dizer isso? - protestou, angustiada.
         - Porque tudo se ajeitaria com voc desposando Alfred, em vez de
recus-lo.
         - Meu casamento com Alfred no ajudaria voc.
         - Claro que ajudaria.
         - Como?
         - Alfred disse que poderia me financiar, se eu fosse seu cunhado. Eu teria
que cortar um pouco as despesas, ele no pode pagar todos os meus homens de
armas, mas me prometeu o suficiente para um cavalo de batalha, novas armas e
meu prprio escudeiro.
         - Quando? - perguntou Aliena, atnita. - Quando foi que ele disse isso?
         - Agora mesmo. L no priorado.
         Aliena sentiu-se humilhada, e Richard teve a considerao de parecer um
pouco envergonhado. Os dois homens tinham negociado Aliena como
negociantes de cavalos. Ela se levantou, e sem mais uma palavra retirou-se.
         Voltou ao priorado e entrou no adro pelo lado sul, pulando a vala junto
do velho moinho d'gua. O moinho estava em silncio, j que era feriado. No
teria andado naquela direo se estivesse funcionando, pois o estrondo dos
martelos pisoando o tecido sempre lhe dava dor de cabea.
         O adro estava deserto, conforme antecipara. No canteiro da obra havia
silncio. Aquela era a hora em que os monges estudavam ou descansavam, e o
resto das pessoas estava na festa. Aliena vagou pelo cemitrio no lado norte da
obra. As sepulturas cuidadosamente tratadas, com as cruzes de madeira bem-
feitas e as flores frescas, diziam a verdade: a cidade ainda no se recuperara do
massacre. Parou ao lado do tmulo de Tom, adornado com um anjo de mrmore
simples, esculpido por Jack. Sete anos atrs, pensou, meu pai arranjou um
casamento perfeitamente razovel para mim. William Hamleigh no era velho,
no era feio e no era pobre. Teria sido aceito com um suspiro de alvio por
qualquer outra garota em minha posio.
         Mas o recusei, e veja s os problemas que se seguiram: nosso castelo
atacado, meu pai aprisionado, meu irmo e eu completamente sem dinheiro - at
mesmo o incndio de Kingsbridge e a morte de Tom so consequncias da
minha obstinao.
         De algum modo a morte de Tom parecia pior que todas as outras
tristezas, talvez porque ele tivesse sido amado por tanta gente, talvez por ter sido
o segundo pai que Jack perdera.
         E agora estou rejeitando outra proposta perfeitamente razovel, pensou
ela. O que me d o direito de ser to exigente? A dificuldade que tenho de me
satisfazer j causou muitos problemas.
         Eu deveria aceitar Alfred, e ser grata por no ter que trabalhar na casa de
mulheres da senhora Kate.
         Afastou-se da sepultura de Tom e caminhou na direo da obra. Parou
no que iria ser a interseo e olhou para o coro. Estava pronto, exceto pelo
telhado, e os operrios se preparavam para a fase seguinte, os transeptos; a planta
baixa j tinha sido balizada no cho, com estacas e cordis, em ambos os lados, e
os homens haviam comeado a escavar os alicerces. As altas paredes  sua frente
projetavam sombras compridas no sol de fim de tarde. A temperatura naquele dia
era amena, mas na catedral fazia frio. Aliena olhou por longo tempo as fileiras de
arcos redondos, grandes no nvel do solo, pequenos em cima e mdios na parte
central. Havia algo profundamente satisfatrio naquele ritmo regular de arco,
pilar, arco, pilar.
         Se Alfred estava mesmo disposto a financiar Richard, Aliena ainda tinha
uma chance de cumprir o juramento que fizera ao pai, de cuidar de Richard at
ele reconquistar o condado. No fundo do corao sabia que teria que desposar
Alfred, embora fosse uma coisa que no tivesse coragem de enfrentar.
         Caminhou ao longo da nave lateral sul, arrastando a mo na parede,
sentindo a textura spera das pedras, passando as unhas nos sulcos rasos feitos
pelos dentes da talhadeira do pedreiro. Ali nas naves laterais, sob as janelas, a
parede era decorada com arcaturas, uma sria de arcos falsos, sem nenhum outro
objetivo seno o de aumentar o senso de harmonia que Aliena sentia ao olhar
para a obra. Na catedral de Tom tudo parecia ter um objetivo. Talvez sua vida
tambm fosse assim, com tudo predeterminado num grande projeto, e ela agisse
como um construtor estpido que quisesse uma queda-d'gua no coro.
         No canto sudeste da igreja, uma porta baixa levava a uma estreita escada
em espiral. Num impulso, Aliena passou pela porta e subiu a escada. Ao perder a
entrada de vista e ainda assim no haver chegado ao topo, teve uma sensao
esquisita, com a impresso de que aquela escadaria no ia terminar nunca. Ento
viu a luz do sol; era uma janelinha estreita na parede da torre, posta ali para
iluminar a escada.
         Aps algum tempo chegou  larga galeria sobre a nave. No tinha janelas
que dessem para o exterior, mas no interior dava para a igreja sem telhado.
Sentou-se na soleira de um dos arcos interiores, encostando-se ao pilar. A pedra
fria acariciou-lhe o rosto. Perguntou-se se teria sido Jack quem cortara aquela
pedra. Ocorreu-lhe que se casse dali poderia morrer. Mas no era bastante alto
na realidade: poderia apenas quebrar as pernas e ficar no cho, em agonia, at que
os monges viessem e a achassem.
         Decidiu subir at o clerestrio. Voltou  escada do torreo e prosseguiu a
escalada. O estgio seguinte era mais curto, mais ainda assim achou assustador,
deixando-a com o corao batendo ruidosamente na hora em que alcanou o
topo. Entrou na passagem do clerestrio, um tnel estreito dentro da parede.
Esgueirou-se ao longo da passagem at que deu no peitoril interno de uma das
janelas. Segurou-se no pilar que a dividia. Quando olhou para baixo, de uma
altura de mais de setenta e cinco ps, comeou a tremer.
         Aliena ouviu passos na escada do torreo. Comeou a respirar com
dificuldade, como se tivesse corrido. No havia ningum mais  vista quando
subira. Ser que algum a seguira? Os passos vinham do corredor estreito que
acabara de percorrer. Largou o pilar e ficou na beirada, trmula. Um vulto
apareceu na soleira. Era Jack. O corao de Aliena batia to alto que ela era capaz
de ouvi-lo.
         - O que est fazendo? - perguntou ele cautelosamente.
         - Eu... eu estava vendo como sua catedral est indo.
         Jack apontou para o capitel acima da cabea dela.
         - Fui eu que fiz.
         Aliena ergueu os olhos. Fora esculpida na pedra a figura de um homem
que parecia estar sustentando o peso do arco nas costas. O corpo dele era
retorcido, como se agonizasse de tanta dor. Aliena o contemplou por algum
tempo. Nunca vira nada parecido.
         Sem pensar, disse:
         -  assim que me sinto.
         Quando olhou de novo para Jack, ele estava do seu lado, segurando-lhe o
brao, delicada mas firmemente.
         - Eu sei - disse ele.
         Aliena olhou para baixo. A idia de cair deixou-a doente de medo. Jack
puxou-lhe o brao. Ela deixou-se ser conduzida para a passagem.
         Desceram a escada sem paradas, at o cho. Aliena sentia-se fraca. Jack
virou-se e lhe disse, em Tom de conversao:
         - Eu estava lendo no claustro, olhei para a igreja e vi voc no clerestrio.
         Aliena fitou seu rosto jovem, to cheio de preocupao e ternura, e se
lembrou do motivo pelo qual fugira de todo mundo e buscara a solido dali.
Teve vontade de beij-lo, e viu a mesma vontade em seus olhos. Seu corpo
inteiro lhe dizia para atirar-se nos seus braos, mas ela sabia o que tinha a fazer.
Queria dizer: Eu o amo como uma trovoada, como um leo, como uma fria
desorientada, mas, em vez disso, suas palavras foram:
         - Acho que vou me casar com Alfred.
         Ele a encarou. Parecia atnito. Ento seu rosto ficou triste, com uma
tristeza sbia e antiga, que excedia em muito a sua idade.
         Aliena pensou que fosse chorar, mas no. No lugar de lgrimas, havia
raiva nos seus olhos. Jack abriu a boca para falar, mudou de idia, hesitou e por
fim se resolveu.
        - Seria melhor se voc tivesse pulado do clerestrio - disse, numa voz fria
como o vento norte.
        Afastou-se dela e retornou para o mosteiro. Perdi-o para sempre, pensou
Aliena, sentindo que seu corao ia se partir.

        Jack foi visto fugindo do mosteiro no dia da festa da colheita. No era
uma transgresso grave, por si s, mas ele j fora apanhado diversas vezes antes,
o fato de ter sado para falar com uma mulher que no era casada tornava a coisa
mais sria.
        Sua transgresso foi discutida no cabido no dia seguinte e ele recebeu
ordem para ficar confinado.
        Isso significava que estava restrito aos edifcios monsticos, o claustro e a
cripta, e que cada vez que fosse de um prdio para outro teria que ser
acompanhado.
        Ele mal se deu conta da restrio. Ficara to devastado com a notcia
dada por Aliena que nada mais fazia muita diferena. Sua impresso era de que,
se houvesse sido aoitado em vez de apenas confinado, teria sido igualmente
indiferente.
        No havia qualquer dvida quanto ao seu trabalho na catedral, claro;
porm, grande parte do prazer desaparecera desde que Alfred se tornara o
encarregado. Agora passava as tardes livres lendo. Seu latim melhorara a passos
largos e j era capaz de ler qualquer coisa, mesmo que lentamente; e como se
esperava que lesse para aperfeioar seu latim, e no para qualquer outro
propsito, lhe era permitido pegar qualquer livro que quisesse. Embora a
biblioteca fosse pequena, tinha diversas obras de filosofia e matemtica, nas quais
mergulhou com entusiasmo.
        Muito do que leu era desapontador. Havia pginas de genealogias,
narrativas repetitivas de milagres realizados por santos mortos h muito tempo e
interminvel especulao teolgica. O primeiro livro que realmente prendeu a
ateno de Jack contava toda a histria do mundo desde a Criao at a fundao
do priorado de Kingsbridge, e depois que o leu achou que sabia tudo o que j
acontecera. Percebeu, aps algum tempo, que a pretenso do livro de contar
todos os acontecimentos era implausvel, pois, afinal de contas, as coisas estavam
acontecendo em toda parte o tempo todo, no apenas em Kingsbridge e na
Inglaterra, como tambm na Normandia, Anjou, Paris, Roma, Etipia e
Jerusalm, de modo que o autor devia ter deixado um bocado de coisas fora. De
qualquer modo, o livro deu a Jack uma sensao que nunca tivera, de que o
passado era como uma histria, na qual uma coisa levava a outra, e que o mundo
no era um mistrio infinito, mas sim uma coisa finita que podia ser
compreendida.
        Mais intrigantes ainda eram os quebra-cabeas. Um filsofo perguntava
por que um homem fraco era capaz de deslocar uma pedra pesada com uma
alavanca. Aquilo nunca parecera estranho a Jack antes, mas agora a questo o
atormentava. Passara diversas semanas na pedreira numa ocasio e se lembrava
de que quando uma pedra no podia ser deslocada com uma alavanca de um p
de comprimento, a soluo geralmente era usar uma de dois. Por que motivos o
mesmo homem incapaz de deslocar a pedra com uma alavanca mais curta podia
faz-lo com outra mais comprida? Essa questo levava a outras. Os operrios da
obra na catedral usavam uma imensa roda para iar pedras grandes e vigas at o
teto. O peso na extremidade da corda era demasiado para um homem erguer
com as mos, mas o mesmo homem podia girar a roda que enrolava a corda,
iando a carga. Como isso era possvel?
        Tais especulaes o distraam por algum tempo, mas seus pensamentos
voltavam sempre para Aliena. s vezes estava no claustro, de p defronte da
estante onde havia um livro volumoso, e se lembrava daquela manh no velho
moinho quando a beijara. Podia recordar cada instante daquele beijo, desde o
toque macio dos lbios at a arrebatadora sensao da lngua da jovem na boca.
O corpo de Jack comprimira o de Aliena das coxas aos ombros, de modo que
podia sentir os contornos dos seus seios e quadris. A lembrana era to intensa
que era como experimentar tudo aquilo de novo.
        Por que Aliena mudara? Ele acreditava que o beijo fosse verdadeiro e sua
subsequente frieza, falsa. Achava que a conhecia. Era amorosa, sensual,
romntica, imaginativa e ardente. Tambm era inconsiderada e autoritria, e
aprendera a ser dura; mas no era fria, cruel ou sem corao. No combinava
com o seu carter se casar por dinheiro com um homem a quem no amava.
Seria infeliz, se arrependeria, adoeceria de tanto sofrimento; ele sabia disso e, no
seu corao, ela tambm.
        Um dia, quando estava na sala de escrita, um criado do priorado que
varria o cho parou para descansar, apoiou-se na vassoura e disse:
        - Grande festa na sua famlia.
        Jack estava estudando um mapa do mundo desenhado numa grande folha
de papel velino. Ergueu a cabea. Quem falara era um velho torto, fraco demais
para servios pesados.
        Provavelmente confundira Jack com algum.
        - O que , Joseph?
        - Voc no sabia? Seu irmo vai se casar.
        - No tenho irmos - disse Jack automaticamente, mas seu corao
congelou-se.
        - O filho do seu falecido padrasto, ento - disse loseph.
        - No, eu no sabia. - Jack teve que fazer a pergunta. Cerrou os dentes: -
Com quem ele vai se casar?
         - Com aquela tal de Aliena.
         Ento ela estava determinada a ir at o fim. Jack entretivera uma secreta
esperana de que fosse mudar de idia. Desviou o rosto para que loseph no
pudesse ver seu desespero.
         - Ora, ora - disse, tentando fazer com que sua voz no traduzisse
nenhuma emoo.
         - Isso mesmo, com aquela que era arrogante at perder tudo no incndio.
         - Voc disse... voc disse que ser quando?
         - Amanh. Eles vo se casar na nova igreja da parquia que Alfred
construiu.
         No dia seguinte!
         Aliena ia se casar com Alfred no dia seguinte. At ento no acreditara
realmente que fosse acontecer. A realidade explodiu em cima dele como um raio.
Aliena ia se casar no dia seguinte. A vida de Jack ia terminar no mesmo dia.
         Olhou para o mapa em cima da estante. O que interessava se o centro do
mundo fosse em Jerusalm ou Wallingford? Seria mais feliz se soubesse como as
alavancas funcionavam?
         Dissera a Aliena que seria melhor que ela saltasse do clerestrio do que se
casasse com Alfred. Deveria ter dito era que ele, Jack,  que podia muito bem
pular l de cima.
         Desprezava o priorado. Ser monge era uma coisa estpida. Se no
pudesse trabalhar na catedral e Aliena se casasse com outro, no teria mais
motivo para viver.
         O que tornava tudo pior era saber que Aliena sofreria horrivelmente se
desposasse Alfred. Havia algumas garotas que podiam se sentir contentes casadas
com Alfred: Edith, por exemplo, aquela que rira quando Jack lhe falara como
gostava de trabalhar cinzelando pedra.
         Edith no esperaria muito de Alfred, e ficaria satisfeita de lisonje-lo e
obedec-lo desde que ele continuasse prspero e gostasse dos seus filhos. Mas
Aliena odiaria cada minuto. Detestaria a grossura fsica, o desprezaria pelo seu
jeito agressivo, ficaria enojada com sua perversidade e consideraria irritante sua
lentido de raciocnio. O casamento com Alfred seria o inferno para ela.
         Por que Aliena no era capaz de ver isso? Jack no conseguia entender. O
que estava se passando na sua cabea? Certamente que qualquer coisa seria
melhor do que se casar com um homem a quem no amava. Causara sensao
recusando-se a desposar William Hamleigh sete anos antes, e no entanto agora
aceitava, passiva, uma proposta de uma pessoa igualmente inadequada. O que
estaria pensando?
         Jack tinha que saber.
         Precisava falar com ela, e ao inferno com o mosteiro.
         Enrolou o mapa, recolocou-o no armrio e foi at a porta. loseph ainda
estava apoiado na vassoura.
         - Est saindo? - perguntou ele. - Pensei que tivesse que ficar aqui at que
o encarregado da disciplina viesse busc-lo.
         - Ele que v  merda - disse Jack, e saiu.
         Quando saiu na calada leste do claustro, atraiu a ateno do prior Philip,
que vinha do canteiro da obra, ao norte. Virou-se rapidamente, mas Philip gritou:
         - Jack! O que est fazendo? Voc deveria estar confinado!
         Jack no tinha pacincia para a disciplina monstica naquela hora.
Ignorou Philip e seguiu no rumo contrrio, na direo da passagem entre a
calada sul e as casas pequenas em torno do novo cais. Mas no era seu dia de
sorte. Naquele momento, o irmo Pierre, que era o encarregado da disciplina,
veio andando pela passagem, seguido por seus dois assistentes. Viram Jack e
ficaram imveis. Uma expresso de atnita indignao espalhou-se pelo rosto
redondo de Pierre.
         - Detenha esse novio, irmo! - gritou Philip.
         Pierre ergueu uma das mos para segurar Jack. Este o empurrou de lado.
O encarregado da disciplina ficou vermelho e agarrou o brao do rapaz que
conseguiu libertar-se e lhe deu um soco no nariz. O monge gritou, mais de ultraje
que de dor. Ento seus dois assistentes pularam em cima do novio.
         Jack lutou como um louco, e quase conseguiu escapar, mas quando Pierre
se recuperou do soco no nariz e se juntou a eles, os trs conseguiram derrub-lo
e conserv-lo deitado. Ele continuou a lutar, furioso por ver que aquela bobagem
monstica o estava impedindo de algo realmente importante, ou seja, falar com
Aliena. Repetiu inmeras vezes:
         - Soltem-me, seus idiotas!
         Os dois assistentes se sentaram em cima dele. Pierre levantou-se,
esfregando o sangue do nariz na manga do hbito. Philip apareceu ao seu lado.
         A despeito da prpria raiva, Jack viu que Philip tambm estava furioso,
mais furioso do que jamais o vira.
         - No vou tolerar esse comportamento em ningum - disse ele, numa voz
dura como ferro. - Voc  um novio e vai me obedecer. - Ele se virou para
Pierre. - Ponha-o na sala de obedincia.
         - No! - gritou Jack. - Voc no pode!
         - Certamente que posso - disse Philip, indignado.
         A sala de obedincia era uma cela pequena e sem janela na cripta sob o
dormitrio, na extremidade sul, perto das latrinas. Era usada principalmente para
deter transgressores da lei aguardando julgamento na corte do prior, ou
transferncia para a priso do xerife em Shiring; porm, prestava servios
ocasionais como cela de punio para monges que tivessem cometido srias
transgresses disciplinares, como, por exemplo, atos impuros com criados do
priorado.
         No era o confinamento solitrio que assustava Jack, e sim o fato de no
poder sair para ver Aliena.
         - Voc no compreende! - gritou com Philip. - Tenho que falar com
Aliena!
         Era a pior coisa que poderia ter dito. Philip ficou ainda mais furioso.
         - Foi por falar com ela que voc foi confinado! - disse irritado.
         - Mas preciso falar com ela!
         - A nica coisa que voc precisa  aprender a temer a Deus e obedecer a
seus superiores.
         - Voc no  meu superior, seu imbecil! Voc no  nada para mim!
Soltem-me, seus malditos!
         - Levem-no daqui - disse Philip, inflexvel.
         Uma pequena multido tinha se reunido quela altura, e diversos monges
ergueram Jack pelos braos e pernas. Agitou-se como um peixe apanhado num
anzol, mas eles eram em grande nmero. No podia acreditar que aquilo lhe
estivesse acontecendo. Carregaram-no; ele deu pontaps e bracejou at a porta da
sala de obedincia. Algum a abriu. Ouviu a voz do irmo Pierre, vingativa:
         - Joguem-no l dentro!
         Eles balanaram Jack uma vez para fora e depois o soltaram no ar. Caiu
de qualquer maneira, no cho de pedra. Levantou-se, com a ajuda das mos,
insensvel a seus ferimentos, e correu, mas a porta foi trancada no momento
exato em que bateu nela, e no instante seguinte a pesada barra de ferro foi
ruidosamente passada do outro lado e a chave girou na fechadura.
         Jack socou a porta com toda a sua fora.
         - Deixem-me sair! - berrou, histrico. - Tenho que impedi-la de se casar
com ele! Soltem-me! - Contudo no havia nenhum barulho do lado de fora.
Continuou gritando, mas suas exigncias se transformaram em splicas, e sua voz
tornou-se um gemido e depois um murmrio, e ele derramou muitas lgrimas de
raiva frustrada.
         Por fim seus olhos secaram e Jack no pde chorar mais.
         Afastou-se da porta. A cela no era escura como breu: passava um pouco
de luz por baixo da porta e era possvel ter uma idia de onde se encontrava. Deu
uma volta acompanhando as paredes, sentindo-as com as mos. Pelo padro das
marcas de cinzel nas pedras soube que a cela fora construda muito tempo antes.
Era um cmodo praticamente desprovido de caractersticas especiais. Parecia ser
um quadrado com cerca de seis ps de lado, uma coluna num canto e teto de
arco: evidentemente fora parte de um cmodo maior, emparedado para ser usado
como priso. Em uma parede havia o que fora a abertura para uma seteira, mas
estava compactamente tapada, e mesmo que no estivesse, teria sido pequena
demais para permitir a passagem de uma pessoa. O cho de pedra era mido.
Jack percebeu um barulho constante e se deu conta de que o canal que
atravessava o priorado do lago do moinho para as latrinas devia passar por baixo
da cela. Isso explicaria por que o cho era de pedra em vez de terra batida.
         Sentiu-se exausto. Sentou-se no cho, com as costas na parede e o olhar
fixo na fresta de luz sob a porta, torturante lembrete de onde desejava estar.
Como se metera naquela confuso? Nunca acreditara no mosteiro, nunca
tencionara dedicar sua vida a Deus - nunca acreditara realmente em Deus.
         Tornara-se um novio como soluo de um problema imediato, um
recurso para permanecer em Kingsbridge, perto do que amava. Tinha pensado:
Sempre poderei ir embora quando quiser. Mas agora que queria mesmo ir, mais
do que qualquer outra coisa que jamais imaginara, no podia: era prisioneiro. Vou
estrangular o prior Philip assim que sair daqui, pensou, nem que seja enforcado
depois.
         Aquilo fez com que ele comeasse a pensar quando seria libertado. Ouviu
o sino anunciando a ceia. Certamente tencionavam deix-lo ali a noite inteira.
Talvez estivessem discutindo seu caso naquele exato momento. Os piores
monges diriam que precisava ficar preso por uma semana - ele podia ver
Remigius e Pierre defendendo uma disciplina frrea. Outros, que gostavam dele,
poderiam dizer que uma noite era punio suficiente. E o que Philip diria? Ele
gostava de Jack, mas estava terrivelmente furioso, sobretudo depois que Jack
dissera: Voc no  meu superior, seu imbecil! Voc no  nada para mim! O
prior se sentiria tentado a deixar o pessoal da linha dura sair ganhando daquela
vez. A nica esperana era de que quisessem botar Jack para fora do mosteiro
imediatamente, o que para eles seria uma sentena mais severa. Desse modo
conseguiria falar com ela antes do casamento. Mas Philip seria contrrio, Jack no
tinha dvida. Veria sua expulso como uma admisso de derrota.
         A luz sob a porta estava ficando mais fraca. Escurecia l fora. Jack
perguntou-se como os prisioneiros deviam satisfazer suas necessidades. No
havia um vasilhame na cela. No era caracterstico dos monges passar por cima
de um detalhe como esse: eles acreditavam em limpeza, mesmo para os
pecadores.
         Examinou o cho de novo, polegada por polegada e encontrou um
buraco pequeno perto de um dos cantos. O barulho da gua era mais alto ali, e
ele presumiu que fosse dar no canal subterrneo. Aquilo era, presumivelmente,
sua latrina.
         Pouco depois dessa descoberta, o postigo se abriu. Jack ps-se de p num
pulo. Uma tigela e um pedao de po foram postos no peitoril. Jack no pde ver
o rosto do homem que os colocou ali.
         - Quem ? - perguntou.
         - No tenho permisso para conversar com voc - disse o homem, numa
voz montona. Mesmo assim, Jack o reconheceu: era um velho monge chamado
Luke.
        - Luke, eles disseram por quanto tempo eu vou ficar aqui?
        Ele repetiu a frmula:
        - No tenho permisso para conversar com voc.
        - Por favor, Luke, diga-me se voc sabe! - implorou Jack, sem se importar
em quo pattico pudesse parecer.
        - Pierre disse uma semana - respondeu o monge num sussurro -, mas
Philip decidiu dois dias. - O postigo foi fechado com um estrondo.
        - Dois dias! - disse Jack desesperadamente. - Mas ela estar casada em
dois dias!
        No houve resposta.
        Jack pemaneceu imvel, olhando para o nada. A luz que entrara pela
pequena abertura fora forte, em comparao com a escurido quase total do
interior da cela, e no pde ver .por uns momentos, at que sua vista se
readaptou  obscuridade; ento seus olhos se encheram com novas lgrimas, e ele
ficou cego de novo.
        Deitou-se no cho. No havia mais nada a ser feito. Estava trancado ali
at segunda-feira, e na segunda-feira Aliena j seria mulher de Alfred, acordando
na cama de Alfred, com o smen de Alfred dentro dela. A idia o deixou
nauseado.
        Em breve ficou escuro como breu. com dificuldade, Jack deslocou-se at
o peitoril e tomou o contedo da tigela. Era gua pura. Pegou um pedacinho de
po e ps na boca, mas no estava com fome e mal pde engolir. Bebeu o resto
da gua e deitou de novo.
        No dormiu, mas caiu numa espcie de sonolncia, quase que um transe,
em que reviveu, como num sonho ou viso, as tardes de domingo que passara
com Aliena no vero anterior, quando lhe contara a histria do escudeiro que
amava a princesa e que viajara ao Oriente em busca da videira que dava pedras
preciosas.
        O sino da meia-noite o despertou. Estava acostumado ao horrio
monstico, e se sentia bem desperto  meia-noite, embora com frequncia
precisasse dormir de tarde, especialmente se tivesse comido carne. Os monges
deveriam estar se levantando da cama e formando filas para a procisso do
dormitrio  igreja. A posio deles era imediatamente acima da de Jack, mas no
era possvel ouvir nada: a cela era  prova de som. Pareceu-lhe que foi logo
depois, quando o sino soou de novo para as laudes, ou seja, uma hora aps a
meia-noite. O tempo estava passando depressa, depressa demais, pois no dia
seguinte Aliena estaria casada.
        Nas primeiras horas da madrugada, a despeito do seu sofrimento, ele
adormeceu.
        Acordou com um sobressalto. Havia algum na cela com ele.
         Ficou aterrorizado.
         A cela estava escura como breu. O barulho da gua parecia mais alto.
         - Quem ? - perguntou, com a voz trmula.
         - Sou eu. No tenha medo.
         - Me! - Ele quase desmaiou, aliviado. - Como soube que eu estava aqui?
         - O velho Josephfoi me contar o que tinha acontecido - respondeu ela,
num Tom de voz normal.
         - Fale baixo! Os monges podero ouvir voc!
         - No, no ouvem. Pode-se cantar e berrar aqui dentro sem ser ouvido l
fora. Eu sei; j fiz isso.
         A cabea dele estava to cheia de perguntas que nem sabia o que
perguntar primeiro.
         - Como foi que entrou aqui? A porta est aberta? - Ele se adiantou na
direo da me, com os braos estendidos. - Oh, voc est molhada!
         - O canal passa aqui embaixo. H uma pedra solta no cho.
         - Como sabia?
         - Seu pai passou dez meses nesta cela - respondeu Ellen, e na sua voz
havia a amargura do tempo.
         - Meu pai? Esta cela? Dez meses?
         - Foi quando me ensinou todas aquelas histrias.
         - Mas por que ele estava aqui?
         - Nunca descobrimos - disse ela, ressentida. - Ele foi sequestrado, ou
preso, nunca descobrimos qual dos dois, na Normandia, e trazido para c. No
falava ingls ou latim e no tinha idia de onde se encontrava. Trabalhou nos
estbulos mais ou menos por um ano; foi como o conheci. - A voz dela
suavizou-se, nostlgica. - Amei-o desde o momento em que pus os olhos nele.
Era delicado, e parecia to assustado e infeliz, e mesmo assim cantava como um
passarinho. Ningum lhe falava h meses. Ficou to satisfeito quando lhe dirigi
umas poucas palavras em francs que acho que se apaixonou por mim s por
isso. - A raiva endureceu de novo a voz de Ellen. - Aps algum tempo o puseram
nesta cela. Foi quando descobri como entrar aqui.
         Ocorreu a Jack que deveria ter sido concebido ali mesmo, naquele cho
de pedra fria. A idia o deixou envergonhado, e ficou contente por estar escuro
demais para que ele e a me se vissem.
         - Mas meu pai deve ter feito algo para ser preso desse jeito.
         - Ele no fazia a menor idia do motivo. E no fim inventaram um crime.
Algum lhe deu uma taa cravejada de pedras e lhe disse para ir embora. A
poucas milhas daqui ele foi preso e acusado de ter furtado a taa. Enforcaram-no
por isso. - Ela estava chorando.
         - Quem fez tudo isso?
         - O xerife de Shiring, o prior de Kingsbridge... no interessa quem.
         - E a famlia de meu pai? Ele deve ter tido pais, irmos e irms...
         - Sim, ele tinha uma famlia grande, na Frana.
         - Por que no fugiu e voltou para l?
         - Ele tentou uma vez, mas o pegaram e trouxeram de volta. Foi quando o
puseram nesta cela. Podia ter tentado de novo, claro, uma vez que tnhamos
descoberto como sair daqui. Mas seu pai no sabia o caminho de volta para a
Frana, no conhecia uma palavra de ingls e no tinha uma nica moeda. Suas
chances eram mnimas. Deveria ter tentado de qualquer modo, sabemos agora;
mas naquele tempo nunca imaginamos que fossem enforc-lo.
         Jack a envolveu com os braos, para confort-la. Ellen estava encharcada
e tremendo. Precisava sair dali e se secar. Jack percebeu, com um choque, que se
ela pudera entrar, ele poderia sair. Por alguns momentos quase se esquecera de
Aliena, enquanto sua me falava a respeito de seu pai; mas agora se dava conta de
que seu desejo fora atendido: poderia falar com Aliena antes do casamento.
         - Mostre-me a sada - disse abruptamente.
         Ellen fungou e engoliu as lgrimas.
         - Segure meu brao.
         Os dois atravessaram a cela, e Jack sentiu que a me se abaixava.
         - Basta deixar o corpo cair no canal - disse ela. - Respire fundo e
mergulhe. Depois engatinhe contra a correnteza. No siga no sentido da gua, ou
terminar na latrina dos monges. Vai se sentir quase sem flego quando estiver
chegando, mas mantenha a calma e continue engatinhando que conseguir. Ela se
abaixou mais ainda e desapareceu.
         Jack encontrou o buraco e desceu. Seus ps encostaram na gua quase
que imediatamente. Quando pisou no fundo, os ombros ainda estavam na cela.
Antes de se abaixar mais, recolocou a pedra no lugar, pensando com malcia que
os monges ficariam desorientados quando encontrassem a cela vazia.
         A gua estava fria. Ele respirou fundo, abaixou-se e ficou sobre os
joelhos e as mos. Progrediu o mais rpido que pde, na direo contrria 
correnteza.  medida que avanava, ia imaginando os edifcios que estavam por
cima dele. Primeiro a passagem, depois o refeitrio, a cozinha e a padaria. No
era longe, mas pareceu levar uma eternidade. Tentou a superfcie, mas bateu com
a cabea no teto do tnel. Entrou em pnico, mas se lembrou do que sua me
dissera. Estava quase chegando. Poucos momentos depois viu luz  sua frente. O
dia devia ter nascido enquanto conversavam na cela. Continuou at ficar sob a
luz, quando se levantou e respirou fundo, aliviado.
         Depois de recuperar o flego, escalou a vala.
         Sua me j trocara de roupa. Estava com um vestido limpo e seco e torcia
o molhado. Trouxera roupas secas para ele tambm. Empilhadas cuidadosamente
sobre a margem da vala, Jack viu roupas que no usava h um ano e meio: uma
camisa de linho, uma tnica verde de l, meias cinzentas e botas de couro. Sua
me se virou de costas e Jack despiu o hbito monstico, tirou as sandlias e
vestiu rapidamente as prprias roupas.
        Jogou o hbito dentro da vala. Nunca mais o usaria de novo.
        - O que far agora? - quis saber Ellen.
        - Vou procurar Aliena.
        - Neste instante?  cedo.
        - No posso esperar.
        Ela assentiu.
        - Seja delicado. Ela est magoada.
        Jack inclinou-se para beij-la e, impulsivamente, abraou-a.
        - Voc me tirou de uma priso - disse, e deu uma risada. - Que me! ...
        Ellen sorriu, mas seus olhos estavam midos.
        Jack fez-lhe um ltimo carinho e afastou-se.
        Embora o dia j estivesse inteiramente claro, no havia ningum no
caminho, porque no se trabalhava no domingo e as pessoas aproveitavam a
oportunidade para dormir aps o nascer do sol. Jack no tinha certeza se deveria
temer ser visto. Ser que o prior Philip tinha o direito de perseguir um novio
fugitivo e for-lo a voltar para o mosteiro? Mesmo que tivesse esse direito, iria
querer exerc-lo? Jack no saberia responder. De qualquer maneira, Philip era a
lei em Kingsbridge e Jack o desafiara, de modo que era bem provvel que
houvesse um problema qualquer. Fosse como fosse, naquela hora ele no estava
preocupado com outra coisa que no os prximos minutos.
        Chegou  casa de Aliena. Ocorreu-lhe que Richard poderia estar.
Esperava que no. Mas se estivesse, no havia nada que pudesse fazer. Subiu at
a porta e bateu delicadamente.
        Inclinou a cabea e prestou ateno. Ningum se mexeu dentro da casa.
Bateu de novo, com mais fora, e dessa vez foi recompensado com o barulho da
palha, provocado por algum se mexendo.
        - Aliena! - sussurrou, o mais alto que pde. Ouviu-a aproximando-se. E
uma voz assustada:
        - Sim?
        - Abra a porta!
        - Quem ?
        - Eu, Jack.
        - Jack!
        Houve uma pausa. Jack esperou.
        Aliena fechou os olhos, em desespero, e curvou-se para a frente
apoiando-se na porta, com a testa na madeira spera. No, Jack, pensou; hoje
no, agora no.
        A voz dele fez-se ouvir de novo, num sussurro baixo, nervoso, intenso.
        - Aliena, por favor, abra a porta, depressa! Se me pegarem vo me
prender na cela de novo!
         Ela soubera da sua priso - toda a cidade soubera. Obviamente ele fugira.
E viera direto procur-la. Seu corao acelerou. No podia mand-lo embora.
         Ergueu a tranca e abriu a porta.
         O cabelo cenoura de Jack estava encharcado de gua, como se tivesse
acabado de tomar banho. Usava roupas comuns, no o hbito de monge. Sorriu
para ela, como se v-la fosse a melhor coisa que j tivesse lhe acontecido na vida.
Depois ficou srio.
         - Voc andou chorando - disse ele.
         - Por que veio aqui? - perguntou Aliena.
         - Eu tinha que v-la.
         - Vou me casar hoje.
         - Eu sei. Posso entrar?
         Seria errado deix-lo entrar, ela sabia; mas ocorreu-lhe ento que no dia
seguinte j seria mulher de Alfred, de modo que aquela podia ser a ltima vez em
que pudesse conversar com Jack a ss. Pensou: No me importo se for errado.
Abriu mais a porta. O rapaz entrou, e ela passou a tranca de novo.
         Os dois se encararam. Agora Aliena se sentiu envergonhada. Ele a fitou
com um desejo desesperado, do jeito como um homem morrendo de sede olha
para uma cascata.
         - No me olhe assim - disse, e se afastou.
         - No se case com ele - disse Jack.
         - Tenho que me casar.
         - Voc vai sofrer muito.
         - J sofro agora.
         - Olhe para mim, por favor.
         Ela virou o rosto para ele e ergueu os olhos.
         - Por favor, diga-me por que est fazendo isso - pediu Jack.
         - Por que devo lhe dizer?
         - Por causa do modo como me beijou no moinho velho.
         Ela baixou o olhar e sentiu que corava violentamente. Trara-se naquele
dia e sentia vergonha de si prpria desde ento. Agora ele usava aquilo contra ela.
Nada disse. No tinha defesa.
         - Depois daquilo, voc ficou fria.
         Ela manteve os olhos baixos.
         - Ns ramos to amigos! - prosseguiu ele impiedosamente. - Aquele
vero inteiro, na sua clareira, perto da queda d'gua... minhas histrias... ramos
to felizes! Eu a beijei uma vez, lembra?
         Ela se lembrava, claro, embora sempre fizesse de conta que no tinha
acontecido. A lembrana comoveu seu corao, e ela o fitou com os olhos
marejados de lgrimas.
         - Ento dei um jeito para o moinho pisoar seu pano - disse ele. - Fiquei
to satisfeito em poder ajud-la no seu negcio! Voc ficou entusiasmada quando
viu aquilo. E nos beijamos de novo, mas no foi um beijinho, como o primeiro.
Dessa vez foi um... beijo apaixonado. - Oh, meu Deus, foi apaixonado sim,
pensou ela, e corou de novo, comeando a respirar depressa; quis que ele parasse,
mas ele continuou:
         - Ns nos abraamos com fora. Ns nos beijamos por longo tempo.
Voc abriu a boca...
         - Pare! - exclamou Aliena.
         - Por qu? - indagou ele brutalmente. - O que h de errado nisso? Por
que ficou fria?
         - Porque estou apavorada! - disse ela sem pensar e rompeu a chorar.
Enfiou o rosto nas mos e soluou. Um momento depois sentiu as mos dele
nos ombros encolhidos.
         No fez nada, e logo Jack a tomou delicadamente nos braos. Aliena
tirou as mos do rosto e chorou na tnica verde dele.
         Aps algum tempo passou os braos pela cintura de Jack.
         Ele encostou o rosto no seu cabelo - feio, curto, sem forma, ainda no
recuperado do incndio - e a afagou como se fosse um beb. Ela gostaria de ficar
assim para sempre. Mas Jack se afastou, para poder olhar para ela, e perguntou:
         - O que a deixa to amedrontada?
         Ela sabia, mas no podia dizer. Sacudiu a cabea e recuou um passo; ele
segurou-lhe os pulsos, conservando-a junto de si.
         - Escute, Aliena - disse Jack. - Quero que saiba como isto tem sido
terrvel para mim. Primeiro voc parecia me amar, depois me odiar, e agora vai se
casar com o filho do meu padrasto. No compreendo. No sei nada a respeito
dessas coisas. Nunca estive apaixonado antes. S sei que machuca demais. No
sei quais so as palavras para descrever como tudo isto  ruim. No acha que
devia pelo menos tentar me explicar por que tenho que sofrer tanto?
         Ela se sentiu cheia de remorsos. Pensar que o magoara to
profundamente quando o amava tanto! Envergonhou-se de como o tratara. Ele
nada lhe tinha feito seno coisas boas, e ela arruinara sua vida. Tinha direito a
uma explicao. Procurou se fortalecer.
         - Jack, aconteceu uma coisa comigo muito tempo atrs, uma coisa
verdadeiramente horrvel, algo que me fez esquecer de mim mesma por muitos
anos. Nunca mais quis pensar nisso, mas quando voc me beijou daquele jeito
tudo voltou  minha cabea e no consegui suportar.
         - O que aconteceu? Que coisa foi essa?
         - Depois que meu pai foi aprisionado, ficamos morando no castelo,
Richard, eu e um criado chamado Matthew; e uma noite William Hamleigh
apareceu e nos expulsou de l.
         Jack semicerrou os olhos.
         - E a?
         - Mataram o pobre Matthew.
         Ele sabia que Aliena no estava lhe contando toda a verdade.
         - Por qu?
         - O que voc quer saber?
         - Por que mataram o seu criado?
         - Porque ele tentou det-los. - As lgrimas corriam pelo seu rosto, e um
n constrangia sua garganta sempre que tentava falar, como se as palavras a
sufocassem.
         Sacudiu a cabea, impotente, e tentou se virar, mas Jack no a soltou.
         - Ele queria impedi-los de fazer o qu? - perguntou ele, numa voz
delicada como um beijo.
         De repente ela soube que podia lhe contar e saiu tudo de uma vez.
         - Eles me foraram - disse. - O criado de William me prendeu no cho e
William montou em cima de mim, mesmo assim no deixei, e ento eles cortaram
um pedao da orelha de Richard e disseram que cortariam mais. - Ela soluou,
extraordiariamente aliviada por ser afinal capaz de contar aquilo. Fitou Jack nos
olhos e disse: - A abri as pernas e William fez aquilo comigo, enquanto o criado
dele forava Richard a olhar.
         - Sinto muito - murmurou Jack. - Eu tinha ouvido boatos, mas nunca
pensei... Querida Aliena, como eles foram capazes?
         Era preciso lhe contar tudo.
         - Depois que William acabou, foi a vez do criado.
         Jack fechou os olhos. Seu rosto estava branco e tenso. Aliena continuou.
         - Veja ento: quando voc e eu nos beijamos, quis fazer aquilo com voc,
e isso me fez pensar em William e no seu criado; e me senti horrvel, e assustada,
e fugi correndo. Essa foi a razo pela qual fui to m com voc, e o fiz
sofrer. Desculpe-me.
         - Eu a perdo - sussurrou ele. Puxou-a para junto de si, e Aliena deixou
mais uma vez que a abraasse. Era to reconfortante!
         Sentiu que ele estremecia.
         - Eu o deixo enojado? - perguntou, ansiosa. Jack fitou-a.
         - Eu a adoro - disse. Ele inclinou a cabea e beijou sua boca.
         Ela gelou. No era aquilo que queria. Ele afastou-se um pouco e a beijou
de novo. O contato com seus lbios era muito suave. Sentindo-se agradecida e
amiga dele, contraiu os lbios, s um pouquinho, depois relaxou de novo, num
dbil eco do seu beijo. Encorajado, Jack moveu os lbios de encontro aos dela
mais uma vez. Aliena podia sentir seu hlito quente no rosto. Ele abriu a boca,
uma coisa mnima. Ela recuou rapidamente.
         Jack pareceu magoado.
         -  assim to ruim?
         Na verdade, Aliena no estava mais assustada que da outra vez. Contara-
lhe a horrvel verdade a seu respeito e ele no se afastara enojado; na verdade,
mostrava-se to terno e gentil como sempre. Inclinou a cabea e ele a beijou de
novo. Aquilo no era assustador. No havia nada ameaador, nada violentamente
incontrolvel, nem fora, dio ou dominao; apenas o contrrio. Aquele beijo
era um prazer compartilhado.
         Os lbios dele se abriram e ela sentiu a ponta da sua lngua. Ficou tensa.
Ele insistiu e fez com que Aliena abrisse a boca. Ela relaxou de novo. Ele sugou
delicadamente seu lbio inferior. Ela se sentiu um pouco tonta.
         - Voc faria o que fez da ltima vez? - perguntou ele.
         - O que fiz?
         - Eu lhe mostrarei. Abra a boca, s um pouquinho.
         Fez o que Jack pediu, e sentiu de novo a lngua dele roando-lhe os
lbios, passando por entre os dentes e explorando-lhe a boca at encontrar sua
lngua. Afastou-se.
         -  isso - disse ele. - Foi o que voc fez.
         - Fiz mesmo? - Ela estava chocada.
         - Fez. - Ele sorriu e, de repente, assumiu um ar solene.
         - Se fizesse de novo, compensaria todo o meu sofrimento dos ltimos
nove meses.
         Aliena inclinou a cabea de novo e fechou os olhos. Aps um momento
sentiu sua boca na dela. Abriu os lbios, hesitou, depois nervosamente enfiou a
lngua na boca dele. Ao faz-lo se lembrou da outra vez, no moinho velho, e a
mesma sensao de xtase a assaltou. Invadiu-a uma intensa necessidade de
segur-lo, acariciar-lhe a pele e o cabelo, sentir-lhe os msculos e os ossos, estar
dentro dele e t-lo dentro de si. Sua lngua encontrou a de Jack, e em vez de
experimentar vergonha ou uma leve repugnncia, sentiu-se excitada por estar
fazendo uma coisa to ntima.
         Os dois agora estavam respirando com dificuldade. Jack segurou-lhe a
cabea com ambas as mos. Aliena acariciou-lhe os braos, as costas e por fim os
quadris, sentindo-lhe os msculos tensos. O corao dela batia com fora. Por
fim interrompeu o beijo, sem flego.
         Aliena o fitou. Jack estava vermelho e ofegante, e seu rosto brilhava de
desejo. Aps um momento ele se inclinou para a frente de novo, mas em vez de
beijar-lhe a boca, ergueu-lhe o queixo e beijou a pele delicada do pescoo. Aliena
ouviu seu prprio gemido de prazer. Jack abaixou mais a cabea e roou os lbios
sobre os seus seios. Os mamilos, sob o tecido spero da camisa de dormir,
tinham aumentado de volume e estavam insuportavelmente sensveis. Os lbios
de Jack fecharam-se sobre um deles. Ela sentiu o calor do seu hlito na pele.
         - Devagarzinho - sussurrou, temerosa.
         Ele beijou o bico do seu seio atravs da fazenda, e embora houvesse sido
incrivelmente gentil, a sensao de prazer que a invadiu foi to pungente como se
a tivesse mordido.
         Ento Jack ajoelhou-se diante dela.
         Ele comprimiu o rosto no seu colo. At aquele momento, a sensao se
concentrara nos seios, mas agora, de repente, sentiu a vibrao passar para entre
as pernas.
         Jack pegou a bainha da camisa e levantou-a at a cintura. Ela o observou,
com medo da sua reao; sempre se sentira envergonhada por ser to peluda.
Mas ele no sentiu repugnncia; na verdade, inclinou-se e beijou-a delicadamente,
bem ali, como se fosse a coisa mais bonita do mundo.
         Aliena deixou-se cair sobre os joelhos, na frente dele. Sua respirao
agora era aos arrancos, como se tivesse corrido uma milha. Sua garganta estava
seca, de tanto desejo. Ps as mos nos joelhos dele, depois escorregou uma delas
por baixo da sua tnica. Nunca tocara no pnis de um homem. Era quente, seco
e duro como um pedao de ferro. Jack fechou os olhos e gemeu, quando ela
explorou sua extenso com a ponta dos dedos. Aliena ergueu-lhe a tnica,
abaixou-se e o beijou. Exatamente como ele a beijara, um delicado roar de
lbios. A glande estava crescida, com a pele esticada como um tambor e
umedecida por um lquido qualquer.
         Aliena viu-se dominada pelo sbito desejo de lhe mostrar os seios.
Endireitou o corpo. Ele abriu os olhos. Fitando-o, ela puxou depressa a camisola
por cima da cabea e a ps de lado. Agora estava nua. Tinha uma aguda
conscincia de si mesma, mas era uma sensao boa, deliciosamente indecente.
Jack olhou fascinado para os seus seios.
         - So lindos - disse.
         - Acha mesmo? Sempre pensei que fossem grandes demais.
         - Grandes demais! - repetiu Jack, como se ela tivesse dito algo ultrajante.
Adiantou-se e tocou no seu seio esquerdo com a mo direita. Acariciou-lhe a pele
delicadamente, com a ponta dos dedos. Ela baixou a cabea, para acompanhar o
que estava fazendo. Logo quis que ele fosse mais firme. Pegou ambas as mos de
Jack com as suas e comprimiu-as de encontro aos seios.
         - Com mais fora - pediu, a voz rouca. - Quero sentir mais voc.
         As palavras de Aliena o inflamaram. Apertou-lhe os seios, depois pegou
os mamilos e os beliscou de leve, o suficiente para doer um pouco. A sensao
deixou-a maluca.
         Parou inteiramente de raciocinar e deixou-se dominar pela sensao do
corpo dele e do seu prprio.
         - Tire a roupa - disse. - Quero ver voc.
         Ele tirou a tnica e a camisa de baixo, as botas e as meias, e ajoelhou-se
de novo em frente a ela. Seu cabelo cenoura ia secando em cachos
indisciplinados. O corpo era esguio e branco, de ombros e ancas ossudas. Parecia
rijo e gil, jovem e sadio. O pnis era uma rvore levantando-se em meio 
floresta ruiva de plos. De repente ela quis beijar-lhe o peito. Inclinou-se e roou
os lbios nos seus mamilos chatos de homem. Eles se contraram, exatamente
como os dela. Aliena sugou-os com delicadeza, querendo que ele tivesse o
mesmo prazer que lhe dera. Jack acariciou-lhe o cabelo.
         Aliena o desejou dentro dela, rapidamente.
         Dava para ver que ele no estava certo sobre o que fazer a seguir.
         - Jack - perguntou -, voc  virgem?
         Ele fez que sim, sentindo-se meio bobo.
         - Que bom! - disse ela ardorosamente. - Fico to feliz!
         Pegou a mo de Jack e a ps entre suas pernas. Estava sensvel e um
pouco inchada, e o contato da mo dele foi um choque.
         - Toque-me - disse. Ele mexeu os dedos, explorando. - Toque-me l
dentro. - Hesitantemente, Jack enfiou um dedo dentro dela. Estava molhada de
desejo. - A - aprovou Aliena, com um suspiro de satisfao -,  a que ele tem
que entrar. - Largou a mo dele e deitou-se para trs, na palha.
         Jack deitou-se sobre Aliena e, apoiando-se num dos cotovelos, beijou-lhe
a boca. Ela sentiu que ele a penetrava um pouco e parava.
         - O que h? - perguntou.
         - Parece muito pequena. Estou com medo de machucar voc.
         - Meta com fora - disse ela. - Eu o quero tanto que no me importo se
doer.
         Sentiu Jack arremeter. Doeu mais do que antecipara, mas apenas por um
momento, e logo se sentiu maravilhosamente completada. Ele recuou e avanou
um pouco. Ela sorriu.
         - Nunca pensei que fosse to bom - suspirou, sonhadora. Fechou os
olhos, como se no aguentasse tanta felicidade.
         Jack comeou a arremeter ritmadamente. As estocadas constantes
impuseram um ritmo de prazer em algum lugar dentro dela. Aliena ouviu-se
dando gritinhos de satisfao cada vez que seus corpos se aproximavam. Ele
abaixou-se, para que seu peito pudesse encontrar os seios dela, fazendo-a sentir
seu hlito quente. Aliena cravou os dedos com fora nas suas costas. Seus
arquejos transformaram-se em gritos. De repente precisou beij-lo. Beijou-lhe os
lbios com fora e enfiou a lngua na sua boca, aumentando cada vez mais o
ritmo. Ter o pnis de Jack dentro de si e a prpria lngua na boca dele foi uma
coisa que a descontrolou, de tanto prazer. Sentiu um grande espasmo de gozo
sacudi-la to violentamente que foi como cair de um cavalo e bater no cho.
Gritou bem alto. Abriu os olhos, disse seu nome, e outra onda a engolfou, e mais
outra. Ento sentiu o corpo dele se convulsionar. Jack gritou e Aliena sentiu um
jato quente esguichando no seu ntimo, o que a inflamou mais ainda, a tal ponto
que estremeceu de prazer tantas vezes que perdeu a conta, at que por fim a
ltima sensao se desvaneceu e ela foi ficando gradualmente imvel.
        Estava cansada demais para falar ou se mexer, mas podia sentir o peso de
Jack, os quadris ossudos sobre os seus, o peito chato esmagando-lhe os seios
macios, a boca junto ao seu ouvido, os dedos entrelaados no seu cabelo. Uma
parte de sua cabea pensou vagamente: Ento  assim que deve ser entre homem
e mulher;  por isso que todos fazem tanta confuso a esse respeito; e  esse o
motivo pelo qual marido e mulher se amam tanto.
        A respirao de Jack passou a ser leve e regular, e seu corpo relaxou at
ficar completamente imvel. Ele dormiu.
        Aliena virou a cabea e beijou-lhe o rosto. Jack no era muito pesado.
Queria que ficasse ali para sempre, dormindo em cima dela.
        Esse pensamento a fez lembrar.
        Aquele era o dia do seu casamento.
        Meu Deus, o que fiz?
        Comeou a chorar.
        Aps um momento, Jack acordou.
        Beijou as lgrimas do seu rosto com uma ternura intolervel.
        - Oh, Jack, quero me casar com voc.
        - Ento ser o que faremos - disse ele, numa voz de profunda satisfao.
        Ele a entendera mal, o que piorou tudo mais ainda.
        - Mas no podemos - disse ela, as lgrimas correndo mais depressa.
        - Mas depois disso...
        - Eu sei...
        - Depois disso voc tem que se casar comigo!
        - No podemos nos casar. Perdi todo o meu dinheiro e voc no tem
nada.
        Ele se levantou, apoiado nos cotovelos.
        - Tenho as minhas mos! - exclamou, arrebatado. - Sou o melhor
cinzelador em muitas milhas.
        - Voc foi mandado embora...
        - No faz diferena. Posso conseguir trabalho em qualquer canteiro de
obra no mundo.
        Ela sacudiu a cabea angustiadamente.
        - No basta. Tenho que pensar em Richard.
        - Por qu? - indagou ele, indignado. - O que isso tudo tem a ver com
Richard? Ele  capaz de cuidar de si prprio.
        De repente Jack pareceu meio infantil, e Aliena sentiu a diferena de
idade que havia entre eles: Jack era cinco anos mais moo e ainda pensava que
tinha o direito de ser feliz.
        - Jurei para o meu pai, quando ele estava morrendo, que cuidaria de
Richard at que ele se tornasse o conde de Shiring.
         - Mas pode ser que isso no acontea nunca!
         - Mas um juramento  um juramento!
         Jack ficou perplexo. Rolou de cima dela. Seu pnis mole escorregou para
fora de Aliena, que experimentou uma dolorosa sensao de perda. Nunca mais o
sentirei dentro de mim, pensou, angustiada.
         - Voc no pode estar falando srio - disse ele. - Um juramento so
apenas palavras! No  nada, comparado com isto! Isto  real,  voc e eu. - Jack
olhou para os seus seios e acariciou o plo crespo entre suas pernas. Foi to
pungente que Aliena sentiu o contato da mo dele como uma chicotada. Ele a viu
estremecer e parou.
         Por um momento Aliena esteve prester a dizer: Sim, est bem, vamos
fugir agora, e o teria feito se ele continuasse acariciando-a; mas a razo retornou,
e ela disse:
         - Vou me casar com Alfred.
         - No seja ridcula.
         -  o nico jeito.
         Ele a encarou.
         - Eu simplesmente no acredito em voc.
         -  verdade.
         - No posso desistir de voc. No posso, no posso. - A voz dele falhou
e Jack sufocou um soluo.
         Aliena tentou ponderar, argumentando tanto consigo quanto com ele:
         - De que adianta quebrar um juramento que fiz a meu pai, para fazer
outro a voc no casamento? Se quebro o primeiro, o segundo nada vale.
         - No me interessa. No quero seus juramentos. S quero que estejamos
juntos o tempo todo e que possamos fazer amor sempre que tivermos vontade.
         Era uma viso do casamento tpica de quem tinha dezoito anos, pensou
Aliena, mas no disse nada. Teria aceitado aquela viso de bom grado, caso fosse
livre.
         - No posso fazer o que quero - disse tristemente. - No  o meu destino.
         - O que voc est fazendo  errado - disse ele. -  uma coisa m. Desistir
da felicidade deste modo  como atirar jias no mar.  muito pior do que
qualquer pecado.
         Inesperadamente, veio  cabea de Aliena a idia de que sua me teria
concordado com aquilo. No estava certa sobre como ela prpria se sentia.
         - Eu no poderia ser feliz nunca, nem mesmo com voc, se tivesse que
viver sabendo ter quebrado uma promessa feita a meu pai.
         - Voc se importa mais com seu pai e com seu irmo do que comigo -
disse Jack, levemente petulante pela primeira vez.
         - No...
         - O que  ento?
         Ele estava apenas querendo discutir, mas ela considerou a pergunta
seriamente.
         - Suponho que o juramento que fiz a meu pai  mais importante para
mim do que o amor que sinto por voc.
         -  mesmo? De verdade?
         - Sim,  - respondeu ela, com o corao pesado. Suas palavras soaram
como um sino fnebre.
         - Ento no h mais nada a ser dito.
         - S que... s que sinto muito.
         Ele se levantou. Virou as costas para ela e apanhou a camisa de baixo.
Aliena contemplou seu rosto comprido e esbelto. Havia um bocado de plos
vermelho-dourados nas suas pernas. Ele vestiu a camisa e a tnica, depois calou
as meias e enfiou as botas. Tudo muito depressa.
         - Voc vai se sentir terrivelmente infeliz - disse Jack. Tentava ser
desagradvel com ela, mas a tentativa foi um fracasso, pois Aliena detectou
compaixo em sua voz.
         - Sim, vou - disse. - Mas voc pelo menos... pelo menos diria que me
respeita pela deciso que tomei?
         - No - respondeu ele sem hesitar. - No a respeito. Eu a desprezo pela
sua deciso.
         Ela permaneceu sentada, nua, olhando para ele, e comeou a chorar.
         -  melhor que eu v embora - disse Jack, e sua voz falhou na ltima
palavra.
         - Sim, v - soluou ela. Ele foi at a porta. - Jack!
         Ele se voltou.
         - Deseja-me boa sorte, Jack?
         Ele levantou a tranca.
         - Boa... - parou, incapaz de falar. Olhou para o cho e para ela de novo.
Dessa vez sua voz saiu num sussurro. - Boa sorte - disse.
         Ento saiu.

         A casa que fora de Tom agora era de Ellen, mas tambm de Alfred, e
naquela manh estava cheia de gente preparando o banquete de casamento,
organizado por Martha, a filha de treze anos de Tom, com a me de Jack a tudo
assistindo desconsoladamente. Alfred estava com uma toalha na mo, pronto a
descer at o rio - as mulheres se banhavam uma vez por ms, e os homens, na
Pscoa e no dia de so Miguel, mas era tradicional tomar banho tambm no dia
do casamento. Todos ficaram em silncio quando Jack entrou.
         - O que voc quer? - perguntou Alfred.
         - Que voc cancele o casamento - respondeu Jack.
        - D o fora.
        Jack percebeu que comeara mal. Tinha que tentar no transformar
aquilo numa provocao. O que propunha era tambm do interesse de Alfred, e
tinha que tentar faz-lo entender.
        - Alfred, ela no o ama - disse Jack, o mais delicadamente que pde.
        - Voc no sabe de nada, garoto.
        - Sei, sim - insistiu ele. - Ela no o ama. Est se casando por causa de
Richard. Ele  o nico que ficar feliz com este casamento.
        - Volte para o mosteiro - disse Alfred desdenhosamente. - A propsito,
onde est seu hbito?
        Jack respirou fundo. Nada havia a fazer seno lhe contar a verdade.
        - Alfred. Ela me ama.
        Esperava que Alfred fosse ficar enfurecido, mas, ao contrrio, foi a
sombra de um sorriso dissimulado que apareceu no seu rosto. Jack ficou
perplexo. O que significava aquilo? Gradualmente, a explicao se fez clara na
sua cabea.
        - Voc j sabia! - exclamou, incrdulo. - Sabe que ela me ama e no se
importa! Voc a quer de qualquer maneira, no importa se o ame ou no. S quer
que seja sua.
        O sorriso furtivo de Alfred tornou-se mais visvel e malicioso, e Jack viu
que tudo o que estava dizendo era verdade; entretanto havia algo mais, outra
coisa qualquer a ser lida na expresso de Alfred. Uma suspeita inacreditvel
surgiu na cabea de Jack.
        - Por que voc a quer? Ser que s quer se casar com Aliena para tir-la
de mim? - A raiva aumentou o volume da sua voz. - Ser que a est desposando
por despeito?
        Uma expresso ardilosa de triunfo espalhou-se na cara de parvo de
Alfred, e mais uma vez Jack viu que tinha razo. Ficou desolado. A idia de que o
outro estivesse fazendo aquilo tudo, no devido a um compreensvel desejo
arrebatado por Aliena, mas de pura maldade, era intolervel.
        - Maldito seja,  melhor trat-la bem! - gritou.
        Alfred riu.
        A suprema perversidade contida no objetivo de Alfred atingiu Jack com a
fora de um soco. Ele no ia trat-la bem. Seria a vingana final dele contra Jack.
Ia se casar com Aliena e faz-la sofrer.
        - Seu lixo! - disse Jack amargamente. - Seu lodo humano. Seu merda. Seu
retardado, estpido, feio, malvado, asqueroso.
        Sua insolncia finalmente atingiu Alfred, que deixou cair a toalha e
avanou, com a mo cerrada. Jack estava preparado e adiantou-se, disposto a
bater primeiro.
        Mas a me de Jack meteu-se entre os dois, e a despeito de ser menor que
ambos, deteve-os com uma palavra.
         - Alfred. V tomar seu banho.
         O enteado acalmou-se rapidamente. Sabia que ganhara o dia sem ter que
brigar com Jack, e seus pensamentos foram revelados por uma expresso de
quem se sentia muito satisfeito consigo prprio. Deixou a casa.
         - O que voc vai fazer, Jack? - perguntou Ellen.
         O rapaz descobriu que estava tremendo de raiva. Teve que respirar fundo
diversas vezes para poder falar. No podia cancelar o casamento, admitiu. Mas
tampouco poderia assistir a ele.
         - Tenho que deixar Kingsbridge.
         Ele viu uma sombra de tristeza cruzar o seu rosto, mas ela assentiu.
         - Eu receava que voc fosse dizer isso. Mas acho que est com a razo.
         Um sino comeou a tocar no priorado.
         - A qualquer momento vo descobrir que fugi.
         Ela baixou a voz.
         - V rapidamente, mas se esconda perto do rio, num lugar de onde possa
ver a ponte. Vou levar umas coisas para voc.
         - Est bem. - Ele se virou.
         Martha colocou-se entre ele e a porta com as lgrimas correndo pelo
rosto. Ele a abraou. Ela o apertou com fora. Seu corpo de menina era chato e
ossudo, como o de um garoto.
         - Volte um dia - disse impetuosamente. Ele a beijou uma vez, depressa, e
saiu.
         Havia muita gente na rua agora, apanhando gua ou aproveitando a
manh amena de outono. A maior parte das pessoas sabia que ele entrara para o
mosteiro como novio - a cidade ainda era pequena o bastante para que todos
soubessem da vida uns dos outros -, e seus trajes leigos atraram olhares, embora
ningum chegasse a lhe perguntar nada. Desceu rapidamente a colina e
atravessou a ponte, caminhando ao longo da margem do rio at encontrar uma
moita de juncos. Agachou-se ali atrs e ficou olhando para a ponte, esperando a
me.
         No tinha idia de para onde estava indo. Talvez andasse em linha reta
at chegar a uma cidade onde estivessem construindo uma catedral e parasse l.
Estava falando srio, quando dissera a Aliena que encontraria trabalho: sabia que
era bastante bom para ser empregado em qualquer lugar. Mesmo que o canteiro
de obras estivesse com o efetivo de operrios completo, teria apenas que mostrar
ao mestre construtor como sabia cinzelar e seria aproveitado. Mas no adiantava
mais nada. Nunca mais amaria outra mulher depois de Aliena, e se sentia do
mesmo modo em relao  Catedral de Kingsbridge. Queria trabalhar numa obra
ali, e no em qualquer parte.
         Talvez simplesmente entrasse na floresta, se deitasse e morresse. Pareceu-
lhe uma boa idia. A temperatura era agradvel, as rvores estavam verdes e
douradas; teria um fim cheio de paz. Sua nica mgoa seria no ter descoberto
mais coisas sobre seu pai antes de morrer.
         Estava se imaginando deitado num leito de folhas de outono e
mergulhando delicadamente nos braos da morte, quando viu sua me atravessar
a ponte. Ela puxava um cavalo.
         Levantou-se e correu at ela. O cavalo, na verdade era a gua alaz que
sempre montava.
         - Quero que voc leve minha gua - disse. Ele apertou-lhe a mo,
agradecido.
         Os olhos de Ellen encheram-se de lgrimas.
         - Nunca tomei conta de voc muito bem - disse. - Primeiro o criei na
floresta. Depois quase o deixei morrer de fome com Tom. E depois o fiz viver
com Alfred.
         - Voc tomou conta de mim muito bem, me - disse ele. - Fiz amor com
Aliena hoje de manh. Agora posso morrer feliz.
         - Menino bobo! Exatamente como eu. Se no pode ter o amante que
quer, no se interessa por mais ningum.
         -  assim que voc ?
         Ela balanou a cabea.
         - Depois que seu pai morreu, preferi viver sozinha, em vez de aceitar um
pretendente qualquer. Nunca quis outro homem at ver Tom. E isso foi onze
anos depois. - Ela retirou a mo da sua. - Estou lhe dizendo isso por uma razo:
pode ser que demore onze anos, mas voc amar outra mulher um dia; eu lhe
garanto.
         Ele sacudiu a cabea.
         - Isto no parece possvel.
         - Eu sei. - Ela olhou nervosamente por cima do ombro, na direo da
cidade. -  melhor voc ir.
         Jack encaminhou-se para a gua. Estava carregada com dois alforjes
muito cheios.
         - O que h nesses sacos? - perguntou.
         Um pouco de comida, dinheiro e vinho, neste aqui - respondeu ela. - O
outro tem as ferramentas de Tom.
         Jack ficou comovido. Sua me insistira em guardar as ferramentas de
Tom, depois de ele morrer, como lembrana. Agora as estava dando para ele.
Abraou-a.
         - Muito obrigado.
         - Para onde voc ir? - perguntou ela.
         Ele pensou de novo no pai.
         - Onde os menestris contam suas histrias?
        - Na estrada dos peregrinos de Santiago de Compostela.
        - Acha que os menestris se lembraro de Jack Shareburg?
        -  possvel. Diga que se parecia com voc.
        - Onde fica Santiago de Compostela?
        - Na Espanha.
        - Ento vou para a Espanha.
        -  uma longa viagem, Jack.
        - Tenho bastante tempo.
        Ela passou os braos em volta do filho e o abraou com fora. Jack
perguntou-se quantas vezes ela fizera aquilo nos seus dezoito anos de vida,
consolando-o por causa de um joelho ralado, um brinquedo perdido, um
desapontamento infantil... e agora por uma dor essencialmente adulta. Pensou
nas coisas que ela fizera, desde cri-lo na floresta at tir-lo da cela. Sempre
estivera disposta a lutar pelo filho como uma leoa. Doa ter que deix-la.
        Ela o libertou. Ele montou.
        Jack olhou para Kingsbridge. Era uma aldeia atrasada, com uma catedral
em runas quando chegara ali. Ateara fogo  velha catedral, embora ningum
soubesse disso. Agora Kingsbridge era uma cidadezinha operosa, que se atribua
bastante importncia. Bem, havia outras cidades. Abandonar Kingsbridge era
uma separao dolorosa, mas ele estava no limiar do desconhecido, prestes a
embarcar numa aventura, e isso amenizava a dor de abandonar tudo o que
amava.
        - Volte um dia, por favor, Jack - pediu Ellen.
        - Eu voltarei.
        - Promete?
        - Prometo.
        - Se ficar sem dinheiro antes de encontrar trabalho, venda o cavalo, no
as ferramentas - disse ela.
        - Eu a amo, me.
        Os olhos dela se encheram de lgrimas.
        - Tome cuidado, filho.
        Ele bateu com os calcanhares na montaria e foi embora. Virou-se e
acenou. Ela acenou tambm. Ento ele forou a gua a trotar e depois no olhou
mais para trs.

        Richard chegou em casa justo a tempo para o casamento.
        Estvo lhe dera, generosamente, dois dias de licena, explicou. O
exrcito do rei estava em Oxford, sitiando o castelo onde tinham encurralado
Matilde, de modo que no havia muita coisa para os cavaleiros fazerem.
        - Eu no podia perder o casamento da minha irm - disse Richard,
fazendo Aliena pensar, amargamente: Voc s queria ter certeza absoluta de que
o trato era cumprido, para poder receber o que Alfred lhe prometeu.
         Ainda assim, ficou contente porque ele estava ali para entrar com ela na
igreja e entreg-la ao noivo. De outro modo no teria ningum.
         Vestiu uma camisa de baixo nova, de linho, e um vestido branco no estilo
mais recente. No havia muito que pudesse fazer com seu cabelo mutilado, mas
mesmo assim tranou as partes mais compridas e as prendeu com elegantes
lenos brancos de seda. Uma vizinha emprestou um espelho. Estava plida, e
seus olhos mostravam que passara a noite em claro. Bem, no havia nada que
pudesse fazer a esse respeito. Richard a observava. Sua expresso era vagamente
envergonhada, como se se sentisse culpado, e ele se remexia sem parar. Talvez
tivesse medo que ela fosse cancelar tudo no ltimo minuto.
         Havia momentos em que se sentia inclinada a fazer justamente isso.
Imaginava-se saindo de Kingsbndge de mos dadas com Jack, a fim de comear
vida nova em algum outro lugar, uma vida simples de trabalho honesto, livre dos
grilhes de antigos juramentos e pais mortos. Mas era um sonho tolo. Nunca
poderia ser feliz se abandonasse o irmo.
         Ao chegar a essa concluso, imaginou-se descendo at o rio e atirando-se
nas suas guas, e chegou a ver seu corpo imvel, o vestido do casamento
encharcado, descendo a correnteza, o rosto virado para cima, o cabelo flutuando
em torno da cabea; ento concluiu que se casar com Alfred era melhor que
aquilo e voltou para o ponto inicial, considerando o casamento como a melhor
soluo disponvel para a maioria dos seus problemas.
         Como Jack faria pouco de um pensamento desses!
         O sino da igreja soou.
         Aliena se levantou.
         Ela nunca visualizara o dia do seu casamento daquele jeito. Quando
pensava nele, nos tempos de menina, imaginava-se de brao com o seu pai,
caminhando da fortalezado castelo pela ponte levadia at a capela no ptio
inferior, com os cavaleiros e homens de armas, criados e moradores amontoados
por toda parte para gritar vivas e lhe desejar felicidades. O rapaz  sua espera na
capela sempre fora indistinto no seu devaneio, mas sabia que a adorava e a fazia
rir e que o achava maravilhoso.
         Bem. Nada em sua vida acontecera do jeito que esperara. Richard
manteve aberta a porta da sua pequena casa de um nico cmodo e ela saiu.
         Para sua surpresa, alguns vizinhos esperavam do lado de fora de suas
portas para v-la passar. Diversas pessoas exclamaram: "Deus a abenoe!" e "Boa
sorte!" quando apareceu. Sentiu-se terrivelmente grata a elas. Jogaram-lhe milho
enquanto subia a rua. Milho era para sua fertilidade. Teria filhos, e eles a
amariam.
         A igreja da parquia ficava do outro lado da cidade, no bairro rico, onde
passaria a morar a partir daquela noite. Passaram pelo mosteiro. Os monges
estariam realizando um dos seus servios naquele momento, mas o prior Philip
prometera aparecer no banquete nupcial e abenoar o feliz casal. Aliena esperava
que ele fosse mesmo. Ele tinha sido uma fora importante na sua vida, desde
aquele dia, seis anos antes, quando comprara l para ela em Winchester.
         Chegaram  igreja nova, construda por Alfred com a ajuda de Tom.
Havia uma multido do lado de fora. O casamento seria celebrado na varanda,
em ingls; haveria depois uma missa em latim no interior da igreja. Todos que
trabalhavam para Alfred estavam ali, da mesma forma como a maioria das
pessoas que haviam tecido para Aliena nos velhos tempos. Todos aplaudiram
quando ela chegou.
         Alfred estava aguardando, com a irm, Martha, e um dos seus pedreiros,
Dan. Envergava uma tnica escarlate nova e botas limpas. Seu cabelo era
comprido e brilhante, como o de Ellen. Aliena percebeu que ela no estava.
Ficou desapontada. Ia perguntar a Martha onde se encontrava sua madrasta
quando o sacerdote apareceu e a cerimnia comeou.
         Aliena se lembrou de que sua vida tomara um novo rumo seis anos antes,
quando fizera um juramento para o pai, e de que agora uma nova era se iniciava
com outro juramento a um homem. Raramente fazia algo para si. A exceo
chocante fora aquela manh, com Jack. Ao rememorar o que fizera, mal pde
crer. Parecia um sonho, ou uma das histrias fantsticas de Jack, algo sem ligao
com a vida real. Jamais contaria o que se passara. Seria um segredo lindo que
guardaria para si prpria e de que se lembraria de vez em quando, como um
avarento contando um tesouro oculto na calada da noite.
         Estavam chegando aos votos. Seguindo a indicao do padre, Aliena
disse:
         - Alfred, filho de Tom Construtor, eu o tomo como marido e juro ser fiel
para sempre. - Ao dizer isso teve vontade de chorar.
         Alfred fez seu juramento em seguida. Ouviu-se um barulho entre as
pessoas mais afastadas enquanto ele falava, e uma ou duas pessoas olharam para
trs. Aliena atraiu a ateno de Martha, que lhe cochichou:
         -  Ellen.
         O padre fez uma expresso de desagrado.
         - Alfred e Aliena esto agora casados aos olhos de Deus - disse ele -, e
possa a bno...
         Nunca concluiu a frase. Uma voz alta fez-se ouvir s costas de Aliena.
         - Eu amaldioo este casamento!
         Era Ellen.
         Um frmito de horror escapou da boquiaberta congregao. O padre
tentou continuar.
         - E possa a bno. .. - Mas se calou, plido, e fez o sinalda-cruz.
         Aliena se virou. Ellen estava de p,  sua retaguarda. A multido se
afastara, abrindo-lhe espao. Ela segurava um galo vivo numa das mos e uma
faca comprida na outra. Havia sangue na faca e sangue jorrando do pescoo da
ave.
        - Amaldio este casamento com infortnio - disse, e suas palavras
gelaram o corao de Aliena. - Amaldio este casamento com esterilidade.
Amaldio este casamento com amargura, dio, com a angstia causada pela
privao e pelo arrependimento. Eu o amaldio com a impotncia. - Quando ela
disse a palavra "impotncia", arremessou o galo sangrando no ar. Diversas
pessoas gritaram e recuaram, amedrontadas. O galo voou, esparzindo sangue, e
pousou em Alfred, que deu um pulo para trs, aterrorizado.
        Aquela coisa horrenda caiu no cho, ainda sangrando.
        Quando todos levantaram a cabea, Ellen tinha ido embora.

        Martha trocara os lenis e pusera um novo tapete de l na cama, a
grande cama de penas que fora de Ellen e Tom e que agora era de Alfred e
Aliena. Sua madrasta no fora vista desde a cerimnia do casamento. O banquete
fora uma coisa contida, como um piquenique num dia frio, com todo mundo
executando melancolicamente o ritual de comer e beber, porque no havia mais
nada a fazer. Os convidados tinham ido embora ao pr-do-sol, sem nenhuma das
habituais e grosseiras piadas sobre a primeira noite dos recm-casados. Martha
foi para sua caminha no outro quarto. Richard retornara  pequenina casa de
Aliena, que agora seria dele.
        Alfred estava falando em construir uma casa de pedra para eles no vero
seguinte. Estivera se gabando dela com Richard, durante o banquete. "Ter um
quarto de dormir, um salo e uma galeria", dissera. "Quando a mulher de John
Prateiro a vir vai querer uma igual. Logo, logo, todos os homens prsperos de
Kingsbridge vo querer uma casa de pedra."
        "Voc j fez o projeto?", perguntara Richard, e Aliena percebera em sua
voz uma ponta de ceticismo, embora ningum mais parecesse ter notado.
        "Tenho alguns desenhos antigos de meu pai, feitos a tinta em velino. Um
desses desenhos  a casa que comeamos a construir para Aliena e William
Hamleigh, h muito tempo. Eu o tomarei como base."
        Aliena afastara-se deles, enojada. Como poderia algum ser to grosso ao
ponto de mencionar aquilo no dia do seu casamento? Alfred andara
fanfarronando a tarde inteira, servindo vinho, contando piadas e trocando
piscadelas maliciosas com os seus colegas. Parecia feliz.
        Agora estava sentado na beirada da cama, descalando as botas. Aliena
tirou as fitas do cabelo. No sabia o que pensar quanto  maldio de Ellen.
Aquilo a deixara chocada, e no tinha idia do que ela teria em mente, mas, fosse
como fosse, no se apavorara como a maioria das pessoas.
        O mesmo no podia ser dito de Alfred. Quando o galo ensanguentado
batera nele, o rapaz desandara a falar de forma incompreensvel e sem parar, at
que Dan literalmente o arrancara daquele estado, segurando-o pela parte da
frente da tnica e sacudindo-o. Ele se recuperara bastante depressa, contudo, e
desde ento o nico indcio do seu medo tinha sido sua excessiva animao,
bebendo sofregamente cerveja e mostrando-se amistoso demais.
        Aliena sentia uma estranha calma. No gostava do que estava prestes a
fazer, mas pelo menos no estava sendo forada, e, embora pudesse ser um
pouco desagradvel, no seria humilhante. Haveria apenas um nico homem e
ningum mais olhando.
        Tirou o vestido.
        - Por Cristo,  uma faca comprida - disse Alfred.
        Ela desamarrou a tira que prendia a faca ao antebrao esquerdo e foi para
a cama com a camisa.
        Alfred por fim tirou as botas, tirou as meias e ps-se de p. Lanou-lhe
um olhar lbrico.
        - Tire a roupa de baixo - disse. - Tenho o direito de ver os peitos de
minha mulher.
        Aliena hesitou. Relutou em ficar nua, fosse qual fosse o motivo. Mas seria
tolice negar-lhe a primeira coisa que queria. Obediente, sentou-se e tirou a camisa
de baixo, puxando-a pela cabea e procurando suprimir com energia a lembrana
de como havia se sentido de modo diferente quando fizera a mesma coisa, ainda
naquela manh, para Jack.
        - Que par de belezas! - disse Alfred. Ele aproximou-se, parou do lado da
cama e segurou o seio direito. A pele das suas mos enormes era spera, com
sujeira embaixo das unhas. Ele apertou com fora demais e ela estremeceu.
Alfred riu e soltou-a. Recuou, tirou a tnica e pendurou-a num gancho. Voltou
para a cama e tirou a coberta de cima dela.
        Aliena engoliu em seco. Sentia-se vulnervel daquele jeito, nua e
examinada por ele.
        - Meu Deus - disse Alfred - como  peluda! - Ele abaixou-a e ps a mo
entre suas pernas. Ela retesou-se, mas depois se obrigou a relaxar e abriu os
joelhos. - Boa garota - disse ele, e enfiou um dedo dentro dela. Doeu; Aliena
estava seca. Ela no conseguiu entender; ainda naquela manh, com Jack, estivera
molhada e escorregadia.
        Alfred resmungou e enfiou o dedo com mais fora.
        Aliena teve vontade de chorar. Sabia que no ia gostar, mas no esperava
que ele fosse ser to insensvel. Nem a beijara ainda. Ele no me ama, pensou;
nem mesmo gosta de mim. Sou um cavalo bonito que est prestes a montar. Na
verdade trataria um cavalo melhor que isso: daria palmadinhas no animal e o
afagaria, para que pudesse se acostumar com ele, e falaria baixinho para acalm-
lo. Esforou-se para conter as lgrimas. Fui eu que escolhi isso, pensou; ningum
me obrigou a casar com ele, de modo que agora tenho que aguentar.
        - Seca como p de serragem - resmungou Alfred.
        - Sinto muito - sussurrou ela.
        Ele tirou a mo, cuspiu nela por duas vezes e esfregou a saliva entre suas
pernas. Pareceu uma coisa horrivelmente desrespeitosa. Ela mordeu o lbio e
desviou os olhos.
        Alfred abriu suas coxas. Aliena fechou os olhos, mas se obrigou a fit-lo
pensando: V se acostumando com isso, porque  o que vai fazer o resto da vida.
        Alfred foi para a cama e ajoelhou-se entre as suas pernas. A sombra de
uma preocupao cruzou-lhe o rosto. Ps uma das mos entre as coxas dela,
abrindo-a mais, e enfiou a outra sob a prpra camisa de baixo. Ela pde ver que a
mo dele se movimentava sob o pano. A preocupao dele agravou-se.
        - Cristo Jesus! - murmurou. - Voc  to sem vida que me deixa
desinteressado;  como estar apalpando um cadver.
        Pareceu-lhe profundamente injusto que ele a culpasse.
        - No sei o que devo fazer! - exclamou, em lgrimas.
        - Algumas garotas gostam.
        Gostam! Impossvel! Depois se lembrou de como, naquela manh
mesmo, gemera e gritara de prazer. Mas era como se no houvesse ligao entre
o que fizera de manh e o que estava fazendo agora.
        Aquilo era tolice. Alfred estava se esfregando por baixo da camisa.
        - Deixe comigo - disse ela, enfiando a mo por entre as pernas dele. Seu
pnis estava mole e sem vida. No tinha certeza do que fazer. Apertou com
delicadeza, depois fez carinho com a ponta dos dedos. Examinou o rosto dele,
em busca de uma reao. Alfred s parecia furioso. Continuou, mas no fez
diferena.
        - Faa com mais fora - disse ele.
        Ela comeou a esfregar vigorosamente. O pnis continuou mole, mas
Aliena mexeu os quadris, como se estivesse gostando. Encorajada, esfregou com
mais fora. De repente ele deu um grito de dor e se afastou.
        - Sua vaca estpida! - disse, e bateu-lhe no rosto, com o dorso da mo,
to violentamente que a fez girar de lado.
        Aliena deixou-se ficar deitada na cama, chorando de dor e de medo.
        - Voc no presta, est amaldioada! - disse ele furiosamente.
        - Fiz o melhor que pude!
        - Voc no funciona como mulher! - exclamou, com veemncia. - Sua
boceta est morta! - Ele a segurou pelos braos, obrigou-a a sentar-se e
empurrou-a para fora da cama. Ela caiu na palha que havia sobre o cho. -
Aquela bruxa queria que isso acontecesse - disse ele. - Sempre me odiou.
        Aliena rolou e ajoelhou-se no cho, olhando para ele. No parecia que
fosse bater nela de novo. No estava mais com raiva, s amargurado.
        - Pode ficar a mesmo - disse ele. - Voc no me serve como mulher, de
modo que pode ficar fora da minha cama. Como um cachorro, pode dormir no
cho! - Fez uma pausa. - No suporto que fique olhando para mim! - exclamou,
com uma nota de pnico na voz. Procurou o lampio e, ao encontr-lo, apagou-o
com um sopro e derrubou-o no cho.
        Aliena ficou imvel na escurido. Ouviu Alfred se mexer no colcho de
penas, deitando-se, puxando o cobertor e trocando os travesseiros. Tinha medo
at de respirar.
        Ele ficou irrequieto por longo tempo, mexendo-se e virando na cama,
mas no se levantou de novo, nem falou com ela. Acabou por ficar imvel, com
a respirao uniforme.
        Quando teve certeza, de que ele estava dormindo, rastejou pelo cho,
tentando fazer a palha no estalar, e encontrou o caminho para um canto.
        Encolheu-se ali e permaneceu inteiramente acordada. Com o tempo,
acabou por chorar. Tentou conter-se, com medo de acord-lo, mas no foi
possvel segurar as lgrimas, e soluou baixinho. Se o barulho o acordou, ele no
deu sinal. Aliena ficou deitada sobre a palha do cho, num canto do quarto,
chorando, at que por fim dormiu.
       Captulo 12
         Aliena esteve doente todo aquele inverno.
         Dormiu mal todas as noites, enrolada na sua capa no cho, ao p da cama
de Alfred, e durante o dia era dominada por uma lassido contra a qual nada
conseguia fazer.
         Com frequncia se sentia enjoada, e por isso comia muito pouco, mas
assim mesmo parecia ganhar peso; tinha certeza de que seus seios e seus quadris
estavam maiores, e sua cintura, mais grossa.
         Deveria estar dirigindo a casa de Alfred, mas era Martha quem na
verdade fazia a maior parte do trabalho. Os trs moravam juntos num triste
arremedo de famlia.
         Martha jamais gostara do irmo, e Aliena agora o abominava com todas
as foras, de modo que no era de estranhar que ele passasse a maior parte do
tempo possvel longe da casa, no trabalho durante o dia e na cervejaria todas as
noites. Martha e Aliena compravam os gneros e faziam comida sem o menor
entusiasmo;  noite, costuravam.
         Aliena ansiava pela chegada da primavera, quando a temperatura mais
uma vez seria quente o bastante para ir visitar sua clareira secreta nas tardes de
domingo. Ali poderia ficar em paz e pensar em Jack.
         Por enquanto, seu consolo era Richard. Ele tinha um corcel negro
fogoso, uma espada nova e um escudeiro com um pnei, e mais uma vez lutava
pelo rei Estvo, embora com um grupo reduzido. A guerra se arrastava por mais
um ano: Matilde fugira do Castelo de Oxford e escapara novamente das mos de
Estvo; o irmo dela, Robert de Gloucester, reconquistara Wareham, e assim
tinha prosseguimento a velha gangorra, com cada lado ganhando um pouco e
perdendo logo em seguida. Mas Aliena estava cumprindo sua palavra, e podia
encontrar satisfao nisso, mesmo que nada mais a deixasse feliz.
         Na primeira semana do ano Martha teve a primeira menstruao. Aliena a
fez tomar uma bebida quente feita com ervas e mel para abrandar as clicas,
respondeu a suas perguntas sobre o assunto e foi pegar a caixa de panos que
tinha para as suas regras. A caixa, contudo, no estava em casa, e constatou que
no a trouxera quando se casara. Mas isso fora h trs meses.
         O que significava que no menstruava h trs meses. Desde o dia do seu
casamento. Desde que fizera amor com Jack.
         Deixou Martha sentada junto do fogo da cozinha, tomando sua bebida de
mel e brindando aos dedos dos ps, e atravessou a cidade at sua antiga casa.
Richard no se encontrava, mas Aliena tinha uma chave. Encontrou a caixa sem
nenhuma dificuldade, mas no voltou na mesma hora. Sentou-se em frente 
lareira apagada, embrulhada na sua capa, imersa em profunda meditao.
         Tinha se casado com Alfred no dia de so Miguel, 29 de setembro. Agora
j passara o Natal. Decorrera um quarto de ano. Trs luas novas. Deveria ter
menstruado trs vezes. No entanto, sua caixa de panos estava na prateleira mais
alta, junto com a pedra que Richard usava para amolar as facas de cozinha. Aliena
estava com a caixa no colo. Passou um dedo pela madeira spera. O dedo ficou
sujo. A caixa estava coberta de poeira.
         O pior de tudo era que nunca fizera amor com Alfred. Depois daquela
horrvel primeira noite, ele tentara de novo trs vezes: uma, na noite seguinte,
depois uma semana mais tarde, e novamente aps um ms, numa noite em que
chegara em casa mais bbado que de costume. Mas sempre se mostrara incapaz.
A princpio Aliena o encorajara, por sentimento de dever; cada fracasso, porm,
o deixava mais furioso que da ltima vez, e ela acabou por se amedrontar. Parecia
mais seguro ficar fora do seu caminho e usar roupas no atraentes, deixando que
ele se esquecesse. Agora se perguntava se deveria ter tentado mais. Na verdade,
contudo, sabia que no faria diferena.
         No sabia ao certo por qu - talvez pela praga de Ellen, talvez pela
possibilidade de Alfred ser simplesmente impotente, ou talvez por causa da
lembrana de Jack -, mas tinha certeza de que o marido nunca iria fazer amor
com ela.
         Claro que ele ia saber que o beb no era seu.
         Desolada, olhou fixamente para as cinzas velhas e frias na lareira de
Richard, perguntando-se por que tivera tanta falta de sorte. Estava tentando fazer
o melhor que podia de um mau casamento e tinha o azar de ser engravidada por
outro homem, aps uma nica relao.
         No adiantava ter autopiedade. Precisava decidir o que fazer.
         Repousou a mo no ventre. Sabia agora por que estava ganhando peso,
por que vivia se sentindo enjoada, por que estava sempre to cansada. Havia uma
pequena pessoa dentro dela. Sorriu para si prpria. Seria bom ter um filho.
         Sacudiu a cabea. No seria bom coisa alguma. Alfred ficaria furioso
como um touro. Impossvel antecipar o que faria - mat-la, expuls-la de casa,
matar a criana... teve uma premonio terrvel e repentina de que ele tentaria
fazer mal ao beb ainda no nascido chutando sua barriga. Enxugou a testa:
estava suando frio.
         No direi a ele, pensou.
         Poderia conservar a gravidez em segredo? Talvez. J estava acostumada a
usar roupas sem forma, que mais pareciam sacos. Talvez seu ventre no crescesse
muito - isso acontecia com algumas mulheres. Alfred era o menos observador
dos homens. Sem dvida, as mulheres mais espertas da cidade iriam adivinhar,
mas provavelmente podia confiar que guardassem o que descobrissem para si
prprias, ou que pelo menos no falassem com os homens a esse respeito. Sim,
decidiu, talvez fosse possvel esconder a gravidez dele at que o beb nascesse.
         E depois? Bem, pelo menos o pequenino teria sido trazido em segurana
a este mundo. Alfred no poderia mat-lo chutando Aliena. Mas ainda
continuaria sabendo que no era seu filho. com certeza iria odiar o pobrezinho:
representaria um estigma permanente sobre a sua virilidade. Seria um inferno.
         Aliena no era capaz de pensar com tanta antecedncia. Decidira-se pela
linha de ao mais segura nos seis meses seguintes. Nesse meio tempo tentaria
imaginar o que fazer aps o nascimento do beb.
         Eu gostaria de saber se  menino ou menina, pensou.
         Levantou-se com a sua caixa de panos limpos para a primeira
menstruao de Martha. Tenho pena de voc, Martha, pensou, fatigada; tem tudo
isso  sua frente.

         Philip passou aquele inverno ruminando sobre seus problemas.
         Tinha ficado horrorizado com a praga pag de Ellen, proferida numa
igreja durante uma cerimnia religiosa. No havia agora a menor dvida em sua
cabea de que ela era uma feiticeira. S lamentava sua tolice por t-la perdoado
pelo insulto  Regra de So Bento, muito tempo antes. Deveria ter visto que uma
mulher capaz de fazer uma coisa daquelas nunca se arrependeria realmente. No
entanto, uma feliz consequncia de todo aquele negcio horrvel fora Ellen ter
deixado Kingsbridge mais uma vez, no sendo vista desde ento. Philip tinha
ardentes esperanas de que jamais voltasse.
         Aliena era visivelmente infeliz como mulher de Alfred, embora Philip no
acreditasse que a causa fosse a praga. O prior no sabia quase nada a respeito da
vida de casado, mas podia adivinhar que uma pessoa inteligente, culta e cheia de
vida como Aliena teria que ser infeliz com algum de raciocnio to lerdo e
obtuso quanto Alfred, fossem marido e mulher ou qualquer outra coisa.
         A jovem deveria ter se casado com Jack, claro. Philip podia ver isso
agora, e se sentia culpado por ter se dedicado tanto a seus planos para o rapaz
que no se dera conta do que ele realmente precisava. Jack no fora talhado para
a vida no claustro e Philip agira mal, pressionando-o. Agora o brilho da sua
inteligncia e a sua energia estavam perdidos para Kingsbridge.
         Tudo parecia ter sado errado desde o desastre da feira de l. O priorado
devia mais do que nunca. Philip demitira metade do efetivo de operrios por no
ter mais dinheiro para o pagamento dos salrios. Em consequncia, a populao
da cidade se reduziu, e portanto o mercado de domingo tornou-se menor e a
renda dos aluguis tambm diminuiu. Kingsbridge seguia por uma espiral
descendente.
         O corao do problema era o moral dos habitantes. Embora tivessem
reconstrudo suas casas e reiniciado seus pequenos negcios, as pessoas no
tinham confiana no futuro. O que quer que planejassem ou construssem
poderia ser destrudo num dia por William Hamleigh, se ele resolvesse atacar de
novo. Essa insegurana estava presente no pensamento de todos e paralisava
qualquer empreendimento.
         Com o tempo Philip viu que tinha de fazer algo para interromper o
declnio. Precisava de um gesto dramtico para dizer ao mundo em geral, e ao
povo de Kingsbridge em particular, que a cidade estava reagindo. Passou muitas
horas em meditao e prece tentando decidir que gesto poderia ser.
         O que precisava realmente era de um milagre. Se os ossos de santo
Adolfo curassem uma princesa atacada da praga ou fizessem com que um poo
de gua salobra passasse a dar gua potvel, haveria grandes peregrinaes a
Kingsbridge. Mas o santo no realizava milagres h anos. Philip s vezes se
perguntava se os seus mtodos firmes e prticos de administrar o priorado
desagradariam ao santo, pois os milagres pareciam acontecer mais
frequentemente em lugares onde se exercesse o poder com menos sensatez e a
atmosfera estivesse embebida de fervor religioso, quando no de rematada
histeria. Mas Philip aprendera numa escola mais terra-a-terra. Padre Peter, o
abade do seu primeiro mosteiro, costumava dizer: "Reze por milagres, mas plante
repolhos".
         O smbolo da vida e do vigor de Kingsbridge era a catedral. Se ao menos
ela pudesse ser terminada por milagre! Uma vez ele rezara a noite inteira pedindo
por um, mas de manh o coro ainda estava sem telhado e sujeito ao tempo e as
paredes altas continuavam sem ter acabamento nos pontos onde se encontrariam
com as paredes dos transeptos.
         Philip ainda no contratara um novo mestre construtor. Ficara chocado
ao saber quanto exigiam de salrio: nunca se dera conta de como Tom cobrava
pouco. De qualquer modo, Alfred estava dirigindo a reduzida fora de trabalho
sem muita dificuldade. O rapaz tornara-se um tanto taciturno aps o casamento,
como um homem que derrota muitos rivais para ser rei e depois descobre que a
coroa  um fardo extremamente tedioso. No entanto, tinha autoridade e era
decidido, e os outros homens o respeitavam.
         Mas Tom deixara um vcuo que no podia ser preenchido. Philip sentia
falta dele pessoalmente, no s como mestre construtor.
         Tom era uma pessoa que se interessava em por que as igrejas tinham de
ser construdas de um jeito e no de outro, e o prior gostava de especular,
juntamente com ele, sobre os motivos pelos quais alguns edifcios ficavam de p
enquanto outros caam. No fora um homem excepcionalmente devoto, mas de
vez em quando fazia a Philip perguntas sobre teologia que demonstravam que
dirigia uma parte substancial da sua inteligncia  religio, do mesmo modo como
 construo. A cabea do construtor se assemelhava  de Philip. O prior era
capaz de conversar com ele de igual para igual. Havia poucas pessoas assim na
vida do religioso. Jack fora uma delas, apesar da pouca idade; Aliena era outra,
mas ela desaparecera, com o seu lamentvel casamento. Cuthbert Cabea Branca
estava ficando velho, e Milius Tesoureiro passava a maior parte do tempo longe
do priorado, visitando as fazendas de criao de ovelhas, contando acres, ovelhas
e sacos de l. com o tempo, um priorado cheio de vida e atividades numa
prspera cidade que tivesse uma catedral atrairia estudiosos, do mesmo modo
como um exrcito conquistador atrai combatentes. Philip ansiava para que
chegasse esse tempo. S que nunca chegaria, se no encontrasse um modo de
instilar novamente energia em Kingsbridge.
         - Este inverno est sendo brando - disse-lhe Alfred uma manh, logo
aps o Natal. - Podemos comear mais cedo que o usual.
         Isso fez com que Philip comeasse a pensar. A abbada do teto seria
construda naquele vero. Quando estivesse pronta, o coro teria condies de ser
usado, e Kingsbridge j no seria uma cidade sem catedral. O coro era a parte
mais importante da igreja: tambm chamado de "santurio", era reservado ao
clero. O altar-mor e as relquias sagradas ficavam na extremidade leste, chamada
de "presbitrio" ou "capela-mor", e a maior parte dos servios tinham lugar no
coro propriamente dito, onde se sentavam os monges. S nos domingos e dias
santos o resto da igreja era usado. Uma vez que o coro tivesse sido consagrado,
aquilo que era um canteiro de obras passaria a ser uma igreja, mesmo que
inacabada.
         Era uma pena que tivessem de esperar quase um ano para que isso
acontecesse. Alfred prometera concluir o teto no final da estao de construo,
ou seja, em novembro, dependendo do tempo. Mas quando Alfred disse que
seria possvel comear mais cedo, Philip comeou a especular se no haveria uma
chance de terminar mais cedo tambm.
         Todo mundo ficaria surpreso se a igreja pudesse ser inaugurada naquele
vero. Era a espcie de coisa pela qual andara esperando; algo que espantasse
todo o condado e espalhasse a mensagem de que Kingsbridge no podia ser
esmagada por muito tempo.
         - Pode terminar antes de Pentecostes? - perguntou Philip
impulsivamente.
         Alfred inspirou o ar atravs dos dentes e ficou pensando.
         - A construo de abbadas  o trabalho mais especializado de todos -
disse. - No pode ser apressado, e no se pode deixar que aprendizes o faam.
         Seu pai teria respondido sim ou no, pensou Philip, irritado.
         - E se eu lhe desse mais gente para trabalhar... monges? Quanto isso
significaria, em termos de ajuda?
         - Pouco. Na verdade preciso de mais pedreiros.
         - Eu poderia lhe dar mais um ou dois - disse Philip precipitadamente. Um
inverno brando significava tosquia antecipada, de modo que podia esperar
comear a vender l mais cedo que o normal.
         - No sei. - Alfred ainda estava pessimista.
         - Suponha que eu oferea aos pedreiros uma gratificao - disse Philip. -
Uma semana extra de salrios se a abbada estiver pronta no Domingo de
Pentecostes.
        - Nunca ouvi falar numa coisa dessas - disse Alfred, dando a impresso
de ter acabado de tomar conhecimento de uma sugesto inconveniente.
        - Bem, h uma primeira vez para tudo - disse Philip, irritado. A cautela do
rapaz estava lhe dando nos nervos. - O que voc me diz?
        - No posso dizer sim ou no a isso - respondeu Alfred, impassvel. -
Vou colocar a questo para os homens.
        - Hoje? - perguntou Philip, impaciente.
        - Hoje.
        Philip tinha que se satisfazer com isso.

        William Hamleigh e seus cavaleiros chegaram ao palcio do bispo
Waleran logo atrs de um carro de boi carregado com uma pilha muito alta de
sacos de l. A nova estao de tosquia comeara. Como William, Waleran estava
comprando l dos fazendeiros aos preos do ano anterior na expectativa de
vender por um valor consideravelmente maior. Nenhum dos dois tivera muito
problema para obrigar seus locatrios a vender-lhes: uns poucos camponeses que
os haviam desafiado tinham sido expulsos das terras que ocupavam, e as casas
em que moravam, queimadas; aps isso no houve mais rebeldes.
        Ao passar pelo porto, William ergueu os olhos para o topo da colina. As
muralhas do castelo, que tinham sido apenas iniciadas sete anos antes, l estavam,
inacabadas, como um lembrete permanente do castelo que o bispo nunca chegara
a construir e de como fora derrotado pela esperteza do prior Philip. Assim que
Waleran comeasse a colher os frutos do negcio da l, provavelmente
recomearia a obra. No tempo do velho rei Henrique, um bispo no precisava de
mais defesas que uma frgil cerca de estacas de madeira por trs de uma pequena
vala ao redor do palcio. Agora, aps cinco anos de guerra civil, homens que nem
mesmo eram condes ou bispos estavam construindo castelos formidveis.
        As coisas estavam indo bem de novo para Waleran, pensou William
amargurado quando desmontou no estbulo. Permanecera leal ao bispo Henry de
Winchester atravs de todas as suas mudanas de lado, e como resultado tornara-
se um dos mais ntimos aliados de Henry. Com o decorrer dos anos, Waleran
enriquecera com um fluxo contnuo de propriedades e privilgios e visitara Roma
por duas vezes.
        William no tivera tanta sorte - da seu mau humor. A despeito de ter
acompanhado Waleran em todas as suas trocas de lealdade, e a despeito tambm
de ter fornecido grandes exrcitos a ambos os lados na guerra civil, ainda no
fora confirmado como conde de Shiring. Estivera ruminando a esse respeito
durante uma pausa nos combates e ficara to furioso que decidira ter um
confronto com Waleran.
        Subiu as escadas para o salo, seguido por Walter e os outros cavaleiros.
O camareiro de guarda do outro lado da porta estava armado, outro sinal dos
tempos. O bispo Waleran encontrava-se sentado numa cadeira grande no meio
da sala, como sempre, com os braos e pernas ossudos em todos os ngulos,
como se tivesse sido largado ali de qualquer maneira. Baldwin, agora arcediago,
de p ao lado dele, dava a impresso de que poderia estar aguardando instrues,
pela sua atitude. O bispo estava olhando para o fogo, imerso em seus
pensamentos, mas ergueu a cabea rapidamente quando William se aproximou.
        Hamleigh sentiu a repulsa de sempre quando cumprimentou Waleran e se
sentou. As mos suaves e finas do bispo, seu cabelo preto escorrido, a pele
branca como a de um defunto e os olhos mortios e malignos faziam-no
arrepiar-se. Era tudo o que William odiava: insincero, fisicamente fraco,
arrogante e inteligente.
        Podia afirmar que Waleran se sentia de modo muito parecido a seu
respeito. Ele jamais escondera toda a averso que sentia quando William entrava.
O bispo sentou-se direito e cruzou os braos, seus lbios retorceram-se um
pouco e ele franziu ligeiramente a testa: podia estar sentindo um incio de
indigesto.
        Falaram sobre a guerra por algum tempo. Foi uma conversa difcil,
contrafeita, e William ficou aliviado quando foi interrompida por um mensageiro
com uma carta escrita num rolo de pergaminho e selada com lacre. Waleran
mandou que o mensageiro se dirigisse  cozinha, a fim de comer qualquer coisa.
No abriu a carta.
        William aproveitou a oportunidade para mudar de assunto.
        - No vim aqui para trocar notcias sobre batalhas. Vim para lhe dizer que
minha pacincia se esgotou.
        Waleran ergueu as sobrancelhas e nada disse. Silncio era a sua resposta a
assuntos desagradveis.
        - Faz trs anos, quase - prosseguiu William, com dificuldade -, que meu
pai morreu, mas o rei Estvo ainda no me confirmou como conde. 
ultrajante.
        - Concordo inteiramente - disse Waleran, aptico. Brincou com a carta,
examinando o lacre e mexendo na fita.
        -  bom que ache - retrucou Hamleigh -, porque vai ter que fazer alguma
coisa a esse respeito.
        - Meu caro William, no posso nome-lo conde.
        O lorde antecipara que Waleran tomaria aquela atitude e estava
determinado a no aceit-la.
        - Voc  ouvido pelo irmo do rei.
        - Mas o que vou dizer a ele? Que William Hamleigh serviu bem ao rei? Se
for verdade, o rei sabe, e se no for, tambm.
         William no era preo para o bispo em questes de lgica, de modo que
simplesmente ignorou os argumentos.
         - Voc me deve isso, Waleran Bigod.
         O bispo pareceu ficar ligeiramente aborrecido. Apontou para William
com a carta.
         - No lhe devo nada. Voc sempre atendeu aos seus prprios objetivos,
mesmo quando fez o que eu queria. No h dvidas de gratido entre ns.
         - S lhe digo que no vou esperar mais.
         - E o que pretende fazer? - perguntou Waleran, com uma ponta de
desdm.
         - Bem, primeiro eu mesmo irei ver o bispo Henry.
         - E depois?
         - Direi a ele que voc tem sido surdo s minhas splicas e que, em
consequncia, passarei para o lado de Matilde, a Imperatriz. - William ficou
gratificado ao ver a expresso de Waleran mudar: ele empalideceu um pouquinho
mais e pareceu um quase nada surpreso.
         - Mudar de novo? - disse Waleran ceticamente.
         - S uma vez a mais que voc - retrucou William, obstinado.
         A arrogante indiferena do bispo foi abalada, mas no muito.
         Sua carreira tinha sido grandemente beneficiada pela capacidade de fazer
com que William e seus cavaleiros lutassem do lado que o bispo Henry estivesse
favorecendo: seria um golpe para ele se de repente Hamleigh resolvesse ser
independente embora no um golpe fatal. William examinou a fisionomia de
Waleran enquanto este ponderava sobre tal ameaa. Foi capaz de ler os
pensamentos do outro: o bispo estava pensando que queria conservar sua
lealdade, mas que devia ver at que ponto teria de se esforar.
         Para ganhar tempo, Waleran quebrou o selo da carta e a desenrolou.
Enquanto a lia, um tnue rubor de clera apareceu nas suas faces muito brancas.
         - Maldito! - exclamou, por entre os dentes.
         - O que ? - perguntou William. Waleran lhe passou a carta. Hamleigh
examinou as letras.
         -  sua... excelncia... reverendssima... o bispo...
         Waleran pegou o pergaminho de novo, impaciente com a leitura lenta de
William.
         -  do prior Philip - disse. - Est me informando que o coro da nova
catedral estar concludo no Domingo de Pentecostes, e tem o atrevimento de
me suplicar para oficiar a missa.
         William ficou surpreso.
         - Mas como foi que ele conseguiu? Pensei que tivesse demitido metade
dos operrios!
         Waleran sacudiu a cabea.
        - No importa o que acontece, ele no afunda. - Lanou a William um
olhar especulativo. - Ele o odeia, claro. Pensa que  o demnio reencarnado.
        William perguntou-se o que estaria se passando na mente tortuosa de
Waleran.
        - E da? - perguntou.
        - Seria um golpe e tanto para Philip se voc fosse confirmado como
conde de Shiring no Domingo de Pentecostes.
        - Voc no faria isso por mim, mas para prejudicar Philip, claro -
resmungou William, rabugento, mas na verdade cheio de esperanas.
        - No posso fazer o que me pede, de modo algum. Mas falarei com o
bispo Henry. - Ergueu os olhos para William, aguardando.
        O lorde hesitou. Por fim, relutantemente, resmungou:
        - Muito obrigado.

        A primavera foi fria, melanclica e at mesmo lgubre naquele ano, e na
manh de Pentecostes estava chovendo. Aliena acordou no meio da noite com
dor nas costas, que ainda a incomodava com uma pontada terrvel de vez em
quando. Sentou-se na cozinha fria, tranando o cabelo de Martha antes de irem
para a igreja, enquanto Alfred comia um belo desjejum de po branco, queijo
macio e cerveja forte. Uma pontada particularmente aguda nas costas fez com
que parasse e estremecesse. Martha percebeu e perguntou:
        - O que h?
        - Dor nas costas - respondeu Aliena, lacnica. No queria discutir aquilo,
pois a causa certamente era dormir no cho, no quarto dos fundos cheio de
correntes de ar, e ningum estava a par disso, nem mesmo Martha.
        A garota levantou-se e apanhou uma pedra quente no fogo. Aliena
sentou-se. Martha embrulhou a pedra num pedao velho de couro e a segurou de
encontro s costas da cunhada. Aliena sentiu um alvio imediato. Martha
comeou a tranar-lhe o cabelo, que crescera de novo aps ter sido queimado e
se transformara numa massa indisciplinada de cachos escuros. Aliena sentiu-se
mais calma.
        Ela e a cunhada tinham se tornado muito ntimas desde que Ellen se fora.
Pobre Martha; primeiro perdera a me e depois a madrasta. Aliena se considerava
uma pobre substituta para uma me. Alm disso, era apenas dez anos mais velha
que a cunhada. Na verdade, desempenhava o papel de irm mais velha. O
estranho naquilo tudo era que a pessoa cuja falta Martha mais sentia fosse Jack.
        No entanto, todo mundo sentia falta de Jack.
        Aliena perguntava-se por onde ele andaria. Podia estar bem perto,
trabalhando numa catedral em Gloucester ou Salisbury. O mais provvel  que
tivesse ido para a Normandia. Mas poderia ter prosseguido para muito mais
longe: Paris, Roma, Jerusalm ou Egito. Rememorando as histrias que os
peregrinos contavam sobre tais lugares distantes, visualizava Jack num deserto,
cinzelando pedras para uma fortaleza sarracena, sob um sol ofuscante. Estaria
pensando nela agora?
        Seus pensamentos foram interrompidos por um tropel de cascos, e um
momento depois Richard entrava, puxando o cavalo. Tanto ele quanto o animal
estavam encharcados de suor e cobertos de lama. Sua irm pegou um pouco de
gua quente no fogo para que lavasse o rosto e as mos, e Martha levou o cavalo
para o quintal. Aliena colocou po e carne fria sobre a mesa da cozinha e serviu
um copo de cerveja.
        - Quais so as notcias da guerra? - perguntou Alfred. Richard enxugou o
rosto com um pedao de pano e sentou-se para comer.
        - Fomos derrotados em Wilton - disse.
        - Estvo foi capturado?
        - No, escapou, assim como Matilde fugiu de Oxford. Estvo agora est
em Winchester, e Matilde em Bristol. Ambos lambem as feridas e consolidam seu
poder nas reas que controlam.
        As notcias pareciam sempre as mesmas, pensou Aliena. Um lado ou
outro conquistava uma pequena vitria ou sofria uma pequena perda, mas nunca
havia perspectiva alguma de fim da guerra.
        Richard olhou para ela.
        - Voc est engordando - observou ele.
        Aliena aquiesceu e nada disse. Estava com oito meses de gravidez, mas
ningum sabia. Foi uma sorte que tivesse feito frio, permitindo-lhe continuar a
usar vrias camadas de roupas largas de inverno, ocultando as formas. Em mais
algumas semanas o beb nasceria, e a verdade viria  tona. Ainda no tinha idia
do que iria fazer ento.
        O sino tocou, convocando os habitantes da cidade para a missa. Alfred
enfiou as botas e lanou um olhar indagador para Aliena.
        - No acho que possa ir - disse ela. - Sinto-me terrvel.
        Ele deu de ombros indiferentemente e virou-se para seu irmo.
        - Voc deveria ir, Richard. Todo mundo vai estar presente hoje;  a
primeira missa na nova igreja.
        Richard ficou surpreso.
        - Voc j acabou o teto? Pensei que fosse ser preciso o resto do ano.
        - Ns corremos. O prior Philip ofereceu aos homens uma semana extra
de salrios se pudessem terminar o servio hoje.  impressionante como
trabalharam depressa. Mesmo assim, s h pouco terminamos; retiramos as
formas hoje de manh.
        - Tenho que ver isso - disse Richard. Enfiou na boca o ltimo pedao de
po e de carne e se levantou.
        - Quer que eu fique com voc? - perguntou Martha a Aliena.
         - No, obrigada, estou bem. V voc. Vou me recostar um pouco.
         Os trs vestiram as capas e saram. Aliena foi para o quarto dos fundos,
levando consigo a pedra quente em seu envoltrio de couro. Deitou-se na cama
de Alfred com a pedra sob suas costas. Tornara-se terrivelmente letrgica desde
que se casara. Antes, dirigia sua prpria casa, ao mesmo tempo em que era a mais
operosa mercadora de l do condado; agora, tinha problemas em tomar conta da
casa de Alfred, muito embora nada mais houvesse a fazer.
         Deixou-se ficar ali deitada, sentindo pena de si mesma por algum tempo,
desejando dormir um pouco. De repente, sentiu um fio de gua quente na parte
interna da coxa.
         Ficou chocada. Era quase como se estivesse urinando, s que no estava,
e um momento depois o fio se transformou num intenso fluxo. Sentou-se. Sabia
o que aquilo significava. A bolsa d'gua se rompera. O beb estava nascendo.
         Ficou apavorada. Precisava de ajuda. Gritou pela sua vizinha com toda a
fora dos pulmes:
         - Mildred! Mildred, venha c! - S ento lembrou que ningum estava em
casa - todos tinham ido  igreja.
         O fluxo de gua foi reduzido, mas a cama de Alfred ficou encharcada.
Ele ia ficar furioso, pensou, cheia de medo; depois se lembrou de que Alfred ia
ficar furioso de qualquer maneira, pois saberia que a criana no era seu filho, e
pensou: Oh, Deus, que hei de fazer?
         A dor nas costas voltou, e ela constatou que aquilo devia ser o que
chamavam de dores do parto. Esqueceu-se de Alfred. Ia dar  luz. Estava
assustada demais para passar por aquilo sozinha. Queria que algum a ajudasse.
Decidiu ir para a igreja.
         Girou as pernas para fora da cama. Outro espasmo a assaltou e teve que
parar, o rosto contrado de dor, at que passou. Ento saltou da cama e saiu da
casa.
         Sentiu a mente num torvelinho, quando seguiu caminhando, com
dificuldade, ao longo da rua lamacenta. Quando estava no porto do priorado, a
dor voltou, e teve que se encostar a uma parede e cerrar os dentes at que
passasse.
         Ao se aproximar cambaleando da catedral, viu o bispo, Waleran Bigod,
levantar-se para falar. Viu tambm, como que num pesadelo, que William
Hamleigh estava de p ao lado dele. As palavras do bispo Waleran se fizeram
ouvir atravs da barreira da sua dor.
         - ... com grande prazer e orgulho devo lhes dizer que o rei Estvo
confirmou lorde William como conde de Shiring.
         A despeito da dor e do medo que sentia Aliena ficou horrorizada ao
ouvir aquilo. Durante seis anos, desde o terrvel dia em que tinha visto seu pai na
cadeia de Winchester, dedicara a vida  reconquista da propriedade da famlia. Ela
e Richard haviam sobrevivido a ladres e estupradores, incndio e guerra civil.
Por diversas vezes o objetivo parecera ao alcance das suas mos. Mas agora
tinham perdido.
         A congregao murmurou furiosamente. Todos tinham sofrido nas mos
de William e ainda viviam com medo dele. No se sentiam felizes por v-lo
honrado pelo rei que deveria proteg-los. Aliena olhou em torno, procurando
Richard, para ver como estava recebendo aquele golpe final, mas no conseguiu
localiz-lo.
         O prior Philip ergueu-se com uma cara medonha e comeou o hino. Os
fiis o seguiram, sem grande entusiasmo. Aliena encostou-se a uma coluna
quando teve outra contrao.
         Estava atrs de todo mundo, e ningum percebeu sua presena. De certa
forma, as ms notcias a acalmaram. Estou apenas tendo um filho, pensou;
acontece todos os dias. S preciso encontrar Martha ou Richard e eles tomaro
conta de tudo.
         Quando a dor passou, ela forou caminho por entre a multido,
procurando Martha. Havia um grupo de mulheres no tnel baixo do corredor
norte, e dirigiu-se para elas.
         As pessoas a fitaram com olhares de curiosidade, mas sua ateno foi
distrada por outra coisa: um barulho estranho, como um estrondo. A princpio
mal se podia distingui-lo do canto, mas este rapidamente silenciou, quando o
estrondo aumentou de volume.
         Aliena chegou junto ao grupo de mulheres. Olhavam para toda parte,
procurando a causa do barulho. Aliena tocou no ombro de uma delas e
perguntou:
         - Voc viu Martha, a minha cunhada?
         A mulher olhou para ela, e Aliena reconheceu a esposa do curtidor,
Hilda.
         - Acho que Martha est do outro lado - disse; depois o estrondo tornou-
se ensurdecedor e ela desviou os olhos.
         Aliena seguiu seu olhar. No meio da igreja, todos estavam olhando para
cima, na direo do topo das paredes. As pessoas nas naves laterais esticaram o
pescoo para espiar por entre os arcos da arcada. Algum gritou. Aliena viu uma
rachadura aparecer, correndo entre duas janelas vizinhas no clerestrio.
Enquanto olhava, diversos pedaos imensos de pedra caram entre a multido, no
meio da igreja. Todos gritaram e se voltaram para fugir.
         O cho sob seus ps tremeu. No momento em que tentou abrir caminho
para fora da igreja, teve conscincia de que as altas paredes estavam se separando
no topo e que a abbada do teto rachava.
         Hilda, a mulher do curtidor, caiu em frente a ela e Aliena tropeou no seu
corpo estendido, caindo tambm. Uma chuva de pedrinhas a atingiu ao tentar
levantar-se.
        Ento o teto baixo rachou e ruiu; alguma coisa bateu na sua cabea e
tudo escureceu.

         Philip comeara a missa sentindo-se orgulhoso e grato. Fora difcil, mas o
teto tinha sido terminado a tempo. Na verdade, s trs dos quatro intercolnios
do coro haviam sido concludos a tempo, j que o quarto no podia ser feito
enquanto a interseo no estivesse construda e as paredes do coro, unidas aos
transeptos. No entanto, as trs eram suficientes. Todo o equipamento dos
operrios fora impiedosamente afastado: ferramentas, pilhas de pedra e madeira,
vigas e painis dos andaimes, montes de entulho. O coro fora varrido
escrupulosamente. Os monges tinham caiado as pedras e pintado de vermelho a
massa, melhorando bastante o aspecto de tudo, de acordo com o costume. O
altar e o trono do bispo haviam sido trazidos da cripta. Os ossos do santo,
contudo, na sua tumba de pedra, ainda estavam ali embaixo: transferi-los seria
uma cerimnia solene, chamada de "traslado", a qual seria o clmax da funo
daquele dia. Quando o ofcio comeara, com o bispo no seu trono, os monges
em hbitos novos, enfileirados atrs do altar, e os habitantes da cidade
concentrados no corpo da igreja e nos corredores, Philip sentira-se gratificado e
agradecera a Deus por t-lo levado com sucesso ao fim do primeiro e crucial
estgio na reconstruo da catedral.
         No momento em que Waleran fez o anncio a respeito de William, Philip
ficara furioso. Aquilo fora evidentemente calculado para arruinar o seu momento
de triunfo e lembrar aos habitantes da cidade que ainda se encontravam  merc
do seu cruel suserano. Philip estava procurando desesperadamente uma resposta
adequada quando o estrondo surdo comeara.
         Foi como um pesadelo que o prior tinha s vezes, em que estava
caminhando sobre um andaime muito alto, perfeitamente confiante na sua
segurana, quando notava um n solto nas cordas que uniam as estacas do
andaime - nada de muito srio; - quando se abaixava para refazer o n, porm, o
painel de vimes entrelaados sobre o qual se encontrava inclinava-se um pouco,
no muito a princpio, mas o bastante para faz-lo tropear, e a seguir, num
relmpago, caa l de cima, numa queda desesperadoramente rpida, consciente
de que estava prestes a morrer.
         O barulho no princpio foi desorientador. Por um momento ou dois
pensou que fosse um trovo; depois aumentou tanto que todos pararam de
cantar. Ainda assim, Philip imaginou que fosse algum estranho fenmeno, que
logo seria explicado e cuja pior consequncia seria interromper a missa. Ento
olhou para cima.
         No terceiro intercolnio, onde as formas tinham sido retiradas ainda
naquela manh, estavam aparecendo rachaduras no trabalho de cantaria, bem no
alto, ao nvel do clerestrio. Elas apareciam subitamente e riscavam a parede de
uma janela para a outra, como cobras. A primeira reao de Philip foi de
desapontamento: ficara feliz com a concluso do coro, e agora precisaria fazer
reparos; alm disso, todas aquelas pessoas que tinham se impressionado com o
trabalho dos pedreiros diriam que no deveria ter sido feito to depressa,
lembrando que "devagar se vai ao longe". Quando a parte superior das paredes
pareceu se inclinar para fora, ele viu, horrorizado, que aquilo no iria meramente
interromper a missa, mas que seria uma catstrofe.
         Apareceram rachaduras no teto abobadado. Uma grande pedra se
destacou da trama de cantaria que o formava e veio caindo lentamente. Todos
comearam a gritar e a tentar sair de baixo. Antes que Philip pudesse verificar se
algum tinha se ferido seriamente, mais pedras comearam a cair. A congregao
entrou em pnico, com as pessoas se empurrando e pisoteando umas s outras na
tentativa de se esquivar das pedras que ruam. Por um instante o prior teve a
louca idia de aquilo ser um ataque desfechado por William, mas ento viu o
conde, na frente da congregao, investindo contra as pessoas que o cercavam,
numa tentativa apavorada para fugir, e ponderou que ele no iria fazer uma coisa
dessas a si prprio.
         A maioria das pessoas tentava se afastar para longe do altar e sair da
catedral pela extremidade oeste, que estava aberta. Mas era justamente a ponta
mais a oeste do edifcio, o lado aberto, que rua. O problema era no terceiro
intercolnio. No segundo, onde estava Philip, a abbada do teto parecia estar se
aguentando; e atrs dele, o primeiro, onde os monges se encontravam
enfileirados, parecia bastante slido. Naquele lado as paredes opostas eram
conservadas juntas pela fachada leste.
         Viu Jonathan e Johnny Oito Pence encolhidos na ponta do corredor norte.
Estavam mais seguros ali do que em qualquer outra parte, decidiu Philip; e ento
percebeu que deveria tentar conduzir o resto do seu rebanho para a segurana.
         - Por aqui! - gritou. - Todo mundo! Venham por aqui! - Quer o tenham
ouvido ou no, ningum o atendeu.
         No terceiro intercolnio, a parte superior das paredes desmoronou,
caindo para fora, e toda a abbada ruiu; pedras pequenas e grandes tombaram,
como uma tempestade de granizo letal, sobre a congregao histrica. Philip
pulou para a frente e agarrou um cidado.
         - Volte! - gritou, empurrando-o para o lado leste. O homem, muito
assustado, viu os monges agrupados de encontro  parede e saiu correndo para se
juntar a eles.
         Philip fez o mesmo com duas mulheres. As pessoas que estavam com
elas viram aquilo e se deslocaram para leste sem que fosse preciso empurr-las.
Outras pessoas comearam a seguir a idia, e um movimento geral para o lado
leste teve incio entre aqueles que se encontravam  frente da congregao.
Olhando para cima por um instante,
         Philip ficou horrorizado ao ver que o segundo intercolnio tambm ia
ceder: as mesmas rachaduras cortavam o clerestrio e a abbada diretamente
sobre sua cabea.
         Continuou a conduzir as pessoas para a segurana do lado leste, sabendo
que cada uma que deslocasse podia ser uma vida salva. Uma chuva de pedaos de
massa atingiu sua cabea tonsurada, e logo em seguida as pedras comearam a
cair. As pessoas se espalharam. Umas foram se refugiar nas naves laterais; outras,
entre as quais o bispo Waleran, se amontoaram junto  parede leste; outras ainda
tentavam fugir pelo lado oeste, arrastando-se por cima dos escombros e dos
corpos no terceiro intercolnio.
         Uma pedra bateu no ombro de Philip. Foi de raspo, mas doeu. Ele ps
as mos por cima da cabea e olhou  sua volta, aflito. Encontrava-se sozinho no
meio do segundo intercolnio: todos os demais estavam em torno da orla da
zona de perigo. Fizera tudo o que estava a seu alcance. Correu para o lado leste.
         Ali se virou de novo e olhou para cima. O clerestrio do segundo
intercolnio estava ruindo e a abbada caindo no coro, numa rplica exata do
que acontecera na terceira; s que dessa vez houve menos vtimas, porque as
pessoas tinham tido chance de se afastar, e tambm porque os tetos das naves
laterais pareciam estar resistindo, ao passo que haviam cedido no terceiro
intercolnio. Todo mundo situado na extremidade leste recuou, comprimindo-se
contra a parede, o rosto virado para cima, observando a abbada para ver se o
colapso se transmitiria ao primeiro intercolnio. O impacto das pedras caindo
pareceu menos barulhento, mas uma nuvem de p e de pedrinhas encheu o ar e
por alguns momentos ningum pde ver nada. Philip conteve a respirao. A
nuvem se dispersou e ele conseguiu ver o teto de novo. Rura at a orla do
primeiro intercolnio, mas agora parecia firme.
         A poeira assentou. Tudo ficou em silncio. Horrorizado, Philip
contemplou as runas da sua igreja. Somente o primeiro intercolnio permaneceu
intato. As paredes do segundo continuaram de p at o nvel da galeria, mas no
terceiro e no quarto s ficaram de p as naves laterais, e seriamente danificadas.
O cho da igreja era uma pilha de escombros, sobre os quais se viam os corpos
de muitos mortos e feridos. Sete anos de trabalho e centenas de libras em
dinheiro tinham sido destrudos em poucos e terrveis momentos. O corao de
Philip confrangeu-se pelo trabalho desperdiado e pelas pessoas mortas, e pelas
vivas e rfos sobreviventes; e seus olhos se encheram de amargas lgrimas.
         Uma voz spera soou junto ao seu ouvido:
         - Tudo isto se deve  sua maldita arrogncia, Philip!
         Virou-se para ver o bispo Waleran, as roupas negras cobertas de poeira,
olhando para ele triunfantemente. Philip sentiu-se como se tivesse sido
apunhalado. Assistir a uma tragdia daquelas era de cortar o corao, mas ser
culpado por ela era insuportvel. Quis dizer: S tentei fazer o melhor que podia!,
mas as palavras no saram; sua garganta parecia ter-se fechado e no conseguiu
falar.
         Seus olhos deram com Johnny Oito Pence e o pequenino Jonathan
emergindo do abrigo da nave, e subitamente se lembrou de suas
responsabilidades. Haveria tempo de sobra mais tarde para se pensar no culpado.
Naquele exato instante havia dezenas de pessoas feridas e muitas outras presas
nos escombros. Precisava organizar a operao de resgate. Lanou um olhar
feroz para o bispo Waleran e disse furiosamente:
         - Saia da minha frente. - O assustado bispo afastou-se para o lado, e
Philip pulou para cima do altar. - Ateno! - gritou, o mais alto que pde. -
Temos que cuidar dos feridos, resgatar as pessoas que esto presas nos
escombros, enterrar os mortos e rezar pela alma deles. Vou designar trs pessoas
para organizarem isso. - Examinou os rostos que o cercavam, para ver quem
estava vivo e bem. Localizou Alfred. - Alfred Construtor fica encarregado de
remover os escombros e resgatar as pessoas presas, e quero que todos os
pedreiros e carpinteiros trabalhem com ele. - Olhando para os monges, ficou
aliviado ao ver Milius, o confidente em quem tanto se fiava, so e salvo.
         - Milius Tesoureiro  o responsvel pela remoo dos mortos e feridos, e
vai precisar de ajudantes fortes e jovens. Randolph Enfermeiro cuidar dos
feridos, uma vez que estejam fora desta confuso, e os mais velhos podero
ajud-lo, especialmente as mulheres mais velhas. Tudo certo? Vamos comear. -
Pulou do altar. Ouviram-se as vozes de pessoas comeando a dar ordens ou a
fazer perguntas.
         Philip aproximou-se de Alfred, que tinha uma aparncia trmula e
amedrontada. Se havia algum a culpar era ele, como mestre construtor, mas
aquela no era hora para recriminaes.
         - Divida seus homens em equipes - disse Philip - e d a cada uma delas
uma rea separada para trabalhar.
         Alfred ficou apatetado por um momento; depois sua expresso clareou.
         - Sim. Certo. Comearemos no lado oeste e levaremos os escombros para
o ar livre.
         - timo. - Philip deixou-o e abriu caminho at Milius. Ouviu suas
palavras.
         - Levem os feridos para bem longe da igreja e os deixem no gramado. Os
corpos dos mortos vo para o lado norte.
         Philip afastou-se, satisfeito, como sempre, por ter confiado no monge
para fazer o que fosse certo. Viu Randolph Enfermeiro escalando um monte de
escombros e apressou-se a segui-lo. Os dois conseguiram sair da igreja, no lado
oeste, onde havia uma multido composta por pessoas que tinham conseguido
sair antes do pior, escapando inclumes.
         - Use essa gente - disse para Randolph. - Mande algum  enfermaria
buscar equipamento e suprimentos. Faa alguns irem pegar gua quente na
cozinha. Pea ao despenseiro vinho forte para os que precisarem ser reanimados.
Certifique-se de que deita os mortos e os feridos em linhas bem organizadas,
com espao entre eles, para que seus ajudantes no caiam sobre os corpos.
         Ele olhou em torno. Os sobreviventes estavam comeando a trabalhar.
Muitos dos que haviam sido protegidos pelo lado leste intato seguiram Philip
atravs dos escombros e j removiam os corpos. Um ou dois entre os feridos,
que tinham ficado apenas aturdidos, puseram-se de p sem ajuda. Philip viu uma
velha sentada no cho, estonteada. Reconheceu-a; era Maud Silver, viva de um
paieiro. Ajudou-a a levantar-se e conduziu-a atravs dos escombros.
         - O que aconteceu? - perguntou ela, sem fit-lo. - No sei o que
aconteceu.
         - Nem eu, Maud - disse ele.
         Ao voltar para ajudar outra pessoa, as palavras do bispo Waleran soaram
de novo na sua mente: Tudo isso se deve  sua maldita arrogncia, Philip! A
acusao o atingira de modo to profundo porque o prior achava que poderia ser
verdadeira. Estava sempre forando, querendo mais, melhor e mais depressa.
Forara Alfred a concluir a abbada, da mesma forma como forara a criao de
uma feira de l e a obteno da pedreira do conde de Shiring. Em todos os casos,
o resultado fora trgico: a morte dos operrios da pedreira, o incndio de
Kingsbridge e agora aquilo. Claramente era a ambio que devia ser culpada. Os
monges fariam melhor se vivessem uma vida de resignao, aceitando as
atribulaes e os reveses deste mundo como lies de pacincia, ensinadas por
Deus todo-poderoso.
         Enquanto o prior ajudava a retirar das runas os mortos e feridos,
resolveu que no futuro deixaria a ambio e os empreendimentos por conta de
Deus; ele, Philip, aceitaria passivamente o que quer que acontecesse. Se Deus
quisesse uma catedral, proporcionaria uma pedreira; se a cidade tinha sido
queimada, devia aceitar o fato como um sinal de que Deus no desejava uma feira
de l; e agora que a igreja rura, Philip no a reconstruiria.
         Quando chegou a essa deciso, viu William Hamleigh.
         O novo conde de Shiring estava sentado no cho no terceiro
intercolnio, perto do corredor norte, o rosto lvido, tremendo de dor, o p preso
sob uma grande pedra.
         Philip perguntou-se, enquanto ajudava a rol-la, por que Deus escolhera
deixar tantas pessoas de bom corao morrerem e poupara um animal como
William.
         Hamleigh fazia muito espalhafato por causa da dor no p, mas, a no ser
por isso, estava bem. Ajudaram-no a se levantar. Ele se apoiou no ombro de um
homem enorme, quase do seu tamanho, e se afastou, mancando. Foi ento que
um beb chorou.
         Todo mundo ouviu. No havia bebs  vista. Todos olharam em torno,
assombrados. O choro foi ouvido de novo, e Philip percebeu que vinha de baixo
de uma grande pilha de pedras na nave.
         - Ali! - exclamou. Atraiu a ateno de Alfred e fez um gesto, chamando-o.
- H um beb vivo ali embaixo - disse.
         Todos ouviram o choro. Parecia de uma criana bem pequena, com
menos de um ms de vida.
         - Tem razo - disse Alfred. - Vamos tirar algumas dessas pedras grandes.
- Ele e seus auxiliares comearam a retirar entulho de cima de uma pilha que
bloqueava completamente o arco do terceiro intercolnio. Philip incorporou-se
ao trabalho. No conseguia fazer idia de qual das habitantes da cidade dera  luz
nas ltimas semanas.  claro que um nascimento poderia no ter sido do seu
conhecimento: embora a cidade tivesse diminudo de tamanho no ltimo ano,
ainda era bastante grande para que ele perdesse um evento to comum.
         O choro parou de repente. Todos ficaram imveis e prestaram ateno,
mas no comeou de novo. Com a expresso sombria, recomearam a retirada
das pedras. Era algo perigoso, pois a remoo de uma pedra podia fazer com que
as outras cassem. Por isso Philip designara Alfred como encarregado do servio.
No entanto, ele no era to cauteloso quanto Philip gostaria, e parecia estar
deixando todo mundo fazer o que bem entendesse, retirando pedras sem
nenhum planejamento geral. Em dado momento
         a pilha toda balanou perigosamente, e Philip exclamou:
         - Esperem!
         Todos pararam. Philip convenceu-se de que Alfred estava por demais
chocado para organizar a contento o pessoal que o ajudava. Ele prprio teria que
faz-lo.
         - Se h algum vivo a embaixo - disse Philip -, deve ter sido protegido
por alguma coisa; se deixarmos a pilha se mover, talvez a proteo se perca e esse
algum
         morra devido a nossos esforos. Vamos trabalhar cuidadosamente. -
Apontou para um grupo de pedreiros, - Vocs trs, escalem o monte e tirem
pedras do topo. Em vez
         de carreg-las, passem cada pedra para ns, que as levaremos daqui.
         Recomearam a trabalhar de acordo com o plano de Philip. Parecia no
s mais rpido como mais seguro.
         Agora que o beb parara de chorar no sabiam exatamente qual a direo
a seguir, de modo que limparam uma rea ampla, quase toda a largura do
intercolnio. Parte dos escombros era o que cara da abbada, mas parte do teto
da nave tambm rura, de modo que havia vigas e telhas de ardsia juntamente
com pedras e massa.
        Philip trabalhou de modo incansvel. Queria que o beb sobrevivesse.
Muito embora soubesse que havia dezenas de pessoas mortas, de algum modo o
beb lhe parecia mais importante. Sentia que se ele pudesse ser salvo, ainda
haveria esperana para o futuro.  medida que ia levantando as pedras, tossindo
e meio cego pela poeira, orava fervorosamente para que o beb fosse encontrado
vivo.
        Em dado momento, pde ver, acima do monte de escombros, a parede
externa da nave e parte de uma janela. Parecia haver um espao atrs da pilha.
Talvez algum estivesse vivo ali. Um pedreiro galgou cuidadosamente o monte
de entulho e olhou para baixo.
        - Jesus! - exclamou ele.
        Daquela vez Philip ignorou a blasfmia.
        - O beb est bem? - perguntou.
        - No d para dizer - foi a resposta do pedreiro.
        O prior teve vontade de perguntar o que o pedreiro vira, ou, melhor
ainda, dar uma olhada ele mesmo, mas o homem recomeou a trabalhar com
vigor renovado, e nada havia a fazer seno continuar ajudando, febrilmente
curioso.
        A altura da pilha diminuiu depressa. Havia uma grande pedra quase no
nvel do cho que exigiu trs homens para ser removida. Quando foi rolada para
um lado, Philip viu o beb.
        Estava nu e era recm-nascido. Sua pele branca estava suja de sangue e
p, mas deu para ver que tinha a cabea recoberta de um cabelo de uma chocante
cor de cenoura.
        Olhando mais de perto, Philip viu que era um menino. Estava
aconchegado ao peito de uma mulher, sugando-lhe o seio. A criana estava viva,
sem dvida, e seu corao pulou de alegria. Ento olhou para a mulher. Ela
tambm estava viva. Atraiu a ateno dele e dirigiu-lhe um sorriso dbil e feliz.
        Era Aliena.
        Aliena nunca mais voltou  casa de Alfred.
        Ele dizia a todo mundo que o filho no era seu, e como prova mostrava a
cor do seu cabelo, exatamente da mesma cor do de Jack; mas no tentou fazer
mal algum nem ao beb nem a Aliena,  parte ter dito que no os receberia na sua
casa.
        Ela voltou ao quarteiro pobre, para a casa de um cmodo onde morava
com o irmo Richard. Sentiu-se aliviada pela vingana de Alfred ser to branda.
Era bom saber que no mais precisaria dormir no cho ao p da sua cama, como
um cachorro. Mas sobretudo se sentiu emocionada e orgulhosa com seu lindo
beb. Ele tinha cabelo cor de cenoura, olhos azuis e pele branca e perfeita,
fazendo-a lembrar-se vividamente de Jack.
        Ningum sabia por que a igreja rura. Havia muitas teorias, contudo. Uns
diziam que Alfred no tinha capacidade para ser mestre construtor. Outros
culpavam Philip, por haver apressado o trabalho, querendo a abbada pronta no
dia de Pentecostes. Alguns pedreiros disseram que a forma fora retirada antes de
a argamassa estar apropriadamente seca. Um velho pedreiro afirmou que as
paredes no haviam sido planejadas para sustentar uma abbada de pedra.
        Setenta e nove pessoas morreram, inclusive as que no resistiram aos
ferimentos. Todo mundo disse que o nmero teria sido maior se o prior Philip
no tivesse obrigado tanta gente a ir para o lado leste. O cemitrio do priorado j
estava lotado por causa do incndio na feira de l, no ano anterior, e a maior
parte dos mortos foi enterrada no cemitrio da igreja da parquia. Um bocado de
gente disse que a catedral estava amaldioada.
        Alfred levou todos os seus pedreiros para Shiring, onde estava
construindo casas de pedra para as pessoas ricas. Os outros artesos afastaram-se
de Kingsbridge.
        Ningum foi demitido, na verdade, e Philip continuou a pagar os salrios,
mas no havia nada para fazerem a no ser a remoo dos escombros, e aps
algumas semanas todos tinham ido embora. Nenhum voluntrio vinha mais
trabalhar aos domingos, o mercado foi reduzido a umas poucas e desanimadas
bancas, e Malachi pegou a famlia e tudo o que tinha, ps num carro puxado por
quatro bois e deixou a cidade, em busca de pastagens mais verdes.
        Richard alugou seu belo garanho negro a um fazendeiro e, junto com
Aliena, passou a viver dos rendimentos. Sem o apoio de Alfred no podia
continuar como cavaleiro, e de qualquer modo isso no adiantava nada, agora
que William fora confirmado como conde de Shiring. Aliena ainda se sentia presa
ao juramento que fizera ao pai, mas parecia no haver nada que pudesse fazer
para cumpri-lo. Richard mergulhou em letargia. Levantava-se tarde, ficava
sentado ao sol a maior parte do dia e passava as noites na cervejaria.
        Martha ainda morava na casa grande, acompanhada apenas por uma
velha criada. Passava, contudo, a maior parte do tempo com Aliena: adorava
ajudar a cuidar do beb, especialmente por ele se parecer tanto com seu adorado
Jack. Queria que a cunhada lhe desse o nome de Jack, mas, por razes que a
prpria Aliena no entendia muito bem, ela relutava.
        Para Aliena o vero passou em intenso deslumbramento maternal. Mas
quando chegou a estao da colheita e a temperatura baixou um pouco, as noites
ficaram mais curtas e ela foi se sentindo descontente.
        Sempre que pensava sobre o seu futuro, Jack vinha  sua mente. No
tinha idia de para onde fora, e provavelmente nunca mais voltaria, mas ainda
permanecia com ela, dominando seus pensamentos, cheio de vida e energia, to
ntido e forte para Aliena como se o tivesse visto ainda na vspera. Pensou em se
mudar para outra cidade e fingir que era viva; considerou a possibilidade de
tentar persuadir Richard a ganhar a vida fazendo qualquer coisa; contemplou a
idia de trabalhar em tecelagem, ou de lavar roupa, ou ainda de se tornar uma
criada para uma das poucas pessoas da cidade que ainda dispunham de dinheiro
suficiente para contratar empregados; cada nova idia era saudada por uma risada
escarninha do Jack imaginrio em sua cabea, que dizia: "Nada dar certo sem
mim". Fazer amor com ele na manh do seu casamento com Alfred fora o maior
pecado que jamais cometera, e no tinha dvida de que agora estava sendo
punida por isso. No entanto, ainda havia ocasies em que achava que fora a nica
coisa boa que fizera em toda a vida, e quando olhava para o seu beb, no podia
se obrigar a se arrepender do que fizera. Mesmo assim, sentia-se irrequieta. Um
beb no era suficiente. Sentia-se incompleta, irrealizada. Sua casa parecia
pequena demais, e Kingsbridge, meio morta; a vida era muito montona.
        Tornou-se impaciente com o beb e rabugenta com Martha.
        No fim do vero o fazendeiro trouxe o cavalo de volta: j no era
necessrio, e de repente Richard e Aliena se viram sem renda. Um dia, no incio
do outono, o rapaz foi a Shiring vender sua armadura. Enquanto estava fora e
Aliena comia mas na refeio para economizar dinheiro, a me de Jack entrou
na sua casa.
        - Ellen! - Aliena estava mais do que assustada. Havia pavor na sua voz,
pois a me de Jack amaldioara um casamento religioso e o prior Philip ainda
poderia puni-la por isso.
        - Vim ver meu neto - disse Ellen calmamente.
        - Mas como voc soube... ?
        - A gente sabe das coisas, mesmo na floresta. - Foi at o bero, num
canto, e contemplou a criana adormecida. Seu rosto suavizou-se. - Ora, ora. No
h dvida de quem  filho. Est se alimentando bem?
        - Nunca houve nada de errado com ele:  pequeno mas resistente - disse
Aliena, orgulhosa. E acrescentou: - Como a av. - Examinou Ellen. Estava mais
magra do que quando partira, queimada de sol, e usava uma tnica curta de couro
que revelara a barriga das pernas bronzeadas. Estava descala. Parecia jovem e
saudvel: a vida na floresta certamente a favorecia. Aliena calculava que devia
estar com cerca de trinta e cinco anos.
        - Voc est tima.
        - Sinto falta de vocs todos - disse Ellen. - Sinto falta de voc, de Martha
e at mesmo do seu irmo Richard. Tenho saudade do meu Jack. E do meu Tom.
- Ela parecia triste.
        Aliena continuava preocupada com a segurana de Ellen.
        - Algum a viu chegando? Os monges ainda podem querer puni-la.
        - No h um monge em Kingsbridge que tenha coragem de me prender -
disse ela, com um sorriso largo. - Mas de qualquer modo fui muito cuidadosa:
ningum me viu. - Houve uma pausa. Ellen encarou fixamente Aliena, que se
sentiu um pouco desconfortvel sob a fora penetrante dos seus estranhos olhos
cor de mel. Afinal Ellen disse:
        - Voc est desperdiando sua vida.
        - O que voc quer dizer com isso? - perguntou Aliena, embora as
palavras da outra tivessem instantaneamente tocado um ponto em seu ntimo.
        - Voc devia ir procurar Jack.
        Aliena sentiu uma pontada de deliciosa esperana.
        - Mas no posso - disse.
        - Por que no?
        - Para comear, no sei onde se encontra.
        - Eu sei.
        O corao de Aliena bateu mais depressa. Pensara que ningum sabia
para onde Jack fora. Era como se tivesse desaparecido da face da terra. Mas agora
seria capaz de imagin-lo num lugar especfico e real. Isso mudava tudo. Talvez
estivesse em algum lugar prximo. Poderia mostrar-lhe seu beb.
        - Pelo menos sei para onde ele se dirigiu - acrescentou Ellen.
        - Para onde? - perguntou Aliena, aflita.
        - Santiago de Compostela.
        - Oh, Deus! - Seu corao confrangeu-se. Sentia-se desesperadamente
desapontada. Santiago de Compostela era a cidade da Espanha onde o apstolo
Tiago fora enterrado.
        Implicava uma viagem de diversos meses. Era o mesmo que Jack estar no
fim do mundo.
        - Ele tinha esperana de descobrir alguma coisa a respeito do pai
conversando com os menestris na estrada.
        Aliena assentiu desconsoladamente. Fazia sentido. Jack sempre se
ressentira de saber to pouco a respeito do pai. Mas era bem possvel que jamais
voltasse. Numa cidade to grande decerto encontraria a catedral em que queria
trabalhar e nela se estabeleceria. Por ter ido procurar o pai provavelmente
perdera o filho.
        -  to longe! - disse Aliena. - Eu gostaria de poder ir atrs dele.
        - Por que no? - perguntou Ellen. - Milhares de pessoas vo para l em
peregrinao. Por que voc no poderia ir?
        - Jurei a meu pai cuidar de Richard at que ele se tornasse o conde de
Shiring - disse a Ellen. - No poderia deix-lo.
        Ellen pareceu ctica.
        - Exatamente como voc imagina que o est ajudando neste momento? -
perguntou. - No tem dinheiro e William  o novo conde. Richard perdeu
qualquer chance que pudesse ter tido para recuperar o condado. Voc no  mais
til para ele aqui em Kingsbridge do que seria em Santiago de Compostela.
Dedicou a vida quele juramento desgraado. Mas agora no h mais nada que
possa fazer. No vejo como seu pai pudesse reprov-la. Se me perguntasse, eu
lhe diria que o maior favor que pode fazer a Richard seria abandon-lo por algum
tempo e dar-lhe uma chance para aprender a ser independente.
         Era verdade, pensou Aliena, que no tinha utilidade para Richard naquele
momento, quer permanecesse em Kingsbridge, quer no. Seria possvel que agora
estivesse livre - livre para ir procurar Jack? A mera idia fez seu corao disparar.
         - Mas no tenho dinheiro para sair em peregrinao -disse.
         - O que aconteceu com aquele cavalo enorme?
         - Ainda o temos...
         - Venda-o.
         - Como?  de Richard.
         - Pelo amor de Deus, quem diabos o comprou? - retrucou Ellen, furiosa.
- Foi Richard quem trabalhou duro anos a fio para construir um comrcio de l?
Foi Richard quem negociou com camponeses gananciosos e compradores
flamengos inflexveis? Foi Richard quem arrecadou a l e montou uma banca no
mercado para vend-la? No venha me dizer que o cavalo  de Richard!
         - Ele ficaria to furioso...
         - timo. Esperemos que fique furioso o bastante para trabalhar um
pouco pela primeira vez na vida.
         Aliena chegou a abrir a boca para retrucar, mas desistiu. Ellen tinha
razo. Richard sempre dependera dela para tudo. Enquanto ele estivera lutando
pelo seu patrimnio, ela fora obrigada a sustent-lo. Mas agora no estava
lutando por nada. No podia exigir mais nada.
         Imaginou-se encontrando Jack de novo. Imaginou seu rosto sorrindo
para ela. Eles se beijariam. Sentiu um arrepio de prazer. Percebeu que estava
ficando molhada s de pensar nele. Sentiu-se embaraada.
         - Viajar  uma atividade arriscada, claro - disse Ellen.
         Aliena sorriu.
         - Isso  algo com que no me preocupo. Venho viajando desde os meus
dezessete anos. Sei tomar conta de mim.
         - De qualquer forma, haver centenas de pessoas na estrada para Santiago
de Compostela. Voc pode se juntar a um grupo grande de peregrinos. No ter
que viajar sozinha.
         Aliena suspirou.
         - Sabe, se eu no tivesse o beb acho que iria mesmo.
         - Mas  por causa do beb que voc tem que ir - retrucou Ellen. - Ele
precisa de um pai.
         Aliena no encarara a coisa daquele jeito: pensara na viagem como algo
puramente egosta. Via agora que a criana precisava tanto de Jack quanto ela. Na
sua obsesso com os cuidados cotidianos do filho no pensara no futuro dele.
Sbito pareceu-lhe terrivelmente injusto que crescesse sem conhecer o gnio
adorvel, brilhante e nico que era seu pai.
        Percebeu que estava se convencendo a ir, e sentiu um arrepio de
apreenso.
        Ocorreu-lhe uma dificuldade.
        - Eu no poderia levar o beb para Santiago de compostela.
        Ellen deu de ombros.
        - Ele no saber a diferena entre Espanha e Inglaterra. Mas voc no
precisa lev-lo.
        - O que mais poderia fazer?
        - Deix-lo comigo. Eu o alimentaria com leite de cabra e mel silvestre.
        Aliena sacudiu a cabea.
        - No toleraria separar-me dele. Eu o amo demais.
        - Se o ama - disse Ellen -, v procurar seu pai.

        Aliena arranjou um navio em Warenham. Quando fizera a travessia para
a Frana, ainda garota, na companhia do pai, haviam embarcado num dos navios
de guerra normandos, embarcaes compridas e estreitas cujas laterais se
curvavam para cima, numa ponta aguda, na frente e atrs. Tinham fileiras de
remos de cada lado e uma vela quadrada de couro. O navio que a levaria 
Normandia agora era similar, s que mais largo no meio e mais fundo, a fim de
transportar mais carga. Viera de Bordeaux, e ela vira os marinheiros descalos
descarregarem barris de vinho destinados s adegas dos ricos.
        Aliena sabia que deveria deixar o beb, mas estava desolada.
        Sempre que olhava para ele passava em revista todos os argumentos e
decidia novamente que tinha de ir; mesmo assim, no fazia diferena: no queria
se separar dele.
        Ellen a acompanhara a Warenham. L Aliena juntara-se a dois monges da
Abadia de Glastonbury, que iam visitar sua propriedade na Normandia. Trs
outras pessoas seriam passageiras no navio: um jovem escudeiro que passara
quatro anos com um parente ingls e agora retornava para seus pais, em
Toulouse, e dois jovens pedreiros que tinham ouvido dizer que os salrios eram
mais altos e as garotas, mais bonitas, do outro lado do canal. Na manh em que
deveriam zarpar, esperaram na cervejaria enquanto a tripulao carregava o navio
com pesados lingotes de estanho da Cornualha. Os pedreiros beberam diversos
jarros de cerveja mas no pareceram ficar embriagados.
        Aliena abraou o beb e chorou silenciosamente.
        Por fim o navio ficou pronto para partir. A vigorosa gua cinzenta que
Aliena comprara em Shiring nunca vira o mar, e se recusou a subir pela prancha
de embarque.
        No entanto, o escudeiro e os pedreiros colaboraram entusiasticamente e
acabaram conseguindo pr o animal a bordo.
        Aliena estava cega pelas lgrimas quando deu seu beb a Ellen. Ela o
pegou, mas disse:
         - Voc no pode fazer isto. Errei ao fazer tal sugesto.
         Aliena chorou mais.
         - Mas h Jack - soluou. - No posso viver sem Jack, sei que no posso.
Tenho que procur-lo.
         - Oh, sim - disse Ellen. - No estou sugerindo que desista da viagem. Mas
no pode deixar o beb para trs. Leve-o consigo.
         Aliena sentiu-se inundada de gratido e chorou mais ainda.
         - Acha mesmo que ele estar bem?
         - O beb no poderia ter estado mais feliz na viagem at aqui. O resto
ser igual. E ele no gosta muito de leite de cabra.
         - Vamos, senhoras - disse o capito do navio -, a mar est para mudar.
         Aliena pegou o beb e beijou Ellen.
         - Muito obrigada. Sinto-me muito feliz.
         - Boa sorte - disse Ellen.
         Aliena virou-se e subiu a prancha.
         Partiram imediatamente. Aliena acenou at que Ellen no passasse de um
pontinho no cais. Estavam saindo do porto quando comeou a chover. No
havia abrigo na parte de cima, de modo que Aliena se sentou no fundo, junto
com a carga e os cavalos. O convs parcial em que os remadores se sentavam,
acima da sua cabea, no a protegia completamente da chuva, mas era possvel
conservar o beb seco por dentro da capa. O balano do navio pareceu agradar-
lhe, e o menino dormiu. Quando caiu a noite e a ncora foi lanada, Aliena
juntou-se aos monges em suas preces. Aps as oraes cochilou
intermitentemente, sentada com o beb nos braos.
         Desembarcaram em Barfleur no dia seguinte e Aliena encontrou
acomodaes na cidade mais prxima, Cherbourg. Gastou outro dia rodando
pela cidade, perguntando a estalajadeiros e construtores se tinham visto um
jovem pedreiro ingls com o cabelo cor de cenoura, flamejante. Ningum o vira.
Havia inmeros normandos ruivos, de modo que poderiaml no ter reparado em
Jack. Ou ele talvez tivesse se destinado a outro porto. Aliena no esperara,
realisticamente, encontrar indcios de Jack to cedo, mas mesmo assim ficou
desanimada. No dia seguinte seguiu viagem, no rumo sul. Teve como companhia
um vendedor de facas, sua esposa gorda e cordial e quatro crianas. Eles se
deslocavam bem devagar, e Aliena se sentiu feliz por poder acompanhar seu
ritmo, poupando as foras da gua, que ainda teria que carreg-la num longo
trajeto.
         A despeito da proteo que significava estar viajando com uma famlia,
conservou a faca comprida e afiada amarrada no antebrao esquerdo, por baixo
da manga. No parecia rica: suas roupas eram quentes, mas no luxuosas, e o
cavalo forte, mas muito manso. Tinha o cuidado de conservar umas poucas
moedas  mo, dentro de uma bolsa, e nunca mostrar a ningum o pesado cinto
com moedas amarrado na sua cintura por baixo da tnica. Alimentava o beb
discretamente, sem deixar que homens estranhos vissem os seus seios.
         Naquela noite Aliena se sentiu bastante animada por um golpe
esplndido de sorte. Pararam numa aldeia minscula chamada Lessay, e ali Aliena
encontrou um monge que se recordava vivamente de um jovem pedreiro ingls
que ficara fascinado pelo revolucionrio mtodo novo de construir a abbada da
igreja da abadia usando um arcabouo de vigas, como nervuras. Aliena exultou.
O monge ainda se lembrava de Jack dizendo ter desembarcado em Honfleur, o
que explicava no haver traos de sua passagem por Cherbourg. Embora
houvesse decorrido um ano, o homem falou prolixamente sobre Jack, e ficou
bvio que se deixara fascinar por ele. Aliena ficou muito animada por conversar
com algum que o vira. Era a confirmao de que estava no caminho certo.
         Aps algum tempo, deixou o monge e foi se deitar no cho da casa de
hspedes da abadia. Estava caindo no sono quando abraou o menino com fora
e sussurrou, com os lbios colados na sua orelhinha cor-de-rosa:
         - Vamos encontrar o seu papai.
         O beb adoeceu em Tours.
         A cidade era rica, suja e superpovoada. Os ratos corriam em bandos por
entre os grandes trapiches de cereais  margem do rio Loire. Estava cheia de
peregrinos. Tours era o tradicional ponto de partida para a peregrinao a
Santiago de Compostela. Alm disso, o dia de so Martinho, primeiro bispo de
Tours, era iminente, e muitos tinham ido  igreja da abadia para visitar seu
tmulo. So Martinho era famoso por ter cortado sua capa em duas para dar
metade a um mendigo nu. Por causa do dia do santo, as estalagens e albergues de
Tours estavam superlotados. Aliena foi obrigada a aceitar o que pde conseguir, e
ficou numa taverna em pedaos junto ao cais, dirigida por duas irms velhas e
frgeis demais para conseguir manter o lugar limpo.
         A princpio no passou muito tempo na taverna. Com o beb nos braos,
explorou as ruas, perguntando por Jack. Logo percebeu que a cidade estava to
constantemente cheia de visitantes que os estalajadeiros no seriam capazes de se
lembrar nem dos hspedes da semana anterior, de modo que seria intil fazer-
lhes indagaes sobre algum que poderia ter estado ali um ano antes. Deteve-se,
no entanto, em todos os canteiros de obras para perguntar se no haviam
empregado um jovem pedreiro ingls com o cabelo cor de cenoura, chamado
Jack. Ningum havia.
         Ficou desapontada. No tinha nenhuma notcia de Jack desde Lessay. Se
ele tivesse se mantido fiel ao seu plano de ir a Santiago de Compostela, quase
certamente teria vindo a Tours. Comeou a temer que ele pudesse ter mudado de
idia.
         Foi  Igreja de So Martinho, como todo mundo, e ali viu uma equipe de
operrios engajados num extenso trabalho de recuperao. Procurou o mestre,
um homem baixo e mal-humorado, de cabelo rarefeito, e perguntou se ele havia
empregado um pedreiro ingls.
        - Nunca emprego ingleses - disse ele abruptamente, antes que ela pudesse
concluir o que comeara a dizer. - Os pedreiros ingleses no so bons.
        - Esse  muito bom - disse ela. - E fala bem francs, de modo que voc
pode no ter percebido que era ingls. Tem o cabelo cor de cenoura...
        - No, nunca o vi - disse o mestre rudemente, indo embora.
        Aliena voltou para o quarto meio deprimida. Ser destratada sem motivo
algum era muito desestimulante.
        Naquela noite teve um desarranjo intestinal e no dormiu nada. No dia
seguinte sentiu-se doente demais para sair, e passou o dia todo deitada na cama,
na taverna, com o fedor do rio entrando pela janela e o cheiro do vinho
derramado e do leo de cozinha subindo pela escada. Na manh seguinte o beb
estava doente.
        Acordou com ele chorando. No era o choro forte, intenso e exigente de
sempre, e sim um dbil queixume. Estava com o mesmo desarranjo que Aliena
tivera, mas apresentava tambm um quadro de febre. Seus olhos azuis,
normalmente atentos, estavam fechados com o desconforto, e as mozinhas,
cerradas. Sua pele, congestionada, tinha manchas.
        Ele nunca estivera doente antes, e Aliena no sabia o que fazer.
        Deu-lhe o seio. Ele sugou avidamente por algum tempo, chorou de novo
e voltou a sugar. O leite passou direto atravs dele e no pareceu lhe dar conforto
algum.
        Havia uma simptica e jovem camareira trabalhando na taverna, e Aliena
pediu que fosse  abadia e comprasse um pouco de gua benta. Pensou em
mandar buscar um mdico, mas os mdicos sempre queriam sangrar os pacientes,
e ela no podia crer que ajudasse o beb ser sangrado.
        A criada voltou com sua me, que queimou uma poro de ervas secas
numa tigela de ferro. Elas produziram uma fumaa acre que pareceu absorver os
cheiros ruins do lugar.
        - O beb ter sede; d-lhe o seio sempre que ele quiser - disse ela. - Beba
bastante gua tambm, para ter leite suficiente.  tudo o que pode fazer.
        - Ele vai ficar bom? - perguntou Aliena ansiosamente. A mulher a fitou
com comiserao.
        - No sei, querida. Quando eles so to pequenos no se pode dizer.
Geralmente sobrevivem a coisas desse tipo. s vezes, no.  o seu primeiro?
        - Sim.
        - Lembre-se de que sempre poder ter outros.
        Aliena pensou: Mas este filho  de Jack, que perdi. Guardou os
pensamentos para si prpria, agradeceu  mulher e pagou-lhe as ervas.
        Depois que elas se foram, diluiu a gua benta em gua comum,
mergulhou um pano e esfriou a cabea do beb.
        Ele pareceu piorar  medida que o dia passava. Aliena lhe deu o seio
quando chorou, cantou para ele quando esteve acordado e o refrescou com gua
fria quando dormiu.
        Ele mamou o tempo todo, mas intermitentemente. Por sorte, Aliena
tinha muito leite - sempre tivera. Ela prpria ainda estava doente e se
alimentando de po seco e vinho aguado. Com o passar das horas veio a odiar o
quarto em que estava, com suas paredes imundas nuas, o cho de tbuas rsticas,
a porta malfeita e uma janelinha horrvel. Tinha precisamente quatro peas de
moblia: a cama desconjuntada, um banco de trs pernas, uma vara para pendurar
roupas e um castial de p com trs pontas mas uma vela s.
        Quando caiu a noite a criada veio e acendeu a vela. Olhou para o beb,
que estava deitado na cama, balanando braos e pernas e choramingando.
        - Pobrezinho - disse ela. - No entende por que se sente to mal.
        Aliena saiu do banco e foi para a cama, mas deixou a vela acesa, a fim de
poder ver o beb. Durante toda a noite os dois cochilaram intermitentemente.
Por volta da madrugada a respirao do menino tornou-se superficial, e ele parou
de chorar e de se mexer.
        As lgrimas comearam a correr pelo rosto de Aliena. Perdera a trilha de
Jack e seu beb ia morrer ali, num lugar cheio de estranhos, em uma cidade to
longe de casa. Nunca mais haveria outro Jack, e ela nunca mais teria outro filho.
Talvez morresse tambm. Seria o melhor. Talvez fosse o melhor.
        Ao amanhecer, apagou a vela com um sopro e caiu num sono exausto.
        Um barulho alto vindo do andar de baixo despertou-a de sbito. O sol
estava alto, e a margem do rio embaixo da sua janela apresentava-se
ruidosamente atarefada.
        O beb estava imvel, com o rosto tranquilo, afinal. A mo fria do medo
comprimiu-lhe o corao. Ps a mo no seu peitinho: no estava nem quente
nem frio. Ela ofegou, assustada. Ento, estremecendo-se todo, ele soltou um
suspiro fundo e abriu os olhos. Aliena quase desmaiou de alvio.
        Agarrou-o, abraando-o com fora. O beb rompeu no choro. Percebeu
que ele estava bem de novo; sua temperatura era normal e ele no estava com
dores. Ofereceu-lhe o seio e ele sugou avidamente. Em vez de virar o rosto
depois de alguns momentos, ele continuou e, quando um seio secou, mamou
todo o leite do outro. Ento mergulhou num sono profundo e satisfeito.
        Aliena deu-se conta de que seus sintomas tambm haviam desaparecido,
embora se sentisse exausta. Dormiu ao lado do beb at o meio-dia, depois o
amamentou de novo; em seguida se dirigiu ao salo de refeies da taverna e
almoou queijo de cabra e po fresco com um pouco de bacon.
        Talvez fosse a gua santa de so Martinho que tivesse curado o beb.
Naquela tarde voltou  igreja para dar graas ao santo na sua tumba.
         Enquanto estava na igreja da grande abadia, observou os operrios
trabalhando e pensou em Jack, que afinal ainda no vira o prprio filho. Gostaria
de saber se ele teria se desviado da rota que tencionara seguir. Talvez estivesse
trabalhando em Paris, cinzelando pedras para alguma nova catedral. Enquanto
pensava nele, seus olhos se fixaram num modilho que estava sendo instalado
pelos operrios. Havia sido cinzelada nele a figura de um homem que parecia
estar sustentando o pilar nas costas. Ela ofegou. Soube instantaneamente, sem
sombra de dvida, que aquela figura retorcida e angustiada fora cinzelada por
Jack. Ento ele estivera ali!
         Com o corao batendo em disparada, ela se aproximou dos homens que
estavam fazendo o trabalho.
         - Aquele modilho... - disse, sem flego. - O homem que o esculpiu era
ingls, no era?
         Foi um velho trabalhador com o nariz quebrado quem respondeu:
         - Isso mesmo. Foi Jack Fitzjack que esculpiu. Nunca vi nada parecido em
minha vida.
         - Quando foi que ele esteve aqui? - perguntou Aliena. Prendeu a
respirao enquanto o velho coava a cabea branca por cima de um gorro
sebento.
         - J deve estar fazendo quase um ano. No ficou por muito tempo, se me
entende. O mestre no gostou dele. - Abaixou o Tom de voz. - Jack era bom
demais, se quer saber a verdade. Exps as deficincias do mestre. Ento teve que
ir embora. - com essas palavras, colocou um dedo por cima do nariz, num gesto
de confidncia.
         - Ele disse para onde estava indo? - perguntou Aliena excitadamente.
         O velho olhou para o beb.
         - O filho  dele, no ?... Se  que o cabelo quer mesmo dizer alguma
coisa...
         - Sim,  dele.
         - Voc acha que Jack vai gostar de v-la?
         Aliena percebeu que o velho achava que Jack poderia estar fugindo dela.
Deu uma risada.
         - Oh, sim! Vai ficar muito satisfeito por me ver.
         Ele deu de ombros.
         - Disse que estava indo para Santiago de Compostela, pelo menos foi o
que afirmou.
         - Muito obrigada! - exclamou Aliena, feliz, e para assombro e deleite do
velho, beijou-o.
         As trilhas de peregrinos atravessavam a Frana e convergiam em Ostabat,
ao sop dos Pireneus. Ali o grupo de cerca de vinte peregrinos com quem Aliena
viajava aumentou para setenta. Era um grupo com os ps doloridos mas alegre:
alguns cidados prsperos, outros provavelmente fugindo da justia, uns bbados
e diversos monges e padres.
        Os religiosos estavam ali por razes de f, mas os outros pareciam
dispostos a se divertir. Diversas lnguas eram faladas, inclusive o flamengo, uma
lngua germnica e um dialeto do sul da Frana chamado "oc". No obstante, no
havia falta de comunicao entre eles e, enquanto atravessavam os Pireneus,
cantavam, brincavam, contavam histrias e - em diversas ocasies - tinham casos
de amor.
        Depois de Tours, lamentavelmente, Aliena no mais encontrou pessoas
que se lembrassem de Jack. No entanto, no havia tantos menestris quanto
imaginara ao longo da rota pela Frana. Um dos peregrinos flamengos, um
homem que j fizera a viagem antes, disse que haveria mais do lado espanhol das
montanhas.
        Ele estava certo. Em Pamplona, Aliena ficou animada ao descobrir um
menestrel que se recordava de ter conversado com um jovem ingls de cabelo
cor de cenoura que lhe perguntara acerca do pai.
         medida que os cansados peregrinos se deslocavam lentamente pelo
norte da Espanha em direo  costa, ela foi encontrando diversos menestris, e
a maioria se lembrava de Jack. Constatou, com crescente excitao, que todos
diziam ter ele afirmado estar se dirigindo para Santiago de Compostela, e
ningum o encontrara retornando.
        Isso significava que Jack ainda estava l.
        Quanto mais seu corpo ficava dodo, mais animada ela se sentia. Mal
pde conter o otimismo nos ltimos dias da jornada. J estavam no inverno, mas
o tempo era ensolarado e a temperatura, amena. O beb, agora com seis meses,
parecia saudvel e feliz. Tinha certeza de que encontraria Jack em Santiago de
Compostela.
        Chegaram l no dia de Natal.
        Foram direto para a catedral e assistiram  missa. A igreja naturalmente
estava superlotada. Aliena deu uma poro de voltas por entre os fiis,
examinando-lhes o rosto, mas Jack no se encontrava ali. Claro, no era muito
devoto; na verdade nunca ia  igreja, a no ser para trabalhar. Quando encontrou
acomodaes, j estava escuro. Foi para a cama, mas quase no conseguiu dormir
de excitao, sabendo que Jack provavelmente estaria a poucos passos de onde se
encontrava, e que no dia seguinte o veria, o beijaria e lhe mostraria o filho.
        Acordou  primeira luz do dia. O beb sentiu sua impacincia e mamou
um tanto irritado, mordendo o mamilo com as gengivas. Ela o lavou
apressadamente e saiu com ele nos braos.
        Caminhando pelas ruas poeirentas, esperava ver Jack ao dobrar cada
esquina. Como ele ficaria assombrado ao v-la! E como ficaria satisfeito! No
entanto, no o viu nas ruas, e comeou a visitar as estalagens. Assim que as
pessoas se puseram a trabalhar, foi aos canteiros de obras e falou com os
pedreiros. Sabia as palavras para "pedreiro" e "ruivo" em castelhano, e os
habitantes de Santiago de Compostela estavam acostumados com estrangeiros, de
modo que conseguiu se comunicar; porm, no encontrou nenhum indcio de
Jack. Comeou a se preocupar. Deveriam conhec-lo. No era o tipo de pessoa
que podia passar facilmente despercebida, e devia ter vivido ali diversos meses.
Ficou tambm atenta para ver se encontrava outro trabalho de cinzelagem
caracterstico dele, mas no viu nenhum.
        Pelo meio da manh encontrou uma estalajadeira de meia-idade, de rosto
vermelho, que falava francs e se lembrava de Jack.
        - Um belo rapaz...  seu? De qualquer maneira, nenhuma das garotas da
cidade conseguiu nada com ele. Esteve aqui no vero, mas no ficou muito
tempo, o que foi uma pena. No disse para onde ia. Gostei dele. Se encontr-lo,
d-lhe um grande beijo meu.
        Aliena voltou para o seu quarto e deitou-se, olhando para o teto. O beb
choramingou, mas daquela vez ela o ignorou. Estava exausta, desapontada e
saudosa de casa.
        No era justo: seguira-o at Santiago de Compostela, mas ele tinha ido
para outro lugar qualquer!
        Como no voltara aos Pireneus, e como no havia nada a oeste de
Compostela a no ser uma faixa estreita de litoral e o oceano que ia at o fim do
mundo, Jack deveria ter seguido no rumo sul. Teria que partir de novo, na sua
gua cinzenta, com o beb nos braos, para o interior da Espanha.
        Gostaria de saber quo distante de casa teria que ir antes de sua
peregrinao chegar ao fim.

         Jack passou o dia de Natal com seu amigo Raschid Alharoun em Toledo.
Raschid era um sarraceno batizado que fizera fortuna importando especiarias do
Oriente, especialmente pimenta. Encontraram-se na missa de meio-dia e foram
caminhando ao clido sol do inverno, pelas ruas estreitas e pelo mercado,
caracteristicamente oriental e extremamente fragrante, at o bairro rico.
        A casa de Raschid era feita de uma deslumbrante pedra branca e
construda em torno de um ptio com um chafariz. Suas arcadas sombrias faziam
com que Jack se lembrasse do claustro do priorado de Kingsbridge. Na Inglaterra
elas davam proteo contra o vento e a chuva, mas aqui sua finalidade era reduzir
o calor do sol.
        Raschid e seus hspedes sentaram-se em almofadas sobre o cho e
jantaram com a comida posta numa mesa baixa. Os homens eram servidos por
sua esposa e filhas e vrias criadas, cuja posio na casa era, de certa forma,
duvidosa: como cristo, Raschid s podia ter uma mulher, mas Jack suspeitava
que disfaradamente ele passasse por cima da proibio de concubinas decretada
pela Igreja.
         As mulheres eram a maior atrao da hospitaleira casa de Raschid. Todas
eram bonitas. Sua esposa era uma mulher escultural e graciosa, com a pele
moreno-escura muito lisa, o cabelo negro lustroso e brilhantes olhos castanhos.
Suas filhas eram verses mais esbeltas. Havia trs delas. A mais velha estava
noiva de outro convidado, o filho de um mercador de seda da cidade.
         - Minha Raya  a filha perfeita - disse Raschid, enquanto ela circulava em
torno da mesa com uma grande taa de gua perfumada para os convidados
mergulharem as mos. -  atenciosa, obediente e linda. Josef  um homem de
sorte. - O noivo baixou a cabea, confirmando suas palavras.
         A segunda filha era orgulhosa, at mesmo arrogante. Deu a impresso de
ficar ressentida com o elogio dirigido  irm. Lanou um olhar de superioridade a
Jack quando lhe serviu uma bebida, enchendo seu clice com uma jarra de cobre.
         - O que  isto? - perguntou ele.
         - Licor de menta - respondeu ela desdenhosamente. No gostava de
servi-lo, pois era filha de um grande homem, e ele, um vagabundo sem dinheiro.
         Era da terceira irm, Aysha, que Jack mais gostava. Nos trs meses em
que ali estava, viera a conhec-la bastante bem. Tinha quinze ou dezasseis anos,
era pequena e cheia de vida e estava sempre sorrindo. Embora fosse trs ou
quatro anos mais moa que ele, no parecia infantil. Tinha a inteligncia viva,
cheia de curiosidade.
         Fazia-lhe interminveis perguntas sobre a Inglaterra e o modo de vida
ingls. Frequentemente fazia pouco dos costumes da sociedade de Toledo - o
jeito esnobe dos rabes, as cansativas exigncias dos judeus e o mau gosto dos
novos ricos cristos -, fazendo s vezes Jack ter ataques de riso. Embora fosse a
mais jovem, parecia a menos inocente das trs: alguma coisa no modo como
olhava para Jack, quando se debruava  sua frente para colocar um prato de
camares apimentados na mesa, revelava, sem sombra de dvida, um trao
licencioso. Ela atraiu a ateno dele e disse "Licor de menta" numa imitao
perfeita do jeito arrogante da irm, e Jack teve que rir. Quando estava com Aysha
quase sempre podia esquecer Aliena por algumas horas.
         Mas quando estava longe daquela casa, Aliena se fazia presente na sua
cabea com tanta intensidade como se a houvesse visto ainda na vspera. A
lembrana que tinha dela era dolorosamente vvida, embora no a visse h mais
de um ano. Era capaz de relembrar qualquer uma de suas expresses quando
bem entendesse: risonha, pensativa, desconfiada, ansiosa, satisfeita, atnita e,
com mais clareza, que qualquer uma das outras, apaixonada. No se esquecera de
nada acerca do seu corpo, e ainda podia ver a curva do seu seio, sentir a
suavidade da pele da parte interna da sua coxa, o sabor do seu beijo, o cheiro do
seu desejo. com muita frequncia a desejava.
         Para se curar desse infrutfero desejo, s vezes imaginava o que Aliena
devia estar fazendo. Via-a descalando as botas de Alfred no fim do dia,
sentando-se para comer a seu lado, beijando-o, fazendo amor com ele e dando o
seio para um beb que era a cara de Alfred. Tais vises o torturavam, mas no o
impediam de desej-la.
         Nesse dia, de Natal, Aliena assaria um cisne e o enfeitaria com suas
prprias penas para servi-lo, e haveria para beber uma mistura preparada com
cerveja, ovos e noz-moscada. A comida colocada  frente de Jack no poderia ser
mais diferente. Havia pratos de carneiro temperado de modo estranho, arroz
misturado com nozes e saladas com molho de azeite e sumo de limo. Levara
algum tempo para Jack se acostumar com a cozinha da Espanha. Eles nunca
serviam grandes pedaos de carne de boi, pernis de porco ou de veado, sem os
quais nenhum banquete seria completo na Inglaterra, nem tampouco consumiam
grossas fatias de po. No tinham as opulentas pastagens capazes de sustentar
imensos rebanhos de gado, ou um solo rico que produzisse grandes quantidades
de trigo. Compensavam as quantidades relativamente pequenas de carne com
maneiras engenhosas de cozinh-la com todo tipo de especiarias, e no lugar do
trivial po da Inglaterra, dispunham de uma ampla variedade de frutas e verduras.
         Jack estava morando com um pequeno grupo de clrigos ingleses em
Toledo. Faziam parte de uma comunidade internacional de estudiosos, que
incluam judeus, muulmanos e cristos rabes. Os ingleses se ocupavam
traduzindo obras de matemtica do rabe para o latim, para que pudessem ser
lidas por cristos. Havia uma atmosfera de febril excitao entre eles, na
descoberta e explorao do tesouro da sabedoria rabe; deram, com naturalidade,
as boas-vindas a Jack como estudante: admitiam em seu crculo qualquer um que
entendesse o que faziam e compartilhasse do seu entusiasmo.
         Eram como camponeses que tivessem trabalhado durante anos para
arrancar suas colheitas de um solo rido e que subitamente tivessem se mudado
para um rico vale aluvial.
         Jack abandonara a construo pelo estudo da matemtica. Ainda no
precisara trabalhar por dinheiro: os clrigos lhe deram uma cama e todas as
refeies que quisesse, e lhe dariam novo hbito e sandlias se precisasse. Raschid
era um dos seus patrocinadores. Sendo comerciante internacional, era poliglota e
cosmopolita em suas atitudes. Em casa falava castelhano, o idioma da Espanha
crist, e no rabe. Sua famlia toda falava tambm francs, a lngua dos
normandos, que eram importantes comerciantes. Embora fosse mercador, tinha
inteligncia vigorosa e extensa curiosidade. Adorava conversar com os eruditos
sobre suas teorias. Gostara imediatamente de Jack, e este jantava em sua casa
diversas vezes por semana.
         - O que foi que os filsofos nos ensinaram nesta semana? - perguntou
Raschid quando comearam a comer.
        - Estou lendo Euclides. - Seu livro Elementos fora um dos primeiros
traduzidos.
        - Euclides  um nome esquisito para um rabe - disse Ismail, irmo de
Raschid.
        - Ele era grego - explicou Jack. - Viveu antes do nascimento de Cristo.
Seu trabalho foi perdido pelos romanos mas preservado pelos egpcios; por isso
chega at ns em rabe.
        - E agora os ingleses o esto traduzindo para o latim! - disse Raschid. -
Isso me diverte.
        - Mas o que voc aprendeu? - quis saber Josef, o noivo de Raya.
        Jack hesitou. Era difcil de explicar. Tentou ser prtico.
        - Meu padrasto, o construtor, ensinou-me a realizar certas operaes em
geometria: como dividir exatamente uma linha em duas partes, como desenhar
um ngulo reto e como desenhar um quadrado dentro de outro de modo que o
menor tenha a metade da rea do maior.
        - Qual o propsito de saber essas coisas? - interrompeu Josef. Havia uma
nota de escrnio em sua voz. Via Jack como um arrivista e tinha cime da
ateno que Raschid lhe dispensava.
        - Essas operaes so essenciais quando se projeta um prdio -
respondeu Jack amavelmente, fingindo no perceber o tom de voz do outro. - D
uma olhada neste ptio. A rea das arcadas cobertas em torno do seu permetro 
exatamente a mesma da rea descoberta central. A maior parte dos pequenos
ptios  construda dessa forma, incluindo-se os claustros dos mosteiros. 
porque essas propores so mais agradveis. Se a parte central for maior, vai
ficar parecendo com uma praa de mercado, e se for menor, poder parecer um
buraco no telhado. Mas para conseguir exatamente isso, o construtor tem que ser
capaz de desenhar a parte descoberta no meio de modo que tenha precisamente
metade da rea de todo o conjunto.
        - Eu no sabia disso! - exclamou Raschid triunfantemente. No havia
nada de que ele gostasse mais do que aprender algo novo.
        - Euclides explica por que essas tcnicas funcionam - prosseguiu Jack. -
Por exemplo, as duas partes da linha dividida so iguais porque formam os lados
correspondentes de tringulos coincidentes.
        - Coincidentes? - estranhou Raschid.
        - Exatamente iguais.
        - Ah, sim, agora entendo.
        Jack podia garantir que ningum mais tinha entendido.
        - Mas voc era capaz de realizar todas essas operaes geomtricas antes
de ler Euclides - disse Josef -, de modo que no vejo por que estaria em melhores
condies agora.
        - Um homem sempre melhora de condies quando compreende alguma
coisa! - protestou Raschid.
         - Alm disso - acrescentou Jack -, agora que entendo os princpios da
geometria, posso ser capaz de imaginar solues para novos problemas que
teriam deixado meu padrasto frustrado. - Na verdade, era Jack quem estava se
sentindo frustrado com aquela conversa: Euclides chegara at ele com o claro
ofuscante de uma revelao, mas no estava conseguindo comunicar a
emocionante importncia dessas novas descobertas. Mudou um pouco sua
abordagem. -  o mtodo de Euclides que  o mais interessante - disse. - Ele
pega cinco axiomas - verdades auto-evidentes - e deduz tudo mais a partir delas,
num exerccio de lgica.
         - D-me o exemplo de um axioma - pediu Raschid.
         - Uma linha pode ser prolongada indefinidamente.
         - No pode, no - disse Aysha, que servia uma travessa de figos.
         Os convidados ficaram um tanto espantados ao ver uma garota entrar
numa discusso, mas Raschid riu indulgentemente: Aysha era sua favorita.
         - E por que no? - perguntou ele.
         - Porque uma hora ela tem que terminar - respondeu Aysha.
         - Mas na sua imaginao ela poderia prosseguir indefinidamente - disse
Jack.
         - Na minha imaginao, o rio pode subir a montanha e os cachorros
falarem latim - retorquiu ela.
         Sua me entrou na sala e ouviu sua rplica.
         - Aysha! - exclamou severamente. - Fora!
         Todos os homens riram. Aysha fez uma careta e saiu.
         - Quem quer que se case com ela vai ter muito trabalho! - disse o pai de
Josef. Todos riram de novo. Jack riu tambm; s depois notou que todos o
olhavam, como se a piada tivesse sido dirigida a ele.
         Aps o jantar, Raschid exibiu sua coleo de brinquedos mecnicos. Ele
tinha um tanque em que se podia misturar gua e vinho e do qual as duas bebidas
saam separadamente; um maravilhoso relgio movido a gua, que marcava todas
as horas do dia com fenomenal preciso; um jarro que se recompletava mas
nunca derramava; e uma pequena esttua de madeira de uma mulher, cujos olhos
eram feitos de uma espcie de cristal que absorvia gua no calor do dia e que a
vertia no frio da noite, de modo que parecia estar chorando. Jack compartilhava
com Raschid o fascnio por aqueles brinquedos, mas o que mais o intrigava era a
esttua que chorava, pois enquanto os mecanismos dos outros eram simples, uma
vez explicados, ningum entendia realmente como a esttua funcionava.
          tarde sentaram-se nas arcadas em torno do ptio, disputando jogos,
cochilando ou conversando preguiosamente. Jack gostaria de ter pertencido a
uma famlia grande assim, com irmos, tios e afins, e com uma casa que todos
pudessem visitar, bem como uma posio de respeito numa pequena cidade.
Subitamente rememorou a conversa que tivera com a me na noite em que ela o
libertara da cela do priorado. Ele lhe perguntara sobre os parentes do pai e ela lhe
dissera: Sim, ele tinha uma grande famlia, l na Frana. Tenho uma famlia como
esta em algum lugar, pensou Jack. Os irmos e irms de meu pai so meus tios e
tias. Pode ser que eu tenha primos da minha idade. Ser que vou chegar a
conhec-los?
         Sentia-se  deriva. Podia sobreviver em qualquer lugar mas no pertencia
a lugar nenhum. Havia sido cinzelador, construtor, monge e matemtico, e no
sabia qual deles era o verdadeiro Jack, se  que existia um Jack de verdade. s
vezes se perguntava se no deveria ser menestrel como o pai, ou proscrito, como
a me. Estava com dezenove anos, no tinha lar, famlia, razes ou um objetivo
na vida.
         Jogou xadrez com Josef e ganhou; depois Raschid se aproximou.
         - D-me sua cadeira, Josef - pediu ele; - quero saber mais sobre Euclides.
         Josef obedientemente deu sua cadeira ao futuro sogro e se afastou - j
tinha ouvido tudo o que jamais ia querer saber a respeito de Euclides. Raschid
sentou-se e perguntou a Jack:
         - Voc est se divertindo?
         - Sua hospitalidade  inigualvel - disse Jack polidamente. Tinha
aprendido maneiras refinadas em Toledo.
         - Muito obrigado. Mas eu estava querendo saber se voc estava
aproveitando bem o estudo de Euclides.
         - Sim, contudo acho que no obtive xito ao explicar a importncia do
livro. Voc v...
         - Acho que compreendo voc - interrompeu Raschid. - Tambm amo o
saber pelo prprio saber.
         - Sim.
         - Mesmo assim, todo homem tem que ganhar a vida.
            Jack no apreendeu a pertinncia da observao, e ficou esperando que
Raschid dissesse mais alguma coisa. No entanto, o sarraceno ficou sentado com
os olhos semicerrados, aparentemente satisfeito por desfrutar do
companheirismo daquele momento de silncio. Jack comeou a se perguntar se
Raschid no o estaria reprovando por no trabalhar. E acabou por dizer:
         - Espero um dia voltar a trabalhar em construo.
         - timo.
         Jack sorriu.
         - Quando deixei Kingsbridge, montado no cavalo da minha me, com as
ferramentas de meu padrasto num saco pendurado no ombro, pensava que s
havia um modo de construir uma igreja: paredes grossas com arcos redondos e
janelinhas encimadas por um teto de madeira ou uma abbada de pedra. As
catedrais que vi no meu caminho de Kingsbridge a Southampton provaram o
contrrio. Mas a Normandia mudou a minha vida.
        - Posso imaginar - disse Raschid sonolentamente. No estava muito
interessado, e Jack rememorou aqueles dias em silncio...
        Horas depois de ter desembarcado em Honfleur estava contemplando a
igreja da Abadia de Jumiges. Era a mais alta que j vira, mas tinha os usuais
arcos redondos e teto de madeira - exceto na casa do cabido, onde o abade Urso
construra um revolucionrio teto de pedra. Em vez de uma superfcie cilndrica
contnua e lisa, ou de uma abbada de arestas, esse teto tinha nervuras, como
costelas, que saam do topo das colunas e se encontravam na sua parte mais alta.
Eram grossas e fortes, e as sees triangulares do teto entre elas eram delgadas e
leves. O monge zelador da obra explicou a Jack que era mais fcil construir
daquele modo: as vigas eram colocadas primeiro, e as sees intermedirias, que
vinham depois, tornavam-se mais simples de fazer. Aquele tipo de teto era mais
leve. O monge estava na esperana de ouvir de Jack notcias sobre as inovaes
tcnicas na Inglaterra, e o rapaz teve que desapont-lo. No entanto, sua evidente
admirao pelo novo tipo de teto agradou muito o religioso, que lhe disse haver
uma igreja em Lessay, no muito distante, cujo teto era daquele jeito.
        Jack foi para Lessay no dia seguinte, e gastou toda a tarde na igreja,
admirando extasiado a abbada. O mais impressionante, concluiu por fim, era o
modo como as nervuras, descendo da parte mais alta do teto at os capitis no
topo das colunas, pareciam dramatizar o fato de o peso do telhado estar sendo
sustentado pelos seus integrantes mais fortes. Elas tornavam visveis a lgica da
construo.
        Jack viajou para o sul, para o condado de Anjou, e conseguiu trabalho na
igreja da Abadia de Tours, fazendo reparos. No teve problema em convencer o
mestre a aceit-lo para uma experincia. As ferramentas que trazia consigo
mostravam que era pedreiro, e aps um dia de trabalho o mestre viu que era dos
bons. quilo de que se jactara com Aliena, de que era capaz de arranjar trabalho
em qualquer parte do mundo, no era inteiramente infundado.
        Entre as ferramentas que herdara de Tom, estava a rgua de um p.
Somente mestres construtores tinham essa rgua, e quando os outros
descobriram que ele possua uma perguntaram-lhe como havia se tornado mestre
com to pouca idade. Seu primeiro desejo foi explicar que no era na realidade
mestre construtor, mas depois decidiu dizer que era. Afinal de contas, dirigira
efetivamente o canteiro de obra de Kingsbridge no tempo em que era monge, e
podia desenhar plantas to bem quanto Tom.
        Mas o mestre com quem estava trabalhando ficou aborrecido ao
descobrir que contratara um possvel rival. Um dia Jack sugeriu uma modificao
ao monge encarregado da obra, e desenhou o que queria dizer no cho. Foi esse
o incio dos seus problemas. O mestre construtor se convenceu de que Jack
estava querendo o seu lugar. Comeou a descobrir defeitos no que fazia e o
incumbiu da tarefa montona de cortar blocos de pedra.
         Pouco tempo depois Jack seguiu viagem novamente. Foi para a Abadia
de Cluny, a sede de um imprio monstico que se estendia por toda a
cristandade. Fora a ordem ali sediada que iniciara e patrocinara a agora famosa
peregrinao ao tmulo de so Tiago, em Compostela. Ao longo de toda a
extenso da estrada de Compostela havia igrejas dedicadas a so Tiago e
mosteiros geridos pela ordem com a finalidade de cuidar dos peregrinos. Como o
pai de Jack fora um menestrel na rota dos peregrinos, parecia provvel que
tivesse visitado Cluny.
         No entanto, no tinha. No havia menestris em Cluny. Jack nada
descobriu a respeito de seu pai ali.
         Mesmo assim, a viagem no foi absolutamente intil. Todos os arcos que
Jack vira at o momento em que entrou na igreja da Abadia de Cluny eram
semicirculares, e todos os tetos abobadados ou eram cilndricos, como uma longa
sucesso de arcos redondos colados uns nos outros, ou de arestas, como um
cruzamento onde dois cilindros se encontravam. Os arcos de Cluny no eram
semicirculares.
         Eles se erguiam at um ponto.
         Havia arcos ogivais nas arcadas principais; as abbadas de arestas das
naves laterais tinham arcos ogivais; e - o mais espantoso de tudo - acima da nave
principal havia um teto de pedra que s podia ser descrito como uma abbada.
Jack sempre aprendera que um crculo era forte por ser perfeito, e um arco
redondo tambm era forte por ser parte de um crculo. Ele teria pensado que
arcos ogivais fossem fracos. Na verdade, disseram-lhe os monges, os arcos
ogivais eram consideravelmente mais fortes que os antigos arcos redondos. A
igreja de Cluny parecia ser uma prova disso, pois, a despeito do grande peso da
cantaria na sua abbada ogival, era muito alta.
         Jack no ficou muito tempo em Cluny. Continuou para o sul, seguindo a
estrada dos peregrinos, desviando-se sempre que um capricho o levava a se
desviar. No incio do vero havia menestris ao longo de toda a estrada, nas
grandes cidades e nas proximidades dos mosteiros da ordem de Cluny. Eles
recitavam suas narrativas em versos para as multides de peregrinos em frente s
igrejas e santurios, s vezes acompanhando-se ao alade, exatamente do modo
como Aliena lhe contara. Jack a todos abordou, perguntando se tinham
conhecido Jack Shareburg. Todos disseram que no.
         As igrejas que viu no seu caminho atravs do sudoeste da Frana e do
norte da Espanha continuaram a assombr-lo. Eram todas muito mais altas que
as catedrais inglesas.
         Algumas tinham abbadas cilndricas cintadas. Essas cintas, ou
braadeiras, ligavam uma pilastra  outra cruzando a abbada da igreja e
tornavam possvel construir por estgios, intercolnio por intercolnio, em vez
de todos ao mesmo tempo. Mudavam tambm a aparncia da igreja. Ao enfatizar
a diviso entre os intercolnios, revelavam que os edifcios eram uma srie de
unidades idnticas, como um po cortado em fatias, e dessa forma impunham
ordem e lgica ao vasto espao interior.
         Esteve em Santiago de Compostela em pleno vero. Nunca soubera que
houvesse lugares to quentes no mundo. A igreja da cidade tambm era
incrivelmente alta, e a nave, ainda em construo, tinha, da mesma forma, uma
abbada cintada. Dali seguiu para o sul.
         Os reinos espanhis tinham estado sob domnio muulmano at pouco
tempo; na verdade, a maior parte do territrio ao sul de Toledo ainda se
encontrava sob dominao islmica. A aparncia das construes sarracenas
fascinou Jack: seus interiores altos e frios, suas arcadas, o emprego de pedra
ofuscantemente branca  luz do sol.
         Mas o mais interessante de tudo foi descobrir que tanto as abbadas
providas de nervuras quanto os arcos ogivais apareciam na arquitetura
muulmana. Talvez tivesse sido ali que os franceses houvessem aprendido suas
novas idias.
         Nunca mais poderia trabalhar em outra igreja como a Catedral de
Kingsbridge, pensou, naquela quente tarde espanhola, ouvindo vagamente as
risadas das mulheres vindas de algum ponto longnquo da grande e fria casa.
Ainda desejava construir a catedral mais bonita do mundo, mas no seria uma
estrutura macia, slida, lembrando uma fortaleza. Queria usar as novas tcnicas,
os tetos com nervuras e os arcos em ponta. Pensava, contudo, que no as
empregaria do jeito como at ento haviam sido usadas. Nenhuma das igrejas que
vira explorara ao mximo suas possibilidades. Uma imagem da sua igreja
comeou a se formar na sua cabea. Os detalhes ainda pareciam indistintos, mas
o esboo geral era muito forte: seria uma construo espaosa e arejada, com a
luz do sol atravessando suas imensas janelas e uma abbada arqueada to alta que
daria a impresso de atingir o cu.
         - Josef e Raya precisaro de uma casa - disse Raschid subitamente. - Se
voc a construir, outras obras se seguiro.
         Jack ficou surpreso. No pensara em construo de casas.
         - Acha que vo querer que eu construa a casa deles? - perguntou.
         -  possvel.
         Seguiu-se outro longo silncio, durante o qual Jack meditou na hiptese
de ser construtor de casas para os mercadores abastados de Toledo.
         Raschid pareceu acordar completamente. Sentou-se direito e abriu mais
os olhos.
         - Gosto de voc, Jack - disse ele. -  um homem honesto, com quem vale
a pena conversar, o que  muito mais do que pode ser dito em favor da maioria
das pessoas que conheo. Espero que sejamos sempre amigos.
        - Eu tambm - disse Jack, meio espantado com o elogio inesperado.
        - Sou cristo, de modo que no conservo as minhas mulheres trancadas,
como fazem alguns dos meus irmos muulmanos. Por outro lado, sou rabe, o
que significa que no lhes dou bastante aquilo... perdoe-me a liberdade... com
que as outras mulheres esto acostumadas. Permito que conheam e que
conversem com os convidados masculinos da casa. Permito at mesmo que
amizades se desenvolvam. Mas no ponto onde a amizade comea a se
transformar em algo mais - como acontece naturalmente entre gente jovem -,
espero ento que o homem assuma uma atitude formal. Qualquer outra coisa
seria um insulto.
        - Naturalmente - concordou Jack.
        - Eu sabia que voc concordaria. - Raschid se levantou e ps uma das
mos afetuosamente no ombro de Jack. - Nunca fui abenoado com um filho;
mas se houvesse sido, acho que seria como voc.
        - Mais moreno, espero - disse Jack, cedendo a um impulso.
        Raschid no reagiu por um instante, mas logo caiu na gargalhada,
atraindo a ateno dos outros convidados espalhados em torno do ptio.
        - Sim! - concordou alegremente. - Mais moreno! - E entrou na casa, ainda
rindo.
        Os convidados mais velhos comearam a ir embora. Jack ficou sentado
sozinho, pensando no que lhe fora dito,  medida que a tarde esfriava. Fora
oferecido a ele um trato, quanto a isso no tinha a menor dvida. Se desposasse
Aysha, Raschid o lanaria como construtor de casas entre os abastados de
Toledo. Havia tambm uma advertncia: se no tencionasse se casar com ela,
deveria se manter afastado. As pessoas na Espanha tinham maneiras mais
requintadas que os ingleses, mas eram capazes de deixar bem claro o que queriam
dizer, quando necessrio.
        Ao refletir naquela situao por diversas vezes Jack achou-a inacreditvel.
Ser que sou eu mesmo?, pensou. Ser que este  o Jack, filho bastardo de um
homem que foi enforcado, criado na floresta, aprendiz de pedreiro, monge
fugitivo? Esto mesmo me oferecendo em casamento a linda filha de um rico
mercador rabe, alm de um modo seguro de ganhar a vida como construtor
nesta cidade to agradvel? Parece bom demais para ser verdade. Eu at mesmo
gosto da garota!
        O sol estava se pondo e o ptio mergulhara na sombra. S haviam
restado duas pessoas na arcada - ele e Josef. Estava imaginando se aquela situao
poderia ter sido planejada, quando Raya e Aysha apareceram, comprovando que
sim. A despeito da rigidez terica relativa ao contato fsico entre moas e rapazes,
a me delas sabia exatamente o que estava acontecendo, e decerto tambm
Raschid. Proporcionaria aos namorados alguns momentos de isolamento; depois,
antes que houvesse tempo para acontecer algo srio, ela apareceria no ptio,
fingindo-se ultrajada, e mandaria que as garotas entrassem.
         Do outro lado do ptio Josef e Raya comearam imediatamente a se
beijar. Jack levantou-se quando Aysha se aproximou dele. Estava usando um
vestido branco que arrastava no cho, feito de algodo egpcio, um tecido que
Jack nunca vira antes de vir  Espanha. Mais macio que a l e mais fino que o
linho, colava nas suas pernas quando andava, e no crepsculo o branco parecia
adquirir brilho prprio, fazendo seus olhos castanhos parecerem quase negros.
Parou junto de Jack, sorrindo maliciosamente.
         - O que foi que ele lhe disse? - perguntou. Jack viu que se referia ao pai.
         - Ofereceu-me uma posio de construtor de casas.
         - Que dote! - exclamou ela desdenhosamente. - No posso acreditar! Pelo
menos poderia ter oferecido dinheiro.
         Aysha no tinha pacincia com os tradicionais rodeios rabes, observou
Jack. Gostava da franqueza dela.
         - No creio que eu queira construir casas.
         Ela ficou solene de repente.
         - Voc gosta de mim?
         - Voc sabe que eu gosto.
         Aysha deu um passo  frente, ergueu o rosto, fechou os olhos, ficando na
ponta dos ps, e beijou-o. Ela cheirava a almscar e mbar-gris. Abriu a boca e
meteu a lngua por entre os lbios dele. Os braos de Jack a envolveram quase
que involuntariamente. Suas mos a cingiram pela cintura. O algodo era muito
fino: parecia que lhe tocava a pele nua. Ela pegou-lhe a mo e a ps sobre o seio.
O corpo de Aysha era esbelto e rgido e seu seio, pouco volumoso, um montinho
firme com um bico duro e minsculo na ponta. Ela moveu o peito para cima e
para baixo, ao se excitar. Jack ficou chocado ao sentir a mo dela entre suas
pernas. Apertou o bico do seio com a ponta dos dedos. Ofegante, ela afastou-se.
Ele baixou as mos.
         - Machuquei voc? - murmurou.
         - No! - exclamou ela.
         Jack pensou em Aliena e sentiu-se culpado; viu depois que estava sendo
tolo. Por que deveria se sentir como se estivesse traindo uma mulher que tinha se
casado com outro homem?
         Aysha o fitou por um momento. Estava quase escuro, mas podia ver que
seu rosto estava tomado de desejo. Ela ergueu-lhe a mo e colocou-a novamente
no seio.
         - Aperte de novo, com mais fora - disse excitada. Ele pegou o bico do
seio e inclinou-se para beij-la, mas ela o empurrou para ficar vendo seu rosto
enquanto a acariciava. Jack tocou-o delicadamente a princpio, e depois,
obediente, o apertou com fora. Ela arqueou tanto as costas que os seios chatos
ficaram salientes e os bicos formaram pequenas pregas no tecido do vestido. Jack
baixou a cabea e fechou os lbios em torno de um deles, atravs do algodo.
Ento, cedendo a um impulso, tomou-o entre os dentes e mordeu-o. Ouviu
Aysha respirar fundo.
         Sentiu que o corpo dela estremecia. Aysha ergueu a cabea e se
comprimiu contra ele. Jack colou o rosto ao dela. A garota o beijou
freneticamente, como se quisesse cobrir-lhe o rosto com a boca, e puxou o corpo
dele de encontro ao seu, soltando abafados gemidos de medo. Jack estava
excitado, assustado e at mesmo um pouco temeroso: nunca tinha visto nada
assim. Achou que ela estava quase gozando. Ento foram interrompidos.
         A voz da me dela fez-se ouvir, vinda do portal.
         - Raya! Aysha! Entrem imediatamente!
         Aysha olhou para Jack, ofegante. Aps um momento beijou-o de novo,
com tanta fora que machucou seus lbios. S ento afastou-se.
         - Eu o amo - murmurou, entre os dentes. E a entrou correndo na casa.
         Jack acompanhou-a com o olhar. Raya a seguiu, com um passo mais
calmo. A me delas lanou um olhar desaprovador para ele e Josef e foi atrs das
filhas, batendo a porta decididamente. Jack fixou a porta fechada, imaginando o
que fazer de tudo aquilo.
         Josef atravessou o ptio e interrompeu seu devaneio.
         - Que garotas lindas, as duas! - comentou, com uma piscadela
conspiratria.
         Jack assentiu distraidamente e foi se dirigindo para a sada. Quando
passaram sob o arco, um criado materializou-se nas sombras e fechou o porto.
         - O problema de ser noivo - disse Josef -  que deixa a gente com os ovos
doendo. - Jack no disse nada. - Acho que vou at a Ftima para me aliviar -
Ftima era o bordel. A despeito do nome mouro, quase todas as mulheres do
bordel tinham a pele clara, e as poucas prostitutas rabes eram muito valorizadas.
- Quer ir? - convidou Josef.
         - No - respondeu Jack. - Estou com um tipo diferente de dor. Boa noite.
- Afastou-se depressa. Josef no era sua companhia favorita nas melhores
ocasies, e naquela noite o estado de esprito de Jack era, no mnimo, rancoroso.
         O ar da noite esfriou enquanto retornava para o colgio onde tinha uma
cama dura no dormitrio. Sentia que atingira um ponto crtico. Estava sendo
oferecida a ele uma vida calma e prspera, tudo o que tinha a fazer era esquecer
Aliena e abandonar a aspirao de construir a mais bela catedral do mundo.
         Naquela noite sonhou que Aysha se aproximava, o corpo nu escorregadio
com leo perfumado, e se esfregava nele, mas no deixava que fizesse amor com
ela.
         Quando acordou pela manh, tinha tomado sua deciso.
        Os criados no deixaram Aliena entrar na casa de Raschid Alharoun.
Provavelmente parecia uma mendiga, pensou, parada do lado de fora do porto,
metida numa tnica poeirenta e botas gastas, com o beb nos braos.
        - Diga a Raschid Alharoun que estou procurando o amigo dele chamado
Jack Fitzjack, da Inglaterra - disse em francs, perguntando-se se os criados de
pele morena poderiam compreender uma nica palavra. Aps algumas consultas
cochichadas na lngua deles, um dos criados, um homem alto de pele negra como
carvo e cabelo encarapinhado como o plo de um carneiro, entrou dentro da
casa.
        Aliena esperou impacientemente, enquanto os demais criados a
encaravam, sem disfarce. No aprendera a ter pacincia, nem mesmo naquela
interminvel peregrinao.
        Aps o desapontamento de Santiago de Compostela, seguira a estrada
que demandava o interior da Espanha, para Salamanca. Ali ningum se lembrava
de um rapaz ruivo interessado em catedrais e menestris, mas um monge
bondoso lhe disse que havia uma comunidade de estudiosos ingleses em Toledo.
Parecia uma dbil esperana, mas Toledo no ficava muito longe, e assim ela
seguira pela estrada poeirenta.
        Outro terrvel desapontamento a esperava ali. Sim, Jack estivera em
Toledo - que sorte! -, mas j fora embora. Estava se aproximando: agora s se
encontrava um ms atrs dele. S que, uma vez mais, ningum sabia para onde
tinha ido.
        Em Santiago de Compostela pudera adivinhar que ele devia ter ido para o
sul, porque ela prpria viera do leste e porque havia mar ao norte e a oeste. Ali,
infortunadamente, havia mais possibilidades. Jack poderia ter ido para o nordeste,
voltando para a Frana; para oeste, rumo a Portugal; ou para o sul, na direo de
Granada; e na costa da Espanha poderia pegar um navio para Roma, Tunsia,
Alexandria ou Beirute.
        Aliena decidira desistir da busca se no conseguisse uma forte indicao
do rumo que Jack tomara quando sara dali. Restavalhe muito pouca energia e
determinao, e no podia mais enfrentar a idia de prosseguir sem dispor de
nada alm de uma vaga esperana de sucesso. Estava pronta para fazer meia-volta
e retornar para a Inglaterra, procurando esquecer Jack para sempre.
        Apareceu outro criado, sado da casa branca. Este vestia roupas mais
caras e falava francs. Olhou para Aliena cautelosamente, mas foi polido ao lhe
perguntar:
        - A senhora  amiga do senhor Jack?
        - Sim, uma velha amiga da Inglaterra. Gostaria de falar com Raschid
Alharoun.
        O criado deu uma olhada no beb.
        - Sou parente de Jack - disse Aliena, e no era mentira; embora separada,
era casada com Alfred, filho do padrasto de Jack, o que no deixava de ser um
parentesco.
         O criado abriu mais o porto.
         - Por favor, acompanhe-me - pediu ele.
         Aliena entrou, grata. Se houvesse sido barrada ali, teria sido o fim de
tudo.
         Seguiu o criado atravs de um ptio agradvel e passou por um chafariz.
Gostaria de saber o que atrara Jack  casa de um rico comerciante. Parecia uma
amizade improvvel.
         Teria recitado narrativas em versos  sombra daquelas arcadas?
         Entraram na casa. Era uma residncia palaciana, com aposentos altos e
frescos, piso de pedra e mrmore e moblia elaboradamente entalhada, estofada
com ricas fazendas.
         Passaram por dois arcos e uma porta de madeira, e Aliena teve a
impresso de que estava ingressando na parte destinada s mulheres. O criado fez
um gesto para que esperasse, e pigarreou com delicadeza.
         Um momento depois uma mulher alta, sarracena, vestida com um manto
negro, entrou silenciosamente no aposento, segurando uma ponta do seu traje
em frente  boca, e numa pose que era insultuosa em qualquer linguagem. Olhou
para Aliena e perguntou em francs:
         - Quem  voc?
         Aliena empertigou-se, para ficar mais alta.
         - Lady Aliena, filha do falecido conde de Shiring - disse, o mais
sobranceiramente que pde. - Creio que tenho o prazer de estar me dirigindo 
mulher de Raschid, o vendedor de pimenta. - Ela sabia jogar aquele jogo to bem
quanto qualquer outra pessoa.
         - O que deseja aqui?
         - Vim para ver Raschid.
         - Ele no recebe mulheres.
         Aliena deu-se conta de que no havia como obter a cooperao daquela
criatura. No entanto, como no tinha outro lugar para ir, continuou tentando.
         - Pode ser que ele receba uma amiga de Jack - insistiu.
         - Jack  seu marido?
         - No - respondeu Aliena, hesitante. -  meu cunhado. A mulher assumiu
uma expresso de ceticismo. Como a maioria das pessoas, provavelmente
presumiu que Jack engravidara Aliena, a abandonara e agora ela o perseguia com
objetivo de for-lo a despos-la e sustentar o filho.
         A mulher fez meia-volta e exclamou algo num idioma que Aliena no
entendeu. Um momento depois trs mulheres jovens entraram. Era bvio, pela
sua aparncia, que se tratava de suas filhas. Dirigiu-se a elas na mesma lngua e
todas encararam Aliena. Seguiu-se uma rpida conversa em que o nome de Jack
foi repetido inmeras vezes.
         Aliena sentiu-se humilhada. Estava tentada a girar nos calcanhares e ir
embora, mas isso significaria desistir tambm de encontrar Jack. Aquelas pessoas
horrveis eram a sua ltima esperana. Ergueu a voz, interrompendo a conversa,
e perguntou:
         - Onde est Jack? - Tencionava ser autoritria, mas, para sua aflio, a
voz dela pareceu apenas suplicante.
         As irms fizeram silncio.
         - No sabemos onde ele est - disse a me.
         - Quando o viram pela ltima vez?
         Ela hesitou. No queria responder, mas no poderia fingir que no sabia
quando o vira pela ltima vez.
         - Ele deixou Toledo no dia seguinte ao Natal - respondeu relutantemente.
         Aliena forou um sorriso amistoso.
         - Lembra-se de ele ter dito qualquer coisa a respeito do lugar para onde
podia estar indo?
         - Eu j lhe disse que no sei onde ele se encontra.
         - Talvez tenha dito ao seu marido.
         - No, no disse.
         Aliena se desesperou. Teve a intuio de que aquela mulher sabia de algo.
Era claro, no entanto, que no ia revelar o que sabia. De repente sentiu-se fraca e
amedrontada.
         Foi com lgrimas nos olhos que disse:
         - Jack  o pai do beb. Acham que ele no gostaria de ver o prprio filho?
         A mais moa das trs irms comeou a dizer qualquer coisa, mas a me a
interrompeu. Houve uma discusso rpida e violenta: me e filha tinham o
mesmo temperamento forte. Mas no fim a filha se calou.
         Aliena aguardou, mas nada mais foi dito. As quatro se limitaram a encar-
la. A atitude delas era inquestionavelmente hostil, mas sua curiosidade era tanta
que no tinham pressa de v-la ir-se. Contudo Aliena nada ganharia, ficando. O
melhor a fazer era sair, voltar para o seu quarto e preparar-se para a longa viagem
de volta para Kingsbridge. Respirou fundo e disse com voz fria e firme:
         - Agradeo pela sua hospitalidade...
         A me teve a delicadeza de ficar ligeiramente envergonhada.
         Aliena deixou o aposento.
         O criado esperava do lado de fora, e a acompanhou atravs da casa.
Aliena conteve as lgrimas. Era intoleravelmente frustrante saber que toda a sua
viagem fracassara por causa da maldade de uma mulher.
         O criado acompanhou-a na travessia do ptio. Ao chegarem ao porto,
Aliena ouviu o barulho de uma pessoa correndo. Olhou para trs para ver a filha
mais moa vindo na sua direo. Parou e esperou. O criado ficou inquieto.
        A garota era baixa e esbelta, e muito bonita, com a pele dourada e os
olhos to escuros que pareciam pretos. Usava um vestido branco e fez com que
Aliena se sentisse suja e poeirenta. Falava francs, embora sem fluncia.
        - Voc o ama? - foi perguntando.
        Aliena hesitou. Chegou  concluso de que no lhe sobrara dignidade
para ser perdida.
        - Sim, eu o amo - confessou.
        - Ele a ama?
        Estava prestes a dizer que sim, mas se lembrou de que no o via h mais
de um ano.
        - Ele me amava - respondeu.
        - Acho que ele a ama - disse a garota.
        - O que a faz dizer isso?
        Os olhos da outra encheram-se de lgrimas.
        - Eu o queria para mim. E quase o consegui. - Fitou o beb. - Olhos azuis
e cabelo ruivo. - As lgrimas escorreram pelo seu rosto moreno de pele macia.
        Aliena a fitou espantada. Aquilo explicava a recepo hostil. A mulher de
Raschid queria que Jack se casasse com aquela garota, que no poderia ter mais
que dezesseis anos, mas cuja aparncia sensual a fazia parecer mais velha. Aliena
gostaria de saber exatamente o que acontecera entre eles.
        - Voc disse que "quase" o conseguiu?
        - Sim - respondeu a garota desafiadoramente. - Eu sabia que ele gostava
de mim. Partiu meu corao quando foi embora. Mas agora compreendo. - Ela
perdera a compostura e seu rosto estava contorcido de dor.
        Aliena podia entender uma mulher que amara Jack e o perdera. Tocou no
ombro da garota, num gesto reconfortante. Mas havia algo mais importante que
compaixo.
        - Sabe para onde ele foi?
        Ela ergueu a cabea e fez que sim, soluando.
        - Diga-me!
        - Paris - disse ela. - Paris!
        Aliena ficou entusiasmada. Estava de volta  estrada. Paris ficava longe,
mas a viagem seria, em sua maior parte, em uma terra com que estava
familiarizada. E Jack s tinha um ms de vantagem sobre ela. Sentiu-se
revigorada. No fim o encontrarei, pensou; sei que o encontrarei!
        - Voc vai para Paris agora? - perguntou a garota.
        - Oh, sim - respondeu Aliena. - J vim to longe, no vou parar agora.
Muito obrigada por me dizer, muito obrigada.
        - Quero que ele seja feliz - disse a garota com simplicidade.
        O criado remexeu-se, insatisfeito. Dava a impresso de achar que poderia
se meter em encrenca por causa daquilo.
          - Ele disse algo mais? Que estrada tomaria, ou algo que pudesse me
ajudar?
         - Ele quer ir para Paris porque algum lhe disse que esto construindo
lindas igrejas l.
         Aliena assentiu. Poderia ter adivinhado isto.
         - E ele levou a dama que chora.
         Aliena no entendeu.
         - A dama que chora?
         - Meu pai lhe deu a dama que chora.
         - Uma dama?
         A garota sacudiu a cabea.
         - No sei as palavras certas. Uma dama. Chora. Os olhos...
         - Voc se refere a uma pintura? Uma dama pintada?
         - No compreendo - disse a garota. Ela olhou por cima do ombro,
ansiosa. - Tenho que ir.
         Fosse o que fosse a tal dama que chorava, no parecia importante.
         - Muito obrigada por me ajudar - disse Aliena.
         A garota inclinou-se e beijou a testa do beb. Suas lgrimas caram nas
bochechas redondas dele. Aysha olhou para Aliena:
         - Eu queria ser voc. - com essas palavras, virou-se e foi correndo para
dentro da casa.

         O quarto de Jack ficava na Rue de la Boucherie, num subrbio de Paris 
margem esquerda do Sena. Selou seu cavalo ao raiar do dia. No fim da rua virou
 direita e passou pela torre do porto que guardava a Petit Pont, que levava 
cidade na ilha no meio do rio.
         As casas de madeira de ambos os lados projetavam-se sobre as orlas da
ponte. Nos intervalos entre elas havia bancos de pedra onde, pela manh, mais
tarde, professores famosos dariam aulas ao ar livre. A ponte conduziu Jack 
Juiverie, a principal rua da ilha. As padarias estavam cheias de estudantes que
compravam seu desjejum.
         Jack escolheu um pastel recheado com enguia cozida.
         Virou  esquerda em frente  sinagoga, depois  direita no palcio do rei e
cruzou a Grand Pont, que levava  margem direita. As lojas pequenas e bem
construdas dos cambistas e ourives, em ambos os lados, comeavam a abrir as
portas. No final da ponte passou por outro porto e entrou no mercado de peixe,
onde o movimento j era intenso. Abriu caminho por entre a multido e tomou a
estrada lamacenta que levava a Saint-Denis.
         Quando ainda estava na Espanha, tomara conhecimento, atravs de um
pedreiro viajante, de um tal abade Suger e da nova igreja que estava construindo
em Saint-Denis.
        Enquanto viajava na direo norte atravs da Frana, trabalhando por
alguns dias sempre que precisava de dinheiro, ouvia o nome de SaintDenis
mencionado com frequncia.
        Parecia que os construtores estavam usando as duas tcnicas novas,
abbadas com vigas e arcos ogivais, e a combinao era notvel.
        Jack cavalgou por mais de uma hora atravs de campos e videiras. A
estrada no era pavimentada, mas tinha marcos que indicavam sua extenso.
Passou pela colina chamada Montmartre, com as runas de um templo romano
no topo, e atravessou a aldeia de Clignancourt. Quase cinco milhas aps, chegou
 pequena cidade murada de Saint-Denis.
        So Dionsio(1) fora o primeiro bispo de Paris. Decapitado em
Montmartre, caminhara, carregando nas mos a cabea, at aquele ponto no meio
do campo, onde finalmente cara. Uma mulher piedosa o enterrara, e um
mosteiro fora construdo sobre seu tmulo. A igreja passara a ser o local onde
eram enterrados os reis de Frana.
        (1) Saint Denis, em francs. (N. do E.)

        O abade atual, Suger, era um homem poderoso e cheio de ambio que
reformara o mosteiro e que agora estava modernizando a igreja.
        Jack entrou na cidade e parou o cavalo no meio da praa do mercado
para olhar a fachada oeste da igreja. No havia nada de revolucionrio ali. Era
uma fachada reta e antiquada com torres gmeas e trs portas de arcos redondos.
Gostou do jeito um tanto agressivo como as pilastras se projetavam das paredes,
mas no teria viajado oito milhas para ver aquilo.
        Amarrou o cavalo numa grade em frente  igreja e aproximou-se mais. A
escultura em torno dos trs portais era muito boa: motivos vigorosos, trabalho de
cinzelagem preciso. Jack entrou.
        Dentro a mudana foi imediata. Antes da nave propriamente dita, havia
uma entrada baixa, chamada nrtex, uma espcie de vestbulo ou prtico.
Olhando para o teto, Jack foi invadido por uma onda de entusiasmo. Os
construtores tinham usado as tcnicas dos tetos abobadados com nervuras e
arcos ogivais combinadas, e Jack viu, de pronto, que elas harmonizavam
perfeitamente. A graa do arco ogival era acentuada pelas nervuras que seguiam
seu desenho.
        Havia mais. Entre as vigas que compunham a estrutura do arco, em vez
do usual tranado de massa e cacos de pedra, o construtor pusera pedras
cortadas, como numa parede. Sendo mais forte o arco, a camada de pedra
provavelmente podia ser mais fina, e assim, mais leve, pensou Jack.
        Enquanto olhava para cima, torcendo o pescoo at doer, Jack
compreendeu outra caracterstica notvel daquela combinao. Dois arcos ogivais
de diferentes larguras poderiam atingir a mesma altura, simplesmente ajustando-
se a curva do arco. Isso daria ao intercolnio um aspecto mais regular. No
poderia ser feito com arcos redondos, claro: a altura de um arco semicircular era
sempre a metade de sua largura, de modo que o mais largo devia ser mais alto
que o mais estreito. Desse modo, se o intercolnio - espao entre as colunas -
fosse retangular, os arcos estreitos deveriam ter incio de pontos na parede mais
altos que os arcos largos, a fim de que os topos ficassem no mesmo nvel e o teto
fosse reto. O resultado era sempre algo enviezado. Esse problema agora
desaparecia.
        Jack baixou a cabea para descansar o pescoo. Sentia-se to jubiloso
como se tivesse sido coroado rei. Era daquele modo, pensou, que iria construir a
sua catedral.
        Examinou o corpo principal da igreja. A nave propriamente dita era,
claro, bastante velha, embora comprida e larga: fora construda muitos anos
antes, por outra pessoa que no o atual mestre, e era bastante convencional. Mas
na interseo, ou cruzeiro, parecia haver uma escada para baixo, sem dvida
levando  cripta e aos tmulos reais, e outra para cima, levando ao coro. A
impresso era de que o coro flutuava um pouco acima do cho. A estrutura era
obscurecida, daquele ngulo, pela ofuscante luz do sol que entrava pelas janelas
do lado leste, com tanta intensidade que Jack chegou a pensar que as paredes no
estariam concludas e o sol passava pelos claros.
        Foi caminhando ao longo da nave lateral sul na direo do cruzeiro. Ao
se aproximar do coro, sentiu que havia algo de realmente notvel  sua frente. A
luz do sol jorrava para dentro da igreja, mas a abbada do teto estava completa e
no havia falhas nas paredes. Quando terminou de percorrer a nave e pisou na
interseo, viu que a luz passava atravs de uma srie de janelas altas, algumas
feitas de vidros coloridos, e que toda aquela claridade parecia encher o vazio da
igreja de calor e luz. Jack no pde entender como tinham conseguido uma rea
to grande de janelas: parecia haver mais janelas que paredes. Ficou atnito.
Como aquilo poderia ter sido feito, seno por mgica?
        Sentiu um arrepio de medo supersticioso ao subir os degraus que
levavam ao coro. Parou no topo da escada, contemplando a confuso de raios de
luz colorida e de pedra  sua frente. Percebeu que j vira alguma coisa assim
antes, mas na sua imaginao. Aquela era a igreja que sonhara construir, com suas
imensas janelas e abbadas altas, uma estrutura de luz e ar que parecia sustentada
por encanto.
        Um momento depois sua viso se modificou. Tudo se acomodou nos
respectivos lugares subitamente, e, numa espcie de revelao, Jack viu o que o
abade Suger e seu construtor tinham feito.
        O princpio das abbadas com nervuras era construir o teto usando umas
poucas vigas fortes, preenchendo os espaos entre elas com material leve.
Tinham aplicado aquele princpio a toda a igreja. A parede do coro consistia em
umas poucas pilastras fortes ligadas pelas janelas. A arcada que separava o coro
das naves laterais no era uma parede, mas uma srie de pilares unidos por arcos
ogivais, deixando espaos largos atravs dos quais a luz das janelas podia atingir o
meio da igreja.
         A prpria nave era dividida em duas por uma fileira de finas colunas.
         Arcos ogivais e a tcnica da abbada estruturada em vigas tinham sido
combinados ali da mesma forma como no prtico de entrada, mas agora ficava
claro que ali fora feita uma experincia cautelosa da nova tecnologia. Comparado
com aquilo, ele era grosseiro, as vigas pesadas demais, os arcos muito pequenos.
Ali tudo era delgado, leve, delicado, gracioso. As molduras com ornatos simples,
em forma de espiral, eram todas estreitas, e as colunetas, compridas e delgadas.
         Teria parecido demasiado frgil para ficar de p, a no ser pelo fato de as
vigas mostrarem com tanta clareza como o peso da construo era sustentado
pelas pilastras e colunas. Ali estava uma demonstrao visvel de que um edifcio
grande no precisava de paredes grossas com janelas minsculas e pilastras
volumosas. Desde que o peso fosse distribudo precisamente sobre um esqueleto
capaz de sustent-lo, o resto da obra podia ser de cantaria leve, vidro ou espao
vazio. Jack estava fascinado.
         Euclides fora uma revelao, mas aquilo era mais que uma revelao,
porque tambm era bonito. Tivera vises de uma igreja como aquela, e agora a
estava contemplando, podia tocar nela, encontrava-se sob sua abbada da altura
do cu.
         Caminhou em xtase at o lado leste, que era curvo, com os olhos fixos
na abbada da nave dupla. As vigas arqueavam-se sobre sua cabea como galhos
numa floresta de rvores de pedra perfeitas. Ali, tal como no nrtex da entrada, o
espao entre as vigas do teto fora preenchido com pedra cortada unida por
argamassa, em vez da mais fcil e mais pesada mistura de cacos de pedra com
massa. O lado externo da nave tinha pares de janelas grandes com os topos
pontudos, para se harmonizar com os arcos. A arquitetura revolucionria era
perfeitamente complementada pelos vitrais. Jack nunca vira vitrais na Inglaterra,
mas encontrara diversos exemplos na Frana; no entanto, nas janelinhas de uma
igreja de estilo antigo eles no podiam atingir todo o seu potencial. Ali, o efeito
do sol da manh se derramando atravs das janelas ricamente coloridas era mais
que bonito, era fascinante.
         Porque a igreja terminava em curva, as naves laterais tambm faziam uma
curva para se encontrarem na extremidade leste, formando uma galeria
semicircular. Jack percorreu todo o meio crculo, virou-se e voltou, ainda
maravilhado. Retornou ao ponto de partida.
         Ali viu uma mulher.
         Reconheceu-a.
         Ela sorriu.
        O corao dele parou.
        Aliena protegeu os olhos. A luz que vinha atravs dos vitrais do lado leste
da igreja a cegou. Como uma viso, um vulto caminhou para onde estava,
emergindo daquele esplendor colorido. Seu cabelo parecia em chamas. Ele
chegou mais perto. Era Jack.
        Aliena achou que fosse desmaiar.
        Jack adiantou-se e parou  sua frente. Estava magro, terrivelmente magro,
mas seus olhos brilhavam com intensa emoo. Os dois se encararam em silncio
por um momento.
        Quando ele falou, sua voz estava rouca.
        -  voc mesmo?
        - Sim - disse ela. Sua voz no passou de um murmrio. - Sim, Jack, sou
eu.
        A tenso foi demasiada, e Aliena comeou a chorar. Ele a abraou, com o
beb a separ-los, e deu umas palmadinhas nas suas costas, dizendo: "Calma,
calma", como se faz com as crianas. Ela apoiou-se nele, sentindo seu cheiro
familiar, ouvindo sua voz querida a acalm-la, deixando as lgrimas carem no seu
ombro magro.
        Por fim ele a encarou.
        - O que voc est fazendo aqui?
        - Procurando voc.
        - Voc estava me procurando? - perguntou incrdulo. - Ento. .. como
foi que me achou?
        Ela enxugou os olhos e fungou.
        - Eu o segui.
        - De que modo?
        - Perguntei s pessoas se o tinham visto. Pedreiros, principalmente, mas
tambm alguns monges e estalajadeiros.
        Ele arregalou os olhos.
        - Quer dizer que... voc esteve na Espanha?
        Ela assentiu.
        - Santiago de Compostela, depois Salamanca e Toledo.
        - H quanto tempo est viajando?
        - H nove meses.
        - Mas por qu?
        - Por que o amo.
        Ele ficou aturdido pela emoo. Seus olhos se encheram de lgrimas.
        - Tambm a amo.
        - Ama, mesmo? Ainda me ama?
        - Oh, sim!
        Aliena podia garantir que ele estava sendo sincero. Ergueu o rosto. Jack
inclinou-se, por cima do beb, e a beijou delicadamente.
        O contato dos seus lbios deixou-a tonta.
        O beb chorou.
        Ela interrompeu o beijo e o embalou um pouco; ele se acalmou.
        - Qual  o nome do beb? - perguntou Jack.
        - Ainda no lhe dei um nome.
        - Por que no? Ele j deve ter um ano!
        - Queria consultar voc.
        - Eu? - Jack franziu a testa, sem entender. - E Alfred? E o pai... - Ele se
interrompeu. - Por qu?... Ele... Ele  meu filho?
        - Olhe para ele - foi a resposta de Aliena.
        Jack o olhou.
        - Cabelo ruivo... J deve fazer um ano e nove meses desde que...
        Aliena assentiu.
        - Meu Deus! - exclamou Jack, assombrado. - Meu filho!
        - Engoliu em seco.
        Ela observou ansiosamente seu rosto para ver como ele recebia a notcia.
Veria aquilo como o fim da sua juventude e liberdade? A expresso dele tornou-
se solene.
        Normalmente o homem tem nove meses para se acostumar com a idia
de ser pai. Jack teve que se acostumar de imediato. Olhou de novo para o beb e
por fim sorriu.
        - Nosso filho - disse. - Sinto-me to feliz!
        Aliena suspirou de felicidade. Tudo estava bem, afinal. Outra idia
ocorreu a Jack.
        - E Alfred? Ele sabe... ?
        - Claro. S teve que olhar para a criana. Alm disso... - Ela se sentiu
embaraada. - Alm disso, sua me amaldioou o casamento, e Alfred nunca foi
capaz, voc sabe, de fazer qualquer coisa.
        Jack deu uma risada.
        - Isso  o que se chama justia - disse.
        Aliena no gostou da satisfao com que ele declarou aquilo.
        - Foi muito difcil para mim - disse, em tom de suave reprovao.
        A expresso dele logo se alterou.
        - Sinto muito. O que foi que Alfred fez?
        - Quando viu o beb, me expulsou de casa.
        Jack ficou furioso.
        - Ele a machucou?
        - No.
        -  um porco, assim mesmo.
        - Sinto-me feliz porque nos expulsou. Foi por causa disso que vim
procurar voc. E agora o encontrei. Estou to feliz que no sei o que fazer!
        - Voc foi muito corajosa - disse Jack.
        -  difcil de acreditar. Voc me seguiu desde l!
        - Faria tudo de novo - garantiu ela ardorosamente. Ele a beijou de novo.
        - Se vocs insistem em se comportar libidinosamente na igreja - ouviram
em francs, - por favor, permaneam na nave.
        Era um jovem monge.
        - Desculpe, padre - disse
        Jack, pegando o brao de Aliena. Desceram a escada e atravessaram o
transepto sul.
        - Fui monge durante algum tempo - acrescentou Jack. - Sei como  duro
para eles verem amantes felizes se beijando!
        Amantes felizes, pensou Aliena.  o que somos. Atravessaram toda a
extenso da igreja e saram na movimentada praa do mercado. Aliena mal podia
crer que estivesse ao sol com Jack do seu lado. Era quase felicidade demais para
aguentar.
        - Bem - disse ele, o que vamos fazer?
        - No sei - respondeu ela, sorrindo. - Vamos comprar um po e um
frasco de vinho e seguir at o campo para comer. - Parece o paraso.
        Foram ao padeiro e ao negociante de vinhos, e depois compraram um
naco de queijo de uma mulher no mercado. Logo depois estavam saindo a cavalo
da aldeia e entrando no campo.
        Aliena tinha que ficar olhando para Jack a fim de se certificar de que ele
estava ali mesmo ao seu lado, respirando e sorrindo.
        - Como Alfred est tocando a obra? - quis saber ele.
        - Oh, no lhe contei! - Ela se esquecera de que Jack estava fora h muito
tempo. - Houve um desastre terrvel. O teto ruiu.
        - O qu? - A exclamao de Jack foi to alta que assustou o cavalo. Ele o
acalmou. - Como aconteceu?
        - Ningum sabe. Completaram o teto de trs intercolnios para a festa de
Pentecostes, e caiu tudo durante a missa. Foi terrvel; setenta e nove pessoas
morreram.
        - Que horror! - Jack ficou abalado. - Como o prior Philip reagiu?
        - Pessimamente. Desistiu de prosseguir a obra. Parece ter perdido toda a
energia. No faz nada, atualmente.
        Jack achou difcil imaginar Philip naquele estado - ele sempre fora to
cheio de entusiasmo e determinao!
        - E o que aconteceu com os artfices?
        - Todos foram embora. Alfred mora em Shiring, e constri casas.
        - Kingsbridge deve estar meio vazia.
        - Est voltando a ser uma aldeia, como antigamente.
         - O que ser que Alfred fez de errado? - perguntou Jack, mais para si
mesmo. - A abbada de pedra nunca fez parte do projeto de Tom, mas Alfred
reforou os arcobotantes para que pudessem aguentar o peso, de modo que no
devia ter dado problema.
         A notcia o entristeceu um pouco, e os dois prosseguiram em silncio.
Mais ou menos a duas milhas de Saint-Denis, amarraram os cavalos  sombra de
um olmo e se sentaram num campo de trigo verde, ao lado de um pequeno
regato, para comer. Jack tomou um gole de vinho e estalou os lbios.
         - A Inglaterra no tem nada que se compare ao vinho francs - disse.
         Partiu o po e deu um pedao a Aliena. Timidamente ela abriu a frente
rendada do vestido e deu o seio ao beb. Surpreendeu Jack olhando-a e corou.
Pigarreou e disse, meio sem graa, para disfarar a vergonha que sentia:
         - Sabe como gostaria de cham-lo? Jack, talvez?
         - No sei - disse ele, pensativo. - Jack foi o pai que nunca conheci.
Poderia ser m sorte dar o mesmo nome ao nosso filho. A pessoa mais parecida
com um pai que tive foi Tom Construtor.
         - Voc gostaria de cham-lo de Tom?
         - Acho que sim.
         - Tom era um homem to grande! Que tal Tommy?
         Jack aquiesceu.
         - Tommy ser seu nome.
         Indiferente ao significado do momento, Tommy cara no sono, com a
barriga cheia. Aliena o deitou no cho com um leno dobrado sob a cabea
servindo de travesseiro. Depois olhou para Jack. Estava meio desconcertada.
Queria fazer amor, ali mesmo sobre a grama, mas estava certa de que ele se
sentiria chocado se lhe pedisse, de modo que limitou-se a ficar encarando o e
esperar.
         - Se eu lhe disser uma coisa - disse ele, voc promete que no vai pensar
mal de mim?
         - Claro.
         - Desde quando a vi - continuou Jack, embaraado, - no consigo pensar
em mais nada seno no seu corpo nu debaixo do vestido.
         Aliena sorriu.
         - No penso mal de voc - disse. - Estou feliz. - Ele a fitou avidamente. -
Adoro quando voc me olha assim - disse ela.
         Jack engoliu em seco. Aliena estendeu as mos, e ele adiantou-se,
abraando-a. Fazia quase dois anos desde a ltima e nica vez em que tinham
feito amor.
         Naquela manh haviam se deixado arrastar pelo desejo e depois pelo
arrependimento. Agora eram apenas dois amantes no campo. Subitamente Aliena
sentiu-se ansiosa. Tudo sairia bem? Seria terrvel se algo sasse errado, aps tanto
tempo. Deitaram-se na grama, lado a lado, e se beijaram.
       Ela fechou os olhos e abriu a boca. Sentiu a mo dele no corpo,
explorando tudo ansiosamente. Sua excitao aumentou. Ele beijou-lhe as
plpebras e a ponta do nariz e disse:
       - Todo esse tempo, todos os dias, ansiei por voc.
       Ela o abraou com fora.
       - Estou to contente por t-lo encontrado! Fizeram amor, feliz e
suavemente, ao ar livre, banhados pela luz do sol e com o regato rumorejando a
seu lado; Tommy dormiu o tempo todo, e acordou quando tudo j estava
acabado.

        A esttua de madeira da dama no chorava desde que deixara a Espanha.
Jack no compreendia como funcionava, de modo que no sabia ao certo por
que o fenmeno no ocorrera longe do seu pas de origem. Tinha, no entanto, a
idia de que as lgrimas que corriam ao cair da noite eram causadas pelo sbito
resfriamento do ar; notara que o pr-do-sol era gradual nos territrios ao norte, e
suspeitava que o problema tinha a ver com o anoitecer mais lento.
        Ainda conservava a esttua, contudo. Era um tanto desconfortvel ter
que carreg-la, pelo seu tamanho, mas representava uma lembrana de Toledo, e
o fazia recordar Raschid, e tambm (embora no dissesse isso a Aliena) Aysha.
Mas quando um pedreiro em Saint-Denis quis um modelo para uma esttua da
Virgem, Jack levou a dama de madeira para o galpo dele e a deixou ali. Jack fora
contratado pelo abade para trabalhar na reconstruo da igreja. O novo coro, que
tanto o impressionara, no estava inteiramente completo, e tinha que ser
terminado para a cerimnia de consagrao, no incio do vero; o enrgico abade,
porm, j estava se preparando para reconstruir a nave no mesmo estilo
revolucionrio, e Jack foi contratado para ir adiantando o trabalho de cantaria.
        A abadia alugou-lhe uma casa na aldeia, onde se instalaram; e na primeira
noite Jack e Aliena fizeram amor cinco vezes. Viver juntos como marido e
mulher parecia a coisa mais natural do mundo. Poucos dias depois Jack tinha a
impresso de que sempre haviam morado juntos. Ningum lhes perguntou se sua
unio havia sido abenoada pela Igreja.
        O mestre construtor de Saint-Denis era certamente o maior pedreiro que
Jack j conhecera. Enquanto terminavam o coro novo e se preparavam para
reconstruir a nave, Jack observava-o e absorvia tudo o que dizia. Os avanos
tcnicos ali eram dele, e no do abade. Suger era favorvel a novas idias, de
modo geral, mas estava mais interessado em ornamentos do que na estrutura. Seu
projeto favorito era uma nova tumba para os restos de so Dionsio e seus dois
companheiros, Rstico e Eleutrio.
        As relquias eram conservadas na cripta, mas Suger planejava lev-las para
o novo coro, de modo que todo mundo pudesse v-las. Os trs esquifes
descansariam numa tumba de pedra guarnecida de mrmore negro. Seu topo era
uma igreja em miniatura, de madeira dourada; na nave central e nas naves laterais
da miniatura havia trs caixes vazios, um para cada mrtir. A tumba ficaria no
meio do novo coro, junto  parte de trs do novo altar-mor. Tanto o altar quanto
a sua base j se encontravam no lugar, e a igreja em miniatura estava no galpo
dos carpinteiros, onde um meticuloso arteso cuidadosamente dourava a madeira
com uma carssima tinta de ouro.
        Suger no era homem de fazer as coisas pela metade.
        O abade era um formidvel organizador; Jack observou bem isso 
medida que os preparativos para a cerimnia de consagrao se aceleravam.
Convidou todo mundo que fosse importante, destacando-se o rei e a rainha de
Frana, e dezenove arcebispos e bispos, inclusive o de Canterbury. Esses
fragmentos de notcias eram recolhidos pelos artesos que trabalhavam na igreja.
Jack o via com frequncia, com seu hbito de l grosseira, caminhando
energicamente pelo mosteiro, dando instrues a um bando de monges que o
seguiam como patinhos. Fazia com que Jack se lembrasse de Philip de
Kingsbridge. Como o prior, Suger tinha origem pobre e fora criado no mosteiro.
        Como Philip, reorganizara as finanas e apertara as rdeas da
administrao das propriedades do mosteiro de modo a fazer com que
produzissem muito mais renda; e como Philip, estava gastando o dinheiro extra
numa obra. Finalmente, assim como Philip, era operoso, enrgico e decidido.
        S que Philip no era mais nada disso, segundo Aliena.
        Jack achava difcil imaginar uma coisa dessas. Um Philip inerte era to
pouco provvel quanto um Waleran Bigod bondoso. No entanto, sofrera uma
srie de desapontamentos terrveis. Primeiro fora o incndio da cidade. Jack
estremecia ao relembrar aquele dia horroroso: a fumaa, o medo, os terrveis
cavaleiros com seus archotes flamejantes e o pnico cego da multido histrica.
Talvez tivesse sido ali que Philip perdera o nimo. Certamente a cidade perdera a
coragem depois. Jack se lembrava muito bem: a atmosfera de medo e insegurana
que impregnara tudo, como o cheiro ainda pouco intenso mas inconfundvel de
podrido. Sem dvida o prior tencionara que a cerimnia de inaugurao do coro
fosse um smbolo de nova esperana. Depois, com a festa se transformando em
outro desastre, devia ter desistido.
        Agora os operrios tinham ido embora, o mercado declinara e a
populao estava diminuindo. Os jovens comeavam a se mudar para Shiring,
dissera Aliena. Era apenas um problema de nimo,  claro: o priorado ainda tinha
todas as suas propriedades, inclusive os imensos rebanhos de carneiros que
geravam centenas d libras anualmente.
        Se fosse apenas uma questo de dinheiro, com certeza Philip teria
condies de recomear a obra, em alguma escala. No seria fcil, claro; os
pedreiros eram supersticiosos para trabalhar numa igreja que j rura uma vez, e
seria difcil despertar o entusiasmo do povo novamente. Mas o principal
problema, a julgar pelo que Aliena contara, era Philip ter perdido a vontade. Jack
gostaria de poder fazer alguma coisa para ajudar.
         Nesse meio tempo, os bispos, arcebispos, duques e condes comearam a
chegar a Saint-Denis, dois ou trs dias antes da cerimnia. Todos os notveis
foram levados a fazer uma visita acompanhada  igreja. Suger em pessoa
acompanhava os visitantes de maior importncia, enquanto os dignitrios
menores eram conduzidos por monges ou artesos. Todos ficavam assombrados
com a leveza da nova construo e o efeito da claridade do sol nos imensos
vitrais. Como praticamente todos os importantes lderes religiosos da Frana
estavam vendo aquilo, ocorreu a Jack que era bem possvel que o novo estilo
viesse a ser largamente imitado; na verdade, os pedreiros que pudessem dizer que
haviam trabalhado ali passariam a estar em grande demanda. Vir para Saint-Denis
fora um lance inteligente, mais do que imaginara: aumentara grandemente suas
chances de projetar e construir uma catedral.
         O rei Lus chegou no sbado, com a mulher e a me, instalando-se na
casa do abade. Naquela noite as matinas foram cantadas desde o lusco-fusco at a
madrugada. Ao raiar do sol havia uma multido de camponeses e cidados de
Paris do lado de fora da igreja, aguardando aquilo que prometia ser a maior
assemblia de religiosos e homens de poder que a maioria deles jamais vira. Jack
e Aliena juntaram-se  multido assim que Tommy foi alimentado. Um dia,
pensou Jack, direi a Tommy: "Voc no se lembra, mas quando tinha um ano de
idade viu o rei de Frana".
         Levaram po e sidra para o desjejum e comeram enquanto esperavam
que o espetculo tivesse incio. O povo no tinha permisso para entrar na igreja,
 claro, e os homens de armas do rei mantinham as pessoas a distncia; no
entanto, as portas estavam abertas, e todos se aglomeravam onde podiam
enxergar alguma coisa. A nave estava superlotada de lordes e ladies. Felizmente o
coro ficava um pouco acima do nvel do solo, por causa da grande cripta
existente sob ele, e Jack pde assistir  cerimnia assim mesmo.
         Houve uma agitao na extremidade mais longnqua da nave, e de
repente todos os nobres inclinaram a cabea, reverentes. Por sobre as cabeas,
Jack viu o rei entrar na igreja, vindo do lado sul. No dava para distinguir as
feies dele, mas sua tnica prpura era uma mancha intensa de cor quando se
deslocou para o centro da interseo e se ajoelhou ante o altar-mor. Os bispos e
arcebispos vieram imediatamente depois. Envergavam ofuscantes hbitos
brancos bordados a ouro, e cada bispo portava o seu bculo cerimonial. O bculo
representava o cajado de um pastor, mas alguns eram ornamentados com jias
fabulosas, a tal ponto que a procisso cintilava como as guas de um regato nas
montanhas ao sol.
         Todos atravessaram vagarosamente a igreja e subiram os degraus do
coro, dirigindo-se a lugares predeterminados em torno da pia, na qual - Jack sabia
porque assistira aos preparativos - havia diversos gales de gua benta. Seguiu-se
ento uma calmaria, durante a qual se proferiram oraes e se entoaram hinos. A
multido ficou inquieta, e Tommy impaciente. Ento os bispos saram de novo
em procisso.
         Deixaram a igreja pela porta sul e desapareceram no claustro, para grande
desapontamento dos espectadores; porm, emergiram depois dos prdios
monsticos e desfilaram pela frente da igreja. Cada bispo carregava um pequeno
instrumento chamado de aspersrio e um receptculo com gua benta; ao
caminharem, cantando, mergulhavam os instrumentos na gua e aspergiam as
paredes da igreja. A multido comprimiu-se, tentando se adiantar, as pessoas
suplicando uma bno e tentando tocar no hbito imaculadamente branco dos
santos homens. Os homens de armas do rei batiam no povo com bastes. Jack
deixou-se ficar para trs. No queria bno e preferia ficar longe daqueles
bastes.
         A procisso prosseguiu, majestosa, pelo lado norte da igreja, e a multido
foi atrs, pisoteando as sepulturas do cemitrio. Alguns espectadores tinham se
posicionado ali antecipadamente e resistiram  presso dos recm-chegados.
Houve uma ou duas brigas.
         Os bispos passaram pelo prtico norte e continuaram, contornando o
semicrculo da face leste, a parte nova. Era ali que as oficinas dos artfices tinham
sido construdas, e a multido se lanou por entre as barracas, ameaando
derrubar as frgeis construes de madeira. Quando os lderes da procisso
comearam a desaparecer no interior da abadia, os membros mais histricos da
multido ficaram desesperados e pressionaram com mais determinao. Os
homens do rei reagiram com maior violncia.
         Jack comeou a se sentir ansioso.
         - No estou gostando disso - disse para Aliena.
         - Eu ia dizer o mesmo - respondeu ela. - Vamos dar o fora.
         Antes que pudessem se mover, irrompeu um tumulto entre os homens
do rei e um grupo de jovens que estavam na frente. Os homens de armas
bateram com fora, mas os rapazes, em vez de se acovardarem, reagiram. O
ltimo bispo entrou depressa no claustro, aspergindo de forma nitidamente
superficial a ltima parte do coro. Quando os religiosos saram de vista, a turba
concentrou sua ateno nos homens de armas. Algum atirou uma pedra que
acertou bem na testa de um deles. A multido urrou quando ele caiu. As lutas
corporais espalharam-se rapidamente. Homens de armas vieram correndo do
lado oeste para defender seus companheiros.
         O tumulto estava se transformando num pandemnio.
         No havia esperana de que a cerimnia atrasse a ateno das pessoas
nos minutos seguintes. Jack sabia que os bispos e o rei naquele momento deviam
estar descendo para pegar na cripta os restos mortais de so Dionsio. Eles os
carregariam em torno do claustro, mas no os levariam para o lado de fora. Os
dignitrios no deveriam aparecer novamente enquanto o servio religioso no
terminasse. O abade Suger no antecipara o tamanho da multido de
espectadores, nem tomara providncias para conserv-los felizes. Agora estavam
insatisfeitos, acalorados - o sol j estava bem alto quela hora, e queriam dar
vazo s emoes.
         Os homens do rei estavam armados, mas os espectadores no, e a
princpio os primeiros levaram a melhor - at que algum teve a brilhante idia de
arrombar os galpes dos artfices em busca de armas. Dois rapazes derrubaram a
pontaps a porta do galpo dos pedreiros e surgiram momentos depois com
martelos nas mos. Havia pedreiros no meio da multido, e alguns foraram
caminho por entre a turba at o galpo, numa tentativa de impedir que as pessoas
entrassem; porm, foram incapazes de sustentar suas posies e acabaram
empurrados para um lado.
         Jack e Aliena tentaram recuar, mas as pessoas que estavam atrs
pressionavam para a frente, nervosas, e eles se viram presos numa armadilha.
Jack manteve Tommy fortemente grudado a seu peito, protegendo-lhe as costas
com os braos e cobrindo sua cabecnha com as mos; ao mesmo tempo tinha
que lutar para ficar junto de Aliena. Viu um homem pequeno, de aspecto furtivo,
sair do galpo com a esttua de madeira da dama que chorava. Nunca mais a
verei de novo, pensou Jack, com uma pontada de arrependimento; contudo,
estava por demais ocupado tentando evitar que o esmagassem para se preocupar
com o fato de estar sendo roubado.
         O galpo dos carpinteiros foi arrombado a seguir. Os artesos j haviam
desistido de defender os galpes, e no tentaram deter a multido. A oficina do
ferreiro era forte demais, mas a turba irrompeu pela frgil parede do galpo dos
telhadores e pegou as ferramentas pesadas e perigosamente afiadas usadas para
cortar e aparar as folhas de chumbo do telhado, e Jack pensou: Algum ainda vai
ser morto antes que isto acabe.
         A despeito de todos os seus esforos, foi empurrado para a frente, na
direo do prtico norte, onde o combate era mais feroz. A mesma coisa
acontecia com o ladro de barba negra, notou Jack: o homem tentava fugir com
o fruto do seu roubo, abraado com a grande esttua do mesmo modo como
Jack carregava Tommy, mas ele tambm estava sendo forado cada vez mais para
dentro da confuso pelo aperto da turba.
         De repente Jack teve uma inspirao sbita. Entregou Tommy a Aliena,
dizendo:
         - Fique perto de mim.
         Agarrou o pequeno ladro e puxou a esttua de suas mos. O homem
resistiu por um momento, mas Jack era maior, e de qualquer modo o ladro
estava agora mais preocupado em salvar a prpria pele do que em roubar a
esttua, e um momento depois desistiu.
         Jack ergueu a esttua acima da cabea e comeou a gritar:
         - Respeitem Nossa Senhora!
         A princpio ningum notou. Depois uma ou duas pessoas olharam para
ele.
         - No toquem em Nossa Senhora! - gritou Jack, com toda a fora dos
pulmes. As pessoas que estavam por perto recuaram supersticiosamente,
abrindo espao  sua volta. Ele comeou a trabalhar mais seu tema: -  um
pecado profanar a imagem da Virgem! - Segurou a esttua bem alto e seguiu em
frente na direo da igreja. Aquilo podia funcionar, pensou, com uma vaga
esperana. Mais gente parou de brigar para ver o que estava ocorrendo.
         Jack deu uma olhada para trs. Aliena o estava seguindo, incapaz de fazer
qualquer outra coisa por causa da presso exercida pela multido. No entanto, o
distrbio estava rapidamente se acalmando. Todos se deslocavam junto de Jack, e
houve quem comeasse a repetir suas palavras, num murmrio reverente:
         -  a Me de Deus... Ave, Maria... Abram caminho para a imagem da
Virgem Santssima...
         Tudo O que queriam era um espetculo, e agora que Jack lhes estava
proporcionando um, a confuso acabou quase completamente, com apenas duas
ou trs brigas continuando na periferia. Jack marchou adiante, solene. A
facilidade com que pusera fim ao tumulto o assombrou. A multido  sua frente
afastou-se e ele atingiu o prtico norte da igreja. Ali colocou a esttua no cho,
com grande reverncia, na sombra fria do portal. A imagem tinha pouco mais de
dois ps de altura, e parecia menos impressionante ali no cho.
         A multido se aglomerou em torno da porta, na expectativa do que
aconteceria a seguir. Jack no sabia o que fazer. Provavelmente queriam um
sermo. Agira como um clrigo, levantando a esttua no alto e proferindo
sonoras advertncias, mas aquele era o limite de suas habilidades religiosas. Sentiu
receio: o que aquela gente poderia fazer com ele, caso se sentisse desapontada?
         De repente, houve uma exclamao coletiva de espanto.
         Jack olhou para trs. Alguns dos nobres da congregao se reuniram no
transepto norte, espiando o que ocorria do lado de fora, mas no havia nada que
justificasse o aparente assombro da multido.
         - Milagre! - exclamou algum. E outros logo gritaram:
         - Milagre! Milagre!
         Jack olhou para a esttua e ento compreendeu. gua gotejava dos seus
olhos. A princpio ficou to assombrado quanto os outros, mas depois se
lembrou de sua teoria de que a esttua chorava quando havia uma sbita
alterao de temperatura, do quente para o frio, como acontecia ao anoitecer
mais ao sul. A esttua acabara de ser removida do calor do dia para o frescor da
sombra do prtico norte. Isso explicaria as lgrimas. S que a multido no sabia,
 claro. Tudo o que viam era uma esttua chorando, e se maravilhavam.
          Uma mulher que estava bem na frente jogou uma moedinha de prata,
chamada denier, que equivalia ao penny ingls, aos ps da esttua. Jack teve mpetos
de dar uma risada. De que adiantava dar dinheiro a um pedao de madeira? Mas
as pessoas haviam sido to doutrinadas pela Igreja que sua reao automtica a
qualquer coisa sagrada era dar dinheiro, e diversas outras seguiram o exemplo da
mulher.
          Jack nunca pensara que o brinquedo de Raschid pudesse fazer dinheiro.
Na verdade, no podia fazer dinheiro para ele, a multido no daria nada se
achasse que o dinheiro ia para o seu bolso. Mas valeria uma fortuna para
qualquer igreja.
          E quando se deu conta disso, viu subitamente o que tinha a fazer.
          Foi uma inspirao repentina, e ele comeou a falar antes mesmo de ver
todas as implicaes: as palavras foram saindo ao mesmo tempo em que ia tendo
as idias.
          - A Madona que Chora no me pertence, e sim a Deus - comeou. A
multido fez silncio. Aquele era o sermo que esperavam. Atrs de Jack, os
bispos cantavam no interior da igreja, mas ningum estava interessado neles,
agora. - Durante centenas de anos ela definhou em terras dos sarracenos -
prosseguiu Jack. No tinha idia de qual seria a histria da esttua, mas no
parecia ter importncia: os prprios padres nunca examinavam muito
detidamente a veracidade das histrias de milagres e de relquias sagradas. - Ela j
viajou muitas milhas, sua jornada ainda no terminou. Seu destino  a Catedral de
Kingsbridge, na Inglaterra.
          Jack atraiu a ateno de Aliena. Ela o fitou assombrada. Ele teve que
resistir  tentao de piscar-lhe o olho para antecipar o que estava por dizer.
          -  minha santa misso lev-la para Kingsbridge. L, ela encontrar seu
descanso. L, ela estar em paz. - Ao olhar para Aliena, no final teve a mais
brilhante das inspiraes e disse:
          - Fui designado mestre construtor da nova igreja de Kingsbridge.
          O queixo de Aliena caiu. Jack teve que desviar os olhos.
          - A Madona que Chora ordenou que uma igreja nova e mais gloriosa lhe
seja construda em Kingsbridge, e com a sua ajuda construirei para ela um
santurio to bonito quanto o novo coro que foi erguido aqui para os sagrados
despojos de so Dionsio.
          Ele baixou a cabea, e o dinheiro no cho forneceu a idia para o toque
final.
          - As suas moedas sero usadas para a nova igreja - disse. - A Madona
abenoa todo homem, mulher ou criana que a ajude a construir sua nova casa.
          Houve um momento de silncio; os ouvintes depois comearam a atirar
moedas no cho, em torno da base da esttua. Cada pessoa dizia em voz alta,
qualquer coisa, ao fazer a oferta. Uns exclamavam "Aleluia" ou "Deus seja
louvado", e outros pediam uma bno, ou um favor mais especfico. "Faa
Robert ficar bom", ou "Que Anne possa conceber um filho", ou "D-nos uma
boa colheita". Jack examinou-lhes o rosto: estavam excitados, transfigurados,
felizes. Empurravam-se, ansiosos por doar seu dinheiro  Madona. Jack baixou
os olhos e observou, maravilhado, a pilha de dinheiro aumentar como um monte
de neve em torno dos seus ps.

         A Madona que Chora teve o mesmo efeito em todas as cidades e aldeias
na estrada para Cherbourg. Quando caminhavam em procisso ao longo da rua
principal, uma multido se reunia; depois que paravam em frente  igreja a fim de
dar tempo a toda a populao de se reunir, transferiam a esttua para a parte
sombreada e fria do prdio, fazendo-a chorar. Por fim as pessoas caam umas
sobre as outras, na nsia de dar seu dinheiro para a construo da Catedral de
Kingsbridge.
         Quase a perderam, logo no incio. Os bispos e arcebispos examinaram a
esttua e a declararam genuinamente miraculosa. O abade Suger quis que ficasse
em Saint-Denis.
         Oferecera a Jack uma libra, depois dez e finalmente cinquenta. Quando
viu que ele no estava interessado em dinheiro, ameaou-o de tirar a esttua 
fora; porm o arcebispo Theobald de Canterbury o impediu. Theobald tambm
enxergou o potencial de fazer dinheiro que tinha a esttua e quis que ela fosse
para Kingsbridge, situada na sua arquidiocese. Suger desistira de m vontade,
fazendo grosseiras reservas quanto  genuinidade do milagre.
         Jack disse aos artfices que trabalhavam em Saint-Denis que contrataria
qualquer um deles que resolvesse segui-lo at Kingsbridge. Suger no gostou
disso, tampouco.
         Na verdade, a maior parte dos seus operrios ficaria onde estava, com
base no princpio de que mais vale um pssaro na mo do que dois voando.
Entretanto, havia uns poucos que eram ingleses e que podiam se sentir tentados a
voltar para sua terra, e os outros espalhariam a notcia, pois era dever de cada
pedreiro dizer a seus irmos onde haviam novos canteiros de obra. Dentro de
poucas semanas, artesos de toda a cristandade comeariam a surgir em
Kingsbridge, do mesmo modo como Jack aparecera em seis ou sete canteiros
diferentes nos ltimos dois anos. Aliena perguntou-lhe o que faria se o priorado
de Kingsbridge no fizesse dele o mestre construtor. Jack no tinha idia. Tudo o
que dissera fora por impulso e no tinha planos de emergncia para o caso de as
coisas sarem erradas.
         O arcebispo Theobald, tendo requisitado a Madona que Chora para a
Inglaterra, no deixou Jack sair impune.
         Mandou dois padres de sua comitiva, Reynold e Edward, acompanharem
Jack e Aliena na viagem. Jack ficou aborrecido a princpio, mas logo veio a gostar
deles. Reynold era um jovem saudvel e questionador, dono de um crebro
perceptivo, e se mostrou muito interessado na matemtica que Jack aprendera em
Toledo. Edward era mais velho, de maneiras gentis, e gostava de comer bem. A
principal funo deles era garantir que nenhuma das doaes fosse para o bolso
de Jack,  claro. Na verdade, os religiosos gastavam livremente os donativos para
pagar suas despesas de viagem, enquanto Jack e Aliena pagavam tudo com o
prprio dinheiro, de modo que o arcebispo teria sado ganhando se houvesse
confiado em Jack.
         Foram para Cherbourg no seu caminho para Barfleur, onde tomariam um
navio para Wareham. Jack percebeu que havia algo errado muito antes de
chegarem ao centro da pequena cidade do litoral. As pessoas no olhavam para a
Madona.
         Olhavam para Jack.
         Os padres notaram o que se passava aps algum tempo. Carregavam a
esttua numa armao de madeira, como sempre faziam ao entrar numa cidade.
Quando a multido comeou a segui-lo, Reynold cochichou para Jack:
         - O que est acontecendo?
         - No sei.
         - Eles esto mais interessados em voc do que na esttua! J esteve aqui
antes?
         - Nunca.
         - So os mais velhos que olham para Jack - disse Aliena.
         - Os jovens olham para a esttua.
         Ela estava com a razo. As crianas e os jovens reagiam  esttua com a
curiosidade normal. Eram os de meia-idade que olhavam espantados para Jack.
Ele tentou encar-los tambm, e descobriu que se assustavam. Um chegou a
fazer o sinal-da-cruz.
         - O que tero contra mim? - perguntou-se, em voz alta.
         A procisso atraiu seguidores to rapidamente como sempre, no entanto,
e quando chegaram  praa do mercado tinham uma grande multido atrs de si.
Puseram a Madona no cho, em frente  igreja. O ar cheirava a gua salgada e
peixe fresco. Diversos habitantes da cidade entraram na igreja. O que acontecia
normalmente era o clero local sair e vir conversar com Reynold e Edward. Havia
discusses e explicaes, e por fim a esttua era carregada para o interior da
igreja, onde chorava. A Madona falhara uma nica vez: num dia frio, quando
Reynold insistira em cumprir a rotina a despeito da advertncia de Jack de que
no funcionaria. Agora respeitavam seu conselho.
         A temperatura estava certa naquele dia, mas havia alguma outra coisa
errada. Era possvel reconhecer a expresso de medo supersticioso no rosto
castigado pelo vento dos marinheiros e pescadores espalhados por toda parte. Os
jovens sentiam a inquietude dos velhos e toda a multido se mostrava
desconfiada e vagamente hostil. Ningum se aproximou do pequeno grupo para
fazer perguntas sobre a esttua. Permaneceram a distncia, falando baixo,
esperando que algo acontecesse.
        Finalmente o padre apareceu. Nas outras cidades os padres se
aproximavam com uma atitude de cautelosa curiosidade, mas este surgiu
parecendo um exorcista, segurando uma cruz  sua frente como um escudo e
carregando um clice de gua benta na outra mo.
        - O que ele pensa que vai fazer? Expulsar demnios? - perguntou
Reynold.
        O padre aproximou-se, entoando qualquer coisa em latim, e abordou
Jack em francs.
        - Eu vos ordeno, esprito do mal, que retorne ao Lugar dos Espritos! Em
nome do...
        - No sou um esprito, maldito idiota! - explodiu Jack, enervado.
        - Do Pai, do Filho e do Esprito Santo...
        - Estamos aqui cumprindo uma misso para o arcebispo de Canterbury -
protestou Reynold. - Fomos abenoados por ele.
        - Ele no  um esprito - afirmou Aliena. - Eu o conheo desde que tinha
doze anos de idade!
        O padre comeou a parecer inseguro.
        - Voc  o fantasma de um homem desta cidade que morreu h vinte e
quatro anos - disse. Diversas pessoas na multido exprimiram sua concordncia,
e o padre recomeou sua cantoria.
        - S tenho vinte anos de idade - disse Jack. - Talvez apenas me parea
com o homem que morreu.
        Algum se destacou no meio da turba.
        - Voc no apenas se parece com ele - disse. - Voc  ele; no difere nem
um pouco dele, no dia em que morreu.
        Ouviu-se um murmrio de temor supersticioso. Jack, meio
desencorajado, examinou a pessoa que falara. Era um homem de barba grisalha,
com roupas caractersticas de um arteso bem-sucedido ou de um pequeno
mercador. No era do tipo histrico. Jack dirigiu-se a ele com a voz trmula.
        - Meus companheiros me conhecem - afirmou. - Dois deles so padres. A
mulher  minha esposa. O beb  meu filho. Eles tambm so fantasmas?
        O homem ficou incerto.
        - Voc no me conhece, Jack? - perguntou uma mulher de cabelos
brancos, que estava a seu lado.
        Jack deu um pulo como se tivesse sido flechado. Agora estava assustado.
        - Como sabe meu nome? - perguntou.
         - Porque sou sua me - disse ela.
         - No! - exclamou Aliena, e Jack percebeu uma nota de pnico em sua
voz. - Conheo a me dele, e no  voc! O que est acontecendo aqui?
         - Magia negra! - respondeu o padre.
         - Espere um minuto - disse Reynold. - Jack pode ser parente do homem
que morreu. Ele tinha filhos?
         - No - disse o homem de barba grisalha.
         - Tem certeza?
         - Nunca se casou.
         - No  o mesmo.
         Uma ou duas pessoas deram risadinhas. O padre as fulminou com um
olhar.
         - Mas ele morreu h vinte e quatro anos - retrucou o homem de barba
grisalha -, e este Jack diz que tem apenas vinte.
         - Como ele morreu? - quis saber Reynold.
         - Afogado.
         - Voc viu o corpo?
         Houve silncio. Finalmente o homem de barba grisalha respondeu:
         - No, nunca vi o corpo.
         - Algum viu? - perguntou Reynold, elevando a voz ao pressentir vitria.
         Ningum disse nada. Reynold virou-se para Jack.
         - Seu pai est vivo?
         - Morreu antes de eu nascer.
         - O que ele era?
         - Menestrel.
         Um murmrio de espanto escapou da multido, e a mulher de cabelos
brancos disse:
         - O meu Jack era menestrel.
         - Mas este Jack  pedreiro - disse Reynold. - Vi o seu trabalho. No
entanto, ele pode ser o filho de Jack. - Reynold virou-se para Jack. - Como o seu
pai era chamado? Jack Menestrel, suponho.
         - No. Chamavam-no de Jack Shareburg.
         O padre repetiu o nome, pronunciando-o de modo ligeiramente
diferente:
         - Jacques Cherbourg?
         Jack ficou atnito. Nunca entendera direito o nome de seu pai, mas agora
estava claro. Como muitos viajantes, era chamado pelo nome da cidade de onde
vinha.
         - Sim - disse Jack pensativamente. - Claro, Jacques Cherbourg. -
Finalmente encontrava uma pista de seu pai, tanto tempo depois de ter desistido
de procurar. Seguira at a Espanha, mas o que queria estava ali mesmo, na costa
da Normandia. Vencera seu desafio. Sentiu-se cansado mas satisfeito, como
quem arria no cho uma carga pesada aps t-la levado nas costas por um longo
trajeto.
         - Ento est tudo claro - disse Reynold, encarando triunfantemente a
multido. - Jacques Cherbourg no morreu afogado, sobreviveu. Foi para a
Inglaterra, viveu por l durante algum tempo, engravidou uma garota e morreu. A
garota deu  luz um menino e lhe deu o nome do pai. Este Jack tem vinte anos
agora, e se parece exatamente como o pai, vinte e quatro anos atrs. - Reynold
olhou para o padre. - No  necessrio exorcismo algum, padre.  s uma
reunio de famlia.
         Aliena passou o brao pelo de Jack e apertou-lhe a mo. Ele estava
estupefato. Havia centenas de perguntas que queria fazer e no sabia por qual
comear. Fez a primeira que lhe veio a cabea:
         - Por que estavam to seguros de que ele tinha morrido?
         - Todos no White Ship morreram - respondeu o homem da barba
grisalha.
         - White Ship?
         - Lembro-me do White Ship - disse Edward. - Foi um naufrgio famoso.
O herdeiro do trono morreu afogado. Ento Matilde passou a ser a herdeira, e 
esta a razo pela qual agora temos Estvo.
         - Mas por que ele estava num navio?
         Foi a mulher idosa que falara antes quem respondeu.
         - Era para entreter os nobres durante a viagem. - Ela olhou para Jack. -
Voc deve ser filho dele, ento. Meu neto. Desculpe ter pensado que fosse um
esprito. Voc se parece muito com ele.
         - Seu pai era meu irmo - disse o homem da barba grisalha. - Sou seu tio
Guillaume.
         Jack constatou, intensamente satisfeito, que aquela era a famlia por que
tanto ansiara, os parentes de seu pai. No estava mais sozinho no mundo.
Finalmente encontrara suas razes.
         - Bem, este  o meu filho Tommy - disse. - Olhe s seu cabelo ruivo.
         A mulher de cabea branca contemplou afetuosamente o beb.
         - Oh, meu Deus, sou bisav! - disse com a voz trmula. Todos riram.
         - Como meu pai ter conseguido chegar  Inglaterra? exclamou Jack.
        Captulo 13
         - E assim Deus disse para o Demnio: "Olhe para meu servo, de nome
J. Olhe s para ele. L est um homem bom, se  que existe um homem bom". -
Philip fez uma pausa, para reforar o efeito. Aquilo no era uma traduo, 
claro, e sim uma maneira de contar a histria em estilo livre. - "Diga-me se no 
homem perfeito e reto, que teme seu Deus e no comete o mal." O Demnio
ento disse: "Claro que ele adora voc. Voc lhe deu tudo. Olhe s para ele. Sete
filhos e trs filhas. Sete mil carneiros e trs mil camelos, quinhentos pares de bois
e quinhentos jumentos.
          por isso que ele  um homem bom". Ento Deus disse: "Est bem.
Pode tirar tudo dele para ver o que acontece". E foi o que o Demnio fez.
         Enquanto Philip pregava, sua cabea insistia em vagar, lembrando uma
carta que o deixara aturdido, recebida naquela manh do arcebispo de
Canterbury. Comeava congratulando-se com ele por ter obtido a miraculosa
Madona que Chora. Philip no sabia o que era uma madona que chora, mas
estava bastante seguro de que no tinha uma. O arcebispo estava satisfeito por
ter sabido que Philip ia recomear a construo da nova catedral. O prior no
estava fazendo nada disso. Aguardava um sinal de Deus para fazer qualquer
coisa, e enquanto aguardava, celebrava as missas de domingo na pequena igreja
nova da parquia. Finalmente o arcebispo Theobald elogiava sua argcia por ter
designado um novo mestre construtor que trabalhara no coro novo de Saint-
Denis. Philip ouvira falar da Abadia de Saint-Denis,  claro, e do famoso abade
Suger, o mais poderoso homem da Igreja no reino da Frana; porm, nada sabia
a respeito de um coro novo l, e no contratara um mestre construtor oriundo de
parte alguma. Philip achava que a carta provavelmente fora destinada a outra
pessoa e remetida a ele por engano.
         - Agora, o que foi que J disse, quando perdeu toda a sua fortuna e seus
filhos morreram? Amaldioou Deus? Adorou Satans? No! Eis o que ele disse:
"Nasci nu e nu hei de morrer. O Senhor d e o Senhor tira - abenoado seja o
nome do Senhor". Foi isso o que J afirmou. E ento Deus se virou para Satans.
"O que foi que ele disse?" O Demnio, porm, no se deu por vencido: "Est
bem, mas ele ainda tem uma boa sade, no tem? Um homem pode aguentar
qualquer coisa quando tem boa sade".
         E Deus viu que tinha que deixar J sofrer mais para provar o que queria,
de modo que disse: "Pois tire tambm sua sade, e veja s o que acontece".
Assim, Satans fez J adoecer, e ele teve bolhas em todo o corpo, desde a cabea
at a sola dos ps.
         Os sermes estavam se tornando mais comuns nas igrejas. Eram raros no
tempo em que Philip era garoto. O abade Peter sempre fora contra, dizendo que
representavam uma tentao para o padre favorecer a si prprio. A viso antiga
era de que os membros da congregao deveriam ser meros espectadores,
testemunhando silenciosamente os misteriosos ritos sagrados, ouvindo as
palavras latinas sem entend-las, confiando cegamente na eficcia da intercesso
do padre. Mas as idias mudaram. Os pensadores progressistas j no viam os
fiis como observadores mudos de uma cerimnia mstica. A Igreja deveria ser
uma parte integrante da vida deles, presente desde o batizado, passando pelo
casamento e nascimento dos filhos, at a extrema-uno e o enterro em solo
consagrado. Deveria ser a dona de suas terras, seu juiz, empregador ou
comprador.
        Esperava-se que as pessoas, cada vez mais, fossem crists todos os dias, e
no apenas aos domingos. Precisavam mais do que simples rituais, de acordo
com o moderno ponto de vista: queriam explicaes, ordens, encorajamento,
exortaes.
        - Agora, acredito que Satans teve uma conversa com Deus a respeito de
Kingsbridge - continuou Philip. - Acredito que Deus disse para Satans: "Olhe
para o meu povo em Kingsbridge. No so bons cristos? Veja como trabalham
duro a semana toda em seus campos e oficinas, e depois passam o domingo
inteiro construindo uma nova catedral para Mim. Diga-me que no so boas
pessoas, se puder!" E o Demnio retorquiu: "Eles so bons porque esto se
saindo bem. Voc lhes deu boas safras, bom tempo, fregueses para suas lojas e
proteo contra condes perversos. Mas tire tudo isso deles, e ver como viro
para o meu lado". Deus ento perguntou: "O que voc quer fazer?" Satans
respondeu: "Queimar a cidade". Deus concordou: "Est bem, pode queim-la, e
veja o que acontece". Ento Satans mandou William Hamleigh incendiar a nossa
feira de l. Philip encontrava grande consolo na histria de J. Como J,
trabalhara duro toda a vida para cumprir a vontade de Deus com o melhor da sua
capacidade; e, como J, fora recompensado com m sorte, fracasso e ignomnia.
Mas o objetivo do sermo era levantar o moral dos habitantes da cidade, e Philip
pde ver que no estava funcionando. A histria, contudo, ainda no acabara.
        - Ento Deus disse para Satans: "Veja agora! Voc queimou a cidade,
destruindo tudo, mas ainda assim eles esto construindo uma nova catedral para
Mim. Diga-me agora se no so boas pessoas!" Mas o Demnio no se deixou
vencer e retrucou: "Fui muito bonzinho com eles. A maior parte escapou do
incndio. E logo todos reconstruram suas casinhas de madeira. Deixe-me
mandar-lhes um desastre de verdade, para ver o que acontece". Deus suspirou e
disse: "O que vai querer agora?" O Demnio respondeu imediatamente: "Vou
derrubar o telhado da nova igreja em cima da cabea deles". E foi o que ele fez,
como todos ns sabemos.
        Olhando para a congregao, Philip viu muito poucas pessoas que no
tivessem perdido um parente naquele terrvel desastre. Ali estava a viva Meg,
que tinha um bom marido e trs filhos fortes, os quais haviam morrido; desde
ento ela no pronunciara mais uma s palavra, e seu cabelo ficara branco.
Outros tinham sido mutilados.
        A perna direita de Peter Pnei fora esmagada, e agora ele mancava; antes
Peter trabalhava capturando cavalos, mas agora ajudava o irmo a fabricar selas.
Dificilmente se encontrava uma famlia na cidade que tivesse escapado. Sentado
no cho, bem na frente, estava um homem que perdera o uso das pernas. Philip
estranhou - quem era ele? No tinha se machucado no desabamento do telhado -
o prior nunca o vira antes. Lembrou-se ento de ter ouvido que havia um aleijado
esmolando na cidade e dormindo nas runas da catedral. Philip ordenara que lhe
dessem uma cama na hospedaria.
        Sua mente estava divagando de novo. Retornou ao sermo.
        - Agora, o que foi que J fez? Sua mulher lhe disse: "Amaldioe Deus e
morra". Mas foi isso que ele fez? Claro que no. Perdeu sua f? Mais uma vez
no. Satans ficou desapontado com J. E lhes digo... - Philip levantou a mo
dramaticamente, para enfatizar seu ponto. - E lhes digo que Satans vai ficar
desapontado com o povo de Kingsbridge! Pois continuamos a venerar o
verdadeiro Deus, exatamente como J fez durante todas as suas tribulaes.
        Fez nova pausa, para deixar que digerissem o que dissera, mas podia
assegurar que no conseguira comover ningum. Os rostos erguidos para ele
estavam interessados, mas no inspirados. Na verdade, ele no era um orador
inspirado. Era um homem prtico. No era capaz de cativar uma congregao
com a fora da sua personalidade.
        As pessoas tornavam-se intensamente leais a ele, mas isso no ocorria de
imediato: o processo era lento, acontecia com o tempo, quando vinham a
entender como vivia e o que conseguia fazer. Seu trabalho s vezes inspirava as
pessoas - pelo menos nos velhos tempos -, mas no suas palavras.
        No entanto, a melhor parte da histria ainda estava por vir.
        - O que aconteceu a J, depois que Satans lhe causou tanto mal? Muito
bem, Deus lhe deu tudo o que tinha no princpio - em dobro! Onde levava para
pastar sete mil carneiros, tinha agora catorze mil. Os trs mil camelos foram
substitudos por seis mil. E ele teve mais sete filhos e trs filhas.
        Os fiis continuaram indiferentes. Philip insistiu.
        - E Kingsbridge ir prosperar de novo um dia. As vivas se casaro de
novo e os vivos encontraro esposas; e aqueles cujos filhos morreram
concebero de novo; e nossas ruas se enchero de gente, nossas lojas tero
amplos estoques de po e vinho, couro e metal, fivelas e sapatos; e um dia
reconstruiremos nossa catedral.
        O problema era que no estava seguro de que acreditava em suas
prprias palavras. No era de admirar que a congregao no se tocasse.
        Baixou os olhos para o livro grosso  sua frente e traduziu do latim:
        - "E J viveu por mais cento e quarenta anos, e viu seus filhos, netos e
bisnetos. S ento morreu, muito velho." - Fechou o livro.
         Houve uma perturbao na parte de trs da pequena igreja. Philip ergueu
os olhos, irritado. Estava consciente de que seu sermo no tivera o efeito que
esperara, mas mesmo assim queria uns poucos momentos de silncio no final. A
porta da igreja foi aberta, e todos os que estavam no fundo olharam para fora.
Philip pde ver na rua uma boa multido - deviam estar ali todas as pessoas que
no se encontravam dentro da igreja. O que estaria acontecendo?
         Diversas possibilidades passaram pela sua cabea - briga, incndio, a
notcia de que algum estava morrendo, ou de que uma grande tropa de homens
a cavalo se aproximava -, mas estava completamente despreparado para o que
aconteceu. Primeiro entraram dois padres carregando a esttua de uma mulher
sobre uma tbua forrada por uma toalha bordada de altar. A solenidade do
comportamento deles sugeria que a esttua representava uma santa,
presumivelmente a Virgem, Atrs dos padres caminhavam duas pessoas, e foram
elas que lhe proporcionaram a surpresa maior: uma era Aliena, outra, Jack.
         Philip contemplou o rapaz. No seu olhar havia ternura, mas tambm uma
certa irritao. Aquele garoto... No dia em que aparecera, a velha catedral se
incendiara, e desde ento nada relacionado a ele fora normal. Mas ficou mais
satisfeito que aborrecido com a entrada de Jack. A despeito de todos os
problemas que o menino causara, ele tornara a vida interessante. Menino? Philip
olhou para ele de novo. Jack no era mais um menino. Estivera fora dois anos,
mas envelhecera dez. Havia cansao e sabedoria em seus olhos. Por onde tinha
andado? E como Aliena o encontrara?
         A procisso deslocou-se para o meio da igreja. Philip decidiu no fazer
nada e ver o que aconteceria. Um murmrio de excitao espalhou-se quando o
povo reconheceu Jack e Aliena. Logo em seguida o murmrio se modificou,
passando a ser de reverente temor, e algum disse:
         - Ela chora!
         Outros repetiram, como numa litania:
         - Ela chora! Ela chora!
         Philip examinou a esttua. Sem dvida nenhuma, havia gua saindo de
seus olhos. Subitamente se lembrou da misteriosa carta do arcebispo a respeito
da Madona que Chora. Quanto a ser ou no um milagre, Philip julgaria depois.
Podia ver que os olhos pareciam ser feitos de pedra, enquanto o resto da esttua
era de madeira: isso podia estar relacionado com as lgrimas.
         Os padres se viraram e depositaram a tbua no cho, de modo que a
Madona ficasse de frente para a congregao. Ento Jack comeou a falar.
         - A Madona que Chora veio s minhas mos num pas muito distante -
comeou ele. Philip ficou ressentido com a interrupo da missa, mas decidiu no
agir precipitadamente: deixaria Jack falar. De qualquer forma, estava curioso.
         - Um sarraceno batizado a deu para mim - prosseguiu Jack. A
congregao deixou escapar um murmrio de surpresa. Nas histrias, os
sarracenos eram geralmente o inimigo brbaro de pele negra, e poucas pessoas
sabiam que alguns deles eram cristos. - A princpio no entendi por que ele a
entregou para mim. Mesmo assim, carreguei-a por muitas milhas. - Jack fascinara
os fiis. Ele  melhor pregador que eu, pensou Philip, pesaroso; posso sentir a
tenso aumentando. - Finalmente comecei a perceber que ela queria ir para casa.
Mas onde era sua casa? At que atinei com a resposta: ela queria ir para
Kingsbridge.
         Os fiis no contiveram os comentrios, espantados. Philip mostrou-se
ctico. Havia uma diferena entre o modo como Deus operava e o de Jack, e
aquilo tinha todo o jeito de coisa de Jack. Mas Philip permaneceu em silncio.
         - Mas ento pensei: para onde a estou levando? Que santurio ter em
Kingsbridge? Em que igreja descansar? - Ele relanceou os olhos pelo interior
simples e caiado da igreja da parquia, como se dissesse: Isto aqui obviamente
no servir.
         - E foi como se ela falasse em voz alta e me dissesse: Voc, Jack, far um
santurio e construir uma igreja para mim.
         Philip comeou a entender o que Jack queria. A Madona seria a centelha
que reacenderia o entusiasmo do povo para construir uma nova catedral. Faria o
que o sermo de Philip sobre J no fizera. Mas Philip no pde deixar de se
perguntar se aquilo seria a vontade de Deus ou a de Jack.
         - Assim, perguntei a ela: "com qu? No tenho dinheiro". E ela disse:
"Proverei o dinheiro". Ento iniciamos a viagem, com a bno do arcebispo
Theobald de Canterbury.
         Jack lanou um olhar para Philip quando pronunciou o nome do
arcebispo. Ele est me dizendo qualquer coisa, pensou Philip; est dizendo que
tem um forte apoio para isto.
         Jack correu o olhar pela congregao.
         - E ao longo do caminho, a partir de Paris, por toda a Normandia,
atravessando o mar e no trajeto at Kingsbridge, cristos devotos deram dinheiro
para a construo do altar da Madona que Chora. - com essas palavras, Jack
chamou com um gesto algum que estava do lado de fora.
         No momento seguinte dois sarracenos de turbante entraram solenemente
na igreja, carregando nos ombros uma arca guarnecida de ferro.
         Os fiis recuaram, amedrontados. At mesmo Philip ficou assombrado.
Sabia, em teoria, que os sarracenos tinham a pele escura, mas nunca vira um
antes e a realidade era espantosa. Suas roupas brilhantemente coloridas e amplas
tambm eram impressionantes. Eles marcharam por entre a congregao aterrada
e ajoelharam-se ante a Madona, colocando, reverentes, a arca no cho.
         Quando Jack abriu a arca com uma imensa chave e levantou a tampa,
houve um silncio em que ningum respirou. Todos esticaram o pescoo para
tentar ver o que continha.
        De repente, o rapaz virou-a de cabea para baixo.
        Ouviu-se um barulho que lembrava uma cascata, quando uma torrente de
moedas de prata se espalhou. Eram centenas, milhares de moedas. Todos se
aproximaram, curiosos; nenhuma daquelas pessoas jamais vira tanto dinheiro.
        Jack levantou a voz para ser ouvido, no obstante as exclamaes do
povo.
        - Trouxe-a para casa, e agora a dou para a construo da nova catedral. -
Nesse ponto virou-se, encarou Philip e inclinou a cabea numa pequena
reverncia, como se dissesse: Agora  com voc.
        Philip detestava ser manipulado daquele modo, mas ao mesmo tempo
tinha que reconhecer o modo magistral como a coisa fora feita. O povo podia
aclamar a Madona que Chora, mas somente Philip poderia decidir se ela seria
autorizada a permanecer na Catedral de Kingsbridge ao lado dos ossos de santo
Adolfo. E ele ainda no estava convencido.
        Alguns dos aldees comearam a fazer perguntas aos sarracenos. Philip
desceu do plpito e aproximou-se mais para ouvir.
        - Venho de um pas muito, muito distante - um deles estava dizendo,
Philip ficou surpreso ao perceber que falava ingls exatamente como um
pescador de Dorset, mas a maior parte das pessoas nem mesmo sabia que os
sarracenos tinham um idioma prprio.
        - Qual  o nome do seu pas? - perguntou algum.
        - frica - respondeu o sarraceno. Havia mais que um pas na frica,
claro, como Philip sabia - embora a maior parte dos aldees no -, e o prior
perguntou-se de onde viria aquele sarraceno. Seria muito interessante se fosse de
um lugar mencionado na Bblia, como o Egito ou a Etipia.
        Uma garotinha levantou um dedo e tocou na mo de pele escura. O
mouro sorriu para ela. A no ser pela cor, ele no parecia diferente do resto das
pessoas. Encorajada, a garota perguntou:
        - Como  a frica?
        - H grandes desertos e figueiras.
        - O que  uma figueira?
        - Uma rvore que d figos. O figo  uma fruta que parece um morango e
tem gosto de pra.
        Philip de repente foi assaltado por uma horrvel suspeita.
        - Diga-me, sarraceno, em que cidade voc nasceu?
        - Damasco - disse o homem.
        A suspeita do homem foi confirmada. Ficou furioso. Tocou no brao de
Jack e puxou-o de lado. Num tom de voz furioso, mas falando baixo, perguntou:
        - Que negcio  esse que voc est armando?
        - O que voc quer dizer com essa pergunta? - retrucou Jack, bancando o
inocente.
         - Esses dois no so sarracenos. So pescadores de Wareham com tinta
escura no rosto e nas mos.
         Jack no pareceu se aborrecer por ver que seu logro fora descoberto.
         - Como foi que voc adivinhou? - perguntou, sorrindo.
         - No creio que aquele homem jamais tenha visto um figo, e Damasco
no fica na frica. Qual  o significado desta desonestidade?
         -  um ardil inofensivo - disse Jack, exibindo seu sorriso cativante.
         - No existe ardil inofensivo - retrucou Philip glacialmente.
         - Est bem. - Jack notou que Philip estava furioso e ficou srio. - O
objetivo  o mesmo de uma ilustrao numa pgina da Bblia. No  a verdade, 
uma ilustrao. Meus homens de Dorsetshire pintados dramatizam o fato
verdadeiro de que a Madona que Chora vem de uma terra sarracena.
         Os dois padres e Aliena destacaram-se da multido em torno da Madona
e juntaram-se a Philip e Jack. O prior ignorou-os e disse a Jack:
         - Voc no fica com medo do desenho de uma cobra. Uma ilustrao no
 uma mentira. Os seus sarracenos no so ilustraes, so impostores.
         - Arrecadamos muito mais dinheiro depois que usamos os sarracenos -
disse Jack.
         Philip deu uma olhada no dinheiro derramado no cho.
         - O povo da cidade provavelmente pensa que isso  o bastante para
construir uma catedral - disse. - Tenho para mim que a deve haver umas cem
libras. Voc sabe que no d para pagar nem um ano de trabalho.
         - O dinheiro  como os sarracenos - disse Jack. -  simblico. Voc sabe
que tem o dinheiro para dar incio  construo.
         Era verdade. No havia nada que impedisse Philip de recomear a
catedral. A Madona era exatamente o que precisava para trazer Kingsbridge de
volta  vida. Atrairia gente  cidade - peregrinos, estudiosos e tambm simples
curiosos. Daria novo nimo a seus habitantes. Seria vista como um bom
pressgio. Philip estivera aguardando um sinal de Deus, e queria muito acreditar
que era aquele. Mas tinha a sensao de que no era. Tinha todo o jeito de ser um
truque de Jack.
         - Sou Reynold e este  Edward - disse o mais jovem dos dois padres. -
Trabalhamos para o arcebispo de Canterbury. Ele mandou que
acompanhssemos a Madona que Chora.
         - Se tinham a bno do arcebispo, por que precisaram de dois falsos
sarracenos para legitimar a Madona?
         Edward pareceu ficar um pouco envergonhado, mas Reynold disse:
         - Foi idia de Jack; porm, confesso que no vi mal nisso. Certamente
voc no suspeita da Madona, no , Philip?
         - Pode me chamar de "padre" - retrucou Philip secamente. - Trabalhar
para o arcebispo no lhe d o direito de desrespeitar seus superiores. A resposta 
sua pergunta  sim, duvido da Madona. No vou colocar essa esttua na Catedral
de Kingsbridge enquanto no estiver convencido de que se trata de um objeto
santo.
         - Uma esttua de madeira que chora - disse Reynold. - Que coisa mais
milagrosa que isto deseja?
         - O choro  inexplicvel. Mas isso no o torna um milagre. A
transformao da gua lquida em gelo slido tambm  inexplicvel, mas no 
miraculosa.
         - O arcebispo ficaria muito desapontado se a Madona no fosse aceita.
Ele teve que travar uma verdadeira batalha para impedir que o abade Suger
ficasse com ela para Saint-Denis.
         Philip viu que estava sendo ameaado. O jovem Reynold ter que se
esforar muito mais que isso para me intimidar, pensou ele.
         - Tenho absoluta certeza de que o arcebispo no ia querer que eu
aceitasse a Madona sem fazer algumas perguntas de rotina acerca de sua
legitimidade - retrucou ele secamente.
         Nesse instante houve um movimento aos ps deles. Philip baixou os
olhos e viu o aleijado que notara antes. O infeliz se arrastava, esfregando as
pernas paralisadas no cho, tentando se aproximar da esttua. Para qualquer lado
que se virasse, estava bloqueado pela multido. Automaticamente, Philip chegou
para um lado a fim de deix-lo passar. Os sarracenos impediam que as pessoas
tocassem na esttua, mas o aleijado escapou de sua vigilncia. O prior viu que o
homem levantava a mo. Normalmente teria impedido que algum tocasse numa
relquia sagrada, mas como ainda no aceitara aquela esttua como santa, nada
fez. O aleijado tocou na barra do vestido de madeira. De repente deixou escapar
um grito de vitria.
         - Eu sinto! Eu sinto! Todos olharam para ele.
         - Sinto a fora voltando!
         Philip olhou para o homem incredulamente, sabendo o que aconteceria a
seguir. O homem curvou-se sobre uma das pernas, depois sobre a outra. Houve
um arquejo coletivo dos assistentes. Ele esticou a mo e algum a pegou. Com
esforo, conseguiu ficar em p.
         A multido produziu um barulho que lembrou um grunhido de paixo.
         - Tente andar! - gritou algum.
         Ainda segurando a mo da pessoa que o ajudara, o aleijado experimentou
dar um passo, depois outro. Todos observaram em silncio mortal. No terceiro
passo ele tropeou, e a assistncia suspirou. Mas o homem recuperou o equilbrio
e continuou andando.
         Todos aplaudiram.
         O homem percorreu a nave seguido pela multido. Aps mais alguns
passos desatou a correr. Os aplausos entusiasmados se intensificaram quando
atravessou a porta da igreja e saiu para o sol da rua, sendo acompanhado pela
maior parte da congregao.
         Philip olhou para os dois padres. Reynold estava atemorizado, e lgrimas
corriam pelo rosto de Edward. Evidentemente eles no haviam tomado parte
naquilo. Philip virou-se para Jack e exclamou, furioso:
         - Como se atreve a tentar um truque desses?
         - Truque? - disse Jack. - Que truque?
         - Aquele homem nunca tinha sido visto por aqui at alguns dias atrs. Em
mais um ou dois dias desaparecer, para nunca mais ser visto de novo, com os
bolsos cheios do seu dinheiro. Sei como essas coisas so feitas, Jack. Voc no 
a primeira pessoa a forjar um milagre, lamentavelmente. Nunca houve nada de
errado com as pernas dele, no  verdade? No passa de outro pescador de
Wareham.
         A acusao foi confirmada pela expresso de culpa de Jack.
         - Jack - disse Aliena -, eu lhe disse para no tentar isso.
         Os dois padres estavam estupefatos. Haviam sido completamente
enganados. Reynold ficou furioso e aproximou-se de Jack.
         - Voc no tinha o direito! - esbravejou.
         Philip ficou triste e tambm zangado. No fundo do corao tivera
esperanas de que a Madona fosse legtima, pois podia ver como a usaria para
revitalizar o priorado e a cidade. Mas no seria assim. Deu uma olhada na
pequena igreja. S tinham permanecido uns poucos fiis, de olhos fixos na
esttua.
         - Desta vez voc foi longe demais - disse o prior para Jack.
         - As lgrimas so reais, no h truque nisso - disse Jack. - Mas o aleijado
foi um erro, admito.
         - Foi pior que um erro - disse Philip, furioso. - Quando as pessoas
souberem da verdade tero a f abalada em todos os milagres.
         - Por que precisam saber da verdade?
         - Porque terei que lhes explicar o motivo pelo qual a Madona no ser
entronizada na catedral. No h dvida quanto  minha aceitao da esttua
agora,  claro.
         - Acho que  um pouco precipitado - disse Reynold.
         - Quando quiser sua opinio, rapaz, eu a pedirei - retorquiu Philip,
interrompendo-o.
         Reynold calou-se, mas Jack insistiu.
         - Est certo de que tem o direito de privar o povo da sua Madona? Olhe
para essa gente - exclamou, indicando o punhado de crentes que haviam ficado
para trs. Entre eles via-se a viva Meg. Ela estava ajoelhada em frente  esttua,
com as lgrimas escorrendo pelo rosto. Jack no sabia, lembrou Philip, que Meg
perdera toda a famlia no desmoronamento do telhado de Alfred. A emoo dela
o comoveu, e ele perguntou-se se Jack afinal no teria razo. Por que tirar aquilo
do povo? Por ser desonesto, relembrou a si prprio, severamente. Eles
acreditavam na esttua por terem visto um falso milagre. Endureceu o corao.
         Jack ajoelhou-se ao lado de Meg e falou com ela.
         - Por que voc est chorando?
         - Ela  muda - disse-lhe Philip.
         - A Madona sofreu como eu - disse-lhe ento Meg. - Ela compreende.
         Philip ficou assombrado.
         - Est vendo s? - disse Jack. - A esttua ameniza o sofrimento dela. O
que  que voc est olhando?
         - Ela  muda - repetiu Philip. - No pronuncia uma nica palavra h mais
de um ano.
         - Isso mesmo! - exclamou Aliena. - Meg ficou muda depois que seu
marido e seus filhos morreram no desabamento do telhado.
         - Esta mulher? - disse Jack. - Mas ela acaba de...
         Reynold estava abismado.
         - Voc quer dizer que isto  um milagre? De verdade? - Philip examinou
o rosto de Jack. Ele estava mais chocado do que qualquer um. No havia truque
ali.
         O prior sentia-se profundamente comovido. Vira a mo de Deus se
mover e operar um milagre. Estava um pouco trmulo.
         - Bem, Jack... - disse, com a voz insegura. - A despeito de tudo o que
voc fez para desacreditar a Madona que Chora, parece que Deus tenciona
operar milagres com ela de qualquer modo.
         Daquela vez Jack ficou sem palavras. Philip afastou-se dele e foi at Meg.
Segurou-lhe as mos e, delicadamente, ajudou-a a se levantar.
         - Deus a fez ficar boa de novo, Meg - disse, a voz trmula de emoo. -
Agora pode comear uma nova vida. - Lembrou que fizera um sermo sobre a
histria de J. As palavras voltaram: - E assim Deus abenoou o fim da vida de
J mais do que o seu princpio... - Dissera ao povo de Kingsbridge que o mesmo
seria verdade para eles. Eu gostaria de saber, pensou, observando o xtase
estampado no rosto repleto de lgrimas de Meg, se isto poder ser o comeo de
tudo.

         Houve um clamor no cabido quando Jack apresentou sua planta para a
nova catedral.
         Philip o advertira para esperar encrenca. Vira os desenhos antes, claro.
Jack os levara  casa do prior uma manh bem cedo - uma planta e uma projeo
vertical, riscadas em gesso emoldurado em madeira. Eles as haviam apreciado
juntos,  clara luz da manh, e Philip dissera: "Jack, esta ser a igreja mais bonita
da Inglaterra... mas vamos ter problemas com os monges".
         Jack sabia, desde os tempos de novio, que Remigius e seus amigos ainda
se opunham rotineiramente a qualquer plano que fosse caro ao corao de Philip,
muito embora houvessem decorrido oito anos desde que este o vencera na
eleio. Eles raramente conseguiam apoio dos demais, mas nesse caso Philip
estava inseguro: eram todos to conservadores que poderiam se assustar com o
projeto revolucionrio. No entanto, nada havia a fazer seno lhes mostrar os
desenhos e tentar convenc-los. Philip certamente no poderia seguir em frente e
construir a catedral sem o apoio sincero da maioria dos seus monges.
         No dia seguinte Jack compareceu ao cabido e apresentou seus planos. Os
desenhos foram colocados sobre um banco encostado  parede, e os monges se
agruparam para examin-los.  medida que tomavam conhecimento dos
detalhes, o murmrio foi aumentando rapidamente at se transformar numa
algazarra. Jack se sentiu desencorajado: o tom era desaprovador, quase ultrajado.
O barulho ficou ainda maior quando comearam a discutir entre si, alguns
atacando o projeto e outros defendendo-o.
         Aps algum tempo Philip chamou-os  ordem e eles se aquietaram.
Milius Tesoureiro fez uma pergunta previamente combinada:
         - Por que os arcos ogivais?
         -  uma nova tcnica que esto usando na Frana - respondeu Jack. - Vi
em diversas igrejas. O arco ogival  mais forte. Isso me possibilitar construir a
igreja muito alta. Provavelmente ser a nave mais alta de toda a Inglaterra.
         Gostaram da idia, Jack podia assegurar.
         - As janelas so to grandes! - comentou algum.
         - Paredes grossas so desnecessrias - disse Jack. - Provaram isso na
Frana. So os pilares que sustentam a construo, especialmente com o teto de
vigas. E o efeito das janelas grandes  emocionante. Em Saint-Denis o abade ps
vidros coloridos com desenhos nas janelas. A igreja se torna um lugar ensolarado
e arejado, em vez de sombrio e abafado.
         Diversos monges balanaram a cabea, aprovando. Talvez no fossem
to conservadores quanto pensara. Mas foi Andrew Sacristo quem falou a
seguir.
         - H dois anos voc era um novio entre ns. Foi castigado por atacar o
prior, escapou da cela e fugiu do convento. Agora volta nos dizendo como
construir nossa igreja.
         Antes que Jack pudesse falar, um dos monges mais jovens protestou:
         - Isso no tem nada a ver com nossa discusso! Estamos examinando o
projeto, no o passado de Jack!
         Diversos monges tentaram falar ao mesmo tempo, alguns deles aos
gritos. Philip fez com que todos se calassem e pediu a Jack que respondesse.
         O rapaz esperara por algo assim e estava preparado.
        - Fiz uma peregrinao a Santiago de Compostela como penitncia por
esse pecado, padre Andrew, e espero que o fato de ter trazido a Madona que
Chora para o mosteiro possa ser considerado como uma compensao pelo meu
mau comportamento - afirmou docilmente. - Posso no ser destinado a me
tornar monge, mas espero que possa servir a Deus de um modo diferente: como
seu construtor.
        Eles pareceram aceitar aquilo. Andrew, contudo, no terminara.
        - Qual  a sua idade? - perguntou, embora certamente soubesse a
resposta.
        - Vinte anos.
        -  muito pouco para ser mestre construtor.
        - Todos os presentes me conhecem. Morei aqui desde menino. - Desde
que incendiei sua velha igreja, pensou ele, culpadamente. - Fiz meu aprendizado
com o primeiro mestre construtor. Vocs viram meu trabalho de cinzelagem na
pedra. Quando fui novio trabalhei com o prior Philip e com Tom como
encarregado da obra. Peo humildemente aos irmos que me julguem pelo meu
trabalho, e no pela minha idade.
        Foi outro discurso preparado. Mas Jack viu um dos irmos sorrir quando
ouviu a palavra "humildemente" e se deu conta de que podia ter sido um
pequeno erro; todos sabiam que, fossem quais fossem suas qualidades, no se
podia dizer que entre elas estivesse a humildade.
        Andrew mais que depressa aproveitou-se do lapso.
        - Humildemente? - repetiu, e seu rosto comeou a ficar vermelho quando
ele simulou estar se sentindo muito ultrajado. - No foi muita humildade da sua
parte anunciar aos pedreiros de Paris trs meses atrs que j tinha sido designado
mestre construtor aqui em Kingsbridge.
        Mais uma vez ouviu-se um alarido de reaes indignadas partindo dos
monges. Jack resmungou intimamente. Como diabo Andrew viera a saber
daquilo? Reynold ou Edward deviam ter contado. Tentou se desculpar.
        - Eu estava tentando atrair alguns daqueles artesos para Kingsbridge -
disse, quando o barulho diminuiu. - Eles sero teis, no importa quem seja
designado mestre construtor. No creio que minha presuno tenha causado mal
algum... - Tentou um sorriso cativante. - Mas sinto muito por no ser mais
humilde. - A desculpa no desceu bem.
        Milius Tesoureiro salvou-o, com outra pergunta arranjada.
        - Qual  a sua proposta para o coro, que ruiu parcialmente?
        - Eu o examinei com cuidado - respondeu Jack. - Pode ser reparado. Se
me designarem mestre construtor hoje, eu o deixarei em condies de ser usado
novamente dentro de um ano. Por fim, quando a nave estiver terminada,
proponho demolir o coro e construir outro no estilo do resto da nova igreja.
        - Mas como voc sabe que o coro antigo no vai cair novamente? - quis
saber Andrew.
         - O desmoronamento foi causado pela abbada de pedra de Alfred, que
no estava no projeto original. As paredes no eram fortes o bastante para
sustent-lo. O que proponho  voltar ao desenho de Tom e construir um teto de
madeira.
         Houve um murmrio de surpresa. A questo do motivo pelo qual o
telhado rura fora razo de controvrsia.
         - Mas Alfred aumentou o tamanho dos arcobotantes para sustentar o
peso extra.
         Aquilo intrigara Jack tambm, mas ele pensava ter encontrado a resposta.
         - Ainda assim, eles no eram bastante fortes, particularmente na parte de
cima. Se examinarem as runas, podero ver que a parte da estrutura que cedeu
foi o clerestrio. O reforo foi insuficiente nesse nvel.
         Eles pareceram ficar satisfeitos com aquilo. Jack sentiu que sua
capacidade de dar uma resposta confiante elevara seu status como mestre
construtor.
         Remigius levantou-se. Jack estivera se perguntando quando ele faria a sua
contribuio.
         - Eu gostaria de ler um versculo da Sagrada Escritura para os irmos no
cabido - disse, um tanto teatralmente. Olhou para Philip, que balanou a cabea,
dando o seu consentimento.
         Remigius caminhou at o plpito e abriu a imensa Bblia. Jack examinou
o homem. Sua boca de lbios finos movia-se nervosamente e seus olhos azul-
claros, um tanto arregalados, lhe davam uma expresso de permanente
indignao. Era o retrato do ressentimento. Anos atrs viera a crer que seu
destino era ser lder de homens, mas na verdade tinha o carter fraco, e estava
condenado a viver em contnuo desapontamento, causando problemas para
homens melhores.
         - O xodo - entoou ele, virando as pginas de pergaminho. - Captulo 20.
Versculo 14. - Jack perguntou-se que raio de coisa estaria por vir. Remigius leu: -
"No cometers adultrio". - Fechou o livro com fora e retornou a seu lugar.
         - Talvez pudesse nos dizer, irmo Remigius, por que fez questo de ler
esse curto versculo no meio de nossa discusso dos planos de construo da
nova catedral - interveio Philip, num Tom de voz que revelava mediana
exasperao.
         Remigius apontou um dedo acusador para Jack.
         - Porque o homem que deseja ser o nosso mestre construtor est vivendo
em estado de pecado! - trovejou.
         Jack no pde acreditar que ele estivesse falando srio, e retrucou,
indignado:
         -  verdade que a nossa unio no foi abenoada pela Igreja, devido a
circunstncias especiais, mas nos casaremos quando quiser.
         - No podem - disse Remigius triunfantemente. - Aliena j  casada.
         - Mas a unio dela jamais foi consumada.
         - Mesmo assim, a cerimnia foi realizada, numa igreja.
         - Mas se no me deixam casar com ela, como posso evitar cometer
adultrio? - exclamou Jack, furioso.
         - Chega! - era a voz de Philip. Jack olhou para ele. Parecia furioso.
Perguntou: - Jack, voc est vivendo em pecado com a mulher do seu irmo?
         Jack ficou estupefato.
         - Voc no sabia?
         - Claro que no! - explodiu Philip. - Acha que eu teria permanecido em
silncio se soubesse?
         Ningum falou nada. No era costumeiro Philip gritar. Jack percebeu que
estava metido num problema srio. Seu pecado era uma tecnicalidade, claro, mas
esperava-se que os monges fossem rigorosos acerca dessas coisas.
Lamentavelmente, o fato de Philip no ter sabido que estava vivendo com Aliena
tornara as coisas muito piores.
         Permitira a Remigius pegar o prior de surpresa e obrig-lo a fazer papel
de tolo. Agora ele teria que ser firme, para provar que era rigoroso.
         - Mas vocs no podem construir o tipo errado de igreja s para me
punir - disse Jack, angustiado.
         - Voc ter que deixar aquela mulher - disse Remigius com enorme
satisfao.
         - No amole, Remigius - retrucou Jack. - Ela tem um filho meu, com um
ano de idade!
         Remigius voltou a se sentar, com uma expresso de felicidade na
fisionomia.
         - Jack - disse Philip -, se falar desse modo no cabido, ter que se retirar.
         Jack sabia que precisava se acalmar, porm no conseguiu.
         - Mas  um absurdo! Voc est me dizendo para abandonar minha
mulher e nosso filho! Isso no  moralidade,  uma sutileza bizantina!
         A raiva de Philip diminuiu, de algum modo, e Jack viu o brilho mais
familiar da compreenso dos seus olhos azul-claros.
         - Jack - disse ele -, a sua abordagem das leis de Deus pode ser mais
pragmtica, mas ns preferimos ser rgidos;  por isso que somos monges. E no
podemos t-lo como construtor enquanto viver em adultrio.
         Jack lembrou-se de uma frase das Escrituras.
         - Jesus disse: "Aquele dentre vs que no tiver pecado, que atire a
primeira pedra".
         - Sim - replicou Philip -, mas tambm disse para a adltera: "V e no
peque mais". - Ele se virou para Remigius.
        - Acredito que voc no se opor mais se o adultrio cessar.
        - Claro! - respondeu o subprior.
        A despeito da sua raiva e angstia, Jack notou que Philip fora mais
esperto que Remigius. Fizera do adultrio a questo decisiva, desviando assim a
questo do novo projeto. Mas Jack no estava disposto a aceitar aquilo, e disse:
        - No vou deix-la!
        - Pode ser que no seja por muito tempo.
        Jack parou. A afirmativa de Philip pegou-o de surpresa.
        - No entendi.
        - Voc pode se casar com Aliena se o primeiro casamento dela for
anulado.
        - E isso pode ser feito?
        - Deve ser automtico, se, como diz, a unio nunca tiver se consumado.
        - O que tenho a fazer?
        - Recorrer a um tribunal eclesistico. Normalmente seria o do bispo
Waleran, mas neste caso voc provavelmente ter que recorrer ao arcebispo de
Canterbury.
        - E o arcebispo dever concordar?
        - Para fazer justia, sim.
        Jack percebeu que no se tratava de uma resposta totalmente inequvoca.
        - Mas teremos que viver separados nesse meio tempo?
        - Se voc quiser ser designado mestre construtor da Catedral de
Kingsbridge, sim.
        - Voc est me pedindo para escolher entre as duas coisas que mais amo
neste mundo.
        - No por muito tempo.
        A voz de Philip fez Jack de sbito erguer os olhos; havia real
compreenso nela. Ele viu que Philip se sentia genuinamente pesaroso por ter
que fazer aquilo. Sentiu-se menos furioso e mais triste.
        - Por quanto tempo? - perguntou.
        - Talvez por um ano.
        - Um ano!
        - Vocs no precisam viver em cidades diferentes - disse Philip. -
Continuar podendo ver Aliena e a criana.
        - Sabe que ela foi  Espanha para me procurar? - perguntou Jack. - Pode
imaginar uma coisa dessas? - Entretanto, os monges no tinham idia do que era
o amor. Acrescentou amargamente: - Agora vou ter que lhe dizer que seremos
obrigados a viver separados.
        Philip levantou-se e ps uma das mos sobre o ombro de Jack.
        - O tempo passar mais depressa do que imagina, eu lhe prometo. E voc
estar ocupado, construindo a nova catedral.
         A floresta crescera e mudara em oito anos. Jack pensara que nunca
poderia se perder num territrio que conhecera como a palma da mo, mas se
enganara. As trilhas antigas estavam cobertas de mato, novas trilhas tinham sido
abertas sob as rvores pelos javalis, veados e pneis selvagens, regatos haviam
alterado seus cursos, velhas rvores tinham cado e novas rvores estavam mais
altas. Tudo diminura - as distncias pareciam menores, e as colinas, menos altas.
O mais surpreendente de tudo  que ele se sentia como um estranho. Quando
um filhote de veado o encarou, espantado, do outro lado de uma clareira, Jack
no conseguiu adivinhar a que famlia pertencia ou onde estaria sua me. Quando
um bando de patos levantou vo, no conseguiu saber instantaneamente de que
curso de gua haviam sado e por qu.
         E tambm estava nervoso, porque no tinha idia de onde estariam os
fora-da-lei.
         Viera a cavalo desde Kingsbridge, mas tivera que desmontar assim que
deixara a estrada principal, pois as rvores sobre a trilha eram muito baixas.
Retornar aos lugares em que vivera na infncia o deixara irracionalmente triste.
Nunca apreciara, por nunca ter percebido, como a vida era simples naquele
tempo. Sua maior paixo eram os morangos, e em todos os veres, sempre
soubera que por alguns dias haveria todos os que conseguisse comer, crescendo
no solo da floresta. Agora tudo era problemtico: sua combativa amizade com o
prior Philip; seu amor frustrado por Aliena; sua enorme ambio de construir a
mais bonita catedral do mundo; seu desejo veemente de descobrir a verdade
sobre o pai.
         No sabia quanto sua me mudara nos dois anos em que estivera fora.
Estava muito ansioso por rev-la. Sara-se perfeitamente bem sozinho, claro, mas
era bom ter uma pessoa sempre disposta a defend-lo, e sentira falta desse
sentimento reconfortante.
         Gastara o dia inteiro para chegar  parte da floresta onde costumavam
viver. Agora a curta tarde de inverno escurecia rapidamente. Logo teria que
desistir de procurar a velha caverna e dedicar-se a encontrar um lugar abrigado
onde pudesse passar a noite. Ia fazer frio. Por que estou preocupado?, pensou.
Eu costumava passar todas as noites na floresta.
         No fim foi ela quem o encontrou.
         Estava a ponto de desistir. Uma trilha estreita, quase invisvel atravs da
vegetao, provavelmente usada apenas por raposas e texugos, desembocava
numa moita cerrada.
         Nada havia a fazer seno voltar atrs. Virou o cavalo e quase esbarrou em
Ellen.
         - Voc se esqueceu de como deslocar-se em silncio na floresta - disse
ela. - Ouvi-o esmagando o mato a milhas de distncia.
         Jack sorriu. Ela no mudara.
         - Ol, me - disse. Beijou-a no rosto, e, cedendo  emoo, abraou-a.
         Ela tocou no seu rosto.
         - Voc est mais magro que nunca.
         Jack a examinou. Ellen estava bronzeada e saudvel, o cabelo ainda
grosso e escuro, sem nenhum fio branco. Seus olhos tinham a mesma cor
dourada, e ainda pareciam enxergar atravs dele.
         - Voc no mudou - disse.
         - Aonde voc foi? - perguntou ela.
         - A Santiago de Compostela, e mais alm, at Toledo.
         - Aliena foi  sua procura...
         - E me encontrou. Graas a voc.
         - Fico feliz. - Ela fechou os olhos, como se dissesse intimamente uma
prece de agradecimento. - Muito feliz.
         Ela o conduziu atravs da floresta at a caverna, que ficava s a cerca de
uma milha de distncia: sua memria no estava to ruim, afinal. Ellen tinha um
fogo alto crepitando e trs velas acesas. Serviu-lhe uma caneca de sidra que
preparara com mas silvestres e mel, e assaram algumas castanhas. Jack se
lembrava dos artigos que um morador da floresta no podia fabricar, e trouxera
para a me facas, corda, sabo e sal. Ela comeou a esfolar um coelho.
         - Como vai, me? - perguntou ele.
         - Bem - respondeu Ellen; depois olhou para o filho e viu que estava
mesmo interessado em saber. - Sinto falta de Tom - acrescentou. - Mas ele
morreu, e no estou interessada em outro marido.
         - E afora isso est feliz aqui?
         - Sim e no. Estou acostumada a viver na floresta. Gosto de solido.
Nunca me habituei a ter padres intrometidos dizendo como devo me comportar.
Mas sinto falta de voc, de Martha e de Aliena, e gostaria de poder ver mais vezes
o meu neto. - Ela sorriu. - No entanto, nunca poderei voltar a viver em
Kingsbridge, no aps ter amaldioado um casamento cristo. O prior Philip
nunca me perdoar. No entanto, valeu a pena, se consegui unir voc e Aliena
finalmente. - Ela ergueu os olhos com um sorriso satisfeito. - Ento, est
gostando da vida de casado?
         - Bem - respondeu ele, hesitante -, no estamos casados. Aos olhos da
Igreja, Aliena ainda est casada com Alfred.
         - No seja tolo; o que a Igreja sabe a esse respeito?
         - Bem, eles sabem quem casou, e no me deixariam construir a nova
catedral enquanto eu estivesse vivendo com a mulher de outro homem.
         Os olhos dela fuzilaram de raiva.
         - Ento voc a deixou?
         - Sim. At que Aliena consiga uma anulao.
         Ellen ps a pele do coelho de lado. com uma faca afiada nas mos
sangrentas comeou a esquartejar a carcaa, deixando os pedaos carem na
panela que borbulhava no fogo.
        - O prior Philip fez isso comigo uma vez, quando eu estava com Tom -
disse, cortando em fatias a carne com golpes rpidos. - Sei por que ele fica
frentico com gente que faz amor.  porque se ressente da liberdade das outras
pessoas de fazer o que lhe  proibido. Claro que no h nada que possa fazer
quando se trata de um casamento celebrado na Igreja. Mas quando no  o caso,
ele tem uma chance de estragar tudo, o que o faz se sentir melhor. - Ela cortou
os ps do coelho e os atirou num balde de madeira cheio de lixo.
        Jack assentiu. Aceitara o inevitvel, mas todas as vezes que dava boa-
noite a Aliena e afastava-se de sua porta sentia raiva de Philip e compreendia o
persistente ressentimento de sua me.
        - No  para sempre, contudo - disse.
        - Como Aliena se sente?
        Jack fez uma careta.
        - No gosta da idia. Mas acha que a culpa  dela, por ter se casado com
Alfred.
        -  verdade. E tambm  sua, por querer construir igrejas.
        Era lamentvel que ela no compartilhasse do seu ponto de vista.
        - Me, no vale a pena construir outra coisa. As igrejas so maiores, mais
altas, mais bonitas e mais difceis de construir, e tm mais ornamentos e
esculturas do que qualquer outro tipo de prdio.
        - E voc no se satisfar com menos.
        - Certo.
        Ela sacudiu a cabea, perplexa.
        - Nunca saberei de onde voc tirou a idia de que era destinado 
grandeza. - Ellen jogou o resto do coelho na panela e comeou a limpar a parte
interna da pele, para poder us-la depois. - Certamente no herdou isso de seus
ancestrais.
        Esta foi a deixa pela qual ele estivera esperando.
        - Me, quando estive no exterior, descobri mais um pouco acerca dos
meus ancestrais.
        Ela parou de raspar a pele do coelho e olhou para ele.
        - O que voc est querendo dizer?
        - Encontrei a famlia de meu pai.
        - Meu Deus! - Ela deixou cair a pele do coelho. - Como conseguiu? Onde
moram? Como so?
        - H uma cidade na Normandia chamada Cherbourg. Foi de l que ele
veio.
        - Como pode estar to seguro?
        - Pareo tanto com ele que pensaram que eu fosse um fantasma.
         Ellen deixou-se sentar pesadamente num banco. Jack sentiu-se culpado
por t-la chocado tanto, mas no esperara que fosse ficar to abalada com a
notcia.
         - Como... como  que eles so? - perguntou ela.
         - O pai dele j morreu, mas a me ainda est viva. Foi boa comigo, depois
que se convenceu de que eu no era um fantasma. O irmo mais velho de meu
pai  carpinteiro, e tem mulher e trs filhos. Meus primos. - Ele sorriu. - No 
timo? Temos parentes.
         Tal pensamento pareceu perturb-la, e Ellen ficou inquieta.
         - Oh, Jack, sinto muito por no t-lo criado normalmente!
         - Pois eu no sinto - disse ele, bem-humorado. Ficava embaraado
sempre que a me demonstrava sentir remorso: no combinava com ela. - Mas
fiquei contente por ter conhecido meus primos. Mesmo que nunca mais os veja
de novo,  bom saber que esto l.
         Ela aquiesceu tristemente.
         - Compreendo.
         Jack tomou flego.
         - Eles achavam que meu pai tinha morrido afogado num naufrgio h
vinte e quatro anos. Ele estava a bordo de uma embarcao chamada White Ship,
que afundou ao largo de Barfleur. Pensaram que todos tivessem se afogado.
Obviamente meu pai sobreviveu. Mas nunca souberam disso, porque ele no
voltou a Cherbourg.
         - Ele foi para Kingsbridge.
         - Mas por qu?
         Ela suspirou.
         - Agarrou-se a um barril e foi lanado numa praia, perto de um castelo.
Foi ao castelo relatar o naufrgio. Havia diversos bares poderosos ali, que
demonstraram grande espanto ao v-lo. Fizeram-no prisioneiro e o trouxeram
aqui para a Inglaterra. Aps algumas semanas, ou meses - ele no sabia bem,
porque ficou um tanto confuso -, terminou em Kingsbridge.
         - Ele disse alguma coisa sobre o naufrgio?
         - S que o navio afundou muito depressa, como se tivesse sido
esburacado.
         - Parece que eles precisavam conserv-lo fora do caminho.
         Ela concordou.
         - E depois, quando perceberam que no poderiam mant-lo preso para
sempre, mataram-no.
         Jack ajoelhou-se diante dela e forou-a a encar-lo. Com a voz trmula de
emoo, perguntou:
         - Mas quem eram eles, me?
         - Voc j me perguntou isso antes.
           - E voc nunca me contou.
           - Porque no quero que passe o resto da vida tentando vingar a morte do
seu pai!
         Ela ainda o tratava como se fosse uma criana, negando-lhe informaes
que podiam no ser boas para ele. Jack tentou ser calmo e adulto.
         - Vou passar a vida construindo a Catedral de Kingsbridge e fazendo
filhos com Aliena. Mas quero saber por que enforcaram meu pai. E as nicas
pessoas que tm essa resposta so as que prestaram falso testemunho contra ele.
Por isso tenho que saber quem eram.
         - Naquele tempo eu no sabia o nome deles.
         Jack notou que Ellen estava sendo evasiva, e isso o enfureceu.
         - Mas agora voc sabe!
         - Sim, sei - disse ela, chorosa, e Jack percebeu que aquilo era to doloroso
para sua me quanto para ele. - , vou lhe dizer, porque posso ver que nunca vai
desistir de perguntar.
         Ela fungou e enxugou os olhos.
         Ele esperou, ansioso.
         - Havia trs deles: um monge, um padre e um cavaleiro.
         Jack lanou-lhe um olhar duro.
         - Seus nomes.
         - Voc vai lhes perguntar por que mentiram sob juramento?
         - Sim.
         - E espera que lhe digam?
         - Talvez no. Olharei nos seus olhos quando lhes perguntar, e pode ser
que isso me diga o que quero saber.
         - Mesmo isso poder ser impossvel.
         - Quero tentar, me!
         Ela suspirou.
         - O monge era o prior de Kingsbridge.
         - Philip!
         - No, no era Philip. Isso foi antes do tempo dele. Foi seu predecessor,
James.
         - Mas ele est morto.
         - Eu lhe disse que podia ser impossvel interrog-los.
         Jack semicerrou os olhos.
         - Quem eram os outros?
         - O cavaleiro era Percy Hamleigh, o conde de Shiring.
         - O pai de William?
         - Sim.
         - Ele tambm est morto!
         - Sim.
       Jack teve a terrvel impresso de que todos os trs estavam mortos, e o
segredo enterrado com seus ossos.
       - Quem era o padre? - perguntou, nervoso.
       - Seu nome era Waleran Bigod. Agora  o bispo de Kingsbridge.
       Jack deu um suspiro de profunda satisfao.
       - E ainda est vivo - disse.

        O castelo do bispo Waleran foi concludo no Natal. William Hamleigh e
sua me cavalgaram at l numa bela manh, logo no incio do Ano-Novo. Eles o
viram a distncia, do outro lado do vale. Era o ponto mais alto da colina oposta,
dominando a paisagem com seu aspecto desagradvel.
        Ao atravessarem o vale passaram pelo velho palcio. Agora era usado
como depsito de l. A renda advinda da l estava pagando quase todas as
despesas do novo castelo.
        Subiram trotando a elevao suave do outro lado do vale e seguiram a
estrada que atravessava as fortificaes de terra e um fosso seco e fundo. com
elas, o fosso e uma muralha de pedra, aquele era um castelo altamente seguro,
superior ao de William e a muitos dos castelos de propriedade do rei.
        O ptio interno era dominado por uma imponente fortaleza de trs
andares de altura, que tornava minscula a igreja de pedra que ficava ao seu lado.
William ajudou a me a desmontar. Deixaram por conta dos cavaleiros a tarefa de
estabular os cavalos e subiram a escada que levava ao salo principal.
        Era meio-dia, e os criados de Waleran arrumavam a mesa. Alguns de seus
arcediagos, dees, empregados e parasitas aguardavam o almoo. William e
Regan aguardaram, enquanto um camareiro subia aos aposentos privados do
bispo para anunciar sua chegada.
        William se consumia de cime feroz e torturante. Aliena estava
apaixonada, e todo o condado sabia. Dera  luz um filho do seu amante e o
marido a pusera para fora de casa. Com o beb nos braos, fora procurar o
homem a quem amava e o encontrara depois de procurar em meia cristandade. A
histria estava sendo contada e recontada em todo o sul da Inglaterra. William
ficava doente de dio cada vez que a ouvia. Mas imaginara um modo de se
vingar.
        Subiram a escada e foram levados ao quarto de Waleran. Encontraram-
no sentado a uma mesa com Baldwin, agora arcediago.
        Os dois clrigos contavam dinheiro sobre um pano xadrez, fazendo
pilhas de doze pennies de prata e deslocando-as dos quadrados pretos para os
brancos. Baldwin levantou-se, fez uma reverncia para Lady Regan e rapidamente
sumiu com o pano e as moedas.
        Waleran levantou-se e foi sentar-se na cadeira ao lado do fogo. Moveu-se
rapidamente, como uma aranha, e William sentiu a antiga e costumeira averso
por ele. No obstante, resolveu ser melfluo. Soubera recentemente da horrvel
morte do conde de Hereford, que brigara com o bispo e morrera excomungado.
O corpo dele fora enterrado em solo no consagrado. Quando William imaginou
seu corpo jazendo em terra indefesa, vulnervel a todos os monstros e demnios
que habitam as profundezas, estremeceu de medo. Jamais brigaria com o seu
bispo.
         Waleran estava magro e plido como sempre, e seu manto negro
lembrava uma roupa secando numa rvore. Nunca parecia mudar. William sabia
que ele prprio estava bastante diferente. Comida e vinho eram seus principais
prazeres, e a cada ano ficava um pouco mais corpulento, a despeito da vida ativa
que levava, de modo que a dispendiosa cota de malha feita para ele quando
completara vinte e um anos j fora trocada duas vezes nos sete anos
subsequentes.
         Waleran acabava de regressar de York. Estivera fora por quase meio ano,
e William, polidamente, perguntou:
         - Teve xito na sua viagem?
         - No - foi a resposta dele. - o bispo Henry me mandou l para ver se
resolvia uma controvrsia que j dura quatro anos acerca de quem deve ser o
arcebispo de York. Falhei. A rixa continua.
         Quanto menos fosse dito sobre aquilo, melhor, pensou William, que
comentou:
         - Enquanto voc esteve fora, muita coisa aconteceu por aqui.
Especialmente em Kingsbridge.
         - Em Kingsbridge? - Waleran ficou surpreso. - Pensei que esse problema
tivesse sido resolvido de uma vez por todas.
         William sacudiu a cabea.
         - Eles tm a Madona que Chora.
         Waleran irritou-se.
         - Que diabo de histria  essa?
         Foi a me de William quem respondeu.
         -  uma esttua de madeira da Virgem que usam em procisses. Em
certas ocasies, sai gua dos seus olhos. O povo pensa que  milagrosa.
         -  milagrosa! - afirmou William. - Uma esttua que chora!
         Waleran dirigiu-lhe um olhar escarninho. Regan prosseguiu.
         - Milagrosa ou no, milhares de pessoas foram v-la nos ltimos meses.
Nesse meio tempo, o prior Philip recomeou a construo. Esto reparando o
coro e pondo um novo teto de madeira. Tambm comearam o resto da igreja.
As fundaes da interseo j foram escavadas, e alguns novos pedreiros
chegaram de Paris.
         - Paris? - estranhou Waleran.
         - A igreja agora vai ser construda no estilo da de Saint-Denis, seja o que
for que isso signifique.
         Waleran aquiesceu.
         - Arcos ogivais. Ouvi falar a respeito disso em York.
         William no se importava com o estilo em que a catedral de Kingsbridge
seria construda.
         - A questo - disse -  que os rapazes abandonam as minhas terras para se
mudar para Kingsbridge e trabalhar como serventes, o mercado abre todos os
domingos mais uma vez, tirando negcios de Shiring...  a mesma velha histria
de sempre! - William relanceou os olhos para a me e o bispo, perguntando-se se
no teriam suspeitado de que tinha um motivo oculto; porm, nenhum dos dois
parecia desconfiado.
         - O pior erro que j cometi - disse Waleran - foi ajudar Philip a se tornar
prior.
         - Eles vo aprender que simplesmente no podem fazer isso - disse
William.
         O bispo olhou para ele pensativamente.
         - O que voc quer fazer?
         - Vou saquear a cidade de novo. - E quando o fizer, matarei Aliena e seu
amante, pensou; olhou para o fogo, a fim de que sua me no o encarasse e
pudesse ler seus pensamentos.
         - No estou seguro de que voc possa faz-lo - disse Waleran.
         - J fiz isso antes; por que no deveria fazer de novo?
         - Da ltima vez voc tinha um bom motivo: a feira de l.
         - Agora  o mercado. Eles nunca tiveram permisso do rei Estvo para
o mercado.
         - No  a mesma coisa. Philip estava forando sua sorte com aquela feira
de l, e voc atacou imediatamente. O mercado de domingo j vem funcionando
em Kingsbridge h seis anos, e de qualquer modo fica a quase vinte milhas de
Shiring, de maneira que deve ser licenciado.
         William conteve a raiva. Tinha vontade de dizer a Waleran para no ficar
bancando uma frgil velhinha; entretanto, nunca faria uma coisa dessas.
         Enquanto estava engolindo seu protesto, um camareiro entrou e ficou
parado em silncio junto  porta.
         - O que ? - perguntou Waleran.
         - H um homem a que insiste em v-lo, milorde bispo. O nome  Jack.
Um construtor, de Kingsbridge. Devo mand-lo embora?
         O corao de William disparou. Era o amante de Aliena. Como
acontecera de vir justamente quando tramava sua morte? Talvez tivesse poderes
sobrenaturais. O conde deixou-se dominar pelo pavor.
         - De Kingsbridge? - perguntou Waleran, com interesse.
         -  o novo construtor l - disse Regan; - foi ele quem trouxe a Madona
que Chora da Espanha.
         - Interessante - comentou Waleran. - Vamos dar uma olhada nele. -
Dirigiu-se ao camareiro: - Mande-o entrar.
         William ficou com os olhos fixos na porta, com terror supersticioso.
Esperava que entrasse um homem alto, assustador, de capa negra, que apontasse
diretamente para ele um dedo acusador. Mas quando Jack passou pela porta,
ficou chocado com a sua juventude. O amante de Aliena no podia ter muito
mais que vinte anos. Tinha cabelo ruivo e vivos olhos azuis que passaram por
William, fizeram uma pausa em Regan - cujas horrveis ulceraes no rosto
prendiam o olhar de qualquer pessoa que no estivesse acostumada - e se
detiveram em Waleran. O construtor no estava muito intimidado por se
encontrar na presena dos dois homens mais poderosos do condado, porm, a
no ser pela sua surpreendente indiferena, no parecia inspirar medo.
         Como William, Waleran sentiu a atitude insubordinada do jovem
construtor, e reagiu com uma voz glacialmente arrogante:
         - Bem, rapaz, qual o assunto que deseja tratar comigo?
         - A verdade - respondeu Jack. - Quantos homens j viu serem
enforcados?
         William conteve a respirao. A pergunta era chocante e insolente. Olhou
para os outros. Sua me tinha se inclinado para a frente, olhando atentamente
para Jack, como se pudesse t-lo visto antes e estivesse tentando se lembrar de
onde. Waleran parecia friamente divertido.
         - O que  isto? Alguma adivinhao? - perguntou Waleran. - J vi mais
homens serem enforcados do que pude contar, e haver mais um na lista se voc
no falar respeitosamente.
         - Peo-lhe desculpas, milorde bispo - disse Jack, mas ainda no deu
mostras de estar assustado. - Lembra-se de todos eles?
         - Acho que sim - respondeu Waleran, parecendo intrigado, apesar do
esforo para se controlar. - Suponho que haja um em particular no qual voc
esteja interessado.
         - H vinte anos, em Shiring, voc testemunhou o enforcamento de um
homem chamado Jack Shareburg.
         William ouviu sua me ofegando.
         - Era um menestrel - continuou Jack. - Lembra-se dele?
         O conde Hamleigh percebeu que a atmosfera na sala de repente ficara
tensa. Havia algo de amedrontador em Jack que no era natural; devia haver, para
que ele causasse aquele efeito sobre sua me e Waleran.
         - Penso que talvez me lembre - respondeu Waleran, e William detectou
na sua voz a tenso do autocontrole. O que estaria acontecendo?
         - Imagino que se lembre, sim - disse Jack, insolente de novo. - O homem
foi condenado com base no depoimento de trs pessoas. Duas esto mortas.
Voc era a terceira.
        Waleran assentiu.
        - Ele havia roubado algo do priorado de Kingsbridge: um clice
ornamentado com pedras preciosas.
        Uma expresso insensvel surgiu nos olhos azuis de Jack.
        - Ele no fez nada disso.
        - Eu mesmo o peguei, com o clice.
        - Voc mentiu.
        Houve uma pausa. Quando Waleran falou de novo, sua voz soou
brandamente, mas a expresso do seu rosto era dura como ao.
        - Posso fazer com que lhe cortem a lngua - disse.
        - S quero saber por que voc fez isso - disse Jack, como se no tivesse
ouvido a terrvel ameaa. - Pode ser sincero aqui. William no representa
nenhuma ameaa para voc, e a me dele parece j saber de tudo.
        William olhou para a me. Era verdade; o ar dela era de quem tinha
conhecimento do que se passara. Quanto a ele, estava completamente estupefato.
Parecia - mal se atrevia a acreditar - que a visita de Jack nada tinha a ver com seus
planos secretos para matar o amante de Aliena.
        - Voc est acusando o bispo de perjrio! - disse Regan a Jack.
        - No repetirei a acusao em pblico - disse Jack, com frieza. - No
tenho provas, e de qualquer modo no estou interessado em vingana. S queria
entender porque enforcaram um homem inocente.
        - D o fora daqui - ordenou Waleran glacialmente.
        Jack aquiesceu, como se no houvesse esperado outra coisa. Embora no
tivesse conseguido respostas para as suas perguntas, o ar de satisfao que
ostentava dava a entender que suas suspeitas, de algum modo, haviam sido
confirmadas.
        William ainda estava desconcertado com aquele dilogo. Cedendo a um
impulso, disse:
        - Espere um momento.
        Jack virou-se,  porta, e o fitou com seus zombeteiros olhos azuis.
        - Qual ... - William engoliu e conseguiu controlar a voz. - Qual  o seu
interesse nisto? Por que veio aqui fazer tais perguntas?
        - Porque o homem que enforcaram era meu pai - disse Jack, e saiu.
        A sala ficou envolta em silncio. Ento o amante de Aliena, o mestre
construtor de Kingsbridge, era o filho de um ladro que fora enforcado em
Shiring. William pensou:nE da? Mas Regan parecia ansiosa, e Waleran estava
realmente abalado.
        - Aquela mulher me atormenta h vinte anos - disse amargamente o
bispo, ao cabo de algum tempo. E ele era normalmente to reservado que
William ficou chocado ao v-lo deixar os sentimentos transparecerem.
         - Ela desapareceu depois que a catedral caiu - disse Regan. - Pensei que
nunca mais fssemos v-la.
         - Agora seu filho volta para nos assombrar. - Havia algo parecido com o
medo da verdade na voz de Waleran.
         - Por que no o pe a ferros por acus-lo de perjrio? - perguntou o
conde.
         Waleran lanou-lhe um olhar de desprezo.
         - Seu filho  um maldito tolo, Regan - disse ele. William percebeu que a
acusao de perjrio devia ser verdadeira. E se ele foi capaz de perceber isso, Jack
tambm fora.
         - Algum mais sabe?
         - O prior James confessou seu perjrio, antes de morrer, ao subprior
Remigius. Mas Remigius sempre esteve do nosso lado contra Philip, de modo
que no representa perigo. A me de Jack conhece um pouco da histria, mas
no toda; de outro modo j teria usado a informao. Entretanto, Jack andou
viajando por a; pode ter descoberto algo que sua me no saiba.
         William viu que aquela estranha histria do passado poderia ser usada em
seu benefcio. Como se acabasse de lhe ocorrer a idia, sugeriu:
         - Ento vamos matar Jack.
         Waleran limitou-se a sacudir a cabea desdenhosamente.
         - S serviria para atrair a ateno sobre ele e suas acusaes.
         William ficou desapontado. Parecera quase providencial.
         Pensou um pouco, enquanto o silncio na sala se arrastava.
         - No obrigatoriamente.
         Ambos olharam para ele com ceticismo.
         - Jack pode ser morto sem que se atraia a ateno de ningum para ele -
insistiu William obstinadamente.
         - Est bem, conte-nos o que est pensando - disse Waleran.
         - Ele pode ser morto num ataque a Kingsbridge. - William teve a
satisfao de ver o mesmo ar de respeito e espanto no rosto de ambos.

        Jack percorreu o canteiro da obra com o prior Philip no final da tarde. As
runas do coro tinham sido removidas, e os escombros formavam dois montes
enormes no lado norte do adro. Novos andaimes haviam sido erguidos, e os
pedreiros estavam reconstruindo as paredes rudas. Ao longo da enfermaria fora
arrumado o estoque de madeira.
        - Voc est agindo rapidamente - disse Philip.
        - No to depressa quanto gostaria - replicou Jack.
        Inspecionaram as fundaes dos transeptos. Quarenta ou cinquenta
serventes estavam metidos nos buracos fundos, enchendo com suas ps os
baldes de lama, enquanto outros, no nvel do solo, operavam os guinchos que
iavam os baldes para fora do buraco. Imensos blocos de pedras que seriam
usados para os alicerces estavam empilhados nas proximidades.
         Jack conduziu Philip at a sua oficina. Era muito maior que a de Tom.
Um lado era completamente aberto, para melhor iluminao. Metade da rea
estava ocupada pelos seus desenhos. Ele cobrira o cho com tbuas que cercara
com uma moldura de madeira de algumas polegadas de altura e depois derramara
gesso at a borda. Quando o gesso secou, estava duro o bastante para que se
caminhasse em cima, mas era possvel desenhar nele com um pedao pequeno de
arame com a ponta aguada. Era ali que Jack desenhava os detalhes. Usava
compassos, rgua e esquadro. Os traos se mostravam brancos e claros assim que
eram traados, mas escureciam bem depressa, o que significava que novos
desenhos podiam ser feitos em cima dos antigos, sem confuso. Era uma idia
que ele aprendera na Frana.
         A maior parte do resto do galpo estava tomada pela bancada sobre a
qual Jack trabalhava em madeira, fazendo os gabaritos que mostrariam aos
pedreiros como trabalhar as pedras. A luz estava acabando; no mais poderia
continuar o trabalho. Comeou a guardar as ferramentas.
         Philip pegou um gabarito.
         - Para que  isto?
         - O plinto de uma coluna.
         - Voc prepara tudo com bastante antecipao.
         - No consigo ver a hora de comear a construir direito.
         Naqueles dias as conversas dos dois eram tensas e objetivas. Philip
deixou o gabarito onde o achara.
         - Tenho que ir para as completas.
         - E tenho que ir visitar minha famlia - disse Jack acidamente.
         Philip parou, virou-se como se fosse falar, o rosto triste, e foi embora.
         Jack trancou a caixa de ferramentas. Aquela observao fora tola. Tinha
aceitado o trabalho nas condies de Philip, e era intil reclamar agora. Mas se
sentia constantemente furioso com o prior e nem sempre conseguia conter-se.
         Deixou o priorado ao lusco-fusco e dirigiu-se  pequena casa no bairro
pobre onde Aliena vivia com o irmo, Richard. Ela sorriu satisfeita quando Jack
entrou, mas no se beijaram; nunca se tocavam naqueles tempos, com medo de
se excitarem e depois terem que se separar, frustrados, ou de quebrar a promessa
feita a Philip, cedendo  luxria.
         Tommy brincava no cho. Estava com um ano e meio, e sua atual
obsesso era colocar coisas dentro de outras coisas. Tinha quatro ou cinco
terrinas diante de si, e punha incessantemente as menores dentro das maiores,
assim tambm como tentava fazer o contrrio. Jack ficou muito impressionado
ao ver que o filho no sabia instintivamente que uma terrina grande no cabia
numa menor; era algo que os seres humanos tinham que aprender. Tommy
estava lutando com as relaes espaciais do mesmo modo como Jack, quando
tentava visualizar algo como a forma de uma pedra numa abbada.
         Tommy fascinava Jack e o deixava ansioso tambm. At ento Jack
nunca se preocupara com sua capacidade para encontrar trabalho, permanecer
num emprego e sustentar-se.
         Lanara-se  travessia da Frana sem pensar por um nico momento na
possibilidade de vir a ficar inteiramente sem recursos e passar fome. Mas agora
queria segurana.
         A necessidade de tomar conta de Tommy era muito mais compulsiva que
a necessidade de cuidar de si prprio. Pela primeira vez na vida tinha
responsabilidades.
         Aliena ps um jarro de vinho e bolo com especiarias na mesa e sentou-se
em frente a Jack. Ele serviu-se de um copo de vinho e bebeu, satisfeito. Aliena
ps um pedao de bolo na frente do filho, mas ele no estava com fome e o
espalhou em pedaos na palha do cho.
         - Jack, preciso de mais dinheiro - disse Aliena. Jack ficou surpreso.
         - Eu lhe dou doze pennies por semana. E s ganho vinte e quatro.
         - Desculpe - disse ela -, mas voc mora sozinho, no precisa tanto.
         Jack achou aquilo um tanto irracional.
         - Mas um servente s ganha seis pence por semana, e alguns tm cinco ou
seis filhos!
         Aliena irritou-se.
         - Jack, no sei como as mulheres dos serventes cuidam de suas casas;
nunca aprendi. E no gasto tudo comigo. Mas voc vem jantar aqui todos os
dias. E h Richard...
         - Bem, o que h com Richard? - perguntou Jack, furioso. - Por que ele
no se sustenta?
         - Ele nunca se sustentou.
         Jack achou que Aliena e Tommy eram um encargo suficiente para ele.
         - No sabia que sou eu que tenho de cuidar de Richard!
         - Bem, ele  minha responsabilidade - disse ela serenamente. - Quando
voc me aceitou, aceitou Richard tambm.
         - No me lembro de ter concordado com isso! - exclamou ele, furioso.
         - No se irrite.
         Tarde demais: Jack j estava irritado.
         - Richard tem vinte e trs anos de idade, dois a mais que eu. Como 
possvel que eu sustente um homem mais velho? Por que devo comer po duro
de manh e pagar o toucinho de Richard?
         - De qualquer forma, estou grvida de novo.
         - O qu?
         - Vou ter outro filho.
        A raiva de Jack desvaneceu-se. Ele segurou a mo de Aliena.
        - Que maravilha!
        - Voc est satisfeito? Pensei que fosse se zangar.
        - Zangar-me! Estou entusiasmado! No vi Tommy quando ele era
pequenino; agora vou descobrir o que perdi.
        - Mas o que me diz da responsabilidade extra, e do dinheiro?
        - Oh, ao inferno com o dinheiro! S estou de mau humor porque temos
de viver separados. Temos dinheiro suficiente. Mas outro beb! Tomara que seja
uma menina. - Lembrou-se de alguma coisa e franziu a testa. - Mas quando... ?
        - Deve ter sido um pouco antes de o prior Philip nos obrigar a viver
separados.
        - Talvez na festa da vspera do Dia de Todos os Santos. - Ele sorriu. -
Lembra-se daquela noite? Voc montou em mim como numcavalo...
        - Eu me lembro - disse ela, ruborizada. Ele a fitou afetuosamente.
        - Gostaria de fazer aquilo agora.
        Ela sorriu.
        - Eu tambm.
        Eles se deram as mos por cima da mesa. Richard chegou.
        Ele manteve a porta aberta e entrou, afogueado e poeirento, puxando um
cavalo suado.
        - Tenho ms notcias - disse, ofegante.
        Aliena pegou Tommy, tirando-o da frente dos cascos do cavalo.
        - O que aconteceu? - perguntou Jack.
        - Todos ns temos que sair de Kingsbridge amanh - disse ele.
        - Mas por qu?
        - William Hamleigh vai queimar a cidade de novo no domingo.
        - No! - exclamou Aliena.
        Jack gelou. Viu de novo a cena passada h trs anos, quando os cavaleiros
de William tinham invadido a feira de l, com seus archotes e seus porretes
brutais.Recordou o pnico, os gritos, o cheiro de carne queimada. Reviu o corpo
do padrasto, sua testa esmagada. Sentiu revolta no corao.
        - Como voc sabe? - perguntou a Richard.
        - Eu estava em Shiring, e vi alguns dos homens de William comprando
armas na oficina do armeiro.
        - Isto no significa que...
        - H mais. Segui-os at uma cervejaria e ouvi o que conversavam. Um
deles perguntou que defesas Kingsbridge tinha e o outro respondeu que
nenhuma.
        - Oh, meu Deus - disse Aliena -,  verdade! - Ela olhou para Tommy e
ps a mo na barriga, onde a nova criana crescia. Levantou a cabea e deu com
os olhos de Jack.
        Os dois estavam pensando na mesma coisa.
        Richard continuou.
        - Mais tarde fui conversar com alguns dos mais jovens, que no me
conhecem. Eu lhes falei sobre a batalha de Lincoln, e assim por diante, e disse
que estava procurando um bom combate. Eles me disseram para ir a Earlscastle,
mas teria que ser hoje, pois partiriam amanh e a batalha seria no domingo.
        - Domingo - repetiu Jack, assustado.
        - Peguei o cavalo e fui at Earlscastle, para me certificar.
        - Isso foi perigoso, Richard - disse Aliena.
        - Todos os sinais estavam l: mensageiros indo e vindo, armas sendo
amoladas, cavalos sendo trabalhados, selas e apetrechos sendo limpos... no
havia dvida alguma. - Numa voz cheia de dio, Richard concluiu: - Nenhuma
quantidade de maldade jamais satisfar aquele demnio do William: ele sempre
quer mais. - Richard levou a mo  orelha direita e tocou na cicatriz num gesto
nervoso inconsciente.
        Jack examinou Richard por um momento. Podia ser preguioso e
perdulrio, mas numa rea seu julgamento era digno de confiana: a militar. Se
dizia que William estava planejando um ataque, provavelmente tinha razo.
        - Vai ser uma catstrofe - disse Jack, meio para si prprio. Kingsbridge
comeava a se recuperar. H trs anos a feira de l tinha sido incendiada, h dois
a catedral cara sobre a congregao, e agora aquilo. Todos diriam que a m sorte
de Kingsbridge voltara. Mesmo que conseguissem evitar derramamento de
sangue, a cidade ficaria arruinada. Ningum ia querer viver ou trabalhar ali, ou
mesmo ir ao mercado. At a construo da catedral poderia ser interrompida.
        - Temos que contar ao prior Philip - disse Aliena. - Imediatamente.
        Jack concordou.
        - Os monges estaro ceando. Vamos.
        Aliena pegou Tommy e os trs subiram depressa a colina na direo do
mosteiro, em meio ao lusco-fusco.
        - Quando a catedral estiver terminada, o mercado poder ser montado no
seu interior, e todos estaro protegidos de ataques.
        - Mas at l precisamos da renda do mercado para pagar a construo da
catedral.
        Richard, Aliena e Tommy esperaram do lado de fora, enquanto Jack
entrava no refeitrio. Um jovem monge lia em voz alta um texto em latim,
enquanto os demais comiam em silncio. Jack reconheceu uma passagem obscura
do Apocalipse. Parou  porta e atraiu a ateno de Philip. Este ficou surpreso ao
v-lo, mas se levantou e saiu imediatamente.
        - Ms notcias - disse Jack, amargurado. - Vou deixar Richard contar.
        Eles conversaram na semi-obscuridade do coro reconstrudo. Richard
deu os detalhes em poucas sentenas. Quando terminou, Philip disse:
         - Mas no estamos realizando nenhuma feira, s um pequeno mercado!
         - Pelo menos temos a chance de evacuar a cidade amanh - disse Aliena. -
Ningum precisa se machucar. E podemos reconstruir nossas casas, como
fizemos da ltima vez.
         - A menos que William decida perseguir os fugitivos - disse Richard com
tristeza. - No duvido que o faa.
         - Mesmo que todos fujamos, acho que ser o fim do mercado - disse
Philip melancolicamente. - As pessoas tero medo de instalar seus estandes em
Kingsbridge depois disto.
         - Pode significar o fim da catedral - disse Jack. - Nos ltimos dez anos a
igreja primeiro pegou fogo e depois desmoronou. Muitos pedreiros morreram
quando a cidade foi incendiada. Outro desastre seria o ltimo, penso eu. Todos
diriam que  m sorte.
         Philip parecia alquebrado pela idade. Ainda no tinha quarenta anos, mas
seu rosto estava ficando enrugado, e havia mais fios brancos que pretos, ao redor
da tonsura.
         No obstante isso, havia um brilho perigoso nos seus olhos azul-claros
quando ele disse:
         - No vou aceitar isto. No creio que seja a vontade de Deus.
         Jack perguntou-se de que estaria ele falando. Como poderia "no aceitar"
aquilo? As galinhas podiam se cansar de dizer que no aceitavam a raposa, que
no faria a menor diferena para o seu destino.
         - O que voc vai fazer ento? - perguntou Jack ceticamente. - Rezar para
que William caia da cama e quebre o pescoo?
         Richard animou-se com a idia de resistir.
         - Vamos lutar - disse. - Por que no? H centenas de ns. William trar
cinquenta homens, cem, no mximo; poderamos ganhar pela pura fora dos
nmeros.
         - E quantos dos nossos seriam mortos? - protestou Aliena.
         Philip estava sacudindo a cabea.
         - Monges no lutam - disse pesarosamente. - E no posso pedir s
pessoas da cidade que dem a vida quando no estou preparado para arriscar a
minha.
         - No conte com meus pedreiros, tampouco - disse Jack. - No faz parte
do trabalho deles.
         Philip olhou para Richard, que era a pessoa que mais se assemelhava a
um perito militar de que dispunham.
         - H algum modo de defender a cidade sem uma batalha campal?
         - No, por causa da falta de muralhas. No temos nada a pr na frente do
inimigo seno nosso corpo.
         - Muralhas - repetiu Jack pensativamente.
         - Poderamos tambm desafiar William a decidir a questo por um nico
combate: uma luta entre campees. Mas no creio que aceitasse tal desafio.
         - Uma muralha em volta da cidade serviria? - perguntou Jack.
         - Poderia nos salvar em outra ocasio - respondeu Richard
impacientemente -, mas no agora. No podemos construir uma muralha da
noite para o dia.
         - No podemos?
         - Claro que no, no seja...
         - Cale-se, Richard - disse Philip energicamente. Olhou para Jack,
esperanoso. - Em que voc est pensando?
         - Uma muralha no  difcil de construir - disse Jack.
         - Continue.
         A cabea de Jack estava girando a toda a velocidade. Os outros
prestavam ateno, mal respirando.
         - No h arcos, abbadas, janelas, telhado... - disse ele. - Uma muralha
pode ser construda da noite para o dia, se voc tiver os homens e o material.
         - Com que material ns a construiramos? - indagou Philip.
         - Olhe  sua volta - respondeu Jack. - Temos aqui blocos de pedra j
cortados prontos para os alicerces. E uma pilha de madeira mais alta que uma
cama. No cemitrio h um monte de escombros do desmoronamento. L
embaixo, na margem do rio, h outra imensa pilha de pedra. No h escassez de
material.
         - E a cidade est cheia de operrios - disse Philip.
         Jack assentiu.
         - Os monges podem trabalhar na organizao, e os operrios, fazer o
trabalho especializado. E como serventes teremos toda a populao da cidade. -
Ele estava pensando rapidamente. - A muralha ter que acompanhar toda a
margem mais prxima do rio. Desmontaremos a ponte. Ento teremos que subir
a colina ao longo do bairro pobre e uni-la  parede leste do priorado... at o
norte... e descer at a margem do rio de novo. No sei se temos pedra suficiente
para isso...
         - No precisa ser de pedra para ser eficiente - disse Richard. - Uma
simples trincheira, com uma plataforma feita com a lama escavada da trincheira,
serve para o objetivo que desejamos, especialmente num lugar onde o inimigo
estiver atacando de baixo para cima.
         - Certamente pedra ser melhor.
         - Melhor, mas no essencial. O objetivo de uma muralha  obrigar o
inimigo a se retardar numa posio em que esteja exposto, e possibilitar ao
defensor bombarde-lo de uma posio abrigada.
         - Bombarde-lo? Com qu? - perguntou Aliena.
         - Pedras, leo fervente, setas, h um arco praticamente em todas as casas
da cidade.
         Aliena estremeceu.
         - E assim terminaramos combatendo, afinal - disse ela.
         - Mas no corpo a corpo.
         Jack sentia-se dividido. A linha de ao mais segura, com toda a certeza,
era todos se refugiarem na floresta, na esperana de que William se satisfizesse
em queimar as casas. Mesmo assim, havia o risco de que ele e seus homens os
perseguissem.
         O perigo seria maior se ficassem ali, atrs de uma muralha? Se algo sasse
errado, e William e seus homens encontrassem uma brecha para transpor a
muralha, a carnificina seria horrvel. Jack olhou para Aliena e Tommy e pensou
na criana que crescia dentro dela.
         - Haver uma soluo intermediria? - perguntou. - Poderamos evacuar
as mulheres e crianas e os homens podiam ficar e defender a cidade.
         - No, obrigada - disse Aliena firmemente. - Seria a pior das solues.
No teramos nem muralha nem homens para lutar por ns.
         Ela estava com a razo, concedeu Jack. A muralha de nada adiantaria sem
gente para defend-la, e no seria possvel deixar as mulheres e crianas indefesas
na floresta: William poderia deixar a cidade de lado e ir mat-las.
         - Jack - disse Philip -, voc  o construtor. Podemos construir uma
muralha num dia?
         - Nunca constru uma - disse Jack. - No  necessrio desenhar projetos,
claro. Temos que designar um artfice para cada seo e deixar que ele use sua
iniciativa. A argamassa no estar seca na manh de domingo. Ser a muralha
mais malconstruda de toda a Inglaterra. Mas, sim, podemos levant-la.
         Philip voltou-se para Richard.
         - Voc j viu batalhas. Se construirmos uma muralha, poderemos deter
William?
         - Certamente - respondeu Richard. - Ele vir preparado para um ataque
rpido, e no para um cerco. Se encontrar uma cidade fortificada, no haver
nada que possa fazer.
         Finalmente Philip voltou-se para Aliena.
         - Voc  uma das pessoas vulnerveis, com uma criana para proteger. O
que acha? Deveremos fugir correndo para a floresta e esperar que William no
nos persiga, ou ficar aqui e construir uma muralha para mant-lo do lado de fora?
         Jack prendeu a respirao.
         - No  s uma questo de segurana - disse Aliena aps uma pausa. -
Philip, voc dedicou a vida ao priorado. Jack, a catedral  o seu sonho. Se
fugirmos, perdero tudo por que viveram. E, quanto a mim... Bem, tenho um
motivo especial para querer ver o poder de William Hamleigh refreado. Digo que
devemos ficar.
       - Est bem - disse Philip. - Construiremos a muralha.

        Ao cair da noite, Jack, Richard e Philip percorreram os limites da cidade
com lampies, decidindo onde a muralha deveria ser construda. A cidade se
erguia numa elevao de pequena altura e o rio fazia uma curva, envolvendo-a
por dois lados. Suas margens no podiam sustentar uma muralha de pedra sem
bons alicerces, de modo que Jack props que ali se construsse uma cerca de
madeira. Richard deu-se por satisfeito. O inimigo no poderia investir contra a
cerca exceto do rio, o que era quase impossvel.
        Nos outros dois lados, alguns trechos da muralha seriam simples
plataformas de terra com uma vala. Richard declarou que isso bastaria onde o
terreno fosse em aclive e o inimigo tivesse que atacar de baixo para cima. No
entanto, onde o terreno fosse plano, uma parede de pedra seria necessria.
        Depois do exame, Jack foi para a aldeia reunir seus homens, tirando-os
de suas casas - das prprias camas, em alguns casos - e da cervejaria. Explicou a
emergncia e o modo como a cidade iria reagir; em seguida, percorreu os limites
da cidade com eles, designando uma seo da muralha para cada homem: a cerca
de madeira para os carpinteiros, a muralha de pedra para os pedreiros e as
plataformas de terra para os aprendizes e serventes. Pediu que cada um deles
marcasse o seu trecho com estacas e cordas antes de ir para a cama e pensasse
um pouco na hora de dormir sobre o modo como iria trabalhar. Logo o
permetro da cidade ficou marcado por uma linha pontilhada de luzes que
piscavam, enquanto os artesos faziam suas marcaes  luz de lanternas. O
ferreiro acendeu seu fogo e acomodou-se para passar o resto da noite fazendo
ps. A inslita atividade realizada aps o escurecer perturbou os rituais da hora
de dormir da maioria das pessoas, e os artesos gastaram um bocado de tempo
explicando o que faziam a sonolentos curiosos. S os monges, que tinham ido
para a cama ao cair da noite, continuaram dormindo em abenoada ignorncia.
         meia-noite, porm, quando os operrios estavam concluindo seus
preparativos e a maior parte dos habitantes da cidade j se retirara - nem que
fosse para comentar excitadamente as notcias debaixo dos cobertores -, os
monges foram acordados. Cancelou-se o servio religioso e lhes serviram cerveja
e po no refeitrio, enquanto Philip os instrua. Seriam os organizadores do dia
seguinte. Foram divididos em equipes, cada equipe trabalhando para um
construtor. Receberiam ordens dele e supervisionariam a escavao, a busca e o
transporte das coisas. Sua prioridade, conforme Philip enfatizou, era assegurar
que o construtor nunca deixasse de dispor do suprimento de matria-prima de
que necessitasse: pedras e massa, madeira e ferramentas.
        Enquanto Philip falava, Jack pensou no que William Hamleigh estaria
fazendo. Earlscastle ficava a um dia de exaustiva viagem a cavalo de Kingsbridge,
mas William no tentaria cobrir o percurso num s dia, porque seu exrcito
chegaria exausto. Deixariam Earlscastle ao raiar do dia. No sairiam todos juntos,
e sim separados, e cobririam suas armas e armaduras enquanto viajassem, para
evitar que fosse dado o alarme. Eles se encontrariam discretamente de tarde, em
algum ponto a uma ou duas horas de Kingsbridge, decerto na propriedade de um
dos mais abastados arrendatrios de William. De noite beberiam cerveja e
afiariam as lminas das armas, contando uns aos outros histrias medonhas de
vitrias anteriores, de jovens mutilados, velhos esmagados sob os cascos dos
cavalos de batalha, garotas estupradas e mulheres sodomizadas, crianas
decapitadas e bebs espetados na ponta das espadas, enquanto suas mes
gritavam angustiadas. Atacariam na manh do dia seguinte. Jack estremeceu de
medo.
         Mas desta vez ns vamos det-los, pensou. Mesmo assim, estava
apavorado.
         Cada equipe de monges localizou seu trecho da muralha e sua fonte de
matria-prima. Depois, quando os primeiros indcios da madrugada clarearam o
oriente, foram percorrer o conjunto de casas que lhes havia sido destinado,
batendo nas portas, acordando todo mundo, enquanto o sino do mosteiro tocava
incessantemente.
         Quando o sol nasceu a operao j se desenrolava a todo o vapor.
Homens e mulheres mais jovens trabalhavam como serventes, enquanto os mais
velhos forneciam comida e bebida e as crianas faziam pequenos servios e
trabalhavam como mensageiros. Jack percorria o canteiro da obra
incessantemente, acompanhando o progresso com enorme ansiedade. Disse a um
dos homens para usar menos cal, a fim de fazer com que a argamassa secasse
mais depressa. Viu um carpinteiro fazendo uma cerca com postes de andaimes, e
disse aos serventes dele que cortassem madeira de outra pilha do estoque.
Certificou-se de que as diferentes sees da muralha iam se encontrar em pontos
de juno bem definidos. E brincava, sorria e encorajava as pessoas o tempo
todo.
         O sol subiu num cu claro e azul. O dia seria quente. A cozinha do
priorado supriu barris de cerveja, mas Philip ordenou que fosse misturada com
gua, o que Jack aprovou, pois as pessoas que estavam trabalhando duro iriam
beber muito com aquele tempo, e ele no queria que ningum dormisse.
         A despeito do perigo iminente e terrvel, havia por toda parte um
incompreensvel clima de jovialidade. Parecia um feriado, quando toda a cidade
fazia alguma coisa junta, como no 1 de agosto, a festa da colheita, quando todos
faziam po, ou como a vspera do primeiro dia do vero, quando lanavam
barquinhos com velas acesas no rio. Era como se tivessem esquecido o perigo
que era a razo de sua atividade. Philip, contudo, viu algumas pessoas saindo
discretamente da cidade. Ou iam se arriscar na floresta, ou, o que era mais
provvel, tinham parentes nas aldeias vizinhas que os acolheriam. No obstante
isso, quase todos ficaram.
        Ao meio-dia Philip acionou o sino novamente, e o trabalho foi suspenso
para o almoo. Ele e Jack percorreram o permetro enquanto os trabalhadores
comiam. A despeito de toda a atividade, no pareciam ter progredido muito. As
paredes de pedra tinham chegado ao nvel do solo, as plataformas no passavam
de pequenos montes de terra e ainda havia vastos intervalos na cerca de madeira.
        No fim da inspeo, Philip perguntou:
        - Vamos terminar a tempo?
        Jack fora propositadamente animado e otimista durante toda a manh,
mas agora se obrigou a fazer uma avaliao realista.
        - Neste ritmo, no - respondeu, abatido.
        - O que podemos fazer para andar mais depressa?
        - A nica maneira de construir mais depressa normalmente  construir
pior.
        - Ento vamos construir pior, mas como?
        Jack considerou a pergunta.
        - Neste momento temos pedreiros construindo muros, carpinteiros
construindo cercas, serventes movimentando terra e os habitantes da cidade
buscando coisas e carregando. Mas a maioria dos carpinteiros  capaz de
construir uma parede vertical, e a maioria dos serventes  capaz de construir uma
cerca de madeira. Vamos ento fazer que os carpinteiros ajudem os pedreiros no
trabalho de cantaria e que os serventes construam as cercas, deixando o povo da
cidade cavar a vala e erguer as plataformas. E assim que a operao estiver
correndo bem, os monges mais jovens podero esquecer a organizao e ajudar
no trabalho.
        - Est bem.
        Deram as novas ordens quando as pessoas terminaram de comer. Aquela
muralha no seria apenas a mais mal construda da Inglaterra, como tambm
provavelmente a de vida mais curta. Se ainda estivesse de p dentro de uma
semana, seria por milagre.
        Durante a tarde as pessoas comearam a se sentir cansadas, sobretudo as
que tinham trabalhado  noite. A atmosfera de feriado evaporou-se e os
trabalhadores tornaram-se sombriamente determinados. A muralha de pedra
subiu, a vala ficou mais funda e os buracos na cerca comearam a se fechar.
Pararam para cear, e quando o sol mergulhou na direo do horizonte ocidental
comearam de novo.
         noite a muralha no estava completa.
        Philip montou uma vigilncia, ordenando que todos, exceto os guardas,
tivessem algumas horas de sono, e disse que tocaria o sino  meia-noite. Os
exaustos habitantes da cidade foram para a cama.
        Jack dirigiu-se para a casa de Aliena. Ela e Richard ainda estavam de p.
         - Quero que voc e Tommy se escondam na floresta - disse Jack.
         A idia estivera em sua mente o dia inteiro. A princpio ele a rejeitara;
com o passar do tempo, porm, foi se lembrando mais e mais vezes daquele dia
horrvel em que William incendiara a feira de l, e por fim decidira mand-la
embora.
         - Prefiro ficar - disse ela firmemente.
         - Aliena, no sei se isto vai dar certo, e no quero que voc esteja aqui se
William Hamleigh conseguir passar pela muralha.
         - Mas no posso fugir enquanto voc est organizando todas as outras
pessoas para que fiquem e lutem - ponderou ela com sensatez.
         H muito tempo ele parara de se preocupar com o que era sensato.
         - Se voc for agora ningum vai saber.
         - Acabaro sabendo.
         - Ento tudo estar terminado.
         - Mas pense s na vergonha.
         - Ao inferno com a vergonha! - gritou ele. Estava louco de raiva por no
ser capaz de encontrar as palavras que a persuadissem. - Quero v-la em
segurana!
         Sua voz irada acordou Tommy, que comeou a chorar. Aliena o pegou
no colo e o embalou.
         - No tenho tanta certeza de que seria mais seguro esconder-me na
floresta.
         - William no ir vasculhar a floresta  procura de ningum. Ele est
interessado na cidade.
         - Pode ser que esteja interessado em mim.
         - Voc poderia se esconder na sua clareira. Nunca ningum vai at l.
         - William pode encontr-la por acaso.
         - Oua o que estou lhe dizendo. Voc estar mais segura l do que aqui.
         - Mesmo assim quero ficar.
         - No a quero aqui - disse ele asperamente.
         - Bem, vou ficar, de qualquer modo - retrucou ela, com um sorriso,
ignorando a deliberada rudeza de Jack.
         Ele conteve uma praga. No adiantava discutir com Aliena uma vez que
ela tivesse tomado uma deciso: era teimosa como uma mula. Resolveu suplicar:
         - Aliena, estou com medo do que poder acontecer amanh.
         - Tambm estou - disse ela -, e acho que devamos sentir medo juntos.
         Jack sabia que devia desistir, mas estava muito preocupado.
         - Dane-se, ento - disse, furioso, e saiu, pisando duro. Ficou parado do
lado de fora, respirando o ar da noite. Aps alguns momentos se acalmou. Estava
terrivelmente preocupado, mas era tolice brigar com ela; os dois podiam morrer
na manh seguinte.
        Entrou novamente. Aliena estava de p, no mesmo lugar onde a deixara,
com ar triste.
        - Eu a amo - disse. Os dois se abraaram e permaneceram assim por
longo tempo.
        Quando Jack saiu de novo a lua estava brilhando no cu. Acalmou-se
pensando que Aliena poderia estar com a razo; talvez estivesse mais segura ali
do que na floresta.
        Assim pelo menos saberia se tivesse problemas e poderia fazer o melhor
que estivesse a seu alcance para proteg-la.
        Jack sentia que no ia dormir, mesmo que fosse para a cama. Tinha o
medo tolo de que todos continuassem dormindo a meia-noite e s fossem
acordar de madrugada, quando os homens de William chegassem destruindo
tudo. Caminhou incessantemente em torno da orla da cidade. Estranho:
Kingsbridge nunca possura um permetro fortificado at aquele dia. As paredes
de pedra tinham a altura da cintura de um homem, o que no era suficiente. As
cercas estavam altas, mas ainda havia brechas com largura suficiente para permitir
em poucos momentos a passagem de centenas de homens a cavalo. As
plataformas de terra ainda no estavam to altas que um bom cavalo no as
galgasse. Havia muito que fazer.
        Ele parou onde antes ficava a ponte. Ela fora desmontada, e seus
pedaos haviam sido levados para o priorado. Olhou por cima da gua enluarada.
Viu uma figura sombria aproximar-se ao longo da linha da cerca de madeira, e
sentiu um calafrio de supersticiosa apreenso, mas era apenas o prior Philip, to
insone quanto Jack.
        Naquele instante, o ressentimento de Jack contra Philip foi sobrepujado
pela ameaa representada por William, e o rapaz no se sentiu inamistoso para
com o prior.
        - Se sobrevivermos a isto, deveremos reconstruir a muralha, trecho por
trecho - disse.
        - Concordo - disse Philip fervorosamente. - Poderamos traar como
objetivo ter uma muralha de pedra em volta da cidade dentro de um ano.
        - Bem aqui, onde a ponte atravessa o rio, eu poria um porto e uma
barbac, de modo que pudssemos conter as pessoas e no permitir sua entrada
na cidade sem ter que desmontar a ponte.
        - Organizar as defesas de uma cidade no  o tipo de coisa em que ns
monges somos bons.
        Jack aquiesceu. Os monges no deviam se envolver em qualquer tipo de
violncia.
        - Mas se voc no organizar, quem o far?
        - Que tal o irmo de Aliena, Richard?
        Jack espantou-se com a idia, mas um momento de reflexo o levou a
concluir que era brilhante.
         - Ele se sair bem; isso o manter longe da ociosidade e eu no terei mais
que sustent-lo - disse, entusiasmado. Olhou para Philip com relutante
admirao. - Voc nunca pra, no  mesmo?
         Philip deu de ombros.
         - Quisera que todos os nossos problemas pudessem ser resolvidos com
tanta simplicidade.
         A cabea de Jack voltou  muralha.
         - Suponho que agora Kingsbridge ser uma cidade fortificada para
sempre.
         - No para sempre, mas certamente at que Jesus volte a este mundo.
         - Nunca se sabe - disse Jack especulativamente. - Poder haver um tempo
em que selvagens como William Hamleigh no estejam no poder, as leis protejam
as pessoas comuns, em vez de escraviz-las, e o rei faa a paz, e no a guerra.
Pense nisso: um tempo em que as cidades da Inglaterra no precisem de
muralhas!
         Philip sacudiu a cabea.
         - Que imaginao! Isto no acontecer antes do dia do Juzo Final.
         - Acho que no.
         - Deve ser quase meia-noite. Tempo de comear de novo.
         - Philip. Antes de voc ir...
         - Que ?
         Jack respirou fundo.
         - Ainda h tempo de mudar nosso plano. Poderamos evacuar a cidade
agora.
         - Est com medo, Jack? - perguntou Philip, compreensivo.
         - Sim. Mas no por minha causa. Pela minha famlia.
         Philip aquiesceu.
         - Veja as coisas do seguinte modo: se voc fugir agora, provavelmente
estar seguro... amanh. Mas William poder vir outro dia. Se deixarmos que faa
o que bem entender amanh, viveremos sempre apavorados. Voc, eu, Aliena, e
o pequeno Tommy tambm: ele crescer com medo de William, ou de algum
como William.
         Ele tinha razo, pensou Jack. Para crianas como Tommy crescerem
livres, seus pais precisavam parar de fugir de William. Jack suspirou.
         - Est bem.
         Philip afastou-se para tocar o sino. Ele era um governante que mantinha
a paz, administrava a justia e no oprimia os pobres, pensou Jack. Mas seria
realmente preciso ser solteiro para fazer isso?
         O sino comeou a tocar. Lampies foram acesos nas casas fechadas, e os
artesos se levantaram tropeando, esfregando os olhos e bocejando. Comearam
a trabalhar lentamente, e houve alguns dilogos mal-humorados entre as pessoas;
porm, Philip tinha feito a padaria do priorado dar incio s operaes, e logo
foram servidos po quente e manteiga fresca e todos se animaram.
         De madrugada Jack fez outra inspeo com Philip, ambos examinando
ansiosamente o horizonte escuro, procurando sinais de cavaleiros. A cerca que
acompanhava o rio estava quase completa, com todos os carpinteiros
trabalhando juntos para completar as ltimas jardas. De ambos os lados, as
fortificaes de terra tinham agora a altura de um homem, e a profundidade da
vala do lado de fora acrescia-lhes cerca de quatro ps; um homem poderia galg-
las, com dificuldade, mas precisaria desmontar. A muralha tambm tinha a altura
de um homem, mas as ltimas trs ou quatro fileiras de pedras estavam
completamente fracas, porque a massa ainda no secara. No entanto, o inimigo
no descobriria isso enquanto no tentasse escalar a muralha, e at esse ponto ela
teria servido muito bem para o fim a que se destinava.
         A no ser pelas brechas na cerca de madeira, o trabalho estava terminado,
e Philip deu novas ordens. Os cidados mais velhos e as crianas iriam para o
mosteiro e se refugiariam no dormitrio. Jack ficou entusiasmado: Aliena teria
que ficar com Tommy, e os dois estariam bem  retaguarda da linha de frente. Os
artesos continuariam construindo, mas agora alguns de seus serventes
formariam esquadres militares, sob o comando de Richard. Cada grupo era
responsvel por defender a seo da muralha que construra. Os habitantes -
homens e mulheres - que tivessem arcos se disporiam junto  muralha, prontos
para lanar flechas contra o inimigo. Os que no tivessem armas arremessariam
pedras, e deviam comear a preparar seus estoques. gua fervente era outra arma
til, e caldeires foram aquecidos e colocados em condies de ser lanados
sobre o inimigo, em pontos estratgicos. Diversos habitantes da cidade tinham
espadas; porm, eram as menos teis das armas: se chegasse a haver combate
corpo a corpo, o inimigo teria entrado, e a construo da muralha haveria sido
em vo.
         Jack estava sem dormir h quarenta e oito horas seguidas. Sentia a cabea
doer e os olhos arderem. Sentou-se no telhado de palha de uma casa perto do rio
e ficou observando os campos, enquanto os carpinteiros se apressavam em
concluir a cerca. De repente percebeu que os homens de William poderiam atirar
setas incendirias por cima da muralha, numa tentativa de queimar a cidade sem
ter que abrir uma brecha em suas defesas. Exausto, pulou do telhado e subiu
correndo a colina at o priorado.
         Ali descobriu que Richard tivera a mesma idia e conseguira que alguns
monges colocassem barris e baldes de gua em pontos estratgicos em torno dos
limites da cidade.
         Estava deixando o priorado quando ouviu o que lhe pareceram gritos de
advertncia.
        O corao disparado, trepou no telhado do estbulo e examinou os
campos a oeste. Na estrada que levava  ponte, a uma milha de distncia, uma
nuvem de poeira anunciava a chegada de um grande grupo de cavalarianos.
        At aquele instante houvera um elemento de irrealidade em tudo aquilo;
contudo, agora os homens que queriam queimar Kingsbridge estavam logo ali,
cavalgando na estrada, e de repente o perigo se tornou assustadoramente real.
        Jack sentiu um mpeto de procurar Aliena, mas no havia tempo. Pulou
de cima do telhado e desceu correndo a colina at a margem do rio. Um bando
de homens estava reunido em torno da ltima brecha. Enquanto observava, eles
enfiaram estacas no cho, enchendo o espao, e rapidamente pregaram as duas
ltimas traves, concluindo o trabalho. A maioria dos habitantes estava ali; o
restante se havia refugiado no refeitrio. Poucos momentos depois da chegada de
Jack, Richard desceu correndo e gritando:
        - No h ningum do outro lado! Pode ser que haja outro grupo tentando
invadir a cidade nas nossas costas! Voltem para seus postos, depressa! - Quando
eles comearam a se deslocar, Richard murmurou para Jack: - No h disciplina,
no h a menor disciplina!
        Jack ficou com os olhos fixos no campo, enquanto a nuvem de poeira se
aproximava e os vultos dos cavaleiros se tornavam mais visveis. Eram como
monstros do inferno, pensou, insanamente dedicados  morte e  destruio.
Existiam porque condes e reis sentiam necessidade deles. Philip podia ser um
maldito idiota em questes como amor e casamento, pensou Jack, mas pelo
menos descobrira um jeito de governar uma comunidade sem a ajuda de
selvagens como aqueles.
        Era um estranho momento para tais reflexes. Seria o tipo de coisa que
os homens pensam quando esto prestes a morrer?
        Os cavaleiros se aproximaram mais. Eram em nmero maior que os
cinquenta que Richard antecipara. Para Jack, deviam ser quase cem. Dirigiram-se
para o lugar onde antes ficava a ponte e ento comearam a reduzir a marcha.
Jack animou-se quando viu que se detinham na campina do outro lado do rio.
Quando olharam espantados para a muralha recm-construda, algum perto de
Jack comeou a rir. Logo outra pessoa riu tambm, e o riso se espalhou como
fogo na palha, e em instantes eram cinquenta, cem, duzentos homens e mulheres
gargalhando, rindo dos embaraados homens de armas presos na margem errada
do rio sem ter com quem lutar.
        Diversos cavaleiros desmontaram e se reuniram numa conferncia.
Espiando atravs da leve neblina da manh, Jack pensou ter visto o cabelo louro
e o rosto vermelho de William Hamleigh no centro do grupo, mas no podia
estar seguro.
        Aps algum tempo voltaram para seus cavalos, reagruparam-se e
afastaram-se. O povo de Kingsbridge gritou de satisfao. Mas Jack no achava
que William j tivesse desistido. No estavam voltando pelo mesmo caminho.
Em vez disso, subiram o rio, ao longo da margem. Richard colocou-se ao lado de
Jack e disse:
         - Esto procurando uma passagem a vau. Atravessaro o rio e cruzaro a
floresta para nos atacar pelo outro lado. Espalhe isso por a.
         Jack percorreu rapidamente a muralha, transmitindo a previso de
Richard. A norte e a leste, a muralha era de pedra ou terra, mas no havia o rio
no caminho. Naquele lado ela se confundia com a parede leste do priorado,
apenas a uns poucos passos do refeitrio onde Aliena e Tommy tinham se
refugiado. Richard colocara Oswald, o mercador de cavalos, e Dick Richards, o
filho do curtidor, no telhado da enfermaria, com seus arcos e flechas: eram os
melhores atiradores da cidade. Jack foi at o canto nordeste e subiu na
plataforma de terra, atento ao bosque de onde emergiriam os homens de William.
         O sol j estava bem alto. Mais um dia quente e sem nuvens. Os monges
percorreram a muralha levando po e cerveja. Jack perguntou-se at que ponto
William subiria o rio. A uma milha havia um lugar que um bom cavalo podia
atravessar a nado, mas pareceria muito arriscado a um estranho, de modo que
William provavelmente cavalgaria mais algumas milhas, at onde havia um vau
bem raso.
         Jack gostaria de saber como Aliena estava se sentindo. Queria ir at o
refeitrio e v-la, mas relutava em deixar a muralha. Se o fizesse, outros iriam
querer sair tambm, e a muralha ficaria indefesa.
         Enquanto resistia  tentao, ouviu-se um grito e os cavaleiros
reapareceram.
         Eles saram do bosque vindos do leste, de modo que Jack tinha o sol nos
olhos quando os fitou: sem dvida aquilo era intencional. Aps um momento
percebeu que no apenas estavam se aproximando, como tambm atacavam.
Deviam ter apeado na floresta, fora das vistas de todos, reconhecido o terreno e
planejado o ataque. Jack sentiu-se tenso de medo. No iriam s olhar para a
muralha e ir embora: tentariam abrir uma brecha.
         Os cavalos galoparam, atravessando o campo. Um ou dois habitantes da
cidade atiraram flechas. Richard, do lado de Jack, gritou, furioso:
         - Cedo demais! Cedo demais! Esperem at que cheguem  vala. A no
podero errar! - Poucas pessoas o ouviram, e uma chuva de flechas desperdiadas
caiu no campo de cevada. Como fora militar no temos esperana, pensou Jack;
s a muralha pode nos salvar.
         Ele tinha uma pedra numa das mos e uma funda na outra, exatamente
igual  que usava quando criana na caa de patos para o jantar. No sabia se sua
pontaria ainda era boa. Percebeu que apertava suas armas com toda a fora que
tinha e obrigou-se a relaxar. Pedras eram eficientes contra patos, mas pareciam
terrivelmente frgeis contra homens protegidos por armaduras e montados em
cavalos enormes que se aproximavam ruidosamente cada vez mais. Jack engoliu
em seco. Alguns dos inimigos tinham arcos e flechas em chamas, dava para ver;
no momento seguinte percebeu que os homens com arcos se dirigiam para a
muralha de pedra, e os outros para as fortificaes de terra. Isso significava que
William decidira que no podia abrir uma brecha na muralha de pedra. No
percebera que a massa estava to fresca que a muralha poderia ser derrubada a
mo. Fora enganado. Jack desfrutou um pequeno momento de triunfo.
         Os atacantes chegaram  muralha.
         Os aldees dispararam loucamente, e uma chuva impetuosa de flechas
abateu-se sobre os cavaleiros. A despeito da pontaria deficiente, no puderam
deixar de fazer algumas vtimas. Os cavalos atingiram a vala. Uns empacaram e
outros pisaram no fundo e pularam para o outro lado. Imediatamente em frente 
posio de Jack, um homem enorme protegido por uma velha cota de malha fez
seu cavalo saltar para a margem mais baixa da fortificao e continuou a subir.
Jack carregou a funda e atirou a pedra.
         Sua mira era to boa quanto sempre fora: a pedra atingiu o cavalo em
cheio no focinho. Debatendo-se desajeitamente na terra fofa, ele relinchou de
dor, empinou e virou-se. Foi embora em galope curto, mas seu cavaleiro
escorregou da sela e desembainhou a espada.
         A maioria dos cavalos fizera meia-volta, ou por vontade prpria ou
obedecendo a seus cavaleiros; contudo, diversos homens atacavam a p, e outros
estavam se virando de novo para carregar mais uma vez. Olhando por cima do
ombro, Jack viu que diversos telhados de palha estavam queimando, a despeito
dos esforos dos bombeiros - as jovens mulheres da cidade - para apagar as
chamas. Como um raio, passou-lhe pela mente a horrvel idia de que aquilo no
ia dar certo.
         A despeito do esforo herico das ltimas trinta e seis horas, aqueles
selvagens cruzariam a muralha, queimariam a cidade e devastariam tudo,
aniquilando o povo.
         A perspectiva do combate corpo a corpo o aterrorizou. Nunca aprendera
a lutar, jamais usara uma espada - nem mesmo tinha uma - e sua nica
experincia no assunto era quando Alfred o espancara. Sentiu-se impotente.
         Os cavaleiros carregaram de novo e os atacantes que tinham perdido suas
montarias galgaram as fortificaes defensivas a p. Pedras e flechas choviam
sobre eles.
         Jack acionava sua funda sistematicamente, carregando e disparando,
carregando e disparando como uma mquina. Diversos atacantes caram sob a
chuva de projteis.
         Bem em frente a Jack um cavaleiro caiu do cavalo e perdeu o elmo,
revelando o cabelo louro: era William, em pessoa.
         Nenhum dos cavalos conseguiu chegar ao topo da rampa de terra, mas
alguns homens a p conseguiram, e, para horror de Jack, os habitantes da cidade
foram forados a lutar com eles, contrapondo s espadas e lanas dos atacantes
varas e machados. Alguns dos inimigos conseguiram passar por cima da muralha
e Jack viu trs ou quatro aldees carem. Seu corao encheu-se de horror: os
habitantes de Kingsbridge estavam perdendo.
         Mas oito ou dez aldees cercaram cada um dos atacantes que conseguiam
passar para o lado de dentro, bateram neles com varas e os atacaram
impiedosamente com machados.
         Embora diversos cidados tivessem sido feridos, todos os atacantes
foram logo mortos. Ento os aldees comearam a fazer os outros recuarem,
descendo a rampa. A carga fracassou. Os atacantes ainda montados rodavam
incertamente, e ainda havia algumas escaramuas nas rampas. Jack descansou por
um momento, respirando fundo, grato pela trgua, esperando com medo o
prximo passo do inimigo.
         William ergueu a espada e gritou para chamar a ateno dos seus homens.
Fez um crculo com a espada no ar, para reuni-los, e depois apontou para a
muralha. Eles se reagruparam e se prepararam para mais uma carga.
         Jack viu uma oportunidade.
         Pegou uma pedra, carregou a funda e apontou cuidadosamente para
William.
         A pedra voou atravs do ar to reta quanto uma linha de pedreiro e
atingiu o conde bem no meio da testa, com tanta fora que Jack ouviu o barulho
surdo da pedra no osso.
         William caiu no cho.
         Seus homens hesitaram, e a carga falhou.
         Um homem grande e moreno desmontou e correu para o lado de
William. Jack achou que era o ex-criado de William, Walter, que sempre cavalgava
a seu lado. Sem largar a rdea, ele ajoelhou-se ao lado do corpo estirado do
conde. Por um momento Jack teve esperana de que este tivesse morrido. Mas
ento ele se mexeu e Walter ajudou-o a ficar de p. William parecia aturdido. Em
ambos os lados da batalha todos observaram os dois homens. Por um momento
a chuva de pedras e flechas parou.
         Ainda inseguro, William montou no cavalo de Walter, ajudado pelo ex-
criado, que depois montou na garupa. Houve um momento de hesitao quando
todos se perguntaram se o conde seria capaz de continuar com o ataque. Walter
fez com a espada o sinal circular para reunir a tropa; em seguida, para indizvel
alvio de Jack, apontou para o bosque.
         Walter esporeou o cavalo e eles se afastaram a galope.
         Os outros cavaleiros os seguiram. Os que estavam ainda combatendo nas
rampas desistiram, recuaram e correram atrs do seu lder. Algumas pedras e
flechas os caaram no campo de cevada.
         O povo da cidade gritou alegremente.
         Jack olhou  sua volta, meio aturdido. Estava tudo acabado? Mal podia
crer. Os incndios haviam sido apagados - as mulheres tiveram xito na tarefa de
mant-los sob controle. Os homens danavam em cima das rampas, abraando-
se. Richard aproximou-se e bateu nas suas costas.
         - Foi a muralha que conseguiu, Jack - disse. - A sua muralha.
         Os aldees e os monges aglomeraram-se na frente dos dois, todos
querendo se congratular com Jack e uns com os outros.
         - Eles foram embora mesmo? - perguntou o construtor.
         - Oh, sim - respondeu Richard. - No voltaro mais, agora que
descobriram que estamos determinados a defender a muralha. William sabe que
no se pode tomar uma cidade murada se o povo estiver determinado a resistir;
no sem um grande exrcito e um stio de seis meses.
         - Ento est acabado - disse Jack estupefato.
         Aliena abriu caminho por entre a multido, com Tommy nos braos. Jack
abraou-a, feliz. Estavam vivos e juntos, e ele era grato por isso.
         De repente sentiu o efeito dos dois dias sem dormir, e quis se deitar. Mas
no foi possvel. Dois jovens pedreiros o agarraram e o levantaram nos ombros.
A multido o saudou alegremente. Eles se deslocaram, arrastando o povo. Jack
queria dizer que no fora ele quem os salvara, e sim eles prprios; mas sabia que
no o ouviriam, porque desejavam um heri.  medida que a notcia se espalhou
e toda a cidade soube da vitria, o clamor do povo aumentou de intensidade. H
anos viviam com medo de William Hamleigh, pensou Jack, mas naquele dia
haviam conquistado sua liberdade. Foi carregado pela cidade numa procisso
triunfal, acenando e sorrindo, e ansiando pelo momento em que poderia encostar
a cabea e fechar os olhos num sono abenoado.

        A Feira de L de Shiring estava maior e melhor do que nunca. A praa
em frente  igreja paroquial, onde se realizavam os mercados e as execues,
assim como a feira anual, estava superlotada de bancas e gente. L era o principal
artigo, mas havia tambm em exibio tudo mais que podia ser comprado e
vendido na Inglaterra: faiscantes espadas novas, selas decorativamente
trabalhadas, porquinhos gordos, botas vermelhas, bolos de gengibre e chapus de
palha. Enquanto caminhava em torno da praa na companhia do bispo Waleran,
William calculou que ia ganhar mais dinheiro que das outras vezes. Mesmo assim,
no sentiu nenhum prazer com essa constatao.
        Ainda se sentia humilhado por sua derrota em Kingsbridge. Esperara
atacar sem oposio e incendiar a cidade, mas acabara perdendo homens e
cavalos e retirara-se sem conseguir nada. O pior era saber que a construo da
muralha fora organizada por Jack, o amante de Aliena, o homem a quem desejara
matar.
         No conseguira matar Jack, mas ainda estava determinado a se vingar.
         Waleran tambm estava pensando em Kingsbridge.
         - Ainda no sei como construram a muralha to rapidamente - disse o
bispo.
          - Provavelmente no era muito slida - disse William.
          Waleran concordou.
          - Mas tenho certeza de que o prior Philip j est tratando de aperfeio-
la. Se fosse ele eu a tornaria mais resistente e mais alta, construiria uma barbac e
designaria um sentinela noturno. Seus dias de ataque a Kingsbridge esto
terminados.
         William concordava, mas fingia o contrrio.
         - Ainda posso sitiar a cidade.
         - Isso j  diferente. Uma incurso rpida pode ser ignorada por Estvo.
Um stio prolongado, durante o qual os habitantes sempre podem mandar uma
mensagem ao rei, suplicando-lhe proteo, pode ser arriscado.
         - Estvo no agir contra mim - disse William. - Precisa dos meus
servios. - Ele no estava discutindo com convico, contudo. No fim planejava
ceder aos argumentos do bispo. Mas queria que Waleran se esforasse bastante
na defesa de seu ponto de vista, para depois ficar lhe devendo um pequeno favor.
Ento William faria o pedido que tanto o preocupava.
         Uma mulher feia e magra adiantou-se, empurrando  sua frente uma
bonita garota de cerca de treze anos, presumivelmente sua filha. Puxou para um
lado a parte de cima da roupa da garota a fim de desnudar seus seios pequenos e
imaturos.
         - Sessenta pence - sibilou a me.
         William sentiu-se excitado, mas sacudiu a cabea, recusando, e seguiu em
frente.
         A jovem prostituta o fez pensar em Aliena. Ela era pouco mais que uma
criana quando a estuprara. Aquilo se passara h quase uma dcada, mas no
podia esquec-la.
         Talvez nunca mais a possusse; entretanto podia impedir qualquer outro
de t-la.
         Waleran estava pensativo. Parecia nem olhar por onde andava, mas as
pessoas saam da sua frente, como se temessem ser tocadas pela fmbria do seu
hbito negro.
         - Soube que o rei tomou Faringdon? - perguntou o bispo, aps um
momento.
         - Eu estava l.
         Aquela fora a vitria mais decisiva de toda a longa guerra civil. Estvo
capturara centenas de cavaleiros e um grande nmero de armas. Tambm
obrigara Robert de Gloucester a recuar at o territrio oeste. Fora to crucial a
vitria que Ranulf de Chester, o velho inimigo de Estvo ao norte, depusera as
armas e jurara fidelidade ao rei.
         - Agora que Estvo est mais seguro - disse Waleran -, no ser mais to
complacente com as guerras particulares de seus bares.
         - Talvez - disse William. Perguntou-se se aquele seria o momento de
concordar com Waleran e fazer o seu pedido. Hesitou: estava embaraado. Ia
revelar um pouco de sua alma, e odiava fazer isso a um homem to desumano
quanto Waleran.
         - Voc deveria deixar Kingsbridge em paz, pelo menos por algum tempo
- continuou o bispo. - Tem a feira de l e o mercado semanal, ainda que menor
que antes. Tem o negcio da l. E tambm a terra mais frtil do condado,
diretamente sob o seu controle ou trabalhada pelos seus rendeiros. Minha
situao tambm est melhor que antes. Aumentei minha propriedade e
racionalizei minhas concesses. Constru meu castelo. Est se tornando menos
necessrio lutar com o prior Philip no exato momento em que isso passa a ser
politicamente perigoso.
         Em toda a praa havia gente fazendo e vendendo comida, e o ar estava
impregnado: cheirava a sopa apimentada, po fresco, confeitos aucarados,
presunto cozido, toucinho frito, torta de ma. William sentiu-se nauseado.
         - Vamos para o castelo - disse.
         Os dois homens deixaram a praa do mercado e subiram a colina. No
porto do castelo o conde se deteve.
         - Talvez voc tenha razo a respeito de Kingsbridge - disse.
         - Fico satisfeito de v-lo compreender isso.
         - Mas ainda quero minha vingana de Jack, filho de Jack, e voc poder
me dar o que quero. S depende de sua vontade.
         Waleran ergueu uma eloquente sobrancelha. Sua expresso dizia que se
sentia fascinado por ouvir William, mas no considerava ter nenhuma obrigao
de atend-lo.
         William continuou, com dificuldade.
         - Aliena solicitou  Igreja a anulao do casamento.
         - Sim, sei disso.
         - O que voc acha que vai acontecer?
         - Aparentemente o casamento nunca chegou a se consumar.
         - Isso  tudo o que interessa?
         - Provavelmente. De acordo com Graciano - um estudioso a quem, a
propsito, conheci pessoalmente -, o que constitui um casamento  o
consentimento mtuo das duas partes; mas ele afirma tambm que o ato da unio
fsica "completa" ou "aperfeioa" o casamento. Diz que se um homem se unir
matrimonialmente a uma mulher mas no copular com ela, e depois se casar com
outra com quem tenha conjuno carnal, ento ser o segundo dos dois
casamentos o vlido. Isso  o mesmo que dizer que s vale o que se consumou.
A fascinante Aliena sem dvida ter mencionado isso no seu pedido, se  que foi
bem aconselhada, o que imagino que foi, da parte do prior Philip.
        William ficou impaciente com tanta teoria.
        - Ento eles vo conseguir a anulao.
        - A menos que algum desenvolva o argumento contrrio ao de
Graciano. Na verdade, h dois: um teolgico e outro prtico. O argumento
teolgico  de que a definio de Graciano denigre o casamento de Jos e Maria,
desde que no foi consumado. O argumento prtico  que por razes polticas,
ou para fundir duas propriedades, os casamentos so com muita frequncia
arranjados entre duas crianas incapazes fisicamente de consum-los. Se o noivo
ou a noiva morrerem antes da puberdade, o casamento seria invalidado, de
acordo com a definio de Graciano, e poderia haver consequncias desastrosas.
        William era incapaz de seguir aquelas confusas disputas clericais, mas
tinha uma boa idia de como eram resolvidas.
        - O que voc quer dizer  que pode ser resolvido de um jeito ou de outro.
        - Sim.
        - E que a soluo depende de quem est pressionando.
        - Sim. Nesse caso, no h um problema maior a ser decidido -
propriedade, lealdade, aliana militar. Contudo, se houvesse mais coisas em jogo,
e algum - um arcediago, por exemplo - forasse o argumento contra Graciano, a
anulao do casamento provavelmente seria recusada. - Waleran dirigiu a William
um olhar sagaz que fez com que este se enraivecesse.
        - Acho que sei o que voc vai me pedir agora.
        - Quero que se oponha  anulao.
        Waleran estreitou os olhos.
        - No consigo saber se voc ama aquela pobre mulher ou se a odeia.
        - No - disse William. - Nem eu consigo.

        Aliena sentou-se na grama, na sombra esverdeada sob a imponente faia.
A queda-d'agua jogava gotculas que pareciam lgrimas nas pedras aos seus ps.
Aquela era a clareira em que Jack lhe contara todas aquelas histrias. Fora ali que
lhe dera o primeiro beijo, to casual e rapidamente que ela fingira que nunca
acontecera. Fora ali que se apaixonara por ele, e se recusara a admiti-lo, inclusive
para si prpria. Agora desejava de todo o corao que tivesse se entregado a ele
totalmente naquele tempo, desposando-o e tendo os seus filhos; agora, fosse o
que fosse que houvesse acontecido, seria sua mulher.
        Deitou-se para descansar as costas, que doam. Era alto vero, e o ar
estava quente e parado. Aquela gravidez estava sendo muito penosa, e ainda tinha
pelo menos seis semanas pela frente. Achava que talvez fosse ter gmeos, s que
sentia os pontaps apenas em um lugar. E quando Martha pusera o ouvido na sua
barriga, ouvira somente as batidas de um nico corao.
         Martha ficara tomando conta de Tommy naquela tarde de sol, de modo
que Aliena e Jack poderiam se encontrar nos bosques, ficando sozinhos por
algum tempo para conversar sobre seu futuro. O arcebispo recusara a anulao,
aparentemente porque o bispo Waleran fora contra. Philip dissera que podiam
requerer de novo, mas por enquanto tinham que viver separados. Philip
concordava que era injusto, mas dizia que devia ser a vontade de Deus. A Aliena
mais parecia a vontade do demnio.
         A amargura do arrependimento era um peso que carregava consigo,
como a gravidez. s vezes a sentia mais pungente, s vezes quase a esquecia, mas
estava sempre l.
         Doa, muitas vezes, mas era uma dor familiar. Arrependia-se de ter
magoado Jack, arrependia-se do que havia feito a si prpria, arrependia.se
inclusive dos sofrimentos do desprezvel Alfred, que agora morava em Shiring e
nunca mostrava a cara em Kingsbridge. Casara-se com Alfred por um nico
motivo: apoiar Richard em sua tentativa de reconquistar o condado. No
conseguira atingir seu propsito, e o amor verdadeiro que sentia por Jack fora
frustrado. Tinha agora vinte e seis anos de idade, sua vida estava arruinada e a
culpa fora inteiramente sua.
         Pensou com nostalgia naqueles primeiros dias com Jack. Quando o
conhecera ele no passava de um garotinho, mesmo que fosse um menino
diferente dos demais. Depois que crescera, continuara a v-lo como um menino.
Era por isso que ele se colocara sob sua guarda. Ela desprezara todos os
pretendentes, mas no pensara em Jack como num deles, e assim deixara que a
conhecesse. No sabia por que fora to resistente ao amor. Adorava Jack e no
havia prazer na vida como o de estar com ele; e no entanto, houve uma vez em
que deliberadamente fechara os olhos a tanta felicidade.
         Quando relembrava o passado, sua vida antes de Jack parecia vazia.
Mantivera-se freneticamente atarefada, construindo seu negcio de l, mas agora
aqueles dias de tanto trabalho pareciam sem alegria, como um palcio vazio, ou
uma mesa cheia de pratos de prata e clices de ouro, mas sem comida.
         Ouviu passos e sentou-se rapidamente. Era Jack. Magro e gracioso,
parecia um gato. Ele se sentou a seu lado e beijou-lhe a boca suavemente.
Cheirava a suor e a p de pedra.
         - Est to quente! - disse. - Vamos tomar banho no regato.
         A tentao era irresistvel.
         Jack tirou a roupa. Ela ficou observando, com os olhos sequiosos fixos
nele. H meses no via seu corpo nu. Ele tinha muitos plos ruivos nas pernas
mas nenhum no peito. Fitou-a, esperando que se despisse. Aliena intimidou-se:
ele nunca vira seu corpo quando grvida. Desamarrou lentamente a gola do
vestido de linho, e o puxou pela cabea. Observou a expresso dele
ansiosamente, com medo de que odiasse seu corpo inchado, mas Jack no
demonstrou averso; pelo contrrio, a expresso que surgiu no seu rosto foi de
afeto. Eu deveria ter sabido, pensou ela; deveria ter sabido que ele me amaria do
mesmo modo.
         Com um rpido movimento Jack se ajoelhou no cho em frente a Aliena
e beijou a pele distendida da sua barriga. Ela deu uma risada envergonhada. Ele
tocou no seu umbigo.
         - Ele est to projetado! - disse.
         - Eu sabia que voc diria isso!
         - Antes parecia uma covinha, agora parece um mamilo.
         - Vamos tomar banho - disse Aliena timidamente. Ela se sentiria menos
envergonhada quando entrasse na gua.
         Perto da cascata, a gua ficava represada num remanso com cerca de trs
ps de profundidade. Aliena mergulhou. O contato era deliciosamente frio na
pele quente, e ela estremeceu de prazer. Jack mergulhou a seu lado. No havia
espao para nadar, naquela represa com poucos ps de extenso. Ele ps a
cabea sob a pequena queda-d'agua e lavou o cabelo, cheio de p de pedra.
Aliena sentiu-se bem dentro da gua: aliviava o peso da gravidez. Mergulhou a
cabea para lavar o cabelo.
         Ao emergir para respirar, Jack beijou-a.
         Ela riu, sem flego, meio engasgada, esfregando os olhos. Jack beijou-a
de novo. Aliena levantou os braos para se firmar, e sua mo fechou-se no pnis
duro que se erguia entre as pernas de Jack como um mastro de bandeira.
Arquejou de prazer.
         - Senti falta disto - disse Jack no seu ouvido, a voz rouca de desejo e
alguma outra emoo, tristeza, talvez.
         A garganta de Aliena estava seca de desejo.
         - Vamos quebrar nossa promessa? - perguntou.
         - Agora e sempre.
         - O que voc est querendo dizer?
         - No vamos mais viver separados. Vamos deixar Kingsbridge.
         - Mas o que voc vai fazer?
         - Vou para uma cidade diferente, construir outra catedral.
         - Mas voc no ser o mestre. O projeto no ser seu.
         - Um dia poderei ter outra chance. Sou moo.
         Era possvel, mas muito difcil. Aliena o sabia, e Jack tambm. O
sacrifcio que ele estava fazendo por ela comoveu-a at as lgrimas. Ningum
nunca a amara tanto.
         Ningum jamais a amaria daquele modo. Mas no queria que ele
desistisse de tudo.
         - No vou - disse ela.
         - O que voc est querendo dizer?
         - No vou deixar Kingsbridge.
         Ele ficou furioso.
         - Por que no? Em qualquer outro lugar poderemos viver como marido e
mulher e ningum se importar. Poderemos at mesmo nos casar numa igreja.
         Ela tocou no seu rosto.
         - Eu o amo demais para tir-lo da Catedral de Kingsbridge.
         - Isto cabe a mim decidir.
         - Jack, eu o amo pelo que acaba de propor. O fato de estar disposto a
desistir do trabalho de sua vida para viver comigo ... Quase parte meu corao
saber que voc me ama tanto. Mas no quero ser a mulher que tirou voc do
trabalho que adorava. No estou disposta a acompanh-lo nessas condies.
Projetar uma sombra sobre toda a nossa vida. Voc poder me perdoar por isso,
mas eu mesma jamais me perdoarei.
         Jack ficou triste.
         - Sei muito bem que no adianta discutir com voc depois que toma uma
deciso. Mas o que faremos?
         - Tentaremos de novo a anulao. Viveremos separados.
         A cara dele era de desespero.
         - E viremos aqui todos os domingos e quebraremos nossa promessa -
concluiu ela.
         Jack apertou-a com fora e Aliena sentiu que ele estava novamente
excitado.
         - Todos os domingos?
         - Sim.
         - Voc pode ficar grvida de novo.
         - Correremos o risco. E vou comear a fabricar tecido de novo, como
fazia antigamente. Mais uma vez comprei de Philip a l que ele no vendeu, e vou
organizar o pessoal da cidade para tec-la. Depois fao o acabamento no moinho
de pisoar.
         - Como voc pagou a Philip? - perguntou Jack, surpreso.
         - Ainda no lhe paguei. Vou pagar a ele em fardos de tecido, quando
estiverem prontos.
         Jack assentiu.
         - Ele aceitou o negcio porque quer que voc fique - disse amargamente.
- Assim eu tambm continuo em Kingsbridge.
         Aliena concordou.
         - E ele ainda sai da transao levando tecido barato.
         - Maldito Philip! Sempre consegue o que quer.
         Aliena viu que ganhara. Beijou-o.
         - Amo voc - disse ela.
         Ele retribuiu seu beijo, correndo as mos por todo o seu corpo, tocando
ardorosamente seus lugares secretos. Ento parou e disse:
         - Mas quero estar com voc todas as noites, e no somente aos
domingos.
         Ela beijou-lhe a orelha.
         - Um dia ser assim - sussurrou. - Eu lhe prometo.
         Jack deslocou-se para trs de Aliena e puxou-a, de modo que suas pernas
ficaram por baixo do corpo dela. Aliena abriu as coxas e desceu, flutuando
suavemente, sobre o colo de Jack. Ele acariciou os seios volumosos e brincou
com os mamilos inchados. Por fim a penetrou e ela estremeceu de prazer.
         Fizeram amor lenta e delicadamente na gua fria da represa, com o
rumorejar da queda-d'agua nos ouvidos. Jack passou os braos em torno de sua
barriga, e com as mos experientes acariciou-a entre as pernas, apertando e
afagando enquanto se mexia, entrando e saindo. Nunca tinham feito amor
daquele jeito, com ele acariciando-a ao mesmo tempo nos seus pontos mais
sensveis, e foi muito diferente, um prazer mais intenso, da mesma forma como
uma dor aguda difere de uma dor imprecisa. Mas talvez fosse porque se sentia
to triste, pensou Aliena. Aps algum tempo ela se entregou quela sensao. Sua
intensidade aumentou to de repente que o clmax a pegou de surpresa, quase a
assustando, e foi tomada por espasmos de prazer to convulsivos que gritou.
         Jack permaneceu dentro dela, duro, insatisfeito, enquanto Aliena
recuperava o flego. Estava quieto e imvel, mas ela percebeu que ele no
atingira o clmax. Aps algum tempo Aliena comeou a se mexer de novo, mas
Jack no reagiu. Ela virou a cabea e beijou-o, por cima do ombro. As gotas
d'agua no seu rosto estavam mornas.
         Jack chorava.
       Parte cinco
       1152 - 1155

       Captulo 14
         Aps sete anos Jack conclura os transeptos - os dois braos da igreja em
forma de cruz -, e eles eram exatamente o que esperara que fossem. O mestre
construtor aperfeioara as idias de Saint-Denis, fazendo tudo mais alto e mais
estreito: janelas, arcos e a prpria abbada. Os grupos de fustes que compunham
as colunas erguiam-se graciosamente atravs da galeria e transformavam-se nas
nervuras de sustentao do teto, curvando-se para se encontrarem no meio dele,
e pelas altas janelas ogivais a luz do sol inundava o interior. As cornijas eram
finas e delicadas, e a decorao, uma orgia de folhagens cinzeladas na pedra.
         E apareceram rachaduras no clerestrio.
         Ele se deteve na alta passagem do clerestrio, os olhos fixos no vazio do
outro lado do transepto norte, meditando, numa clara manh de primavera.
Ficou chocado e frustrado. Segundo toda a sabedoria dos pedreiros a estrutura
era forte; mas uma rachadura demonstrava fraqueza. Seu teto era muito mais alto
do que qualquer outro que j tivesse visto, mas no to mais alto. Ele no
cometera o erro de Alfred, pondo uma abbada de pedra sobre uma estrutura
incapaz de sustentar seu peso. No entanto, apareceram rachaduras no clerestrio,
aproximadamente no mesmo lugar onde o trabalho de Alfred apresentara defeito.
Alfred errara os clculos, mas Jack estava certo de no ter se enganado. Algum
fator novo aluava na construo, e ele no sabia o que era.
         No se tratava de coisa perigosa, pelo menos a curto prazo. As
rachaduras foram preenchidas com massa e no reapareceram. A construo
estava a salvo. Mas era fraca; e, para Jack, a fraqueza a estragava. Queria que sua
igreja durasse at o dia do Juzo Final.
         Deixou o clerestrio e desceu a escadaria do torreo at a galeria, onde
preparara o cho onde desenhava, no canto em que havia boa iluminao, vinda
de uma das janelas do lado norte. Comeou a desenhar o plinto de um pilar da
nave. Desenhou um losango, depois um quadrado dentro do losango e por fim
um crculo dentro do quadrado. Os fustes principais da pilastra teriam origem
nos quatro cantos do losango, subiriam pela coluna e em cima se dividiriam na
direo dos quatro pontos cardeais para se tornarem arcos ou nervuras. Fustes
secundrios, originando-se nos cantos do quadrado, ergueriam-se para se
tornarem nervuras atravessando em diagonal a abbada da nave num lado e da
nave lateral do outro. O crculo do meio representava o ncleo do pilar.
         Todos os desenhos de Jack eram baseados em formas geomtricas
simples e em algumas propores no to simples, tais como a razo da raiz
quadrada de dois para a raiz quadrada de trs. Jack aprendera a extrair raiz
quadrada em Toledo, mas a maioria dos pedreiros no era capaz de faz-lo, e, em
vez de calcular, usavam construes geomtricas simples. Sabiam que se um
crculo fosse traado tangenciando por fora os quatro cantos de um quadrado, o
dimetro do crculo excederia o lado do quadrado na razo da raiz quadrada de
dois para um. Tal proporo, a raiz de dois para um, era a mais antiga das
frmulas dos pedreiros, pois numa construo simples era a razo da largura
externa para a interna, e, dessa forma, dava a grossura da parede.
         O trabalho de Jack foi muito complicado pelo significado religioso de
vrios nmeros. O prior Philip planejava consagrar a igreja  Virgem Maria,
porque a Madona que Chora operava mais milagres que o tmulo de santo
Adolfo, e em consequncia, queria que Jack usasse os nmeros 9 e 7, que eram os
de Maria. Jack projetara a nave com nove intercolnios e o novo coro, a ser
construdo quando tudo mais estivesse pronto, com sete. A arcana simulada,
entrelaada nas naves laterais, teria sete arcos por intercolnio, e a fachada oeste
teria nove janelas estreitas e pontiagudas. Jack no tinha opinio firmada sobre o
significado teolgico dos nmeros, mas sentia, instintivamente, que se os
mesmos nmeros fossem usados com bastante coerncia, deveriam contribuir
para a harmonia do prdio.
         Antes que pudesse terminar o desenho do plinto, foi interropido pelo
mestre do telhado, que estava s voltas com um problema e queria que Jack o
resolvesse.
         Seguiu o homem na escada do torreo, depois pelo clerestrio, e por fim
os dois entraram no espao entre o teto e o telhado. Atravessaram as cpulas
arredondadas que eram o lado superior da abbada. Acima deles, os operrios
especializados em telhado desenrolavam grandes folhas de chumbo e as
pregavam nos caibros, comeando pela parte de baixo e depois subindo, a fim de
que as folhas superiores se sobrepusessem s inferiores e conservassem de fora a
gua da chuva.
         Jack viu o problema imediatamente. Ele pusera um pinculo decorativo
na ponta da interseo de duas sees de telhado, mas deixara o desenho por
conta de um mestre pedreiro, e este no previra a passagem da gua, atravs ou
por baixo do pinculo. O pedreiro teria que fazer uma alterao. Disse ao mestre
do telhado para repassar a instruo para o pedreiro e retornou ao seu desenho.
         Ficou atnito ao encontrar Alfred esperando-o ali.
         No falava com Alfred h dez anos. De vez em quando o via a distncia,
em Shiring ou Winchester. Aliena no punha os olhos nele h nove anos, muito
embora ainda estivessem casados, de acordo com a Igreja. Martha ia visit-lo em
sua casa de Shiring cerca de uma vez por ano. Trazia sempre as mesmas notcias:
ele estava prosperando, construindo casas para os burgueses de Shiring; morava
sozinho; era o mesmo de sempre.
        Mas Alfred no parecia nada prspero. Jack achou que aparentava
cansao e derrota. Sempre fora grande e forte, mas agora estava magro e curvado:
seu rosto estava mais fino, e a mo que tirava o cabelo dos olhos era ossuda, e
no musculosa como antes.
        - Ol, Jack! - disse Alfred.
        Sua expresso era agressiva, mas seu Tom de voz cativante - uma mistura
nada atraente.
        - Ol, Alfred - disse Jack cautelosamente. - A ltima vez em que o vi,
estava usando uma tnica de seda e tinha engordado bastante.
        - Isso foi h trs anos, antes da primeira das ms colheitas.
        -  mesmo. - Trs colheitas fracas em seguida tinham causado uma crise.
Servos tinham morrido, muitos rendeiros perderam tudo, e presumivelmente os
burgueses de Shiring no podiam mais pagar por esplndidas casas novas de
pedra. Alfred sentia o aperto. - O que o traz a Kingsbridge depois de tanto
tempo? - perguntou Jack.
        - Ouvi falar dos seus transeptos e vim dar uma olhada. - Seu tom de voz
era de relutante admirao. - Onde voc aprendeu a construir desse jeito?
        - Paris - respondeu Jack laconicamente. No queria discutir aquele
perodo de sua vida com Alfred, que fora o responsvel pelo seu exlio.
        - Bem... - Alfred parecia sem graa, mas acabou dizendo, com rebuscada
indiferena: - Eu gostaria de trabalhar aqui, s para aprender um desses novos
truques.
        Jack ficou pasmo. Ser que Alfred tinha realmente coragem de lhe pedir
um emprego? Querendo ganhar tempo, ele perguntou:
        - E o seu grupo?
        - Estou sozinho agora - respondeu Alfred, ainda tentando fingir que
estava muito  vontade. - No havia trabalho suficiente para um grupo.
        - No estamos contratando ningum, de qualquer forma - disse Jack,
procurando tambm parecer natural. - Temos o efetivo completo.
        - Mas voc sempre pode usar um bom pedreiro, no pode?
        Jack percebeu uma leve nota de splica, e deu-se conta de que Alfred
estava desesperado. Decidiu ser sincero.
        - Depois da vida que tivemos, sou a ltima pessoa a quem voc devia
pedir ajuda.
        - E voc  mesmo o ltimo - disse Alfred, com franqueza. - Tentei em
toda parte. Ningum est contratando.  a crise.
        Jack pensou em todas as vezes em que Alfred o maltratara, atormentara,
espancara. Alfred forara-o a ingressar no mosteiro e depois o afastara da sua
casa e da sua famlia. No tinha razo para ajud-lo: na verdade, tinha motivo
para se regozijar com a desgraa dele.
         - No o contrataria nem se estivesse precisando de gente - disse.
         - Achei que voc talvez pudesse faz-lo - disse Alfred, com persistncia
bovina. - Afinal, meu pai ensinou tudo o que sabe.  por causa dele que voc 
mestre construtor. No me ajudar em homenagem a ele?
         Por Tom, de repente, Jack sentiu uma pontada de remorso. A seu modo,
         Tom tentara ser um bom padrasto. No fora delicado ou compreensivo,
mas tratara os prprios filhos do mesmo modo como o tratara, e fora paciente e
generoso ao transmitir seu conhecimento e habilidades. Tambm fizera feliz sua
me, a maior parte do tempo. E, afinal de contas, pensou Jack, aqui estou eu, um
mestre construtor bem-sucedido e prspero, a caminho de realizar a ambio de
construir a mais bela catedral do mundo, e a est Alfred, pobre, com fome e sem
trabalho. J no  vingana suficiente?
         No, no .
         Em seguida ele cedeu.
         - Est bem - disse. - Por Tom, voc est contratado.
         - Muito obrigado - disse Alfred. Sua expresso era imperscrutvel. - Devo
comear imediatamente?
         Jack fez que sim.
         - Estamos assentando as fundaes da nave. Incorpore-se ao pessoal.
         Alfred estendeu a mo. Jack hesitou momentaneamente, depois aceitou-a.
O aperto de mo do filho de Tom era forte como sempre.
         Alfred desapareceu. Jack permaneceu contemplando seu desenho. Era de
tamanho natural, de modo que quando estivesse terminado um mestre
carpinteiro poderia fazer um gabarito de madeira diretamente sobre ele. O
gabarito depois seria usado pelos pedreiros a fim de marcar o corte das pedras.
         Teria tomado a deciso correta? Lembrou-se de que a abbada dele rura.
No o usaria, contudo, em trabalhos difceis como abbadas ou arcos: paredes
retas e pisos eram o seu campo.
         Enquanto Jack ainda estava ponderando, o sino do meio-dia tocou para o
almoo. Ps de lado o pedao de arame pontiagudo com que desenhava e desceu
a escada at o nvel do solo.
         Os pedreiros casados iam comer em casa, e os solteiros, no galpo. Em
alguns canteiros de obras era fornecido o almoo, como um meio de evitar
atrasos na parte da tarde, absentesmo e alcoolismo; porm, a poro que os
monges serviam quase sempre era espartana, e a maior parte dos operrios
preferia levar sua prpria comida.
         Jack estava morando na velha casa de Tom Construtor com Martha, a
quem considerava como irm, e que fazia as vezes de sua governanta. Martha
tambm cuidava de Tommy e da segunda filha de Jack, uma garota a quem
tinham chamado Sally, quando Aliena estava ocupada. Martha geralmente
preparava o jantar para Jack e as crianas, e Aliena s vezes se juntava a eles.
         Ele deixou o priorado e caminhou decididamente para casa. No meio do
trajeto uma idia o assaltou. Ser que Alfred esperava voltar a morar na sua casa
com Martha?
         Ela era sua irm natural. Jack no pensara nisso quando lhe dera o
emprego.
         Era um medo tolo, decidiu, um momento depois. Os dias em que Alfred
podia intimid-lo tinham ficado para trs. Agora era o mestre construtor de
Kingsbridge, e se dissesse que Alfred no podia se mudar para aquela casa, ele
no se mudaria.
         Jack chegara a esperar encontrar Alfred sentado  mesa da cozinha, e
ficou aliviado ao no v-lo ali. Aliena cuidava das crianas, que comiam, e Martha
mexia uma panela no fogo. O cheiro do ensopado de carneiro era de dar gua na
boca.
         Deu um beijo rpido na testa de Aliena. Ela estava agora com trinta e trs
anos, mas tinha a mesma aparncia dos vinte e trs: o cabelo volumoso,
castanho-escuro e cheio de cachos, a mesma boca generosa e os lindos olhos
castanhos. Somente quando nua mostrava os efeitos do tempo e da maternidade:
os seios maravilhosos estavam mais cados, as cadeiras, mais largas, e a barriga
nunca mais voltara a ser chata e rgida como antes.
         Jack contemplou afetuosamente os frutos do corpo de Aliena: Tommy,
um saudvel garoto de cabelos ruivos, com nove anos, grande para a sua idade, e
que enfiava o ensopado de carneiro na boca como se no comesse h uma
semana; e Sally, de sete anos, cabelos castanho-escuros como os da me, sorrindo
alegremente e exibindo uma falha nos dentes da frente, tal como Martha, quando
Jack a vira pela primeira vez, dezessete anos antes. Tommy ia para a escola no
priorado todas as manhs, para aprender a ler e escrever, mas como os monges
no aceitavam meninas, era Aliena quem ensinava Sally.
         Jack sentou-se, e Martha tirou a panela do fogo e colocou-a em cima da
mesa. Era uma garota estranha. J passava dos vinte anos de idade, mas no
demonstrava interesse em se casar. Sempre fora ligada a Jack, e agora parecia
perfeitamente feliz em ser sua governanta.
         Jack era, sem dvida, o chefe da famlia mais estranha do condado. Ele e
Aliena eram dois dos cidados mais importantes de Kingsbridge: ele, o mestre
construtor da catedral, e ela, a maior fabricante de tecido fora de Winchester.
Todos os tratavam como marido e mulher, embora fossem proibidos de passar as
noites juntos e morassem em casas separadas, Aliena com o irmo e Jack com
Martha. Todas as tardes de domingo, e todos os feriados, eles desapareciam, e
todo mundo sabia o que estavam fazendo, exceto,  claro, o prior Philip.
Enquanto isso, a me de Jack morava numa caverna na floresta porque achavam
que fosse uma feiticeira.
         De vez em quando ele se enfurecia por no poder desposar Aliena.
Ficava acordado, na cama, ouvindo o ressonar de Martha no quarto ao lado, e
pensava: Tenho vinte e oito anos de idade; por que estou dormindo sozinho? No
dia seguinte mostrava-se mal-humorado com o prior Philip, rejeitando todas as
sugestes ou pedidos do cabido como impraticveis ou muito dispendiosos,
recusando-se a discutir alternativas ou solues de compromisso, como se
houvesse um nico modo de construir uma catedral e esse modo fosse o dele.
Philip resolvia ento se afastar do construtor por uns dias e deixar a tempestade
passar.
         Aliena tambm se sentia infeliz e descontava em Jack. As vezes ficava
impaciente e intolerante, criticando tudo o que ele fazia, pondo as crianas na
cama assim que chegava, dizendo que no sentia fome quando ele comia. Aps
um ou dois dias nesse estado de esprito, desandava a chorar, dizia que sentia
muito e que eles seriam felizes de novo, at a prxima vez em que a tenso se
tornasse insuportvel.
         Jack pegou uma concha e serviu um pouco de ensopado numa tigela.
         - Adivinhe quem apareceu na obra hoje - disse, comeando a comer. -
Alfred.
         Martha deixou cair uma tampa de ferro na pedra do fogo. Jack olhou
para ela e viu medo estampado no seu rosto. Virou-se para Aliena e viu que ela
ficara lvida.
         - O que ele est fazendo em Kingsbridge? - perguntou ela.
         - Procurando trabalho. A crise empobreceu os mercadores de Shiring,
creio, e eles no esto construindo casas de pedra como antes. Alfred demitiu
seus homens e no consegue encontrar trabalho.
         - Espero que voc o tenha posto para fora - afirmou Aliena.
         - Ele disse que eu deveria lhe dar um emprego em nome de Tom - disse
Jack nervosamente. No tinha antecipado uma reao to forte das duas
mulheres. - Afinal de contas, devo tudo a meu padrasto.
         - Grande merda - disse Aliena, e Jack pensou que ela aprendera aquela
expresso com sua me.
         - Bem, de qualquer forma o contratei - disse ele.
         - Jack! - gritou Aliena. - Como foi capaz de fazer isso? No pode deixar
que aquele demnio volte para Kingsbridge!
         Sally comeou a chorar. Tommy arregalou os olhos para a me.
         - Alfred no  nenhum demnio - disse Jack. -  um homem faminto e
sem dinheiro. Eu o salvei em memria do pai dele.
         - Voc no sentiria pena se ele o tivesse forado a dormir ao p de sua
cama como um cachorro por nove meses.
         - Ele fez coisas piores comigo, pergunte a Martha.
         - E comigo tambm - disse Martha.
         - Decidi que v-lo daquele jeito era vingana suficiente para mim.
        - Pois no o  para mim! - esbravejou Aliena. - Por Cristo, Jack, filho de
Jack, voc  um maldito idiota. s vezes agradeo a Deus no ter me casado com
voc.
        Jack desviou o olhar, magoado. Sabia que ela no falara a srio, mas o
simples fato de ter dito aquilo, mesmo num rompante de raiva, j era bastante
ruim. Pegou a colher e comeou a comer. Foi difcil de engolir.
        Aliena fez um carinho na cabea de Sally e ps um pedao de cenoura na
sua boca. Sally parou de chorar.
        Jack olhou para Tommy, que ainda fitava a me com uma expresso de
pavor no rostinho.
        - Coma, Tommy - disse Jack. - Est gostoso.
        Terminaram o jantar em silncio.

         Na primavera daquele ano os transeptos ficaram prontos. O prior Philip
fez uma inspeo nas propriedades do mosteiro ao sul. Aps trs anos ruins ele
precisava de uma boa safra, e queria verificar em que estado se encontravam as
fazendas.
         Levou Jonathan consigo. O rfo do priorado era agora um rapaz muito
alto, desajeitado e inteligente, com dezesseis anos. Como Philip, na mesma idade,
no pareceu ter um momento de dvida sobre o que queria da vida: completara
seu noviciado, fizera os votos e agora era o irmo Jonathan. Tambm como
Philip, interessava-se pelo lado material do servio de Deus, e trabalhava como
substituto de Cuthbert Cabea Branca, o idoso despenseiro. Philip sentia orgulho
do menino: era devoto, trabalhador e todos gostavam dele.
         Os dois eram escoltados por Richard, irmo de Aliena. Richard tinha por
fim encontrado seu lugar em Kingsbridge. Aps a construo da muralha da
cidade, Philip sugerira  Sociedade da Parquia que designasse Richard chefe da
vigilncia, responsvel pela segurana da cidade. Ele organizara os sentinelas
noturnos e providenciara a manuteno e aperfeioamento dos muros da cidade,
e nos dias de mercado e dias santos tinha poderes para prender desordeiros e
bbados. Essas tarefas, que tinham se tornado essenciais com a transformao da
aldeia numa cidade, eram coisas que no se esperava que um monge fizesse;
assim, a associao da parquia, que Philip a princpio vira como uma ameaa 
sua autoridade, terminara afinal por ser til. E Richard se sentia feliz. Estava com
cerca de trinta anos agora, mas a vida ativa o mantinha com aparncia jovem.
         Philip gostaria que a irm de Richard tambm tivesse acertado sua vida.
Se havia uma pessoa com quem a Igreja falhara era Aliena. Jack era o homem a
quem amava e o pai dos seus filhos, mas a Igreja insistia que estava casada com
Alfred, mesmo que no tivesse conhecimento carnal dele; e era incapaz de
conseguir uma anulao por causa da m vontade do bispo. Uma vergonha, e
Philip se sentia culpado, embora no fosse o responsvel.
         J no fim da jornada, quando atravessavam a floresta no caminho de casa,
numa clara manh de primavera, o jovem Jonathan disse:
         - Eu gostaria de saber por que Deus faz as pessoas morrerem de fome.
         Era uma pergunta que todo jovem monge fazia, mais cedo ou mais tarde,
e havia muitas respostas para ela.
         - No ponha a culpa desta crise em Deus - disse Philip.
         - Mas Deus fez o tempo que causou as ms colheitas.
         - A fome no  devida apenas a ms colheitas - retrucou o prior. -
Sempre h ms colheitas, de vez em quando, mas as pessoas no morrem de
fome. O que  especial nesta crise  que sobrevm aps muitos anos de guerra
civil.
         - E que diferena isso faz?
         Foi Richard, o soldado, quem respondeu:
         - A guerra  ruim para as fazendas. O gado  abatido para alimentar os
exrcitos, as safras so queimadas para que no cheguem s mos do inimigo, e
as propriedades so negligenciadas enquanto os cavaleiros esto combatendo.
         - E quando o futuro  incerto - acrescentou Philip -, as pessoas no se
mostram dispostas a investir tempo e energia preparando novos terrenos,
aumentando seus rebanhos, cavando valas e construindo celeiros.
         - Ns no paramos de fazer esse tipo de trabalho - disse Jonathan.
         - Mosteiros so diferentes. Mas a maioria dos fazendeiros comuns deixa
suas propriedades decarem durante a guerra, de modo que quando vem o mau
tempo eles no se encontram em boas condies para venc-lo. Os monges vem
mais longe. Mas temos outro problema. O preo da l caiu por causa da crise.
         - No vejo a ligao - disse Jonathan.
         - Suponho que seja porque pessoas famintas no compram roupas. - Era
a primeira vez, na lembrana de Philip, que o preo da l deixara de crescer
anualmente. Vira-se forado a diminuir o ritmo da construo da catedral, a no
receber novios e a eliminar vinho e carne da alimentao dos monges.
Lastimavelmente, significa que estamos economizando justo quando mais e mais
gente miservel aparece em Kingsbridge procurando trabalho.
         - E terminam fazendo fila no porto do priorado para ganhar um pouco
de sopa e po de massa grossa - disse Jonathan.
         Philip assentiu tristemente. Quebrava seu corao ver homens fortes
tendo que implorar comida por no conseguirem encontrar trabalho.
         - Mas lembre-se, a causa disso  a guerra, no o tempo.
         - Espero que haja um lugar especial no inferno para os condes e reis que
causam tanta misria - disse Jonathan, com o arrebatamento dos jovens.
         - Espero que sim... Os santos nos protejam, o que  isso? Uma estranha
figura irrompera de sob as rvores correndo a toda a velocidade na direo do
prior. Suas roupas eram trapos, seu cabelo estava em desordem, e o rosto, preto
de sujeira. Philip achou que o pobre homem devia estar fugindo de um javali
enfurecido ou at mesmo de um urso fugido.
         Mas ento o homem deu um pulo e se atirou sobre Philip.
         O prior ficou to espantado que caiu do cavalo.
         Seu atacante caiu por cima dele. O homem cheirava como um animal, e
tambm soava como um: grunhia sem parar. Philip se contorcia e dava pontaps.
O homem parecia querer se apoderar da sacola de couro que o prior carregava a
tiracolo. No havia nada nela exceto um livro, A cano de Salomo. Philip
travou uma luta desesperada para se libertar, no porque nutrisse especial
dedicao ao livro, mas porque o ladro era revoltantemente sujo.
         Entretanto, o religioso estava preso na tira da sacola e o ladro no
desistia. Rolaram pelo cho duro, Philip tentando se libertar e o fora-da-lei
querendo pegar a sacola. Tinha uma vaga idia de que seu cavalo disparara.
         De repente o ladro foi afastado bruscamente por Richard. Philip rolou e
sentou-se, mas por um momento no conseguiu ficar de p. Estava um pouco
aturdido. Respirou o ar puro, aliviado por estar livre do pernicioso abrao do
assaltante.
         Apalpou seus ferimentos. Nada quebrado. Voltou a ateno para os
demais.
         Richard obrigara o ladro a se estirar no cho e estava com um p sobre
suas omoplatas e a ponta da espada na nuca. Jonathan segurava os dois cavalos
remanescentes e parecia desnorteado.
         Philip levantou-se num movimento sbito, mas sentindo-se fraco.
Quando eu tinha a idade de Jonathan, pensou, podia cair do cavalo e montar de
novo imediatamente.
         - Se ficar de olho neste ladrozinho barato - disse Richard - pegarei seu
cavalo. - E ofereceu a espada ao prior.
         - Est bem - concordou Philip, afastando a arma com um gesto. - Mas
no vou precisar disso.
         Richard hesitou, e em seguida embainhou a espada. O ladro ficou
imvel. Suas pernas eram finas como palitos, e da mesma cor; estava descalo.
Philip no tinha chegado a correr nenhum risco: aquele pobre-diabo estava fraco
demais at mesmo para torcer o pescoo de uma galinha. Richard saiu em busca
do cavalo do prior.
         O atacante viu o rapaz afastar-se, e seu corpo ficou tenso. Philip
percebeu que estava prestes a tentar fugir. Deteve-o com uma pergunta.
         - Gostaria de comer alguma coisa?
         O ladro levantou a cabea e olhou para o religioso como se o achasse
louco.
         Philip caminhou at o cavalo de Jonathan e abriu um alforje. Pegou um
po, partiu-o ao meio e ofereceu metade ao assaltante. O homem agarrou o po,
incrdulo, e enfiou-o quase todo na boca.
        O prior sentou-se no cho, observando-o. O homem comia como um
animal, tentando engolir o mximo possvel antes que pudessem tirar-lhe o
alimento. A princpio Philip pensara tratar-se de um velho, mas agora que podia
observ-lo melhor percebeu que o fora-da-lei era jovem, cerca de vinte e cinco
anos.
        Richard voltou, puxando o cavalo de Philip. Indignou-se ao ver o ladro
sentado, comendo.
        - Por que lhe deu nossa comida? - perguntou ao prior.
        - Porque ele est faminto - respondeu Philip. Richard nada disse, mas
percebia-se por sua expresso que achava os monges malucos.
        - Qual  o seu nome? - Perguntou o prior, aps o homem ter comido o
pedao de po.
        Ele hesitou, cautelosamente. Philip teve a impresso de que havia algum
tempo que no falava com outro ser humano. Finalmente respondeu:
        - David.
        Pelo menos no estava louco, pensou Philip.
        - O que aconteceu a voc, David? - perguntou.
        - Perdi minha fazenda depois da ltima safra.
        - De quem arrendava a fazenda?
        - Do conde de Shiring.
        William Hamleigh. O prior no se surpreendeu.
        Milhares de fazendeiros no tinham conseguido pagar o aluguel de suas
terras aps trs safras ruins. Quando isso acontecia com Philip, ele simplesmente
perdoava a dvida, j que, de qualquer modo, se as pessoas perdessem tudo
acabariam indo ao priorado implorar caridade. Outros proprietrios, destacando-
se o conde William, aproveitavam-se da crise para expulsar seus posseiros e
reapossar-se de suas fazendas. O resultado foi um grande aumento no nmero
dos fora-da-lei refugiados nas florestas, assaltando viajantes. Era por isso que
Philip precisava levar Richard para toda parte, como guarda-costas.
        - E a sua famlia? - perguntou Philip ao ladro.
        - Minha mulher pegou o beb e voltou para a casa da me. Mas no havia
lugar para mim.
        Uma histria corriqueira.
        -  pecado atacar um monge, David, e  errado viver de furtos.
        - Mas como poderei viver? - exclamou o homem.
        - Se vai ficar na floresta  melhor que pegue aves e pesque.
        - No sei caar nem pescar!
        - Voc  um fracasso como ladro - disse o prior. - Que chance de
sucesso tinha, sem arma, sozinho contra ns trs, e com Richard armado at os
dentes?
         - Eu estava desesperado.
         - Bem, na prxima vez em que ficar desesperado, v a um mosteiro.
Sempre h alguma coisa para um pobre comer. - Philip levantou-se. Sentia na
boca o gosto amargo da hipocrisia. Sabia que os mosteiros no tinham condies
de alimentar todos os fora-da-lei. Para a maioria no restava mesmo outra
alternativa seno roubar. Mas seu papel era aconselhar a vida virtuosa, e no
arranjar desculpas para o pecado.
         No havia mais nada que pudesse fazer por aquele pobre coitado. Pegou
as rdeas do seu cavalo das mos de Richard e montou. Percebeu que os
ferimentos resultantes da queda iriam doer por algum tempo.
         - "Siga seu caminho e no peque mais" - disse, citando Jesus. Depois
tocou o cavalo.
         - Voc  muito bom - disse Richard, quando se afastaram. Philip sacudiu
a cabea tristemente.
         - O problema verdadeiro  que no sou o bastante.

         No domingo que antecedia a festa de Pentecostes, William Hamleigh se
casou.
          Foi idia de sua me.
          Regan o vinha importunando h anos para encontrar uma mulher e
providenciar um herdeiro, mas ele sempre adiava. As mulheres entediavam-no e,
de um modo que no compreendia e no qual no queria pensar, deixavam-no
ansioso. Vivia dizendo  sua me que logo se casaria, mas nunca fazia nada para
isso.
          Ela acabou por encontrar uma noiva para ele.
          Chamava-se Elizabeth, e era filha de Harold de Weymouth, um cavaleiro
rico, poderoso partidrio de Estevo. Como Regan explicara ao filho, com um
pouco de esforo ele poderia ter conseguido um melhor partido - at mesmo a
filha de um conde -, mas como no se interessava pelo assunto, Elizabeth
serviria.
          William a vira na corte do rei em Winchester, e Regan reparara que seu
olhar se fixara nela. Tinha o rosto bonito, cabelo cacheado castanho-claro, busto
grande e quadris estreitos exatamente o tipo de William.
          A garota estava com catorze anos. Quando William a vira, imaginara
encontrando-a numa noite escura e possuindo-a  fora nas vielas de Winchester:
casamento fora uma coisa que no passara pela sua cabea. No entanto, sua me
rapidamente descobriu que o pai dela estava de acordo, e que Elizabeth era uma
filha obediente que faria o que lhe ordenassem. Tendo assegurado a William que
no haveria uma repetio do ultraje que Aliena impusera  famlia, Regan
arranjara um encontro.
          O conde sentira-se nervoso. A ltima vez em que fizera aquilo, no
passava de um rapaz inexperiente de vinte anos de idade, filho de um cavaleiro,
encontrando-se com uma arrogante jovem dama da nobreza. Mas agora era um
homem com experincia de muitos combates e j fazia dez anos que era o conde
de Shiring. Tolice ficar nervoso por causa de um encontro com uma garota de
catorze anos.
        S que ela estava mais nervosa ainda. E tambm desesperada para
agradar-lhe. Falou excitadamente sobre sua casa e sua famlia, seus cavalos e
cachorros, parentes e amigos. William permaneceu sentado silenciosamente,
observando-lhe o rosto, imaginando como seria nua.
        O bispo Waleran os casou na capela de Earlscastle, e houve um grande
banquete que durou o resto do dia. Pelo costume, todas as pessoas eminentes do
condado deviam ser convidadas, e William passaria vergonha se no servisse um
farto banquete. Assaram trs bois inteiros e dzias de carneiros e de porcos, e os
convidados esvaziaram as adegas do castelo, embebedando-se com cerveja, sidra
e vinho. A me de William presidiu as festividades com um ar de triunfo no rosto
desfigurado. O bispo Waleran achava aquelas celebraes vulgares, desagradveis,
e saiu quando o tio da noiva comeou a contar histrias engraadas sobre recm-
casados.
        A noiva e o noivo retiraram-se para seus aposentos ao cair da noite,
deixando os convidados se regalando. William j comparecera a um nmero
suficiente de casamentos para saber o que passava pela cabea dos convidados
mais moos, de modo que colocou Walter do lado de fora do quarto e trancou a
porta para impedir interrupes.
        Elizabeth tirou a tnica e os sapatos, e ficou s com a camisa de linho.
        - No sei o que fazer - disse, com simplicidade. - Voc ter que me
mostrar.
        Aquilo no era bem o que William imaginara. Aproximou-se dela.
Ergueu-lhe o rosto e beijou seus lbios suaves. De alguma forma, o beijo no
gerou nenhum calor.
        - Tire a camisa e deite-se na cama - disse ele.
        Ela puxou a camisa por cima da cabea. Era bem rolia. Os seios grandes
tinham minsculos mamilos recolhidos. Uma penugem clara cobria-lhe o pbis.
Obedientemente, ela caminhou at a cama e deitou-se de costas.
        William livrou-se das botas. Sentou-se na cama ao seu lado e apertou-lhe
os seios. Sua pele era macia. Aquela garota meiga, submissa e sorridente no
tinha nada a ver com a imagem que fizera sua garganta secar, de uma mulher nas
garras da paixo, gemendo e suando embaixo dele, e William sentiu-se frustrado.
        Ps a mo entre suas coxas, e a garota abriu as pernas imediatamente.
Enfiou um dedo dentro de Elizabeth, que gemeu de dor, mas disse depressa:
        - Est bem, no me incomodo.
        Ele perguntou-se por um instante se no estaria procedendo de um
modo completamente errado. Teve uma viso momentnea de uma cena
diferente, em que os dois se deitavam lado a lado, acariciando-se e conversando,
conhecendo-se aos poucos. No entanto, afinal sentiu uma pontada de desejo,
quando Elizabeth gemeu de dor. Deixou de lado as dvidas e meteu o dedo com
mais fora. Ficou observando seu rosto enquanto ela lutava para suportar a dor
em silncio.
        Ajoelhou-se entre suas pernas. No estava ainda totalmente excitado.
Esfregou-se para ver se o pnis ficava mais ereto, mas o efeito foi pequeno. Era
aquele maldito sorriso dela que o deixava impotente, tinha certeza. Enfiou dois
dedos, e a garota deu um gritinho de dor. Assim era melhor. Ento a cadela idiota
comeou a sorrir de novo. Ele percebeu que tinha de arrancar aquele sorriso da
sua cara. Esbofeteou-a com fora. Ela gritou, e seu lbio comeou a sangrar.
Assim era muito melhor.
        Atingiu-a de novo.
        Elizabeth comeou a chorar.
        Tudo deu certo.

        No domingo seguinte era a festa de Pentecostes, quando uma imensa
multido compareceria  catedral. O bispo Waleran presidiria a cerimnia.
Haveria ainda mais gente que o normal, porque todos estavam querendo ver os
novos transeptos, recentemente concludos. Diziam que eram deslumbrantes.
William exibiria sua noiva ao povo do condado naquele culto. No ia a
Kingsbridge desde que tinham construdo a muralha, mas Philip no podia
impedi-lo de ir  igreja.
        Dois dias antes de Pentecostes, sua me morreu.
        Regan contava cerca de sessenta anos. Foi tudo repentino. Sentiu falta de
ar aps o jantar, na sexta-feira, e deitou-se cedo. Sua criada acordou William um
pouco antes do amanhecer, para dizer-lhe que sua me estava passando mal. Ele
levantou-se e, aos tropees, dirigiu-se ao quarto dela, esfregando o rosto.
Encontrou-a arquejando horrivelmente, sem conseguir respirar, incapaz de
proferir uma palavra sequer, com uma expresso de terror nos olhos.
        William ficou assustado com sua respirao convulsiva, que lhe sacudia o
corpo, e com seu olhar fixo. No tirava os olhos de cima dele, como se esperasse
que fizesse alguma coisa. O conde ficou to atemorizado que decidiu ir embora, e
virou-se; ento viu a criada  porta e teve vergonha de sua reao. Obrigou-se a
olhar para sua me de novo. O rosto dela parecia mudar de forma continuamente
 luz bruxuleante de uma vela. Sua respirao rouca e entrecortada foi ficando
cada vez mais alta, at que pareceu encher toda a cabea de William. Ele no
podia entender como aquilo no acordava todo o castelo. Ps as mos nos
ouvidos, para ver se se livrava do barulho, mas no adiantou, continuou ouvindo
tudo. Era como se ela estivesse gritando com ele, do modo como fazia quando
era garoto, um ataque destemperado de raiva; seu rosto tambm parecia furioso,
a boca aberta, os olhos arregalados, o cabelo despenteado. A convico de que
estava exigindo alguma coisa aumentou, e ele se sentiu cada vez menor e mais
jovem, at que se viu dominado por um terror cego que no sentia desde a
infncia, um terror que vinha de saber que a nica pessoa a quem amava era um
monstro furioso. Sempre fora assim; ela mandava que ele se aproximasse, ou se
afastasse, ou fosse apanhar seu pnei, ou desse o fora; ele custava a obedecer, e
ela gritava; depois ele ficava to apavorado que no conseguia entender o que ela
queria que fizesse; ento havia um impasse histrico, com ela gritando cada vez
mais alto e ele ficando cada vez mais cego, surdo e mudo de pavor.
         Mas dessa vez foi diferente.
         Dessa vez ela morreu.
         Primeiro seus olhos se fecharam. William comeou a se acalmar.
Gradualmente a respirao dela foi ficando mais leve. O rosto adquiriu um tom
acinzentado, a despeito da ulcerao da pele. At mesmo a vela deu a impresso
de passar a arder mais devagar, e as sombras oscilantes j no amedrontaram
William. Por fim ela simplesmente parou de respirar.
         - Pronto - disse o conde; - ela est bem agora, no est?
         A criada desatou a chorar.
         William sentou-se na beirada da cama olhando o rosto imvel da me. A
criada trouxe o padre.
         - Por que no me chamou mais cedo? - perguntou ele, furioso. William
praticamente no o ouviu. Permaneceu com ela at o sol nascer; ento as criadas
pediram que sassem para que pudessem "prepar-la". Desceu para o salo, onde
os habitantes do castelo - cavaleiros, homens de armas, clrigos e criados - faziam
um moderado desjejum. Sentou-se  mesa ao lado da sua jovem mulher e bebeu
um pouco de vinho. Um ou dois dos cavaleiros e o mordomo se dirigiram a ele,
mas o conde no respondeu.
         Aps algum tempo Walter entrou e sentou-se ao seu lado. Estava com ele
h muitos anos e sabia quando devia guardar silncio.
         - Os cavalos esto prontos? - perguntou William, ao cabo de alguns
minutos.
         Walter pareceu surpreso.
         - Para qu?
         - Para a viagem a Kingsbridge. Leva dois dias. Temos que partir esta
manh.
         - No pensei que fssemos, dadas as circunstncias... Por algum motivo
aquilo enfureceu William.
         - Eu disse que no iramos?
         - No, milorde.
         - Ento vamos!
         - Sim, milorde. - Walter levantou-se. - Providenciarei tudo imediatamente.
         Partiram no meio da manh, William, Elizabeth e a escolta habitual de
cavaleiros e criados. O conde tinha a impresso de estar num sonho. A paisagem
parecia deslocar-se e passar por ele, e no o contrrio. Elizabeth cavalgava ao seu
lado, quieta e magoada. Quando paravam Walter cuidava de tudo. Em cada
refeio William comia um pouco de po e bebia diversos copos de vinho. De
noite, seu sono foi irrequieto.
         Viram a catedral a distncia, atrs dos campos verdes, quando se
aproximaram de Kingsbridge. A catedral antiga era uma construo atarracada e
larga, com pequenas janelas que lembravam olhos de contas sob sobrancelhas
arqueadas. A nova igreja era radicalmente diferente, muito embora ainda no
estivesse acabada. Alta e esguia, com janelas to grandes que pareciam
impossveis. Ao se aproximarem mais, William viu que ultrapassava em muito a
altura dos demais prdios do priorado, como a antiga catedral nunca fizera.
         A estrada estava cheia de cavaleiros e pedestres, todos se dirigindo a
Kingsbridge: a festa de Pentecostes era muito popular, pois se realizava no incio
do vero, quando o tempo estava bom e as estradas, secas. Naquele ano havia
mais gente que o normal: as pessoas haviam sido atradas pela novidade da
catedral.
         William e seu grupo venceram a ltima milha em galope curto,
dispersando pedrestes incautos, e atravessaram ruidosamente a ponte levadia de
madeira que cruzava o rio. Kingsbridge era agora uma das cidades mais
fortificadas da Inglaterra. Tinha um slido muro de pedra provido de ameias, e
ali, onde antes a ponte levava direto  rua principal, o caminho fora barrado por
uma barbac de pedra com portas guarnecidas de ferro muitssimo pesadas, e
que, se naquela hora estavam abertas, sem a menor dvida eram fechadas  noite.
No creio que eu consiga incendiar de novo esta cidade, pensou William
vagamente.
         As pessoas o olhavam, enquanto ele subia a rua principal na direo do
priorado. Era natural, claro; William era o conde. Todos estavam interessados
tambm na jovem noiva que cavalgava do seu lado esquerdo.  direita ia Walter,
como sempre.
         Entraram no adro e desmontaram junto ao estbulo. William deixou o
cavalo com Walter e foi olhar a igreja. A extremidade leste, a parte superior da
cruz, ficava do outro lado e portanto no era visvel dali. O lado oeste, a parte
inferior da cruz, ainda no estava construdo, mas sua forma fora delineada no
cho com estacas e cordas, e algumas das fundaes j tinham sido lanadas.
Entre um e outro ficava a parte nova, os braos da cruz - os transeptos norte e
sul -, com o espao entre eles que era chamado de "cruzeiro". As janelas eram
mesmo to grandes quanto haviam parecido a distncia. William nunca vira um
edifcio como aquele na sua vida.
         -  fantstico - disse Elizabeth, rompendo seu silncio submisso.
         Ele arrependeu-se de no t-la deixado em casa.
         Um tanto intimidado, subiu lentamente a nave, por entre as linhas de
estacas e cordas, com Elizabeth atrs de si. O primeiro intercolnio da nave fora
parcialmente construdo, e parecia sustentar o imenso arco ogival que formava a
entrada oeste do cruzeiro. O conde passou por baixo daquele arco incrvel e foi
se juntar  multido que se encontrava no cruzeiro.
         O novo prdio parecia quase irreal: era demasiado alto, esguio, gracioso e
frgil para ficar de p. Como se no tivesse paredes, nada para sustentar o teto a
no ser uma fileira de pilares altos e delgados que se lanavam eloquentemente
para cima. Como todos que o cercavam, William esticou o pescoo a fim de olhar
para cima, e viu que os pilares continuavam no teto curvo para se encontrarem
na parte mais alta do teto, como uma abbada formada pelos galhos de velhas
rvores na floresta.
         A missa teve incio. O altar fora instalado na parte mais prxima do coro,
com os monges na parte de trs, de modo que o cruzeiro e os dois transeptos
ficaram disponveis para os fiis, mas mesmo assim muitas pessoas tiveram de
ficar na nave por construir. William abriu caminho at a frente, como era sua
prerrogativa, e deteve-se perto do altar, com os outros nobres do condado, que o
cumprimentaram, balanando a cabea, e cochicharam entre si.
         O teto de madeira pintada do velho coro estava desgraciosamente
justaposto ao alto arco leste do cruzeiro. Sem dvida, o construtor tencionava no
futuro demolir o coro e reconstrui-lo em harmonia com o novo estilo.
         Um momento depois que esse pensamento passou pela cabea de
William, seu olhar se deteve no construtor em questo, Jack. Era um rapaz muito
bonito, com sua cabeleira ruiva; usava uma tnica vermelho-escura, bordada na
bainha e na gola, exatamente como um nobre. Parecia bastante satisfeito consigo
prprio, sem dvida por ter construdo os transeptos to depressa e por ver que
todos estavam assombrados com o seu projeto. Segurava a mo de um menino
de uns nove anos que era a sua cara. William constatou, com um choque, que
devia ser o filho de Aliena, e sentiu uma pontada dolorida de inveja. Um
momento depois viu a prpria Aliena. Estava ao lado de Jack, mas um pouco
atrs, com um tmido sorriso de orgulho nos lbios. O corao do conde bateu
mais depressa: estava linda como sempre. Elizabeth era uma mera substituta, uma
pobre imitao da verdadeira Aliena. Nos seus braos, havia uma garotinha de
cerca de sete anos, e William lembrou que ela tivera uma segunda criana de Jack,
embora no fossem casados.
         Examinou-a mais detidamente. No estava to bonita quanto antes,
afinal: havia rugas de tenso em torno dos seus olhos, e seu sorriso escondia uma
ponta de tristeza.
         Depois de todos aqueles anos ainda no podia desposar Jack, pensou
William, satisfeito: o bispo Waleran mantivera sua promessa e repetidamente
negara a anulao.
        Esse pensamento, com frequncia, consolava William.
        Era Waleran, constatou no mesmo momento, quem estava no altar,
erguendo a hstia acima da cabea para que toda a congregao pudesse v-la.
Centenas de pessoas ajoelharam-se.
        O po se transmudou em Cristo naquele instante, uma transformao
que assombrava William mesmo que no tivesse idia do que estava envolvido
nela.
        Concentrou-se na missa por algum tempo, observando os gestos msticos
dos padres, ouvindo as frases latinas sem sentido e murmurando fragmentos
familiares das respostas.
        A sensao de atordoamento que o acompanhara no ltimo dia persistiu,
e a mgica igreja nova, com a luz do sol brincando em suas colunas impossveis,
servia para intensificar a sensao de que vivia um sonho.
        A missa chegou ao fim. O bispo Waleran virou-se para dirigir-se 
congregao.
        - Rezaremos agora pela alma da condessa Regan Hamleigh, me do
conde William de Shiring, que morreu na noite de sexta-feira.
        Houve um zumbido de comentrios quando o povo ouviu a notcia, mas
William estava com os olhos fixos no bispo, horrorizado. Percebera finalmente o
que sua me tentava dizer enquanto morria. Estava pedindo um padre... mas
William no mandara busc-lo. Ele a vira perder as foras, seus olhos se
fecharem, sua respirao parar, e deixara que morresse sem ser absolvida. Como
fora capaz de uma coisa dessas? Desde a noite de sexta-feira sua alma estava no
inferno, sofrendo os tormentos que lhe descrevera to vivamente inmeras vezes,
sem preces que lhe trouxessem alvio! Cheio de culpa, sentiu o corao
confranger-se de tal forma que teve a impresso de que o ritmo de suas batidas se
reduzia, e por um momento achou que tambm morreria. Como deixara que
fosse se consumir naquele lugar to terrvel, com a alma to desfigurada por
pecados quanto o rosto pela doena, enquanto ansiava pela paz do cu?
        - O que vou fazer? - perguntou em voz alta, fazendo as pessoas  sua
volta o fitarem espantadas.
        Quando a prece terminou e os monges se retiraram um atrs do outro,
William permaneceu de joelhos ante o altar. O resto da congregao espalhou-se
ao sol, ignorando-o, com exceo de Walter, que ficou prximo, observando e
esperando. O conde rezou com toda a sua fora, conservando a imagem da me
na cabea, enquanto repetia o padre-nosso, e todos os outros fragmentos de
oraes de que podia se lembrar. Aps algum tempo, deu-se conta de que havia
outras coisas a seu alcance. Podia acender velas; podia pagar a padres e monges
para dizer missas por ela regularmente; podia at mesmo mandar construir uma
capela especial pela sua alma. Mas tudo em que pensava parecia insuficiente. Era
como se pudesse v-la, sacudindo a cabea, magoada e desapontada com ele,
perguntando: "Por quanto tempo voc deixar sua me sofrer?"
        William sentiu a mo de algum no ombro e levantou a cabea. Waleran
parou na frente dele, ainda envergando o suntuoso hbito vermelho que usara
para a festa de Pentecostes. Seus olhos negros se detiveram nos do conde, e este
sentiu que no era possvel guardar segredos para aquele olhar penetrante.
        - Por que chora? - perguntou o bispo.
        William percebeu que seu rosto estava molhado de lgrimas.
        - Onde ela est? - perguntou.
        - Ela morreu para ser purificada pelo fogo.
        - Sofre?
        - Terrivelmente. Mas podemos fazer com que a alma das pessoas a quem
amamos saia mais depressa daquele lugar horrvel.
         - Farei qualquer coisa! - exclamou William. - Basta que me diga o que
fazer!
        Os olhos de Waleran brilharam de cobia.
        - Construa uma igreja - disse. - Exatamente como esta. Mas em Shiring.

        Uma verdadeira fria se apossava de Aliena sempre que ela viajava pelas
propriedades que tinham feito parte do condado do seu pai.
        As valas bloqueadas, cercas quebradas e currais desmantelados a
irritavam; os campos estragados a deixavam triste; e as aldeias desertas partiam-
lhe o corao. No eram s as ms colheitas. O condado poderia ter alimentado
seus habitantes, inclusive naquele ano, se a administrao houvesse sido correta.
Mas William Hamleigh no tinha noo de como administrar a terra. Para ele, o
condado era uma arca do tesouro que lhe pertencia, e no uma propriedade que
alimentava milhares de pessoas.
        Quando seus servos no tinham comida, morriam de fome. Quandos
seus rendeiros no lhe podiam pagar, ele os expulsava das suas terras. Desde que
se tornara conde a rea cultivada diminura de tamanho, porque as terras de
alguns rendeiros expulsos haviam retornado ao seu estado natural. E ele no
tinha crebro para ver que aquilo, a longo prazo, no era do seu interesse.
        O pior era que Aliena se sentia parcialmente responsvel. A propriedade
era de seu pai, e ela e Richard no haviam conseguido recuper-la para a famlia.
Desistiram quando William se tornara conde e Aliena perdera todo o seu
dinheiro; o fracasso, porm, ainda envenenava seu esprito, e ela no esquecera a
promessa feita ao pai.
        Na estrada de Winchester para Shiring, com uma carroa cheia de fio e
um carroceiro musculoso de espada na cinta, lembrou-se de quando percorria a
mesma estrada, a cavalo, com o pai. Ele aumentava constantemente a rea
cultivada, derrubando florestas, drenando pntanos ou arando encostas de
colinas. Nos anos ruins sempre punha de lado sementes para suprir as
necessidades daqueles que eram imprevidentes demais - ou apenas muito
famintos - para guardar as suas. Nunca forava ningum a vender seus animais
ou arados para pagar as dvidas, pois sabia que, se o fizessem, no poderiam
cultivar a terra no ano seguinte. Tratara a terra bem, conservando sua capacidade
de produo, do modo como um bom fazendeiro cuida de sua vaca leiteira.
         Sempre que pensava nos velhos tempos, no pai orgulhoso, inteligente e
rgido ao seu lado, sentia a dor da perda como uma ferida. A vida comeara a dar
errado quando ele fora levado embora. Tudo o que fizera desde ento parecia,
em retrospectiva, ter sido sem valor: viver no castelo com Matthew, num mundo
de sonho; ir a Winchester na v esperana de ver o rei; at mesmo lutar para
sustentar Richard enquanto ele combatia na guerra civil. Conseguira aquilo que as
outras pessoas viam como sucesso: tornara-se uma prspera mercadora de l.
Mas isso lhe trouxera apenas uma aparncia de felicidade. Encontrara um modo
de viver e um lugar na sociedade que lhe conferiam segurana e estabilidade, mas
no ntimo ainda se sentia magoada e perdida - at que Jack aparecera em sua vida.
         A impossibilidade de despos-lo frustrara tudo desde ento. Viera a odiar
o prior Philip, a quem antes admirava e via como seu salvador e mentor. No
conversava alegre e amavelmente com ele h anos. Claro que Philip no tinha
culpa por no conseguir a anulao; porm, fora ele quem insistira para que
morassem separados, e Aliena no podia deixar de se ressentir com isso.
         Amava os filhos, mas se preocupava com eles, sendo criados numa casa
to diferente, com um pai que ia embora na hora de dormir. At ento, por sorte,
no exibiam consequncias daninhas: Tommy era um menino forte e bonito que
gostava de futebol, de correr e de brincar de soldado; e Sally, uma menina meiga
e gentil, que contava histrias para as bonecas e adorava ver o pai desenhando.
Suas necessidades constantes e a simplicidade do seu amor eram o nico
elemento solidamente normal na vida excntrica de Aliena.
         Ainda tinha o seu trabalho, claro. Vinha trabalhando como comerciante a
maior parte de sua vida adulta. Atualmente dzias de homens e mulheres em
diversas aldeias estavam fiando e tecendo para ela em suas casas. Alguns anos
antes eram centenas, mas sentia agora os efeitos da crise como todos os outros, e
no adiantava fabricar mais pano do que era capaz de vender. Mesmo que
houvesse se casado com Jack ainda ia querer ter seu prprio trabalho
independente.
         O prior Philip vivia dizendo que a anulao poderia ser concedida a
qualquer dia, mas Aliena e Jack j estavam suportando aquela vida irritante por
sete longos anos, comendo juntos, criando os filhos e dormindo separados.
         Sentia a tristeza de Jack mais dolorosamente que a prpria. Ela o adorava.
Ningum sabia quanto o amava, exceto talvez a me dele, Ellen, que a tudo
acompanhara.
        Aliena o amava porque ele a trouxera de volta  vida. At Jack ela fora
uma lagarta num casulo - ele a tirara l de dentro e lhe mostrara que era uma
borboleta.
        Teria passado a vida inteira indiferente s alegrias e dores do amor se ele
no houvesse aparecido na sua clareira secreta e lhe contado suas canes de
gesta e a beijado to delicadamente, despertando depois, lenta e gentilmente, o
amor que jazia adormecido no seu corao. Fora paciente e tolerante, apesar de
sua juventude.
        Por causa disso sempre o amaria.
        Ao atravessar a floresta, perguntou-se se por acaso encontraria Ellen.
Eles a viam ocasionalmente, na feira em uma das cidades, e cerca de uma vez por
ano ela se esgueirava para o interior de Kingsbridge e passava a noite com os
netos. Aliena sentia afinidade com Ellen: as duas eram diferentes, mulheres que
no se ajustavam ao molde comum. Entretanto, saiu da floresta sem t-la visto.
        Enquanto percorria as terras plantadas, observava a safra que amadurecia
no campo. Seria uma boa safra, segundo sua estimativa. O vero no fora bom,
pois chovera um pouco e fizera frio. Mas no tinha havido as inundaes e as
pragas responsveis pela perda das trs ltimas colheitas. Aliena ficou satisfeita.
Havia milhares de pessoas vivendo  beira da inanio, e outro mau inverno
mataria a maior parte delas.
        Parou para dar gua aos bois num tanque no meio de uma vila chamada
Monksfield, que era parte da propriedade do conde. Era um lugar razoavelmente
grande, cercado por terras que estavam entre as mais frteis do condado, e tinha
seu prprio padre e uma igreja de pedra. No entanto, somente metade dos
campos que cercavam Monksfieldfora plantada naquele ano. Cobriam-se agora
de trigo dourado, enquanto o resto era s mato verde.
        Dois outros viajantes pararam no reservatrio de gua para saciar a sede
dos cavalos. Aliena observou cautelosamente. As vezes era bom se juntar a outras
pessoas, para proteo mtua; mas tambm podia ser arriscado, para uma
mulher. Aliena descobrira que um homem como o seu carroceiro estava
perfeitamente disposto a fazer o que ela lhe ordenasse quando se encontravam
sozinhos, mas se houvesse outros homens presentes seria bem possvel que se
insubordinasse.
        No entanto, um dos dois viajantes era mulher. Aliena examinou-a mais
detidamente e revisou a primeira idia. No era uma mulher, e sim uma garota.
Reconheceu-a.
        Ela a vira na Catedral de Kingsbridge no domingo de Pentecostes. Era a
condessa Elizabeth, mulher de William Hamleigh.
        Seu aspecto era de quem sofria muito e se sentia acovardada. Com ela
encontrava-se um grosseiro homem de armas, obviamente seu guarda-costas.
Esse poderia ter sido meu destino, pensou Aliena, se tivesse me casado com
William. Graas a Deus me rebelei.
        O homem de armas balanou a cabea cumprimentando o carroceiro e
ignorou Aliena. Ela decidiu no sugerir que viajassem juntos.
        Enquanto descansavam, o cu escureceu e comeou a soprar um vento
forte.
        - Tempestade de vero - disse o carroceiro de Aliena laconicamente.
        -  melhor ficarmos um pouco aqui - disse a jovem condessa para seu
guarda-costas.
        - No podemos - retrucou ele bruscamente. - Ordens do chefe.
        Aliena sentiu-se ultrajada ao ouvir o homem falar com a garota daquele
jeito.
        - No seja tolo! - exclamou ela. - Sua obrigao  proteger a sua senhora!
        O guarda olhou-a espantado.
        - O que voc tem com isso? - disse rudemente.
        - Vai cair uma tempestade, seu idiota - disse Aliena, em sua voz mais
aristocrtica. - No se pode pedir a uma dama que viaje com um tempo desses. O
seu amo o aoitar por sua estupidez. - Virou-se para a condessa Elizabeth. A
garota a fitava ansiosamente. Era visvel sua satisfao por ver algum
enfrentando o truculento homem de armas. Comeou a chover intensamente.
Aliena tomou uma deciso rpida. - Venha comigo - disse para Elizabeth.
        Antes que o homem pudesse fazer qualquer coisa, ela pegou a garota pela
mo e se afastou. A condessa a acompanhou de bom grado, sorrindo como uma
criana quando sai da escola. Aliena achou que o homem de armas poderia segui-
las e lev-la, mas naquele momento houve um relmpago e a chuva se
transformou numa tempestade. Aliena ps-se a correr, puxando Elizabeth, e
assim, juntas, as duas atravessaram o cemitrio e se dirigiram a uma casa de
madeira do lado da igreja.
        A porta estava aberta. Elas entraram, ainda correndo. Aliena presumira
que devia ser a casa do padre, e estava certa. Um homem com ar mal-humorado,
de tnica preta e com uma pequena cruz pendurada ao pescoo, levantou-se.
        Aliena sabia que o dever da hospitalidade era um fardo pesado para
muitos padres, sobretudo naqueles tempos. Antecipando resistncia, disse
firmemente:
        - Meus companheiros e eu precisamos de abrigo.
        - Sejam bem-vindos - disse o padre, por entre os dentes cerrados.
        Era uma casa de dois cmodos, com uma meia-gua ao lado para os
animais. No era muito limpa, apesar de os animais ficarem do lado de fora.
Havia um barril de vinho em cima da mesa. Um cachorrinho latiu agressivamente
para elas quando se sentaram.
        Elizabeth apertou o brao de Aliena.
        - Muito obrigada - disse. Havia lgrimas de gratido nos seus olhos. -
Ranulf me teria feito prosseguir. Ele nunca me ouve.
        - No foi nada - disse Aliena. - Esses grandalhes no fundo so covardes.
- Examinou Elizabeth e percebeu, horrorizada, que a pobre garota parecia
consigo. J era bastante ruim ser mulher de William; mas ser sua segunda escolha
devia ser o inferno na terra.
        Elizabeth apresentou-se.
        - Sou Elizabeth de Shiring. Quem  voc?
        - Meu nome  Aliena. Sou de Kingsbridge. - Aliena conteve a respirao,
sem saber se Elizabeth reconheceria o nome e se lembraria de que se tratava da
mulher que rejeitara William Hamleigh.
        Mas Elizabeth era jovem demais para se lembrar do escndalo, e limitou-
se a dizer:
        - Que nome diferente!
        Uma mulher desmazelada, de rosto comum e braos gordos e nus veio
do quarto dos fundos, com um ar de desafio, e ofereceu um copo de vinho.
Aliena sups que fosse a mulher do padre. Ele provavelmente a chamaria de
governanta, j que o casamento clerical era proibido, em teoria. As mulheres de
padres causavam interminveis problemas. Obrigar o religioso a expulsar sua
mulher era uma crueldade, e geralmente trazia vergonha para a Igreja. E embora
muita gente afirmasse, de um modo geral, que os padres deviam ser castos, a
atitude adotada nesses casos costumava ser de tolerncia, justamente porque as
pessoas conheciam a mulher. E a Igreja fingia no ver ligaes como estas. Aliena
pensou: Seja agradecida, mulher; pelo menos voc est vivendo com o seu
homem.
        O homem de armas e o carroceiro entraram, com o cabelo molhado.
Ranulf parou diante de Elizabeth.
        - No podemos parar aqui - disse ele.
        Para surpresa de Aliena, Elizabeth cedeu na mesma hora.
        - Est bem - disse, levantando-se.
        - Sente-se - disse a outra, puxando-a. Ela parou diante de Ranulf e
sacudiu o dedo na sua cara. - Se eu ouvir sua voz outra vez, chamarei os aldees
para virem em socorro da condessa de Shiring. Se no sabe como tratar sua
senhora, eles sabem muito bem.
        Ela viu Ranulf pesando as possibilidades. Em caso de confronto, ele era
capaz de dar um jeito em Elizabeth e Aliena, no carroceiro e tambm no padre;
porm, estaria encrencado se os aldees acudissem.
        - Talvez a condessa prefira continuar a viagem - acabou por dizer, e
olhou para Elizabeth agressivamente.
        A garota pareceu ficar aterrorizada.
        - Bem - disse Aliena -, senhora condessa, Ranulf humildemente deseja
saber sua vontade.
         Elizabeth olhou para ela.
         - Diga-lhe o que quer - insistiu Aliena encorajadoramente. - A obrigao
dele  fazer a sua vontade.
         A atitude de Aliena deu-lhe coragem. Elizabeth respirou fundo e disse:
         - Descansaremos aqui. V providenciar o que for necessrio para os
cavalos, Ranulf.
         Ele resmungou sua concordncia e saiu.
         - Vai chover o diabo - disse o carroceiro.
         O padre fechou a cara ao ouvir a expresso profana.
         - Tenho certeza de que ser a chuva costumeira - disse, numa voz
afeminada.
         Aliena no pde conter uma risada, e Elizabeth riu tambm. A impresso
que teve foi de que a garota no ria com frequncia.
         O barulho da chuva se transformou num tamborilar ruidoso. Aliena deu
uma olhada pela porta aberta. A igreja ficava a poucas jardas, mas j no podia
ser vista. Ia ser um temporal e tanto.
         - Voc deixou a carroa coberta? - perguntou Aliena ao carroceiro.
         Ele fez que sim.
         - Com os animais.
            - timo. No quero meu fio emaranhado pela gua.
         Ranulf voltou, encharcado.
         Houve um claro de relmpago seguido por um demorado estrondo de
trovo.
         - Isto no far bem nenhum  safra - disse o padre lugubremente.
         Ele tinha razo, pensou Aliena. O que precisavam era de trs semanas de
sol quente.
         Seguiu-se outro relmpago e um trovo ainda mais demorado, e uma
rajada de vento sacudiu a casa de madeira. Aliena sentiu gua fria na cabea e
olhou para cima - era uma goteira no telhado de palha. Mudou de lugar para sair
de baixo dela. A chuva entrava pela porta, mas ningum parecia querer fech-la;
Aliena preferia contemplar o temporal, e, ao que parece, os outros se sentiam do
mesmo modo.
         Olhou para Elizabeth. A garota estava lvida. Aliena passou um brao
pelos seus ombros. Ela estava trmula, embora no estivesse fazendo frio. Aliena
abraou-a.
         - Estou amedrontada - sussurrou Elizabeth.
         -  s uma tempestade - retrucou a outra.
         Escureceu muito do lado de fora. Aliena achou que devia estar quase na
hora da ceia; percebeu ento que ainda no almoara. S era meio-dia. Levantou-
se e foi at a porta; o cu estava cinzento. Nunca vira um tempo daqueles no
vero. O vento soprava com fora. Um relmpago iluminou numerosos objetos
soltos ao passar pela porta: um cobertor, um arbusto, uma tigela de madeira, um
barril vazio.
         Aliena voltou, com a expresso sombria. Estava ficando preocupada. A
casa sacudiu de novo. O mastro central que sustentava a cumeeira estava
vibrando. Se uma das casas mais bem construdas na aldeia no era segura,
refletiu, algumas das mais pobres deviam estar em perigo de ruir. Olhou para o
padre.
         - Se piorar vamos ter que convocar os aldees para que se abriguem na
igreja - disse.
         - No vou sair nessa chuva - respondeu o padre, com uma risadinha.
         Aliena o fitou incredulamente.
         - Eles so o seu rebanho - disse. - Voc  o seu pastor.
         O padre a encarou insolentemente.
         - Obedeo ao bispo de Kingsbridge e no a voc, e no vou bancar o
idiota s porque quer.
         - Pelo menos traga os bois do arado - insistiu Aliena. Os bens mais
preciosos de uma aldeia eram os oito bois que puxavam o arado. Sem eles os
camponeses no podiam cultivar a terra. Nenhum campons sozinho podia ter
uma junta de bois - tinha que ser propriedade comum. O padre certamente
saberia dar valor aos animais, j que sua prosperidade dependia deles.
         - Ns no temos bois para o arado - disse o padre.
         Aliena ficou estupefata.
         - Por qu?
         - Tivemos que vender quatro deles para pagar o arrendamento da terra;
depois matamos os outros para termos carne no inverno.
         Aquilo explicava os campos plantados pela metade, pensou Aliena. S
tinham conseguido cultivar o solo mais leve, usando cavalos ou fora humana
para puxar o arado.
         A histria a enfureceu. Alm de perverso, William demonstrava ser
burro, fazendo aquela gente vender seus bois, pois assim eles teriam dificuldade
em pagar suas dvidas naquele ano tambm, muito embora o tempo houvesse
sido bom. Teve ganas de estrangular William.
         Outra violenta lufada de vento sacudiu a casa de estrutura de madeira. De
repente, um lado do telhado comeou a se deslocar; depois se levantou algumas
polegadas, separando-se da parede, e pelo buraco Aliena viu o cu preto e os
raios se sucedendo. Ficou de p de um pulo quando o vento parou e o telhado
caiu estrepitosamente sobre seus suportes. Aquilo estava ficando perigoso.
Gritou para o padre, fazendo-se ouvir, apesar da tempestade:
         - Pelo menos v abrir a porta da igreja!
         Ele ficou ressentido, mas obedeceu. Pegou uma chave na arca, enfiou
uma capa, saiu e desapareceu na chuva. Aliena comeou a organizar os outros.
        - Crter, leve minha carroa e os bois para dentro da igreja. Ranulf, pegue
os cavalos. Elizabeth, venha comigo.
        Puseram a capa e saram. Era difcil caminhar em linha reta por causa do
vento, e elas se deram as mos para aumentar sua estabilidade. Foi com esforo
que atravessaram o cemitrio. A chuva virou granizo, e grandes pedras de gelo
batiam nas lpides. Num canto Aliena viu uma macieira to nua quanto no
inverno; suas folhas e frutos haviam sido arrancados dos galhos pelo vento. No
haveria muitas mas no condado naquele inverno, pensou.
        Um momento depois atingiram a igreja e entraram. Fez-se um silncio
to sbito que pareceu-lhes ter perdido a audio. O vento ainda uivava, a chuva
tamborilava no telhado e a toda hora soava um trovo, mas tudo desapareceu de
uma s vez. Alguns dos aldees j estavam ali, as capas encharcadas. Tinham
trazido consigo seus objetos de valor: as galinhas dentro de sacos, os porcos
amarrados, as vacas em tirantes. Estava escuro dentro da igreja, a cena era
iluminada pelos relmpagos.
        Aps alguns momentos, o carroceiro trouxe o carro de bois de Aliena, e
Ranulf o seguiu com os cavalos.
        - Vamos pr os animais no lado oeste e as pessoas no leste - disse Aliena
ao padre -, antes que a igreja comece a parecer um estbulo. - Todos agora
pareciam ter aceitado que Aliena assumisse o comando, e ele assentiu,
balanando a cabea. Os dois se afastaram, o padre falando com os homens e
Aliena com as mulheres. Gradualmente as pessoas se separaram dos animais. As
mulheres levaram as crianas para o pequeno coro, e os homens amarraram os
animais nas colunas da nave. Os cavalos estavam assustados, girando os olhos,
levantando e dobrando as patas dianteiras e baixando a garupa. Todas as vacas se
deitaram. Os aldees dispuseram-se em grupos familiares e comearam a servir
comida e bebida. Tinham vindo preparados para uma longa estada.
        A tempestade era to violenta que Aliena pensara ser passageira; porm,
ficou ainda pior. Ela foi at uma janela. Claro que as janelas no eram de vidro,
mas de linho fino e translcido, agora esfrangalhado nas molduras. Aliena
levantou o corpo at o peitoril, mas s conseguiu ver chuva.
        O vento ficou mais forte, soprando ruidosamente em torno das paredes
da igreja, e ela comeou a se perguntar se at mesmo aquela construo seria
segura. Discretamente, deu uma volta. Passara bastante tempo com Jack para
saber reconhecer a diferena entre um bom e um mau trabalho de cantaria, e
sentiu-se aliviada ao ver que ali tudo era bem-feito. No havia rachaduras. O
prdio no era de cascalho, e sim de blocos de pedras cortadas, e parecia slido
como uma montanha.
        A governanta do padre acendeu uma vela, e foi nesse momento que
Aliena percebeu que a noite caa l fora. O dia fora to escuro que a diferena era
pouca. As crianas se cansaram de correr para cima e para baixo, embrulharam-se
nas capas e foram dormir. As galinhas enfiaram a cabea debaixo da asa.
         Elizabeth e Aliena sentaram-se lado a lado, com as costas apoiadas na
parede.
         Aliena se consumia de curiosidade a respeito daquela pobre garota que
assumira o papel de mulher de William, o papel que ela prpria recusara h
dezessete anos.
         - Conheci William quando era garota - disse, incapaz de conter-se. -
Como ele  agora?
         - Eu o detesto - disse Elizabeth arrebatadamente. Aliena sentiu profunda
comiserao por ela.
         - Como foi que voc o conheceu? - quis saber a garota. Aliena deu-se
conta de que se denunciara.
         - Para ser sincera, quando eu era mais ou menos da sua idade, esperavam
que me casasse com ele.
         - No! E como conseguiu no se casar?
         - Recusei-me a faz-lo, e meu pai me apoiou. Mas houve uma confuso
terrvel... Causei um grande derramamento de sangue. No entanto, tudo agora faz
parte do passado.
         - Voc o recusou! - Elizabeth estava emocionada. - Voc  to corajosa!
Queria ser como voc... - De repente ela pareceu deprimida de novo. - Mas no
consigo me fazer respeitar nem pelos criados.
         - Mas poderia, sabe?
         - Como? Eles nem tomam conhecimento de minha existncia, porque s
tenho catorze anos.
         Aliena considerou o assunto com cuidado.
         - Para comear - respondeu -, voc tem que se tornar a intrprete dos
desejos do seu marido. De manh, pergunte-lhe o que gostaria de comer naquele
dia, quem gostaria de ver, que cavalo gostaria de montar, qualquer coisa em que
possa pensar. Depois procure o cozinheiro, o mordomo, o cavalario, e lhes d
as ordens do conde. Seu marido ficar agradecido a voc, e furioso com quem
quer que seja que a ignore. Assim as pessoas se acostumaro a fazer o que disser.
Anote depois quem lhe obedecer de boa vontade e quem o fizer relutantemente.
Assegure-se de que as pessoas que a ajudem sejam favorecidas - d-lhes os
trabalhos que preferirem -, e faa com que os que no forem prestativos recebam
todo o trabalho sujo. Assim todos percebero que vale a pena satisfazer a
condessa. E tambm a amaro muito mais que a William, que no  mesmo fcil
de ser amado. Um dia voc acabar tendo o seu prprio poder, como acontece
com a maioria das condessas.
         - Voc faz parecer to fcil!... - disse Elizabeth melancolicamente.
         - No, no  fcil, mas se voc for paciente e no se desencorajar com
facilidade, ser capaz de conseguir.
         - Acho que sim - disse ela com determinao. - Realmente acho que
posso.
         Ao cabo de algum tempo as duas comearam a cochilar. De vez em
quando, o vento soprava com mais fora e acordava Aliena. Olhando em torno, 
luz inconstante do lampio, viu que a maioria dos adultos estavam fazendo a
mesma coisa, sentados, cochilando um pouco, acordando de repente.
         Deve ter sido por volta da meia-noite que acordou com um sobressalto e
percebeu que dormira por uma hora ou mais daquela vez. Quase todo mundo 
sua volta dormia a sono solto. Mudou de posio, deitando-se, e embrulhou-se
na capa. A tempestade no cedera, mas a necessidade de sono das pessoas
sobrepujara sua ansiedade. O barulho da chuva de encontro s paredes da igreja
lembrava o barulho de ondas quebrando numa praia, e ao invs de conserv-la
acordada fez com que dormisse.
         Mais uma vez acordou com um sobressalto. Quis saber o que a
perturbara. Prestou ateno: silncio. A tempestade cessara. Uma dbil luz
acinzentada se infiltrava atravs das janelas. Todos os aldees dormiam
profundamente.
         Aliena se levantou. O movimento que fez perturbou Elizabeth, que
acordou instantaneamente.
         Ambas tiveram a mesma idia. Dirigiram-se  porta da igreja, abriram-na
e saram.
         A chuva cessara, e o vento no passava de uma brisa. O sol ainda no
nascera, mas o cu estava cinza-perolado. Aliena e Elizabeth olharam para um
lado e para o outro,  luz clara e suave da madrugada.
         A aldeia desaparecera.
         Com exceo da igreja, no restara uma nica construo de p. Toda a
rea fora arrasada. Umas poucas vigas mais grossas estavam encostadas  parede
da igreja, mas a no ser por isso, apenas as pedras das lareiras pontilhavam o mar
de lama, mostrando onde antes houvera casas. Na periferia do que fora a vila,
havia cinco ou seis rvores adultas, carvalhos e castanheiros, ainda de p, embora
todas parecessem ter perdido diversos galhos. No havia sobrado nenhuma
rvore menor.
         Atnitas com a extenso da runa, Aliena e Elizabeth caminharam ao
longo do que fora a rua. O cho estava juncado de pedaos de madeira e pssaros
mortos. Elas chegaram ao primeiro dos campos de trigo. A impresso que dava
era de que um rebanho enorme estivera preso ali a noite toda. Os pendes dos
trigos que vinham amadurecendo tinham sido arrancados e levados embora pela
enxurrada. A terra estava toda revolvida e encharcada.
         Aliena ficou horrorizada.
         - Meu Deus! - murmurou. - O que  que essa gente vai comer?
        Elas atravessaram o campo. Os danos eram os mesmos por toda parte.
Galgaram uma colina baixa e examinaram a regio l de cima. Em todas as
direes que olhavam viam colheitas arruinadas, carneiros mortos, rvores cadas,
campinas alagadas e casas desmoronadas. A destruio era assustadora, e causou
a Aliena uma terrvel sensao de tragdia. Parecia, pensou, que a mo de Deus
descera sobre a Inglaterra e se abatera sobre ela, destruindo tudo o que o homem
construra, exceto as igrejas.
        A devastao chocou tambm Elizabeth.
        -  terrvel! - disse. - No posso acreditar. No sobrou nada!
        Aliena assentiu tristemente.
        - Nada - repetiu. - No haver colheita este ano.
        - O que o povo far?
        - No sei. - Sentindo um misto de compaixo e medo, Aliena
acrescentou: - Vai ser um vero sangrento.

        Uma manh, quatro semanas aps a grande tempestade, Martha pediu
mais dinheiro a Jack. Jack ficou surpreso. J dera os seis pence da semana para as
despesas da casa, e sabia que Aliena dava o mesmo. com esse dinheiro Martha
tinha que alimentar quatro adultos e duas crianas, e suprir duas casas com lenha
e palha; porm, havia um bom nmero de famlias grandes em Kingsbridge que
dispunham apenas de seis pence por semana para tudo: roupa, comida e aluguel
tambm. Perguntou porque precisava de mais.
        Martha ficou embaraada.
        - Todos os preos subiram. O padeiro quer um penny por um po de
quatro libras, e...
        - Um penny! Por um po de quatro libras? - Jack sentiu-se ultrajado. -
Deveramos construir um forno e assar nossos pes.
        - Bem, de vez em quando eu preparo um po aqui em casa.
        -  mesmo. - Jack se lembrou de que na ltima semana tinham comido
po feito em casa dois ou trs dias.
        - Mas o preo da farinha tambm subiu, de modo que no
economizamos muito.
        - Deveramos ento comprar o trigo e mo-lo ns mesmos.
        - No  permitido. Teramos que usar o moinho do priorado. De
qualquer forma, o trigo tambm est caro.
        - Naturalmente. - Jack reconheceu que estava sendo tolo. O po estava
caro porque a farinha estava cara, e a farinha estava cara porque o trigo estava
caro, e o trigo estava caro porque a tempestade arruinara a safra, e no havia
sada. Viu que Martha parecia transtornada. Ela sempre ficava muito perturbada
ao achar que ele no estava satisfeito. Jack sorriu para demonstrar que tudo ia
bem e bateu carinhosamente no seu ombro.
         - A culpa no  sua - disse.
         - Voc parece to aborrecido!
         - No com voc. - Ele se sentiu culpado. Sabia que Martha preferiria
cortar a mo a engan-lo. No entendia realmente por que era to devotada a ele.
Se fosse por amor, certamente j teria se cansado, pois ela e o resto do mundo
sabiam que Aliena era a paixo da sua vida. Uma vez chegara a pensar em mand-
la embora, para for-la a sair da rotina: desse modo talvez se apaixonasse por
um homem adequado. Mas no ntimo sabia que iria ser uma atitude intil e que
s iria servir para torn-la desesperadamente infeliz. Por isso, deixou tudo como
estava.
         Enfiou a mo dentro da tnica para pegar a bolsa e tirou trs pennies de
prata.
         -  melhor que voc disponha de doze pence por semana. Veja se
consegue resolver o problema com esse dinheiro - disse. Parecia muito. Seu
salrio era de apenas vinte e quatro pennies por semana, embora recebesse
tambm benefcios eventuais, velas, mantos e botas.
         Engoliu o resto de um caneco de cerveja e saiu. Fazia um frio
excepcional para o incio do outono. O tempo ainda estava estranho. Percorreu a
rua com passos rpidos e entrou no priorado. Ainda era madrugada e somente
um punhado de artesos se encontrava ali. Percorreu a nave, olhando as
fundaes. Estavam quase prontas, o que era uma sorte, pois o trabalho com
argamassa provavelmente teria que ser interrompido mais cedo naquele ano por
causa do tempo frio.
         Levantou os olhos para os novos transeptos. O prazer que sentia com
sua prpria criao era frustrado pelas rachaduras que tinham reaparecido no dia
seguinte ao da grande tempestade. Jack ficou terrivelmente desapontado. Claro
que fora uma tempestade fenomenal, mas sua igreja fora projetada para
sobreviver a uma centena de tempestades daquelas. Sacudiu a cabea, perplexo, e
galgou a escada para a galeria. Gostaria de conversar com algum que tivesse
construdo uma igreja similar, mas no havia ningum na Inglaterra, e mesmo na
Frana no tinham ido to alto.
         Num impulso, no foi para a sala onde desenhava no cho; em vez disso,
continuou subindo at o telhado. O chumbo fora todo colocado, e o pinculo
que estivera bloqueando a vazo da gua da chuva tinha agora uma generosa
passagem correndo pela sua base. Ventava muito ali no telhado, e ele precisava
segurar-se em alguma coisa sempre que se aproximava da beirada: no seria o
primeiro construtor a morrer, derrubado do telhado por uma lufada de vento. O
vento sempre parecia mais forte l em cima do que no cho. Na verdade parecia
aumentar desproporcionalmente  medida que se subia...
         Jack ficou parado, o olhar fixo no espao. O vento aumentava
desproporcionalmente  medida que se subia... A estava a resposta ao seu
quebra-cabea. No era o peso da abbada que estava causando as rachaduras, e
sim sua altura. Construra a igreja forte o bastante para sustentar o peso, estava
seguro; mas no pensara no vento. Aquelas paredes to altas eram
constantemente fustigadas pelo vento, cuja fora era suficiente para rach-las. De
p em cima do telhado, sentindo a fora do vento, podia imaginar o efeito que
causava na estrutura to tensamente equilibrada. Conhecia o edifcio to bem que
quase podia sentir a resistncia do material, como se as paredes fizessem parte do
seu corpo. O vento empurrava a igreja de lado, tal como fazia com ele; e porque
a igreja no podia ceder, rachava.
         Tinha certeza de que encontrara a explicao; mas o que ia fazer?
Precisava reforar o clerestrio de modo que ele aguentasse o vento. Mas como?
Construir volumosos arcobotantes de encontro s paredes destruiria o
assombroso efeito de leveza e graa que conseguira com tanto xito.
         Mas se isso era necessrio para que o prdio se conservasse de p, teria
que faz-lo.
         Desceu a escada de novo. No se sentia rnais animado, embora tivesse
finalmente compreendido o problema, pois parecia que a soluo destruiria seu
sonho. Talvez eu tenha sido arrogante, pensou. Estava to seguro de que era
capaz de construir a catedral mais bonita do mundo! Por que imaginei que podia
me sair melhor do que qualquer outro construtor? O que me fez pensar que eu
fosse especial? Eu devia ter copiado o projeto de outro mestre e ficado contente.
         Philip esperava por ele na sala de desenho. Havia uma expresso
preocupada na fisionomia do prior, e o cabelo grisalho em torno da tonsura
estava desarrumado. Tinha-se a impresso de que passara a noite toda acordado.
         - Temos que reduzir nossos gastos - disse, sem prembulos. -
Simplesmente no dispomos de dinheiro para continuar a obra no ritmo atual.
         Jack receara aquilo. O furaco destrura a colheita de quase todo o sul da
Inglaterra: certamente teria consequncias nas finanas do priorado. Cortes de
despesas constituam um assunto que o deixava ansioso. No ntimo achava que
se a construo fosse tocada muito devagar ele poderia no viver para ver sua
catedral pronta.
         Mas no deixou o medo transparecer.
         - O inverno vem a - disse, em tom casual, - O trabalho sempre 
reduzido no inverno, de qualquer modo. E o inverno vai chegar mais cedo este
ano.
         - No o bastante - disse Philip, melanclico. - Quero cortar nossas
despesas pela metade, imediatamente.
         - Pela metade! - Parecia impossvel.
         - A dispensa de inverno comea hoje.
         Aquilo era pior do que Jack antecipara. Os trabalhadores de vero
normalmente iam embora nos primeiros dias de dezembro. Passavam os meses
de inverno construindo casas de madeira ou fazendo arados e carroas, para suas
famlias ou para ganhar dinheiro. Naquele ano suas famlias no ficariam
satisfeitas ao v-los.
         - Sabe que os est mandando para casas onde as pessoas j esto
passando fome?
         Philip limitou-se a encar-lo, furioso.
         - Claro que sabe - disse Jack. - Desculpe ter perguntado.
         - Se eu no fizer isso agora - disse Philip enfaticamente -, num sbado, no
meio do inverno, toda a fora de trabalho entrar em fila para receber seu
pagamento e mostrarei uma arca vazia.
         Jack deu de ombros.
         - No h argumento contra isso.
         - E no  tudo - advertiu Philip. - De agora em diante no haver mais
contrataes, nem mesmo para substituir gente que saia.
         - H meses no fazemos contrataes.
         - Voc contratou Alfred.
         - Aquilo foi diferente - disse Jack, embaraado. - De qualquer modo,
nada de contrataes.
         - Nem de promoes.
         Jack aquiesceu. De vez em quando um aprendiz ou servente pedia para
ser promovido a pedreiro ou a cortador de pedras. Se os outros artesos
julgassem sua competncia satisfatria, o pedido seria concedido e o priorado
teria que lhe pagar um salrio mais elevado.
         - As promoes - lembrou Jack - so prerrogativa da associao de
pedreiros.
         - No estou tentando alterar isso - disse Philip. - S estou pedindo que os
pedreiros adiem todas as promoes at que a crise passe.
         - Colocarei o seu pedido para eles - disse Jack, evitando comprometer-se.
Tinha a impresso de que aquilo poderia causar problemas.
         Philip continuou a pression-lo.
         - De agora em diante no haver trabalho nos dias santos. Havia um
nmero excessivo de dias santos. Em princpio eram feriados, mas se os
trabalhadores eram pagos ou no nos feriados era uma questo de negociar-se.
Em Kingsbridge a regra era que, quando dois ou mais dias santos cassem na
mesma semana, o primeiro seria um feriado pago e o segundo, um dia de folga
opcional no pago. A maioria dos homens preferia trabalhar no segundo. Agora,
contudo, no teriam mais essa opo. O segundo dia santo passava a ser um
feriado obrigatrio sem direito a pagamento.
         Jack estava se sentindo pouco  vontade ante a perspectiva de explicar
aquelas mudanas ao pessoal.
         - Essas determinaes seriam mais bem aceitas se eu pudesse apresent-
las como assunto para discusso, em vez de algo j decidido.
         O prior sacudiu a cabea.
         - Ento eles pensariam que h abertura para negociaes e que algumas
propostas poderiam ser atenuadas. Iriam sugerir que se trabalhasse na metade
dos feriados e que fosse permitido um nmero limitado de promoes.
         Ele estava certo, claro.
         - Mas no seria razovel? - perguntou Jack.
         - Claro que  razovel - respondeu Philip, irritado. - S que no h
margem para ajustamentos. J estou preocupado, com medo de que essas
medidas no sejam suficientes; no posso fazer concesso alguma.
         - Est bem - concordou o mestre construtor. Philip estava claramente
disposto a no transigir naquele instante. - H mais alguma coisa? - perguntou
cautelosamente.
         - Sim. Pare de comprar material. Acabe com seu estoque de pedra, ferro e
madeira.
         - A madeira  de graa! - protestou Jack.
         - Mas precisamos pagar o carreto at aqui.
         -  verdade. Est bem. - Jack foi at a janela e deu uma olhada nas pedras
e nos troncos de rvores estocados no adro. Tratava-se de um ato reflexo: ele j
sabia quanto tinha armazenado.
         - Isso no ser problema - disse, aps um instante de reflexo. - Com a
fora de trabalho reduzida temos material at o prximo vero.
         Philip suspirou, cansado.
         - No h garantia de que empregaremos trabalhadores no prximo vero
- disse. - Depende do preo da l.  melhor avis-los.
         Jack assentiu.
         - A situao est mesmo ruim, no ?
         - Pior do que jamais vi - disse Philip. - O que este pas precisa  de trs
anos de bom tempo. E de um novo rei.
         - Amm - concordou Jack.
         Philip retornou  sua casa. O mestre construtor passou a manh
pensando em como enfrentar as mudanas. Havia dois modos de se construir
uma nave: um intercolnio de cada vez, comeando no cruzeiro e trabalhando na
direo oeste; ou camada por camada, assentando a base de toda a nave primeiro
e depois subindo. O segundo processo era mais rpido, mas requeria mais
pedreiros. Era o mtodo que Jack tencionara usar. Agora reconsiderou. Construir
um intercolnio de cada vez era mais adequado a uma fora de trabalho reduzida.
Tinha outra vantagem, tambm: quaisquer modificaes que introduzisse no
projeto para levar em conta a resistncia do vento poderiam ser testadas aos
poucos.
         Jack ponderou tambm sobre os efeitos a longo prazo da crise financeira.
O trabalho poderia ter seu ritmo reduzido cada vez mais, ao longo dos anos.
Melancolicamente, viu-se ficando velho, fraco e de cabelo branco, sem
concretizar a ambio da sua vida, acabando por ser enterrado no cemitrio do
priorado,  sombra de uma catedral no terminada.
         Quando o sino do meio-dia soou ele foi at o galpo dos pedreiros. Os
homens estavam sentados para comer seu queijo com cerveja, e ele notou pela
primeira vez que muitos no tinham po. Pediu aos pedreiros que normalmente
iam comer em casa que ficassem por um momento.
         - O priorado est ficando sem dinheiro - disse.
         - Nunca vi um priorado que no ficasse sem dinheiro um dia - disse um
dos mais velhos.
         Jack olhou para ele. Era chamado de Edward Dois Narizes porque tinha
no rosto uma verruga quase to grande quanto o nariz. Era um bom cinzelador,
com um talento especial para curvas exatas, e Jack sempre o usava para cilindros
e fustes.
         - Vocs tm que admitir - disse o mestre construtor - que este lugar
administra seu dinheiro melhor do que a maioria. Mas o prior Philip no pode
impedir que haja temporais e safras ruins, e agora ele precisa reduzir seus gastos.
Eu lhes falarei a respeito disso enquanto vocs comem. Em primeiro lugar, no
vamos mais comprar suprimentos de pedra ou madeira.
         Os demais artfices vieram de seus galpes para escutar.
         - A madeira que temos no vai durar este inverno - disse Peter, um dos
velhos carpinteiros.
         - Vai durar, sim - disse Jack. - Construiremos mais devagar, porque
teremos menos artfices. A dispensa de inverno comea hoje.
         Ele viu na mesma hora que dera o aviso erradamente. Houve protestos
de todos os lados, com vrios homens falando ao mesmo tempo. Eu deveria ter
dado a notcia aos poucos, pensou. Mas no tinha experincia com aquele tipo de
coisa. J era mestre h sete anos, mas nunca enfrentara uma crise financeira.
         A voz que se fez ouvir em primeiro lugar foi de Pierre Paris, um dos
pedreiros que tinham vindo de Saint-Denis. Aps seis anos em Kingsbridge o
ingls que falava ainda no era perfeito, e a raiva acentuou mais o seu sotaque,
porm ele no se desencorajou.
         - Voc no pode dispensar os homens numa tera-feira - disse.
         - Isso mesmo - apoiou Jack Ferreiro. - Voc tem que lhes dar at o fim da
semana, no mnimo.
         Alfred concordou vivamente.
         - Lembro quando meu pai estava construindo uma casa para o conde de
Shiring, e Will Hamleigh veio e demitiu todo mundo. Meu pai lhe disse para
pagar a cada um dos homens o salrio de uma semana e segurou a cabea do seu
cavalo at que ele deu o dinheiro.
         Obrigado por nada, Alfred, pensou Jack.
         -  bom que ouam o resto - prosseguiu obstinadamente. - De agora em
diante, no h trabalho nos dias santos nem promoes.
         Aquilo os enfureceu mais ainda.
         - Inaceitvel - disse algum.
         - Inaceitvel, inaceitvel - repetiram diversos outros.
         Jack se enfureceu.
         - De que esto falando? Se o priorado no tem dinheiro, no vo ser
pagos. De que adianta ficar entoando "Inaceitvel", "Inaceitvel", como uma
classe de garotos aprendendo latim?
         Edward Dois Narizes manifestou-se novamente.
         - No somos uma classe de garotos e sim uma associao de pedreiros -
disse. - A associao tem o direito de promoo, e ningum pode tir-lo.
         - E se no houver dinheiro para o pagamento do acrscimo
correspondente  promoo? - retrucou Jack, irritado.
         - No acredito nisso - disse um dos pedreiros mais jovens. Era Dan
Bristol, um dos trabalhadores de vero. No era habilidoso no corte das pedras,
mas sabia assent-las com muita preciso e ligeireza.
         - Como voc pode dizer que no acredita nisso? - perguntou-lhe Jack. -
O que sabe a respeito das finanas do priorado?
         - Sei o que vejo - disse Dan. - Os monges esto passando fome? No. H
velas na igreja? Sim. H vinho nos depsitos? Sim. O prior est descalo? No.
Ento h dinheiro. Ele s no quer nos dar.
         Diversas pessoas concordaram em voz alta. Na verdade, ele estava
enganado pelo menos num item, que era o do vinho; porm, ningum acreditaria
em Jack nesse momento - ele se tornara o representante do priorado. Aquilo no
era justo: no podia ser o responsvel pelas decises de Philip.
         - Olhem - disse -, s estou repetindo o que o prior me disse. No garanto
que seja verdade. Mas se ele nos diz que no h dinheiro, e no acreditamos, o
que podemos fazer?
         - Podemos todos parar de trabalhar - disse Dan. - Imediatamente.
         - Isso mesmo - disse outra voz.
         Aquilo estava ficando fora de controle, constatou Jack, em pnico.
Procurou desesperadamente algo para dizer que esfriasse os nimos.
         - Vamos voltar para o trabalho agora - disse -, e esta tarde tentarei
persuadir o prior Philip a moderar seus planos.
         - No acho que v dar certo - disse Dan.
         Jack no podia acreditar que aquilo estivesse acontecendo. Antecipara
muitas ameaas  construo da igreja dos seus sonhos, mas no previra que os
artfices fossem sabot-la.
         - Por que no deveramos trabalhar? - indagou, incrdulo. - De que
adiantaria?
         - Do jeito que as coisas esto, a metade de ns no tem certeza sequer de
receber seu pagamento at o fim da semana.
         - O que  contra todo o costume e praxe - disse Pierre Paris. A expresso
"costume e praxe" era muito usada nos tribunais.
         - Pelo menos trabalhem enquanto tento convencer Philip - disse Jack,
desesperado.
         - Se trabalharmos - indagou Edward Dois Narizes -, voc pode garantir
que todos sero pagos a semana inteira?
         Jack sabia que no podia oferecer aquela garantia, com Philip no seu atual
estado de esprito. Mas passou pela sua cabea dizer sim de qualquer maneira, e
pagar com seu prprio dinheiro, se necessrio; contudo, percebeu imediatamente
que nem todas as suas economias seriam suficientes para cobrir uma semana de
salrios.
         - Farei o melhor que puder para persuadi-lo, e acho que ele concordar.
         - No  suficientemente bom para mim - disse Dan.
         - Nem para mim - disse Pierre.
         - Sem garantia, sem trabalho - declarou Dan.
         Para o desalento de Jack, todos pensavam da mesma forma. Percebeu
que, se continuasse a se opor, perderia o resto de autoridade que lhe restava.
         - A associao deve agir como um homem s - disse, repetindo uma
forma de falar muito usada. - Estamos todos a favor de parar com o trabalho?
         Houve um coro de assentimento.
         - Ento, que assim seja - disse Jack melancolicamente. - Vou falar com o
prior.

        O bispo Waleran entrou em Shiring seguido por um pequeno exrcito de
criados. O conde William esperava por ele na entrada da igreja que dava para a
praa do mercado.
        Hamleigh franziu a testa, intrigado: esperara um encontro para decidir
sobre um canteiro de obras, no uma visita formal. O que estaria querendo agora
aquele tortuoso bispo?
        Com Waleran estava um estranho, montado num animal castrado. Alto e
esguio, tinha sobrancelhas negras e grossas e nariz grande, aquilino. A expresso
escarninha do seu rosto parecia permanente. Cavalgava ao lado de Waleran,
como se fossem iguais, mas no usava hbito de bispo.
        Quando desmontaram, Waleran apresentou o estranho.
        - Conde William, este  Peter de Wareham, um arcediago a servio do
arcebispo de Canterbury.
        Nenhuma explicao do que esse Peter est fazendo aqui, pensou
William. Waleran trama alguma coisa. O arcediago fez uma reverncia.
         - O seu bispo me falou sobre sua generosidade para com a Santa Madre
Igreja, lorde William.
         Antes que William pudesse responder, Waleran apontou a igreja
paroquial.
         - Aquele prdio ser derrubado a fim de dar lugar  nova igreja, arcediago
- disse ele.
         - Voc j designou um mestre pedreiro? - perguntou Peter.
         William perguntou-se por que um arcediago de Canterbury estaria to
interessado na igreja paroquial de Shiring, mas achou que ele talvez estivesse
apenas sendo polido.
         - No, ainda no encontrei nenhum - disse Waleran. - H muitos
construtores procurando trabalho, mas no consigo encontrar ningum de Paris.
Parece que o mundo inteiro deseja igrejas como as de Saint-Denis, e os pedreiros
que conhecem o estilo esto sob intensa demanda.
         - Isso pode ser importante - disse Peter.
         - H um construtor que talvez seja capaz de ajudar; ele est esperando
para nos ver mais tarde.
         Mais uma vez William ficou um pouco intrigado. Por que Peter achava
importante construir no estilo de Saint-Denis?
         - A nova igreja ser muito maior,  claro. Vai se projetar muito mais para
a praa.
         William no gostou do ar de proprietrio que Waleran estava assumindo.
         - No posso ter a igreja incrustada na praa do mercado - interrompeu
ele.
         Waleran pareceu ficar irritado, como se o conde tivesse falado fora de
hora.
         - E por que no?
         - Cada polegada da praa faz dinheiro nos dias de mercado.
         Waleran estava disposto a discutir, mas Peter disse, com um sorriso:
         - No podemos bloquear a fonte do dinheiro!
         - Isso mesmo - disse William. Era ele quem arcaria com os custos da
construo da igreja. Por felicidade, a quarta m colheita fizera pouca diferena
para a sua renda. Os camponeses mais humildes pagaram em espcie, e muitos
deles tinham dado a William seu saco de trigo e um par de gansos, muito embora
estivessem vivendo de sopa de bolota de carvalho. Alm disso, o saco de trigo
valia dez vezes mais que cinco anos antes, e o aumento de preo mais do que
compensava os rendeiros que no haviam pago e os servos que tinham morrido
de fome. Ele ainda tinha recursos para financiar a nova obra.
         Contornaram a igreja. Na parte de trs havia um conjunto de casas que
gerava uma renda mnima.
         - Podemos avanar sobre este lado - disse William -, derrubando todas
essas casas.
          - Mas so em sua maioria residncias clericais - objetou Waleran.
          - Encontraremos outras casas para os religiosos.
          Embora Waleran parecesse ter ficado aborrecido, nada mais disse a
respeito disso.
          No lado norte da igreja um homem de ombros largos e de cerca de trinta
anos de idade fez uma reverncia a eles. Pelo traje, William achou que fosse um
artfice.
          O arcediago Baldwin, o colega mais ntimo do bispo, disse:
          - Este  o homem de quem lhe falei, milorde bispo. Seu nome  Alfred de
Kingsbridge.
           primeira vista no era um homem muito simptico: parecia mais um
tipo bovino, grande, forte e burro. Contudo, examinando-se mais atentamente,
percebia-se um ar de esperteza na sua cara, fazendo pensar num indivduo
astucioso ou dissimulado.
          - Alfred  o filho de Tom Construtor, o primeiro mestre de Kingsbridge -
disse o arcediago Baldwin. - Ele prprio foi mestre por algum tempo, at que o
irmo usurpou seu lugar.
          O filho de Tom Construtor. O homem que se casara com Aliena,
lembrou William. Mas que nunca consumara o casamento.
          Olhou-o com agudo interesse. Nunca teria pensado que aquele homem
fosse impotente. Parecia saudvel e normal. Mas Aliena podia provocar estranhos
efeitos num homem.
          - Voc trabalhou em Paris, e aprendeu o estilo de SaintDenis? - estava
perguntando o arcediago Peter.
          - No...
          - Mas precisamos de uma igreja construda no novo estilo.
          - Estou trabalhando atualmente em Kingsbridge, onde meu irmo  o
mestre. Ele trouxe o novo estilo de Paris, e o aprendi com ele.
          William perguntou-se como Waleran teria conseguido subornar Alfred
sem despertar suspeitas; depois se lembrou de que o subprior de Kingsbridge,
Remigius, era homem de Waleran. Remigius deveria ter feito a abordagem inicial..
          Lembrou-se de algo mais a respeito de Kingsbridge.
          - Mas o seu telhado desmoronou - disse a Alfred.
          - A culpa no foi minha - retrucou o filho de Tom. - O prior Philip
insistiu numa mudana do projeto.
          - Conheo Philip - disse Peter, e havia veneno na sua voz. - Um homem
teimoso e arrogante.
          - Como voc o conhece? - perguntou Hamleigh.
          - H muitos anos eu era monge no Mosteiro de St.-Johnin-the-Forest,
quando Philip era o encarregado l - disse Peter, com amargura. - Critiquei sua
administrao negligente e ele me nomeou esmoler para me tirar do caminho. -
O ressentimento de Peter ainda era muito intenso, sem dvida. Claro que se
tratava de um fator importante no que quer que Waleran estivesse planejando.
         - Seja como for - disse William -, no quero contratar um construtor
cujos telhados desmoronam, no importa quais sejam suas desculpas.
         - Sou o nico mestre construtor em toda a Inglaterra que j trabalhou
numa igreja do novo estilo,  exceo de Jack.
         - No me importo com Saint-Denis - disse William. - Acredito que a alma
de minha pobre me estar bem servida da mesma forma com uma igreja de
desenho tradicional.
         Waleran e Peter trocaram um olhar.
         Aps um instante o bispo dirigiu-se a William, falando baixo:
         - Um dia esta igreja poder ser a Catedral de Shiring.
         Tudo se tornou claro para William. Muitos anos antes Waleran tramara a
mudana da sede da diocese de Kingsbridge para Shiring, mas o prior Philip
conseguira venc-lo.
         Agora revivia o plano. Dessa vez, ao que parecia, resolvera seguir um
caminho mais tortuoso. Antes simplesmente pedira ao arcebispo de Canterbury
que atendesse seu pedido. Agora ia comear pela construo de uma nova igreja,
grande e prestigiosa o bastante para ser uma catedral, e ao mesmo tempo
cultivaria aliados como Peter dentro do crculo do arcebispo, antes de fazer seu
pedido. Aquilo tudo estava bem planejado, mas William s queria construir uma
igreja em memria da me, a fim de facilitar a passagem de sua alma pelo fogo
eterno, e ressentiu-se com a tentativa de Waleran para usar tal idia em benefcio
prprio. Por outro lado, seria tremendamente importante Shiring ter uma
catedral, e William lucraria com isso.
         - H algo mais - Alfred estava dizendo.
         - Sim? - disse Waleran.
         William olhou para os dois homens. Alfred era maior, mais forte e mais
moo que o bispo, e poderia derrub-lo com uma das suas mos enormes atadas
nas costas; no entanto, agia como se fosse ele a parte fraca naquele confronto.
Anos antes William teria se encolerizado por ver um padre efeminado, de pele
muito branca, dominando um homem forte, mas agora no se aborrecia mais
com essas coisas; conclura que o mundo era assim mesmo.
         Alfred baixou a voz.
         - Posso trazer toda a fora de trabalho de Kingsbridge comigo - disse ele.
         Subitamente os trs homens prestaram ateno.
         - Diga isso de novo - disse Waleran.
         - Se me contratarem como mestre construtor, trarei todos os artfices de
Kingsbridge comigo.
         Waleran mostrou-se cauteloso.
        - Como podemos saber que est falando a verdade?
        - No peo que confiem em mim - disse Alfred. - Dem-me o emprego
condicionalmente. Se no fizer o que estou prometendo, irei embora sem receber
nada.
        Por razes diferentes, todos os trs odiavam o prior Philip, e ficaram
imediatamente encantados com a perspectiva de lhe aplicar tamanho golpe.
        - Alguns pedreiros trabalharam em Saint-Denis - acrescentou Alfred.
        - Mas como voc pode traz-los? - perguntou Waleran.
        - Isso interessa? Digamos que eles me preferem a Jack.
        William achou que o construtor estava mentindo, e Waleran pareceu
pensar o mesmo, pois o fitou longamente. No entanto, aparentemente dissera a
verdade antes. Qualquer que fosse razo, estava convencido de que poderia
trazer os artfices de Kingsbridge consigo.
        - Se todos vierem com voc - disse William -, o trabalho vai parar
completamente em Kingsbridge.
        - Sim - concordou Alfred -, vai.
        William olhou para Waleran e Peter.
        - Precisamos conversar mais a esse respeito.  melhor que ele jante
conosco.
        Waleran balanou a cabea, concordando.
        - Siga-nos at a minha casa - disse a Alfred. - Fica no outro lado da praa
do mercado.
        - Eu sei - disse Alfred. - Fui eu que a constru.

         Durante dois dias o prior Philip recusou-se a discutir a greve. Ficou sem
fala, de tanta raiva, e sempre que via Jack simplesmente fazia uma volta e seguia
na direo contrria.
         No segundo dia chegaram trs carroas cheias de farinha de trigo de um
dos moinhos externos do priorado. Vieram escoltadas por homens de armas: o
trigo era to precioso quanto ouro, naqueles dias. O carregamento foi recebido
pelo irmo Jonathan, que era o assistente do despenseiro, trabalhando com o
velho Cuthbert Cabea Branca.
         Jack observou Jonathan contando os sacos. Achava que havia qualquer
coisa de familiar no rosto do monge, como se ele se parecesse com algum que
Jack conhecia bem.
         Era alto e desengonado, de cabelo castanho-claro - bem diferente de
Philip, que era baixo, franzino e de cabelo preto; mas em todos os outros
aspectos que no o fsico, Jonathan era parecido com o homem que
desempenhava o papel de seu pai: o rapaz tinha princpios e era determinado e
ambicioso. Todos gostavam dele, a despeito de sua atitude um tanto rgida no
que concernia  moralidade - tal como sentiam acerca de Philip.
         Com o prior se recusando a falar, uma palavra com Jonathan seria a
segunda melhor coisa a fazer.
         Jack observou enquanto o monge pagava aos homens de armas e aos
carroceiros. Era de uma eficincia serena, e quando os carroceiros pediram mais
do que tinham direito, como sempre faziam, recusou calma mas firmemente.
Ocorreu a Jack que uma educao monstica era uma boa preparao para a
liderana.
         Liderana. As deficincias de Jack nessa rea tinham sido plenamente
reveladas. Deixara que um problema se transformase numa crise por ter lidado
mal com seus homens. Todas as vezes em que pensava naquela reunio
amaldioava sua inpcia.
         Quando os carroceiros se afastaram, resmungando, Jack caminhou
casualmente lado a lado com Jonathan.
         - Philip est terrivelmente furioso com a greve - disse ele. Por um
momento Jonathan deu a impresso de que falaria algo desagradvel - ele prprio
estava claramente furioso -, mas por fim seu rosto relaxou.
         - Ele parece furioso - comentou ele -, mas na verdade est magoado.
         Jack assentiu.
         - Ele leva o caso em nvel pessoal.
         - Sim. Acha que os artfices o abandonaram em um momento crtico.
         - Suponho que foi mesmo o que fizeram, de certo modo - disse Jack. -
Mas Philip cometeu um grande erro de julgamento tentando alterar o costume
dos trabalhadores por decreto.
         - Que mais poderia ter feito? - retorquiu Jonathan.
         - Ter discutido a crise com eles, em primeiro lugar. Talvez houvessem
sugerido algumas medidas econmicas. Mas no estou em condies de acusar o
prior, porque cometi o mesmo erro.
         Isso aguou a curiosidade de Jonathan.
         - Como?
         - Transmiti o programa de cortes aos homens da mesma maneira brusca
e sem tato como Philip me comunicou.
         O jovem monge tinha vontade de se sentir ultrajado, tal qual o prior,
pondo a culpa da greve na perfdia dos homens; porm, relutantemente, estava
vendo o outro lado da moeda. Jack decidiu no falar mais nada. Plantara uma
semente.
         Deixou o monge e retornou ao local onde desenhava. O problema,
refletiu, enquanto apanhava os instrumentos de trabalho,  que o pacificador da
cidade era Philip.
         Normalmente, era ele o juiz dos transgressores da lei e rbitro das
controvrsias. Era desconcertante v-lo como parte numa briga, furioso, amargo
e inflexvel.
        Outra pessoa teria que fazer as pazes daquela vez. E a nica pessoa que
Jack podia imaginar era si mesmo. Como mestre construtor, era o intermedirio
que podia falar com ambas as partes, e tinha uma motivao inquestionvel -
queria continuar construindo.
        Passou o resto do dia pensando em como deveria realizar aquela tarefa, e
a pergunta que fez a si prprio vezes sem conta foi: O que Philip iria fazer?
        No dia seguinte sentiu-se pronto para defrontar-se com o prior.
        Era um dia frio e ventoso. Jack ficou rondando o canteiro de obras
deserto no incio da tarde, com o capuz da capa puxado para se manter seco,
fingindo estudar as rachaduras do clerestrio (um problema ainda no resolvido),
e esperou at ver Philip sair do claustro e dirigir-se apressadamente para a sua
casa. Quando entrou, Jack foi ao seu encontro.
        A porta estava sempre aberta. O mestre construtor bateu e entrou. Philip
estava de joelhos em frente ao pequeno altar no canto. Era de pensar que j
rezasse bastante, na igreja, a maior parte do dia e metade da noite, foi a idia que
veio  cabea de Jack. No havia fogo: o prior estava economizando. O
construtor esperou silenciosamente at ele levantar e virar-se.
        - Isso tem que terminar - disse ento.
        O rosto normalmente amvel de Philip apresentou uma expresso dura.
        - No vejo dificuldade alguma - declarou glacialmente. - Eles podem
voltar ao trabalho a qualquer hora que queiram.
        - Nos seus termos.
        Philip limitou-se a fitar Jack.
        - Eles no vo voltar nos seus termos, e no vo esperar a vida inteira
para que voc veja a razo. - Jack apressou-se a acrescentar: - Ou o que pensam
que  a razo.
        - No vo esperar a vida inteira? Para onde iro quando se cansarem de
esperar? No vo encontrar trabalho em parte alguma. Pensam que este  o nico
lugar que est sofrendo com a crise? Pois ela assola toda a Inglaterra. Todos os
canteiros de obras foram desativados.
        - Ento voc vai esperar que eles retornem rastejando, implorando
perdo.
        Philip desviou o olhar.
        - No quero fazer ningum rastejar. Acredito que jamais tenha lhe dado
motivo para esperar tal comportamento da minha parte.
        - No, e  por isso que vim procur-lo - disse Jack. - Sei que na verdade
voc no deseja humilhar aqueles homens; no  da sua natureza. E, alm disso,
se retornarem vencidos e ressentidos, trabalharo mal nos prximos anos. Ento,
tanto do meu ponto de vista quanto do seu, devemos permitir que saiam disso
com a cabea erguida... O que implica fazer concesses.
        Jack conteve a respirao. Fizera o seu grande discurso, e aquele era o
momento decisivo. Se o prior no cedesse agora, o futuro seria negro.
         Philip fitou severamente Jack por um longo momento. Este viu a razo
lutando com a emoo no rosto do prior. Finalmente sua expresso suavizou-se e
ele disse:
         -  melhor sentarmos.
         Jack conteve um suspiro de alvio quando se sentou. Planejara o que diria
a seguir: no ia repetir a espontnea falta de tato que exibira com os operrios.
         - No h necessidade de modificar a interrupo de compra de material -
comeou. - Da mesma forma, a suspenso da contratao de novos empregados
pode ser mantida - ningum faz objees. Acho tambm que eles podem ser
persuadidos a aceitar que no haver trabalho nos dias santos, se ganharem
concesses em outras reas. - Parou para deixar que o prior digerisse suas
palavras. At ento, dera tudo e no pedira nada.
         Philip assentiu.
         - Que concesses?
         O construtor respirou fundo.
         - Eles ficaram profundamente ofendidos com a sua proposta de proibir
as promoes. Acham que est usurpando uma antiga prerrogativa da associao.
         - Expliquei a voc que no foi essa minha inteno - disse o prior, num
tom de voz exasperado.
         - Sim, sei disso - apressou-se a dizer Jack. - Claro que me explicou. E
acreditei em voc, mas eles no. - Pela expresso de Philip, via-se que ficara
ofendido. Como uma pessoa podia no acreditar nele? Jack teve que se apressar
novamente: - Mas isso pertence ao passado. Vou propor uma soluo de
compromisso que no lhe custar nada.
         O prior pareceu interessado.
         - Deixe que continuem a aprovar requerimentos de promoo -
prosseguiu o construtor -, mas adie o pagamento correspondente por um ano. -
E pensou: Ache alguma objeo a isso, se puder.
         - Eles aceitaro? - perguntou Philip ceticamente.
         - Vale a pena tentar.
         - E se eu continuar no podendo pagar os aumentos daqui a um ano?
         - S atravesse a ponte quando chegar ao rio.
         - Voc quer dizer renegociar dentro de um ano. Jack deu de ombros.
         - Se necessrio.
         - Entendo - disse Philip. Indiferente. - Alguma coisa mais?
         - O maior obstculo  a demisso dos trabalhadores de vero - Estava
sendo completamente franco agora. Aquele assunto no podia ser abrandado. - A
demisso imediata nunca foi permitida em nenhum canteiro de obras da
cristandade. O prazo mnimo  o fim da semana. - Para ajudar Philip a se sentir
menos tolo, acrescentou: - Eu devia ter-lhe avisado.
         - Ento tudo o que tenho a fazer  empreg-los por mais dois dias?
         - No creio que seja suficiente agora - disse Jack. - Se tivssemos agido
diferentemente desde o princpio, poderamos nos safar com isso, mas agora eles
vo querer mais, num acordo.
         - Sem dvida voc tem algo especfico em mente.
         Jack tinha, e era a nica concesso de verdade que pediria.
         - Estamos no comeo de outubro. Normalmente demitimos os
trabalhadores de vero no princpio de dezembro. Vamos atend-los
parcialmente e efetuar as demisses no incio de novembro.
         - Isso s me d metade do que preciso.
         - Mais que a metade. Voc ainda se beneficia da liquidao dos estoques,
do adiamento dos pagamentos relativos s promoes e dos dias santos.
         - Essas coisas so perfumaria.
         Jack recostou-se  cadeira, acabrunhado. Fizera o melhor possvel. No
tinha mais argumentos para colocar perante Philip, nenhum outro recurso de
persuaso, nada mais a dizer. Disparara sua flecha. E o prior ainda estava
resistindo. O construtor preparou-se para reconhecer a derrota. Fitou o rosto
impassvel de Philip e aguardou.
         O religioso olhou para o altar por um longo momento. Finalmente
voltou-se de novo para Jack.
         - Terei que apresentar essa questo ao cabido.
         O mestre construtor chegou a perder as foras, to aliviado ficou. No
era uma vitria, mas chegava perto. Philip no pediria aos monges que
decidissem sobre algo que ele prprio no aprovava, e com frequncia eles
faziam o que o prior queria.
         - Espero que aceitem - disse Jack, baixinho.
         Philip ergueu-se e ps uma das mos no ombro de Jack. Sorriu pela
primeira vez.
            - Se eu apresentar o caso to persuasivamente quanto voc, eles
aceitaro.
         Jack ficou surpreso com a sbita mudana de atitude.
         - Quanto mais cedo acabar, menos efeitos a longo prazo a greve ter -
disse ele.
         - Eu sei. Isso tudo me deixou furioso, mas no quero brigar com voc. -
Inesperadamente, estendeu a mo.
         O construtor a apertou e sentiu-se bem.
         - Devo dizer aos homens que se reunam pela manh, a fim de tomar
conhecimento do veredicto do cabido?
         - Sim, por favor.
         - Farei isso agora. - E virou-se para sair.
         - Jack.
         - Sim?
         - Muito obrigado.
         O construtor balanou a cabea e saiu. Caminhou pela chuva sem pr o
capuz. Sentia-se feliz.
         Naquela tarde, foi  casa de todos os artesos e disse que haveria uma
reunio pela manh. Os que no estavam em casa - os solteiros e os
trabalhadores de vero, principalmente -, encontrou na cervejaria. Sbrios,
contudo, pois o preo da cerveja subira juntamente com tudo mais, e ningum
podia se dar ao luxo de ficar bbado. O nico arteso que no pde encontrar foi
Alfred, que no era visto h cerca de dois dias. Mas acabou aparecendo ao
crepsculo. Entrou na cervejaria com uma expresso estranhamente triunfante na
cara bovina. No disse onde estivera, nem Jack perguntou. Este o deixou
bebendo cerveja com os outros homens e foi cear com Aliena e as crianas.
         Na manh seguinte, deu incio  reunio antes que o prior Philip
aparecesse. Queria cuidar das preliminares. Mais uma vez preparara o que tinha a
dizer muito cuidadosamente, para se assegurar de que no perderia a questo por
falta de tato. Mais uma vez tentou manejar as coisas como Philip teria feito.
         Todos os homens chegaram cedo. Seu meio de vida estava em jogo. Um
ou dois dos mais jovens estavam com os olhos vermelhos: Jack sups que a
cervejaria ficara aberta at tarde na noite anterior, e alguns deles esqueceram sua
pobreza por algum tempo. Os jovens e os trabalhadores temporrios de vero
eram os que mais provavelmente se mostrariam difceis. Os operrios mais
idosos costumavam enxergar mais longe. A pequena minoria de mulheres era
sempre cautelosa e conservadora, apoiando qualquer tipo de acordo.
         - O prior Philip vai nos pedir que voltemos ao trabalho e nos oferecer
concesses para chegarmos a um acordo - comeou Jack. - Antes de ele chegar,
devemos discutir o que podemos estar preparados para aceitar, o que
rejeitaremos em carater definitivo e o que estaremos dispostos a negociar.
Precisamos mostrar a Philip uma frente unida. Espero que todos vocs
concordem.
         Umas poucas cabeas balanaram, em assentimento.
         Jack adotou um tom de voz ligeiramente irritado.
         - Do meu ponto de vista - disse ele - devemos recusar em carter
absoluto a demisso instantnea. - Deu um soco na bancada para enfatizar sua
inflexibilidade. Diversas pessoas exprimiram sua concordncia em voz alta. O
construtor sabia que Philip certamente no faria aquela exigncia. Queria que os
mais exaltados se ocupassem defendendo aquela prtica antiga, de modo que,
quando Philip cedesse nesse ponto, eles se acalmassem.
         - Devemos tambm preservar o direito da associao de fazer
promoes, pois apenas artesos podem julgar se um homem tem ou no
capacidade para ser promovido. - Mais uma vez ele estava sendo dissimulado.
Procurava concentrar a ateno deles no aspecto no financeiro da promoo, na
esperana de que quando ganhassem esse ponto estivessem prontos a transigir
com os pagamentos.
         - Quanto ao trabalho nos dias santos, estou dividido entre duas idias. Os
feriados normalmente so negociados - no h um comportamento padronizado
quanto a eles, que eu saiba. - Virou-se para Edward Dois Narizes e perguntou: -
Qual  a sua opinio a respeito disso, Edward?
         - A maneira de proceder varia em cada canteiro de obra - respondeu ele,
satisfeito por ter sido consultado. Jack balanou a cabea, encorajando-o. Edward
comeou a recordar diversas maneiras de resolver a questo dos dias santos. A
reunio estava se desenrolando exatamente como Jack queria. Uma discusso
extensa de um ponto que no era muito controverso entediaria os homens e
minaria suas energias para um confronto.
         Mas o monlogo de Edward foi interrompido por uma voz no fundo.
         - Tudo isso  irrelevante.
         Jack viu que quem falara fora Dan Bristol, um trabalhador de vero.
         - Um de cada vez, por favor - disse ele. - Vamos ouvir o que Edward tem
a dizer.
         Dan no era afastado to facilmente.
         - Nada disso interessa - disse ele. - O que queremos  um aumento.
         - Um aumento? - Jack ficou irritado com aquela pretenso absurda.
         Para sua surpresa, contudo, Dan tinha seguidores. Foi Pierre quem disse:
         - Isso mesmo, um aumento. Olhe: um po de dois quilos custa um penny.
Uma galinha, que antes custava oito pence, agora est por vinte e quatro! Aposto
como nenhum de ns aqui bebe cerveja forte h semanas. Os preos esto
subindo, mas quase todos ainda ganhamos o mesmo salrio pelo qual fomos
contratados, ou seja, doze pence por semana. Temos que alimentar nossa famlia
com isso.
         Jack sentiu o corao ficar pequeno. Tinha conduzido tudo corretamente,
mas aquela interrupo arruinara sua estratgia. Conteve-se, no entanto, evitando
opor-se a Dan e a Pierre, porque sabia que teria mais influncia se parecesse ser
compreensivo.
         - Concordo com vocs dois - disse, para evidente surpresa de ambos. - A
questo : que chance temos de persuadir Philip a nos dar um aumento quando o
priorado est sem dinheiro?
         Ningum respondeu.
         - Precisamos de vinte e quatro pence por semana para permanecermos
vivos - disse Dan -, e mesmo assim ainda estaremos em piores condies do que
antes.
         Jack ficou atnito: por que a reunio estava fugindo ao seu controle?
         - Vinte e quatro pence por semana - repetiu Pierre, e diversos outros
balanaram a cabea, concordando.
        Ocorreu a Jack que ele podia no ser a nica pessoa que viera  reunio
com uma estratgia preparada. Olhando duro para Dan, perguntou:
        - Vocs discutiram esse assunto antes?
        - Sim, ontem  noite, na cervejaria - respondeu Dan desafiadoramente. -
H algo de errado nisso?
        - Certamente que no. Mas em benefcio dos que no tiveram o privilgio
de comparecer a essa reunio, voc poderia resumir suas concluses?
        - Muito bem. - Os homens que no tinham estado na cervejaria
pareceram ficar ressentidos, mas Dan no demonstrou o menor arrependimento.
No instante exato em que abriu a boca, Philip entrou. Jack dirigiu-lhe um rpido
olhar e viu que o prior parecia feliz. Ele balanou a cabea quase
imperceptivelmente. Jack sentiu-se exultante: os monges tinham aceitado as
condies do acordo. Abriu a boca para impedir que Dan falasse, mas atrasou-se
por um segundo. - Queremos vinte e quatro pence por semana para os artfices -
disse Dan, alto e claro. - Doze pence para os serventes e quarenta e oito para os
mestres.
        Jack olhou de novo para Philip. A alegria desaparecera, e mais uma vez
seu rosto exibia a expresso dura do confronto anterior.
        - Espere um momento - disse Jack. - Essa no  a opinio da associao
como um todo.  uma exigncia tola inventada por uma faco de bbados na
cervejaria.
        - No, no  - disse uma nova voz. Era Alfred. - Acho que voc vai
descobrir que a maioria dos trabalhadores apoia a exigncia de dobrar o salrio.
        Jack o encarou furioso.
        - H poucos meses voc me implorou um emprego - disse. - Agora est
exigindo o salrio em dobro. Eu devia ter deixado que morresse de fome!
        -  o que vai acontecer com todos vocs, se no ouvirem a voz da razo!
- exclamou Philip.
        Jack tentara desesperadamente evitar observaes desafiadoras, mas
agora no via alternativa: sua estratgia falhara por completo.
        - No voltaremos ao trabalho por menos de vinte e quatro pence e pronto
- disse Dan.
        - Isso est fora de questo - disse Philip. -  um sonho tolo. No vou
nem mesmo discuti-lo.
        - E ns tambm no vamos discutir mais nada - disse Dan.
        - No trabalharemos por menos, sejam quais forem as circunstncias.
        - Mas isso  estupidez! - exclamou o construtor. - Como voc pode ficar
a sentado e dizer que no trabalhar por menos? No trabalhar de modo algum,
seu idiota. Vocs no tm outro lugar para onde ir!
        - No temos? - contraps Dan. Todos ficaram em silncio.
         Oh, Deus, pensou Jack, desesperado.  isso; eles tm uma alternativa.
         - Ns temos outro lugar para onde ir - disse Dan, levantando-se. - E,
quanto a mim, estou indo para l agora.
         - De que voc est falando? - perguntou Jack. A expresso de Dan era de
triunfo. - Recebi uma oferta para trabalhar em Shiring. Na construo da nova
igreja. A vinte e quatro pence por semana.
         Jack relanceou os olhos por todos.
         - Algum mais recebeu a mesma oferta?
         Eles baixaram a cabea, envergonhados.
         - Todos ns recebemos - disse Dan.
         O mestre construtor sentiu-se devastado. A coisa toda tinha sido
organizada. Ele fora trado. Sentiu-se to tolo quanto injustiado. Enganara-se
completamente ao avaliar a situao. A mgoa se transformou em raiva, e ele
procurou algum a quem culpar.
         - Qual de vocs? - gritou. - Qual de vocs  o traidor? - Poucos foram
capazes de encar-lo, mas a vergonha deles no lhe serviu de consolo. Sentia-se
como um amante trado. Quem trouxe essa oferta de Shiring? - gritou.
         - Quem vai ser o mestre construtor em Shiring? - Seu olhar examinou um
por um e veio pousar em Alfred. Claro. Sentiu-se enojado. - Alfred? - perguntou
sarcasticamente. - Vocs esto me deixando para trabalhar com Alfred?
         Silncio.
         - Sim, estamos - disse Dan finalmente.
         Jack reconheceu que fora derrotado.
         - Ento, que seja assim - disse, amargurado. - Vocs me conhecem e
conhecem meu irmo, e preferiram Alfred. Vocs conhecem o prior Philip e
conhecem o conde William, e preferiram William. S me resta dizer que merecem
tudo o que vo conseguir.
       Captulo 15
         - Conte-me uma histria - pediu Aliena. - Voc nunca mais me contou
histrias. Lembra como antigamente voc contava?
         - Lembro - disse Jack.
         Os dois estavam em sua clareira secreta, na floresta. Era final de outono,
de modo que em vez de se sentarem  sombra, ao lado do regato, tinham
acendido uma fogueira no abrigo de uma rocha. A tarde estava fria, cinzenta e
escura, mas fazer amor os aquecera e o fogo crepitava alegremente. Ambos
estavam nus sob as capas.
         Jack abriu a capa de Aliena e tocou no seu seio. Ela achava que tinha os
seios grandes demais, e se sentia triste por ver que no eram mais to altos e
firmes como antes de ter as crianas, mas Jack parecia gostar deles do mesmo
modo, o que era um grande alvio.
         - Era uma vez uma princesa que vivia no topo de um grande castelo -
disse ele, tocando delicadamente no mamilo. - E um prncipe, que vivia no topo
de outro grande castelo. - E tocou no outro. - Todos os dias eles se olhavam das
janelas de suas prises, e ansiavam por cruzar o espao que os separava. - A mo
dele descansou entre os seios e deslocou-se subitamente para baixo. - Mas todas
as tardes de domingo eles se encontravam na floresta! - Ela gritou, assustada, e
depois riu de si prpria.
         Aquelas tardes de domingo eram os momentos dourados de uma vida
que se desmoronava rapidamente.
         A safra ruim e o colapso do preo da l causaram uma devastao
econmica. Mercadores se viram arruinados, os habitantes da cidade perderam
seus empregos, e os camponeses passavam fome. Jack ainda ganhava um salrio,
afortunadamente: com um punhado de artfices estava construindo aos poucos o
primeiro intercolnio da nave. Mas Aliena suspendera quase que inteiramente a
fabricao de tecidos. E as coisas eram piores ali do que no resto do sul da
Inglaterra, devido ao modo como William estava reagindo  crise.
         Para Aliena aquele era o aspecto mais doloroso da situao. Hamleigh
desejava gananciosamente dinheiro para construir a nova igreja em Shiring, a
igreja dedicada  memria da sua me, a perversa e meio louca Regan Hamleigh.
Expulsara tantos rendeiros por atraso no pagamento que algumas das melhores
terras do condado no eram mais cultivadas, o que agravava a falta de cereais. Ele
prprio, contudo, estocara trigo para fazer o preo subir ainda mais. Tinha
poucos empregados e ningum para alimentar, de modo que lucrava com a crise,
a curto prazo. Mas a longo prazo estava causando um dano irreparvel 
propriedade e  sua capacidade de alimentar as pessoas que ali habitavam. Aliena
se lembrava do condado sob o governo de seu pai, um condado rico de terras
frteis e cidades prsperas, e essa lembrana lhe partia o corao.
         Por alguns anos quase tinha se esquecido dos votos que formulara, junto
com o irmo, perante o pai moribundo. Desde que William Hamleigh fora
nomeado conde e ela tivera seu primeiro filho, a idia de Richard reconquistar o
condado havia se tornado uma fantasia remota. O prprio Richard se adaptara s
funes de chefe da vigilncia.
         Tinha inclusive se casado com uma garota da cidade, a filha de um
carpinteiro, embora lamentavelmente a pobrezinha, que no desfrutava de boa
sade, houvesse morrido no ano anterior sem lhe ter dado filhos. Desde o incio
da crise, Aliena comeara a pensar de novo no condado. Sabia que, se Richard
fosse o conde, com sua ajuda poderia fazer muita coisa para aliviar o sofrimento
geral. Mas era um sonho: William era bastante favorecido pelo rei Estvo, que
estava levando vantagem na guerra civil, e no havia perspectiva de mudanas.
         No entanto, todos aqueles desejos contrariados se desvaneciam na
clareira secreta, quando Aliena e Jack se deitavam na grama para fazer amor.
Desde o incio eles tinham sido vidos do corpo um do outro - Aliena jamais se
esqueceria de como ficara chocada com sua prpria luxria, no comeo -, e
mesmo agora, quando j estava com trinta anos e a maternidade alargara seus
quadris e tornara flcida sua barriga, Jack ainda sentia tanto desejo por ela, que
faziam amor trs ou quatro vezes cada domingo.
         Agora o gracejo dele a respeito da floresta se transformou numa carcia
deliciosa, e Aliena puxou-lhe o rosto para beij-lo; ento ouviu uma voz.
         Ambos ficaram imveis. A clareira se encontrava a uma certa distncia da
estrada, escondida por uma moita densa: nunca eram interrompidos, a no ser
por um cervo ocasional ou uma raposa afoita. Contiveram a respirao, atentos.
A voz se fez ouvir de novo, e foi seguida por outra diferente. Aguando mais a
audio, perceberam um burburinho, como se houvesse um grande grupo de
homens se deslocando atravs da floresta.
         Jack encontrou suas botas, que estavam no cho. Deslocando-se
silenciosamente, foi at o regato, a poucos passos, encheu uma delas com gua e
esvaziou-a na fogueira.
         As chamas desapareceram com um chiado e uma nuvem quase
insignificante de fumaa. Jack desapareceu sem um rudo por entre a vegetao,
engatinhando.
         Aliena vestiu a camisa de baixo, a tnica e as botas, e depois se
embrulhou de novo na capa.
         Jack retornou to silenciosamente quanto se fora.
         - So fora-da-lei - disse.
         - Quantos? - sussurrou ela.
         - Uma poro. No pude ver todos.
         - Para onde esto indo?
         - Kingsbridge. - Ele ergueu uma das mos. - Oua.
         Aliena inclinou a cabea. Muito ao longe, ouviu o sino do priorado
batendo rpida e incessantemente, avisando o perigo. O corao dela falhou uma
batida.
         - Oh, Jack! As crianas!
         - Poderemos chegar antes dos fora-da-lei se cruzarmos o Muddy Bottom
e vadearmos o rio perto do bosque de castanheiras.
         - Vamos depressa, ento!
         Jack a conteve, segurando-a pelo brao, e escutou por um instante. Na
floresta sempre conseguia ouvir coisas que Aliena no ouvia. Afinal, fora criado
ali. Ela aguardou.
         - Acho que todos j passaram - disse ele, afinal.
         Deixaram a clareira. Em poucos momentos chegaram  estrada. No
havia ningum  vista. Atravessaram-na e passaram por dentro da floresta,
seguindo uma trilha quase imperceptvel. Aliena deixara Tommy e Sally com
Martha, brincando de jogo das nove pedras em frente a um belo e reconfortante
fogo.
         No tinha bem certeza de qual seria o perigo, mas seu pnico era de que
pudesse acontecer alguma coisa antes de retornar para junto das crianas.
Correram quando possvel, mas para frustrao de Aliena o terreno era quase
todo muito irregular, de modo que o melhor que podia fazer era trotar enquanto
Jack se deslocava com largas passadas. Aquele caminho era muito mais difcil que
a estrada por onde costumavam se deslocar, mas era muito mais rpido.
         Desceram escorregando a encosta ngreme do Muddy Bottorn.
Forasteiros descuidados ocasionalmente morriam naquele lodaal, mas no havia
perigo em atravess-lo para quem conhecia o caminho. Mesmo assim, a lama
pareceu agarrar os ps de Aliena, retendo-a longe de Tommy e Sally. Na
extremidade do Muddy Bottom havia um vau. A gua fria subiu-lhe at os
joelhos e lavou-lhe a lama dos ps.
         Dali em diante o caminho era reto. O sino de alarme soava cada vez mais
alto,  medida que se aproximavam da cidade. Qualquer que fosse o perigo
representado pelos fora-da-lei, pelo menos Kingsbridge tinha sido alertada com
antecedncia, pensou Aliena, tentando se animar. Quando ela e Jack saram da
floresta na campina entre o rio e Kingsbridge, vinte ou trinta jovens que haviam
estado jogando futebol numa aldeia prxima chegaram ao mesmo tempo,
gritando estridentemente e suando apesar do frio.
         Atravessaram a ponte correndo. O porto j estava fechado, mas as
pessoas que guarneciam as fortificaes os tinham visto e reconhecido, e, quando
se aproximaram, uma portinhola foi aberta. Jack fez valer sua posio e obrigou
os garotos a deixar que ele e Aliena entrassem em primeiro lugar. Baixaram a
cabea e passaram pela pequena porta. Aliena sentiu-se profundamente aliviada
por ter voltado  cidade antes da chegada dos fora-da-lei.
         Ofegando com o exerccio, subiram correndo a rua principal. Os
habitantes da cidade se dirigiam para as muralhas com lanas, arcos e pilhas de
pedras para serem arremessadas. As crianas estavam sendo cercadas e levadas
para o priorado. Martha j deveria ter ido para l, com Tommy e Sally, decidiu
Aliena. Ela e Jack foram direto para o adro.
         No ptio da cozinha, Aliena viu - para seu assombro Ellen, a me de
Jack, esbelta e bronzeada como sempre, mas com o cabelo comprido grisalho e
rugas em torno dos olhos, aos quarenta e quatro anos de idade. Estava
conversando animadamente com Richard. O prior Philip encontrava-se a uma
certa distncia, dirigindo as crianas para a casa do cabido. No parecia ter visto
Ellen.
         Nas proximidades estavam Martha com Tommy e Sally. Aliena suspirou
aliviada e abraou as duas crianas.
         - Me! - exclamou Jack. - Por que est aqui?
         - Vim avisar vocs que um bando de fora-da-lei est a caminho. Vo
atacar a cidade.
         - Ns os vimos na floresta - disse Jack. Richard teve sua ateno
despertada.
         - Voc os viu? Quantos homens?
         - No estou bem certo, mas parecia muita gente, pelo menos umas cem
pessoas, talvez mais.
         - Que tipo de armas?
         - Porretes. Facas. Uma machadinha ou duas. Principalmente porretes.
         - Que direo?
         - Ao norte daqui.
         - Obrigado! vou dar uma olhada da muralha.
         - Martha - disse Aliena -, leve as crianas para a casa do cabido. - Ela
seguiu Richard, tal como Jack e Ellen.
         Enquanto percorriam apressadamente as ruas, todos perguntavam a
Richard:
         - O que ?
         - Fora-da-lei - respondia ele sucintamente, sem diminuir o passo.
         Aqueles eram os melhores momentos de Richard, pensou Aliena. Se lhe
pedissem que sasse e ganhasse o po de cada dia, seria um intil; mas numa
emergncia militar era frio, controlado e competente.
         Chegaram  parede norte da cidade e galgaram a escada para o parapeito.
Havia montes de pedras para serem jogadas nos atacantes, colocados a intervalos
regulares.
         Habitantes da cidade armados de arcos e flechas j tomavam posio nas
ameias. Algum tempo antes Richard persuadira o conselho da cidade a realizar
exerccios de emergncia uma vez por ano. Houvera muita resistncia  idia no
princpio, mas se tornara um ritual, como as festas de entrada do vero, e todos
gostavam. Agora os seus verdadeiros benefcios estavam aparecendo: o povo da
cidade reagira rpida e confiantemente ao som do alarme.
        Aliena, atemorizada, olhou por cima dos campos, na direo da floresta.
No podia ver nada.
         - Vocs devem ter chegado aqui muito antes deles - disse Richard.
        - Por que esto vindo para c? - perguntou sua irm.
        - Os depsitos do priorado - respondeu Ellen. - Este  o nico lugar em
muitas milhas onde h comida.
        - Sim, claro! - Os fora-da-lei eram pessoas famintas, expulsas de suas
terras por William, sem ter outro meio de vida seno o roubo. Nas aldeias
indefesas pouco ou nada havia para roubar: os camponeses no estavam em
muito melhor situao que os fora-da-lei. Somente nos celeiros dos proprietrios
da terra havia alimentos em quantidade.
        Enquanto pensava nisso, ela os viu.
        Emergiram da orla da floresta como ratos abandonando uma pilha de
feno em chamas. Espalharam-se pelo campo na direo da cidade, vinte, trinta,
cinquenta, uma centena deles, um pequeno exrcito. Provavelmente tinham
esperado pegar a cidade desprevenida e passar pelos portes, mas quando
ouviram o sino tocando o alarme perceberam que estavam sendo esperados.
Mesmo assim prosseguiram, com o desespero dos famintos. Um ou dois
arqueiros arremessaram suas flechas prematuramente, e Richard mandou que
esperassem, para no desperdi-las.
        Na ltima vez em que Kingsbridge fora atacada, Tommy estava com
dezoito meses de idade e Aliena esperava Sally. Refugiara-se no priorado, junto
com os mais velhos e as crianas. Dessa vez ficaria nas ameias e ajudaria a
rechaar o perigo. A maior parte das outras mulheres se sentia do mesmo modo:
havia quase tantas mulheres quanto homens na muralha.
        Mesmo assim, Aliena sentiu-se dividida quando os fora-da-lei se
aproximaram. Estava perto do priorado, mas era possvel que os atacantes
conseguissem romper a defesa em algum outro ponto da muralha e chegassem ao
priorado antes dela. Ou podia se ferir no combate e ficar impossibilitada de
socorrer os filhos. Jack estava l, e Ellen tambm; se fossem mortos, restaria
apenas Martha para tomar conta de Tommy e Sally. Aliena hesitou, indecisa.
        Os proscritos estavam quase na muralha. Uma chuva de flechas caiu
sobre eles, e dessa vez Richard no disse aos arqueiros que esperassem. Os
atacantes foram dizimados.
        No tinham armaduras para se proteger. No havia tambm organizao
alguma. Ningum planejara o ataque. Eram como animais disparados, lanando-
se contra a muralha.
        Quando chegavam junto a ela, no sabiam o que fazer. Os habitantes da
cidade os bombardearam com pedras, de cima das ameias. Diversos fora-da-lei
atacaram o porto norte com porretes. Aliena sabia como era grossa aquela porta
de carvalho guarnecida de ferro: seria preciso toda uma noite para derrub-la.
Enquanto isso, Alf Aougueiro e Arthur Seleiro levavam um caldeiro de gua
fervente da cozinha de algum para a muralha, acima do porto.
         Diretamente abaixo de Aliena, um grupo de fora-da-lei comeou a
formar uma pirmide humana. Jack e Richard se puseram imediatamente a jogar
pedras neles. Pensando nos filhos, Aliena fez o mesmo, e Ellen a imitou. Os
desesperados fora-da-lei aguentaram a chuva de pedras por algum tempo; depois,
algum foi atingido na cabea, a pirmide ruiu e eles desistiram.
         Ouviram-se gritos de dor um momento mais tarde, quando a gua
fervente foi despejada sobre a cabea dos homens que atacavam a porta.
         Ento alguns dos proscritos perceberam que seus camaradas mortos e
feridos eram presa fcil, e comearam a desnudar-lhes o corpo. Irromperam
brigas com aqueles que no estavam to seriamente feridos, e grupos rivais de
saqueadores disputaram as coisas dos mortos. Uma carnificina, pensou Aliena;
uma carnificina revoltante e vergonhosa. Os habitantes da cidade pararam de
jogar pedras quando o ataque terminou, e os atacantes brigaram entre si como
ces por causa de um osso.
         Aliena voltou-se para Richard.
         - Eles so desorganizados demais para representarem uma verdadeira
ameaa - disse.
         Ele concordou.
         - Com um pouco de ajuda poderiam ser muito perigosos, porque esto
desesperados. Mas do jeito como se encontram, no tm liderana.
         Aliena teve uma sbita idia.
         - Um exrcito esperando por um lder - disse. Richard no reagiu, mas ela
ficou animada. Seu irmo era um bom lder que no tinha exrcito. Os fora-da-lei
eram um exrcito sem lder. E o condado estava se desmoronando...
         Alguns dos defensores continuaram a atirar pedras e a lanar flechas nos
proscritos, e mais alguns deles foram derrubados. Aquele foi o desencorajamento
final, e eles comearam a bater em retirada, como uma matilha de ces com o
rabo entre as pernas, olhando por cima dos ombros pesarosamente. Algum
abriu ento o porto norte, e uma multido de rapazes, brandindo espadas e
machados, saiu correndo atrs dos retardatrios. Os fora-da-lei procuraram fugir,
mas alguns foram alcanados e chacinados.
         Ellen virou-se, enojada.
         - Voc devia ter impedido aqueles rapazes de perseguir os atacantes -
disse ela a Richard.
         - Os jovens precisam ver um pouco de sangue, aps um combate como
este - retrucou ele. - E, alm do mais, quanto mais matarmos agora, menos nos
atacaro da prxima vez.
        Era uma filosofia de soldado, pensou Aliena. No tempo em que tinha sua
vida ameaada todos os dias, provavelmente seria como aqueles rapazes, e
correria atrs dos fora-da-lei a fim de mat-los. Agora desejava terminar com as
causas daquela situao, e no com os fora-da-lei propriamente ditos. Alm disso,
imaginara um modo de us-los.
        Richard mandou que algum tocasse o sinal de fim de alarme no sino do
priorado e deu instrues para que fosse dobrada a vigilncia durante a noite,
com patrulhas de guardas alm das sentinelas. Aliena dirigiu-se ao priorado e
recolheu Martha e as crianas. Todos foram se encontrar de novo na casa de
Jack.
        Ficou satisfeita por estarem todos juntos: ela, Jack, seus filhos, a me de
Jack, Richard e Martha. Quase como uma famlia comum; por pouco Aliena
poderia esquecer que seu pai morrera numa masmorra, que era legalmente casada
com o filho do padrasto de Jack, que Ellen era uma fora-da-lei, e...
        Balanou a cabea. No adiantava fingir que se tratava de uma famlia
normal.
        Jack apanhou uma jarra de cerveja no barril e a serviu em copos grandes.
Todos se sentiam tensos e excitados aps o perigo. Ellen atiou o fogo, e Martha
cortou nabos numa panela, comeando a fazer uma sopa para a ceia. Um dia eles
poriam meio porco no fogo para uma ocasio como aquela.
        Richard bebeu uma cerveja num longo gole e, enxugando a boca, disse:
        - Vamos ver ainda mais desse tipo de coisa antes do fim do inverno.
        - Eles deviam assaltar os depsitos de vveres do conde William, e no os
do prior Philip - afirmou Jack. - Foi William quem deixou essas pessoas sem
recursos.
        - No tero mais sucesso contra William do que tiveram contra ns, a
menos que aperfeioem suas tticas. So como uma matilha de ces.
        - Precisam de um lder - disse Aliena.
        - Reze para que nunca o tenham! - disse Jack. - Ento seriam realmente
perigosos.
        - Um lder poderia faz-los atacar a propriedade de William em vez da
nossa - afirmou Aliena.
        - No estou entendendo - disse Jack. - Um lder iria fazer isso?
        - Iria, se fosse Richard.
         Todos ficaram em silncio.
        A idia se desenvolvera na mente de Aliena e agora ela estava convicta de
que daria certo. Poderiam cumprir o prometido com Richard destruindo William
e tornando-se conde, e o condado poderia ter restauradas sua paz e
prosperidade... Quanto mais pensava nisso, mais animada ficava.
        - Havia mais de uma centena de homens naquela turba que nos atacou
hoje - disse, virando para Ellen. - Quantos mais h na floresta?
         - No d para contar - respondeu Ellen. - Centenas. Milhares.
         Aliena inclinou-se sobre a mesa da cozinha e encarou Richard.
         - Seja o lder deles - disse convictamente. - Organize-os. Ensine-os a
lutar. Faa planos de ataque. Depois os faa entrar em ao... contra William.
         Enquanto falava, dava-se conta de que estava lhe dizendo para pr sua
vida em perigo, e tremeu de medo. Em vez de reconquistar o condado, ele podia
ser morto.
         Mas Richard no teve tais receios.
         - Por Deus, Allie, talvez voc tenha razo! Eu poderia ter um exrcito
meu e lider-lo contra William.
         A irm viu em seu rosto o ressurgir de um dio alimentado h muito
tempo, e notou novamente a cicatriz na sua orelha esquerda, onde o lobo fora
cortado. Reprimiu a lembrana infame que ameaava lhe assomar  mente.
         Richard estava se entusiasmando com a idia.
         - Eu poderia atacar os rebanhos de William - disse, com satisfao. -
Roubar suas ovelhas, caar seus cervos, arrombar seus celeiros, apossar-me de
seus moinhos. Meu Deus, eu poderia fazer aquele canalha sofrer, se tivesse um
exrcito.
         Richard sempre fora um soldado, pensou Aliena: era a sua sina.
         A despeito do medo que sentia pela segurana do irmo, emocionava-se
com a perspectiva de que ainda podia ter outra chance para cumprir seu destino.
         Ele se lembrou de um problema.
         - Mas como posso encontrar os fora-da-lei? Eles sempre se escondem.
         - Posso responder a isso - disse Ellen. - Seguindo-se pela estrada de
Winchester h uma trilha fora de uso que d numa antiga pedreira.  onde se
escondem. Antes era chamada de Pedreira de Sally.
         A pequena Sally, com sete anos, reclamou:
         - Mas no tenho nenhuma pedreira!
         Todos riram.
         Em seguida ficaram em silncio novamente. Richard estava exuberante e
determinado.
         - Muito bem - disse, com firmeza. - A Pedreira de Sally.

        - Ns tnhamos trabalhado duro a manh inteira, arrancando um enorme
toco de rvore em cima de uma colina - disse Philip. - Quando voltamos, meu
irmo Francis estava no cercado das cabras, segurando voc no colo. Tinha um
dia, apenas.
        A expresso de Jonathan era grave. Aquele era um momento solene para
ele. Philip examinou o Mosteiro de St.-John-in-the-Forest. No havia muita
floresta  vista agora: atravs dos anos os monges haviam derrubado muitos
acres, e a construo era cercada por campos. Havia mais edifcios de pedra - a
casa do cabido, um refeitrio e um dormitrio -, alm de uma poro de celeiros
e cocheiras de madeira, menores. Nem de longe se parecia com o lugar de onde
sara havia dezessete anos. As pessoas eram diferentes, tambm. Diversos jovens
monges daquele tempo agora ocupavam posies de responsabilidade. William
Beauvis, que causara problema jogando cera quente na careca do mestre dos
novios, tanto tempo antes, agora era o prior ali. Alguns tinham ido embora: o
encrenqueiro Peter de Wareham estava em Canterbury, trabalhando para um
ambicioso jovem arcediago chamado Toms Becket.
        - Eu gostaria de saber como eles eram - disse Jonathan. - Refiro-me a
meus pais.
        O prior sentiu comiserao por ele. Tambm perdera os pais, mas
quando tinha seis anos, e podia se lembrar de ambos bastante bem: sua me,
calma e amorosa, seu pai, alto, de barba negra e - pelo menos para Philip -
corajoso e forte. Jonathan no tinha nem mesmo isso. Tudo o que sabia sobre os
pais  que no o tinham desejado.
        - Podemos adivinhar muita coisa sobre eles - disse o prior.
        -  mesmo? - perguntou o jovem ansiosamente. - O qu?
        - Eram pobres - disse Philip. - Gente rica no tem motivo para
abandonar os filhos. No tinham amigos: amigos sabem quando se est
esperando um filho, e fazem perguntas se uma criana desaparece. Estavam
desesperados. S pessoas desesperadas podem suportar a dor de perder um filho.
        O rosto de Jonathan estava tenso com as lgrimas que no derramava.
Philip quis chorar por ele, aquele menino que todos diziam - era to parecido
consigo. Queria poder dar-lhe algum consolo, dizer-lhe alguma coisa calorosa e
animadora sobre seus pais; mas como poderia afirmar que tinham amado o
menino, se o haviam deixado para morrer?
        - Por que Deus faz essas coisas? - perguntou o jovem monge.
        Philip viu sua oportunidade.
        - Quando se comea a fazer esse tipo de pergunta, termina-se sem saber
de nada, confuso. Neste caso, porm, penso que a resposta seja clara. Deus
queria voc.
        - Acha mesmo?
        - Nunca lhe disse antes? Pois sempre acreditei nisso. Foi o que declarei
aos monges aqui, no dia em que voc foi encontrado. Disse que Deus o mandara
com um objetivo que s Ele sabia, e que era nosso dever cri-lo no seu servio
para que voc tivesse condies de cumprir a tarefa que Ele designara.
        - Gostaria de saber se minha me sabe disso.
        - Se ela est com os anjos, sabe.
        - O que acha que poder ser minha tarefa?
        - Deus precisa de monges que sejam escritores, ilustradores, msicos e
fazendeiros. Precisa de homens que desempenhem funes absorventes, como
despenseiro, prior ou bispo. E tambm de homens capazes de negociar com l,
curar doentes, educar meninos e construir igrejas.
         -  difcil imaginar que Ele tenha uma tarefa especfica para mim.
         - Pois no posso pensar que Ele fosse despender tanta energia com voc
se no tivesse - assegurou Philip, com um sorriso. - No entanto, pode ser que
no seja um papel grande ou proeminente em termos mundanos. Ele pode
querer que voc seja um desses monges quietos, um homem humilde que devota
a vida  prece e  contemplao.
         Jonathan ficou desapontado.
         - Acho que sim.
         Philip riu.
         - Mas no creio. Deus no ia fazer uma faca com madeira, ou a camisa de
uma dama com couro de sapato. Voc no e o material certo para uma vida de
contemplao, e Deus sabe disso. Meu palpite  que quer que voc lute por Ele, e
no que cante para Ele.
         - Certamente espero que assim seja.
         - Mas neste exato momento Ele quer que voc v ver o irmo Leo e
descubra quantos queijos tem para o despenseiro de Kingsbridge.
         - Certo.
         - Vou conversar com meu irmo na casa do cabido. E lembre-se: se
qualquer dos monges lhe falar a respeito de Francis, diga o mnimo que puder.
         - Nada direi.
         - V andando.
         Jonathan atravessou o ptio rapidamente. Seu ar solene j o abandonara,
e sua natural exuberncia retornara antes que chegasse  leiteria. Philip observou-
o at que ele desaparecesse dentro da construo. Eu era exatamente assim,
pensou, s que talvez no to esperto.
         O prior seguiu na direo oposta at a casa do cabido. Francis mandara
uma mensagem pedindo-lhe que se encontrasse com ele discretamente. No que
dizia respeito aos monges de Kingsbridge, Philip estava fazendo uma visita de
rotina a um pequeno mosteiro. O encontro no podia ser escondido dos monges
dali,  claro, mas eles eram to isolados que no tinham a quem contar. Somente
o prior do mosteiro ia a Kingsbridge, e Philip o fizera jurar segredo.
         Ele e Francis tinham chegado pela manh, e embora no pudessem alegar
que o encontro fora acidental, estavam fingindo que fora organizado apenas pelo
prazer de se verem um ao outro. Ambos haviam assistido  missa e depois
jantado com os monges. Agora era a primeira chance que tinham para conversar
a ss.
         Francis estava aguardando na casa do cabido, sentado num banco de
pedra de encontro  parede. Philip quase nunca via sua prpria imagem - no
havia espelhos em um mosteiro -, de modo que avaliava seu envelhecimento
atravs das mudanas no irmo, que era apenas dois anos mais moo. Francis,
aos quarenta e dois, tinha uns poucos fios prateados no cabelo negro, e uma
poro de rugas de fadiga em torno dos brilhantes olhos azuis. Estava muito mais
volumoso no pescoo e na cintura do que na ltima vez em que o irmo o vira.
Provavelmente estou com mais cabelos brancos e menos quilos em excesso,
pensou Philip; mas qual de ns ter mais rugas de preocupao?
        Sentou-se ao lado do irmo, de frente para o salo octogonal vazio.
        - Como vo as coisas? - perguntou Francis.
        - Os selvagens esto por cima novamente - disse Philip. - O priorado est
ficando sem dinheiro e praticamente paramos de construir a catedral,
Kingsbridge est declinando, metade do condado morre de fome e no  seguro
viajar.
        Francis assentiu.
        - Acontece o mesmo em toda a Inglaterra.
        - Talvez os selvagens fiquem para sempre no controle da situao - disse
o prior melancolicamente. - Talvez a cobia sempre tenha mais valor que a
sabedoria nos conselhos dos poderosos; talvez o medo sempre ultrapasse a
piedade na mente de um homem com uma espada na mo.
        - Voc geralmente no  to pessimista.
        - Fomos atacados por muitos fora-da-lei algumas semanas atrs. Foi
lastimvel: nem bem os defensores da cidade tinham matado uns poucos deles,
os fora-da-lei comearam a brigar entre si. Mas quando bateram em retirada, os
nossos rapazes perseguiram os pobres coitados e chacinaram todos os que
puderam pegar. Revoltante.
        Francis sacudiu a cabea.
        -  difcil de entender.
        - Acho que consigo - disse o prior. - Eles estavam assustados, e s
conseguiram exorcizar o medo que sentiam derramando o sangue das pessoas
que os tinham assustado. Vi isso nos olhos dos homens que mataram nossos
pais. Mataram porque estavam assustados. Mas o que pode afastar o seu medo?
        Seu irmo suspirou.
        - Paz, justia, prosperidade... coisas difceis de conseguir.
        Philip concordou.
        - Bem, o que voc est querendo?
        - Estou trabalhando para o filho de Matilde. Seu nome  Henrique.
        Philip j ouvira falar desse Henrique.
        - Como  ele?
        - Um rapaz muito inteligente e determinado. Seu pai est morto, de
modo que  o conde de Anjou. Tambm  o duque da Normandia, por ser o
neto mais velho do velho Henrique, que foi rei da Inglaterra e duque da
Normandia. E se casou com Alienor de Aquitnia, de modo que tambm  o
duque de Aquitnia.
        - Governa um territrio maior que o rei da Frana.
        - Exatamente.
        - Mas como  ele?
        - Educado, trabalhador, ativo, irrequieto, voluntarioso. Tem um
temperamento assustador.
        - s vezes eu gostaria de ter um temperamento assim - disse Philip. - Faz
com que todo mundo obedea sempre. Mas como no h quem no conhea
minha ponderao, nunca sou obedecido com a mesma presteza que se dedica a
um prior que pode explodir a qualquer instante.
        Francis riu.
        - Continue do jeito que voc  - disse, e ficou srio de novo. - Henrique
me fez perceber a importncia da personalidade do rei. Olhe s para Estvo: sua
capacidade de julgamento  fraca;  determinado apenas por curtos espaos de
tempo, e depois desiste;  corajoso ao ponto de cometer tolices, e perdoa os
inimigos o tempo todo. As pessoas que o traem arriscam muito pouco: sabem
que podem contar com sua condescendncia. Consequentemente, luta h dezoito
anos sem sucesso para governar uma terra que era um reino unido quando ele
assumiu o poder. Henrique j conseguiu mais controle sobre sua coleo de
ducados e condados anteriormente independentes do que Estvo jamais teve.
        Philip foi assaltado por uma idia.
        - Por que Henrique mandou voc  Inglaterra?
        - Para examin-la.
        - E o que encontrou?
        - Um reino que no tem lei e passa fome, abatido por tempestades e
devastado pela guerra.
        Philip concordou pensativamente. O jovem Henrique era o duque da
Normandia porque era o filho mais velho de Matilde, a nica filha legtima do
velho rei Henrique, que fora duque da Normandia e rei da Inglaterra.
        Por essa linha dinstica, o jovem Henrique podia tambm pretender o
trono da Inglaterra.
        Sua me apresentara a mesma pretenso, mas no tivera xito por ser
mulher e ter como marido um angevino. Mas o jovem Henrique no apenas era
homem com tambm tinha o mrito adicional de ser ao mesmo tempo
normando (por parte de me) e angevino (por parte de pai).
        - Henrique vai se candidatar ao trono da Inglaterra? - perguntou Philip.
        - Depende do meu relatrio - respondeu Francis.
        - E o que voc lhe dir?
        - Que nunca haver uma poca melhor do que a atual.
        - Que Deus seja louvado - disse o prior.
         No caminho para o castelo do bispo Waleran, o conde William parou no
Moinho Cowford, de sua propriedade. O moleiro, um severo homem de meia-
idade chamado Wulfric, tinha o direito de moer todo o gro produzido em onze
aldeias prximas. Em troca, ficava com duas sacas em cada vinte: uma para si e
outra para William.
         Hamleight dirigiu-se para l a fim de receber o que lhe era devido.
Normalmente no fazia isso em pessoa, mas aqueles no eram tempos normais.
Agora era preciso providenciar uma escolta armada para cada carroa que
transportasse farinha ou qualquer coisa comestvel. A fim de usar sua gente do
modo mais ecnomico, adquirira o hbito de levar consigo uma ou duas carroas,
sempre que se deslocava com seu bando de cavaleiros, para cobrar o que fosse
possvel.
         O aumento no crime era uma consequncia secundria lamentvel da sua
poltica firme com maus rendeiros. Gente sem terra frequentemente se voltava
para o roubo. De um modo geral, no eram mais eficientes como ladres do que
tinham sido como fazendeiros, e William esperara que a maioria desistisse
durante o inverno. A princpio, suas expectativas haviam sido correspondidas: os
fora-da-lei ou atacavam viajantes solitrios que pouco tinham para ser roubado,
ou desfechavam ataques mal organizados contra alvos bem defendidos.
Ultimamente, contudo, as tticas deles haviam se aperfeioado. Agora sempre
atacavam pelo menos com o dobro do efetivo da fora defensora.
         Apareciam quando os celeiros estavam cheios, sinal de que faziam
reconhecimentos cuidadosos. Seus ataques eram repentinos e rpidos, e tinham a
coragem do desespero.
         No entanto, no ficavam para combater: cada homem fugia assim que
conseguia pr as mos numa ovelha, num presunto, num queijo, num saco de
farinha ou de prata. No adiantava persegui-los, pois se dispersavam na floresta,
dividindo-se e fugindo em todas as direes. Algum os estava comandando, e o
fazia exatamente do modo como William o teria feito.
         O sucesso dos fora-da-lei humilhou o conde. Fez com que ele parecesse
um bufo incapaz de policiar o prprio condado. Para piorar a situao,
raramente roubavam qualquer coisa de outra pessoa. Parecia que deliberadamente
o estavam desafiando. No havia nada que William detestasse mais que a
sensao de que estivessem rindo dele s suas costas. Passara a vida forando as
pessoas a respeit-lo e  sua famlia, e aquele bando de proscritos estava
desfazendo todo o seu trabalho.
         Especialmente humilhante para Hamleigh era o que estavam dizendo
dele: que era bem feito, que tratara impiedosamente os arrendatrios de suas
terras e que agora estavam se vingando, que fora ele o causador do que agora lhe
acontecia. Esse tipo de conversa o deixava cego de raiva.
         Os aldees de Cowford ficaram assustados e temerosos quando William
e seus cavaleiros chegaram. O conde olhou ameaadoramente os rostos magros e
apreensivos que surgiam nos portais e desapareciam rapidamente. Aquelas
pessoas tinham mandado o padre para pedir que fossem autorizadas a moer seu
prprio gro naquele ano, dizendo que no teriam condies de dar um dcimo
ao moleiro. William sentira-se tentado a arrancar a lngua do padre pela
insolncia.
         O tempo estava frio, e havia gelo na orla da represa do moinho. A roda
estava parada, e a m, silenciosa. Uma mulher saiu da casa ao lado do moinho.
William sentiu uma pontada de desejo quando a viu. Tinha cerca de vinte anos,
rosto bonito e uma linda cabeleira escura cacheada. A despeito da crise, seus
seios eram grandes e as coxas, fortes. Ao aparecer, mostrava um ar atrevido, mas
a viso dos cavaleiros de William apagou-o do seu rosto e ela se enfiou dentro de
casa.
         - No se agradou de ns - disse Walter. - Deve ter visto Gervase. - Era
uma piada antiga, mas eles riram assim mesmo. Amarraram os cavalos. No era o
mesmo grupo que William reunira em torno de si quando a guerra civil terminara.
Walter ainda estava com ele, claro, assim como Gervase e Hugh; mas Gilbert
morrera na batalha inesperadamente sangrenta com os operrios da pedreira, e
tinha sido substitudo por Guillaume; e Miles perdera um brao numa luta de
espada por causa do jogo de dados numa cervejaria de Norwich, e Louis
ingressara no grupo. No eram mais garotos, mas falavam e agiam como se
fossem, rindo e bebendo, jogando e frequentando bordeis.
         William perdera a conta das cervejarias quebradas, dos judeus
atormentados e das virgens defloradas pelo bando.
         O moleiro apareceu. Sem dvida a sua expresso azeda era devida 
perene impopularidade dos moleiros. A cara emburrada tinha tambm um ar de
ansiedade. Isso agradava ao conde, que gostava que as pessoas ficassem ansiosas
quando aparecia.
         - Eu no sabia que tinha uma filha, Wulfric - disse William, com olhar
lbrico. - Voc a esteve escondendo de mim.
         - Aquela  Maggie, minha mulher - disse ele.
         - Mentira. Sua mulher  uma velha ruiva esmirrada; eu me lembro dela.
         - Minha May morreu no ano passado, milorde. Casei-me de novo.
         - Seu cachorro velho e sujo! - disse William, sorrindo. - Essa deve ser
trinta anos mais moa que voc!
         - Vinte e cinco...
         - Chega desta conversa. Onde est minha farinha? Um saco em vinte!
         - Tudo aqui, milorde. Se fizer o favor de entrar...
         O caminho para o moinho passava por dentro da casa. William e os
cavaleiros seguiram Wulfric no interior do cmodo nico. A jovem nova mulher
do moleiro estava ajoelhada diante do fogo, pondo umas achas de lenha. Ao
inclinar-se a tnica ficou esticada na parte de trs. Hamleigli observou que tinha
os quadris cheios. A mulher do moleiro era a ltima pessoa a passar fome numa
crise, claro.
         O conde parou, olhando para o seu traseiro. Os cavaleiros riram e o
moleiro remexeu-se, inquieto. A garota olhou para trs, percebeu que a
observavam e levantou-se envergonhada.
         William piscou para ela.
         - Traga-nos um pouco de cerveja, Maggie - disse ele; - somos homens
sedentos.
         Atravessaram a porta que dava no moinho. A farinha estava em sacos
empilhados em torno da parte externa da eira circular. No havia muitos.
Normalmente as pilhas eram mais altas que um homem.
         - Isto  tudo? - perguntou o conde.
         - Foi uma safra muito fraca, milorde - disse Wulfric, nervosamente.
         - Onde est a minha parte?
         - Aqui, milorde. - Ele apontou para uma pilha de oito ou nove sacos.
         - O qu? - William sentiu o rosto ficar congestionado. - Tenho duas
carroas a fora e voc me oferece isso?
         O rosto de Wulfric tomou um ar ainda mais aflito.
         - Sinto muito, milorde.
         Hamleigh contou os sacos.
         - So apenas nove!
         -  s o que h - afirmou Wulfric, quase chorando. - Veja s os meus ao
lado dos seus, a mesma coisa...
         - Seu co mentiroso! - esbravejou William. - Voc a vendeu...
         - No, milorde - insistiu Wulfric. - Isso  tudo o que sempre houve.
         Maggie apareceu no portal com seis canecos de cerveja numa bandeja.
Estendeu-a a cada um dos cavaleiros. Todos apanharam um caneco e beberam,
sequiosamente. William ignorou-a. Estava irritado demais para beber. Ela
permaneceu aguardando, com o caneco remanescente na bandeja.
         - O que  tudo isso a? - perguntou William, apontando para o resto dos
sacos, uns vinte e cinco ou trinta empilhados de encontro s paredes.
         - Esto para ser apanhados, milorde. Pode ver a marca do proprietrio
nos sacos...
         Era verdade: cada saco era marcado por uma letra ou smbolo. Podia ser
um truque, claro, mas no havia meios de Hamleigh descobrir a verdade. Achava
aquilo extremamente irritante. Mas no era prprio dele aceitar aquele tipo de
situao.
         - No acredito em voc - disse. - Andou me roubando.
         Wulfric foi respeitosamente insistente, muito embora sua voz tremesse.
         - Sou honesto, milorde.
         - Ainda est para nascer um moleiro honesto.
         - Milorde - o moleiro engoliu em seco -, nunca roubei nem um gro do
seu trigo...
         - Aposto como esteve me roubando descaradamente.
         O suor escorreu pelo rosto de Wulfric, apesar do tempo frio.
         Ele enxugou a testa com a manga.
         - Estou pronto a jurar por Jesus e todos os santos...
         - Cale a boca.
         O moleiro ficou em silncio.
         William estava ficando cada vez mais furioso, mas ainda no decidira o
que fazer. Queria dar um susto e tanto em Wulfric, talvez deixar que Walter o
surrasse com suas luvas de cota de malha, possivelmente levar um pouco ou toda
a farinha do moleiro. - Ento seu olhar pousou em Maggie, que segurava a
bandeja com o ltimo caneco de cerveja, o rosto bonito rgido de medo, os seios
grandes e jovens estourando na tnica florida, e pensou na punio perfeita para
o moleiro.
         - Agarre  mulher - disse para Walter, com o canto da boca. E para
Wulfric: - vou dar-lhe uma lio.
         Maggie viu Walter deslocando-se, mas no teve tempo de fugir. Quando
se virou, ele agarrou-lhe o brao e a puxou. A bandeja caiu ruidosamente e a
cerveja derramou-se no cho. Walter torceu-lhe o brao nas costas e segurou-a.
Ela tremia de medo.
         - No, largue-a, por favor! - implorou o marido, em pnico.
         William balanou a cabea, satisfeito. Wulfric ia ver sua jovem mulher ser
estuprada por diversos homens e seria impotente para salv-la. Da prxima vez
teria gro suficiente para satisfazer seu lorde.
         - Sua mulher est engordando com po feito de farinha roubada, Wulfric
- disse o conde -, enquanto o resto de ns passa necessidade. Vamos dar uma
olhada para ver se est mesmo muito gorda, est bem? - Ele fez um sinal para
Walter.
         O cavaleiro agarrou a gola da tnica de Maggie e puxou-a com fora para
baixo. A roupa rasgou e caiu. Por baixo ela usava uma camisa de linho que ia at
os joelhos.
         Seus seios amplos subiam e desciam, arfando de medo. William adiantou-
se, em frente a ela. Walter torceu-lhe o brao com mais fora, fazendo-a arquear
as costas com a dor e empinar mais os seios. O conde olhou para Wulfric e
agarrou-os, massageando-os. Eram macios e pesados.
         O moleiro deu um passo  frente.
         - Seu demnio...
         - Agarrem-no - ordenou William secamente. Louis segurou Wulfric por
ambos os braos e o manteve imvel.
         Hamleight rasgou a camisa de baixo da garota. Ficou com a boca seca ao
contemplar seu voluptuoso corpo branco.
         - No, por favor - pediu o moleiro.
         William sentiu seu desejo crescendo.
         - Deitem-na.
         Maggie comeou a gritar.
         O conde desafivelou o cinto da espada e deixou-o cair no cho, enquanto
os cavaleiros pegavam Maggie pelos braos e pernas. Ela no tinha esperana de
resistir a quatro homens fortes, mas assim mesmo no parava de se debater e
gritar.
         William gostava daquilo. Os seios dela balanavam com o movimento, e
as coxas se abriam e se fechavam, alternadamente ocultando e revelando seu
sexo. Os quatro cavaleiros a prenderam deitada na eira.
         Hamleigh ajoelhou-se entre as pernas de Maggie e ergueu a tnica. Olhou
para Wulfric. Ele estava tresloucado. Contemplava a cena com os olhos
arregalados e fixos, horrorizado, e murmurava pedidos de misericrdia que no
podiam ser ouvidos por causa dos gritos da sua mulher. William desfrutou o
momento: a mulher aterrorizada, os cavaleiros mantendo-a deitada no cho 
fora, o marido assistindo a tudo. Ento os olhos de Wulfric se desviaram. O
conde sentiu o perigo. Todos ali dentro estavam olhando para ele e para a garota.
A nica coisa que poderia distrair a ateno do moleiro era a possibilidade de
socorro. Virou a cabea na direo da porta.
         Nesse momento alguma coisa pesada e dura o atingiu com fora na
cabea.
         Ele urrou de dor e caiu em cima de Maggie. Seu rosto bateu no dela.
Subitamente ouviu homens gritando, muitos homens. com o canto do olho viu
Walter cair, como se tambm tivesse sido atingido por um golpe. Os cavaleiros
largaram a garota. William olhou para o seu rosto e viu choque e alvio. Ela
comeou a se contorcer para sair de baixo dele. O conde deixou-a e afastou-se
rolando rapidamente para o lado.
         A primeira coisa que enxergou sobre si foi um homem de aspecto
selvagem com um machado de lenhador, e pensou: Pelo amor de Deus, quem 
ele? O pai da garota? Viu Guillaume levantar e virar-se, e no instante seguinte o
machado se abateu com violncia sobre o pescoo desprotegido do cavaleiro, a
lmina afiada cortando fundo a carne. Guillaume caiu em cima de William,
morto. O sangue dele esguichou em toda a tnica do conde.
         Hamleigh empurrou o cadver. Quando conseguiu enxergar de novo, viu
que o moinho fora invadido por uma multido de homens esfarrapados,
descabelados e sujos, armados com porretes e machados. Havia uma poro
deles. No havia dvida de que estava em dificuldades. Os aldees teriam ido
salvar Maggie? Que atrevimento! Haveria alguns enforcamentos na aldeia antes
que a noite casse. Enfurecido, conseguiu levantar-se e levou a mo ao punho da
espada.
         No tinha espada. Deixara cair o cinturo para poder estuprar a garota.
         Gervase e Louis combatiam ferozmente aquilo que parecia um imenso
bando de mendigos. Havia diversos camponeses mortos no cho; no obstante
isso, os trs cavaleiros estavam sendo lentamente forados a recuar, William viu
Maggie, nua e gritando, abrindo caminho desesperadamente, a fim de dirigir-se
para a porta, e mesmo na sua confuso e medo sentiu desejo por aquele traseiro
redondo e branco. Depois viu que Wulfric brigava com alguns atacantes. Por que
o moleiro estaria lutando com os homens que tinham vindo salvar sua mulher?
Que diabo estava acontecendo?
         Desnorteado, procurou o cinturo da sua espada. Estava no cho, quase
a seus ps. Pegou-o, desembainhou a espada e deu trs passos para trs, a fim de
continuar fora da briga por mais um momento. Olhando alm da confuso, viu
que a maior parte dos atacantes no estava lutando - apanhavam sacos de farinha
e fugiam. William comeou a entender. Aquilo no era uma operao de socorro
realizada por aldees ultrajados. Era um grupo atacante de fora. No estavam
interessados em Maggie nem tinham sabido que o conde e seus cavaleiros
estavam ali no moinho. S queriam roubar sua farinha.
         Era bvio quem deviam ser os atacantes: proscritos. Sentiu um mpeto de
clera. Era sua chance de contra-atacar aquele bando de fanticos que vinha
aterrorizando o condado e esvaziando seus celeiros.
         Seus cavaleiros estavam esmagadoramente ultrapassados em efetivo.
Havia pelo menos vinte atacantes. William ficou atnito com a coragem dos fora-
da-lei. Camponeses normalmente se espalhariam como galinhas ante um bando
de cavaleiros, mesmo que tivessem duas ou dez vezes o seu nmero. Mas aquela
gente lutava duro, e no se desencorajava quando um caa. Pareciam prontos a
morrer, se necessrio. Talvez fosse porque iriam morrer de qualquer maneira, de
fome, se no roubassem aquela farinha.
         Louis estava lutando contra dois homens ao mesmo tempo quando um
terceiro veio por trs e atingiu-o com um martelo de cabea de ferro, de
carpinteiro. O cavaleiro caiu e permaneceu cado. O homem largou o martelo e
pegou sua espada. Agora havia dois cavaleiros contra vinte fora-da-lei. Mas
Walter estava se recuperando da pancada que levara na cabea e puxou a espada,
entrando na confuso. O conde fez o mesmo.
         Os quatro compunham uma formidvel equipe de combate, os fora-da-
lei foram forados a recuar, aparando desesperadamente o golpe das espadas
muito rpidas com seus porretes e machados. William comeou a pensar que o
moral deles podia ceder, e talvez debandassem. Ento um dos fora-da-lei gritou:
         - O conde legtimo!
         Era uma espcie de grito de guerra. Os outros se reanimaram e os fora-
da-lei lutaram mais vigorosamente. O grito repetido "O conde legtimo! O conde
legtimo!" gelou o corao de William, mesmo quando lutava pela prpria vida.
Significava que quem quer que com andasse aquele exrcito de proscritos estava
de olho no seu ttulo.
         Quanto a este, lutou com mais energia, como se o resultado daquela
refrega pudesse determinar o futuro do condado.
         Somente metade dos fora-da-lei combatiam realmente os cavaleiros,
constatou William. O resto transportava a farinha. O combate acomodou-se
numa troca regular de golpes e esquivas, estocadas e paradas. Como soldados que
sabem que a retirada est prxima, os fora-da-lei passaram a adotar um estilo
defensivo, cauteloso.
         Por trs dos proscritos que combatiam, os demais carregavam as ltimas
sacas de farinha para fora do moinho. Os fora-da-lei comearam a se retrair,
passando pelo portal que separava o moinho da casa. Hamleigh deu-se conta de
que, de qualquer maneira, eles fugiriam com quase toda a farinha. Em
pouqussimo tempo todo o condado saberia que o roubo fora realizado bem
debaixo do seu nariz. Iria ser o motivo de riso de todos. A idia o enfureceu
tanto que o conde pressionou ferozmente seu adversrio e atingiu o homem no
corao com uma estocada clssica.
         Nesse momento um fora-da-lei pegou Hugh com um golpe de sorte e
cravou a espada no seu ombro direito, pondo-o fora de ao. Agora havia dois
deles na porta, mantendo afastados os trs cavaleiros sobreviventes. Aquilo, por
si s, j era humilhante; mas depois, com monumental arrogncia, um dos
proscritos mandou, com um gesto, que o outro fosse embora. O homem
desapareceu, e o ltimo fora-da-lei recuou um passo, no cmodo nico da casa
do moleiro.
         Somente um cavaleiro cabia no portal para combater o proscrito. William
adiantou-se, empurrando para o lado Walter e Gervase: queria aquele homem
para si. Quando suas espadas se tocaram, o conde percebeu de imediato que
aquele homem no era nenhum campons desvalido: tratava-se de um
combatente experimentado, como ele prprio.
         Pela primeira vez o encarou, e o choque foi to grande que quase deixou
cair a espada. Seu adversrio era Richard de Kingsbridge.
         O rosto de Richard ardia de dio. William podia ver a cicatriz na sua
orelha mutilada. A fora do rancor de Richard amedrontou o conde mais que sua
coruscante espada.
         Hamleigh pensara haver esmagado o adversrio, mas ele estava de volta,
 testa de um exrcito maltrapilho que o fizera de tolo.
         Richard investiu violentamente contra o conde, tirando vantagem do seu
choque momentneo. William desviou uma estocada, ergueu a espada, aparou
outro golpe e recuou.
         O lder dos fora-da-lei pressionou, mas agora o conde estava
parcialmente protegido pelo portal, que restringia a capacidade de ataque do
adversrio a um nico tipo de estocada. Mesmo assim, William foi obrigado a
recuar mais ainda, at ficar em cima da eira do moinho, com Richard no portal.
No entanto, Walter e Gervase correram sobre ele, que ante a presso dos trs
voltou a recuar. Assim que ultrapassou o portal, os dois cavaleiros ficaram para
trs, permanecendo de novo William contra Richard.
         O conde percebeu que o adversrio estava numa posio pssima.
Quando ganhava terreno via-se lutando contra trs homens. Quando William se
cansava podia dar lugar a Walter. Era quase impossvel para Richard manter os
trs a distncia indefinidamente. Estava travando uma batalha perdida. Talvez
naquele dia, afinal, Hamleigh no sasse humilhado. Talvez matasse seu mais
antigo inimigo.
         Richard devia estar pensando mais ou menos o mesmo, e
presumivelmente chegara a concluso similar. No entanto, no havia aparente
perda de energia ou determinao.
         Olhou para William com um esgar selvagem que este achou enervante, e
adiantou-se, caindo a fundo. O conde desviou-se e tropeou. Walter adiantou-se
para defend-lo do golpe de misericrdia - mas, ao invs de arremeter, Richard
girou nos calcanhares e fugiu. Hamleigh levantou-se e Walter tropeou nele,
enquanto Gervase tentava se espremer para passar entre os dois. Foi preciso um
momento para os trs se desvencilharem uns dos outros, e Richard aproveitou
esse momento para cruzar o pequeno aposento, esgueirar-se para o lado de fora e
bater a porta. William correu atrs dele e a abriu. Os fora-da-lei estavam fugindo -
e, num humilhante golpe final, usavam os cavalos dos homens de William.
Quando este irrompeu de dentro da casa, viu sua prpria montaria, um soberbo
cavalo-de-batalha que lhe custara o resgate de um rei, com Richard na sela. O
cavalo obviamente fora solto e seguro para ele. William foi assaltado pelo
mortificante pensamento de aquela ser a segunda vez que seu maior inimigo
roubava um cavalo-de-batalha seu. Richard bateu nele com os calcanhares e o
animal empinou - no era manso com estranhos -, mas o rapaz era bom cavaleiro
e manteve-se na sela. Puxou as rdeas com fora, alternadamente para um e
outro lado, e o cavalo baixou a cabea. Nesse instante William atirou-se para a
frente e deu uma estocada; o animal, porm, estava corcoveando e a espada foi
espetar a parte de madeira da sela. Em seguida o cavalo disparou, descendo a rua
da vila atrs dos outros fora-da-lei fugitivos.
         O conde os observou com a morte no corao.
         O conde legtimo, pensou. O conde legtimo.
         Virou-se. Walter e Gervase estavam atrs dele. Hugh e Louis tinham sido
feridos, ele no sabia com que seriedade, e Guillaume estava morto, seu sangue
manchando toda a frente da tnica de William. Este sentia-se completamente
humilhado. Era com dificuldade que conseguia manter a cabea erguida.
         Por sorte a aldeia estava deserta: os camponeses haviam fugido,
preferindo no esperar para ver a ira do conde. O moleiro e sua mulher tinham
desaparecido, claro.
         Os proscritos levaram as montarias de todos os cavaleiros, deixando
apenas as duas carroas e seus respectivos bois.
         William olhou para Walter.
         - Voc viu quem era aquele ltimo?
         - Sim.
         O cavaleiro tinha o hbito de usar o menor nmero de palavras possvel
quando seu senhor estava com raiva.
         - Era Richard de Kingsbridge - disse Hamleigh. Walter assentiu.
         - E eles o chamaram de conde legtimo - finalizou William.
         O cavaleiro nada disse.
         O conde voltou para o moinho, atravessando a casa. Hugh estava se
sentando; sua mo esquerda apertava o ombro direito. Tinha o rosto plido.
         - Como est? - perguntou Hamleigh.
         - No  nada. Quem eram aquelas pessoas?
         - Um bando de fora-da-lei - respondeu William laconicamente. Olhou em
torno. Havia sete ou oito proscritos mortos ou feridos no cho. Localizou Louis
deitado de costas, com os olhos abertos. A princpio pensou que o homem
estivesse morto; ento Louis piscou.
         - Louis - disse o conde.
         O cavaleiro levantou a cabea, mas parecia confuso. Ainda no se
recuperara.
         - Hugh - ordenou William -, ajude Louis a subir em uma das carroas.
Walter, ponha o corpo de Guillaume na outra. - Ele os deixou e saiu.
         Nenhum dos aldees teria cavalos, mas o moleiro tinha um pequeno
cavalo malhado que pastava a grama rala da margem do rio. William encontrou a
sela e arriou o animal.
         Pouco depois se afastava a cavalo de Cowford, com Walter e Gervase
conduzindo os carros de boi.
         Sua fria no arrefeceu na jornada at o castelo do bispo Waleran. Na
verdade, quanto mais pensava no que descobrira, mais furioso ficava. Era
bastante ruim que os fora-da-lei tivessem sido capazes de desafi-lo; pior era
serem liderados pelo seu velho inimigo Richard, e intolervel que chamassem seu
lder de "conde legtimo".
         Se no fossem derrotados definitivamente, muito em breve ele os usaria
para desfechar um ataque direto contra William. Seria totalmente ilegal a
conquista do condado dessa maneira, claro; mas o conde tinha impresso de que
reclamaes contra a ilegalidade de um ataque, partidas dele, poderiam no ser
ouvidas com simpatia. O fato de Hamleigh ter sido emboscado, vencido e
roubado pelos fora-da-lei, e que todo condado estaria em breve rindo da sua
humilhao, no era o pior dos seus problemas.
        De repente, o poder que exercia sobre o condado estava sendo
seriamente ameaado.
        Precisava matar Richard,  claro. A questo era como encontr-lo. Ficou
ruminando o assunto todo o caminho at o castelo, e quando l chegou, decidira
que o bispo provavelmente tinha a chave do problema.
        Entraram no castelo de Waleran como uma cmica procisso numa feira,
o conde num cavalinho de pernas curtas, e seus cavaleiros conduzindo carros de
boi. William urrou ordens peremptrias para os homens do bispo, mandando um
buscar um enfermeiro para Hugh e Louis e outro, um padre para rezar pela alma
de Guillaume. Gervase e Walter foram para a cozinha, em busca de cerveja, e o
conde entrou na fortaleza e foi admitido nos aposentos privados de Waleran.
Hamleigh detestava ter que pedir qualquer coisa a ele, mas precisava da sua ajuda
para localizar Richard.
        O bispo estava lendo uma lista de contas, uma relao interminvel de
nmeros. Ergueu a cabea e viu o dio no rosto de William.
        - O que aconteceu? - perguntou, no tom ligeiramente divertido que
sempre enfurecia o conde. Hamleigh cerrou os dentes.
        - Descobri quem est organizando e liderando esses malditos fora-da-lei.
        Waleran ergueu uma sobrancelha.
        -  Richard de Kingsbridge.
        - Ah! - fez Waleran, balanando a cabea. - Claro. Faz sentido.
        -  perigoso - disse William, furioso. Ele odiava quando o bispo se
mostrava reflexivo e frio. - Chamam-no de "conde legtimo". - Apontou um dedo
para Waleran. - Voc certamente no quer aquela famlia de volta ao poder neste
condado; eles o odeiam, e esto do lado do prior Philip, seu velho inimigo.
        - Est bem, acalme-se - disse Waleran, condescendente. - Voc est certo,
no posso ter Richard de Kingsbridge como conde.
        William sentou-se. Seu corpo comeava a doer. Agora ele sentia as
consequncias de uma luta de um modo como nunca acontecera. Tinha os
msculos tensos, as mos dodas, ferimentos onde recebera golpes ou batera no
cho ao cair. S tenho trinta e sete anos, pensou; ser que  agora que comea a
velhice?
        - Preciso matar Richard - disse. - Depois que ele morrer, os proscritos
voltaro a ser uma turba inofensiva.
        - Concordo.
        - Mat-lo ser fcil. O problema  encontr-lo. Mas voc pode me ajudar
com isso.
        Waleran esfregou o nariz adunco com o polegar.
        - No vejo como.
        - Escute, se eles esto organizados, tm que estar sediados em algum
lugar.
        - No sei o que voc quer dizer. Eles esto na floresta.
        - Normalmente no se pode encontrar proscritos na floresta, porque
ficam espalhados por toda parte. A maioria no passa duas noites seguidas no
mesmo lugar. Acendem o fogo num ponto qualquer, e dormem em rvores. Mas
se voc quer organizar essa gente, tem que fazer com que todos durmam juntos.
 preciso ter um esconderijo permanente.
        - Ento temos que descobrir a localizao do esconderijo de Richard.
        - Exatamente.
        - Como voc prope que faamos isso?
        -  a que voc entra.
        Waleran fez uma expresso ctica.
        - Aposto como metade da populao de Kingsbridge sabe onde ele est -
disse William.
        - Mas no nos diro. Todo mundo em Kingsbridge nos odeia.
        - Nem todo mundo - contraps William. - Nem todo mundo.

         Sally adorava o Natal.
         A comida tpica era doce, em sua maior parte: bonecas feitas de po de
gengibre, manjar de trigo preparado com mel e ovos; perada, o doce vinho de
pra que a fazia dar risadinhas; e midos de veado, tripas cozidas durante horas e
depois assadas numa torta doce. Havia menor quantidade naquele ano, por causa
da crise, mas Sally gostava de tudo assim mesmo.
         Gostava de decorar a casa com azevinhos e de pendurar o ramo dos
beijos, embora estes a fizessem rir ainda mais que o vinho de pra. O primeiro
homem a atravessar a soleira da porta trazia sorte, desde que tivesse cabelo preto:
o pai de Sally tinha que ficar dentro de casa toda a manh do Natal, pois seu
cabelo ruivo traria m sorte s pessoas. Ela adorava a representao teatral da
Natividade na igreja. Gostava de ver os monges vestidos como reis orientais,
anjos e pastores, e tinha ataques de riso quando todos os falsos dolos caam com
a chegada da Sagrada Famlia ao Egito.
         Mas o melhor de tudo era o menino bispo. No terceiro dia do Natal os
monges vestiam o novio mais moo com trajes de bispo e todos tinham que lhe
obedecer.
         A maior parte dos habitantes da cidade esperava no adro do priorado que
o menino bispo sasse. Inevitavelmente ele ordenava aos cidados mais velhos e
dignos que fizessem tarefas subalternas como buscar lenha ou lavar pocilgas.
Dava-se tambm ares exagerados e insultava as pessoas investidas de autoridade.
No ano anterior fizera o sacristo depenar uma galinha e o resultado fora
hilariante, pois o religioso no tinha idia do que fazer e as penas se espalharam
por toda parte.
         Ele apareceu em clima de grande solenidade, um menino com cerca de
doze anos de idade e um sorriso traquinas, vestido com um manto de seda
prpura, carregando um bculo de madeira e transportado nos ombros de dois
monges, seguido pelo resto do mosteiro. Todos batiam palmas e gritavam. A
primeira coisa que ele fez foi apontar para o prior Philip e dizer:
         - Voc, rapaz! V at o estbulo e escove o jumento!
         Todos caram na gargalhada. O velho jumento era notoriamente mal-
humorado, e nunca era escovado.
         - Sim, milorde bispo - assentiu o prior, com um sorriso cordial, e foi
cumprir sua tarefa.
         - Adiante! - ordenou o bispo menino. A procisso deslocou-se para fora
do adro, sendo seguida pelos habitantes da cidade. Algumas pessoas escondiam-
se e trancavam as portas, com medo de ser escolhidas para alguma tarefa
desagradvel; mas ento perdiam o divertimento. Toda a famlia de Sally viera:
sua me e seu pai, o irmo Tommy, a tia Martha e at mesmo o tio Richard, que
voltara inesperadamente para casa na noite anterior.
         O menino bispo levou-os primeiro para a cervejaria, como era
tradicional. Ali exigiu cerveja de graa para si e para todos os novios. O
cervejeiro serviu a todos de boa vontade.
         De repente Sally viu-se sentada num banco ao lado do irmo Remigius,
um dos monges mais velhos. Era um homem alto e inamistoso, e ela nunca falara
com ele antes, mas agora Remigius lhe dirigiu um sorriso e disse:
         - Que bom que o seu tio Richard tenha vindo para casa no Natal!
         - Ele me deu um gato de madeira que talhou com sua faca.
         - Que bom! Ele vai ficar muito tempo, desta vez?
         Sally franziu a testa.
         - No sei.
         - Acho que vai ter que voltar logo?
         - Sim. Ele mora na floresta agora.
         - Voc sabe onde?
         - Sei.  num lugar chamado Pedreira de Sally... Que  o meu nome! - Ela
deu uma risada.
         -  mesmo. Que interessante!
         - E agora - disse o menino bispo, depois que tinham bebido -, Andrew
Sacristo e o irmo Remigius lavaro as roupas da viva Poli.
         Sally deu uma risada e bateu palmas. A viva Poll era uma mulher
rotunda, de cara vermelha, que lavava roupa para fora. Os dois monges exigentes
iriam odiar o trabalho de lavar as camisas de baixo e as meias fedorentas daquela
gente que mudava de roupa de seis em seis meses.
        A multido deixou a cervejaria e carregou o menino bispo em procisso
at a casa de Poli, de um nico cmodo, que ficava perto do cais. A viva teve
um ataque de riso e ficou ainda mais vermelha quando lhe disseram quem ia lavar
sua roupa.
        Andrew e Remigius carregaram uma pesada cesta de roupa da casa at a
margem do rio. Andrew abriu a cesta, e Remigius com uma expresso de total
repugnnncia no rosto, tirou a primeira pea.
        - Cuidado com esta a, irmo Remigius, que  a minha camisola - gritou
atrevidamente uma mulher.
        Remigius corou e todos riram. Os dois monges de meia-idade resolveram
encarar com coragem a tarefa e comearam a lavar as roupas na gua do rio, com
os habitantes da cidade gritando conselhos e encorajamentos. Andrew estava
aborrecido, Sally podia ver, mas Remigius tinha um ar estranhamente contente.


         Uma imensa bola de ferro pendurada por uma corrente numa armao de
madeira, como a corda de uma forca num patbulo. Alm da corrente havia
tambm uma corda amarrada na bola. A corda subia e passava por uma polia
instalada num poste do andaime, de onde descia para o cho, onde dois serventes
a seguravam. Quando puxavam a corda, a bola era erguida e subia at tocar na
polia; a corrente ficava na horizontal, ao longo do brao da armao de madeira.
         A maior parte da populao de Shiring estava assistindo. Os homens
largaram a corda. A bola de ferro caiu e balanou, batendo na parede da igreja.
Houve um estrondo terrvel; a parede estremeceu e William sentiu o impacto do
cho sob seus ps. Pensou em como gostaria de ver Richard amarrado na parede
bem no ponto onde a bola batera. Ficaria esmagado como uma mosca.
         Os serventes puxaram a corda de novo. William se deu conta de que
estava contendo a respirao quando a bola parou l em cima. Os homens
largaram; a bola balanou, e dessa vez abriu um buraco na parede de pedra. A
multido aplaudiu. Era um mecanismo engenhoso.
         William sentiu-se feliz por ver o trabalho progredindo no local onde
construiria a nova igreja, mas tinha assuntos mais urgentes na cabea. Olhou em
torno, procurando o bispo Waleran, e localizou-o conversando com Alfred
Construtor. William aproximou-se e puxou o bispo de lado.
         - O homem j est a?
         -  possvel - respondeu Waleran. - Venha at a minha casa.
         Atravessaram a praa do mercado.
         - Voc trouxe seus soldados? - perguntou o bispo.
         - Claro. Duzentos. Esto esperando num bosque, logo na sada da cidade.
         Entraram na casa. William sentiu cheiro de presunto cozinhando e sua
boca se encheu de gua, a despeito da pressa que tinha. A maioria das pessoas
estava restringindo a comida naquele tempo, mas com Waleran parecia uma
questo de princpio no deixar que a crise modificasse seu estilo de vida. O
bispo nunca comia muito, mas gostava que todos soubessem que era por demais
rico e poderoso para ser afetado por meras colheitas.
         A casa de Waleran era tpica, com a frente estreita, um salo na frente,
uma cozinha atrs e um quintal nos fundos com uma latrina, uma colmeia e um
chiqueiro. O conde sentiu-se aliviado ao ver um monge esperando no salo.
         - Bom dia, irmo Remigius - disse Waleran.
         - Bom dia, milorde bispo. Bom dia, lorde William.
         William olhou ansiosamente para o monge. Era um homem nervoso, de
rosto arrogante e olhos azuis proeminentes. Seu rosto era vagamente familiar,
como uma das muitas cabeas tonsuradas que chefiavam servios em
Kingsbridge.
         H anos Hamleigh vinha ouvindo falar nele, como espio de Waleran no
campo do prior Philip, mas era a primeira vez que falava com o homem.
         - Voc tem alguma informao para mim? - perguntou.
         - Possivelmente - respondeu Remigius.
         O bispo tirou a capa guarnecida de pele e aproximou-se do fogo para
aquecer as mos. Um criado trouxe vinho quente de baga de sabugueiro em
clices de prata. O conde pegou um e bebeu, aguardando impacientemente que o
criado se fosse.
         Waleran tomou um gole do seu vinho e lanou um olhar duro a
Remigius. Quando o criado saiu, o bispo perguntou a ele:
         - Qual foi a desculpa que voc deu para sair do priorado?
         - Nenhuma - replicou o monge.
         Waleran ergueu uma sobrancelha.
         - No vou voltar. - disse Remigius desafiadoramente.
         - Como assim?
         O monge respirou fundo.
         - Voc est construindo uma catedral aqui.
         -  s uma igreja.
         - Vai ser muito grande. Voc est planejando torn-la, um dia, uma
catedral.
         Waleran hesitou:
         - Suponhamos, para prosseguir com a conversa, que voc esteja certo.
         - A catedral ter que ser governada por um cabido, seja de monges, seja
de cnegos.
         - E da?
         - Quero ser o prior.
            Aquilo fazia sentido, pensou William.
         - E voc est to confiante de que conseguir o cargo que deixou
Kingsbridge sem a permisso de Philip e sem uma desculpa - disse o bispo
causticamente.
         Remigius ficou sem graa. William teve pena dele. Quando Waleran
queria ser mordaz, qualquer um ficava desarvorado.
         - Espero que no esteja sendo excessivamente confiante - disse Remigius.
         - Presumivelmente voc pode nos levar a Richard.
         - Sim.
         - Bom homem! - interrompeu o conde, excitadamente.
         - Onde ele est?
         O monge permaneceu em silncio e olhou para o bispo.
         - Vamos, Waleran - disse William -, d-lhe o cargo, pelo amor de Deus!
         Ainda assim o bispo hesitou. Hamleigh sabia que ele odiava ser coagido.
Por fim veio a resposta:
         - Pois muito bem. Voc ser o prior.
         - E agora, onde est Richard? - perguntou William. Remigius continuou a
olhar para Waleran: - A partir de hoje?
         - A partir de hoje.
         Remigius virou-se para o conde.
         - Um mosteiro no  apenas uma igreja e um dormitrio. Precisa de
terras, fazendas, igrejas que paguem dzimos.
         - Diga-me onde est Richard, e lhe darei cinco aldeias com suas igrejas
paroquiais, s para comear - disse William.
         - A fundao do cabido precisar de um documento apropriado.
         - Voc o ter, no tema.
         - Vamos, homem - insistiu Hamleigh -, tenho um exrcito aguardando
fora da cidade. Onde  o esconderijo de Richard?
         - Um lugar chamado Pedreira de Sally, num desvio da estrada de
Winchester.
         - Eu a conheo! - William teve que se conter para no dar um grito de
triunfo. -  uma pedreira abandonada. Ningum mais vai l.
         - Eu me lembro - disse Waleran. - No  explorada h anos.  um bom
esconderijo; voc no saberia que era l a menos que descobrisse por acaso.
         - Mas  tambm uma armadilha - disse o conde, com jbilo selvagem. -
As encostas que foram exploradas so perpendiculares em trs lados. Ningum
escapar. Tambm no vou fazer prisioneiros. - Sua excitao aumentou ao
imaginar a cena. - Vou acabar com todos. Ser como matar galinhas num
galinheiro.
         Os dois religiosos olharam para ele com estranheza.
         - Est se sentindo um pouco enjoado, irmo Remigius? - perguntou
William sarcasticamente. - A idia de um massacre o repugna, milorde bispo? -
Ele tinha razo nas duas vezes, podia dizer pela expresso deles. Eram grandes
planejadores, aqueles religiosos, mas quando se tratava de derramamento de
sangue ainda tinham que confiar nos homens de ao. - Sei que vocs estaro
rezando por mim - disse ironicamente, indo embora.
         Seu cavalo estava amarrado do lado de fora, um garanho negro, que
substitura - embora no igualasse - o cavalo de batalha roubado por Richard.
Montou e saiu da cidade. No caminho, conteve a excitao e tentou pensar
friamente nas questes tticas.
         Imaginou quantos fora-da-lei haveria na Pedreira de Sally. Eles tinham
desfechado ataques com mais de cem homens de cada vez. Deviam ser pelo
menos duzentos, ento, ou talvez quinhentos. O efetivo de William poderia ser
suplantado, de modo que precisava se aproveitar ao mximo de todas as
vantagens. Uma delas era o fator surpresa.
         Outra era o armamento: a maior parte dos fora-da-lei s dispunha de
porretes, martelos ou, na melhor das hipteses, machados, e nenhum tinha
armadura. Contudo, a mais importante das vantagens de que William dispunha
eram os homens a cavalo. Os proscritos tinham poucos cavalos e no era
provvel que muitos estivessem arriados justamente no momento em que
atacasse. Para desequilibrar as coisas um pouco mais a seu favor, decidiu mandar
alguns arqueiros subir os dois lados do morro para disparar suas armas na
pedreira, poucos momentos antes do ataque principal.
         O mais importante era impedir qualquer dos fora-da-lei de fugir, at que
pelo menos estivesse certo de Richard ter sido capturado ou morto. Decidiu
determinar a um punhado de homens de confiana que ficassem por trs dos
atacantes que estivessem executando o assalto principal e pegassem os proscritos
que tentassem escapar.
         Walter estava esperando com os cavaleiros e homens de armas onde
William os deixara umas duas horas antes, mas estavam ansiosos, e seu moral era
alto: antecipavam uma vitria fcil.
         Pouco tempo depois saram trotando ao longo da estrada de Winchester.
         Walter seguiu ao lado do conde, sem falar. Um dos seus grandes trunfos
era a capacidade de permanecer em silncio. Hamleigh achava que a maioria das
pessoas falava com ele constantemente, mesmo quando nada havia para dizer,
decerto por nervosismo. Walter respeitava William, mas no ficava nervoso por
sua causa: estavam juntos h muito tempo.
         O conde sentia uma mistura familiar de ansiedade e medo mortal. Lutar
era a nica coisa no mundo que lhe fazia bem, e em todas as lutas arriscava a
vida. Mas essa incurso era especial. Teria uma chance de destruir o homem que
era um espinho em sua carne h quinze anos.
         Perto do meio-dia pararam numa vila grande o bastante para ter uma
cervejaria. William comprou po e cerveja para os homens, e deram gua aos
cavalos. Antes de se deslocarem novamente, deu instrues a todos.
         Poucas milhas depois desviaram-se da estrada de Winchester. Seguiram
por uma trilha quase invisvel, e Hamleigh no a teria notado se no estivesse
procurando por ela. Uma vez na trilha podia segui-la observando a vegetao:
havia uma faixa de quatro ou cinco jardas sem rvores maduras.
         Mandou os arqueiros seguirem na frente e, para dar-lhes uma vantagem,
fez os homens reduzirem o ritmo por alguns momentos. Era um dia claro de
janeiro, e as rvores desfolhadas praticamente no filtravam a luz fria do sol.
William no ia  pedreira h muitos anos, e no estava certo da distncia a que se
encontraria. No entanto, mais ou menos duas milhas depois de ter sado da
estrada, comeou a ver sinais de que a trilha estava sendo usada: vegetao
pisoteada, arbustos quebrados e lama remexida. Ficou satisfeito por ver
confirmada a informao de Remigius.
         Sentia-se tenso como a corda de um arco. Os sinais comearam a se
tornar muito mais evidentes: capim fortemente pisoteado, estrume de cavalo,
dejetos humanos. No fundo da floresta os fora-da-lei no tinham sequer tentado
ocultar sua presena. No havia mais dvida. Os proscritos estavam ali. A batalha
estava prestes a comear.
         O esconderijo deveria ser bem prximo. William aguou audio. A
qualquer momento seus arqueiros iniciariam o ataque, e haveria berros e pragas,
gritos de agonia e o relinchar dos cavalos aterrorizados.
         A trilha levava a uma vasta clareira, e o conde viu, a umas duzentas jardas
adiante, a entrada da Pedreira de Sally. No havia barulho. Algo sara errado. Seus
arqueiros no estavam atirando. Hamleigh sentiu um tremor de apreenso. O que
acontecera? Teriam seus homens sido emboscados e silenciosamente liquidados
pelas sentinelas?
         Nem todos, certamente.
         Mas no havia tempo para pensar: estava quase em cima da posio dos
fora-da-lei. Esporeou o cavalo, fazendo-o galopar. Seus homens o seguiram, e
todos dispararam na direo do esconderijo, estrepitosamente. O medo de
William evaporou-se na animao da carga.
         A entrada da pedreira era uma pequena ravina em curva, e o conde no
pde ver nada ao aproximar-se dela. Erguendo os olhos, viu alguns dos arqueiros
de p no topo do penhasco, olhando para dentro. Por que no estavam
disparando suas flechas? Teve uma premonio de desastre, e teria parado e se
virado se os cavalos em plena carga pudessem ser detidos. com a espada na mo
direita, segurando as rdeas com a esquerda, o escudo pendurado ao pescoo,
entrou a galope na pedreira abandonada.
         No havia ningum ali.
         O anticlimax o atingiu com a fora de um golpe. Quase chorou. Todos os
sinais estavam visveis: ele se sentira absolutamente seguro. Agora a dor da
frustrao retorceu suas vsceras.
         Quando os cavalos reduziram o passo, viu que aquele lugar fora o
esconderijo dos fora-da-lei no muito tempo antes. Havia abrigos improvisados
feitos com galhos e palha, restos de fogueiras utilizadas na preparao de comida
e uma esterqueira. Um canto da rea fora cercado e usado como curral para os
cavalos. Aqui e ali William via o lixo resultante da ocupao humana: ossos de
galinha, sacos vazios, um sapato gasto, uma panela quebrada. Uma das fogueiras
parecia ainda soltar fumaa.
         Teve uma sbita esperana: talvez eles tivessem acabado de sair e ainda
pudessem ser apanhados! Ento viu um vulto de ccoras junto ao fogo.
Aproximou-se. O vulto ergueu-se. Era uma mulher.
         - Ora, ora, William Hamleigh - disse ela. - Atrasado, como sempre.
         - Sua vaca insolente, cortarei sua lngua por causa disso! - disse ele.
         - Voc no tocar em mim - replicou ela calmamente. - J amaldioei
homens melhores que voc - prosseguiu, levando a mo ao rosto num gesto de
trs dedos, como uma feiticeira.
           Os cavaleiros recuaram, encolhendo-se, e o conde se persignou
protetoramente. A mulher o encarou, atrevida, com um par de surpreendentes
olhos dourados.
         - Voc no me conhece, William? Uma vez quis me comprar por uma
libra. - Ela riu. - Sorte sua no ter conseguido.
         Hamleigh lembrou-se daqueles olhos. Era a viva de Tom Construtor, a
me de Jack, a bruxa que vivia na floresta. Ficou realmente satisfeito por no t-la
comprado naquela vez. Queria dar o fora dali o mais depressa possvel, mas tinha
que interrog-la primeiro.
         - Est bem, bruxa - disse. - Richard de Kingsbridge esteve aqui?
         - At dois dias atrs.
         - E para onde ele foi, voc pode me dizer?
         - Oh, sim, posso - disse ela. - Ele e seus fora-da-lei foram combater por
Henrique.
         - Henrique? - repetiu William. Teve a horrvel sensao de que sabia a
que Henrique ela se referia. - O filho de Matilde?
         - Exatamente - confirmou ela.
         Hamleigh gelou. O enrgico jovem duque da Normandia poderia ter
xito onde sua me falhara - e se Estvo fosse derrotado agora, William poderia
cair com ele.
         - O que aconteceu? - perguntou, nervoso. - O que Henrique fez?
         - Atravessou o canal com trinta e seis navios e desembarcou em
Wareham - replicou a bruxa. - Trouxe um exrcito de trs mil homens, segundo
o que dizem. Fomos invadidos.
        Winchester estava superpovoada, tensa e perigosa. Ambos os exrcitos
estavam ali: as foras legais do rei Estvo, aquarteladas no castelo, e os rebeldes
do duque Henrique - incluindo Richard e seus fora-da-lei -, acampados do lado
de fora das muralhas da cidade, na colina de Saint Giles, onde se realizava a feira
anual. Os soldados de ambos os lados foram banidos da cidade propriamente
dita, mas muitos deles desafiavam o banimento e passavam as noites nas
cervejarias, rinhas de galo e bordis, onde se embebedavam, abusavam de
mulheres e se matavam uns aos outros por causa de jogos de dados e jogos das
nove pedras.
        Toda a combatividade de Estvo desaparecera no vero, quando seu
filho mais velho morrera. Agora ele estava no castelo real enquanto o duque se
alojara no castelo do bispo, com as conversaes de paz sendo conduzidas pelos
seus representantes, o arcebispo Theobald de Canterbury falando pelo rei, e o
antigo intermedirio dos poderosos, o bispo Henry de Winchester, pelo duque
Henrique. Todas as manhs o arcebispo e o bispo conferenciavam no palcio
deste. Ao meio-dia o duque Henrique atravessava a p as ruas de Winchester,
com seus lugares-tenentes, inclusive Richard, e ia para o castelo almoar. A
primeira vez que Aliena viu o duque Henrique no pde acreditar que aquele
homem governasse um imprio do tamanho da Inglaterra. Tinha apenas cerca de
vinte anos de idade e pele bronzeada e sardenta de um campons.
        Vestia uma tnica escura simples, sem bordados, e o cabelo arruivado
cortado curto. Lembrava o filho de um pequeno proprietrio rural e tinha o
aspecto de quem trabalhava duro. No entanto, aps algum tempo, constatou que
ele tinha uma certa aura de poder. Era entroncado e musculoso, de ombros
largos e cabea grande; porm, a impresso de fora fsica bruta se modificava
pelos olhos penetrantes e atentos, acinzentados; as pessoas que o cercavam
nunca se aproximavam demais, mas o tratavam com cautelosa familiaridade,
como se receassem que ele pudesse exceder-se rudemente a qualquer momento.
        Aliena achava que os jantares no castelo deviam ser desagradavelmente
tensos, com os lderes dos exrcitos adversrios sentados em torno da mesma
mesa. No sabia como Richard podia se sentar com o conde William. Teria
enfiado a faca nele, em vez de lhe passar a carne de veado. Ela prpria via
Hamleigh apenas de longe, e rapidamente.
        Parecia ansioso e mal-humorado, o que era bom sinal.
        Enquanto condes, bispos e abades se encontravam na fortaleza, a
pequena nobreza se reunia no ptio do castelo: cavaleiros e xerifes, bares menos
importantes, magistrados e casteles; gente que no podia ficar longe da capital
enquando seu futuro e o futuro do reino estava sendo decidido. Aliena
encontrava o prior Philip ali quase todas as manhs. Sempre havia dzias de
boatos diferentes. Um dia todos os condes que apoiavam Estvo seriam
degradados (o que significaria o fim de William); no seguinte, todos reteriam suas
posies, o que liquidaria com as esperanas de Richard. Todos os castelos de
Estvo seriam derrubados, depois todos os dos rebeldes, depois os de todos,
depois nenhum. Um boato dizia que os seguidores de Henrique seriam
recompensados com o grau de cavaleiro e cem acres. O irmo de Aliena no
queria isso, queria o condado.
         Richard no tinha idia de quais boatos seriam verdadeiros, se  que
algum seria. Embora fosse um dos lugares-tenentes de Henrique de mais
confiana, no campo militar, no era consultado quanto a detalhes das
negociaes polticas. Philip, contudo, parecia saber o que estava ocorrendo. No
dizia onde obtinha suas informaes, mas Aliena se lembrava de que ele tinha um
irmo que visitava Kingsbridge de vez em quando e que tinha trabalhado para
Robert de Gloucester e para Matilde; talvez trabalhasse agora para o duque
Henrique.
         O prior contou que os negociadores estavam perto de chegar a um
acordo. O trato era que Estvo continuaria a ser rei at morrer, mas Henrique
seria seu sucessor.
         Isso deixou Aliena ansiosa. O rei poderia viver por mais dez anos. O que
aconteceria nesse nterim? Os condes de Estvo certamente no seriam
depostos enquanto ele continuasse a reinar. Como ento aqueles que tinham
apoiado Henrique - como Richard ganhariam suas recompensas? Teriam de
aguardar?
         Philip soube a resposta num final de tarde, quando havia j uma semana
que todos estavam em Winchester. Mandou um novio como mensageiro para
chamar Richard e Aliena.
         Enquanto percorriam as ruas movimentadas at o adro da catedral, o
lugar-tenente se sentia cheio de incontrolvel ansiedade, enquanto sua irm
tremia de medo.
         O prior os estava esperando no cemitrio, e foi por entre as lpides que
conversaram enquanto o sol se punha.
         - Eles chegaram a um acordo - disse Philip, sem prembulos. - Mas  um
bocado confuso.
         Aliena no podia aguentar a tenso.
         - Richard ser conde? - perguntou, aflita.
         Philip balanou a mo de um lado para o outro, num gesto que queria
dizer talvez sim, talvez no.
         -  complicado. Eles chegaram a um compromisso. As terras que foram
tomadas por usurpadores sero devolvidas s pessoas que as possuam no tempo
do velho rei Henrique.
         -  tudo o que preciso! - exclamou Richard imediatamente. - Meu pai era
conde naquele tempo.
         - Cale-se, Richard - ordenou Aliena. Virou-se para Philip. - Ento, qual 
a complicao?
         - No h nada no acordo que obrigue Estvo a cumpri-lo.
Provavelmente no haver mudana at que ele morra e Henrique se torne rei.
         Richard ficou desacoroado.
         - Mas isso cancela tudo!
         - No inteiramente - retrucou Philip. - Significa que voc  o legtimo
conde.
         - Mas tenho que viver como fora-da-lei enquanto Estvo no morrer...
com aquele animal do William morando no meu castelo - esbravejou Richard,
furioso.
         - No fale to alto! - protestou Philip, quando um padre passou por
perto. - Tudo isso ainda  segredo.
         Aliena estava irada.
         - No aceito isso - disse. - No estou preparada para esperar que Estevo
morra. H dezessete anos que espero! Basta!
         - Mas o que voc pode fazer? - perguntou o prior.
         Aliena dirigiu-se a Richard.
         - Praticamente todo o pas o aclama legtimo conde. Estvo e Henrique
reconheceram agora que o direito  seu. Voc deve tomar o castelo e governar
como o legtimo conde que .
         - No posso tomar o castelo. William o tem sempre bem defendido.
         - Voc possui um exrcito, no? - exclamou ela, deixando-se levar pela
fora da sua raiva e frustrao. - Voc tem o direito ao castelo e a fora para
tom-lo.
         Richard sacudiu a cabea.
         - Em quinze anos de guerra civil, sabe quantas vezes vi um castelo ser
tomado mediante um ataque frontal? Nenhuma. - Como sempre, ele parecia
ganhar autoridade e maturidade assim que comeava a falar em assuntos
militares. - Quase nunca acontece. Uma cidade, talvez, mas no um castelo. Os
castelos podem se render aps um cerco, ou serem salvos ao receber reforos; j
vi castelos serem tomados graas a atos de covardia, a truques ou a traies; mas
no pela fora bruta.
         Aliena ainda no estava pronta para aceitar aquilo. Tal opinio lhe
pareceu fruto da desesperana. No podia se conformar com a idia de aguardar
no sabia quantos anos mais.
         - O que aconteceria ento se voc levasse seu exrcito ao castelo de
William? - perguntou ela.
         - Eles ergueriam a ponte levadia e fechariam os portes para que no
pudssemos entrar. Acamparamos do lado de fora. Ento William contra-
atacaria com o seu exrcito e arremeteria sobre o nosso acampamento. S que,
mesmo que o vencessemos no teramos o castelo. Castelos so difceis de atacar
e fceis de defender -  a vantagem deles.
         Enquanto falava, a idia foi germinando na cabea de Aliena.
         - Covardia, truques ou traio - disse.
         - O qu?
         - Voc viu castelos serem tomados graas a atos de covardia, a truques ou
traies.
         - Oh, sim.
         - O que foi que William usou, quando nos tomou o castelo tanto tempo
atrs?
         - Aqueles tempos eram diferentes - interrompeu Philip. - O pas vivera
em paz, sob o velho rei Henrique, por trinta e cinco anos. William venceu seu pai
pela surpresa.
         - Ele usou um truque. Entrou no castelo sub-repticiamente, com um
punhado de homens, antes de o alarme ser acionado. Mas o prior tem razo: no
se conseguiria fazer uma coisa dessas atualmente. Hoje em dia as pessoas so
muito mais cautelosas.
         - Eu poderia entrar - disse Aliena confiantemente, embora ao pronunciar
as palavras seu corao disparasse de medo.
         - Claro que poderia; voc  uma mulher - disse Richard. - Mas no
poderia fazer nada, uma vez que estivesse l dentro. O que explica por que a
deixariam entrar.  inofensiva.
         - No seja to malditamente arrogante! - explodiu ela. - J matei para
proteg-lo, o que  muito mais do que voc jamais fez por mim, seu porco
ingrato, de modo que no se atreva a me chamar de inofensiva.
         - Est bem, voc no  inofensiva - concedeu ele, enraivecido. - O que
faria, uma vez no interior do castelo?
         A fria de Aliena desvaneceu-se. O que eu iria fazer?, pensou,
amedrontada. Ao inferno com isso, tenho pelo menos tanta coragem e
determinao quanto aquele animal do Hamleigh.
         - O que William fez?
         - Manteve a ponte levadia abaixada e o porto aberto tempo suficiente
para a fora do ataque principal entrar,
         - Ento  o que farei - disse Aliena, com o corao na boca.
         - Como? - perguntou Richard ceticamente.
         Aliena lembrou-se de ter tranquilizado uma garota de catorze anos com
medo de uma tempestade.
         - A condessa me deve um favor - disse. - E ela odeia o marido.

         Cavalgaram a noite inteira, Aliena, Richard e cinquenta dos seus melhores
homens, e atingiram a vizinhana de Earlscastle pela madrugada. Detiveram-se na
floresta, na orla dos campos que cercavam o castelo. Aliena desmontou, despiu
sua capa de l de Flandres e descalou as botas de couro macio. Isso feito,
cobriu-se com um cobertor de l spera, dos usados pelos camponeses, e calou
um par de tamancos. Um dos homens entregou-lhe uma cesta com ovos frescos
acondicionados em palha, que ela enfiou no brao.
         Richard examinou-a de alto a baixo.
         - Perfeito - disse ele. - Uma jovem camponesa levando ovos para a
cozinha do castelo.
         Aliena engoliu em seco. Na vspera estava cheia de mpeto e ousadia,
mas agora que estava prestes a executar seu plano sentia-se apavorada.
         - Quando eu ouvir o sino - disse seu irmo, beijando-a no rosto -, rezarei
um padre-nosso devagar e em seguida a vanguarda sair. Tudo o que tem a fazer
 induzir os guardas a uma falsa sensao de segurana, de modo que dez dos
meus homens possam atravessar o campo e entrar no castelo sem causar alarme.
         Aliena assentiu.
         - S quero que voc no deixe a fora principal aparecer antes de a
vanguarda atravessar a ponte.
         Ele sorriu.
         - Estarei comandando o grupo principal. No se preocupe. Boa sorte.
         - Para voc tambm.
         Ela afastou-se.
         Aliena deixou a floresta e ps-se a atravessar o campo aberto na direo
do castelo que deixara naquele dia horrvel, dezesseis anos antes. Ao ver o lugar
de novo, teve a lembrana vvida e aterrorizante daquela outra manh, o ar mido
depois da tempestade, os dois cavalos galopando atravs do porto e cruzando o
campo encharcado - Richard no cavalo de batalha e ela no corcel de menor
tamanho, ambos mortos de medo. Ia negando o que acontecera, deliberadamente
esquecendo, repetindo para si prpria ao ritmo do tropel dos cascos do cavalo:
         No posso lembrar, no posso lembrar, no posso, no posso, no E
dera certo: por um longo perodo fora incapaz de rememorar o estupro; lembrava
que alguma coisa horrvel tinha contecido, mas jamais revivia os detalhes. S
quando se apaixonara por Jack  que tudo lhe voltara  memria; e ento a
lembrana a deixara to apavorada que fora incapaz de reagir ao seu amor.
Graas a Deus ele fora to paciente. Foi como soube quanto seu amor era forte:
por ter tolerado tanta coisa e ainda assim continuado a am-la.
         Ao aproximar-se do castelo, invocou algumas lembranas boas, para
acalmar os nervos. Morara ali quando criana, com seu pai e Richard. Eram ricos
e desfrutavam de segurana. Brincara nas fortificaes do castelo com o irmo,
transitara muito pela cozinha, surripiando pedacinhos de doce, e sentara-se ao
lado do pai no jantar servido no grande salo. Eu no sabia que era feliz, pensou.
No tinha idia de quanto afortunada era por no ter nada a recear.
         Aqueles bons tempos comearo de novo hoje, disse para si prpria, se
ao menos eu fizer isto direito.
        Dissera, confiantemente: A condessa me deve um favor. E ela odeia, o
marido, mas enquanto cavalgavam durante a noite, pensara em todas as coisas
que podiam sair erradas.
        Primeiro, talvez nem sequer conseguisse entrar no castelo: havia a
possibilidade de alguma coisa ter posto a guarnio em alerta; de os guardas se
mostrarem desconfiados; ou de simplesmente ter a m sorte de esbarrar numa
sentinela que resolvesse atrapalhar. Segundo, quando se encontrasse no interior
do castelo poderia no ser capaz de persuadir Elizabeth a trair o marido. Fazia
um ano e meio que a encontrara na tempestade: com o tempo, as mulheres s
vezes se habituam com os homens mais perversos, e a garota podia ter-se
resignado ao seu destino. Terceiro, mesmo que Elizabeth estivesse disposta,
talvez no tivesse autoridade ou coragem para fazer o que Aliena queria. Era uma
garotinha assustada quando a vira da ltima vez, e podia ser que a guarda do
castelo se recusasse a obedec-la.
        Aliena estava extraordinariamente alerta quando atravessou a ponte
levadia: podia ver e ouvir tudo com uma clareza anorrnal. A guarnio estava
acordando. Uns poucos guardas de olhos injetados espreguiavam-se, bocejando
e tossindo, e um cachorro velho, sentado na entrada, se coava. Puxou o capuz
para a trente a fim de ocultar o rosto, para o caso de algum ser capaz de
reconhec-la, e passou sob o arco.
        Havia uma sentinela de servio no porto, um tipo desmazelado sentado
num banco comendo um pedao imenso de po. Sua roupa estava em desalinho,
e o cinturo da espada pendia de um gancho nos fundos do aposento. Com o
corao na boca e um sorriso que disfarava o medo, Aliena mostrou-lhe a cesta
de ovos.
        Ele mandou que entrasse, com um gesto impaciente. Ela passara o
primeiro obstculo.
        A disciplina estava relaxada. Era compreensvel: aquilo era uma fora
simblica, deixada para trs enquanto os melhores homens tinham ido para a
guerra. Toda a agitao acontecia em outros lugares. At esse dia.
        Por enquanto, tudo ia bem. Aliena atravessou o ptio mais baixo com os
nervos tensos. Era muito esquisito ser uma estranha entrando no lugar onde
morara, estar se infiltrando onde antes tinha o direito de ir aonde bem
entendesse. Olhou  sua volta, tomando cuidado para no deixar muito evidente
sua curiosidade. A maioria das construes de madeira mudara; os estbulos
eram maiores, a cozinha fora transferida e havia um novo depsito de armas, de
pedra. Tudo parecia mais sujo do que no seu tempo. Mas a capela ainda estava l,
a capela onde ela e Richard tinham se abrigado daquela horrvel tempestade,
chocados, tontos e quase congelados. Um punhado de criados dava incio s
tarefas matinais. Um ou dois homens de armas se deslocavam pelo conjunto de
edificaes. Achou que tinham aspecto ameaador, mas talvez fosse porque sabia
que a matariam, caso soubessem o que ia fazer.
        Se seu plano desse certo,  noite seria novamente a senhora daquele
castelo. A idia era excitante mas irreal, como um sonho maravilhoso e
impossvel.
        Entrou na cozinha. Um garoto estava atiando o fogo, e uma garota
cortava cenouras. Aliena sorriu alegremente para eles.
        - Vinte e quatro ovos frescos - disse ela, pondo a cesta em cima da mesa.
        - O cozinheiro ainda no acordou - disse o garoto. - Voc vai ter que
esperar pelo seu dinheiro.
        - Posso arranjar um pedao de po para o meu desjejum?
        - No salo grande.
        - Obrigada. - Ela deixou a cesta e saiu de novo. Aliena cruzou a segunda
ponte levadia para o conjunto de cima. Sorriu para o guarda do segundo porto.
Ele estava despenteado e com os olhos injetados. Olhou-a de cima a baixo e
disse:
        - Aonde  que voc est indo? - A voz dele era desafiadoramente
brincalhona.
        - Vou comer qualquer coisa - disse ela, sem parar.
        Ele lanou um olhar lbrico.
        - Tenho um negcio aqui para voc comer - disse, s suas costas.
        - Cuidado que posso cortar fora com uma mordida! - disse ela por cima
do ombro.
        No suspeitaram de Aliena por um s momento. No lhes ocorria a
possibilidade de uma mulher ser perigosa. Como eram tolos. As mulheres
podiam fazer a maior parte das coisas que os homens faziam. Quem cuidava de
tudo quando os homens iam combater nas guerras, ou partiam nas cruzadas?
Havia mulheres carpinteiras, tingidoras, curtidoras, padeiras e cervejeiras. A
prpria Aliena era uma das mais importantes mercadoras do condado. Os
deveres de uma abadessa, dirigindo um convento, eram exatamente os mesmos
de um abade. Ora, tinha sido uma mulher, a rainha Matilde, que causara a guerra
civil que j se prolongava h quinze anos! No entanto, aqueles homens de armas
idiotas no esperavam que uma mulher fosse um agente inimigo porque no era
normal que fosse.
        Subiu correndo os degraus da fortaleza e entrou no salo principal. No
havia nenhum camareiro  porta. O que se justificava, presumiu Aliena, pelo fato
de o senhor estar ausente. No futuro me assegurarei de que haja sempre algum
cuidando da entrada, pensou Aliena, quer o senhor esteja presente, quer no.
        Quinze ou vinte pessoas estavam tomando o desjejum em torno de uma
pequena mesa. Uma ou duas levantaram os olhos para ela, mas ningum lhe deu
maior ateno. O salo estava bastante limpo, observou Aliena, e havia um ou
dois toques femininos: paredes recentemente caiadas, e ervas de doce fragrncia
misturadas com as palhas do cho. Elizabeth deixara sua marca, de algum modo.
Era um bom indcio.
        Sem falar com as pessoas sentadas em torno da mesa, Aliena atravessou o
salo at a escadaria num canto, tentando aparentar ter todo o direito de estar ali,
mas esperando ser detida a qualquer momento. Chegou ao patamar da escada
sem chamar a ateno de ningum. S depois, quando subiu depressa na direo
dos apartamentos privados do andar de cima, ouviu algum dizer:
        - No pode subir a! Ei, voc! - Mas ignorou a voz. Ouviu algum
seguindo-a.
        Chegou ao andar de cima ofegante. Elizabeth dormiria no quarto
principal, aquele que o pai de Aliena ocupara? Ou teria uma cama s para si no
quarto que fora dela?
        Hesitou por um instante, o corao batendo com fora. Sups que quela
altura William teria se cansado de dormir com a mulher todas as noites, e
provavelmente permitira que tivesse um quarto s para ela. Aliena bateu  porta
do quarto menor e abriu-a.
        Acertou em sua suposio. Elizabeth estava sentada junto ao fogo de
camisola, escovando o cabelo. Ergueu os olhos, franziu a testa e reconheceu
Aliena.
        -  voc! - exclamou. - Que surpresa! - Parecia satisfeita.
        Aliena ouviu passos pesados na escada,  sua retaguarda.
        - Posso entrar? - perguntou ela.
        - Claro! E seja bem-vinda!
        Aliena entrou e fechou a porta rapidamente. Atravessou o quarto at
onde Elizabeth se encontrava. Um homem irrompeu porta adentro, dizendo:
        - Ei, voc, quem pensa que ? - E avanou em sua direo, como se fosse
prend-la.
        - Fique onde est! - ordenou ela, na sua voz mais autoritria. - Ele
hesitou. - Vim ver a condessa, com uma mensagem do conde William, e voc
teria sabido disso mais cedo se estivesse guardado a porta em vez de estar se
entupindo de po.
        Ele fez uma expresso culpada.
        - Est bem, Edgar - disse Elizabeth. - Conheo esta lady.
        - Muito bem, condessa - disse ele, saindo e fechando a porta.
        Consegui, pensou Aliena. Estou aqui dentro.
        Olhou  sua volta, enquanto o corao retornava ao ritmo normal. O
quarto no estava muito diferente do que era no seu tempo. Havia ptalas secas
numa tigela, uma bela tapearia na parede, alguns livros e uma arca para roupas.
A cama se encontrava no mesmo lugar - na verdade era a mesma -, e em cima do
travesseiro havia uma boneca de pano exatamente igual a uma que Aliena tivera.
Aquilo a fez sentir-se velha.
        - O meu quarto era aqui - disse ela.
        - Eu sei.
        Aliena ficou surpresa. No tinha lhe falado a respeito do seu passado.
        - Descobri tudo a seu respeito aps aquela terrvel tempestade - explicou
Elizabeth. E acrescentou: - Admiro muito voc. - Seus olhos tinham o brilho de
quem estava diante de uma herona.
        O que era um bom sinal.
        - E William? - perguntou Aliena. - Sente-se mais feliz vivendo com ele?
        Elizabeth desviou os olhos.
        - Bem - disse -, agora tenho um quarto s para mim, e ele passa muito
tempo fora. Na verdade, tudo est muito melhor. - E comeou a chorar.
        Aliena sentou-se na cama e passou os braos em torno da garota.
Elizabeth chorou, com soluos fundos e arrebatados, as lgrimas escorrendo pelo
rosto. Entre um soluo e outro, arquejava:
        - Eu... odeio... William!. .. Queria... poder... morrer!
        Sua angstia era to digna de pena, e ela era to jovem, que Aliena estava
quase chorando tambm. Sentia-se dolorosamente consciente de que a sina de
Elizabeth poderia ter sido a sua. Deu umas palmadinhas nas costas da garota
como teria feito com Sally.
        Aos poucos a condessa foi se acalmando. Enxugou o rosto molhado com
a manga da camisola.
        - Tenho tanto medo de ter um filho! - disse, angustiadamente. - Estou
aterrorizada porque sei como ele maltrataria a criana.
        - Compreendo - disse Aliena. Um dia sentira verdadeiro pavor de estar
grvida de um filho dele.
        Elizabeth fitou-a com os olhos arregalados.
        -  verdade o que dizem sobre... o que ele fez com voc?
        - Sim,  verdade. Eu tinha sua idade quando aconteceu.
        Por um momento elas se encararam, aproximadas pela repulsa a William,
partilhada por ambas. De repente Elizabeth no mais parecia uma criana.
        - Voc poderia se livrar dele se quisesse - disse Aliena. - Hoje.
        A garota fitou-a espantada.
        -  verdade? - perguntou, com deplorvel ansiedade. -  verdade?
        Aliena fez que sim.
        -  por isso que estou aqui.
        - Eu poderia ir para casa? - perguntou Elizabeth, os olhos cheios de
novas lgrimas. - Eu poderia ir para Weymouth, para a casa da minha me? Hoje?
        - Sim. Mas voc ter que ser corajosa.
        - Farei qualquer coisa - assegurou ela. - Qualquer coisa! Basta que me diga
o qu.
        Aliena relembrou o que lhe explicara a respeito de como podia adquirir
autoridade com os empregados do marido e quis saber se Elizabeth fora capaz de
seguir seus conselhos e coloc-los em prtica.
        - Os criados ainda tentam intimid-la? - perguntou, sem rodeios.
        - Tentam.
        - Mas voc no permite.
        Ela pareceu embaraada.
        - Bem, s vezes sim. Mas estou com dezesseis anos agora, e j sou
condessa h dois anos quase... Tenho tentado seguir seus conselhos, e eles
realmente funcionam!
        - Deixe-me explicar - comeou Aliena. - O rei Estvo fez um pacto com
o duque Henrique. Todas as terras sero devolvidas s pessoas que eram suas
proprietrias no tempo do velho rei. Isso significa que meu irmo se tornar o
conde de Shiring... um dia. Mas ele quer s-lo agora.
        Elizabeth estava de olhos arregalados.
        - Richard vai guerrear com William?
        - Richard est muito prximo daqui neste momento, com um pequeno
grupo de homens. Se puder tomar o castelo hoje, ser reconhecido como conde,
e William estar liquidado.
        - No posso crer - disse a condessa. - No posso crer que seja realmente
verdade. - Seu otimismo sbito era ainda mais aflitivo que o abjeto desespero de
h pouco.
        - Tudo o que voc tem a fazer  deixar Richard entrar pacificamente -
disse Aliena. - Ento, quando tudo estiver terminado, ns a levaremos para casa.
        Elizabeth pareceu temerosa de novo.
        - No sei se os homens faro o que eu mandar.
        Era essa a preocupao de Aliena.
        - Quem  o capito da guarda?
        - Michael Armstrong. No gosto dele.
        - Mande cham-lo.
        - Certo. - A condessa assoou o nariz, levantou-se e foi at a porta. -
Madge! - exclamou, numa voz aguda. Aliena ouviu uma resposta longnqua. - V
buscar Michael. Diga-lhe que venha imediatamente, porque quero v-lo com
urgncia. Depressa, por favor.
        Ela voltou e comeou a se vestir rapidamente, enfiando uma tnica por
cima da camisa de dormir e amarrando as botas. Aliena instruiu-a depressa.
        - Mande Michael tocar o sino grande a fim de convocar todo mundo ao
ptio. Diga que recebeu uma mensagem do conde William e que quer falar com
toda a guarnio, homens de armas, criados e todo o resto. Quer que trs ou
quatro homens montem guarda, enquanto os demais se renem no ptio de
baixo. Diga-lhe tambm que est esperando a qualquer momento a chegada de
um grupo de dez ou doze homens com outra mensagem, e que eles devem ser
trazidos  sua presena assim que chegarem.
        - Espero conseguir lembrar de tudo isso - disse Elizabeth, nervosa.
        - No se preocupe; se voc se esquecer, eu a ajudarei.
        - Isso me faz sentir melhor.
        - Como  esse tal de Michael Armstrong?
        - Fedorento, emburrado e forte como um touro.
        - Inteligente?
        - No.
        - Quanto mais burro melhor.
        Um momento depois chegou o homem. Tinha uma expresso mal-
humorada, o pescoo curto e ombros poderosos, e trouxe com ele o odor de um
chiqueiro. Lanou um olhar indagador a Elizabeth, dando a impresso de que se
ressentira por ter sido perturbado.
        - Recebi uma mensagem do conde - comeou a garota.
        Michael estendeu a mo.
        Aliena ficou horrorizada ao ver que no tomara a precauo de dar uma
carta a Elizabeth. Toda a farsa podia fracassar logo no princpio por causa de um
erro tolo.
        A condessa lanou-lhe um olhar de desespero. Aliena procurou com
empenho imaginar algo para dizer. Finalmente teve uma inspirao.
        - Voc saber ler, Michael?
        Ele pareceu ficar ressentido.
        - O padre ler para mim.
        - A sua lady pode ler.
        - Eu mesma lerei a mensagem para toda a guarnio -, disse Elizabeth,
embora parecesse apavorada. - Toque o sino e reuna todos no ptio. Mas
assegure-se de deixar trs ou quatro homens de guarda.
        Como Aliena temera, Michael no gostou de ver a condessa assumindo o
comando daquele modo. Seu ar era de rebeldia.
        - Por que no me deixa falar com eles?
        Aliena deu-se conta, cheia de ansiedade, de que talvez no fosse capaz de
persuadir aquele homem: era demasiado estpido para ouvir a razo.
        - Trouxe  condessa notcias momentosas de Winchester. Ela prpria
quer d-las  sua gente.
        - Bem, que notcias so essas?
        Aliena nada disse e olhou para Elizabeth. Mais uma vez ela parecia
apavorada. Na verdade, no lhe dissera qual seria o teor da tal mensagem fictcia,
de modo que era impossvel para a condessa aceder ao pedido de Michael. No
fim ela simplesmente continuou como se Michael no tivesse aberto a boca.
        - Diga aos guardas que esperem por um grupo de dez ou doze homens, a
cavalo. O lder deles ter notcias recentes do conde William, e deve ser trazido
imediatamente  minha presena. Agora toque o sino.
         Michael estava claramente disposto a contestar. Ficou parado, franzindo
a testa, enquanto Aliena prendia a respirao.
         - Mais mensageiros - disse, como se fosse algo difcil de entender. - Esta
lady com uma mensagem, e doze cavaleiros com outra.
         - Sim. Agora voc poderia tocar o sino, por favor? - pediu Elizabeth.
Aliena pde perceber o tremor da sua voz:
         O capito da guarda deu a impresso de ter sido derrotado. No podia
entender o que estava acontecendo, mas tampouco via algo a objetar:
           - Muito bem, milady - resmungou finalmente e saiu.
         Aliena respirou de novo.
         - O que vai acontecer? - perguntou Elizabeth.
         - Quando estiverem reunidos no ptio, voc lhes falar sobre a paz
negociada entre Estvo e Henrique - respondeu Aliena. - Isso distrair a todos.
Enquanto estiver falando, Richard mandar um destacamento de vanguarda com
dez homens. Os guardas, no entanto, pensaro que so os mensageiros do conde
William que estamos esperando, de modo que no entraro em pnico e
levantaro a ponte. Voc tem que manter todos interessados no que estiver
dizendo, enquanto o destacamento da vanguarda se aproxima do castelo. Tudo
bem?
         Elizabeth parecia nervosa.
         - E depois? - quis saber.
         - Quando eu lhe avisar, diga que se rendeu ao conde legtimo, Richard.
Ento o exrcito de Richard abandonar seu esconderijo e atacar o castelo. A
essa altura Michael perceber tudo. Mas os homens dele ficaro em dvida a
respeito de quem merecer sua lealdade - por voc lhes ter dito que se rendessem
e por haver chamado Richard de conde legtimo -, e ademais, o destacamento de
vanguarda estar no interior do castelo para impedir qualquer pessoa de fechar os
portes. - O sino comeou a tocar. O estmago de Aliena contraiu-se de medo.
         - No temos mais tempo. Como se sente?
         - Apavorada.
         - Eu tambm. Vamos.
         Elas desceram a escada. O sino da torre do porto estava tocando como
nos tempos em que Aliena era uma garota sem problemas. O mesmo sino, o
mesmo som, outra Aliena, pensou ela. Sabia que ele podia ser ouvido atravs dos
campos, at a orla da floresta. Richard estaria naquele instante rezando o padre-
nosso lentamente, para medir o tempo que tinha de esperar para despachar o
destacamento da vanguarda.
         Aliena e Elizabeth afastaram-se da fortaleza pela ponte levadia interna,
em direo ao ptio inferior. A condessa estava branca de medo, mas tinha os
lbios cerrados numa expresso determinada. Aliena sorriu para ela a fim de lhe
dar coragem e puxou o capuz de novo. At ento no tinha visto ningum
familiar, mas seu rosto era muito conhecido em todo o condado, e algum com
certeza iria reconhec-la mais cedo ou mais tarde. Se Michael Armstrong
descobrisse quem ela era, poderia suspeitar de alguma coisa, por mais obtuso que
fosse. Diversas pessoas lhe lanaram olhares de curiosidade, mas ningum lhe
dirigiu a palavra.
         Ela e Elizabeth foram at o meio do ptio inferior. Graas a elevao do
terreno, Aliena podia ver, por cima das cabeas e atravs do porto principal, o
campo que cercava o castelo. A vanguarda j deveria estar praticamente entrando
em ao, mas no conseguia localizar sinais deles. Oh, Deus, espero que no haja
um atraso, pensou temerosamente.
         A condessa precisava subir em alguma coisa para quando fosse se dirigir
quela gente. Aliena disse a um criado que apanhasse um bloco de montaria no
estbulo. Enquanto esperavam, uma mulher idosa olhou para ela.
         - Ora,  Lady Aliena! - exclamou. - Que bom v-la!
         O corao de Aliena ficou apertado. Reconheceu a mulher como uma
cozinheira que trabalhara no castelo antes da chegada dos Hamleighs.
         - Ol, Tilly, como vai voc? - cumprimentou-a, forando um sorriso.
         Tilly deu uma cotovelada na vizinha.
         - Ei,  Lady Aliena, de volta aps todos esses anos. Vai ser a senhora do
castelo de novo, milady?
         Aliena no queria que aquele pensamento ocorresse a Michael. Olhou
ansiosamente  sua volta. Por sorte, ele no estava a uma distncia de onde
pudesse escutar. Um de seus homens de armas, contudo, ouviu o dilogo e a
estava olhando com a testa franzida. Aliena devolveu o olhar com ar de simulada
despreocupao. O homem s tinha um olho - o que, sem dvida, era o motivo
pelo qual fora deixado para trs em vez de seguir para a guerra com William -, e
subitamente pareceu estranho a Aliena estar sendo encarada por um homem de
um olho s; ela teve que conter uma risada. Reconheceu que estava ficando
ligeiramente histrica.
         O criado voltou com o bloco de madeira. O sino parou de tocar. Aliena
procurou acalmar-se quando Elizabeth subiu no bloco de montaria e a multido
se aquietou.
         - O rei Estvo e o duque Henrique chegaram a um acordo de paz - disse
a condessa.
         Ela fez uma pausa e a multido deu um viva. Aliena estava com os olhos
fixos no porto. Agora, Richard, pensou; tem que ser agora, no deixe para
quando for demasiado
         tarde!
         Elizabeth sorriu, deixando que as manifestaes prosseguissem.
         - Estvo permanecer como rei at sua morte - continuou depois -,
quando ser substitudo por Henrique.
         Aliena examinou os guardas nas torres e no porto. Pareciam
despreocupados. Onde estava Richard?
         - O tratado de paz trar muitas modificaes  nossa vida.
         Aliena percebeu que os guardas mudavam de atitude. Um deles ps a
mo em pala sobre os olhos para observar o campo, enquanto o outro se virou
para o ptio a fim de ver se conseguia atrair a ateno do seu com andante.
         Mas Michael Armstrong estava ouvindo atentamente as palavras de
Elizabeth.
         - Os reis atuais e futuros concordaram que todas as terras devam ser
restitudas aos seus proprietrios no tempo do velho rei Henrique.
         Essa notcia causou muitos comentrios, com as pessoas especulando se
o condado de Shiring seria afetado. Aliena reparou que Michael Armstrong
parecia pensativo. Atravs do porto finalmente ela viu os cavalos do
destacamento de vanguarda de Richard. Depressa, pensou, depressa! Maseles se
aproximavam a trote, num ritmo firme e constante, para no alarmar os guardas.
         - Todos ns devemos dar graas a Deus por este tratado de paz - estava
dizendo Elizabeth. - Devemos rezar para que o rei Estvo governe com
sabedoria nos seus ltimos anos de vida, e que o jovem duque mantenha a paz
at que Deus leve o rei... - Ela estava se saindo magnificamente, mas j comeava
a parecer perturbada, como se sentisse estar prestes a ficar sem mais nada a dizer.
         Todos os guardas olhavam atentamente para fora, examinando o grupo
que se aproximava. Haviam lhes dito que deviam esperar um grupo como aquele,
e tinham instrues de levar o lder imediatamente  presena da condessa, de
modo que no se esperava que agissem, mas estavam curiosos.
         O zarolho virou-se, mirou atravs do porto e encarou Aliena de novo.
Ela sups que estava meditando sobre o significado da sua presena ali e a
aproximao de uma tropa de homens a cavalo.
         Um dos guardas em cima da muralha pareceu chegar a uma deciso e
desapareceu descendo uma escada.
         A multido estava ficando um pouco inquieta. A condessa esticara muito
bem o seu discurso, mas todos aguardavam, impacientemente, notcias concretas.
         - Esta guerra comeou no ano em que nasci, e como muitas pessoas
igualmente jovens em todos os cantos do reino, sinto-me ansiosa para saber
como  a paz.
         O guarda que estava em cima da muralha reapareceu na base de uma
torre, atravessou com passadas bruscas o conjunto e falou com Michael
Armstrong.
         Atravs do porto Aliena viu que os cavaleiros de Richard ainda se
encontravam a umas duzentas jardas de distncia. No era o bastante. Teve
mpetos de gritar, tamanha foi a frustrao que sentiu. No seria capaz de
continuar controlando aquela situao por muito mais tempo.
        Michael Armstrong virou-se e olhou atravs do porto, a testa franzida.
Ento o zarolho puxou-lhe a manga e disse algo, apontando para Aliena.
        Ela teve medo de que Michael fechasse os portes e erguesse a ponte
levadia antes que Richard pudesse entrar, mas no sabia o que fazer para
impedi-lo. Perguntou-se se teria coragem suficiente para atirar-se sobre ele antes
que desse a ordem. Ainda usava o punhal amarrado no brao esquerdo: podia at
mesmo mat-lo. Ele virou-se decisivamente.
        Aliena inclinou-se e tocou no cotovelo de Elizabeth:
        - Detenha Michael! - sussurrou.
        A condessa abriu a boca para falar, mas no produziu nenhum som.
Estava petrificada de medo. Ento sua expresso mudou. Respirou fundo, ergueu
a cabea e disse com uma voz carregada de autoridade: - Michael Armstrong!
        O capito da guarda virou-se.
        Aliena deu-se conta de que dali em diante no havia volta. Richard no se
encontrava bastante perto, mas seu tempo acabara.
        - Agora! - disse para Elizabeth. - Conte-lhes agora!
        - Entreguei este castelo ao legtimo conde de Shiring, Richard de
Kingsbridge.
        Michael arregalou os olhos para ela, incrdulo.
        - No pode fazer isso! - berrou.
        - Ordeno que todos deponham as armas - disse ela. - No dever haver
derramamento de sangue.
        - Levantem a ponte! - gritou Michael, virando-se. - Fechem os portes!
        Os homens de armas saram para cumprir suas ordens, mas ele hesitara
demais, mesmo que por um s momento. Quando seus homens se aproximaram
das macias portas guarnecidas de ferro que fechavam o arco de entrada, o
destacamento de vanguarda de Richard passou pela ponte e entrou no conjunto.
A maioria dos homens de Michael estava sem armadura, e alguns nem sequer
traziam suas espadas, e se espalharam ante os cavaleiros.
        - Fiquem todos calmos! - gritou Elizabeth. - Estes mensageiros
confirmaro minhas ordens.
        Ouviu-se um grito vindo da muralha: um dos guardas ps as mos em
concha na boca e gritou:
        - Michael! Ataque! Estamos sendo atacados! Centenas de homens!
        - Traio! - urrou Michael, e puxou da espada. Mas dois dos homens de
Richard lanaram-se imediatamente sobre ele, com a lmina das espadas
falseando. O sangue jorrou; Michael caiu. Aliena desviou o olhar.
        Alguns dos homens de Richard apoderaram-se da casa da guarda e do
aposento onde ficava a roldana que levantava a ponte.
         Dois deles dirigiram-se para a muralha, e os guardas de Michael se
renderam.
         Atravs do porto Aliena viu a fora principal atravessando a galope o
campo que circundava o castelo, e seu nimo retornou com a fora do sol quente
de vero aps uma pancada de chuva.
         Elizabeth, gritou com toda a fora.
         - Ningum vai ser ferido, prometo. Basta que fiquem onde esto.
         Todos permaneceram imveis, atentos ao tropel do exrcito de Richard,
cada vez mais prximo. Os homens de armas de Michael pareciam confusos e
incertos, mas nenhum deles fez nada: seu comandante tombara, e a condessa lhes
dissera que se rendessem. Os criados do castelo estavam paralisados pela rapidez
dos acontecimentos.
         Nesse instante Richard atravessou o porto no seu cavalo de batalha.
         Foi um grande momento, e o corao de Aliena inchou de tanto orgulho.
Richard era bonito, sorridente e triunfante.
         - O conde legtimo! - gritou ela.
         Os homens que entraram no castelo atrs de Richard responderam ao
grito, que foi repetido tambm por algumas pessoas entre as que se encontravam
no ptio - a maioria delas no tinha o menor amor por William. Richard
conduziu o cavalo numa volta pelo conjunto, acenando e agradecendo os vivas.
Aliena pensou em tudo que enfrentara para chegar quele momento. Estava com
trinta e quatro anos e passara metade da vida lutando por aquilo. Toda a minha
vida adulta, pensou; foi o que dei. Lembrou-se de quando enfiava l dentro de
sacos, at suas mos ficarem vermelhas, inchadas e sangrando. Rememorou os
rostos que vira nas estradas, rostos cobiosos, cruis e lascivos de homens que a
teriam matado se tivesse dado o menor sinal de fraqueza. Pensou em como
endurecera o corao contra seu querido Jack, casando-se com Alfred; relembrou
os meses em que dormira no cho, ao p da cama dele, como um co - tudo
porque prometera pagar as armas e o equipamento de que Richard precisava para
lutar pela recuperao daquele castelo.
         - A est, pai! - exclamou. Ningum a ouviu: todos gritavam, saudando
Richard. - Era isto que voc queria - disse ao pai morto, e no seu corao tanto
havia amargura quanto triunfo. - Eu lhe prometi isto, e cumpri minha promessa.
Tomei conta de meu irmo, ele lutou todos esses anos; agora finalmente estamos
em casa de novo, e Richard  o conde. Agora... Sua voz ergueu-se at se
transformar num grito, mas todos tambm gritavam, e ningum notou as
lgrimas quelhe corriam pelo rosto: - Agora, pai, que j fiz o que queria, volte
para seu tmulo e me deixe viver em paz!
       Captulo 16

        Remigius era arrogante, mesmo na penria. Entrou no solar de madeira
da aldeia de Hamleigh com a cabea erguida, olhando com desprezo as vigas
recurvadas que sustentavam o teto, as paredes de taipa e o fogo - sem chamin -
aceso no meio do cho de terra batida.
        William observou-o entrando. Posso estar em fase de m sorte, pensou,
mas no estou to mal quanto voc. Impossvel deixar de reparar nas sandlias j
consertadas tantas vezes do monge, o hbito imundo, a barba por fazer no
queixo e o cabelo desalinhado. Remigius nunca fora um homem gordo, mas
agora estava mais magro do que nunca. A expresso arrogante fixa no seu rosto
no ocultava as rugas de exausto ou as olheiras escuras da derrota. O monge
ainda no fora esmagado, mas estava duramente batido.
        - Deus o abenoe, meu filho - disse ele.
        William no estava com disposio para aquele tipo de coisa.
        - O que voc quer, Remigius? - perguntou, insultando deliberadamente o
monge por no cham-lo de "padre" ou "irmo".
        Remigius encolheu-se como se tivesse levado um soco. Hamleigh sups
que ele devia estar sofrendo golpes desse tipo desde que sara do mosteiro.
        - As terras que voc me deu como deo do cabido de Shiring foram
recuperadas pelo conde Richard.
        - No me surpreende - replicou William. - Tudo deve ser restitudo aos
proprietrios do tempo do velho rei Henrique.
        - Mas isso me deixa sem meios para me sustentar.
        - Voc e um bocado de outras pessoas - disse Hamleigh
indiferentemente. - Ter que voltar para Kingsbridge.
        O rosto do monge empalideceu de raiva.
        - No posso fazer isso - disse, falando baixo.
        - Por que no? - perguntou William, atormentando-o.
        - Voc sabe por qu.
        - Ser que Philip diria que no se devem arrancar segredos de garotinhas?
Ele pensa que voc o traiu, por me contar onde era o esconderijo dos fora-da-lei?
Ser que est furioso com voc por se tornar deo de uma igreja que deveria
substituir a catedral dele? Bem, se  assim, suponho que voc no deve voltar
mesmo.
        - D-me alguma coisa - suplicou Remigius. - Uma aldeia. Uma fazenda.
Uma igrejinha!
        - No h recompensas para quem perde, monge - disse William
asperamente. Ele estava gostando daquilo. - No mundo de verdade, fora do
mosteiro, ningum toma conta de voc. Os patos engolem as minhocas, as
raposas comem os patos, os homens matam as raposas e o demnio caa os
homens.
        A voz do monge tornou-se um sussurro.
        - O que devo fazer?
        Hamleigh sorriu.
        - Esmole.
        Remigius girou nos calcanhares e saiu da casa. Ainda orgulhoso, pensou
William. Mas no por muito tempo. Voc esmolar.
        Ficara satisfeito por ver algum que levara um tombo maior do que o
seu. Jamais se esqueceria do sofrimento cruciante que fora estar diante do porto
do prprio castelo e no o deixarem entrar. Ficara desconfiado quando soubera
que Richard e alguns de seus homens tinham deixado Winchester; depois, no
momento em que o acordo de paz fora anunciado, sua desconfiana
transformara-se em alarme, e ele pegara seus cavaleiros e homens de armas e
cavalgara o mais depressa possvel para Earlscastle.
        Deixara uma fora reduzida guardando o castelo, de modo que esperara
encontrar Richard acampado, iniciando um cerco. Quando tudo parecera to
calmo, sentira-se aliviado e se recriminara por ter exagerado na reao ao
desaparecimento sbito de Richard.
        Ao ter-se aproximado, vira que a ponte estava levantada. Detivera o
cavalo na margem do fosso e gritara: "Abram o porto para o conde!"
        Ento Richard aparecera em cima da muralha e dissera: "O conde est no
castelo!"
        Foi como se o cho tivesse cedido sob os ps de William. Ele sempre
tivera medo de Richard, sempre o considerara como um rival perigoso, mas no
tinha se sentido especialmente vulnervel naquela ocasio. Achara que o perigo
verdadeiro viria quando Estvo morresse e Henrique subisse ao trono, o que
podia acontecer num prazo de cerca de dez anos. Agora, instalado naquela
medocre casa senhorial, ruminando os erros cometidos, constatava amargurado
que Richard, na verdade, fora muito inteligente.
        Aproveitara uma brecha estreitssima. No podia ser acusado de romper a
paz do rei, por agir com a guerra ainda em andamento. Sua pretenso ao condado
fora legitimada pelos termos do tratado de paz. E a Estvo, idoso, cansado e
derrotado, no restava energia para outras batalhas.
        Richard, magnanimamente, libertara os homens de armas de William que
quiseram continuar a seu servio. Waldo Zarolho contara como o castelo fora
tomado. A traio de Elizabeth o enfurecera, mas para William a parte
desempenhada por Aliena fora mais humilhante. A garotinha desamparada que
ele estuprara, atormentara e atirara para fora de casa tanto tempo antes voltara
para colher sua vingana. Todas as vezes que pensava nisso seu estmago ardia
como se tivesse bebido vinagre. Seu primeiro mpeto fora lutar contra Richard.
Poderia ter conservado seu exrcito, vivido no campo e extorquido impostos e
suprimentos dos camponeses, prosseguindo na luta com seu rival. Mas Richard
tinha a posse do castelo - e o tempo estava ao seu lado, j que Estvo, o
protetor de William, estava velho e liquidado - e o apoio do jovem duque, que
um dia seria coroado como o rei Henrique II.
         Assim, William decidira cortar seu prejuzo. Retirara-se para a aldeia de
Hamleigh e se mudara para a casa onde fora criado. Hamleigh, assim como as
aldeias que ficavam em torno, fora concedida a seu pai trinta anos antes. Era uma
propriedade que nunca fizera parte do condado, de modo que Richard no podia
reivindic-la.
         William esperava que, se mantivesse a cabea baixa, Richard se daria por
satisfeito com a vingana e o deixaria em paz. At ento dera certo. No entanto,
William odiava a aldeia de Hamleigh. Odiava as casinhas arrumadas, os patos
irritadios no lago, a igreja de pedra cinza-clara, as crianas de faces vermelhas
como mas, as mulheres de quadris largos e os homens fortes e ressentidos.
Odiava Hamleigh por ser humilde, feia e pobre, e porque simbolizava a queda de
sua famlia do poder. Ao observar os camponeses comearem a arar a terra na
primavera, estimara qual seria sua participao na safra do vero e a considerara
reduzida. Fora caar na floresta, no conseguira achar nenhum veado, e o guarda
lhe dissera: "S se encontram agora javalis; os fora-da-lei acabaram com os
veados durante a crise". Instalara a corte no salo grande da casa, com o vento
assobiando atravs dos buracos das paredes de taipa; pronunciou sentenas
duras, imps multas elevadas e decidiu de acordo com seu capricho; mas pouca
satisfao lhe trouxera tudo aquilo. Abandonara a construo da grande igreja de
Shiring, claro. Se no podia enfrentar os gastos com uma casa de pedra para si
prprio, o que diria de uma igreja. Os operrios haviam cessado de trabalhar
quando parara de efetuar os pagamentos, e o que lhes acontecera depois ele no
sabia; talvez tivessem voltado todos para Kingsbridge, a fim de trabalhar para o
prior Philip.
         Entretanto, agora ele estava tendo pesadelos. Eram sempre iguais. Via a
me no lugar dos mortos. Sangrava dos ouvidos e dos olhos, e quando abria a
boca para falar, mais sangue jorrava. A viso o enchia de terror mortal.  luz
clara do dia no era capaz de dizer o que havia no sonho que tanto o
amedrontava, pois ela no o ameaava de modo algum. Mas  noite, quando o
procurava, o medo se apoderava totalmente dele, um pnico irracional, histrico
e cego. Uma vez, quando menino, atravessara um lago que sbito ficara mais
fundo, e se vira debaixo da superfcie e incapaz de respirar; a esmagadora
necessidade de ar que se apossara dele era uma das lembranas indelveis da sua
infncia; aquele pesadelo, porm, era dez vezes pior. Tentar fugir do rosto
sangrento de sua me era como tentar correr em areia movedia. William
acordava como se tivesse sido jogado de um lado para o outro do quarto,
suando, gemendo, em violento estado de choque, o corpo retesado pela agonia
de tanta tenso.
        Walter aparecia ao lado da sua cama - Hamleigh dormia no salo,
separado dos homens por um biombo, pois no havia quarto de dormir na casa.
"O senhor gritou, milorde", murmurava ele. William respirava fundo,
contemplando a cama verdadeira, a parede verdadeira e o Walter verdadeiro,
enquanto o poder do pesadelo lentamente desaparecia, at o ponto em que no
mais sentia medo. Ento ele dizia: "No foi nada, s um sonho, v embora", mas
ficava com medo de voltar a dormir. E no dia seguinte os homens olhavam para
ele como se estivesse enfeitiado.
        Poucos dias depois da conversa com Remigius, estava sentado, na
mesma cadeira dura, junto ao mesmo fogo enfumaado, quando o bispo Waleran
entrou.
         William assustou-se. Ouvira o tropel de cavalos, mas presumira que
fosse Walter, de volta do moinho. No soube o que fazer quando viu o bispo.
Waleran sempre fora arrogante e superior, e em vrias oportunidades fizera com
que Hamleigh se sentisse tolo, inepto e grosso. Era humilhante que visse agora o
ambiente humilde em que vivia.
        William no se levantou para cumprimentar seu visitante.
        - O que  que voc quer? - perguntou laconicamente. No tinha razo
para ser polido: queria que o bispo desse o fora o mais cedo possvel.
        Waleran ignorou sua rudeza.
        - O xerife est morto - disse.
        A princpio Hamleigh no viu aonde o outro estava querendo chegar.
        - O que  que eu tenho com isso?
        - Haver um novo xerife.
        William estava prestes a dizer E da?, mas interrompeu-se. Waleran estava
preocupado com quem seria o novo xerife. E viera falar com ele a esse respeito.
Isso s podia significar uma coisa, no? A esperana inflou seu peito, mas ele a
reprimiu energicamente: quando Waleran estava envolvido, grandes esperanas
com frequncia terminavam em frustrao e desapontamento.
        - Quem voc tem em mente? - perguntou.
        - Voc.
        Era a resposta pela qual William no se atrevera a esperar. Quisera poder
acreditar. Um xerife esperto e impiedoso podia ser quase to importante e
influente quanto um conde ou bispo. Podia ser o seu caminho de volta para a
fortuna e o poder. Obrigou-se a considerar os pontos negativos.
        - Por que o rei Estvo me designaria?
        - Voc o apoiou contra o duque Henrique e, como resultado, perdeu o
condado. Imagino que ele gostaria de recompens-lo.
        - Ningum faz nada por gratido - disse William, repetindo uma frase da
me.
         - Estevo no pode estar satisfeito em ter como conde de Shiring um
homem que lutou contra ele. Pode querer que o seu xerife seja uma fora que se
contraponha a Richard.
        Isso agora fazia mais sentido. William sentiu-se animado contra sua
prpria vontade. Comeou a crer que podia realmente sair daquele buraco
chamado Hamleigh. Teria novamente uma fora respeitvel de cavaleiros e
homens de armas, em vez do lastimvel punhado de gente que atualmente
sustentava. Presidiria a corte do condado em Shiring, e frustraria a vontade de
Richard.
        - O xerife reside no Castelo de Shiring - disse desejosamente.
        - Voc seria rico de novo - acrescentou Waleran.
        - Sim. - Adequadamente explorado, o cargo de xerife podia ser
muitssimo lucrativo. William poderia fazer quase tanto dinheiro quanto no
tempo em que era conde.
        Mas perguntou-se por que o bispo teria falado naquilo.
        No momento seguinte Waleran respondeu  sua indagao.
        - Voc seria capaz de financiar a construo da nova igreja. Ento era
isso. O bispo nunca fazia nada sem uma segunda inteno. Queria que William
fosse o xerife para construir-lhe uma igreja. Mas este sentiu-se disposto a seguir
adiante com o plano. Se pudesse terminar a igreja em memria de sua me, talvez
os pesadelos cessassem.
        - Acha mesmo que ser possvel? - perguntou, ansioso.
        Waleran assentiu.
        - Custar dinheiro, claro, mas acho que pode ser feito.
        - Dinheiro? - perguntou William, com sbita ansiedade.
        - Quanto?
        -  difcil dizer. Num lugar como Lincoln ou Bristol, um cargo de xerife
lhe custaria por volta de quinhentas ou seiscentas libras; os xerifes dessas cidades,
porm, so mais ricos que cardeais. Numa pequena localidade como Shiring, se
voc for o candidato da vontade do rei - coisa de que posso me encarregar -,
provavelmente conseguir a nomeao em troca de umas cem libras.
        - Cem libras! - As esperanas de William ruram. Receara desapontar-se,
desde o princpio. - Se eu tivesse cem libras no estaria vivendo deste jeito! -
exclamou amarguradamente.
        - Voc pode arranjar o dinheiro - disse o bispo, despreocupado.
        - Com quem? - Hamleigh foi assaltado por uma idia. - Voc me daria?
        - No seja estpido - disse Waleran, com enraivecedora condescendncia.
-  para isso que existem os judeus.
        William constatou, com uma mistura familiar de esperana e
ressentimento, que mais uma vez o bispo estava certo.
         Fazia dois anos desde que as primeiras rachaduras tinham aparecido, e
Jack ainda no encontrara a soluo do problema, pior ainda, rachaduras
idnticas apareceram no primeiro intercolnio da nave. Havia algo crucialmente
errado no seu projeto. A estrutura era forte o bastante para sustentar o peso da
abbada, mas no para resistir aos ventos que sopravam com tanta fora de
encontro s altas paredes.
         Ele estava em cima de um andaime, muito longe do cho, examinando de
perto as novas rachaduras, meditando. Precisava pensar num modo de reforar a
parte superior na parede para que ela no cedesse ao vento.
         Refletiu sobre o modo como a parte inferior fora reforada. Na parede
externa da nave lateral havia pilares grossos e fortes, ligados  parede da nave por
meios arcos escondidos no teto da nave lateral. Os meios arcos e os pilares
escoravam a parede a distncia, como remotos arcobotantes. Por serem ocultas
as escoras, a nave parecia leve e graciosa.
         Precisava inventar um sistema similar para a parte superior da parede.
Podia fazer uma nave lateral com dois andares, e simplesmente repetir a soluo
de baixo; mas isso bloquearia a luz que entrava pelo clerestrio - e toda a idia do
novo estilo de construo era fazer entrar mais luz nas igrejas.
         Claro que no era a nave lateral por si s que fazia o trabalho: o apoio
vinha dos pesados pilares na parede lateral e dos meios arcos de ligao. A nave
lateral ocultava aqueles elementos estruturais. Se ao menos ele pudesse construir
pilares e meios arcos para sustentar o clerestrio sem incorpor-los numa nave
lateral, poderia resolver o problema definitivamente. Uma voz o chamou l de
baixo.
         Jack irritou-se. Sentia que estava prestes a chegar a uma soluo antes de
ser interrompido, mas agora ela lhe escapara. Olhou para o cho. Philip o estava
chamando.
         Entrou no torreo e desceu pela escada em espiral. O prior o esperava.
Estava to furioso que chegava a ferver de raiva.
         - Richard me traiu! - exclamou, sem prembulos.
         Jack ficou surpreso.
         - Como?
         Philip no respondeu  pergunta de imediato.
         - Depois de tudo o que fiz por ele! - bufou. - Comprei a l de Aliena
quando todo mundo estava querendo prejudicla - se no fosse por mim ela
podia nem ter comeado seu negcio. Depois, quando o comrcio de l acabou,
arranjei para ele o cargo de chefe da vigilncia. E, em novembro, adiantei-lhe o
teor do tratado de paz, capacitando-o a tomar Earlscastle. E agora que
reconquistou o condado e est governando com toda a pompa, virou as costas
para mim.
         Jack nunca vira Philip to lvido. A tonsura raspada a navalha estava
vermelha de indignao, e ele chegava a lanar perdigotos ao falar.
         - Como foi que Richard o traiu? - quis saber Jack. Mais uma vez o prior
ignorou a pergunta.
         - Sempre soube que Richard tinha carter fraco. Pouco apoio deu a
Aliena, no decorrer de todos esses anos - tirava dela o que queria e jamais
considerava as necessidades da irm. Mas no achava que fosse um rematado
vilo.
         - O que exatamente ele fez?
         - Recusou-se a nos dar acesso  pedreira - contou finalmente Philip.
         Jack ficou chocado. Tratava-se de um ato de assombrosa ingratido.
         - Mas como ele se justifica?
         - Espera-se que tudo reverta aos antigos proprietrios do tempo do
primeiro rei Henrique. E a pedreira nos foi concedida pelo rei Estvo.
         A ambio de Richard era notvel, mas Jack no conseguiu se sentir to
furioso quanto Philip. J tinham construdo meia catedral a maior parte com
pedra pela qual haviam pago, e dariam um jeito de continuar com a obra.
         - Bem, suponho que Richard esteja certo, falando num sentido estrito -
argumentou o construtor.
         O prior sentiu-se ultrajado.
         - Como voc pode dizer uma coisa dessas?
         -  um pouco como o que voc fez comigo - disse Jack.
         - Depois que eu lhe trouxe a Madona que Chora, criei um projeto
maravilhoso para a sua catedral e constru uma muralha para proteg-lo contra
William, voc declarou que eu no podia viver com a mulher que  a me dos
meus filhos. Foi uma ingratido.
         Philip ficou chocado com a comparao.
         - Mas  algo completamente diferente! - protestou. - No quero que
vocs vivam separados.  Waleran quem tem bloqueado a anulao. Mas a lei de
Deus diz que voc no deve cometer adultrio.
         - Tenho certeza de que Richard diria algo similar - persistiu Jack. - No
foi ele quem ordenou a reverso da propriedade. S est cumprindo a lei.
         O sino do meio-dia tocou.
         - H uma diferena entre as leis de Deus e as leis dos homens - disse
Philip.
         - Mas temos que viver segundo ambas - contraps Jack. - E agora vou
almoar com a me dos meus filhos.
         Ele se afastou e deixou o prior ali parado, parecendo bastante furioso. Na
realidade no considerava Philip to ingrato quanto Richard, mas aliviava seus
sentimentos fingir que achava. Decidiu perguntar a Aliena sobre a pedreira. Podia
ser que Richard se deixasse convencer a ced-la. Ela saberia.
        Jack deixou o priorado e percorreu as ruas at a casa onde morava com
Martha. Aliena e as crianas estavam na cozinha, como sempre. A crise terminara
no ano anterior, com uma boa colheita, e os alimentos j no eram
desesperadamente escassos: havia po de trigo e carneiro assado na mesa.
        Jack beijou as crianas. Sally deu-lhe um meigo beijo infantil, mas
Tommy, agora com onze anos de idade e impaciente para crescer, ofereceu o
rosto e exibiu um ar embaraado. O pai sorriu mas nada disse: lembrava-se de
quando achava que beijar era uma bobagem.
        Aliena estava com um ar perturbado. Jack sentou-se no banco ao seu
lado.
        - Philip est furioso porque Richard no lhe quer dar a pedreira - disse
ele.
        - Que coisa terrvel! - comentou ela, com moderao. - Richard est
sendo ingrato.
        - Acha que ele pode ser persuadido a mudar de idia?
        - Sinceramente no sei - respondeu Aliena, distrada.
        - Voc no parece muito interessada no problema - comentou Jack.
        Ela o encarou desafiadoramente.
        - No, no estou.
        Ele conhecia aquele jeito.
        -  melhor voc me dizer o que a est preocupando.
        Aliena levantou-se.
        - Vamos para o quarto dos fundos.
        Lanando um olhar comprido  perna de carneiro, Jack deixou a mesa e
seguiu-a at o quarto de dormir. Deixaram a porta aberta, como usualmente
faziam, para evitar suspeitas se chegasse algum de repente. Aliena sentou-se na
cama e cruzou os braos.
        - Tomei uma deciso importante - comeou.
        Seu aspecto era to srio que Jack se perguntou que diabos poderia ser.
        - Vivi a maior parte da vida adulta debaixo de duas sombras - comeou
ela. - Uma foi a promessa que fiz a meu pai moribundo. A outra  o meu
relacionamento com voc.
        - Mas voc cumpriu o prometido ao seu pai - disse Jack.
        - Sim. E agora quero me livrar tambm do outro fardo. Decidi deix-lo.
        Jack teve a impresso de que o corao ia parar. Sabia que ela no dizia
coisas assim levianamente: estava falando a srio. Contemplou-a, sem fala. Sentia-
se desorientado com a notcia: nunca sonhara que Aliena pudesse deix-lo. Como
aquela coisa horrvel insinuou-se na sua mente? Disse a primeira coisa que lhe
veio  cabea:
        - H outro homem?
        - No seja idiota.
        - Ento, por qu?
        - Porque no aguento mais - disse ela, os olhos se enchendo de lgrimas.
- Esperamos h dez anos pela anulao. Ela no vir nunca, Jack. Estamos
destinados a viver deste modo para sempre - a no ser que nos separemos.
        - Mas... - ele procurou alguma coisa que pudesse dizer. A declarao dela
fora to devastadora, que discutir parecia intil, como tentar fugir de um furaco.
Mesmo assim, ele tentou: - O que temos no  melhor do que nada, melhor do
que uma separao?
        - No fim, no.
        - Mas como a sua partida poder mudar alguma coisa?
        - Pode ser que eu encontre outra pessoa, me apaixone de novo e viva
uma vida normal - disse ela, mas estava chorando.
        - Voc ainda estar casada com Alfred.
        - Mas ningum saber ou se importar. Eu poderia ser casada por um
padre que nunca tivesse ouvido falar de Alfred Construtor, e que no
considerasse o casamento vlido se soubesse dele.
        - No acredito que voc esteja dizendo isso. No posso aceitar.
        - Dez anos, Jack. Estou esperando h dez anos para ter uma vida normal
com voc. No vou esperar mais.
        As palavras caram sobre ele como pedras. Ela continuou falando, mas
Jack no mais compreendeu o que dizia. Sconseguia pensar na vida sem ela.
Interrompeu-a.
        - Nunca amei outra mulher, Aliena.
        Ela estremeceu, como se estivesse sentindo muita dor, mas continuou o
que estava dizendo.
        - Preciso de algumas semanas para providenciar tudo. Vou arranjar uma
casa em Winchester. Quero que as crianas se acostumem com a idia, antes que
a nova vida delas comece...
        - Voc vai levar meus filhos - disse ele estupidamente.
        Ela balanou a cabea.
        - Sinto muito - disse. Pela primeira vez sua determinao pareceu
fraquejar. - Sei que sentiro sua falta. Mas eles tambm precisam de uma vida
normal.
        Jack no pde aguentar mais. Virou-se.
        - No me deixe - disse Aliena. - Precisamos conversar um pouco mais.
Jack...
        Ele saiu sem responder. Ouviu Aliena gritar seu nome:
        - Jack!
        Ele atravessou a sala sem olhar para as crianas, e deixou a casa. Foi
numa espcie de transe que caminhou de volta para a catedral, sem saber para
onde mais poderia ir. Os operrios ainda estavam almoando. No foi capaz de
chorar: aquilo era ruim demais para meras lgrimas. Sem pensar, subiu a escada
do transepto norte, at o topo, e passou para cima do telhado. Soprava um vento
forte l em cima, embora ao nvel do solo mal se notasse. Jack olhou para baixo.
Se casse dali iria bater no telhado de meia-gua da nave lateral que corria ao
longo do transepto. Decerto morreria, mas no tinha certeza. Caminhou at o
cruzeiro e se deteve onde o telhado se interrompia de sbito. Se a catedral
levantada no novo estilo no fosse estruturalmente slida e Aliena o deixasse,
no lhe restaria nenhum motivo para continuar vivendo.
         A deciso dela no fora to repentina quanto parecera, claro. J vinha se
sentindo descontente h anos - ambos vinham. Mas tinham se acostumado com a
infelicidade.
         A reconquista de Earlscastle sacudira o torpor de Aliena, fazendo-a
lembrar que era a responsvel pela sua vida. Desestabilizara uma situao que j
era instvel - do mesmo jeito como a tempestade causara rachaduras nas paredes
da catedral.
         Jack olhou para a parede do transepto e para o telhado da nave lateral.
Dava para ver os macios arcobotantes projetando-se para fora da parede da
nave lateral, e ele podia visualizar o meio arco debaixo do telhado, conectando o
arcobotante ao p do clerestrio. O que resolveria o problema, era o que pensava
pouco antes de Philip interromp-lo de manh, seria um arcobotante mais alto,
talvez com mais vinte ps, com um segundo meio arco fazendo a ligao com o
ponto da parede onde as rachaduras estavam aparecendo. O arco e o arcobotante
alto escorariam a metade superior da igreja e manteriam a parede rgida quando o
vento soprasse.
         Isso provavelmente resolveria o problema. A questo era que, se
construsse uma nave lateral de dois andares para esconder a extenso do
arcobotante, perderia luz; e se no construsse...
         E se no construsse?
         Estava possudo pela sensao de que nada importava muito, j que sua
vida estava se desmoronando; e, nesse estado de esprito, no podia ver nada de
errado com arcobotantes aparentes. De p, ali em cima do telhado, podia
imaginar com facilidade como seria. Uma linha de vigorosas colunas de pedra se
ergueria da parede externa da nave lateral. Partindo do topo de cada coluna, um
meio arco cruzaria o espao vazio at o clerestrio. Talvez pusesse um pinculo
decorativo sobre cada coluna, acima do ponto de origem do arco. Sim, desse jeito
ficaria melhor.
         Era uma idia revolucionria, construir grandes elementos estruturais
destinados a reforar a obra de modo a ficarem totalmente visveis. Mas era parte
do novo estilo mostrar como o prdio era sustentado.
         De qualquer maneira, seu instinto lhe dizia que estava certo.
         Quanto mais pensava, mais gostava da idia. Visualizou a igreja vista do
oeste. Os meios arcos lembrariam as asas de um bando de aves, todas em linha,
prontas para levantar vo. No precisariam ser grossos. Desde que fossem bem
feitos, poderiam ser esbeltos e elegantes, leves porm fortes, exatamente como a
asa de um pssaro.
         Arcobotantes alados, para uma igreja to leve que poderia voar.
         S queria saber, pensou, s queria saber se ia funcionar.
         Uma lufada de vento subitamente o desequilibrou. Ele balanou na
beirada do telhado. Por um instante pensou que fosse cair e morrer. Depois
recuperou o equilbrio e recuou, o corao disparado.
         Lenta e cuidadosamente, refez o caminho ao longo do telhado at a porta
do torreo e desceu.

         O trabalho cessara por completo na igreja de Shiring. Philip surpreendeu-
se exultando um pouco com isso. Depois de todas as vezes que olhara
desconsoladamente um canteiro de obras deserto, no podia deixar de se sentir
satisfeito ao ver o mesmo acontecer a seus inimigos. Alfred Construtor s tivera
tempo para demolir a velha igreja e assentar as fundaes do novo coro antes de
William ser deposto e o dinheiro acabar. O prior disse a si prprio que era
pecado alegrar-se com a runa de uma igreja. No entanto, era bvio que a
vontade divina era que a catedral fosse construda em Kingsbridge, no em
Shiring - a m sorte que perseguia o projeto de Waleran parecia um sinal bem
claro das intenes divinas.
         Agora que a maior igreja da cidade fora derrubada, a corte do condado
era realizada no grande salo do castelo. Philip subira a colina a cavalo, com
Jonathan a seu lado. Fizera do rapaz seu assistente pessoal, na movimentao que
se seguira  defeco de Remigius. O prior, embora chocado, ficara contente por
v-lo pelas costas.
         Desde que o vencera na eleio, Remigius fora um espinho encravado na
sua carne. O priorado era agora um lugar melhor para se viver, depois de sua
partida.
         Milius era o novo subprior. Continuava, contudo, a desempenhar as
funes de tesoureiro, e tinha uma equipe de trs pessoas sob suas ordens na
tesouraria. Desde que Remigius se fora, ningum conseguira imaginar o que
costumava fazer o dia inteiro.
         Philip sentia profunda satisfao em trabalhar com Jonathan. Gostava de
explicar-lhe como o mosteiro era governado, educ-lo nas coisas do mundo e
mostrar-lhe quais os melhores modos de lidar com as pessoas. O rapaz
geralmente era benquisto, mas s vezes podia ser agressivo, e facilmente irritava
pessoas destitudas de autoconfiana.
         Precisava aprender que as pessoas que o tratavam com hostilidade o
faziam por serem fracas. Ele via a hostilidade e reagia furiosamente, em vez de
perceber a fraqueza e retribuir com segurana.
         Jonathan tinha a inteligncia rpida, e com frequncia surpreendia Philip
pela presteza com que entendia as coisas. O prior as vezes se pegava cometendo
o pecado do orgulho, pensando em como o rapaz era parecido consigo.
         Trouxera Jonathan consigo naquele dia para que aprendesse como
funcionava o tribunal do condado. Philip ia pedir ao xerife que mandasse Richard
abrir a pedreira ao priorado. Estava certo de que o novo conde cometia um erro
legal. A nova lei a respeito da restaurao da propriedade aos titulares do tempo
do velho rei Henrique no afetava os direitos do priorado. Seu objetivo era
permitir ao duque substituir os condes de Estvo pelos seus, e assim
recompensar pessoas que haviam lutado por ele. Obviamente no se destinava a
ser aplicada aos mosteiros. Philip confiava em ganhar sua causa, mas havia um
fator desconhecido: o velho xerife morrera, e seu substituto seria anunciado
naquele dia. Ningum sabia quem seria, mas todos presumiam que fosse um dos
trs ou quatro cidados mais importantes de Shiring: Davi Mercador, o vendedor
de seda; Rees, o Gals, um padre que trabalhara na corte real; Giles Corao de
Leo, um cavaleiro cujas terras ficavam nas vizinhanas da cidade; ou Hugh, o
Bastardo, o filho ilegtimo do bispo de Salisbury. Philip esperava que fosse Rees,
no por ser seu conterrneo, mas por ser, presumivelmente, favorvel  igreja.
Porm no estava muito preocupado: confiava que qualquer um dos quatro
decidisse em seu favor.
         Entraram no castelo. No era muito fortificado. Tendo em vista que o
conde de Shiring tinha um castelo separado fora da cidade, h diversas geraes
que Shiring escapava da guerra. Ali era mais um centro administrativo, com
escritrios e alojamentos para o xerife e seus homens, e masmorras para os
transgressores. Philip e Jonathan deixaram os cavalos no estbulo e entraram na
maior de todas as construes, o grande salo.
         As mesas de cavalete que normalmente formavam um T tinham sido
rearranjadas. A parte superior do T continuava, erguida acima do nvel do resto
do salo por um estrado; as outras foram encostadas s paredes, de modo que os
querelantes antagnicos pudessem se sentar bem afastados, evitando-se a
tentao da violncia fsica.
         O salo j estava cheio. O bispo Waleran encontrava-se presente, com
seu ar malvolo. Para surpresa de Philip, William estava a seu lado, conversando
com o bispo com o canto da boca, enquanto observavam as pessoas que
entravam. O que Hamleigh estaria fazendo ali? Durante nove meses ele estivera
praticamente escondido, mal saindo de sua aldeia, e o prior assim como muitos
outros habitantes do condado - tivera a esperana de que pudesse permanecer
assim para sempre. Mas ali estava ele, sentado no banco como se ainda fosse o
conde. Philip gostaria de saber que esquema ganancioso, perverso e mesquinho o
trouxera ali.
         Philip e Jonathan se sentaram a um lado e aguardaram o incio das
atividades. O ambiente era otimista, dinmico. Agora que a guerra terminara, a
elite do pas voltara suas atenes para a questo de criar riquezas. A terra era
frtil e rapidamente recompensou seus esforos: uma safra recorde era esperada
para aquele ano. O preo da l subira. Philip readmitira quase todos os
empregados que haviam partido no auge da crise. Por toda parte, os
sobreviventes eram as pessoas mais jovens, fortes e saudveis, que agora se
encontravam cheias de esperanas, o que aparecia ali, no grande salo do Castelo
de Shiring, no modo como inclinavam a cabea, no volume de suas vozes, nas
botas novas dos homens e nos belos adornos de cabea das mulheres, assim
como o fato de estarem prsperos o bastante para serem proprietrios de algo
cuja posse valesse a pena discutir na corte.
         Levantaram-se quando o assistente do xerife entrou com o conde
Richard. Os dois homens subiram no tablado e, ainda de p, o assistente
comeou a ler o decreto real designando o novo xerife. Enquanto estava nas
frmulas iniciais, Philip deu uma olhada nos quatro presumveis candidatos.
Esperava que o vencedor tivesse coragem: ia precisar, para fazer valer a lei ante
os poderosos locais, gente como o bispo Waleran, o conde Richard e lorde
William. O candidato vitorioso devia saber que fora designado - no havia razo
para guardar segredo -, mas nenhum dos quatro parecia muito animado.
Normalmente o designado ficaria de p junto ao assistente enquanto a
proclamao era lida, mas as nicas pessoas ali com ele eram Richard, Waleran e
William. A aterrorizante idia de que o bispo poderia ter sido nomeado xerife
cruzou a mente do prior. Mas ele ficou mais horrorizado ainda quando ouviu:
         - ... Designo para exercer as funes de xerife de Shiring o meu sdito
William de Hamleigh, e ordeno a todos os homens que o ajudem...
         Philip olhou para Jonathan.
         - William!
         Houve murmrios indicando surpresa e desaprovao entre os habitantes
da cidade.
         - Como ele conseguiu? - perguntou Jonathan.
         - Deve ter pago.
         - E como conseguiu o dinheiro?
         - Pediu emprestado, suponho.
         William deslocou-se para o trono de madeira no meio da mesa principal,
sorridente. Philip se lembrava de que ele fora um rapaz bonito. Ainda no
completara quarenta anos, mas parecia mais velho. Seu corpo estava pesado
demais, e a pele vermelha denunciava o excesso de vinho; a fora alegre e o
otimismo que torna as faces jovens atraentes haviam desaparecido, substitudos
por uma aparncia de dissipao. Quando Hamleigh se sentou, Philip ergueu-se.
         - Estamos indo? - cochichou Jonathan, levantando-se tambm.
         - Siga-me - respondeu o prior, por entre os dentes. Fez-se completo
silncio. Todos os olhos se fixaram neles, enquanto atravessavam a sala de
sesses. A multido se afastou para deix-los passar. Um murmrio generalizado
fez-se ouvir quando a porta se fechou.
         - No tnhamos chance de sucesso com William sentado naquela cadeira -
disse o jovem monge.
         - Pior que isso - redarguiu Philip. - Se tivssemos insistido, poderamos
ter perdido outros direitos.
         - Pela minha alma, nunca pensei nisso.
         Philip assentiu melancolicamente.
         - Com William como xerife, Waleran como bispo e o desleal Richard
como o conde,  completamente impossvel para o priorado de Kingsbridge
obter justia neste condado. Eles podem fazer tudo o que quiserem conosco.
         Enquanto um servente do estbulo arriava seus cavalos, Philip disse:
         - Vou fazer uma petio ao rei para que promova Kingsbridge  condio
de burgo. Desse modo poderemos ter nosso prprio tribunal e pagar os
impostos diretamente ao rei. Na verdade, estaremos fora da jurisdio do xerife.
         - Voc sempre foi contra isso, no passado - lembrou Jonathan.
         - Eu era contra porque a cidade ficaria to poderosa quanto o priorado.
Mas agora acho que devemos aceitar, como o preo da independncia. A
alternativa  William.
         - Ser que o rei Estvo nos dar o status de burgo?
         - Pode ser que sim, mediante o pagamento do seu preo. Caso contrrio,
talvez Henrique o faa quando se tornar rei.
         Os dois montaram em seus cavalos e atravessaram a cidade, derrotados.
         Passaram pelo porto e pelo depsito de lixo que ficava nas
proximidades. Umas poucas pessoas examinavam o refugo procurando algo para
comer, usar ou queimar como combustvel. Philip as viu, sem interesse, mas uma
daquelas pessoas atraiu sua ateno. Um vulto alto e familiar se debruava sobre
uma nilha de trapos. O prior conteve sua montaria. Jonathan parou ao seu lado.
         - Olhe - disse Philip.
         O jovem monge seguiu o seu olhar.
         - Remigius - disse baixinho, aps um momento.
         O prior ficou observando-o. Waleran e William, evidentemente, tinham
se livrado de Remigius algum tempo antes, quando os recursos para a construo
da nova igreja haviam desaparecido. No precisavam mais dele. O monge trara
Philip, trara o priorado e trara Kingsbridge, tudo na esperana de se tornar o
deo de Shiring; mas o seu prmio se transformara em cinzas.
         Philip fez seu cavalo sair da estrada e atravessar o depsito de lixo at o
ponto onde Remigius estava. Jonathan o seguiu., O mau cheiro parecia se
levantar do cho como neblina. Ao aproximar-se viu que o monge estava
cadavericamente magro. Seu hbito estava imundo, e ele tinha os ps descalos.
Estava com sessenta anos, e tinha passado em Kingsbridge toda a vida adulta:
ningum jamais lhe ensinara como viver na dificuldade. O prior viu-o puxar um
par de sapatos de couro de dentro do lixo.
        Tinham buracos imensos nas solas, mas Remigius os olhou com o ar de
um homem que acabara de encontrar um tesouro enterrado. Quando estava
prestes a experiment-los, viu Philip.
        Endireitou-se. O rosto dele mostrava a luta que travavam a vergonha e a
rebeldia em seu corao. Aps um momento, perguntou:
        - Vieram tripudiar sobre mim?
        - No - respondeu Philip suavemente. Seu velho inimigo era uma viso
to digna de pena que o prior no sentia nada a no ser compaixo por ele.
Desmontou e apanhou um cantil no alforje. - Vim lhe oferecer um gole de vinho.
        O monge no queria aceitar, mas estava demasiadamente faminto para
recusar. Hesitou s por um momento, e pegou o cantil. Cheirou o vinho
desconfiadamente e levou-o  boca. Uma vez que comeou a beber, no foi
capaz de parar. Havia apenas cerca de um copo, que ele bebeu em poucos
segundos. Abaixou o cantil e tremeu um pouco.
        Philip pegou o cantil de volta e o recolocou no alforje.
        -  melhor que voc tambm coma um pouco - disse, apanhando um
pedao de po.
        Remigius pegou o po oferecido e comeou a enfi-lo na boca.
Obviamente no comia nada h dias, e com certeza no fazia uma refeio
decente h semanas. Podia estar perto da morte, pensou Philip com tristeza; se
no de fome, pelo menos de vergonha.
        O po foi deglutido depressa.
        - Voc quer voltar? - perguntou o prior.
        Ele ouviu Jonathan respirar fundo. Como quase todos os monges,
Jonathan esperava nunca mais rever Remigius. Provavelmente achou que Philip
estivesse louco, por se oferecer a aceit-lo de volta.
        Um indcio do antigo Remigius apareceu por um momento, e ele
perguntou:
        - Voltar? Em que posio?
        Philip sacudiu a cabea pesarosamente.
        - Voc nunca mais desempenhar uma funo de qualquer tipo no meu
priorado, Remigius. Volte como um monge simples e humilde. Pea a Deus que
perdoe seus pecados, e viva o resto dos seus dias em prece e contemplao,
preparando a alma para o cu.
        Remigius inclinou a cabea para trs, e o prior esperou uma recusa
escarninha; porm, nunca chegou a ouvi-la. Ele abriu a boca para falar e fechou-a
de novo. Philip permaneceu imvel e calado, observando, perguntando-se o que
aconteceria. Houve um longo momento de silncio. Conteve a respirao.
Quando o monge ergueu a cabea de novo, seu rosto estava molhado de
lgrimas.
         - Sim, por favor, padre - disse. - Quero ir para casa.
         Philip sentiu o intenso ardor do jbilo.
         - Vamos, ento. Monte no meu cavalo.
         Remigius ficou estupefato.
         - Padre! O que est fazendo? - perguntou Jonathan.
         - Vamos, faa o que falei - disse Philip para Remigius. O jovem monge
continuava horrorizado.
         - Mas padre, como voc vai viajar?
         - Caminharei - respondeu o prior alegremente. - Um de ns vai ter que
caminhar.
         - Pois que Remigius v a p! - exclamou Jonathan, ultrajado.
         - Que ele v a cavalo - disse Philip. - Hoje ele contentou a Deus.
         - E voc? J no contentou a Deus mais do que Remigius?
         - Jesus disse que h mais alegria no cu por um pecador que se arrepende
do que por noventa e nove justos - contraps Philip. - Voc no se lembra da
parbola do filho prdigo? Quando ele voltou para casa, seu pai matou o bezerro
que estava engordando, para a festa de boas-vimdas. Os anjos se rejubilam com
as lgrimas de Remigius. O mnimo que posso fazer  ceder-lhe meu cavalo.
         Ele pegou a cabeada do animal e conduziu-o pelo depsito de lixo at a
estrada. Jonathan seguiu-o. Ao chegarem  estrada, o jovem desmontou e disse:
         - Padre, por favor, pegue meu cavalo, ento, e deixe-me andar!
         - Volte para o seu cavalo - ordenou Philip asperamente, virando-se para
ele -, pare de discutir comigo e pense no que est sendo feito e por qu.
         Jonathan ficou intrigado, mas montou de novo e nada mais disse.
         Eles se viraram na direo de Kingsbridge. Ficava a uma distncia de
vinte milhas. Philip comeou a caminhar. Sentia-se maravilhosamente bem. O
retorno de Remigius mais do que compensava a pedreira. Perdi na corte, pensou,
mas o que estava em jogo ali eram simples pedras. O que ganhei foi algo
infinitamente mais valioso.
         Hoje ganhei a alma de um homem.

        Mas frescas e maduras flutuavam no barril, cntilantemente vermelhas e
amarelas quando o sol se refletia na gua. Sally, com nove anos de idade e
excitvel, debruou-se sobre a borda do barril com as mozinhas cruzadas nas
costas e tentou apanhar uma ma com os dentes. A fruta afastou-se, o rosto dela
mergulhou na gua, e a menina se levantou cuspindo e gritando, entre uma risada
e outra. Aliena sorriu e enxugou o rosto da filha.
         Era uma tarde quente de fim de vero, dia santo e feriado, e quase toda a
gente da cidade se reunira na campina ao lado do rio para a brincadeira de
morder a ma.
         Era o tipo de ocasio que Aliena sempre apreciava, mas o fato de ser seu
ltimo dia santo em Kingsbridge no lhe saa da cabea, deixando-a deprimida.
Ainda estava determinada a deixar Jack, mas desde que tomara a deciso
comeara a sentir, por antecipao, a dor da perda.
         Tommy estava rondando a barrica e Jack exclamou:
         - Vamos, Tommy, faa uma tentativa!
         - Ainda no - replicou ele.
         Aos onze anos, o garoto sabia que era mais esperto que a irm e se
achava tambm mais esperto que a maioria das outras pessoas. Ficou observando
por algum tempo, estudando a tcnica dos que tinham xito na brincadeira de
pegar a ma com os dentes. Aliena o observou. Amava-o de um modo todo
especial. Jack tinha mais ou menos a sua idade na poca em que o conhecera, e
Tommy era muito parecido com ele quando menino. Olhar para ele a tornava
nostlgica da sua infncia. Jack queria que o filho fosse construtor, mas o menino
ainda no demonstrara interesse algum. De qualquer modo, havia muito tempo.
         Momentos depois, Tommy se aproximou do barril. Debruou-se e
baixou a cabea lentamente, a boca bem aberta. Empurrou a ma escolhida para
debaixo d'gua, submergindo todo o rosto, e em seguida emergiu
triunfantemente com a ma entre os dentes.
         Teria xito em qualquer coisa que cismasse de fazer. Havia um pouco do
av, o conde Bartholomew, na sua personalidade. Tinha uma vontade muito
forte e era um tanto inflexvel na questo do que era certo ou errado.
         Fora Sally quem herdara do pai a natureza despreocupada e o desprezo
pelas regras feitas pelo homem. Quando Jack contava histrias s crianas, ela
sempre simpatizava com a vtima, enquanto Tommy quase sempre preferia
pronunciar seu julgamento. Cada criana tinha a personalidade de um dos pais e a
aparncia do outro: a despreocupada Sally possua as feies regulares de Aliena e
seus ondulados cabelos em cachos, enquanto o determinado Tommy era ruivo
como Jack, com a mesma pele branca e os mesmos olhos azuis.
         - Olha o tio Richard chegando! - gritou Tommy. Aliena virou-se e seguiu
a direo do olhar do filho. No havia dvida, l estava seu irmo, o conde,
cavalgando por entre a campina, seguido por um punhado de cavaleiros e
escudeiros. Ficou horrorizada. Como ele tinha coragem de aparecer ali depois do
que fizera a Philip no tocante  pedreira?
         Ele se aproximou do barril, sorrindo para todo mundo e apertando mos.
         - Tente pegar uma ma, tio Richard - disse Tommy. - Voc consegue!
         Richard enfiou a cabea no barril e emergiu com uma ma presa nos
dentes fortes e alvos e a barba loura encharcada. Ele sempre se sara melhor em
jogos do que na vida real, pensou Aliena.
         Ela no ia deixar a coisa passar como se ele no tivesse feito nada de
errado. Outras pessoas podiam ter medo de falar, porque ele era o conde, mas
para Aliena Richard era apenas seu tolo irmo mais moo. Ele se aproximou para
beij-la, mas ela o empurrou, dizendo:
         - Como pde roubar a pedreira do priorado?
         Jack, vendo que se aproximava uma briga, pegou as mos das crianas e
se afastou.
         Richard pareceu irritar-se.
         - Todas as propriedades reverteram aos antigos donos...
         - No me venha com essa histria - interrompeu Aliena. - Depois de tudo
o que Philip fez por voc!
         - A pedreira  parte do patrimnio que herdei - disse ele. Puxou-a para
um lado e comeou a falar baixo, para que ningum mais pudesse ouvi-lo. - Alm
disso, preciso do dinheiro que ganho vendendo as pedras, Allie.
         - Isso  porque voc fica o tempo todo caando, com ou sem seus
falces!
         - Mas o que eu deveria fazer?
         - Voc deveria fazer com que a terra produzisse riqueza! H muito para
ser feito: reparar os danos causados pela guerra e pela crise, importar novos
mtodos agrcolas, derrubar florestas, drenar pntanos... A est como poderia
aumentar sua riqueza! E no roubando a pedreira que o rei Estvo deu ao
priorado!
         - Nunca tomei coisa alguma que no me pertencesse.
         - Voc nunca fez outra coisa na vida! - replicou Aliena. Estava furiosa o
bastante para dizer coisas que seria melhor no dizer. - Voc nunca trabalhou
para obter nada. Tomou o meu dinheiro para suas estpidas armas, tomou o
emprego que Philip lhe arranjou, tomou o condado quando lhe foi entregue
numa bandeja por mim. Agora no  capaz nem mesmo de governar sem tomar
coisas que no lhe pertencem! - Ela se virou e saiu pisando duro.
         Richard seguiu-a, mas algum o pegou de surpresa, fazendo uma
reverncia e perguntando como estava. Aliena o ouviu dar uma resposta polida, e
depois entreter-se numa conversa animada.
         Tanto melhor: dissera o que tinha a dizer e no queria discutir. Atingiu a
ponte e olhou para trs. Outra pessoa o detivera. Richard acenou, indicando que
ainda queria lhe falar, mas estava preso. Aliena viu que Jack, Tommy e Sally
comeavam uma brincadeira com um pau e uma bola. Fixou os olhos neles
brincando juntos ao sol, e sentiu que no era capaz de separ-los. Mas de que
outro modo, pensou, posso levar uma vida normal?
         Atravessou a ponte e entrou na cidade. Queria ficar sozinha por algum
tempo.
         Arranjara uma casa em Winchester, espaosa, com uma loja no andar
trreo, uma sala de estar no segundo, um quarto de dormir separado e um grande
depsito no fundo do quintal para o seu tecido. Entretanto, quanto mais se
aproximava a hora da mudana, menos queria se mudar.
         As ruas de Kingsbridge eram quentes e poeirentas, e o ar se enchia de
moscas que proliferavam nos incontveis monturos de lixo. Todas as lojas
estavam fechadas, e as casas, trancadas. A cidade se encontrava deserta. Todos
tinham ido para a campina.
         Dirigiu-se para a casa de Jack. Era para l que os outros viriam quando
acabassem as brincadeiras. A porta da casa estava aberta. Franziu a testa,
aborrecida. Quem a abrira? Um nmero excessivo de pessoas tinha a chave: ela
prpria, Jack, Richard e Martha. No havia muito que roubar. Aliena certamente
no deixava seu dinheiro ali; h anos Philip permitia que o guardasse na
tesouraria do convento. Mas a casa ia se encher de moscas. Ela entrou. Estava
escuro e frio. Moscas danavam no ar, no meio da sala, varejeiras azuis
passeavam em cima da toalha, e um par de vespas brigavam furiosamente em
torno da rolha do pote de mel.
         E Alfred estava sentado  mesa.
         Aliena deu um grito de medo, depois se recuperou e perguntou:
         - Como voc entrou?
         - Eu tinha uma chave.
         Voc a conservou por longo tempo, pensou Aliena. Ela o examinou.
Seus ombros largos estavam ossudos, e o rosto enrugado parecia ter encolhido.
         - O que est fazendo aqui? - perguntou Aliena.
         - Vim v-la.
         Ela percebeu que tremia, no de medo, mas de raiva.
         - No quero ver voc, nem agora nem nunca mais - afirmou, com
veemncia. - Voc me tratou como um cachorro, e quando Jack ficou com pena
de voc e o empregou, traiu o compromisso assumido e levou todos os operrios
para Shiring.
         - Preciso de dinheiro - disse ele, com um misto de splica e desafio na
voz.
         - Ento trabalhe.
         - A obra de Shiring parou. No posso arranjar emprego aqui em
Kingsbridge.
         - Ento v para Londres, v para Paris!
         Ele persistiu, com sua teimosia bovina.
         - Pensei que voc me ajudaria.
         - No h nada para voc aqui.  melhor ir embora.
         - Voc no tem piedade? - disse ele, e agora o desafio desaparecera e s
havia splica em sua voz.
        Ela apoiou-se na mesa para se firmar.
        - Alfred, voc no entende que eu o odeio?
        - Por qu? - perguntou ele. Parecia ofendido, como se aquilo fosse uma
surpresa.
        Meu Deus, como ele  burro!, pensou ela. Isto  o mais prximo de uma
desculpa que consegue chegar.
        - V ao mosteiro se quer caridade - disse Aliena cautelosamente. - A
capacidade de perdo do prior Philip  sobrehumana. A minha no.
        - Mas voc  minha mulher - disse Alfred. Aquilo era demais.
        - No sou sua mulher - disse ela. - Voc no  meu marido. Nunca foi.
Agora d o fora desta casa.
        Para sua surpresa, ele a agarrou pelo cabelo.
        - Voc  minha mulher - exclamou. Puxou-a na sua direo, por cima da
mesa, e com a mo livre agarrou-lhe o seio e apertou-o com fora.
        Aliena foi tomada completamente de surpresa. Aquilo era a ltima coisa
que podia esperar de um homem com quem dormira por nove meses sem jamais
conseguir consumar a unio. Automaticamente gritou e afastou-se, mas Alfred a
estava segurando com fora e puxou-a de volta com um arranco.
        - No h ningum para ouvir seus gritos - disse ele. Esto do outro lado
do rio.
        De sbito Aliena sentiu-se terrivelmente apavorada. Estavam sozinhos, e
ele era muito forte. Aps tantas milhas de estrada que percorrera, tantos anos em
que arriscara o pescoo viajando, estava sendo atacada pelo homem que havia
desposado!
        Alfred viu o medo nos seus olhos.
        - Assustada, voc? Talvez seja melhor ser boazinha. - Beijou-a na boca.
Aliena mordeu seu lbio com toda a fora de que foi capaz. Ele urrou de dor.
        Ela no viu o soco se aproximando. Explodiu no seu rosto com tanta
fora que lhe passou pela cabea a terrvel idia de que talvez tivesse esmagado
seus ossos. Por um momento perdeu a viso e o equilbrio. Soltou a mesa e
sentiu que estava caindo. A palha amaciou o impacto no cho. Sacudiu a cabea
para clare-la e tentou pegar a faca amarrada no brao esquerdo. Antes que
conseguisse, seus dois pulsos foram agarrados e ela ouviu Alfred dizer:
        - Sei desse punhalzinho seu. J vi voc tirando a roupa, lembra-se? - Ele
soltou suas mos, socou-lhe o rosto de novo e pegou o punhal.
        Aliena tentou se libertar, retorcendo o corpo. Ele se sentou sobre suas
pernas e levou a mo esquerda ao seu pescoo. Ela agitou os braos. De repente,
a ponta do punhal estava a uma polegada do seu olho.
        - Fique quieta, seno arranco seus olhos - ameaou Alfred.
        Por que estava fazendo aquilo? Nunca sentira desejo por ela. Seria s por
estar derrotado e furioso, e ela vulnervel? Estaria ela representando o mundo
que o rejeitara?
         Ele inclinou-se para a frente, pondo-se a cavalo em cima de Aliena, com
os joelhos ao lado de seus quadris, conservando a faca junto do olho. Mais uma
vez encostou o rosto no dela.
         - Agora seja boazinha. - E beijou-a de novo.
         Sua barba crescida arranhou o rosto de Aliena. Ela sentiu o cheiro de
cerveja e cebolas. Manteve a boca fechada com fora.
         - Isso no  ser boazinha. Retribua meu beijo.
         Ele a beijou de novo e encostou mais ainda a ponta da faca. Quando a
ponta da lmina tocou na plpebra ela abriu os lbios. O sabor da boca de Alfred
a deixou enjoada.
         Ele passou a lngua spera por entre seus lbios. Aliena teve a impresso
de que ia vomitar, e tentou desesperadamente controlar-se, de medo que ele a
matasse.
         Alfred afastou-se de novo, mas conservou a faca no seu rosto.
         - Agora sinta isto. - Pegou a mo dela e colocou-a sob a tnica. Ela tocou
seu pnis. - Segure-o - disse ele. Ela obedeceu. - Agora esfregue delicadamente.
         Mais uma vez ela obedeceu. Ocorreu-lhe que se ele sentisse prazer
daquele modo poderia evitar ser penetrada. Lanou um olhar atemorizado ao seu
rosto. Ele estava congestionado, os olhos fechados. Ela o acariciou at a base,
lembrando-se de que Jack ficava excitadssimo com aquilo.
         Teve medo de nunca mais ser capaz de gostar de sexo de novo, e seus
olhos se encheram de lgrimas. Ele brandiu a faca perigosamente.
         - No  com tanta fora! Ela se concentrou. Nesse momento a porta
abriu.
         Seu corao deu um pulo de esperana. Os raios de sol que entraram na
sala cintilaram por entre suas lgrimas, ofuscandoa. Alfred ficou imvel. Ela tirou
a mo.
         Ambos olharam na direo da porta. Quem era? Aliena no conseguia
enxergar. Que no seja uma das crianas, meu Deus!, pediu ela. Eu ficaria to
envergonhada! Ouviu um urro de clera. Era uma voz de homem. Piscou,
afastando as lgrimas, e reconheceu seu irmo.
         Pobre Richard! Era quase pior do que se tivesse sido Tommy. Richard,
que tinha uma cicatriz no lugar do lobo da orelha esquerda para lembr-lo da
terrvel cena que presenciara aos catorze anos. Agora testemunhava outra. Como
iria reagir? Alfred comeou a pr-se de p, mas Richard foi rpido demais para
ele. Aliena o viu atravessar o pequeno cmodo de um pulo e soltar um chute
com o p calado por uma bota, pegando o cunhado em cheio no queixo. Ele
caiu de costas em cima da mesa. Richard avanou, tropeando em Aliena sem se
dar conta, batendo em Alfred com os ps e os punhos. Ela afastou-se do
caminho, de gatinhas. O rosto do irmo era uma mascara de fria ingovernvel.
No olhou para ela. No estava preocupado com ela, compreendeu Aliena. A
raiva que sentia no era por causa do que Alfred lhe fizera nesse dia, e sim por
causa do que William e Walter tinham feito com ele, Richard, dezoito anos antes.
Naquele tempo era jovem, fraco e desamparado, mas agora era um homem
grande e forte, um combatente experimentado, que por fim encontrara um alvo
para o dio que cultivara durante todos aqueles anos. Golpeou o adversrio
repetidamente, com ambos os punhos. Alfred recuou, desequilibrado, em torno
da mesa, tentando fragilmente se defender com os braos erguidos. Richard o
pegou no queixo com um murro poderoso, e o cunhado tombou de costas, em
cima das palhas do cho, olhando para cima aterrorizado.
         - Basta, Richard! - pediu Aliena, com medo da violncia do irmo. Este
ignorou-a e adiantou-se para chutar Alfred. Foi quando o cunhado subitamente
se lembrou de que ainda estava com a faca de Aliena na mo. Esquivou-se,
levantou-se rapidamente e atacou-o. Tomado de surpresa, o conde deu um pulo
para trs. O construtor atirou-se sobre ele de novo, obrigando-o a recuar atravs
da sala. Os dois homens eram da mesma altura e tinham a mesma compleio
fsica.
         Richard era um combatente, mas Alfred tinha uma arma: estavam agora
desencorajadoramente bem equilibrados. Aliena sentiu um sbito medo pelo
irmo. O que aconteceria se Alfred o vencesse? Ela teria de lutar contra ele.
         Procurou uma arma  sua volta. Seus olhos deram com a pilha de lenha
ao lado da lareira. Pegou uma acha pesada.
         Alfred atirou-se contra Richard de novo; o conde esquivou-se; quando o
brao do cunhado estava totalmente esticado, Richard agarrou-lhe o pulso e
puxou-o. O construtor tropeou para a frente, desequilibrado. Richard golpeou-o
diversas vezes, muito depressa, com ambos os punhos, atingindo-o na cara e no
corpo. Havia um sorriso selvagem no seu rosto, o sorriso de um homem que est
se vingando. Alfred comeou a gemer, e ergueu os braos para proteger-se.
         O conde hesitou, respirando com dificuldade. Sua irm achou que a briga
ia terminar. Mas de repente o construtor atacou de novo, com surpreendente
rapidez, e dessa vez a ponta da faca roou no rosto de Richard, que pulou para
trs, furioso. Alfred avanou com a faca levantada. Aliena viu que ia matar seu
irmo e correu para ele, brandindo a acha de madeira com toda a fora. Errou a
cabea, mas acertou seu cotovelo direito. Ela ouviu o barulho do impacto. O
golpe deixou a mo de Alfred insensvel e a faca caiu de seus dedos.
         O modo como tudo terminou foi espantosamente rpido. Richard
abaixou-se, pegou a faca e, no mesmo movimento, levou-a por baixo da guarda
de Alfred, apunhalando seu peito com uma violncia terrvel. A lmina entrou at
o cabo.
         Aliena ficou olhando horrorizada. Foi um golpe terrvel. Alfred gritou
como um porco. Richard puxou a faca e o sangue jorrou do buraco no seu peito.
Abriu a boca para gritar de novo, mas no veio nenhum som. Seu rosto ficou
branco, e depois cinzento, os olhos se fecharam e ele caiu no cho. O sangue
encharcou a palha.
         Aliena ajoelhou-se a seu lado. Suas plpebras tremeram. Ainda respirava,
mas a vida estava se esvaindo do seu corpo.
         Ergueu os olhos para Richard, de p junto dos dois, respirando fundo.
         - Ele esta morrendo - disse.
         Richard assentiu. No estava muito comovido.
         - J vi homens melhores morrendo - disse. - J matei homens que
mereciam menos a morte que ele.
         A irm ficou chocada com sua impiedade, mas nada disse. Acabara de se
lembrar da primeira vez em que Richard matara um homem. Foi depois de
William ter tomado o castelo; ela e Richard estavam na estrada para Winchester, e
dois ladres os atacaram. Aliena apunhalara um deles, mas forara Richard, que
tinha ento apenas quinze anos, a desfechar o golpe de misericrdia. Se ele no
tinha corao, pensou, cheia de culpa, quem o fizera assim?
         Ela olhou para Alfred de novo. Ele abriu os olhos e fitou-a. Ficou quase
envergonhada pela pouca compaixo que sentia por aquele homem moribundo.
Pensou, enquanto o encarava, que ele prprio nunca fora compassivo, clemente
ou generoso. Sempre cultivara seus ressentimentos e dios, comprazendo-se com
gestos de perversidade e vingana. Sua vida poderia ter sido diferente, Alfred,
pensou Aliena. Voc poderia ter sido bom com sua irm, e perdoado o filho da
sua madrasta por ser mais inteligente que voc. Poderia ter se casado por amor e
no por vingana. Poderia ter sido leal ao prior Philip. Poderia ter sido feliz.
         Seus olhos se arregalaram subitamente.
         - Meu Deus, di! - gemeu ele.
         Ela gostaria que ele se apressasse e morresse. Seus olhos se fecharam.
         - Terminou - disse Richard. Alfred parou de respirar. Aliena levantou-se.
         - Sou viva - disse.
         Alfred foi enterrado no cemitrio do priorado. Sua irm Martha assim o
quis, e ela era seu ltimo parente de sangue. Foi tambm a nica pessoa a ficar
triste. Alfred nunca fora bom com ela, que sempre se voltara para Jack em busca
de amor e proteo; mesmo assim, queria que fosse enterrado em algum lugar
prximo, onde pudesse visitar seu tmulo. Quando o caixo foi descido para o
interior da cova, apenas Martha chorou.
         Jack parecia melancolicamente aliviado pelo fato de Alfred no mais
existir. Tommy, ao lado de Aliena, estava vivamente interessado em tudo - aquele
era o seu primeiro funeral na famlia, e os rituais da morte eram novos para ele.
Sally, plida e assustada, segurava a mo de Martha.
         Richard estava presente. Disse  irm durante o culto que viera para pedir
perdo a Deus por haver matado o cunhado. No que achasse ter feito algo
errado, apressou-se a dizer; s queria estar a salvo.
         Aliena, cujo rosto ainda estava arranhado e inchado devido ao ltimo
soco de Alfred, relembrou como era ele ao tempo em que o conhecera. Chegara
a Earlscastle com o pai, Tom Construtor, e Martha, Ellen e Jack. J naquela
poca era arrogante, cruel, grande, forte e obstinado, dissimulado e grosseiro. Se
Aliena naquele tempo pensasse que terminaria casada com ele, iria sentir-se
tentada a atirar-se de cima da muralha. No imaginara que os veria de novo
depois de eles terem deixado o castelo, mas todos terminaram morando em
Kingsbridge. Ela e Alfred haviam fundado a associao paroquial, que agora era
uma importante instituio da cidade. Foi quando ele a pedira em casamento.
Aliena nem sonhara que poderia estar movido mais por rivalidade com Jack, filho
de sua madrasta, do que por desejo por ela. Recusara-o, ento, porm mais tarde
Alfred descobrira como manipul-la e a persuadira a despos-lo, prometendo
apoio ao seu irmo. Rememorando tudo isso, ela concluiu que Alfred merecera a
frustrao e humilhao que fora seu casamento. Seus motivos tinham sido
impiedosos, e sua recompensa fora a inexistncia de amor.
         Aliena no podia deixar de estar se sentindo feliz. No havia mais razo
para partir e ir morar em Winchester, claro: ela e Jack se casariam imediatamente.
Estava exibindo uma expresso solene no funeral, e at mesmo dedicando-se a
alguns pensamentos solenes, mas seu corao explodira de contentamento.
Philip, com sua aparentemente ilimitada capacidade para perdoar as pessoas que
o tinham trado, consentiu em enterrar Alfred.
         Quando os cinco adultos e as duas crianas estavam de p em torno da
cova aberta, Ellen chegou.
         Philip aborreceu-se. Aquela mulher amaldioara um casamento cristo, e
no era bem-vinda no adro do priorado; mas dificilmente poderia expuls-la do
funeral do enteado.
         O ritual terminara, de qualquer modo, e assim Philip limitou-se a ir
embora.
         Aliena ficou sentida. Considerava Philip e Ellen boas pessoas, e achava
uma pena que fossem inimigos. Mas eles eram bons de modos diferentes e no
toleravam a tica um do outro.
         Ellen estava parecendo mais velha, com novas rugas no rosto o cabelo
mais branco, embora seus olhos dourados ainda fossem lindos. Usava uma tnica
de couro costurada rusticamente e mais nada, nem mesmo sapatos. Seus braos e
pernas eram bronzeados e musculosos. Tommy e Sally correram para beij-la.
Jack os seguiu e abraou-a com fora. Ela ergueu o rosto para Richard beij-la.
         - Voc fez o que devia - disse. - No se sinta culpado.
         Foi at a beira do tmulo.
         - Fui madrasta dele - disse, olhando-o. - Gostaria de ter sabido faz-lo
feliz.
        Quando se virou, foi abraada pela nora. Todos se afastaram,
caminhando vagarosamente.
        - Quer ficar um pouco e jantar conosco? - perguntou-lhe Aliena.
        - Com prazer. - Ela despenteou Tommy, carinhosamente. - Quero
conversar um pouco com meus netos. Eles crescem muito depressa. Quando
conheci Tom Construtor, Jack era da idade de Tommy agora. - Eles estavam se
aproximando do porto do priorado. - Ao envelhecer-se, os anos parecem passar
mais depressa. Acredito... - ela se interrompeu no meio da frase, e parou de
andar.
        - O que h? - perguntou Aliena.
        Ellen olhava fixamente o portal do priorado. A rua do lado de fora estava
vazia, exceto por um bando de criancinhas, agrupadas no lado mais distante,
olhando alguma coisa que no estava no campo de viso deles.
        - Richard! - exclamou Ellen incisivamente. - No saia!
        Todos pararam. Aliena percebeu o que alarmara a sogra.
        As crianas pareciam estar olhando para algum ou alguma coisa do lado
de fora do porto e que o muro escondesse. Richard reagiu depressa.
        -  uma armadilha! - disse, e sem outras palavras virou-se e saiu
correndo.
        Um momento mais tarde apareceu uma cabea protegida por um elmo
atrs do pilar do porto. Pertencia a um enorme homem de armas. Ele viu
Richard correndo na direo da igreja, gritou um alarme e correu para o adro. Foi
seguido por mais trs, quatro, cinco homens.
        O grupo vindo do funeral espalhou-se. Os homens de armas os
ignoraram e correram atrs de Richard. Aliena ficou assustada e assombrada:
quem se atreveria a atacar o conde de Shiring abertamente e dentro de um
priorado? Conteve a respirao enquanto os observava perseguindo Richard
atravs do adro. Ele pulou por cima de uma parede baixa que os pedreiros
estavam construindo. Seus perseguidores tambm pularam, indiferentes ao fato
de estarem entrando numa igreja. Os artfices ficaram imveis, colheres de
pedreiros e martelos erguidos, quando primeiro Richard e depois os seus
perseguidores passaram velozmente. Um dos aprendizes mais jovens e de
raciocnio mais rpido esticou uma p e derrubou um dos homens de armas, que
tombou no cho; contudo, ningum mais interveio. Richard atingiu a porta que
dava no claustro. O homem mais prximo ergueu a espada acima da sua cabea.
Por um momento terrvel Aliena pensou que a porta estivesse trancada e que
Richard no conseguiria entrar. O homem de armas deu uma estocada no conde.
Este conseguiu abrir a porta e esgueirou-se para dentro do claustro, e a espada
entrou na madeira da porta quando ela se fechou.
        Aliena respirou de novo.
        Os homens de armas reuniram-se em torno da porta do claustro e
comearam a olhar  sua volta, incertos. Pareciam ter percebido, de repente, onde
estavam. Os artfices lhes lanaram olhares hostis e levantaram seus martelos e
machados. Havia perto de cem operrios e apenas cinco homens de armas.
        - Quem diabo  essa gente? - exclamou Jack, furioso. A resposta foi dada
por uma voz s suas costas.
        - So os homens do xerife.
        Aliena virou-se, aterrorizada. Conhecia aquela voz horrivelmente bem.
No porto, montando um nervoso garanho negro, armado e de cota de malha,
estava William Hamleigh.
        A viso dele fez correr um frio na sua espinha.
        - D o fora daqui, seu inseto repugnante! - esbravejou Jack.
        William corou com o insulto, mas no fez um gesto.
        - Vim aqui para fazer uma priso.
        - V em frente. Os homens de Richard o faro em pedaos.
        - Ele no ter homem algum quando estiver na cadeia.
        - Quem voc pensa que ? Um xerife no pode pr um conde na cadeia!
        - Pode, por assassinato.
        Aliena ofegou. Viu imediatamente como a mente tortuosa de William
estava trabalhando.
        - No houve assassinato! - explodiu.
        - Houve - afirmou William. - O conde Richard matou Alfred Construtor.
Agora tenho que explicar ao prior Philip que ele est dando abrigo a um
assassino.
        William tocou seu cavalo e passou por eles, cruzando a fachada oeste da
nave inconclusa, at o ptio da cozinha, onde os leigos eram recebidos no
convento. Aliena observou-o, incrdula. Ele era to mau que era difcil de
acreditar. O pobre Alfred, a quem tinham acabado de enterrar, cometera muitos
erros com o seu jeito tacanho de ser e sua fraqueza de carter, mas a ruindade
dele fora mais trgica do que qualquer outra coisa. William, contudo, era um
verdadeiro servo do demnio. Quando nos veremos livres desse monstro?,
perguntou-se Aliena. Os homens de armas juntaram-se a William no ptio da
cozinha, e um deles bateu na porta com o punho da espada.
        Os operrios deixaram o canteiro da obra e se agruparam num canto,
olhando ferozmente para os intrusos, parecendo perigosos com seus martelos
pesados e cinzis amolados.
        Aliena disse a Martha que levasse as crianas para casa; depois ela e Jack
permaneceram junto com os operrios.
        O prior apareceu na porta da cozinha. Era mais baixo que William, e no
seu hbito leve de vero parecia muito pequeno em comparao com o homem
corpulento de cota de malha; no entanto, havia uma expresso de justa
indignao no rosto de Philip que fazia com que ele infundisse mais medo que
William.
        - Voc est concedendo asilo a um fugitivo... - comeou a dizer o xerife.
        - Deixe este lugar! - interrompeu-o Philip, com um berro.
        William tentou de novo.
        - Houve um assassinato...
        - Saia do meu priorado! - gritou Philip.
        - Eu sou o xerife...
        - Nem mesmo o rei pode trazer homens de violncia para o interior das
instalaes de um mosteiro! Fora! Fora!
        Os operrios comearam a murmurar furiosamente entre si. Os homens
de armas olharam para eles, nervosos.
        - At mesmo o prior de Kingsbridge tem que obedecer ao xerife - disse
William.
        - No nestes termos! Tire os seus homens do mosteiro. Deixe suas armas
no estbulo. Quando estiver pronto para agir como um humilde pecador na casa
de Deus, pode entrar no priorado; a ento o prior responder s suas perguntas.
        Philip recuou e bateu a porta. Os operrios aplaudiram.
        Aliena descobriu-se aplaudindo tambm. William era uma figura que
representara o poder e o medo em toda a sua vida e v-lo desafiado pelo prior
Philip alegrava seu corao.
        Mas Hamleigh ainda no estava pronto para conceder na derrota. Saltou
do cavalo. Lentamente, desafivelou o cinturo da espada e entregou-o a um de
seus homens. Disse-lhes algumas poucas palavras, baixinho, e eles se retiraram,
atravessando o adro com a sua espada. William ficou olhando at chegarem ao
porto; s ento voltou a virar-se de frente para a porta da cozinha.
        - Abra a porta para o xerife!
        Aps uma pausa a porta da cozinha se abriu, e Philip apareceu de novo.
Examinou Hamleigh, agora de p e desarmado no ptio; depois olhou para os
homens de armas, reunidos junto ao porto, no lado mais afastado do adro;
finalmente encarou William de novo.
        - E ento?
        - Voc est dando asilo a um assassino no priorado. Entregue-o a mim.
        - No houve assassinato em Kingsbridge.
        - O conde de Shiring matou Alfred Construtor quatro dias atrs.
        - Errado - disse Philip. - Richard matou Alfred, mas no foi assassinato.
Alfred foi surpreendido durante uma tentativa de estupro.
        Aliena estremeceu.
        - Estupro? - disse William. - Quem ele estava tentando estuprar?
        - Aliena.
        - Mas ela  a mulher dele! - exclamou William triunfantemente. - Como
pode um homem estuprar a prpria mulher?
        Aliena viu a direo que tomava o argumento de William, e ferveu de
dio.
         - Esse casamento no chegou a ser consumado, e ela requereu a anulao.
         - Que nunca foi concedida. Eles se casaram na igreja. E ainda esto
casados, de acordo com a lei. No houve estupro. Pelo contrrio. - William virou-
se subitamente e apontou para Aliena. - Ela estava querendo se livrar do marido
h anos e por fim persuadiu o irmo a ajud-la a tirar Alfred do seu caminho...
matando-o com a faca dela!
         A mo gelada do medo apertou o corao de Aliena. A histria que ele
estava contando era uma mentira ultrajante, mas, para uma pessoa que no
tivesse visto o que de fato acontecera, ajustava-se aos fatos to plausivelmente
quanto a verdadeira histria.
         - O xerife no pode prender o conde - disse Philip.
         Era verdade, pensou ela. Estava se esquecendo. William puxou um rolo
de pergaminho.
         - Tenho um edito real. Eu o estou prendendo em nome do rei.
         Aliena sentiu-se desolada. Hamleigh pensara em tudo.
         - Como foi que ele conseguiu isso? - murmurou.
         - William foi muito rpido - replicou Jack. - Deve ter ido a Winchester
ver o rei assim que soube da notcia.
         Philip estendeu a mo.
         - Deixe-me ver o decreto.
         O xerife levantou-o na direo de Philip. Diversas jardas os separavam.
Houve um empate momentneo, quando nenhum dos dois quis se mover; depois
William cedeu e subiu os degraus para entregar o rolo de pergaminho a Philip.
         O prior leu o edito e devolveu-o.
         - Isso no lhe d o direito de atacar um mosteiro.
         - Mas me d o direito de prender Richard.
         - Ele pediu asilo.
         - Ah! - William no pareceu surpreendido. Assentiu com a cabea, como
se tivesse ouvido a confirmao de algo inevitvel, e deu dois ou trs passos para
trs. Quando falou de novo, o fez alto o bastante para que todos pudessem ouvi-
lo claramente. - Pois que ele saiba que ser preso no momento em que deixar o
priorado. Meus assistentes estaro acampados na cidade e do lado de fora do seu
castelo. Lembrem-se... - ele correu com o olhar a multido ali reunida - lembrem-
se de que quem quer que cause ferimento a um auxiliar do xerife estar ferindo
um servo do rei. - Virou-se de novo para Philip. - Diga-lhe que ele pode ficar
asilado pelo tempo que quiser, mas, se desejar sair, ter que enfrentar a justia.
         Fez-se silncio. William desceu vagarosamente os degraus e atravessou o
ptio da cozinha. Suas palavras tinham soado a Aliena como uma sentena de
priso. A multido abriu espao para ele. Hamleigh lanou um olhar de vitria
para Aliena, ao passar por ela. Todos observaram-no caminhar at o porto e
montar no seu cavalo. Deu uma ordem e afastou-se a trote, deixando dois dos
seus homens junto ao porto, olhando para dentro.
         Quando Aliena se virou, Philip estava atrs dela e de Jack.
         - Vo para a minha casa - disse ele, baixinho. - Precisamos discutir a
situao. - E com essas palavras entrou de novo na cozinha.
         Aliena teve a impresso de que o prior estava secretamente satisfeito com
alguma coisa.
         A excitao acabou. Os operrios retornaram ao trabalho, conversando
animadamente. Ellen foi para casa junto com os netos. Aliena e Jack
atravessaram o cemitrio, margeando o canteiro da obra, e entraram na casa de
Philip. Ele ainda no estava ali. Sentaram-se num banco para aguardar. Jack
sentiu a ansiedade de Aliena pelo irmo e abraou-a reconfortadoramente.
Olhando  sua volta, Aliena percebeu que, ano aps ano, a casa de Philip fora se
tornando mais confortvel. Ainda era muito pobre pelos padres dos aposentos
privados de um conde num castelo, mas j no era to austera quanto antes.
Diante do pequeno altar no canto havia agora um pequeno tapete para proteger
os joelhos do prior durante as longas noites de orao; e na parede atrs do altar
havia um crucifixo de prata enfeitado com pedras preciosas que devia ter sido um
presente dispendioso. No fazia mal algum a Philip ter mais condescendncia
consigo prprio  medida que envelhecia, pensou Aliena. Talvez tivesse mais
condescendncia com os outros, tambm.
         Poucos momentos depois o prior entrou, trazendo um exaltadssimo
Richard. Este comeou a falar imediatamente.
         - William no pode fazer isto,  loucura! Encontrei Alfred tentando
estuprar minha irm... Ele tinha uma faca... Quase me matou!
         - Acalme-se - disse Philip. - Vamos conversar a esse respeito com toda a
serenidade, tentando determinar quais so os perigos envolvidos, se  que os h.
Por que no sentamos?
         Richard sentou-se, mas continuou falando.
         - Perigos? No h perigos. Um xerife no pode aprisionar um conde por
coisa alguma, nem mesmo por homicdio.
         - Ele vai tentar - disse Philip. - Ter homens esperando do lado de fora
do priorado.
         O conde fez um gesto traduzindo sua indiferena.
         - Posso passar pelos homens de William de olhos vendados. No so
problema. Jack pode esperar por mim do lado de fora da muralha com um
cavalo.
         - E quando chegar a Earlscastle? - quis saber Philip.
         - A mesma coisa. Posso dar um jeito de passar pelos homens de William.
Ou fazer com que meus prprios homens saiam ao meu encontro.
        - Parece satisfatrio - disse o prior. - E depois, o que far?
         - Nada - disse Richard. - O que William pode fazer?
        - Bem, ele tem um decreto real citando-o para responder a uma acusao
de homicdio. Tentar prend-lo todas as vezes que sair do castelo.
        - Irei a toda parte escoltado.
        - E quando presidir a corte de Shiring, ou estiver em outros lugares?
        - A mesma coisa.
        - Mas algum ir cumprir as suas decises, sabendo que voc  um
fugitivo da lei?
        -  melhor que cumpram - respondeu Richard sombriamente. - Devem
se lembrar de como William fazia cumprir suas decises no tempo em que era o
conde.
        - Eles podem no ter tanto medo de voc quanto tinham de Hamleigh.
Podem julgar que no  to sanguinrio e cruel quanto ele. Espero que tenham
razo.
        - No conte com isso.
        Aliena ficou intrigada. No era caracterstico de Philip ser to pessimista -
a menos que tivesse um motivo oculto. Suspeitou que ele estivesse lanando os
alicerces para algum esquema que escondia na manga. Eu seria capaz de apostar,
pensou ela, que a pedreira entrar nesta histria de algum modo.
        - Minha principal preocupao  o rei - estava dizendo Philip. - Ao se
recusar a responder  acusao, voc est desafiando a coroa. Um ano atrs eu
lhe teria dito que fosse em frente e desafiasse o rei. Mas agora que a guerra
acabou, no ser fcil para os condes fazerem tudo o que quiserem.
        - Parece que voc ter que responder  acusao, Richard - disse Jack.
        - Ele no pode fazer isso - contestou Aliena. - No tem a menor
esperana de receber justia.
        - Ela tem razo - concordou Philip. - O caso ser julgado na corte real.
Os fatos j so conhecidos. Alfred tentou forar Aliena, Richard entrou, eles
lutaram, e Richard matou Alfred. Tudo depende da interpretao. E com
William, um leal defensor do rei Estvo, fazendo a queixa, e Richard sendo um
dos maiores aliados do duque Henrique, o veredicto provavelmente ser:
culpado. Por que o rei Estvo assinou o decreto? Presumivelmente porque
decidiu vingar-se de Richard, que lutou contra ele. A morte de Alfred lhe
proporciona uma desculpa perfeita.
        - Temos que apelar para que o duque Henrique intervenha - disse Aliena.
        Foi a vez de Richard hesitar.
        - Eu no gostaria de depender dele. Henrique est na Normandia. Talvez
escreva uma carta protestando, mas o que mais poder fazer? Atravessar o canal
com um exrcito? Nesse caso estaria rompendo o tratado de paz, e no penso
que fosse arriscar isso por mim.
          Aliena sentiu-se aflita e assustada.
          - Oh, Richard, voc foi apanhado numa teia terrvel, e tudo porque me
salvou.
         Ele lhe dirigiu seu mais encantador sorriso.
         - Eu faria tudo de novo, Allie.
         - Eu sei.
         Ele estava sendo sincero. Apesar de todos os defeitos, era corajoso.
Parecia injusto que se visse diante de um problema difcil como aquele logo aps
ter retomado o condado. Como conde, era um desapontamento para Aliena - um
terrvel desapontamento -, mas no merecia aquilo.
         - Bem, que dilema! - disse ele. - Posso ficar aqui no priorado at o duque
se tornar o rei Henrique II, ou ser enforcado por assassinato. Eu me tornaria um
monge se vocs monges no comessem tanto peixe.
         - Pode haver outra sada - disse Philip.
         Aliena fitou-o ansiosamente. Suspeitara que estivesse tramando algo, e
lhe ficaria grata se pudesse resolver o dilema do irmo.
         - Voc poderia fazer penitncia pelo assassinato - continuou o prior.
         - Teria algo a ver com comer peixe? - perguntou o conde
irreverentemente.
         - Estou pensando na Terra Santa - disse Philip. Todos ficaram quietos. A
Palestina era governada pelo rei de Jerusalm, Balduno IV, um cristo de origem
francesa. Estava constantemente sob o ataque dos reinos muulmanos vizinhos,
especialmente o Egito, ao sul, e Damasco, a leste. Ir para l, uma viagem de seis
meses a um ano, e integrar os exrcitos que combatiam para defender o reino
cristo, era, na verdade, o tipo de penitncia que um homem podia fazer para
purificar a alma aps um crime de morte. Aliena sentiu uma vertigem de
ansiedade: nem todo mundo voltava da Terra Santa.
         - Mas acabo de reassumir o condado! - disse ele. - Quem ficaria cuidando
das minhas terras enquanto eu estivesse fora?
         - Aliena - respondeu Philip.
         Ela subitamente sentiu-se sem flego. O prior estava propondo que
tomasse o lugar do conde e governasse como seu pai governara... A proposta a
deixou atnita por um momento, mas assim que recuperou os sentidos, soube
que Philip estava certo. Quando um homem ia para a Terra Santa, suas
propriedades normalmente eram cuidadas pela esposa. No havia razo pela qual
uma irm no devesse desempenhar o mesmo papel para um conde que no era
casado. E Aliena governaria o condado do modo como sempre soubera que
deveria ser governado, com justia, viso e imaginao. Faria todas as coisas que
Richard, para sua tristeza, deixara de fazer. Seu corao disparou ao avaliar a
idia. Tentaria novas solues, arando com cavalos e no com bois, plantando
safras de primavera de aveia e ervilhas para descansar a terra. Abriria novas
oportunidades de plantio, preparando terrenos, estabeleceria novos mercados e
abriria a pedreira para Philip aps todo aquele tempo... Ele pensara nisso, claro.
De todos os esquemas inteligentes que o prior imaginara todos aqueles anos, este
provavelmente era o mais engenhoso. De uma penada, resolvia trs problemas:
liberava Richard do perigo representado por William, punha uma administradora
competente  frente do condado e finalmente conseguia sua pedreira.
         - No tenho dvida de que o rei Balduno o aceitaria de braos abertos -
disse Philip -, especialmente se voc se fizesse acompanhar pelos seus cavaleiros
e homens que se sentirem bastante inspirados para segui-lo. Seria sua prpria
pequena cruzada. - Ele parou por um momento para deixar a idia ser assimilada.
- William no poderia tocar em voc l,  claro continuou. - E voc voltaria como
um heri. Ningum se atreveria a enforc-lo.
         - A Terra Santa - disse Richard, e havia um brilho de morte ou glria nos
seus olhos. Era a coisa certa para ele, pensou Aliena. No se saa bem no governo
do condado. Era um soldado, e queria combater. Ela viu a expresso distante no
seu rosto. Mentalmente j estava l, defendendo um reduto arenoso, espada na
mo, uma cruz vermelha no escudo, lutando com uma horda de pagos sob um
sol abrasador. Ele estava feliz.

        Toda a cidade foi ao casamento.
        Aliena ficou surpresa. A maior parte das pessoas j os tratava como se
fossem casados, e ela pensara que a cerimnia seria considerada como mera
formalidade. Esperara um pequeno grupo de amigos, a maioria gente de sua
idade e companheiros de trabalho de Jack. Mas todos os homens, mulheres e
crianas vieram. Ficou comovida com sua presena. E pareciam to felizes!
Constatou que haviam se compadecido da sua situao todos aqueles anos, muito
embora diplomaticamente tivessem evitado tocar no assunto com ela; e agora
partilhavam sua alegria por finalmente desposar o homem a quem amava h
tanto tempo. Percorreu as ruas de brao dado com Richard, aturdida com os
sorrisos que a seguiam, bria de felicidade.
        Seu irmo partiria para a Terra Santa no dia seguinte. O rei Estvo
aceitara aquela soluo - na verdade, parecera aliviado por se livrar do conde to
facilmente.
        O xerife William ficou furioso, claro, pois seu objetivo fora tirar-lhe o
condado, o que agora perdera todas as chances de fazer. Quanto a Richard, ainda
tinha aquele olhar distante; mal podia esperar a hora de partir.
        Aquele no era o modo como seu pai tencionara que as coisas se
passassem, pensou ela, ao entrarem no adro do mosteiro: Richard combatendo
numa terra longnqua e Aliena desempenhando o papel de conde. No entanto, j
no se sentia obrigada a viver de acordo com os desejos do pai. Fazia dezessete
anos que estava morto, e, de resto, Aliena tinha conhecimento de algo que ele
no compreendera: que ela se sairia muito melhor no desempenho das
atribuies prprias de um conde do que Richard.
        J assumira as rdeas do poder. Os serventes do castelo estavam
preguiosos, aps anos de administrao frouxa, e ela os deixara mais vivos.
Reorganizara os depsitos, mandara pintar o grande salo e limpara a padaria e a
cervejaria. A cozinha estava to imunda que a queimara para construir outra.
Comeara a pagar pessoalmente os salrios semanais, como sinal de que estava
no comando, e demitira trs homens de armas por repetidas bebedeiras.
        Mandara que fosse construdo um novo castelo  distncia de uma hora a
cavalo de Kingsbridge. Earlscastle era longe demais da catedral. Jack desenhara o
projeto, e eles se mudariam o mais cedo possvel. Enquanto isso, dividiriam o
tempo entre Earlscastle e Kingsbridge.
        J tinham passado diversas noites juntos no antigo quarto de Aliena, em
Earlscastle, longe do olhar desaprovador de Philip. Comportaram-se como
recm-casados em lua-de-mel, dominados por insacivel paixo fsica. Talvez
fosse porque, pela primeira vez na vida deles, dispunham de um quarto que
podiam trancar. Privacidade era uma extravagncia de lordes: todos os demais
dormiam e faziam amor l embaixo, no salo comunal. At mesmo os casais que
viviam em suas casas estavam sempre sujeitos a ser vistos pelos filhos, parentes
ou vizinhos que aparecessem para uma visita: as pessoas trancavam as portas
quando estavam fora, e no dentro de casa.
        Aliena nunca se sentira insatisfeita com isso, mas agora descobrira a
emoo especial de saber que podia fazer tudo o que quisesse sem correr o risco
de ser vista.
        Pensou em algumas das coisas que ela e Jack tinham feito nas ltimas
duas semanas e corou.
        Jack estava esperando na nave parcialmente construda com Martha,
Tommy e Sally. Nos casamentos, os noivos normalmente trocavam promessas
no prtico da igreja e depois entravam para a missa. Nesse dia o primeiro
intercolnio da nave serviria de portal. Aliena estava satisfeita por se casarem na
catedral que Jack estava construindo.
        A igreja fazia parte de Jack, tanto quanto as roupas que usava ou o modo
como fazia amor. Sua catedral seria como ele: graciosa, inventiva, alegre e
totalmente diferente de tudo o que existira antes.
        Ela lhe dirigiu um olhar cheio de amor. Ele estava com trinta anos. Era
um homem muito bonito, com sua cabeleira ruiva e seus cintilantes olhos azuis.
Lembrava-se de que fora um garoto muito feio: achara, de certa forma, que no a
merecia. Mas ele se apaixonara por ela desde o princpio, conforme dissera; e
ainda estremecia quando se lembrava de como todos haviam rido dele porque
dissera nunca ter tido um pai. Fazia quase vinte anos. Vinte anos...
        Poderia nunca mais ter visto Jack de novo se no houvesse sido pelo
prior Philip, que entrara agora na igreja vindo do claustro e dirigira-se sorrindo
para a nave.
         Ele parecia verdadeiramente emocionado por estar casando os dois,
afinal. Aliena pensou na primeira vez em que o encontrara. Rememorava
vivamente o desespero que sentira quando o mercador de l tentara engan-la,
depois de todo o esforo e sacrifcio representado pela preparao do saco de l;
e sua imensa gratido pelo jovem monge de cabelos negros que a salvara e
dissera: "Comprarei sua l em qualquer ocasio... " O cabelo dele agora era
grisalho. Primeiro ele a salvara, depois quase a destrura, forando Jack a escolher
entre ela e a catedral. Era um homem duro em questes de certo e errado, um
pouco como o seu pai. No entanto, quisera celebrar seu casamento.
         Ellen amaldioara a primeira unio de Aliena, e a praga funcionara. Para
sua alegria. Se seu casamento com Alfred no tivesse sido totalmente
insuportvel, poderia ainda estar vivendo em sua companhia. Era esquisito
pensar em como poderia ter sido; ficava toda arrepiada, como quando tinha
pesadelos e imaginava coisas ruins.
         Relembrou como era linda e atraente a garota rabe de Toledo que se
apaixonara por Jack: e se ele tivesse se casado com ela? Aliena teria chegado em
Toledo, com o filho no colo, para encontr-lo desfrutando uma vida de total
domesticidade, dividindo corpo e mente com outra pessoa. A simples idia a
horrorizava.
         Ouviu-o murmurando o padre-nosso. Agora parecia espantoso pensar
que, quando viera morar em Kingsbridge, no dera mais ateno a Jack que ao
gato do mercador de cereais. Mas ele reparara nela: amara-a secretamente todos
aqueles anos. Como fora paciente! Observara os jovens filhos dos pequenos
fidalgos indo cortej-la, um por um, indo embora desapontados, ofendidos ou
desafiadores. Vira - garoto incrivelmente inteligente que era - que no podia ser
conquistada com uma corte comum; e aproximara-se com cuidado, mais como
amigo que como amante, encontrando-a na floresta, contando-lhe histrias e
fazendo com que o amasse sem que ela percebesse.
         Lembrou-se do primeiro beijo, to delicado e casual, a no ser por ter-lhe
queimado os lbios muitas semanas seguidas. Lembrava-se do segundo beijo
ainda mais vivamente. Todas as vezes que ouvia o barulho do moinho de pisoar,
lembrava-se daquela obscura, estranha e nada bem-vinda onda de desejo que
sentira.
         Um dos arrependimentos mais duradouros de sua vida referia-se ao
modo como ficara fria depois daquilo. Jack a amara total e sinceramente, e ela
ficara to assustada que se afastara, fingindo no ligar para ele. Aquilo o magoara
muito; e, embora Jack continuasse a am-la e a ferida tivesse cicatrizado, deixara
marca, como sempre deixam as fendas profundas; e s vezes ela via a cicatriz, no
modo como ele a olhava quando brigavam e ela o fitava com frieza, e os olhos
dele pareciam dizer: Sim, eu conheo voc, voc pode ser fria, pode me magoar,
tenho que ficar em guarda.
         Haveria uma certa cautela no seu olhar agora, quando ele jurava am-la e
ser-lhe fiel pelo resto de sua vida? Ele tem bastante motivo para duvidar de mim,
pensou Aliena. Casei-me com Alfred, e que maior traio poderia haver? S
depois paguei o que fiz, percorrendo metade da cristandade para encontrar Jack.
         Coisas como desapontamentos, traies e reconciliaes eram a essncia
da vida de casado, mas ambos tinham passado por isso antes do casamento.
Agora, por fim, Aliena se sentia confiante de conhec-lo. Provavelmente, nada
mais a surpreenderia. Era uma maneira esquisita de dizer as coisas, mas podia ser
melhor do que prometer primeiro e depois conhecer o cnjuge. Os padres no
concordariam, claro; na verdade, Philip ficaria apopltico se soubesse o que se
passava dentro da sua cabea; porm, os padres sabiam menos sobre o amor do
que as outras pessoas.
         Ela fez seus votos, repetindo as palavras que o prior pronunciava,
pensando em como era bonita a promessa que dizia: com meu corpo adorarei
voc. Philip jamais compreenderia isso. Jack ps um anel no seu dedo. Esperei
por isto toda a minha vida, pensou ela. Os dois se fitaram. Alguma coisa mudara
nele, Aliena podia assegurar. Constatou que at aquele momento ele nunca se
sentira totalmente seguro na relao de ambos. Agora parecia muito contente.
         - Eu a amo - disse ele. - Sempre a amarei. Era esse o seu juramento.
         O resto era religio, mas agora Jack tinha feito sua prpria promessa.
Aliena percebeu que tambm no se sentira segura at ento. Em mais um
momento eles se adiantariam at a interseo da nave com os transeptos, para a
missa; depois aceitariam os cumprimentos e os votos de felicidades dos
habitantes de Kingsbridge, e os levariam para sua casa e lhes dariam cerveja e
comida e os entreteriam; porm, aquele pequenino instante era s deles. A
expresso de Jack dizia: Voc e eu, juntos, sempre; e Aliena pensou: Enfim. A
paz no podia ser mais completa.
        Parte seis
        1170 - 1174

        Captulo 17
         Kingsbridge ainda estava crescendo. H muito tempo deixara suas
muralhas originais, que agora circundavam menos da metade das casas. Cerca de
cinco anos antes a associao construra uma nova muralha, abrangendo os
subrbios que tinham crescido fora da velha cidade; e agora j havia mais
subrbios do lado de fora. A campina do outro lado do rio, onde o povo
tradicionalmente comemorava a festa da colheita e celebrava a entrada do vero,
agora era uma nova aldeia, chamada Newport.
         Num frio domingo de Pscoa, o xerife William Hamleigh atravessou
Newport a cavalo e cruzou a ponte de pedra que dava no que agora era chamada
de "cidade velha de Kingsbridge". Hoje a recm-concluda catedral seria
consagrada. Passou pelo imponente porto da cidade e subiu a rua principal,
recentemente pavimentada. As residncias de ambos os lados eram casas de
pedra com instalaes comerciais embaixo e a parte social em cima. Kingsbridge
era maior, mais movimentada e mais rica do que Shiring jamais fora, pensou
William amarguradamente.
         Chegou  parte de cima da rua e virou no adro; ali, diante dos seus olhos,
estava a causa para a ascenso de Kingsbridge e o declnio de Shiring: a catedral.
         Era de tirar o flego.
         A nave, imensamente alta, sustentava-se por uma fila de graciosos e
alados arcobotantes. A fachada oeste tinha trs altssimos prticos, como portais
gigantescos, e fileiras de altas e elegantes janelas ogivais, flanqueadas por torres
esguias. A idia fora anunciada nos transeptos, completados dezoito anos antes,
mas aquela era a assombrosa consumao da idia. Nunca existira uma
construo como aquela em qualquer parte da Inglaterra.
         O mercado ainda se realizava ali todos os domingos, e a grama verde
defronte do prtico estava repleta de estandes. William desmontou e deixou que
Walter cuidasse dos cavalos Atravessou mancando a distncia que o separava da
igreja: estava gordo, com cinquenta e quatro anos, e sofria constantemente de
gota nas pernas e ps.
         Por causa da dor ele andava quase sempre irritado.
         A igreja era mais impressionante ainda no interior. A nave seguia o estilo
dos transeptos, mas o mestre construtor refinara seu desenho, fazendo as colunas
ainda mais esbeltas e as janelas maiores. Havia tambm outra inovao. William
ouvira falar do vidro colorido feito por artesos que Jack trouxera de Paris. No
entendera por que tanta confuso a respeito disso, pois imaginara que uma janela
colorida seria como uma tapearia ou uma pintura. Via agora o que queriam
dizer. A luz exterior cintilava atravs do vidro colorido, fazendo com que ele
resplandecesse, e o efeito era mgico. Por toda a catedral as pessoas esticavam o
pescoo para melhor contemplar as janelas. Suas ilustraes representavam
histrias da Bblia, o cu e o inferno, santos e profetas, os discpulos, e alguns dos
cidados de Kingsbridge, que presumivelmente tinham pago pelas janelas em que
apareciam - um padeiro carregando sua bandeja de pes, um curtidor com seus
couros, um pedreiro com seus compassos e seu nvel.
         Aposto como Philip lucrou muito com essas janelas, pensou William
causticamente.
         A igreja estava superlotada para a missa da Pscoa. O mercado espalhava-
se pelo interior do prdio, como sempre acontecia, e ao percorrer a nave William
recebeu ofertas de cerveja fria, po de gengibre quente e at mesmo uma rpida
relao sexual de encontro  parede por trs pence. O clero estava sempre
tentando banir os mascates de dentro das igrejas, mas era uma tarefa impossvel.
William trocou cumprimentos com os cidados mais importantes do condado.
Mas a despeito das distraes sociais e comerciais, tinha os olhos e pensamentos
constantemente atrados pelas linhas majestosas da arcada. Os arcos e as janelas,
os pilares com seus feixes de fustes, as nervuras e segmentos do teto abobadado,
tudo parecia apontar para o cu, numa inescapvel lembrana da destinao do
edifcio.
         O cho era pavimentado, os pilares pintados e todas as janelas
envidraadas: Kingsbridge e seu priorado eram ricos, e a catedral proclamava essa
prosperidade. Nas pequenas capelas dos transeptos havia candelabros de ouro e
cruzes ornadas com gemas
         Os cidados tambm exibiam seu fausto, com tnicas ricamente
coloridas, broches, fivelas de prata e anis de ouro. Seu olhar pousou em Aliena.
         Como sempre, o corao dele falhou uma batida. Estava to bonita como
sempre fora, embora devesse ter mais de cinquenta anos. Ainda ostentava uma
massa de cabelos cacheados, porm mais curtos e num tom mais claro de
castanho, como se tivessem desbotado um pouco. Eram atraentes as rugas em
torno dos olhos. Estava um pouco mais rolia do que antes, mas no menos
desejvel. Usava uma capa azul com guarnio de seda vermelha, e sapatos de
couro tambm vermelhos. Uma multido reverente a cercava. Embora no fosse
realmente uma condessa, mas apenas a irm do conde, seu irmo permanecera na
Terra Santa e todos a tratavam como tratariam Richard. Quanto a ela, tinha o
porte de uma rainha.
         A viso de Aliena fez o dio fermentar como blis no abdmen de
William. Ele arruinara seu pai, estuprara-a, tomara seu castelo, queimara sua l e
exilara seu irmo, mas sempre que pensara t-la esmagado ela ressurgira,
erguendo-se da derrota para novas alturas de poder e riqueza. Agora, quando
William estava ficando velho, gordo e com gota, constatava que passara toda a
vida submetido ao poder de um terrvel encantamento. Ao lado dela estava um
homem alto e de cabelo ruivo, que William a princpio tomou como Jack. Aps
um exame mais detido, contudo, viu que era obviamente jovem demais, e devia
ser o filho dele. Estava trajado como um cavaleiro e carregava uma espada.
Quanto ao prprio Jack, estava perto do filho, sendo uma ou duas polegadas
mais baixo, o cabelo ruivo com entradas maiores nas tmporas. Era mais jovem
que Aliena, claro, cerca de cinco anos, se a memria de William no estivesse
falhando, mas tambm tinha rugas em torno dos olhos. Conversava
animadamente com uma jovem que certamente era sua filha. Parecia-se com
Aliena, e era to bonita quanto a me, mas seu cabelo abundante fora
severamente preso atrs, numa trana, e ela se vestia com bastante sobriedade. Se
havia um corpo voluptuoso sob a tnica cor de terra, no queria que ningum
soubesse.
        O ressentimento ardeu no seu estmago ao contemplar a famlia
prspera, digna e feliz de Aliena. Tudo o que possuam deveria ter sido dele. Mas
William no desistiu da esperana de vingar-se.
        As vozes de centenas de monges ergueram-se numa cano, submergindo
as conversas e os gritos dos mascates, e o prior Philip ingressou na igreja,  testa
de uma procisso. Nunca houvera tantos monges, pensou Hamleigh. O priorado
crescera junto com a cidade. Philip, agora com mais de sessenta anos e
praticamente calvo, estava corpulento, de modo que seu rosto outrora magro se
tornara bastante redondo. Parecia bastante satisfeito consigo prprio, o que no
era de espantar: a consagrao da catedral era o objetivo que traara ao chegar a
Kingsbridge, trinta e quatro anos antes.
        Houve um murmrio de comentrios quando o bispo Waleran entrou,
envergando seu hbito mais magnificente. Seu rosto plido e anguloso estava
imobilizado numa expresso rigidamente neutra, mas William sabia que no
ntimo fervia de raiva. Aquela catedral era o smbolo triunfante da vitria do prior
sobre Waleran. O xerife tambm odiava Philip, mas mesmo assim gostava
secretamente de ver o arrogante bispo ser humilhado, para variar.
        Waleran raramente era visto ali. Uma nova igreja fora finalmente
construda em Shiring - com uma capela especial dedicada  memria da me de
William -, e embora no fosse nem de longe to grande ou impressionante
quanto aquela, Waleran fizera dela seu quartel-general.
        Mesmo assim, Kingsbridge ainda era a catedral, a despeito de todos os
esforos de Waleran. Numa guerra que perdurava h mais de trs dcadas, o
bispo fizera tudo o que pudera para destruir Philip, mas no fim o prior triunfara.
Era um caso um pouco parecido com o de William e Aliena. Tanto numa histria
quanto noutra, a fraqueza e os escrpulos derrotaram a fora e a crueldade.
Hamleigh achava que nunca seria capaz de compreender aquilo.
        O bispo fora obrigado a comparecer ali naquele dia, para a cerimnia de
consagrao: teria parecido muito estranho se ele no fosse recepcionar todos os
convidados clebres. Diversos bispos das dioceses prximas estavam presentes,
assim como inmeros abades e priores de grande distino.
        O arcebispo de Canterbury, Toms Becket, no viria. Estava no auge de
uma briga com seu velho amigo, o rei Henrique; uma briga to amarga e feroz
que o arcebispo fora forado a fugir do pas e se refugiar na Frana. O conflito
tinha como causa toda uma lista de questes legais, mas a essncia da disputa era
bastante simples: podia o rei fazer o que bem entendesse ou devia obedecer a
limites? Era a mesma disputa que o prprio William tivera com o prior Philip.
Do ponto de vista de Hamleigh, o conde podia fazer qualquer coisa - era
justamente isso o que significava ser conde. Henrique era da mesma opinio
quanto ao trono real. O prior Philip e Toms Becket restringiam o poder dos
governantes.
        O bispo Waleran era uma autoridade eclesistica que se colocava do lado
dos governantes. A seu ver, o poder era para ser usado. As derrotas de trs
dcadas no tinham abalado sua crena de ser um instrumento da vontade de
Deus, nem tampouco sua implacvel determinao de cumprir o sagrado dever.
William tinha certeza de que, mesmo enquanto conduzia o rito de consagrao da
Catedral de Kingsbridge, estava procurando descobrir um modo qualquer de
estragar o momento de glria de Philip.
        O xerife percorreu a nave durante o culto. Ficar parado, de p, era pior
para suas pernas do que andar. Quando ia  Igreja de Shiring, Walter carregava
uma cadeira para ele. Assim podia cochilar um pouco. Ali, no entanto, havia
gente com quem falar, e grande parte da congregao usava o tempo para tratar
dos seus negcios. William perambulou, insinuando-se com os poderosos,
intimidando os fracos e colecionando informaes sobre tudo e todos. No mais
lanava o terror no corao das pessoas, como nos bons tempos passados, mas
como xerife ainda era temido e respeitado.
        O culto prosseguia, interminavelmente. Houve um longo intervalo,
durante o qual os monges saram da igreja, contornando-a e aspergindo as
paredes com gua benta.
        Prximo do fim, o prior Philip anunciou a designao de um novo
subprior: seria o irmo Jonathan, o rfo do priorado. Jonathan, agora com trinta
e tantos anos e incomumente alto, lembrava a William Tom Construtor: ele
tambm fora quase um gigante.
        Quando o servio religioso afinal terminou, os convidados de maior
distino permaneceram no transepto sul, e a pequena nobreza do condado
agrupou-se em torno deles.
        William tambm foi para l, mancando. Houve poca em que tratava os
bispos como seus iguais, mas agora tinha que fazer reverncias e rapaps junto
com os cavaleiros e os pequenos proprietrios de terra. O bispo Waleran puxou-
o de lado e perguntou:
         - Quem  esse novo subprior?
         - O rfo do priorado - respondeu William. - Sempre foi o favorito de
Philip.
         - Parece jovem para ser o subprior.
         -  mais velho do que Philip era quando se tornou prior.
         Waleran assumiu uma expresso pensativa.
         - O rfo do priorado. Lembre-me dos detalhes.
         - Quando Philip veio para c trouxe um beb consigo.
         O rosto do bispo iluminou-se quando se lembrou.
         - Pela Cruz de Cristo, sim! Eu tinha esquecido do beb de Philip. Como
pude deixar uma coisa dessas fugir da minha memria?
         - Faz mais de trinta anos. E quem se importa com isso?
         Waleran dirigiu ao xerife aquele olhar escarninho que ele tanto odiava, o
olhar que dizia: Seu idiota, no  capaz de imaginar uma coisa to simples? O p
de William doeu, e ele mudou o peso do corpo, numa tentativa intil para
abrandar a dor.
         - Bem, de onde foi que o beb veio? - perguntou o bispo.
         William engoliu seu ressentimento.
         - Foi encontrado abandonado perto do velho mosteiro de Philip na
floresta, lembro-me claramente.
         - Melhor ainda - disse Waleran, com veemncia. Hamleigh ainda no viu
aonde o outro estava querendo chegar.
         - E da? - perguntou mal-humoradamente.
         - Voc diria que Philip trouxe o beb para c como se fosse seu prprio
filho?
         - Sim.
         - E ele agora foi feito subprior.
         - Foi eleito pelos monges, presumivelmente. Acredito que seja muito
popular.
         - Quem quer que seja eleito subprior aos trinta e cinco anos deve estar
cogitado para ascender ao cargo de prior um dia.
         William no ia dizer E da? novamente, de modo que limitou-se a esperar,
sentindo-se como um aluno burro, que Waleran explicasse.
         - Jonathan obviamente  filho de Philip - disse afinal Waleran.
         O xerife caiu na gargalhada. Estivera esperando um pensamento
profundo, e o bispo aparecera com uma idia totalmente ridcula. Para satisfao
de William, seu sarcasmo trouxe um certo rubor ao rosto normalmente lvido de
Waleran.
         - Ningum que conhea Philip acreditaria numa coisa dessas - disse
Hamleigh. - Todo mundo sabe que ele no  de nada e nunca foi, desde que
nasceu. Que idia! - E riu de novo. O bispo podia se julgar muito inteligente,
mas dessa vez perdera o senso de realidade.
         A arrogncia de Waleran era glacial.
         - Digo que Philip tinha uma amante no tempo em que administrava
aquele pequeno priorado na floresta. Depois tornou-se prior de Kingsbridge e
teve que deixar a mulher para trs. Ela no quis o beb, j que no podia ter o
pai, e por isso o deixou com ele. Philip, que  um tipo sentimental, sentiu-se
obrigado a cuidar do menino, e o fez passar como sendo um enjeitado.
         William sacudiu a cabea.
         - Inacreditvel. Qualquer outra pessoa, sim. Philip, no.
         Waleran insistiu.
         - Se o beb foi abandonado, como ele pode provar de onde veio?
         - No pode - reconheceu William. Lanou um olhar na direo do
transepto sul, onde Philip e Jonathan estavam juntos, conversando com o bispo
de Hereford. - Mas eles nem sequer se parecem um com o outro.
         - Voc no se parece com sua me - disse Waleran. - Graas a Deus.
         - De que adianta tudo isso? O que  que voc vai fazer?
         - Acus-lo diante de uma corte eclesistica - foi a resposta de Waleran.
         Aquilo fazia diferena. Ningum que conhecesse Philip acreditaria por
um s momento na acusao de Waleran, mas um juiz que no fosse de
Kingsbridge poderia ach-la mais plausvel. Relutantemente, William percebeu
que a idia de Waleran no era to estpida afinal. Como sempre, mostrava-se
mais esperto que ele. Sua aparncia era irritantemente presunosa, claro. Mas o
xerife ficou entusiasmado com a perspectiva de derrubar o prior.
         - Por Deus - disse, ansioso -, acha mesmo que pode ser feito?
         - Depende de quem seja o juiz. Mas talvez eu consiga dar um jeito
qualquer nisso. No sei...
         William olhou para Philip, do outro lado do transepto, triunfante e
sorridente ao lado do seu alto protegido. As imensas vidraas coloridas lanavam
uma luz encantada sobre eles, que pareciam vultos de um sonho.
         - Fornicao e nepotismo - disse William jubilosamente. - Meu Deus!
         - Se pudermos fazer com que acreditem - declarou Waleran com
satisfao -, ser o fim daquele maldito prior.


        Nenhum juiz sensato poderia considerar Philip culpado. Na verdade, ele
nunca tivera que se esforar muito para resistir  tentao da fornicao. Sabia,
por ouvir suas confisses que alguns monges lutavam desesperadamente contra
as tentaes carnais, mas ele no era assim.
         Houvera um tempo, quando tinha seus dezoito anos, em que sofrera de
sonhos impuros, mas essa fase passara logo. Durante a maior parte da sua vida, a
castidade fora um voto fcil. Nunca realizara o ato sexual, e provavelmente j
estava velho demais para isso.
         A Igreja, contudo, tomara a acusao muito seriamente. Philip seria
julgado por uma corte eclesistica. Um arcediago de Canterbury estaria presente.
Waleran quisera que o julgamento fosse em Shiring, mas Philip lutara contra e
tivera xito, de modo que o julgamento seria mesmo realizado em Kingsbridge,
que, afinal, era a cidade que sediava a catedral. Estava tirando suas coisas de sua
casa, a fim de abrir espao para o arcediago, que se hospedaria ali.
         Philip sabia que era inocente de fornicao, e, assim, no podia ser
culpado de nepotismo, pois um homem no pode favorecer os filhos que no
tem. No obstante, examinou o corao para saber se errara ao promover
Jonathan. Assim como os pensamentos impuros eram como uma espcie de
sombra de um pecado mais grave, talvez o favoritismo por um rfo bemamado
fosse uma sombra de nepotismo. Esperava-se que os monges esquecessem as
consolaes da vida de famlia, e no entanto Jonathan era como um filho para
Philip. O prior o fizera despenseiro quando muito jovem, e agora o promovera a
subprior. Terei agido deste modo para meu prprio prazer e orgulho?,
perguntou-se.
         Ora, sim, pensou.
         Sentira enorme satisfao de ensinar Jonathan, observ-lo crescer e v-lo
aprender a cuidar dos negcios do mosteiro. Mas mesmo que essas coisas no
houvessem dado intenso prazer a Philip, Jonathan ainda teria sido o mais capaz
dos jovens administradores do priorado. Era inteligente, devoto, criativo e
consciencioso. Criado no mosteiro, no conhecia outra vida, e nunca ansiara pela
liberdade. O prprio Philip fora criado numa abadia. Ns, rfos de mosteiros,
nos tornamos os melhores monges, pensou.
         Ps um livro num saco: o Evangelho de Lucas, to sbio. Tratara
Jonathan como um filho, mas no cometera nenhum pecado que devesse ser
julgado por uma corte eclesistica.
         A acusao era absurda.
         Lastimavelmente, a mera acusao era prejudicial. Diminua sua
autoridade moral. Haveria gente que se lembraria da acusao e esqueceria o
veredicto. De outra vez em que Philip se levantasse e dissesse: Um dos
mandamentos probe ao homem cobiar a mulher do prximo, algum da
congregao poderia estar pensando: Mas voc bem que andou se distraindo
quando era jovem.
         Jonathan irrompeu quarto adentro, ofegante. Philip estranhou. O
subprior no devia invadir cmodos alheios arquejando. J estava a ponto de
proferir uma homilia sobre a dignidade dos monges com atribuies
administrativas, quando Jonathan disse:
        - O arcediago Peter j chegou!
        - Est bem, est bem - disse Philip, apaziguador. - Praticamente j acabei,
de qualquer forma. - Entregou o Evangelho a Jonathan. - Leve isto ao
dormitrio, e no corra por toda parte: o mosteiro  um lugar de paz e quietude.
        Jonathan aceitou a sacola com o livro e a reprimenda, mas disse:
        - No gosto do ar do arcediago.
        - Tenho certeza de que ele se limitar a ser um juiz justo, o que  tudo o
que desejamos.
        A porta abriu-se de novo, e dessa vez foi o arcediago quem entrou. Era
um homem alto, esguio, mais ou menos da idade de Philip, com o cabelo grisalho
j escasseando e uma certa expresso de superioridade no rosto. Parecia
vagamente familiar.
        O prior ofereceu a mo para o cumprimento.
        - Sou Philip.
        - J o conheo - disse o arcediago agressivo. - No se lembra de mim?
        A voz spera provocou a lembrana. O corao de Philip se confrangeu.
Era o seu mais antigo inimigo.
        - Arcediago Peter - disse melancolicamente. - Peter de Wareham.

        - Ele era um encrenqueiro - explicou Philip ao subprior alguns minutos
depois, tendo deixado o arcediago  vontade em sua casa. - Queixava-se de que
no trabalhvamos o bastante, ou de que comamos bem demais, ou de que os
servios eram demasiado curtos. Dizia que eu era indulgente. Tenho certeza de
que desejava ser o prior. Teria sido um desastre, claro. Eu o nomeei esmoler,
para que passasse fora a metade do tempo. Fiz isso s para me livrar dele. Era
melhor para o priorado e melhor para ele, mas tenho certeza de que ainda me
odeia por causa disso, mesmo aps terem se passado trinta e cinco anos. - Philip
suspirou. - Soube, quando voc e eu visitamos St.- John-in-the-Forest aps a
grande fome, que Peter fora para Canterbury. E agora volta para me julgar.
        Eles se encontravam no claustro. A temperatura estava amena, e o sol
quente. Cinquenta garotos em trs classes diferentes aprendiam a ler e escrever
no passadio norte, e o murmrio abafado de suas lies flutuava pelo
quadrngulo. Philip lembrou-se de quando a escola consistira em cinco garotos
e um mestre de novios senil. Pensou em tudo o que fizera em Kingsbridge: a
construo da catedral; a transformao do priorado empobrecido e arruinado
numa instituio rica, ativa e influente; o aumento da cidade. Na igreja, mais de
cem monges formavam o coro da missa. De onde estava sentado, podia ver a
impressionante beleza, dos vidros coloridos das janelas do clerestrio. s
suas costas, ao lado da calada leste, ficava a biblioteca de pedra com centenas de
livros sobre teologia, astronomia, tica, matemtica e tanta coisa mais, na
verdade, todos os ramos do conhecimento. No mundo exterior, as terras do
priorado, administradas por monges esclarecidos e interessados, alimentavam no
somente os religiosos, como tambm centenas de trabalhadores rurais. Aquilo
tudo iria ser retirado dele por uma mentira? O priorado prspero e temente a
Deus seria entregue a outra pessoa, um peo do bispo Waleran, como o viscoso
arcediago Baldwin, ou a um tolo fariseu como Peter de Wareham, para decair e
ser lanado na penria e na depravao to depressa quanto Philip o erguera? Os
imensos rebanhos de ovelhas seriam reduzidos a um punhado de bichos
esqulidos, as fazendas retornariam  antiga ineficincia, invadidas pelo mato, a
biblioteca acumularia poeira com o desuso, a bela catedral afundaria no
abandono? Deus me ajudou a conseguir tantas coisas!, pensou. No posso
acreditar que tenha destinado tudo a se transformar em nada.
         - Mesmo assim - disse Jonathan -, o arcediago Peter no tem como achar
voc culpado.
         - Mas acho que  isso o que far - disse Philip, desolado.
         - Como, em s conscincia?
         - Acho que Peter vem cultivando uma mgoa contra mim em toda a sua
vida, e esta  a sua chance de provar que eu era o pecador e ele, o justo. Waleran,
de algum modo, tomou conhecimento disto e deu um jeito para que ele fosse
designado para julgar o caso.
         - Mas no h prova!
         - Ele no precisa de prova. Ouvir a acusao e a defesa; depois rezar a
Deus pedindo uma orientao e pronunciar sua sentena.
         - Pode ser que Deus o guie no caminho certo.
         - Peter no ouvir a Deus. Ele nunca O ouviu.
         - O que acontecer?
         - Serei deposto - respondeu o prior melancolicamente. - Pode ser que me
deixem continuar aqui, como um monge comum, fazendo penitncia, mas no
creio nisso. A probabilidade maior  de que me expulsem da ordem, a fim de
evitar que eu continue exercendo alguma influncia.
         - E o que aconteceria depois?
         - Teria que haver uma eleio, claro. Infortunadamente, a poltica real
entra no quadro. O rei Henrique est em conflito com o arcebispo de
Canterbury, Toms Becket, que est exilado na Frana. Metade dos seus
arcediagos se encontra com ele. A outra metade, a que ficou na Inglaterra, tomou
o lado do rei contra Toms. O bispo Waleran tambm tomou o lado do rei.
Waleran recomendar o prior de sua escolha, sustentado pelos arcediagos de
Canterbury e pelo prprio rei. Ser difcil para os monges se oporem a ele.
         - Quem voc acha que ele escolheria?
         - Waleran tem algum em mente, no resta a menor dvida. Pode ser o
arcediago Baldwin. Pode at mesmo ser Peter de Wareham.
         - Temos que fazer alguma coisa para evitar isso! - exclamou o monge.
         Philip assentiu.
         - Mas tudo est contra ns. No h nada que possamos fazer para alterar
a situao poltica. A nica possibilidade...
         - Qual ? - perguntou Jonathan, impacientemente.
         O caso parecia to sem esperanas que Philip achou que no valia a pena
ficar entretendo idias desesperadas; Jonathan ficaria otimista s para se
desapontar depois.
         - Nada - disse Philip.
         - O que voc ia dizer?
         Philip ainda estava trabalhando a idia.
         - Se houvesse um modo de provar minha inocncia sem deixar dvida
alguma, seria impossvel Peter me considerar culpado.
         - Mas o que serviria de prova?
         - A  que est o problema. No se pode provar uma negativa. Teramos
que descobrir seu verdadeiro pai.
         Jonathan ficou entusiasmado.
         - Sim!  isso!  o que vamos fazer!
         - Calma - disse o prior. - J tentei na poca devida. No h de ser mais
fcil tantos anos depois.
         O jovem subprior no estava a fim de ser desencorajado.
         - Havia algum indcio quanto  minha possvel origem?
         - Nada. Receio que no houvesse nada. - Philip agora estava preocupado
por ter enchido Jonathan de esperanas que no poderiam se tornar realidade.
Embora o rapaz no tivesse lembranas de seus pais, o fato de o terem
abandonado sempre o perturbara. Agora achava que podia resolver o mistrio e
encontrar alguma explicao que provasse que eles o tinham amado
verdadeiramente. O prior tinha certeza de que aquilo s poderia lev-lo 
frustrao.
         - Voc interrogou os moradores da vizinhana? - indagou Jonathan.
         - No havia ningum vivendo nas proximidades. Aquele mosteiro ficava
no meio da floresta. Seus pais provavelmente tinham vindo de muitas milhas de
distncia, talvez de Winchester. J examinei tudo isso antes.
         Jonathan persistiu.
         - Voc no viu viajantes na floresta na mesma ocasio?
         - No - respondeu Philip. Mas seria verdade? Uma tnue lembrana
passou pela sua memria. No dia em que o beb fora encontrado, o prior deixara
o priorado para ir ao palcio do bispo, e no caminho falara com algumas pessoas.
Subitamente aquilo voltou  sua lembrana. - Ora, sim, para falar a verdade, Tom
Construtor e sua famlia estavam passando por perto.
         Jonathan ficou atnito.
       - Voc nunca me contou isso!
       - No parecia importante. Ainda no parece. Eu os encontrei um ou dois
dias depois. Interroguei-os, e eles me disseram que no tinham visto ningum
que pudesse ser a me ou o pai de um beb abandonado.
       O rapaz ficou desapontado. Philip receava que aquela linha de indagaes
pudesse ser duplamente desapontadora para ele: no descobriria nada sobre seus
pais nem conseguiria provar a inocncia do prior. Mas no havia como det-lo
agora.
       - O que eles estavam fazendo na floresta, de qualquer modo? - insistiu.
       - Tom estava a caminho do palcio do bispo. Procurava trabalho. Foi
como terminaram vindo para c.
       - Quero interrog-los de novo.
       - Bem, Tom e Alfred esto mortos. Ellen mora na floresta, e s Deus
sabe quando retornar. Mas voc pode falar com Jack ou Martha.
       - Vale a pena tentar.
       Talvez Jonathan estivesse certo. Ele tinha a energia da juventude. Philip
mostrara-se pessimista e desencorajado.
       - V em frente - disse Philip. - Estou ficando velho e cansado; de outro
modo teria pensado nisso. Converse com Jack.  um fio muito tnue para nos
apegarmos. Mas  nossa nica esperana.

         O desenho da janela fora feito em tamanho real e pintado sobre uma
imensa mesa de madeira lavada com cerveja para impedir que as cores borrassem.
Representava a
         rvore de Jess, mostrando a genealogia de Jesus. Sally pegou um
pedacinho do grosso vidro cor de rubi e colocou-o no desenho, sobre o corpo de
um dos reis de Israel - Jack no sabia ao certo qual rei seria: nunca fora capaz de
se lembrar do confuso simbolismo das ilustraes teolgicas. Sally mergulhou um
pincel fino numa tigela de giz modo em gua e pintou o formato do corpo sobre
o vidro: ombros, braos e a saia do manto.
         No fogo aceso no cho ao lado da sua mesa, havia um pedao de ferro
com cabo de madeira. Ela o retirou do fogo e, rpida mas cuidadosamente,
passou a extremidade em brasa sobre o contorno que desenhara. O vidro partiu-
se com preciso ao longo da linha. O aprendiz de Sally pegou o pedao de vidro
e comeou a alisar sua borda com uma grosa de ferro.
         Jack adorava ver a filha trabalhar. Era rpida e precisa, de movimentos
econmicos. Quando garotinha se fascinara com o trabalho dos vidraceiros que
Jack trouxera de Paris, e sempre dissera que era aquilo que queria fazer quando
crescesse. Cumprira a promessa. Quando as pessoas chegavam  Catedral de
Kingsbridge pela primeira vez, impressionavam-se mais com os vidros de Sally
do que com a arquitetura do pai, pensou Jack, pesarosamente.
         O aprendiz entregou o vidro j alisado para ela, que comeou a pintar as
dobras do manto sobre sua superfcie, usando uma tinta feita de minrio de ferro,
urina e goma arbica, para fixar. A superfcie chata do vidro de repente comeou
a parecer um tecido suave e descuidadamente pregueado. Ela era muito
habilidosa. Terminou rapidamente, e em seguida colocou o vidro pintado junto
com diversos outros numa panela de ferro, cujo fundo estava coberto de cal.
Quando a panela estivesse cheia iria para o forno. O calor fundiria a pintura ao
vidro.
         Ela ergueu os olhos para Jack. Lanou-lhe um sorriso rpido mas
deslumbrante e pegou outro pedao de vidro.
         Seu pai afastou-se. Podia ficar observando-a o dia inteiro, mas tinha que
trabalhar. Era, como diria Aliena, louco pela filha. Quando olhava para ela, quase
sempre era com assombro por ser o responsvel pela existncia daquela jovem
inteligente, independente e madura. Emocionava-o ver que excelente artfice ela
era.
         Ironicamente, sempre pressionara Tommy para ser construtor.
         Chegara mesmo a forar o menino a trabalhar no canteiro da obra por
dois anos. Mas Tommy interessava-se por agricultura, equitao, caa e esgrima,
todas as coisas que deixavam Jack frio e indiferente. No fim este se dera por
vencido. Seu filho servira como escudeiro de um dos lordes locais e acabara
sendo ordenado cavaleiro.
         Aliena lhe concedera uma pequena propriedade com cinco aldeias. E
Sally se revelara uma talentosa artfice. Tommy estava casado com a filha mais
moa do conde de
         Bedford e tinha trs filhos. Jack era av. Sally, contudo, ainda permanecia
solteira aos vinte e cinco anos de idade. Havia muito da sua av Ellen nela. Era
agressivamente autoconfiante.
         Jack contornou a catedral e ergueu os olhos para as duas torres gmeas
da fachada oeste. Estavam quase prontas, e um imenso sino de bronze, fabricado
numa fundio de Londres, estava a caminho. No havia muita coisa para ele
fazer nos dias que corriam. Onde antes controlava um exrcito de vigorosos
carpinteiros e cortadores de pedras, assentando fileiras de pedras e construindo
andaimes, tinha agora um punhado de cinzeladores e pintores, fazendo um
trabalho preciso e meticuloso em escala pequena, esculpindo esttuas para
nichos, construindo pinculos ornamentais e dourando asas de anjos de pedra.
No havia muito que projetar,  parte um ou outro prdio novo para o priorado -
uma biblioteca, uma casa de cabido, mais acomodaes para peregrinos, novos
prdios para a lavanderia e os laticnios. Entre um e outro pequeno trabalho, Jack
esculpia em pedra pela primeira vez em muitos anos. Estava impaciente por
derrubar o antigo coro de Tom e construir um novo na extremidade oeste com
projeto seu, mas o prior Philip queria desfrutar a igreja como estava por um ano
antes de comear outra campanha de construo. Philip sentia o peso da idade.
Jack receava que no vivesse para ver o coro reconstrudo.
         O trabalho, contudo, continuaria aps a morte de Philip, pensou Jack ao
ver o vulto extremamente alto do irmo Jonathan aproximando-se, vindo da
direo do ptio da cozinha. Jonathan daria um bom prior, talvez at mesmo to
bom quanto o prprio Philip. Jack sentia-se feliz por saber que a sucesso estava
assegurada: capacitava-o a planejar seu futuro.
         - Estou preocupado com a corte eclesistica, Jack - foi dizendo o rapaz,
sem rodeios.
         - Pensei que fosse uma confuso enorme por nada.
         - Eu tambm. Mas acontece que o arcediago  um velho inimigo do
prior.
         - Que diabo! Mesmo assim, certamente no vai poder consider-lo
culpado.
         - Ele pode fazer o que bem entender.
         Jack sacudiu a cabea, enojado. s vezes perguntava-se como homens
como Jonathan podiam continuar a acreditar na Igreja, quando ela era to
desavergonhadamente corrupta.
         - O que voc vai fazer?
         - O nico modo de provar a inocncia dele  descobrir quem eram meus
pais.
         - J est um pouco tarde para isto!
         -  nossa nica esperana.
         Jack ficou um tanto abalado. O rapaz parecia bastante desesperado.
         - Por onde vai comear?
         - Por voc. Voc estava na rea de St.-John-in-the-Forest na poca em
que nasci.
         - Eu estava? - Jack no percebeu aonde Jonathan estava querendo chegar.
- Morei l at os onze anos, e devo ser cerca de onze anos mais velho que voc...
         - Padre Philip diz que encontrou voc, sua me, Tom e os filhos no dia
seguinte quele em que fui achado.
         - Lembro-me disso. Comemos a comida de Philip. Estvamos famintos.
         - Procure se lembrar. Voc viu algum com um beb, ou uma mulher
jovem que poderia estar grvida, em algum lugar nas proximidades?
         - Espere um minuto - Jack estava intrigado. - Voc est me dizendo que
foi encontrado perto de St.-John-in-the-Forest?
         - Sim. Voc no sabia disto?
         Jack mal podia acreditar no que ouvira.
         - No, eu no sabia - disse, lentamente. Sua mente estava s voltas com as
implicaes daquela revelao. - Quando chegamos a Kingsbridge, voc j estava
l, e eu naturalmente presumi que tivesse sido encontrado nas imediaes. - De
repente Jack sentiu necessidade de sentar-se, e acomodou-se numa pilha de
cascalhos.
        - Bem, afinal voc viu algum na floresta? - perguntou o subprior,
impaciente.
        - Oh, sim - respondeu Jack. - No sei como lhe contar isso, Jonathan.
        Jonathan empalideceu.
        - Voc sabe alguma coisa a respeito disso, no sabe? O que foi que viu?
        - Eu vi voc, Jonathan; eis o que vi.
        O queixo do rapaz caiu.
        -  qu?... Como?
        - Era de madrugada. Eu estava caando patos. Ouvi um choro. Encontrei
um beb recm-nascido, embrulhado numa velha capa cortada, deitado ao lado
das brasas de uma fogueira.
        Jonathan o encarou.
        - Alguma coisa mais?
        Jack aquiesceu lentamente.
        - O beb estava deitado sobre uma sepultura nova.
        Jonathan engoliu em seco.
        - Minha me?
        O construtor assentiu.
        O subprior comeou a chorar, mas continuou o interrogatrio.
        - O que voc fez?
        - Fui buscar minha me. Mas quando estvamos a caminho passou um
padre, num palafrm, carregando o beb.
        - Francis - murmurou Jonathan, com a voz embargada.
        - O qu?
        Ele engoliu em seco.
        - Fui encontrado pelo irmo de Philip, Francis, o sacerdote.
        - O que ele estava fazendo l?
        - Ia visitar Philip em St.-John-in-the-Forest. Foi para onde me levou.
        - Meu Deus! - Jack encarou fixamente o monge alto, com as lgrimas
escorrendo pelo rosto. Voc ainda no ouviu tudo, Jonathan, pensou.
        - Voc viu algum que pode ter sido meu pai?
        - Sim - disse Jack solenemente. - Eu sei quem ele era.
        - Diga-me! - sussurrou Jonathan.
        - Tom Construtor.
        - Tom? - O subprior deixou-se sentar pesadamente no cho. - Tom
Construtor era meu pai?
        - Sim. - Jack sacudiu a cabea, assombrado. - Agora sei quem voc me
lembra. Voc e ele so as pessoas mais altas que j vi.
        - Ele sempre foi bom para mim quando eu era criana - disse o rapaz, em
transe. - Costumava brincar comigo. Gostava de mim. Eu o via tanto quanto o
prior Philip. - As lgrimas fluam livremente. - Era o meu pai. Meu pai. - Olhou
para Jack. - Por que me abandonou?
         - Eles pensaram que voc ia morrer de qualquer maneira. No tinham
leite para lhe dar. Eles prprios estavam morrendo de inanio, eu sei.
Encontravam-se a milhas de qualquer lugar. No sabiam que o priorado era to
perto. No tinham comida, a no ser nabos, e se lhe dessem nabos o teriam
matado.
         - Ento eles me amavam, afinal.
         Jack reviu a cena como se tivesse sido na vspera: o fogo se extinguindo,
a terra recentemente revolvida da sepultura fresca e o minsculo beb cor-de-
rosa batendo os braos e as pernas dentro da velha capa cinzenta. Aquela
pequena fagulha de humanidade crescera e se transformara naquele homem alto
sentado no cho, chorando  sua frente.
         - Oh, sim, eles o amavam.
         - Como ningum nunca falou nisso?
         - Tom sentia vergonha,  claro - disse Jack. - Minha me deve ter sabido,
e quanto a ns, crianas, suponho que tenhamos mais ou menos pressentido. De
qualquer forma, era um assunto no mencionvel. E nunca fizemos a ligao
daquele beb com voc,  claro.
         - Tom deve t-la feito - disse Jonathan.
         - Sim.
         - Eu gostaria de saber por que ele nunca me pegou de volta.
         - Minha me deixou-o logo depois que chegamos aqui - disse Jack,
sorrindo melancolicamente. - Era difcil agradar-lhe, como a Sally. De qualquer
modo, Tom teria que contratar uma ama para cuidar de voc. Suponho ento que
ele deve ter pensado: Por que no deixar o beb no mosteiro? Voc estava sendo
bem tratado.
         - Pelo querido Johnny Oito Pence. Que Deus abenoe sua alma.
         - Tom provavelmente teve mais tempo disponvel para voc desse modo.
Voc corria pelo adro o dia inteiro, e ele estava trabalhando l. Se o pegasse e o
deixasse em casa com uma ama, o veria menos, na realidade. E imagino que 
medida que os anos passaram e voc foi crescendo como o rfo do priorado,
parecendo feliz, foi ficando cada vez mais natural deix-lo.  bastante comum
que as pessoas dem um filho a Deus.
         - Todos estes anos senti curiosidade a respeito dos meus pais - disse
Jonathan.
         O corao de Jack se confrangeu por ele.
         - Tentava imaginar como eram, pedia a Deus que me deixasse encontr-
los, perguntava a mim mesmo se me amavam, queria saber por que tinham me
abandonado. Agora sei que minha me morreu dando-me  luz e que meu pai
esteve do meu lado o resto de sua vida. - Jonathan sorriu por entre as lgrimas. -
No tenho palavras para lhe dizer como estou me sentindo feliz.
        Jack sentiu que estava prestes a chorar tambm.
        - Voc se parece com Tom - disse, para disfarar o embarao.
        - Pareo? - Jonathan ficou satisfeito.
        - Voc no se lembra de como ele era alto?
        - Todos os adultos eram altos para mim.
        - Ele tinha boas feies, como voc. Firmes, regulares. Se voc houvesse
deixado crescer a barba, os outros teriam adivinhado.
        - Lembro-me do dia em que ele morreu - disse Jonathan. - Levou-me
para dar uma volta pela feira. Assistimos  luta do urso. Depois escalei a parede
do coro. Estava assustado demais para descer, de modo que ele teve que subir
para me buscar. Ento viu os homens de William chegando. Deixou-me no
claustro. Foi a ltima vez em que o vi com vida.
        - Lembro-me disso. Eu o vi descendo com voc nos braos.
        - Quis se certificar de que eu estava a salvo - disse o rapaz, pensativo.
        - Depois cuidou dos outros.
        - Ele realmente me amava.
        Jack foi assaltado por uma idia.
        - Isso far diferena no julgamento de Philip, no far?
        - Eu tinha me esquecido. Sim, far. Oh, Deus!
        - Ser que temos provas irrefutveis? - perguntou o mestre construtor. -
Vi o beb, vi o padre, mas na verdade no vi o beb sendo entregue no pequeno
priorado.
        - Foi Francis quem me entregou ao mosteiro. Mas ele  irmo de Philip,
de modo que seu testemunho fica prejudicado.
        - Minha me e Tom saram juntos naquela manh - disse Jack, puxando
pela memria. - Disseram que iam procurar o padre. Aposto como foram ao
priorado se certificar de que o beb estava l.
        - Se ela declarasse isso na corte, ento realmente o caso estaria resolvido -
disse Jonathan, animado.
        - Philip acha que ela  uma feiticeira - lembrou Jack. - Ser que a deixaria
depor?
        - Poderamos fazer-lhe uma surpresa. Mas ela o odeia tambm. Ser que
testemunharia?
        - No sei - disse Jack.
        - Perguntemos a ela.


      - Fornicao e nepotismo? - exclamou a me de Jack. Philip? - Ela
comeou a rir. -  um absurdo!
        - Me, isto  srio - disse Jack.
        - Philip no seria capaz de fornicar nem que o pusessem num barril com
trs prostitutas - disse ela. - No saberia o que fazer!
        Jonathan estava ficando embaraado.
        - O prior Philip est verdadeiramente em apuros, mesmo que a acusao
seja absurda - disse o rapaz.
        - E por que eu o ajudaria? Ele no me deu nada a no ser sofrimento.
        Jack receara aquilo. Sua me nunca perdoara Philip por tla separado de
Tom.
        - Philip fez comigo o mesmo que fez com voc. Se posso perdo-lo, voc
pode.
        - No sou do tipo que perdoa.
        - Ento no o faa por Philip, faa-o por mim. Quero continuar a obra
em Kingsbridge.
        - Por qu? A igreja est terminada.
        - Eu gostaria de derrubar o coro de Tom e reconstrui-lo no novo estilo.
        - Oh, pelo amor de Deus...
        - Me, Philip  um bom prior, e quando ele morrer Jonathan assumir
suas responsabilidades... se voc for a Kingsbridge e contar a verdade no
julgamento.
        - Detesto tribunais - disse ela. - Nada de bom jamais saiu de um tribunal.
        Era enlouquecedor. Ellen tinha a chave para o julgamento de Philip:
poderia assegurar sua absolvio. Mas era uma mulher velha e obstinada. Jack
ficou seriamente receoso de no conseguir convenc-la.
        Decidiu tentar provoc-la.
        - Suponho que seja uma viagem muito longa para algum da sua idade -
disse ardilosamente. - com que idade est agora? Sessenta e oito?
        - Sessenta e dois, e no tente me provocar - retrucou ela. - Estou em
melhor forma do que voc, meu filho.
        Podia ser verdade, pensou Jack. O cabelo dela estava branco como a
neve, e seu rosto profundamente vincado pelas rugas, mas seus surpreendentes
olhos dourados viam tanto quanto sempre: assim que fitou Jonathan soube quem
era. "Bem, no preciso perguntar por que voc est aqui", dissera. "Voc
descobriu a sua origem, no foi? Por Deus,  to alto quanto seu pai e quase to
espadado." Ela continuava to independente e decidida como sempre.
        - Sally  como voc - disse Jack.
        Ellen ficou satisfeita.
        -  mesmo? - Ela sorriu. - De que modo?
        - Na sua teimosia incrvel.
        - Hum. - Pareceu ficar furiosa. - Ento ela vai se dar bem.
        Jack decidiu que o melhor que tinha a fazer era implorar.
        - Me, por favor, v a Kingsbridge conosco e conte a verdade.
        - No sei - disse ela.
        - Tenho outra coisa para lhe perguntar - disse Jonathan. Jack no sabia o
que estava por vir. Tinha medo de que o rapaz pudesse dizer algo que agredisse
sua me: era fcil de acontecer, especialmente em se tratando de clrigos.
Conteve a respirao. - Voc poderia me mostrar o lugar onde minha me est
enterrada? - pediu ele.
        Jack soltou o ar silenciosamente. No havia nada de errado com aquilo.
Na verdade, o subprior dificilmente poderia ter pensado em algo com mais
probabilidade de abrand-la.
        Ellen abandonou o jeito desdenhoso imediatamente.
        - Claro que lhe mostrarei - disse. - Tenho certeza de que serei capaz de
encontr-lo.
        Jack sentiu-se relutante. No havia muito tempo. O julgamento
comearia na manh seguinte e tinham um longo trajeto a percorrer. Mas achou
que deveria deixar o destino seguir seu rumo.
        - Voc quer ir l agora? - perguntou ela.
        - Sim, por favor, se for possvel.
        - Est bem. - Ela se levantou. Ps nos ombros uma capa de pele de
coelho. Jack esteve prestes a lhe dizer que estava muito calor para aquilo, mas
conteve-se: gente velha sempre sente mais frio.
        Deixaram a caverna, com seu cheiro de mas armazenadas e de fumaa
de lenha, e abriram caminho por entre a vegetao espessa que disfarava sua
entrada, saindo ao sol da primavera. Ellen seguiu adiante sem a menor hesitao.
Jack e Jonathan desamarraram seus cavalos. Tinham que pux-los, porque o mato
estava muito crescido.
        O construtor notou que a me caminhava mais lentamente que antes.
No estava em to boa forma quanto aparentava.
        Ele no teria sido capaz de achar o lugar sozinho. Houve tempo em que
podia encontrar seu caminho na floresta com tanta facilidade quanto se estivesse
agora se deslocando em Kingsbridge. Mas uma clareira se parecia demais com
outra, assim como as casas de Kingsbridge pareceriam todas iguais para um
estrangeiro. Ellen seguiu uma srie de trilhas de animais atravs da densa
vegetao. De vez em quando Jack reconhecia um marco associado com alguma
lembrana da infncia: um enorme carvalho velho, onde uma vez se abrigara de
um javali; um viveiro de coelhos que proporcionara muitos e muitos jantares; um
regato de trutas onde, pelo menos ao que parecia agora, ele conseguia pegar peixe
gordo rapidamente. De vez em quando sabia onde se encontrava, e logo depois
voltava a ficar perdido. Era assombroso pensar que um dia se sentira totalmente
 vontade naquilo que agora era um lugar estranho com seus regatos e moitas to
sem significado para ele quanto suas pedras de arco e suportes de vigas seriam
para um campons. Nunca teria podido adivinhar, naquele tempo, como se
desenrolaria sua vida.
         Caminharam diversas milhas. Era um dia quente de primavera, e Jack se
deu conta de que estava suando, mas Ellen manteve a capinha de coelho nas
costas. Pelo meio da tarde veio a parar numa clareira sombria. Jack notou que ela
estava respirando com dificuldade e ficando um pouco plida. Definitivamente
era hora de largar a floresta e ir morar com ele e Aliena. Decidiu que faria um
grande esforo para persuadi-la.
         - Voc est bem? - perguntou ele.
         - Claro que sim - retorquiu ela. - Chegamos.
         Jack olhou em torno. No reconheceu o lugar.
         -  aqui? - perguntou Jonathan.
         - Sim - disse Ellen.
         - Onde est a estrada? - perguntou seu filho.
         - Ali.
         Quando Jack se orientou com a estrada, a clareira comeou a parecer-lhe
familiar, e ele foi invadido por uma poderosa sensao do passado. Ali estava o
grande castanheiro: no tinha folhas, naquele dia, e o cho da floresta estava
cheio dos seus frutos. Mas agora a rvore mostrava-se florida, coberta com
enormes flores brancas que lembravam velas. As flores j tinham comeado a
cair, e a cada instante uma nuvem de ptalas esvoaava at o cho.
         - Martha me contou o que aconteceu - disse Jack. - Eles pararam aqui
porque sua me no podia ir mais longe. Tom acendeu um fogo e cozinhou uns
nabos para a ceia: no havia carne. Sua me deu  luz aqui, no cho. Voc era
perfeitamente saudvel, mas algo saiu errado e ela morreu. - Havia uma pequena
elevao de terra a poucas jardas da rvore. - Olhe disse Jack. - Est vendo aquele
monte?
         Jonathan assentiu, o rosto tenso de emoo contida.
         -  a sepultura. - Enquanto Jack falava, uma nuvem de flores caiu da
rvore e acomodou-se sobre a pequena elevao, como um tapete de ptalas.
         O rapaz ajoelhou-se ao lado da sepultura e comeou a rezar.
         Jack permaneceu em silncio. Lembrava-se de quando descobrira seus
parentes em Cherbourg: fora uma experincia devastadora. O que Jonathan
estava passando devia ser ainda mais intenso.
         Ao cabo de algum tempo o subprior se ergueu.
         - Quando eu for prior - disse, solenemente -, vou construir um pequeno
mosteiro aqui, com uma capela e uma hospedaria, para que no futuro nenhum
viajante neste trecho da estrada jamais tenha que passar uma fria noite de inverno
dormindo ao relento. Dedicarei a hospedaria  memria de minha me. - Olhou
para Jack. - No creio que voc tenha chegado a saber o nome dela... ou soube?
         - Era Agnes - disse Ellen, suavemente. - O nome de sua me era Agnes.
        O bispo Waleran apresentou o caso de maneira muito persuasiva.
        Comeou contando  corte o precoce progresso de Philip: despenseiro
aos vinte e um anos, prior do Mosteiro de St.-Johnin-the-Forest aos vinte e trs;
prior de Kingsbridge com apenas vinte e oito anos. Enfatizava constantemente a
juventude de Philip, sugerindo a existncia de uma certa parcela de arrogncia em
quem aceitava tantas responsabilidades cedo. Depois descreveu St.-John-in-the-
Forest, como era remota e distante, e falou da liberdade e independncia de
quem quer que fosse seu prior.
        - Quem poderia se surpreender se aps cinco anos como virtualmente
seu prprio senhor, com apenas a mais leve e distante das supervises, aquele
inexperiente rapaz de sangue quente tivesse um filho? - Parecia quase inevitvel.
Waleran mostrava-se enfurecedoramente digno de crdito. O prior teve mpetos
de estrangul-lo.
        O bispo prosseguiu, dizendo que Philip levara Jonathan e Johnny Oito
Pence consigo quando fora para Kingsbridge.
        - Os monges se espantaram, disse Waleran, quando seu novo prior
chegou com um beb e um monge que servia de ama-seca. - Aquilo era verdade.
Por um momento Philip esqueceu a tenso, e teve que suprimir um sorriso
nostlgico.
        - O prior brincara com Jonathan nos seus tempos de criana, ensinara-lhe
lies e mais tarde fizera do rapaz seu assistente pessoal, - continuou Waleran, -
exatamente como qualquer homem faria com o prprio filho, a no ser pelo fato
de no se esperar que monges os tivessem.
        - Jonathan foi precoce, assim como Philip - disse o bispo. - Quando
Cuthbert Cabea Branca morreu, Philip fez de Jonathan o despenseiro, muito
embora tivesse apenas vinte e um anos. Ser que ningum mais poderia
desempenhar aquelas funes em um mosteiro com mais de cem monges, exceto
um rapaz de vinte e um anos? Ou o prior estava dando preferncia  sua prpria
carne e sangue? Quando Milius saiu para ser prior em Glastonbury, Philip fez do
rapaz tesoureiro. Ele est com trinta e quatro anos. Ser o mais sbio e devoto de
todos os monges aqui? Ou  simplesmente o favorito de Philip?
        O prior olhou  sua volta. A corte se realizava no transepto sul da
Catedral de Kingsbridge. O arcediago Peter estava sentado numa cadeira grande,
entalhada como um trono. Todos os auxiliares do bispo se achavam presentes,
assim como a maior parte dos monges de Kingsbridge. Haveria pouco trabalho
no mosteiro enquanto seu prior estivesse em julgamento. Todos os religiosos
importantes do condado compareceriam, inclusive alguns dos padres das
parquias mais humildes. Havia tambm representantes das dioceses mais
prximas. Toda a comunidade eclesistica do sul da Inglaterra aguardava o
veredicto daquela corte. Ningum estava interessado na virtude de Philip, ou na
sua falta,  claro. Queriam acompanhar a disputa de poder entre o prior e o
bispo.
         Quando Waleran se sentou, Philip fez seu juramento e comeou a contar
a histria daquela manh de inverno tanto tempo antes. Comeou pelo
transtorno causado por Peter de Wareham; queria que todos soubessem que
Peter nutria rivalidades com ele. Depois chamou Francis para contar como o
beb fora encontrado.
         Jonathan se afastara de Kingsbridge, deixando um recado de que estava
seguindo a pista de novas informaes sobre seus pais. Jack desaparecera
tambm, o que fizera com que o prior conclusse que a viagem tinha algo a ver
com a me de Jack, a bruxa Ellen, e que o rapaz tivera medo de que, caso ficasse
para explicar, ele, Philip, teria proibido a viagem. Deviam ter voltado naquela
manh, mas ainda no haviam chegado. Philip no achava que Ellen pudesse ter
algo a acrescentar  histria que Francis estava contando.
         Quando seu irmo terminou, o prior comeou a falar.
         - Aquele beb no era meu - disse, simplesmente. - Juro que no era meu,
arriscando inclusive minha alma imortal. Nunca tive relaes com uma mulher, e
permaneo at o dia de hoje no estado de castidade recomendado a ns pelo
apstolo Paulo. Assim sendo, por que, conforme diz o lorde bispo, teria eu
tratado o beb como se fosse meu filho?
         Philip deu uma olhada na audincia. Decidira que sua nica chance era
contar a verdade e esperar que Deus falasse alto o bastante para vencer a surdez
espiritual de Peter.
         - Quando eu tinha seis anos, meu pai e minha me morreram. Foram
mortos por soldados do velho rei Henrique, em Gales. Meu irmo e eu fomos
salvos pelo abade de um mosteiro prximo, e daquele dia em diante os monges
nos criaram. Fui um rfo de mosteiro. Sei como . Compreendo como o rfo
anseia pelo contato com a me, muito embora ame os irmos que cuidam dele.
Eu sabia que Jonathan se sentiria anormal, diferente, ilegtimo. Eu prprio
experimentei essa sensao de isolamento, de ser diferente de todos os outros,
por terem um pai e uma me e eu no. Como ele, senti-me envergonhado por ser
um fardo, onerando a caridade dos outros; cansei de me perguntar o que haveria
de errado comigo, para ser privado daquilo que aos demais era garantido com
naturalidade. Eu sabia que ele sonharia, de noite, com o colo quente e perfumado
e a voz suave de uma me que no chegara a conhecer, algum que o amara total
e completamente.
         O rosto do arcediago Peter parecia uma pedra. Ele era o pior tipo de
cristo, constatou Philip: seguia todas as negativas, adotava todas as proibies,
insistia em todas as formas de recusa e exigia rigorosa punio para todas as
ofensas; no entanto, ignorava toda a compaixo do cristianismo, negava sua
misericrdia, desobedecia flagrantemente sua tica de amor e escarnecia
abertamente das delicadas leis de Jesus. Eram assim os fariseus, pensou o prior;
no admirava que o Senhor preferisse comer na companhia dos publicanos e
pecadores.
         Ele prosseguiu, embora compreendesse, com o corao sangrando, que
nada que pudesse dizer penetraria na armadura da orgulhosa integridade de Peter.
         - Ningum poderia cuidar daquele garoto como eu, a menos que fossem
seus prprios pais; e estes nunca conseguimos encontrar. Que mais clara
indicao da vontade de Deus... - ele se interrompeu. Jonathan acabara de entrar
na igreja, com Jack; e, entre eles, estava Ellen, a feiticeira.
         Ela envelhecera; seu cabelo era branco como a neve, e o rosto estava
encarquilhado. Mas andava como uma rainha, a cabea erguida, os estranhos
olhos dourados brilhando desafiadoramente. Philip ficou surpreso demais para
protestar.
         A corte guardou silncio quando ela entrou no transepto e parou,
defrontando-se com o arcediago Peter. Quando falou, sua voz soou como uma
trombeta, e subiu, ecoando no clerestrio da igreja construda pelo seu filho.
         - Juro, por tudo quanto  mais sagrado, que Jonathan  filho de Tom
Construtor, meu falecido marido, e de sua primeira mulher.
         Ouviu-se um clamor de espanto vindo do clero. Por algum tempo
ningum pde ser ouvido. Philip ficou totalmente desconcertado. De queixo
cado, encarou Ellen. Tom Construtor? Jonathan era filho de Tom? Quando
olhou para Jonathan soube imediatamente que era verdade: eles eram iguais, no
somente na altura, mas no rosto. Se Jonathan usasse barba teria sido bvio.
         Sua primeira reao foi um sentimento de perda. At ento ele fora o que
Jonathan tivera de mais parecido com um pai. Mas Tom era o verdadeiro pai de
Jonathan, e, embora estivesse morto, a descoberta mudava tudo. O prior no
podia mais se ver, secretamente, como um pai; Jonathan no mais se sentiria
como seu filho. Era agora o filho de Tom. Philip o perdera.
         O prior deixou-se sentar pesadamente. Quando a multido silenciou,
Ellen contou a histria de Jack ter ouvido um choro de criana e descoberto um
beb recm-nascido. Philip ouviu-a, em transe, contando como se escondera com
Tom nos arbustos, observando, enquanto os monges voltavam de sua manh de
trabalho, junto com o prior, para encontrar Francis os esperando com um beb
recm-nascido, e Johnny Oito Pence tentando aliment-lo com um trapo
embebido num balde de leite de cabra.
         Lembrava-se claramente de quo interessado o jovem Tom se mostrara,
um ou dois dias mais tarde, quando haviam se encontrado por acaso e ouvira
sobre o beb abandonado.
         O religioso presumira que seu interesse era o de qualquer homem
compassivo numa histria comovente, mas na verdade Tom estivera querendo
saber o destino do prprio filho.
         Depois rememorou quo amigo de Jonathan Tom tinha sido nos ltimos
anos, quando o beb se transformara numa criancinha de andar vacilante e mais
tarde num garoto travesso. Ningum reparara naquilo; todo o mosteiro tratava
Jonathan como uma espcie de brinquedo favorito naquela poca e Tom ficava
quase todo o tempo no adro, de modo que o comportamento dele passava
despercebido; mas agora, em retrospecto, Philip podia ver que a ateno que
Tom devotava a Jonathan era especial.
        Quando Ellen se sentou, Philip percebeu que se comprovara a sua
inocncia. As revelaes que fizera foram to devastadoras que ele quase se
esquecera de que estava em julgamento. A histria que ela contara, de nascimento
e morte, desespero e esperana, segredos antigos e amor duradouro, fizera a
questo da castidade de Philip parecer trivial. S que no era, claro; o futuro do
priorado dependia disso, e Ellen respondera  pergunta to dramaticamente que
parecia impossvel que o julgamento prosseguisse. Nem mesmo Peter de
Wareham pode me considerar culpado depois desse testemunho, pensou Philip.
Waleran perdera de novo.
        Contudo, o bispo no estava disposto a se considerar derrotado to cedo.
Apontou um dedo acusador para Ellen.
        - Voc diz que Tom lhe contou que o beb levado para o pequeno
mosteiro era o filho dele.
        - Sim - respondeu Ellen cautelosamente.
        - Mas as outras pessoas que poderiam ser capazes de confirmar isto - as
crianas Alfred e Martha - no acompanharam vocs ao mosteiro.
        - No.
        - E Tom est morto. Ento s temos a sua palavra, afirmando que Tom
lhe contou essa histria.  um relato que no pode ser verificado.
        - Quanta verificao voc quer? - retrucou ela energicamente. - Jack viu o
beb abandonado. Francis o pegou. Jack e eu encontramos Tom, Alfred e
Martha. Francis levou o beb para o priorado. Tom e eu espiamos o mosteiro.
Quantas testemunhas o satisfariam?
        - No acredito em voc - disse o bispo.
        - Voc no acredita em mim? - exclamou Ellen, e subitamente Philip
pde ver que ela estava furiosa, profunda e apaixonadamente furiosa. - Voc no
acredita em mim? Voc, Waleran Bigod, que sei ser um perjuro?
        O que estava acontecendo agora? Philip teve a premonio de um
cataclismo. O bispo empalideceu. H algo aqui, pensou Philip; algo de que
Waleran tem medo. Sentiu frio na boca do estmago. De repente, o aspecto de
seu adversrio era completamente vulnervel.
        - Como voc sabe que o bispo  um perjuro? - perguntou Philip a Ellen.
        - Quarenta e sete anos atrs, neste priorado onde nos encontramos, havia
um prisioneiro chamado Jack Shareburg - disse Ellen.
        Waleran interrompeu-a.
         - Esta corte no est interessada em eventos que tiveram lugar h tanto
tempo.
         - Est, sim - retrucou Philip. - A acusao contra mim se refere a um
suposto ato de fornicao ocorrido h trinta e cinco anos, milorde bispo. Voc
exigiu que eu provasse minha inocncia. A corte agora no esperar menos da
sua parte. - Ele se virou para Ellen. - Continue.
         - Ningum sabia por que Jack estava na priso, muito menos ele prprio;
mas chegou o tempo em que foi libertado, quando lhe deram um clice com
pedras preciosas, talvez como recompensa pelos anos em que estivera
injustamente confinado. Ele no queria esse clice, claro: no tinha o que fazer
com ele, e era precioso demais para ser vendido no mercado. Deixou-o para trs,
na velha catedral aqui de Kingsbridge. Logo depois foi preso - por Waleran
Bigod, que na poca era um simples padre de roa, humilde mas ambicioso -, e o
clice misteriosamente reapareceu em sua bagagem. Jack Shareburg, falsamente
acusado de furtar o clice, foi condenado com base no juramento de trs pessoas:
Waleran Bigod, Percy Hamleigh e o prior James, de Kingsbridge. E enforcaram-
no.
         Houve um momento de silncio atnito.
         - Como voc soube de tudo isto? - perguntou Philip.
         - Eu era a nica amiga de Jack Shareburg, que foi o pai de meu filho,
Jack, o mestre construtor desta catedral.
         Houve um rebulio. Waleran e Peter tentaram falar ao mesmo tempo,
mas nenhum dos dois conseguiu se fazer ouvir com o vozerio atnito dos
clrigos reunidos. Eles tinham vindo assistir a uma revelao, uma explicao
definitiva, pensou Philip, mas no tinham esperado aquilo.
         Peter acabou conseguindo se fazer ouvir:
         - Por que motivo trs cidados obedientes  lei iriam conspirar para
acusar falsamente um estranho inocente? - perguntou, ctico.
         - Por lucro - disse Ellen. - Waleran Bigod foi nomeado arcediago. Percy
recebeu a propriedade de Hamleigh e diversas outras aldeias, e tornou-se um
senhor de terras. No sei qual foi a recompensa do prior James.
         - Posso responder a isso - disse uma nova voz. Philip virou-se, espantado:
fora Remigius quem falara. Ele j passara dos setenta anos. Estava com a cabea
branca e tendia a divagar quando falava; mas agora, quando se levantou com a
ajuda de uma bengala, seus olhos estavam brilhantes e sua expresso, alerta. Era
raro ouvi-lo falar em pblico; desde seu declnio e retorno ao mosteiro vivia uma
vida quieta e humilde. Philip perguntou-se o que estaria por vir. Que lado
Remigius iria tomar? Aproveitaria a ltima oportunidade para apunhalar nas
costas seu velho inimigo Philip?
         - Posso dizer qual foi a recompensa que o prior James recebeu - disse
Remigius. - O priorado ganhou as aldeias de Northwold, Southwold e
Hundredacre, mais a floresta de Oldean.
         Philip ficou estupefato. Seria possvel que o velho prior tivesse prestado
falso testemunho, sob juramento, por causa de algumas aldeias?
         - O prior James nunca foi um bom administrador - continuou Remigius. -
O priorado estava em dificuldades, e ele achava que a renda extra nos ajudaria. -
Remigius fez uma pausa e depois disse, incisivamente: - Fez pouco bem e muito
mal. A renda foi til por algum tempo, mas o prior James jamais recuperou seu
auto-respeito.
         Ouvindo Remigius, Philip recordou-se do ar derrotado e abatido do
velho prior, e finalmente o compreendeu.
         - James na verdade no foi um perjuro - continuou Remigius -, pois s
jurou que o clice pertencia ao priorado; contudo, sabia que Jack Shareburg era
inocente e permaneceu em silncio. Arrependeu-se disso pelo resto da vida.
         Sem dvida, pensou Philip. Tratava-se de um pecado indesculpvel num
monge. O testemunho de Remigius confirmou a histria de Ellen - e condenou
Waleran.
         - Alguns poucos dos mais velhos aqui ainda se lembraro hoje de como o
priorado era h quarenta anos: desmantelado, sem dinheiro, praticamente em
runas, desmoralizado. A razo era o peso da culpa que o prior sentia. Ao morrer,
finalmente confessou-me seu pecado. Eu queria... - Remigius interrompeu-se.
         A igreja ficou em silncio, esperando. O velho suspirou e recomeou:
         - Eu queria assumir sua posio e consertar o erro. Mas Deus escolheu
outro homem para essa tarefa. - Fez outra pausa, e seu rosto enrugado
contorceu-se penosamente quando ele lutou para terminar. - Eu deveria dizer:
Deus escolheu um homem melhor. - com isto, sentou-se abruptamente. Philip
ficou chocado, bestificado e agradecido. Dois velhos inimigos, Ellen e Remigius,
o haviam salvo. A revelao daqueles antigos segredos deu-lhe a impresso de ter
vivido com um olho fechado. O bispo Waleran estava lvido de raiva. Devia ter
achado que estava seguro aps tantos anos. Inclinou-se na direo de Peter,
falando ao ouvido do arcediago, enquanto o burburinho aumentava na audincia.
Peter levantou-se.
         - Silncio! - gritou. A igreja ficou quieta. - O julgamento est encerrado!
         - Espere um minuto! - era Jack. - Isto no basta! - exclamou
apaixonadamente. - Quero saber por qu!
         Ignorando Jack, Peter encaminhou-se para a porta que dava no claustro,
seguido por Waleran. O mestre construtor foi atrs deles.
         - Por que fez isso? - gritou para Waleran. - Jurou em falso, um homem
morreu; vai sair daqui sem mais uma palavra?
         O bispo continuou olhando para a frente, o rosto lvido, os lbios
apertados, sua expresso, uma mscara de fria contida. Quando ia passando pela
porta, Jack berrou:
       - Responda-me, seu covarde, mentiroso, corrupto! Por que matou meu
pai?
       Waleran saiu da igreja e a porta bateu s suas costas.
        Captulo 18
         A carta do rei Henrique chegou quando os monges estavam em cabido.
         Jack construra uma nova casa para acomodar cento e cinquenta monges
- o maior nmero em um nico mosteiro, em toda a Inglaterra. O prdio
redondo tinha um teto abobadado de pedra e fileiras de degraus para os monges
se sentarem. As autoridades monsticas se sentavam em bancos de pedra ao
redor das paredes, um pouco acima do nvel do resto; quanto a Philip e Jonathan,
tinham tronos de pedra lavrada de encontro  parede que ficava defronte da
porta.
         Um jovem monge estava lendo o stimo captulo da Regra de So Bento.
         - "O sexto estgio da humildade  atingido quando o monge se contenta
com tudo quanto  perverso e desprezvel"... - Philip deu-se conta de que no
sabia o nome do monge que estava lendo. Seria por estar ficando velho ou
porque o mosteiro crescera tanto? - "O stimo estgio da humildade  atingido
quando um homem no apenas confessa com a sua lngua que  inferior aos
outros, como tambm acredita nisso no fundo do corao."
         O prior sabia que no tinha atingido esse grau de humildade. Realizara
muitas coisas nos seus sessenta e dois anos, graas  coragem, determinao e
uso do seu crebro; e precisava constantemente lembrar a si prprio que o
verdadeiro motivo do seu sucesso era que desfrutara da ajuda de Deus; sem isso,
todos os seus esforos teriam dado em nada.
         Ao seu lado, Jonathan se mexia, inquieto. Ele tinha ainda mais problemas
com a virtude da humildade do que o prior. A arrogncia era o pecado dos bons
lderes. Jonathan estava pronto para assumir a chefia do mosteiro, e sentia-se
impaciente. Estivera conversando com Aliena e estava louco para experimentar
suas tcnicas agrcolas, como arar com cavalos e plantar ervilhas e aveia para
descansar a terra. Eu era idntico na questo de criao de ovelhas para l, trinta
e cinco anos atrs, pensou Philip.
         Sabia que devia renunciar e deixar que Jonathan assumisse as funes de
prior. Deveria dedicar seus ltimos anos  prece e  meditao. Era um caminho
que frequentemente receitara para os outros. Mas agora que estava velho o
bastante para se aposentar, a perspectiva o amedrontava. Seu corpo ainda estava
saudvel, e o crebro, to gil quanto sempre. Uma vida de prece e meditao o
levaria  loucura.
         O subprior, contudo, no esperaria para sempre. Deus lhe dera
capacidade para dirigir um mosteiro de grande porte, e no constava dos planos
dele desperdiar seu talento. Visitara numerosas abadias no decurso daqueles
anos, e deixara boa impresso em todas. Um daqueles dias, quando um abade
falecesse, os monges lhe pediriam que se candidatasse  eleio, e seria difcil para
Philip recusar sua permisso.
         O jovem monge cujo nome Philip no fora capaz de lembrar estava
terminando o captulo quando se ouviu algum bater  porta; o porteiro entrou.
O irmo Steven, o encarregado da disciplina, fez uma careta para ele: no devia
perturbar os monges reunidos para o cabido. Como todos os encarregados da
disciplina, Steven acreditava sobretudo na obedincia s regras.
         - Mensagem do rei! - disse o porteiro, num sussurro bem alto.
         Philip dirigiu-se a Jonathan.
         - Faa o favor de ver o que , sim? - O mensageiro insistia em entregar a
carta a uma autoridade graduada do mosteiro. Jonathan saiu. Os monges ficaram
todos cochichando uns com os outros.
         - Continuemos com o necrolgio - disse Philip com firmeza.
         Quando as oraes pelos mortos comearam, ele se perguntou o que
Henrique teria a dizer ao priorado. No devia ser uma boa notcia. O rei andava
metido em desavenas com a Igreja h seis longos anos. A briga comeara por
causa da jurisdio das cortes eclesisticas, mas a obstinao do rei e o zelo do
arcebispo de Canterbury, Toms Becket, tinham impedido que se chegasse a um
compromisso, e assim a disputa se transformara numa crise. Becket fora forado
a exilar-se.
         Lamentavelmente, a Igreja inglesa no era unnime no apoio a ele. Bispos
como Waleran Bigod tomaram o lado de Henrique a fim de conquistar o favor
real. O papa, no entanto, estava pressionando o rei a fazer as pazes com Becket.
Talvez a pior consequncia do conflito fosse o fato de que a necessidade de
apoio que Henrique tinha dentro da Igreja inglesa dava a bispos ambiciosos de
poder, como Waleran, maior influncia na corte. Esse era o motivo pelo qual a
chegada de uma carta do rei era vista por Philip como mais agourenta do que
usualmente. Jonathan voltou e passou-lhe um rolo de pergaminho lacrado com
cera, onde se via a marca de um enorme selo real. Todos os monges estavam
olhando. Philip concluiu que seria demais pedir-lhes que se concentrassem nas
oraes por gente morta, estando ele com uma carta daquelas na mo.
         - Est bem - disse -, continuaremos as oraes depois.
         O prior quebrou o lacre e abriu a carta. Deu uma olhada nos
cumprimentos iniciais e depois entregou-a a Jonathan, cujos olhos jovens eram
melhores.
         - Leia para ns, por favor.
         Aps os cumprimentos de costume, o rei escreveu:
         - "Como o novo bispo de Lincoln, nomeei Waleran Bigod, atualmente
bispo de Kingsbridge... " - a voz de Jonathan foi abafada pelos comentrios.
Philip abanou a cabea, desgostoso. Waleran perdera toda a credibilidade local
desde as revelaes no julgamento do prior; no havia jeito de poder continuar
como bispo. Assim, persuadira o rei a nome-lo bispo de Lincoln - um dos mais
ricos bispados do mundo. Era a terceira diocese em importncia no reino, aps
Canterbury e York. De l era um passo curto para o arcebispado. Henrique
poderia inclusive estar preparando Waleran para substituir Toms Becket. Pensou
em Bigod como arcebispo de Canterbury, lder da Igreja inglesa, e a idia foi to
aterrorizadora que deixou Philip nauseado de medo.
         - "E recomendei ao deo e ao cabido de Lincoln que o elejam" -
prosseguiu Jonathan, quando os monges se acalmaram. Bem, a estava algo mais
fcil de ser dito do que feito, pensou o prior. Uma recomendao real era quase
uma ordem, mas no chegava a s-lo. Se o cabido de Lincoln recusasse Waleran
ou tivesse um candidato prprio, o rei teria que enfrentar problemas.
         Provavelmente conseguiria atingir seu objetivo, ao cabo de tudo, mas no
era uma coisa que podia se considerar como inevitvel.
         - "Ordeno aos integrantes do cabido de Kingsbridge que realizem uma
eleio para escolher o novo bispo de Kingsbridge, e recomendo que seja eleito o
meu servidor Peter de Wareham, arcediago de Canterbury."
         Um grito coletivo de protesto se fez ouvir na assemblia dos monges.
Philip gelou de pavor. O arrogante, ressentido e farisaico arcediago Peter era a
escolha do rei para ser o novo bispo de Kingsbridge!
         Era exatamente do mesmo tipo que Waleran. Genuinamente piedosos e
tementes a Deus, ambos no tinham, porm, noo da prpria falibilidade, de
modo que viam seus prprios desejos como a vontade divina e perseguiam seus
objetivos com a mais completa desconsiderao para com as consequncias. Com
Peter como bispo, Jonathan passaria o resto da vida como prior, lutando por
justia e decncia num condado governado com punho de ferro por um homem
sem corao. E se Waleran se tornasse arcebispo, no haveria perspectiva de
alvio.
         Philip anteviu uma longa era de obscurantismo  frente, como o pior
perodo da guerra civil, quando condes do tipo de William faziam o que bem
entendiam, enquanto padres arrogantes negligenciavam seu povo, e com o
priorado mais uma vez se reduzindo a uma sombra empobrecida e fragilizada do
que fora. A idia o enfureceu.
         No era ele o nico furioso. Steven, o encarregado da disciplina,
levantou-se com o rosto vermelho.
         - No ser assim! - gritou, a despeito da regra de Philip de que no cabido
todos deviam falar baixo e calmamente.
         Os monges vivaram, entusiasmados, mas Jonathan demonstrou sua
sabedoria, fazendo a pergunta crucial:
         - O que podemos fazer?
         - Devemos recusar o pedido do rei! - respondeu Bernard Cozinheiro,
gordo como sempre.
         Diversos monges exprimiram sua concordncia.
         - Escreveremos ao rei dizendo que elegeremos quem quisermos! - disse
Steven. Aps um momento, acrescentou encabuladamente: - Com a orientao
de Deus, claro.
         - No concordo que ns nos recusemos assim, contrariando
frontalmente o rei - redarguiu Jonathan. - Quanto mais depressa o desafiarmos,
mais depressa ele despejar sua fria sobre nossa cabea.
         - Jonathan tem razo - concordou Philip. - Um homem que perde uma
batalha com o seu rei pode ser perdoado, mas o que ganha est desgraado.
         - Mas assim voc estar simplesmente cedendo! - explodiu Steven.
         O prior estava to preocupado e temeroso como os outros, mas
precisava aparentar calma.
         - Steven, contenha-se, por favor - pediu. - Temos que lutar contra essa
horrvel designao,  claro. Mas o faremos com cuidado e inteligncia, evitando
sempre um confronto aberto.
         - O que vamos fazer, ento? - perguntou o encarregado da disciplina.
         - No estou certo - respondeu Philip. Ele estivera desanimado a
princpio, mas agora comeava a se sentir agressivo. Travara aquela batalha vezes
sem conta, em toda a sua vida. Lutara ali mesmo no priorado, quando derrotara
Remigius e se tornara prior; lutara no condado, contra William e Waleran Bigod;
e agora ia ter que lutar nacionalmente. Precisaria defrontar-se com o rei.
         - Acho que terei que ir  Frana - disse. - Ver o arcebispo Toms Becket.
         Em todas as outras crises, Philip sempre conseguira imaginar um plano.
Sempre que ele, seu priorado ou sua cidade foram ameaados pelas foras da
ilegalidade e selvageria, pensara em alguma forma de defesa ou contra-ataque.
Nem sempre tivera certeza do sucesso, mas nunca estivera perdido, sem saber o
que fazer - at ento.

          Ainda se sentia aturdido ao chegar  cidade de Sens, sudeste de Paris, na
Frana.
         A Catedral de Sens era o edifcio mais largo que ele jamais vira. A nave
no tinha menos que cinquenta ps de largura. Comparada  Catedral de
Kingsbridge, Sens transmitia uma impresso de espao, mais que de luz.
         Viajando pela Frana, pela primeira vez em sua vida percebeu que havia
mais variedades de igreja no mundo do que imaginara antes, e compreendeu o
efeito revolucionrio que a viagem causara em Jack. Fez questo de visitar a igreja
da Abadia de Saint-Denis, quando passou por Paris, e viu onde Jack se inspirara
para algumas de suas idias. Viu tambm duas igrejas com arcobotantes alados
como os de Kingsbridge: obviamente outros mestres pedreiros tinham se
defrontado com o mesmo problema que Jack, e haviam chegado  mesma
soluo.
         O prior foi apresentar seus respeitos ao arcebispo de Sens, William
Whitehands, um jovem e brilhante clrigo que era sobrinho do falecido rei
Estvo. O arcebispo William convidou Philip para jantar. Philip sentiu-se
lisonjeado, mas declinou o convite: percorrera um longo trajeto para ver Toms
Becket, e agora que estava to perto sentia-se impaciente. Aps assistir  missa na
catedral, seguiu o rio Yonne na direo norte, saindo da cidade.
         Viajava modestamente, para o prior de um dos mosteiros mais ricos da
Inglaterra: tinha consigo apenas dois homens de armas para sua proteo, um
jovem monge chamado Michael de Bristol como assistente, e um carregamento
de livros sagrados, copiados e lindamente ilustrados em Kingsbridge, para
presentear os abades e bispos que visitasse durante a viagem. Os livros
dispendiosos constituam presentes impressionantes e contrastavam vivamente
com a modstia da escolta de Philip. O que era proposital: ele queria que
respeitassem o priorado, no o prior.
         Do lado de fora do porto norte de Sens, numa ensolarada campina
perto do rio, ele encontrou a venervel Abadia de Sainte-Colombe, onde o
arcebispo Toms se encontrava h trs anos. Um dos seus sacerdotes
cumprimentou Philip calorosamente, chamou servos para tomar conta dos seus
cavalos e da bagagem, e conduziu-o at a casa de hspedes, onde o arcebispo se
encontrava. Ocorreu a Philip que os exilados deviam ficar contentes por
receberem visitantes de sua terra, no s por razes sentimentais, mas por ser um
sinal de apoio.
         Serviram po e vinho a Philip e seu assistente e os levaram para dentro da
casa. Os homens de Toms eram todos clrigos, em sua maioria jovens - e, na
opinio de Philip, inteligentes. No se passou muito tempo e Michael estava
discutindo com um deles a respeito da doutrina da transubstanciao. O prior
tomou um gole de vinho e escutou sem tomar parte.
         - Qual  o seu ponto de vista, padre Philip? - perguntou-lhe enfim um
deles. - Ainda no disse nada.
         Philip sorriu.
         - Questes teolgicas complicadas so os menos preocupantes dos
problemas, para mim.
         - Por qu?
         - Porque sero resolvidas na vida futura; at l podem ficar seguramente
guardadas numa prateleira.
         - Muito bem dito! - disse uma nova voz, e Philip levantou a cabea para
ver o arcebispo Toms de Canterbury.
         Tomou imediatamente conscincia de encontrar-se na presena de um
homem notvel. Toms era alto, magro e excepcionalmente bonito, de testa
larga, olhos brilhantes, pele clara e cabelo escuro. Tinha cerca de dez anos menos
que Philip, devendo estar em torno dos cinquenta ou cinquenta e um. A despeito
dos contratempos, tinha a expresso animada, cheia de vida. Era, e o prior viu
prontamente, um homem muito atraente; isso explicava em parte sua notvel
ascenso de um comeo humilde.
         Philip ajoelhou-se e beijou-lhe a mo.
         - Sinto-me to feliz por conhec-lo! - exclamou Toms. - Sempre desejei
visitar Kingsbridge. Ouvi falar muito do seu priorado e da maravilhosa catedral
nova.
         Philip ficou encantado e lisonjeado.
         - Vim v-lo porque tudo o que conseguimos foi colocado em perigo pelo
rei.
         - Quero saber de tudo agora mesmo - disse Toms. - Venha para o meu
quarto. - Ele se virou e saiu.
         Philip o seguiu, sentindo-se ao mesmo tempo satisfeito e apreensivo.
         Toms o levou para um quarto menor. Nele havia uma luxuosa cama de
madeira e couro coberta com finos lenis de linho e uma colcha bordada, mas
Philip viu tambm um colchozinho fino enrolado a um canto e recordou
histrias sobre Toms jamais usar as moblias luxuosas providas pelos seus
anfitries. Lembrando-se de sua cama confortvel em Kingsbridge, Philip sentiu
uma pontada de culpa ao pensar que ressonava confortavelmente enquanto o
primaz da Inglaterra dormia no cho.
         - Por falar em catedrais - disse o arcebispo -, o que achou da de Sens?
         - Maravilhosa - disse Philip. - Quem foi o mestre construtor?
         - William de Sens. Tenho esperana de lev-lo para Canterbury um dia.
Sente-se. Diga-me o que est acontecendo em Kingsbridge.
         Philip falou-lhe sobre o bispo Waleran e o arcediago Peter. Toms
pareceu profundamente interessado em tudo o que o prior dizia, e fez diversas
perguntas inteligentes.
         Assim como encanto, ele tinha crebro. Precisara de ambos, para se alar
a uma posio de onde poderia frustrar a vontade de um dos mais fortes reis que
a Inglaterra jamais tivera. Por baixo dos seus mantos de arcebispo, segundo o que
se dizia, Toms usava um cilcio; e, por baixo daquele cativante exterior, Philip
obrigou-se a lembrar, havia uma vontade de ferro.
         Quando o prior terminou sua histria, a expresso de Toms era grave.
         - No se pode deixar que isso acontea - disse.
         - Sem dvida - afirmou Philip. O tom firme do arcebispo era encorajador.
- Pode impedir que acontea?
         - S se eu for reintegrado em Canterbury.
         No era a resposta pela qual Philip esperara.
         - Mas no pode escrever ao papa agora?
         - Escreverei - disse Toms. - Hoje. O papa no reconhecer Peter como
o bispo de Kingsbridge, prometo-lhe. Mas no podemos impedi-lo de se instalar
no palcio do bispo. E no podemos designar outro homem.
         Philip ficou chocado e desmoralizado pela deciso da negativa de Toms.
Durante todo o trajeto at ali nutrira a esperana de que ele faria o que no
conseguira fazer, e surgiria com um modo de frustrar o esquema de Waleran.
Mas o brilhante Toms tambm ficou perplexo. Tudo o que podia oferecer era a
esperana de um dia ser reintegrado em Canterbury. Ento,  claro, teria poder
para vetar designaes episcopais.
         - H alguma esperana de que sua volta ocorra em breve? - perguntou
Philip, desalentado.
         - Alguma esperana, se voc for uma pessoa otimista - replicou Toms. -
O papa idealizou um tratado de paz que insiste em que eu e Henrique aceitemos.
Os termos so aceitveis para mim: o tratado me proporciona aquilo por que
estive lutando. Henrique diz que  aceitvel para ele. Insisti que demonstrasse sua
sinceridade dando-me o beijo da paz. Ele se recusou. - Enquanto falava, sua voz
sofreu mudanas.
         As variaes naturais da conversa desapareceram, e seu discurso se
transformou numa salmodia insistente. Toda a vivacidade desapareceu do seu
rosto, e sua expresso passou a ser a de um padre fazendo um sermo sobre
abnegao a uma comunidade desatenta. Philip viu em sua expresso a teimosia e
o orgulho que tinham sustentado sua luta por todos aqueles anos.
         - A recusa do beijo  sinal de que ele planeja me atrair de volta 
Inglaterra e depois renegar os termos do acordo.
         O prior assentiu. O beijo da paz, que fazia parte do ritual da missa, erao
smbolo da confiana, e nenhum contrato, desde um casamento at uma trgua,
era completo sem ele.
         - O que posso fazer? - perguntou, tanto para si prprio quanto para
Toms.
         - Volte para a Inglaterra e faa uma campanha por mim. Escreva cartas
para seus amigos priores e abades. Mande uma delegao de Kingsbridge ver
com o papa. Peticione ao rei. Faa sermes em sua famosa catedral, dizendo ao
povo do condado que seu mais importante clrigo foi desdenhado por Henrique.
         Philip assentiu. Porm, no ia fazer nada daquilo. Toms estava lhe
dizendo que se alinhasse com a oposio ao rei. O que poderia fazer algum bem
ao moral de Toms, mas de nada serviria para Kingsbridge.
         Teve uma idia melhor. Se Henrique e Toms estavam assim to perto de
uma soluo, no faltava muito para uni-los. Talvez, pensou esperanosamente,
houvesse algo que pudesse fazer. A idia excitou seu otimismo. Era uma tentativa
arriscada, mas no tinha nada a perder.
         Afinal, discutiam apenas por um beijo.

        Philip ficou chocado ao ver como o irmo envelhecera.
        O cabelo de Francis estava grisalho, havia bolsas escuras sob seus olhos,
e a pele do rosto parecia ressecada. No entanto, ele estava com sessenta anos de
idade, de modo que aquilo talvez no fosse espantoso. E seus olhos brilhavam
animadamente.
         O prior se deu conta do que o estava aborrecendo: sua prpria idade.
Como sempre, ver seu irmo o deixava consciente de quanto ele prprio devia
ter envelhecido.
         No se olhava num espelho h anos. Perguntou-se se teria bolsas sob os
olhos. Tocou no prprio rosto. Era difcil dizer.
         - Que tal  trabalhar com Henrique? - perguntou Philip, curioso para
saber como os reis eram na vida privada.
         - Melhor que Matilde - respondeu Francis. - Ela era mais inteligente, mas
muito tortuosa. Henrique  mais aberto. Voc sempre sabe o que ele est
pensando.
         Os dois irmos estavam sentados no claustro de um mosteiro em Bayeux,
onde Philip se encontrava hospedado. A corte do rei Henrique estava alojada nas
proximidades.
         Francis ainda trabalhava para ele, como fizera nos ltimos vinte anos.
Agora chefiava a chancelaria, a repartio onde eram redigidas todas as cartas e
decretos rgios. Era um cargo importante e poderoso.
         - Aberto? Henrique? - perguntou Philip. - O arcebispo Toms no pensa
assim.
         - Outro importante erro de julgamento da parte de Toms - disse Francis
sarcasticamente.
         Philip achou que o irmo no deveria desdenhar o arcebispo.
         - Toms  um grande homem - disse.
         - Toms quer ser o rei - retorquiu Francis.
         - E parece que Henrique quer ser o arcebispo - retrucou Philip.
         Os dois se encararam muito srios. Se j estavam tendo uma briga,
pensou Philip, no era surpresa que Henrique e Toms estivessem lutando to
ferozmente.
         - Bem - disse, sorrindo -, no vamos brigar por causa disso, de qualquer
modo.
         O rosto de Francis suavizou-se.
         - No, claro que no. Lembre-se, essa disputa tem sido a praga da minha
vida h seis anos. No posso me conservar to distanciado disso tudo quanto
voc.
         - Mas por que Henrique no quer aceitar o plano de paz do papa?
         - Ele aceitar - afirmou Francis. - Estamos a uma distncia mnima da
reconciliao. Mas Toms quer mais. Est insistindo no beijo da paz.
         - Mas se o rei fosse sincero, certamente no se incomodaria em dar o
beijo da paz.
         Francis ergueu o tom de voz.
        - No est no plano! - exclamou, exasperado.
        - Mas por que no d-lo? - quis saber Philip. Seu irmo suspirou.
        - Ele o faria, de bom grado. Mas fez um juramento em pblico,
afirmando que jamais daria um beijo de paz no arcebispo.
        - Muitos reis j quebraram sua palavra - lembrou o prior.
        - Reis fracos. Henrique no voltar atrs num juramento feito em
pblico.  o tipo de coisa que o torna diferente do lamentvel rei Estvo.
        - Ento a Igreja provavelmente no deveria tentar persuadi-lo a agir de
outra forma - concedeu Philip, relutante.
        - Se  assim, por que Toms insiste tanto com essa histria do beijo? -
redarguiu Francis, exasperado.
        - Porque no confia em Henrique. O que poderia impedir o rei de
descumprir o trato? O que Toms poderia fazer a esse respeito? Exilar-se mais
uma vez? Seus partidrios tm sido leais, mas esto cansados. O arcebispo no
vai poder passar por tudo isso de novo. Assim, para que ceda, vai ser preciso que
tenha slidas garantias.
        Francis balanou a cabea tristemente.
        - Agora, tornou-se uma questo de orgulho - disse. - Sei que Henrique
no tem inteno de trair Francis. Mas no ser compelido. Ele detesta se sentir
coagido.
        - O mesmo ocorre com Toms, creio. Pediu o beijo, como um smbolo, e
no quer desistir. - Sacudiu a cabea, exausto. Pensara que o irmo talvez pudesse
sugerir um modo de reunir os dois homens, mas a tarefa parecia impossvel.
        - A ironia de tudo  que Henrique teria toda a satisfao em beijar Toms
depois que estivessem reconciliados - disse Francis. - Ele s no aceita como
precondio.
        - Ele disse isso? - quis saber Philip.
        - Sim.
        - Mas isso muda tudo! - exclamou o prior, excitado. - O que foi
exatamente que ele disse?
        - Ele disse: "Beijarei sua boca, beijarei seus ps, o ouvirei rezar a missa...
depois que voltar". Eu prprio ouvi.
        - Vou contar para Toms.
        - Voc acha que ele poderia aceitar assim? - perguntou Francis
ansiosamente.
        - No sei. - O prior mal se atrevia a ter esperanas. - Parece uma
concesso muito pequena. Ele recebe o beijo, s que um pouco depois da
ocasio em que queria.
        - E, para Henrique, tambm se trata de uma concesso mnima - disse
Francis, cada vez mais excitado. - Ele d o beijo, mas voluntariamente, e no
coagido. Por Deus, pode ser que d certo!
        - Eles poderiam ter uma reconciliao em Canterbury. O acordo seria
ento anunciado antecipadamente, de modo que nenhum dos dois pudesse fazer
mudanas no ltimo minuto. Toms rezaria a missa e Henrique lhe daria o beijo,
ali na catedral. - E depois, pensou ele, Toms poderia bloquear os planos
malignos de Waleran.
        - Vou propor isso ao rei - disse Francis.
        - E eu a Toms.
        O sino do mosteiro soou. Os dois irmos se levantaram.
        - Seja persuasivo - disse Philip. - Se o plano der certo, Toms poder
retornar a Canterbury, e se ele voltar, Waleran Bigod estar liquidado.


         Eles se encontraram numa bela campina na margem de um rio na
fronteira entre a Normandia e o Reino de Frana, perto das cidades de Frteval e
Vievy-le-Raye. O rei Henrique j estava ali, com o seu squito, quando Toms
chegou com o arcebispo William de Sens. Philip, no grupo de Toms, localizou
seu irmo, Francis, com o rei, no lado mais distante do campo.
         Henrique e Toms tinham chegado a um acordo - em teoria.
         Ambos aceitaram o compromisso, pelo qual o beijo da paz seria dado
numa missa de reconciliao aps Becket ter retornado  Inglaterra. No entanto,
o trato no estaria firmado enquanto os dois no se encontrassem.
         Toms adiantou-se em seu cavalo, deixando para trs a escolta que o
acompanhara, e Henrique fez o mesmo, enquanto todos assistiam  cena com a
respirao contida.
         Eles conversaram por horas a fio.
         Ningum pde ouvir o que estava sendo dito, mas todos eram capazes de
adivinhar. Estavam falando sobre as ofensas de Henrique contra a Igreja, o modo
como os bispos ingleses tinham desobedecido Toms, as controversas
Constituies de Clarendon, o exlio do arcebispo, o papel do papa... A princpio
Philip teve medo de que fossem discutir amargamente e se separassem como
inimigos ainda piores. J haviam estado perto de um acordo antes, encontrando-
se daquele jeito, mas acontecera algo, um ponto qualquer ofendera o orgulho do
rei ou do arcebispo, e assim tinham trocado palavras speras e se afastado
furiosos, cada um culpando a intransigncia do outro.
         Mas, agora, quanto mais falavam, mais otimista o prior ficava. Se um dos
dois fosse ter um acesso de raiva e ir embora, certamente j teria ocorrido.
         A tarde quente de vero comeou a esfriar, e as sombras das rvores se
alongaram atravs do rio. A tenso estava insuportvel.
         Ento, finalmente aconteceu alguma coisa. Toms se moveu. Estaria indo
embora? No. Desmontava. O que significava aquilo? Philip observava, sem
respirar. Becket saltou de seu cavalo e, aproximando-se de Henrique, ajoelhou-se
a seus ps.
        O rei desmontou e abraou Toms. Os squitos de ambos os lados
deram vivas e atiraram os chapus para o ar.
        Philip sentiu os olhos marejados de lgrimas. O conflito fora resolvido -
atravs da razo e da boa vontade. Era assim que as coisas deviam ser.
        Talvez fosse um pressgio para o futuro.

         Era Natal, e o rei estava furioso.
         William Hamleigh sentia-se assustado. Conhecera em toda a sua vida
apenas uma pessoa com o temperamento como o do rei Henrique, e fora sua
me. Ele era quase to aterrorizante quanto ela. De qualquer modo era um
homem que intimidava, com seus ombros largos, trax imenso e cabea grande;
quando se enfurecia, porm, seus olhos azul-acinzentados ficavam injetados, o
rosto sardento enrubescia e sua costumeira inquietude se transformava nos
movimentos furiosos de um urso aprisionado.
         Encontravam-se em Bur-le-Roi, uma cabana de caa de Henrique, em um
parque prximo da costa da Normandia. Henrique deveria se sentir feliz.
Gostava de caar mais do que qualquer outra coisa no mundo, e aquele era um
dos seus lugares favoritos. Mas estava furioso. E a razo era Toms, o arcebispo
de Canterbury.
         - Toms, Toms, Toms!  tudo o que ouo de vocs, seus prelados
pestilentos! Toms est fazendo isto, Toms est fazendo aquilo. Toms insultou
voc. Toms foi injusto com voc. Estou farto de Toms!
         William examinou furtivamente o rosto dos condes, bispos e outros
dignitrios sentados em torno da mesa do jantar de Natal no grande salo. A
maioria aparentava nervosismo. S um tinha uma expresso de contentamento:
Waleran Bigod.
         O bispo predissera que Henrique muito em breve brigaria com Becket de
novo. O arcebispo tinha ganho demais, segundo ele; o plano de paz do papa
forara o rei a ceder muito, e haveria mais brigas quando Toms tentasse cobrar
as promessas reais. Mas Waleran no se limitara simplesmente a ficar sentado e
esperar para ver o que aconteceria: trabalhara duro para fazer com que sua
predio se realizasse. com o auxlio de Hamleigh, Waleran constantemente trazia
a Henrique reclamaes contra o que Toms vinha fazendo desde que retornara 
Inglaterra: percorrendo o interior do pas com um exrcito de cavaleiros,
visitando seus amigos e imaginando um sem-nmero de esquemas traioeiros,
assim tambm como punindo clrigos que tinham apoiado o rei durante o seu
exlio. Waleran enfeitava os relatos antes de pass-los a Henrique, mas havia
alguma verdade no que dizia. S que estava atiando as chamas de um fogo que
j ardia intensamente.
         Todos os que haviam abandonado Toms durante os seis anos da briga, e
agora viviam com medo da retribuio, estavam dispostos a vilipendi-lo perante
o rei. Assim Waleran parecia feliz enquanto Henrique explodia de dio. E tinha
bons motivos. Dificilmente algum sofrera mais que ele desde o retorno de
Becket. O arcebispo se recusara a confirmar sua designao como bispo de
Lincoln. Alm do mais, aparecera com seu prprio candidato ao cargo de bispo
de Kingsbridge: o prior Philip. Se Toms levasse vantagem, Bigod perderia
Kingsbridge e no ganharia Lincoln. Estaria arruinado.
        A posio de William sofreria tambm. Com Aliena atuando como
conde, Waleran fora, Philip como bispo e, sem dvida, Jonathan como o prior de
Kingsbridge, Hamleigh ficaria isolado, sem um nico aliado no condado. Por isso
se unira a Waleran na corte real, para colaborar no enfraquecimento do frgil
acordo entre o rei Henrique e o arcebispo Toms.
        Ningum comera muito dos cisnes, gansos, paves e patos que estavam
em cima da mesa. William, que normalmente comia e bebia com voracidade,
mordiscava po e bebericava posset, uma bebida feita com leite, cerveja, ovos e
noz-moscada, para acalmar seu estmago bilioso.
        Henrique tinha sido lanado ao seu atual acesso de fria pela notcia de
que Toms mandara uma delegao a Tours - onde se encontrava o papa
Alexandre - para se queixar de que Henrique no cumprira sua parte no tratado.
        - No haver paz enquanto voc no fizer com que Toms seja
executado - disse Enjuger de Bohun, um dos mais velhos conselheiros do rei.
        William ficou chocado.
        -  isso mesmo! - urrou Henrique.
        Ficou claro para o xerife que o rei tomara aquela observao como uma
expresso de pessimismo, e no como uma proposta sria. No entanto, teve a
impresso de que Enjuger no dissera aquilo levianamente.
        - Quando eu estava em Roma - disse William Malvoisin, como quem no
estava diretamente interessado -, no caminho de volta de Jerusalm, ouvi falar de
um papa que fora executado, por insolncia insuportvel. Droga, no consigo me
lembrar do nome dele agora.
        - Parece que no h outra coisa a ser feita com Toms - disse o arcebispo
de York. - Enquanto ele estiver vivo fomentar a sedio, no pas e no exterior.
        Para William, aquelas trs afirmativas pareceram orquestradas. Ele olhou
para Waleran. Justo naquele momento o bispo interveio.
        - Certamente no adianta apelar para o senso de decncia de Toms...
        - Fiquem quietos, vocs todos! - trovejou o rei. - J ouvi o bastante! Tudo
o que vocs fazem  se queixar. Quando  que vo descolar o traseiro das
cadeiras e fazer qualquer coisa a respeito disso? - Tomou um gole de cerveja do
seu clice. - Esta cerveja est com gosto de urina! - gritou furiosamente.
Empurrou para trs sua cadeira e, quando todos se apressaram a se levantar,
ergueu-se e saiu pisando forte.
         - Dificilmente a mensagem poderia ser mais clara, milorde - disse Bigod,
no ansioso silncio que se seguiu. - Devemos nos levantar de nossos lugares e
fazer alguma coisa a respeito de Toms.
         - Penso que uma delegao nossa deveria procurar Toms e acertar as
coisas com ele - disse William Mandeville, conde de Essex.
         - E o que voc far se ele se recusar a ouvir a voz da razo? - indagou
Waleran.
         - Acho que ento deveramos prend-lo em nome do rei.
         Diversas pessoas comearam a falar ao mesmo tempo. A assemblia
fragmentou-se em grupos menores. Os que cercavam o conde de Essex
comearam a planejar a comitiva que iria a Canterbury. William viu Waleran
falando com dois ou trs cavaleiros mais jovens. Ele atraiu sua ateno e
chamou-o com um gesto.
         - A delegao de William Mandeville - disse Waleran - no produzir
resultado algum. Toms pode lidar com eles tendo uma das mos amarradas nas
costas.
         Reginald Fitzur se dirigiu a William um olhar duro.
         - Alguns de ns pensam que chegou o tempo de medidas mais severas -
disse ele.
         - O que voc quer dizer com isso?
         - Voc ouviu o que Enjuger disse.
         - Execuo - explodiu Richard le Bret, um rapaz de dezoito anos.
         A palavra gelou o corao de William. Era srio, ento.
         Olhou para Waleran:
         - Voc pedir a aprovao do rei?
         Foi Reginald quem respondeu:
         - Impossvel. Ele no pode sancionar uma coisa dessas com antecedncia.
- E Reginald sorriu maldosamente. - Mas poder recompensar seus servos fiis
depois.
         - Ento, William, est conosco? - perguntou o jovem Richard.
         - No tenho certeza - respondeu Hamleigh. Ele se sentia ao mesmo
tempo excitado e assustado. - Terei que pensar nisso.
         - No h tempo para pensar - retrucou Reginald. - Temos que chegar a
Canterbury antes de William Mandeville, caso contrrio ele e seu grupo se
intrometero no nosso caminho.
         Waleran dirigiu-se ao xerife.
         - Eles precisam de um homem mais velho com eles, para conduzi-los e
planejar a operao.
         Hamleigh estava desesperadamente ansioso para concordar. Aquilo
resolveria todos os seus problemas, e com certeza o rei ainda lhe daria um
condado como recompensa.
         - Mas matar um arcebispo seria um pecado terrvel! - exclamou.
         - No se preocupe - disse Waleran. - Eu lhe darei a absolvio.
         A gravidade do que estavam por fazer perseguiu William como uma
nuvem negra sobre sua cabea, enquanto o grupo de assassinos viajava at a
Inglaterra. No podia pensar em mais nada; no podia comer nem dormir; agia
de modo confuso e falava distraidamente. Quando o navio atracou em Dover, ele
estava pronto para abandonar o projeto.
         Chegaram ao Castelo de Saltwood, em Kent, trs dias depois do Natal,
numa noite de segunda-feira. O castelo pertencia ao arcebispo de Canterbury,
mas durante o exlio fora ocupado por Ranulf de Broc, que se recusava a
devolv-lo. Na verdade, uma das queixas de Toms ao papa era de que o rei
Henrique deixara de providenciar a devoluo da propriedade.
         Ranulf deu novo nimo a William.
         Saqueara Kent na ausncia do arcebispo, aproveitando-se da falta de
autoridade, do modo como William fizera no passado, e estava disposto a
qualquer coisa para reter a liberdade de fazer o que bem entendesse. Mostrou-se
entusiasmado com o plano do assassinato e gostou da chance de participar dele,
comeando imediatamente a discutir os detalhes com prazer. Sua abordagem
despreocupada dispersou o nevoeiro de pavor supersticioso que toldava a viso
de William. Este comeou mais uma vez a imaginar como seria se fosse conde
novamente, sem ningum que lhe dissesse o que fazer.
         Ficaram acordados at tarde da noite, planejando a operao. Ranulf
desenhou uma planta do adro da catedral e do palcio do arcebispo, riscando na
mesa com uma faca. Os prdios monsticos se situavam na parte norte da igreja,
o que no era usual - ficavam normalmente ao sul, como em Kingsbridge. O
palcio do arcebispo era ligado ao canto noroeste da igreja. A entrada se fazia
pelo ptio da cozinha. Enquanto trabalhavam no plano, Ranulf mandou
mensageiros s suas guarnies de Dover, Rochester e Bletchingley, com ordens
para os cavaleiros o encontrarem na estrada para Canterbury pela manh. J era
de madrugada quando os conspiradores foram para a cama, tentando salvar uma
ou duas horas de sono.
         As pernas de William ardiam como fogo aps a longa viagem. Esperava
que aquela fosse a ltima operao militar que lhe coubesse fazer na vida. Logo
teria cinquenta e cinco anos, se seus clculos estivessem corretos, velho demais
para esse tipo de coisa.
         A despeito do cansao, e da animadora influncia de Ranulf, no foi
capaz de dormir. A idia de matar um arcebispo era por demais assustadora,
mesmo que j houvesse sido absolvido do pecado. Teve medo de se ver s voltas
com pesadelos, se dormisse.
         Tinham imaginado um bom plano de ataque. Sairia errado, claro; havia
sempre alguma coisa que saa errada. O importante era que o plano fosse flexvel
o bastante para atender aos acontecimentos inesperados. Mas, fosse o que fosse
que acontecesse, no seria muito difcil para um grupo de combatentes
profissionais sobrepujar um punhado de monges efeminados.
        A claridade difusa de uma cinzenta manh de inverno infiltrou-se no
quarto pelas seteiras. Aps alguns momentos, William levantou-se. Tentou orar,
mas no conseguiu.
        Os outros acordaram cedo, tambm. Fizeram o desjejum no salo, todos
juntos. Alm de William e Ranulf, estavam presentes Reginald Fitzurse, que o
xerife designara lder do grupo de ataque; Richard le Bret, o mais jovem do
grupo; William Tracy, o mais velho; e Hugh Morville, o de mais alta graduao.
Colocaram as armaduras e saram, montados nos cavalos de Ranulf. Era um dia
demasiadamente frio, e o cu estava escuro, com nuvens cinzentas baixas, como
se fosse nevar. Seguiram pela estrada velha, chamada Stone Street.
        Com duas horas e meia de viagem diversos cavaleiros incorporaram-se ao
grupo. O ponto de encontro principal era a Abadia de Saint Augustine, fora da
cidade. O abade era um velho inimigo de Toms, Ranulf assegurara a William,
mas mesmo assim este decidira dizer que iam prender o arcebispo, e no mat-lo.
Tratava-se de uma farsa que seria mantida at o ltimo momento; ningum
deveria saber o verdadeiro objetivo da operao, exceto o prprio William,
Ranulf e os quatro cavaleiros vindos da Frana. Chegaram a Saint Augustine ao
meio-dia. Os homens convocados por Ranulf os aguardavam. O abade lhes
serviu o almoo. Seu vinho era muito bom, e todos beberam bastante. Ranulf
instruiu os homens de armas de que cercassem o adro da catedral e impedissem
qualquer pessoa de fugir.
        Hamleigh no parava de tremer, mesmo diante da lareira na casa de
hspedes. Seria uma operao simples, mas a penalidade do fracasso
provavelmente seria a morte.
        O rei encontraria um modo de justificar o assassinato de Toms, mas
nunca seria capaz de apoiar uma tentativa; teria que negar qualquer conhecimento
e enforcar os criminosos. William enforcara muita gente, como xerife de Shiring,
mas a idia do prprio corpo balanando na ponta de uma corda o fazia tremer.
        Concentrou os pensamentos no condado que poderia esperar como
recompensa pelo sucesso. Seria bom ser conde de novo na sua idade avanada,
respeitado, temido e obedecido sem questionamentos. Podia ser que Richard, o
irmo de Aliena, morresse na Terra Santa e o rei Henrique devolvesse a William
suas antigas propriedades. Esse pensamento o aqueceu mais que o fogo.
        Quando deixaram a abadia, eram um pequeno exrcito. Mesmo assim,
no tiveram problemas para chegar a Canterbury. Ranulf controlara aquela parte
do pas por seis anos e ainda no abrira mo de sua autoridade. Tinha mais poder
que Toms, o que, sem dvida, era o motivo pelo qual este se queixara to
amargamente ao papa. Assim que estavam no interior, os homens de armas
espalharam-se em torno do adro da catedral e bloquearam todas as sadas.
        A operao comeara. At aquele momento fora teoricamente possvel
cancelar tudo, sem que nenhum mal chegasse a ser causado; mas agora, percebeu
William com um calafrio de medo, a sorte estava lanada.
        Deixou Ranulf encarregado do bloqueio, conservando um pequeno
grupo de cavaleiros e soldados consigo. Instalou a maior parte dos cavaleiros
numa casa oposta ao porto principal do adro da catedral. Depois atravessou o
porto com o restante. Reginald Fitzurse e os outros trs conspiradores entraram
a cavalo no ptio da cozinha como se fossem visitantes oficiais, e no intrusos
armados. Mas William entrou correndo no corpo da guarda e dominou o porteiro
aterrorizado com a ponta da espada.
        O ataque tivera incio.
        Com o corao na boca, ordenou que um homem de armas amarrasse o
porteiro, depois chamou o resto dos homens para dentro do corpo da guarda e
fechou o porto. Agora ningum podia entrar ou sair. Ele assumira o controle
armado de um mosteiro.
        William seguiu os quatro conspiradores pelo ptio da cozinha. Havia
estbulos no lado norte do ptio, mas os quatro tinham amarrado seus cavalos
numa amoreira no meio do local. Tiraram o cinturo das espadas e o elmo;
precisavam manter a aparncia de uma visita pacfica por um pouco mais de
tempo.
        William se encontrou com eles e largou suas armas embaixo da rvore.
Reginald dirigiu-lhe um olhar indagador.
        - Est tudo bem - disse o xerife. - O lugar est isolado.
        Atravessaram o ptio na direo do palcio e entraram na varanda.
William determinou a um cavaleiro local, chamado Richard, que ficasse de guarda
na varanda. Os outros entraram no grande salo.
        Os servos do palcio estavam sentados para jantar. Isso significava que j
tinham servido Toms e os padres e monges que o acompanhavam. Um dos
empregados se levantou.
        - Somos os homens do rei - disse Reginald.
        O salo ficou em silncio, mas o servo que se levantara afirmou:
        - Sejam bem-vindos, milordes. Sou o encarregado do salo, William
Fitzneal. Entrem, por favor. Querem algo para comer?
        Ele era notavelmente amistoso, pensou William, considerando que seu
senhor estava em disputa com o rei. Provavelmente podia ser subornado..
        - No, obrigado - respondeu Reginald.
        - Um copo de vinho, aps sua viagem?
        - Temos uma mensagem do rei para o seu amo - disse Reginald,
impaciente. - Por favor, anuncie-nos agora.
        - Muito bem. - O servo fez uma reverncia. Estavam desarmados, de
modo que no tinha razo para recusar-lhes a entrada. Deixou a mesa e
caminhou at a extremidade mais distante do salo.
         Hamleigh e os quatro cavaleiros o seguiram. Foram acompanhados pelo
olhar dos silenciosos empregados. William estava tremendo, como sempre
acontecia antes de uma batalha, e desejou que a briga comeasse logo, pois sabia
que assim se sentiria bem.
         Todos subiram a escada que levava ao andar de cima. Alcanaram uma
espaosa cmara de atendimento com bancos encostados nas paredes laterais.
Havia um grande trono no meio de uma parede. Diversos padres de hbito negro
e monges estavam sentados nos bancos, mas o trono se encontrava vazio.
         O servo cruzou o aposento at uma porta aberta.
         - Mensageiros do rei, milorde arcebispo - disse, em voz alta.
         No houve resposta audvel, mas o arcebispo devia ter assentido, pois o
servo acenou para que entrassem.
         Os monges e padres ficaram observando com os olhos arregalados os
cavaleiros atravessarem a sala e entrarem na cmara interior.
         Toms Becket estava sentado na beirada da cama, envergando seu traje
de arcebispo. Havia apenas outra pessoa no quarto: um monge, sentado aos ps
de Toms, ouvindo.
         William atraiu a ateno do monge, e levou um susto ao reconhecer o
prior Philip de Kingsbridge. O que estaria fazendo ali? Tentando obter favores,
sem dvida. Philip fora eleito bispo de Kingsbridge, mas ainda no tinha sido
confirmado. Agora, pensou William com selvagem jbilo, nunca mais seria.
         Philip ficou igualmente espantado ao ver William. No entanto, Toms
continuou falando, fingindo no notar a presena dos cavaleiros. Tratava-se de
uma descortesia calculada, pensou Hamleigh. Os cavaleiros se sentaram em
banquinhos baixos dispostos em torno da cama. O xerife quisera que no
tivessem se sentado: aquilo fazia a visita parecer social, e ele achava que, de
alguma maneira, haviam perdido o mpeto. Talvez fosse exatamente isso que
Toms quisesse.
         Finalmente o arcebispo olhou para eles. No se levantou para
cumpriment-los. Conhecia todos, exceto William, e seus olhos vieram a
descansar em Hugh Morville, o de mais alta graduao.
         - Sim, Hugh - disse.
         William encarregara Reginald daquela parte da operao, de modo que foi
ele, e no Hugh, quem falou com o arcebispo.
         - Estamos aqui da parte do rei. Quer ouvir a mensagem dele em pblico
ou em particular?
         Toms olhou irritadamente de Reginald para Hugh e deste novamente
para Reginald, como se quisesse demonstrar seu ressentimento por tratar com
um membro jnior da delegao.
         - Deixe-me, Philip - pediu, suspirando.
         O religioso levantou-se e passou pelos cavaleiros, parecendo preocupado.
         - Mas no feche a porta - exclamou Toms, s suas costas.
         - Em nome do rei - comeou Reginald, depois da sada de Philip -, exijo
que v a Winchester para responder a acusaes contra a sua pessoa.
         William teve a satisfao de ver Toms empalidecer.
         - Ento  isso - disse o arcebispo serenamente. Ele levantou a cabea. O
camareiro estava  porta - Mande que todos entrem - disse-lhe Becket. - Quero
que ouam isso.
         Os monges e os padres entraram em fila, o prior Philip no meio deles.
Alguns se sentaram e outros ficaram encostados s paredes. Hamleigh no tinha
objees: pelo contrrio, quanto mais pessoas presentes, melhor, pois o objetivo
daquele encontro desarmado era estabelecer perante testemunhas que Toms
tinha se recusado a cumprir uma ordem real.
         Quando estavam todos acomodados, Becket virou-se para Reginald.
         - De novo - disse.
         - Em nome do rei, exijo que v a Winchester para responder a acusaes
contra a sua pessoa - repetiu o cavaleiro.
         - Que acusao? - indagou Toms serenamente.
         - Traio!
         O arcebispo sacudiu a cabea.
         - No serei levado a julgamento por Henrique - disse ele, calmo. - Deus
sabe que no cometi crime algum.
         - Excomungou serventes reais.
         - No fui eu, e sim o papa, quem os excomungou.
         - Suspendeu outros bispos.
         - Ofereci-me para reinstal-los em condies misericordiosas. Eles se
recusaram. Minha oferta permanece de p.
         - Voc ameaou a sucesso do trono, depreciando a coroao do filho do
rei.
         - No fiz nada disso. O arcebispo de York no tem o direito de coroar
ningum, e o papa o repreendeu pela sua desfaatez. Mas ningum sugeriu que a
coroao no fosse vlida.
         - Uma coisa decorre da outra, seu maldito idiota! - exclamou Reginald
exasperadamente.
         - Basta! - exclamou Toms.
         - "Basta" dizemos ns, Toms Becket! - gritou Reginald. - Pelas chagas de
Cristo, j tivemos o bastante de voc, de sua arrogncia, dos problemas que cria e
de sua traio!
         Toms levantou-se.
         - Os castelos do arcebispo esto ocupados por homens do rei - gritou ele.
- As rendas do arcebispo tm sido recebidas pelo rei. O arcebispo recebeu ordens
para no deixar a cidade de Canterbury. E voc ainda me diz que esto fartos?
        Um dos padres tentou intervir, dizendo a Toms:
        - Milorde, vamos discutir o assunto em particular...
        - Com que finalidade? - retorquiu Toms. - Eles exigem algo que no
devo fazer e que no farei.
        A gritaria atrara a todos no palcio, e William viu que a porta do quarto
do arcebispo estava cheia de ouvintes de olhos arregalados. A discusso j tinha
ido longe demais: agora ningum podia negar que Toms se recusara a cumprir
uma ordem real. Hameigh fez um sinal para Reginald. Foi discreto, mas o prior
Philip percebeu-o e ergueu as sobrancelhas em surpresa, percebendo que o lder
do grupo no era Reginald, e sim William.
        - Arcebispo Toms, no se encontra mais sob a proteo e a paz do rei -
disse formalmente Reginald. Depois virou-se e se dirigiu aos assistentes: - Saiam
deste cmodo.
        Ningum se mexeu.
        - Vocs, monges - disse Reginald -, ordeno a vocs, em nome do rei, que
guardem o arcebispo e o impeam de fugir.
        Eles no fariam tal coisa, claro. Nem tampouco William queria que
fizessem: ao contrrio, desejava que Becket tentasse fugir, pois tornaria mais fcil
mat-lo.
        Reginald virou-se para William Fitzneal, que tecnicamente era o guarda-
costas do arcebispo.
        - Eu o prendo - disse. Agarrou o brao do homem e marchou com ele
para fora do aposento. No houve resistncia.
        William e os outros cavaleiros os seguiram.
        Todos desceram a escada e atravessaram o salo. O cavaleiro local,
Richard, ainda estava de guarda na varanda. William perguntou-se o que fazer
com o servo.
        - Voc est conosco?
        O homem estava aterrorizado.
        - Sim, se vocs esto com o rei!
        Estava assustado demais para representar perigo, qualquer que fosse o
seu lado, decidiu William.
        - Fique de olho nele - disse a Richard. - No deixe ningum sair do
prdio. Mantenha a porta fechada.
        Juntamente com os demais, correu at a amoreira no meio do ptio.
Apressadamente, comearam a pr os elmos e a cingir suas espadas. Vai ser
agora, pensou William, temerosamente; vamos voltar l dentro e matar o
arcebispo de Canterbury. Oh, meu Deus! Fazia muito tempo que William usara
um elmo pela ltima vez, e a cota de malha que lhe protegia o pescoo e os
ombros o atrapalhava. Amaldioou os dedos desajeitados. No tinha tempo para
se atrapalhar com nada agora. Percebeu um garoto olhando para ele de boca
aberta e gritou:
        - Ei! Voc! Qual  o seu nome?
        O garoto olhou para trs na direo da cozinha, incerto quanto a atender
a William ou fugir.
        - Robert, milorde - disse, aps um momento. - Sou chamado de Robert
Flauta.
        - Venha c, Robert Flauta, e ajude-me com isto.
        O menino hesitou de novo.
        A pacincia de William se esgotou.
        - Venha c, ou juro pelo sangue de Cristo que cortarei fora sua mo com
a minha espada!
        Relutantemente, o garoto adiantou-se. Hamleigh mostrou-lhe como
segurar a cota de malha enquanto punha o elmo. Finalmente conseguiu, e o
garoto fugiu a toda a velocidade.
        Haveria de contar aquilo a seus netos, foi o pensamento que passou pela
cabea de William.
        O elmo tinha um barbote, uma abertura para a boca que podia ser
fechada e fixada com uma presilha. Os outros j tinham fechado os seus, de
modo que traziam o rosto oculto e no mais podiam ser reconhecidos. Hamleigh
deixou o seu elmo aberto por um momento mais. Cada homem tinha uma espada
numa das mos e um machado na outra.
        - Prontos? - perguntou William. Todos assentiram com a cabea.
        Haveria pouca conversa de agora em diante. No eram necessrias mais
ordens, no havia mais decises para serem tomadas. Iam simplesmente voltar l
dentro e matar Toms.
        Hamleigh enfiou dois dedos na boca e deu um assobio fino.
        Depois fechou o barbote do elmo.
        Um homem de armas veio correndo do corpo da guarda e escancarou o
porto principal.
        Os cavaleiros que William deixara na casa em frente saram e se lanaram
no ptio, gritando, como lhes tinha sido ordenado:
        - Homens do rei! Homens do rei!
        William correu de volta para o palcio.
        O cavaleiro Richard e o servo William Fitzneal abriram a porta da
varanda para ele.
        Quando entrou, dois dos empregados do arcebispo aproveitaram-se do
fato de o cavaleiro e o servo estarem distrados e bateram a porta entre a varanda
e o salo.
        William atirou seu peso contra ela, mas era tarde demais: eles tinham
passado uma tranca. Ele praguejou. Um obstculo, e to cedo! Os cavaleiros
comearam a atacar a porta com seus machados, mas fizeram pouco progresso:
ela fora construda para aguentar ataques. William sentiu que comeava a perder
o controle. Lutando contra o incio de um pnico, correu para fora da varanda e
procurou outra porta. Reginald o seguiu.
        No havia nada naquele lado do prdio. Contornaram a fachada oeste do
palcio, passaram pela cozinha, que era separada, e entraram no pomar do lado
sul. William grunhiu de satisfao: ali na parede sul do palcio havia uma
escadaria que dava no segundo andar. Parecia ser uma entrada particular para os
aposentos do arcebispo.
        O sentimento de pnico desapareceu.
        William e Reginald correram at a base da escadaria. Estava danificada na
primeira metade. Havia algumas ferramentas por perto e uma escada mvel,
como se os degraus estivessem sendo consertados. Reginald encontrou a escada
mvel na parte lateral da escadaria e subiu, desviando-se dos degraus quebrados.
Atingiu o topo. Havia uma porta que dava num balco coberto e envidraado, de
pequeno porte. William observou-o experimentando a porta. Estava trancada. Ao
seu lado havia uma janela fechada, que Reginald arrombou com um golpe de
machado. Passou a mo para o lado de dentro, tateou, e por fim abriu a porta e
entrou.
        William comeou a galgar a escada.

        Philip ficou com medo no instante em que viu William Hamleigh, mas os
padres e monges do squito de Toms a princpio se mostraram complacentes.
Depois, quando ouviram as batidas na porta do salo, se assustaram, e diversos
deles propuseram que se refugiassem na catedral.
        Becket zombou deles.
        - Refgio? - perguntou. - De qu? Daqueles cavaleiros? Um arcebispo
no pode fugir de uma meia dzia de cabeas quentes.
        Philip achou que ele tinha razo, at certo ponto: o ttulo de arcebispo era
sem sentido se se podia ser amedrontado por cavaleiros. O homem de Deus,
seguro no conhecimento de que seus pecados sero perdoados, considera a
morte como uma feliz transferncia para um lugar melhor, e no tem medo de
espadas. No entanto, nem mesmo um arcebispo deve ser descuidado da prpria
segurana ao ponto de facilitar um ataque. Alm do mais, Philip conhecia muito
bem, por experincia prpria, a perversidade e a brutalidade de William
Hamleigh. Assim, quando ouviram o barulho do arrombamento do balco
interno, decidiu assumir a liderana.
        Ele podia ver, atravs das janelas, que o palcio estava cercado por
cavaleiros. A viso deles o assustou ainda mais. Claro que aquele era um ataque
cuidadosamente planejado, e os envolvidos nele estavam preparados para
cometer violncias. Fechou depressa a porta do quarto e passou a tranca. Os
outros o observaram, contentes por terem algum tomando as providncias
decisivas. O arcebispo Toms continuou a exibir um ar escarninho, mas no
tentou deter Philip.
         O prior parou junto  porta e ouviu. Percebeu que um homem entrava
pelo balco na cmara de audincia. Perguntou-se quo forte seria a porta do
quarto. O homem, contudo, no atacou a porta, mas cruzou a sala de audincias
e comeou a descer a escada. Philip adivinhou que iria abrir a porta do salo pelo
lado de dentro e deixar o resto dos cavaleiros entrar.
         Aquilo deu a Toms uns poucos momentos de trgua.
         Havia outra porta no canto oposto do quarto, parcialmente escondida
pela cama. Philip apontou para ela e perguntou, nervoso:
         - Onde vai dar aquela porta?
         - No claustro - respondeu algum. - Mas est trancada. Philip cruzou o
quarto e experimentou a porta. Estava trancada mesmo.
         - Tem uma chave? - perguntou a Toms, acrescentando logo, como se
tivesse pensado melhor: - Milorde arcebispo.
         Toms sacudiu a cabea.
         - Essa passagem nunca foi usada, que eu me lembre - disse, com uma
calma de dar raiva.
         A porta no parecia muito slida, mas Philip estava com sessenta e trs
anos e fora bruta nunca fora o seu ramo. Recuou e deu um pontap. Machucou-
se. A porta sacudiu, fragilmente. O prior cerrou os dentes e chutou com mais
fora. Ela se abriu.
         Philip olhou para Toms. O arcebispo ainda parecia relutar em fugir.
Talvez no tivesse se dado conta, como acontecera com o prior, de que o
nmero de cavaleiros e a natureza bem organizada da operao indicavam uma
inteno mortalmente sria de lhe causar mal. Mas Philip intua que seria intil
tentar fazer com que Becket fugisse, assustando-o. Por isso disse:
         - Est na hora das vsperas. No devemos deixar um bando de cabeas
quentes interromper a rotina do culto.
         Toms sorriu, vendo que seu prprio argumento fora usado contra ele.
         - Muito bem - disse, levantando-se.
         O prior foi na frente, aliviado por ter feito o arcebispo andar, mas com
medo de que este no andasse depressa o bastante. A passagem dava num longo
lance de degraus que desciam. No havia nenhuma luz, exceto a que vinha do
quarto de dormir de Toms. Ao final da passagem havia outra porta. Philip lhe
dispensou o mesmo tratamento dado  primeira porta, mas esta era mais forte e
no cedeu. Ps-se a bater nela, gritando:
         - Socorro! Abram a porta! Depressa, depressa! - O prprio Philip
percebeu o pnico em sua voz e fez um esforo para se acalmar, mas seu corao
estava disparado e ele sabia que os cavaleiros de William deviam estar bastante
prximos.
         Os outros se juntaram a ele. O prior continuou a bater na porta e a gritar.
Ouviu Toms dizer:
         - Dignidade, Philip, por favor. - Entretanto, no deu ateno. O que
queria era preservar a dignidade do arcebispo - a sua prpria no tinha
importncia.
         Antes que Becket pudesse protestar de novo, ouviu-se o barulho de uma
tranca sendo levantada e de uma chave girando na fechadura, e a porta foi aberta.
Philip gemeu, aliviado. Deu com dois assustados despenseiros.
         - Eu no sabia que esta porta dava passagem para algum lugar - disse um
deles.
         O prior passou pelos dois impacientemente. Viu-se nos depsitos da
despensa. Desviou-se dos barris e sacos para atingir outra porta, e ao atravess-la
chegou ao ar livre.
         Estava ficando escuro. Ele se encontrava no passadio sul do claustro.
Na outra ponta viu, para seu imenso alvio, a porta que dava no transepto norte
da Catedral de Canterbury.
         Podiam se considerar praticamente a salvo.
         Precisava pr Toms dentro da catedral antes que William e seus
cavaleiros pudessem peg-los. O resto do grupo saiu de dentro da despensa.
         - Para dentro da igreja, depressa! - disse o prior.
         - No, Philip - disse o arcebispo. - Depressa no. Entraremos na minha
catedral com dignidade.
         - Naturalmente, milorde - concordou o prior, embora tivesse mpetos de
gritar. Era capaz de ouvir o barulho assustador de passos pesados na passagem
h tantos anos sem uso: os cavaleiros tinham invadido o quarto e encontrado a
passagem. Sabia que a melhor proteo de Toms era sua dignidade, mas no
fazia mal afastar-se do perigo.
         - Onde est a cruz do arcebispo? - quis saber Becket. - No posso entrar
na igreja sem minha cruz.
         Philip gemeu de desespero.
         - Eu a trouxe. Est aqui - disse um dos padres.
         - Carregue-a diante de mim do modo usual, por favor - pediu Toms.
         O padre a ergueu e foi caminhando com pressa contida na direo da
porta da igreja.
         O arcebispo o seguiu.
         O squito o precedeu na entrada da catedral, conforme exigia a etiqueta.
Philip foi o ltimo e segurou a porta para ele. Justamente no momento em que
Toms entrava, dois cavaleiros irromperam da despensa e correram pelo
passadio sul.
         Philip fechou a porta do transepto. Havia uma tranca num buraco na
parede ao lado do umbral. Philip agarrou-a e passou-a. Depois virou-se,
suspirando aliviado, e encostou-se  porta.
         Becket estava atravessando o estreito transepto na direo dos degraus
que davam no corredor norte do coro, mas quando ouviu o barulho da tranca
sendo colocada, parou de repente e virou-se.
         - No, Philip - disse.
         O corao do prior confrangeu-se.
         - Milorde arcebispo...
         - Isto  uma igreja, no um castelo. Destranque a porta.
         A porta sacudiu violentamente, quando os cavaleiros tentaram abri-la.
         - Receio que queiram mat-lo! - disse Philip.
         - Ento provavelmente tero xito, quer voc ponha a tranca ou no.
Sabe quantas outras portas h nesta igreja? Abra-a.
         Ouviu-se uma srie de batidas que davam a impresso de os cavaleiros
estarem brandindo machados.
         - Voc pode se esconder - disse o prior desesperadamente. - H dzias de
lugares... a entrada para a cripta  logo ali... - est ficando escuro.
         - Esconder-me, Philip? Na minha prpria igreja? Voc se esconderia?
         O prior encarou Toms por um longo momento.
         - No, eu no me esconderia - disse por fim.
         - Abra a porta.
         Com o corao pesado, Philip empurrou a tranca de volta para o seu
lugar na parede.
         Os cavaleiros irromperam igreja adentro. Eram cinco. Tinham o rosto
escondido atrs do elmo. Carregavam espadas e machados. Pareciam emissrios
do inferno.
         Philip sabia que no devia sentir medo, mas as lminas aguadas de suas
armas o faziam estremecer de pavor.
         - Onde est Toms Becket, o traidor do rei e do reino? - gritou um deles.
         - Onde est o traidor? Onde est o arcebispo? - berraram os outros.
         J escurecera bastante, e a grande igreja estava apenas difusamente
iluminada por velas. Todos os monges vestiam hbito negro, e a viso dos
cavaleiros era de certo modo prejudicada pelos protetores faciais dos elmos.
Philip sentiu-se invadir por uma sbita onda de esperana: talvez no achassem
Toms na escurido. Mas o arcebispo liquidou com essa esperana no mesmo
instante, descendo os degraus na direo dos cavaleiros e dizendo:
         - Aqui estou eu, no um traidor do rei, e sim um sacerdote de Deus. O
que vocs querem?
         Quando Becket parou, defrontando os cinco homens com suas espadas
desembainhadas, subitamente Philip teve absoluta certeza de que o arcebispo iria
morrer ali, naquela hora.
        Os componentes da comitiva do arcebispo deviam ter tido a mesma
sensao, pois de repente quase todos fugiram. Alguns desapareceram na
obscuridade do coro, uns poucos se espalharam dentro da nave, misturando-se
aos habitantes da cidade que aguardavam o culto, e houve um que abriu uma
portinhola e subiu correndo uma escada em espiral. Philip ficou enojado.
        - Vocs deviam rezar, no fugir! - gritou para eles. Ocorreu-lhe que ele
tambm poderia ser morto, se no fugisse. Mas no era capaz de se obrigar a sair
do lado do arcebispo.
        - Renuncie  sua traio! - disse um dos cavaleiros a Toms. Philip
reconheceu a voz de Reginald Fitzurse, que fora o porta-voz um pouco antes.
        - Nada tenho a renunciar - replicou o arcebispo. - No cometi traio. -
Ele estava excessivamente calmo, mas seu rosto parecia muito branco. Philip viu
que Toms, como todos os demais, percebera que ia morrer.
        - Corra! Voc  um homem morto! - gritou-lhe Reginald.
        Toms permaneceu imvel.
        Eles queriam que ele corresse, pensou Philip; no conseguiam mat-lo a
sangue-frio.
        Talvez o arcebispo tivesse compreendido isso tambm, pois permaneceu
imvel diante deles, desafiando-os a toc-lo. Por um longo momento todos
ficaram imobilizados num quadro mortal, os cavaleiros no querendo fazer o
primeiro movimento, o sacerdote orgulhoso demais para correr.
        Foi Toms quem fatalmente rompeu o encanto.
        - Estou pronto para morrer, mas vocs no vo tocar em nenhum dos
meus homens, sacerdotes, monges ou leigos.
        Reginald moveu-se primeiro. Brandiu a espada para Becket, aproximando
a ponta cada vez mais do seu rosto, como se quisesse desafiar a si prprio a
deixar a lmina encostar no sacerdote. Este permaneceu imvel como uma pedra,
os olhos fixos no cavaleiro, no na espada. De repente, com um movimento
rpido do pulso, Reginald derrubou o barrete do arcebispo.
        Sbito Philip sentiu-se esperanoso mais uma vez. Achou que os
cavaleiros no iriam conseguir; acreditou que tivessem medo de tocar nele.
        Mas estava enganado. A determinao dos cavaleiros aparentemente se
fortaleceu com o gesto tolo de derrubar o barrete do arcebispo; parecia que eles
tinham esperado ser punidos pela mo de Deus, e, como nada acontecera,
haviam ganho coragem para fazer o pior.
        - Carreguem-no para fora daqui - ordenou Reginald. Os outros cavaleiros
embainharam as espadas e se aproximaram do arcebispo.
        Um deles agarrou Toms pela cintura e tentou levant-lo.
        Philip ficou desesperado. Finalmente tinham tocado nele. Estavam
mesmo dispostos a pr as mos num homem de Deus. Teve uma sensao
revoltante da profunda perversidade deles, como se houvesse se debruado na
borda de um poo sem fundo. Deviam saber, no ntimo, que iriam para o inferno
por causa daquilo; ainda assim o fizeram.
         O arcebispo perdeu o equilbrio, balanou os braos e comeou a lutar.
Os outros cavaleiros vieram ajudar a carreg-lo. Os nicos remanescentes do
squito de Toms eram Philip e um padre chamado Edward Grim. Ambos
correram para ajud-lo. Edward agarrou-lhe o manto e segurou-o com fora. Um
dos cavaleiros virou-se e golpeou Philip com um punho de ferro. A pancada
pegou no lado da cabea do prior, que caiu, estonteado.
         Quando se recuperou, os cavaleiros tinham soltado Toms, que estava de
p, com a cabea abaixada e as mos postas, numa atitude de orao. Um dos
cavaleiros ergueu a espada.
         Philip, ainda no cho, deu um longo e impotente grito de protesto:
         - No!
         Edward Grim ergueu o brao para aparar o golpe.
         - Encomendo minha alma a Deus.. . - disse Toms.
         A espada caiu.
         O golpe pegou ao mesmo tempo Becket e Edward. Philip ouviu sua
prpria voz gritando. A lmina cortou fundo o crnio do arcebispo e penetrou
no brao do padre. Quando o sangue jorrou do ferimento deste, Toms caiu de
joelhos.
         O prior olhou, horrorizado, para a ferida pavorosa na sua cabea.
         O arcebispo caiu lentamente sobre as prprias mos, apoiou-se por um
instante e caiu de cara no cho de pedra.
         Outro cavaleiro levantou a espada. Philip deu um involuntrio gemido de
dor. O segundo golpe foi dado no mesmo lugar que o primeiro e cortou fora a
parte superior do crnio de Toms. A fora foi tamanha que a espada bateu no
pavimento e se partiu em duas. O cavaleiro deixou cair o punho quebrado.
         Um terceiro cavaleiro cometeu ento um ato que arderia na memria de
Philip pelo resto da sua vida: enfiou a ponta da espada na cabea aberta do
arcebispo e espalhou seus miolos no cho.
         As pernas de Philip fraquejaram e ele caiu de joelhos, vencido pelo
horror.
         - Ele no se levantar de novo - disse o cavaleiro. - Vamos embora!
         Todos se viraram e saram correndo. Philip os seguiu com o olhar
enquanto percorriam a nave, brandindo as espadas para afastar os fiis.
         Depois que os assassinos se foram houve um momento de imobilidade e
silncio. O cadver do arcebispo jazia de cara para o cho, e o crnio decepado,
com seu cabelo, estava ao lado da cabea como a tampa de um pote. Philip
enterrou o rosto nas mos. Aquilo era o fim de qualquer esperana. Os selvagens
tinham ganho, pensava sem parar, os selvagens tinham ganho. Sentia-se como se
estivesse sem peso, aturdido, mergulhando lentamente num lago profundo,
afogando-se em desespero. No havia mais nada em que se amparar; tudo o que
parecia fixo de repente ficara instvel.
         Passara a vida combatendo o poder arbitrrio de homens perversos, e
agora, na ltima batalha, tinha sido derrotado. Lembrou-se de quando William
Hamleigh fora incendiar Kingsbridge pela segunda vez, e a populao da cidade
construra uma muralha num dia. Que vitria havia sido! A fora pacfica de
centenas de pessoas comuns derrotara a crueldade do conde William. Recordou
quando Waleran Bigod tentara fazer com que a catedral fosse construda em
Shiring, a fim de que pudesse control-la para os seus prprios fins. O prior
mobilizara o povo de todo o condado. Centenas de pessoas, mais de mil, tinham
se dirigido a Kingsbridge naquele maravilhoso domingo de Pentecostes, trinta e
trs anos antes, e a simples fora da sua dedicao derrotara o bispo. Mas no
havia esperana agora. Nem todas as pessoas comuns de Canterbury, ou at
mesmo nem toda a populao da cristandade, seriam suficientes para trazer
Toms de volta  vida.
         Ajoelhado nas lajes do transepto norte da Catedral de Canterbury, viu de
novo os homens que haviam invadido sua casa e assassinado seu pai e sua me
diante dos seus olhos cinquenta e seis anos antes. A emoo que sentiu agora,
vinda daquela criana de seis anos de idade, no era medo, nem mgoa. Era raiva.
Incapaz de deter aqueles homens imensos, de cara vermelha e sedentos de
sangue, ele quisera ardentemente poder manejar espadachins, embotar as lminas
de suas espadas, fazer coxear seus cavalos de batalha e for-los a se submeter a
outra autoridade, mais alta que o imprio da violncia. E, momentos mais tarde,
com seus pais jazendo mortos no cho, o abade Peter entrara para lhe mostrar o
caminho. Desarmado e indefeso, ele fizera cessar instantaneamente o
derramamento de sangue, sem outra coisa alm da autoridade da sua Igreja e da
fora da sua bondade. Aquela cena inspirara Philip pelo resto da vida.
         At aquele momento, acreditara que ele e pessoas como ele eram
vitoriosas. Havia conseguido vitrias notveis no ltimo meio sculo. Mas agora,
no fim da sua vida, seus inimigos provaram que nada tinha mudado. Seus
triunfos haviam sido temporrios, seu progresso, ilusrio. Ganhara algumas
batalhas, mas a causa, em ltima anlise, era perdida. Homens iguais aos que
mataram seu pai e sua me tinham agora assassinado um arcebispo dentro de
uma catedral, como que para provar, alm de qualquer possibilidade de dvida,
que no havia autoridade que pudesse prevalecer contra a tirania de um homem
armado com uma espada.
         Nunca pensara que se atreveriam a matar o arcebispo Toms,
especialmente dentro de uma igreja. Mas nunca pensara que algum pudesse
matar seu pai, e os mesmos homens sanguinrios, com espadas e elmos,
mostraram-lhe a melanclica verdade em ambos os casos. E agora, com sessenta
e dois anos de idade, contemplando o cadver de Toms Becket, viu-se
dominado pela fria infantil, irracional e abrangente de um garoto de seis anos
cujo pai foi morto.
         Levantou-se. A atmosfera na igreja estava densa de emoo, com as
pessoas se reunindo ao redor do corpo do arcebispo. Padres, monges e cidados
comuns foram se aproximando lentamente, atnitos e cheios de raiva. Philip
sentiu que por trs daquelas expresses chocadas havia uma fria como a que ele
sentia. Um ou dois murmuravam preces, ou resmungavam qualquer coisa meio
audivelmente. Uma mulher ajoelhou-se depressa e tocou no corpo morto, como
se estivesse em busca de sorte. Diversas outras pessoas a imitaram. Ento o prior
viu a tal mulher coletando furtivamente um pouco de sangue num frasquinho,
como se Toms fosse um mrtir.
         O clero comeou a recuperar os sentidos. Osbert, o camareiro de Becket,
com as lgrimas correndo pelo rosto, pegou uma faca e cortou uma tira da
prpria camisa, depois ajoelhou-se ao lado do corpo e, desajeitadamente,
amarrou a tampa do crnio no resto da cabea, numa tentativa pattica de
restaurar um mnimo de dignidade  pessoa do arcebispo, horrivelmente violada.
Enquanto agia, uma espcie de gemido coletivo levantou-se da multido  volta.
         Alguns monges trouxeram uma maca. Colocaram Toms em cima,
delicadamente. Muitas mos apareceram para ajudar.
         Philip viu que o belo rosto do arcebispo estava em paz, e que o nico
sinal de violncia era uma linha fina de sangue que escorria da fronte direita, por
cima do nariz, at a face esquerda.
         Quando levantaram a maca, o prior apanhou o punho quebrado da
espada que matara Becket. No podia deixar de pensar na mulher que guardara o
sangue do arcebispo num frasco, como se ele fosse um santo. Havia um enorme
significado naquele seu pequeno ato, mas Philip ainda no sabia exatamente o
que seria.
         O povo seguiu a maca, arrastado por uma fora invisvel. Philip seguiu
com a multido, sentindo tambm a estranha compulso que a todos empolgava.
Os monges carregaram o corpo ao longo do coro e o depositaram delicadamente
no cho, em frente ao altar-mor. A multido, com muita gente rezando em voz
alta, observou atentamente um padre que trouxe um pano limpo, envolveu a
cabea de Toms e fez uma atadura bem-feita, cobrindo tudo com um barrete
novo.
         Um monge cortou o manto negro do arcebispo, que estava cheio de
manchas de sangue, e removeu-o. Parecia inseguro quanto ao que fazer com a
sangrenta pea de roupa, e virou-se talvez para jog-la de lado. Um cidado
adiantou-se rapidamente e apanhou o manto como se fosse um objeto precioso.
         A idia que tinha pairado incertamente no fundo da mente de Philip veio
 sua conscincia num lampejo cheio de inspirao. As pessoas estavam tratando
Toms como um mrtir, colecionando ansiosamente seu sangue e suas roupas,
como se esses tivessem os poderes sobrenaturais das relquias de um santo. O
prior estivera considerando o assassinato como uma derrota poltica para a Igreja,
mas as pessoas ali presentes no o viam assim: para elas, tratava-se de um
martrio. E a morte de um mrtir, muito embora pudesse parecer uma derrota,
nunca deixara de, ao final, proporcionar inspirao e fora  Igreja.
         Philip pensou de novo nas centenas de pessoas que tinham ido a
Kingsbridge a fim de construir a nova catedral, e nos homens, mulheres e
crianas que trabalharam juntos metade de uma noite para levantar o muro da
cidade. Se aquela gente pudesse ser mobilizada agora, pensou ele, com uma
excitao cada vez maior, teria capacidade de soltar um grito to alto que seria
ouvido no mundo inteiro.
         Olhando para os homens e mulheres reunidos em torno do corpo, com o
rosto congestionado de sofrimento e horror, Philip percebeu que s queriam um
lder.
         Ser possvel?
         Havia algo familiar naquela situao, reconheceu ele. Um corpo mutilado,
um bando de assistentes e alguns soldados a distncia: onde vira aquilo antes? O
que deveria acontecer a seguir era que um pequeno grupo de seguidores do
homem morto se lanaria contra todo o poder e autoridade de um imprio
poderoso.
         Claro. Fora como o cristianismo comeara.
         E quando Philip entendeu isso, soube o que tinha a fazer a seguir.
         Deslocou-se para a frente do altar e virou-se para defrontar a multido.
Ainda tinha a espada quebrada na mo. Todos o olharam fixamente. Philip
sofreu um momento de dvida. Ser que consigo faz-lo?, pensou. Posso dar
incio a um movimento, aqui e agora, que sacudir o trono da Inglaterra? Olhou
para os rostos  sua frente.
         Assim como dor e ira, ele viu, em uma ou duas expresses, uma sugesto
de esperana.
         Ergueu a espada bem alto.
         - Esta espada matou um santo - comeou. Houve um murmrio de
aprovao. - Hoje  noite testemunhamos um martrio - continuou ele,
encorajado.
         Os padres e monges pareceram surpresos. Como Philip, no tinham visto
imediatamente o significado real do crime a que haviam testemunhado. Mas os
habitantes da cidade tinham, e expressaram sua aprovao.
         - Cada um de ns deve sair daqui e contar o que viu.
         Diversas pessoas aquiesceram vigorosamente. Estavam ouvindo - mas
Philip queria mais. Queria inspir-las. Pregar nunca fora o seu forte. No era um
daqueles homens capazes de controlar uma multido, arrebatando-a, fazendo-a
rir e chorar, e persuadi-la a seguir para onde quer que fosse. No sabia quando
entoar a voz ou como fazer o brilho da glria cintilar nos seus olhos. Era um
homem prtico, com os ps no cho - e naquele instante precisava falar como um
anjo.
        - Em breve todos os homens, mulheres e crianas de Canterbury sabero
que os homens do rei assassinaram o arcebispo Toms Becket na catedral. Mas
ser apenas o incio. A notcia se espalhar por toda a Inglaterra e depois por
toda a cristandade.
        Ele os estava perdendo, era capaz de afirmar. Havia insatisfao e
desapontamento em muitos rostos.
        - Mas o que faremos? - perguntou um homem.
        O prior percebeu que precisavam tomar algum tipo de atitude concreta
imediatamente. No era possvel lanar uma cruzada e depois mandar as pessoas
dormir.
        Uma cruzada, pensou ele. Ali estava a idia.
        - Amanh - disse ele -, levarei esta espada a Rochester. Depois de
amanh, a Londres. Vocs iro comigo?
        A maioria ficou perplexa, mas algum no fundo gritou: "Sim!", e ento
duas ou trs outras pessoas expressaram sua aprovao.
        Philip levantou um pouco a voz.
        - Contaremos nossa histria em todas as cidades e aldeias da Inglaterra.
Mostraremos ao povo a espada que matou so Toms. Deixaremos que vejam as
manchas de sangue no seu manto. - Ele se exaltou com o tema, e deixou a raiva
que sentia aparecer um pouco. - Levantaremos um grito que se espalhar por
toda a cristandade, chegando at mesmo a Roma. Faremos com que todo o
mundo civilizado se vire contra os selvagens que perpetraram este crime horrvel
e blasfemo!
        Dessa vez a maioria dos assistentes expressou seu acordo. Tinham
esperado um modo de deixar fluir suas emoes, e Philip agora o estava
proporcionando.
        - Este crime - disse ele, lentamente, a voz virando um grito - jamais,
jamais ser esquecido!
        Todos urraram seu assentimento. De repente ele soube para onde ir.
        - Vamos comear nossa cruzada agora! - disse.
        - Sim!
        - Vamos carregar esta espada ao longo de todas as ruas de Canterbury!
        - Sim!
        - E vamos contar a todos os cidados dentro dos muros da cidade o que
testemunhamos aqui hoje  noite!
        - Sim!
        - Tragam velas e sigam-me!
         Levantando bem alto a espada, ele se deslocou pelo meio da catedral.
         O povo o seguiu.
         Exultante, ele atravessou o coro e passou pelo cruzeiro, descendo a nave.
Alguns monges e padres caminharam ao seu lado. No era preciso olhar para
trs: podia ouvir os passos de uma centena de pessoas marchando s suas costas.
Saiu pela porta principal.
         Ali Philip teve um momento de ansiedade. Do outro lado do pomar s
escuras, viu homens de armas esquadrinhando o palcio do arcebispo. Se seus
seguidores se confrontassem com eles, a cruzada, mal comeada, poderia
terminar em pancadaria. Subitamente temeroso, desviou-se e liderou a multido
pelo porto mais prximo para a rua.
         Um dos monges deu incio a um hino. Havia lampies, e fogos acesos no
interior das casas, e quando a procisso passava, seus habitantes abriam as portas
para saber o que estava acontecendo. Alguns faziam perguntas. Outros se
incorporavam ao cortejo.
         Philip virou uma esquina e viu William Hamleigh.
         Ele estava de p diante de um estbulo, e dava a impresso de haver
acabado de tirar sua cota de malha, para montar e sair da cidade. Tinha um
punhado de homens consigo. Todos olharam, na expectativa, presumivelmente
tendo ouvido o hino e querendo saber o que estava acontecendo.
         Quando a procisso, iluminada por velas, se aproximou, William a
princpio no entendeu. Depois viu a espada quebrada na mo de Philip e
percebeu tudo. Ficou olhando em silncio por mais um momento, aterrado, e
por fim levantou a voz:
         - Parem com isto! - gritou. - Ordeno que se dispersem!
         Ningum lhe deu ateno. Os homens que o acompanhavam ficaram
ansiosos: mesmo com suas espadas, eram vulnerveis a um bando de mais de
cem fiis fervorosos.
         William dirigiu-se diretamente a Philip.
         - Em nome do rei, ordeno que pare com isto!
         O prior passou por ele, levado adiante pela presso do povo.
         - Tarde demais, William! - exclamou, por cima do ombro. - Tarde demais!

        Os garotos pequenos chegaram cedo para o enforcamento.
        Eles j estavam l, na praa do mercado de Shiring, jogando pedras em
gatos, abusando dos mendigos e brigando uns com os outros, quando Aliena
chegou, sozinha e a p, envergando uma capa barata com capuz para esconder
sua identidade.
        Ficou a distncia, olhando para o cadafalso. No tencionara vir.
Testemunhara um nmero grande demais de enforcamentos durante os anos em
que desempenhara o papel de conde. Agora que j no tinha tal responsabilidade,
achara que seria feliz se nunca mais visse outro homem ser enforcado em toda a
sua vida. Mas esse era diferente.
         No estava mais atuando como conde porque seu irmo, Richard,
morrera na Sria - no numa batalha, ironicamente, mas num terremoto. Levara
seis meses para receber a notcia. No o via h quinze anos, e agora nunca mais o
veria de novo. No alto da colina, as portas do castelo se abriram, e o prisioneiro
saiu com seu acompanhante, seguido pelo novo conde de Shiring, Tommy, filho
de Aliena.
         Richard nunca chegara a ter filhos, de modo que seu herdeiro fora o seu
sobrinho. O rei, aturdido e enfraquecido pelo escndalo de Becket, assumira a
linha de ao da menor resistncia e rapidamente o confirmara como conde.
Aliena passara o basto  nova gerao de muito bom grado. Conseguira o que
desejara fazer com o condado.
         A regio era de novo rica e florescente, uma terra de carneiros gordos,
pastos verdes e moinhos de grande porte. Alguns dos maiores e mais
progressistas proprietrios seguiram o exemplo dela, passando a usar cavalos para
puxar o arado, alimentados com a aveia plantada no sistema de rotao trplice
das colheitas. Em consequncia, a terra era capaz de alimentar ainda mais gente
do que sob o esclarecido governo do seu pai.
         Tommy seria um bom conde. Fora para isso que nascera. Jack se recusara
a reconhec-lo por algum tempo, mas acabara sendo forado a admitir a verdade.
Seu filho nunca fora capaz de cortar uma pedra em linha reta, mas era um lder
natural, e, aos vinte e oito anos de idade era decidido, determinado, inteligente e
justo. Agora, era geralmente chamado de Thomas. Quando assumiu, todos
esperaram que Aliena permanecesse no castelo, apoquentando a nora e
brincando com os netos. Ela rira de todos. Gostava da mulher de Tommy - uma
garota bonita, uma das filhas mais jovens do conde de Bedford - e adorava os
trs netos, mas aos cinquenta e dois anos no estava pronta para se aposentar.
Ela e Jack tinham se mudado para uma grande casa de pedra perto do priorado -
no que antes fora o bairro pobre, mas que no era mais -, e voltara ao comrcio
de l, comprando e vendendo, negociando com toda a sua antiga energia e
fazendo dinheiro com extraordinria rapidez.
         O grupo que ia tratar do enforcamento entrou na praa, e Aliena acordou
do seu sonho. Examinou detidamente o prisioneiro, tropeando na ponta de uma
corda, as mos presas nas costas. Era William Hamleigh.
         Algum da primeira fila cuspiu nele. A multido na praa era grande, pois
havia muita gente feliz por ver o fim de William; e mesmo para aqueles que no
tinham queixa dele, era uma grande atrao ver um antigo xerife ser enforcado.
Mas Hamleigh se envolvera no mais notrio assassinato de que algum pudesse
se lembrar.
         Aliena nunca soubera ou imaginara nada como a reao ao assassinato do
arcebispo Toms. A notcia se espalhara rapidamente por toda a cristandade, de
Dublin a Jerusalm e de Toledo a Oslo. O papa guardou luto. A parte continental
do imprio do rei Henrique foi colocada sob interdio, o que significava que as
igrejas estavam fechadas e no se realizavam os sacramentos, exceto o batismo.
Na Inglaterra o povo comeou a fazer peregrinaes a Canterbury, exatamente
como se fosse um santurio como Santiago de Compostela. E houve milagres.
gua com gotas de sangue do mrtir e fragmentos do manto que ele usava
quando fora assassinado curaram doentes no s em Canterbury como em toda a
Inglaterra.
         Os homens de William tentaram roubar o corpo da catedral, mas os
monges foram alertados e o esconderam; e agora estava seguro, no interior de
uma catacumba de pedra, e os peregrinos tinham que enfiar a cabea num buraco
da parede para beijar o caixo de mrmore.
         Foi o ltimo crime de William. Fugira correndo para Shiring, mas
Tommy o prendera e o acusara de sacrilgio. O xerife fora considerado culpado
pela corte do bispo Philip. Normalmente ningum se atreveria a sentenciar um
xerife, por se tratar de uma autoridade subordinada  Coroa, mas nesse caso o
contrrio era verdadeiro; ningum, nem mesmo o rei, se atreveria a defender um
dos assassinos de Becket.
         William ia ter um mau fim.
         Seus olhos estavam arregalados e descontrolados, a boca aberta e
babando. Ele resmungava incoerentemente, e havia uma mancha na parte da
frente da tnica, onde ele se molhara.
         Aliena observou seu velho inimigo cambalear s cegas na direo do
patbulo. Lembrou-se do rapaz jovem, arrogante e sem corao que a estuprara
trinta e cinco anos antes. Era difcil crer que se transformara naquele espcime
sub-humano, gemente e aterrorizado que via agora. Nem mesmo o velho
cavaleiro gordo, gotoso e desapontado que ele fora no fim da vida nada tinha a
ver com o William de agora. Ele comeou a lutar e a gritar  medida que se
aproximava do cadafalso. Os homens de armas o puxaram como se puxassem
um porco indo para o matadouro. Aliena no encontrou piedade no corao: s
conseguia sentir alvio.
         William nunca mais aterrorizaria ningum.
         Ele chutou e gritou quando foi levantado e posto em cima do carro de
boi. Parecia um animal - a cara vermelha, selvagem, imundo -, mas o som que
produzia era o de uma criana gemendo, chorando e resmungando. Foram
precisos quatro homens para segur-lo, enquanto um quinto passou o lao no seu
pescoo. Lutou tanto que o n apertou antes da hora, e ele comeou a se
estrangular pelos prprios esforos. Os homens de armas recuaram. William se
contorceu, asfixiado, o rosto vermelho ficando roxo.
         Aliena estava com os olhos fixos nele, consternada. Nem mesmo no auge
do seu dio desejara uma morte daquelas ao inimigo.
        No houve mais barulho, agora que ele estava asfixiado; e a multido
permaneceu imvel. At mesmo os garotos pequenos foram silenciados pela
viso horrvel.
        Algum deu uma chicotada no flanco do boi e o animal se adiantou.
Finalmente William caiu, mas a queda no quebrou seu pescoo, e ele ficou se
balanando na ponta da corda, sufocando lentamente. Seus olhos permaneceram
abertos. Aliena achou que ele estava olhando para ela. A expresso do seu rosto
no momento em que estava se contorcendo em agonia lhe era familiar.
Constatou que era assim que ele ficara quando a estuprara, pouco antes de atingir
o orgasmo. A lembrana a atingiu como uma punhalada, mas ela no se permitiu
desviar os olhos.
        Foi preciso um longo tempo, mas a multido permaneceu quieta at o
fim. O rosto dele foi ficando cada vez mais escuro. Suas contores agnicas
tornaram-se meras contraes. Por fim seus olhos rolaram para dentro, as
plpebras se fecharam, ele ficou imvel e, numa viso repelente, sua lngua
projetou-se, negra e inchada, por entre os dentes.
        Estava morto.
        Aliena sentiu-se exausta. William mudara sua vida - houve uma poca em
que teria dito que ele arrumara sua vida -, mas agora estava morto, sem nunca
mais poder fazer mal a ela ou a qualquer outra pessoa.
        A multido comeou a se dispersar. Os garotos pequenos imitavam as
convulses da agonia uns para os outros, rolando os olhos e pondo a lngua para
fora. Um homem de armas subiu no cadafalso e cortou a corda que prendia o
cadver.
        Aliena atraiu a ateno do seu filho. Ele pareceu surpreso por v-la.
Aproximou-se imediatamente e inclinou-se para beij-la. Meu filho, pensou ela;
meu filho. Filho de Jack. Lembrou-se do terror que sentira quando pensara que
podia ter tido um filho de William.
        Bem, algumas coisas haviam dado certo.
        - Achei que voc no ia querer vir aqui hoje - disse Tommy.
        - Eu tinha que vir. Tinha que v-lo morto.
        Ele ficou espantado. No compreendeu. Aliena ficou satisfeita. Esperava
que ele nunca tivesse de compreender certas coisas.
        Tommy passou um brao pelos seus ombros e os dois se retiraram juntos
da praa.
        Aliena no olhou para trs.

        Num dia quente, em pleno vero, Jack almoou com Aliena e Sally na
fresca do transepto norte, na galeria, sentados no gesso riscado do seu cho de
desenho. O som dos monges cantando o servio da sexta no coro era um
murmrio que lembrava o rumorejar de uma distante queda-d'gua. Tinham
comido costeletas de carneiro frias com po fresco de trigo e tomado um jarro de
cerveja dourada. Jack passara a manh esboando o desenho do novo coro, que
comearia a construir no ano seguinte.
         Sally ficou olhando para o desenho, ao mesmo tempo em que mordiscava
a costeleta com seus lindos dentes muito brancos. Em um momento mais, diria
qualquer coisa crtica sobre ele, Jack sabia. Olhou para Aliena. Ela tambm lera a
expresso da fisionomia de Sally e sabia o que estava por vir. Trocaram um olhar
conhecedor e sorriram.
         - Por que voc quer que o lado leste seja arredondado? - perguntou Sally.
         - Eu me baseei no desenho de Saint-Denis - respondeu Jack.
         - Mas h alguma vantagem?
         - Sim. Ajuda a conservar os peregrinos em movimento.
         - E assim voc s tem essa fileira de janelinhas.
         Jack achara que o assunto "janelas" viria logo, sendo Sally vidraceira.
         - Janelinhas? - Fingiu estar indignado. - Essas janelas so imensas!
Quando pus pela primeira vez janelas deste tamanho nesta igreja todos pensaram
que o prdio cairia por falta de suporte estrutural.
         - Se o coro tivesse um acabamento quadrado, voc teria uma enorme
parede reta - insistiu Sally. - E a poderia pr janelas realmente grandes.
         Sally tinha razo, pensou Jack. com o desenho arredondado todo o coro
era obrigado a ter a mesma elevao, obedecendo  tradicional diviso em trs
nveis, de arcada, galeria e clerestrio em toda a volta. Uma face quadrada
proporcionava a chance de mudar o desenho.
         - Poderia haver outro modo de fazer os peregrinos no pararem de
circular - disse ele pensativamente.
         - E o sol nascente brilharia atravs das grandes janelas - acrescentou Sally.
         Jack era capaz de imaginar.
         - Poderia haver uma fileira de janelas estreitas e pontiagudas, como lanas
num cavalete.
         - Ou uma enorme janela redonda, como uma rosa - disse Sally.
         Era uma idia assombrosa. Para quem se encontrasse de p na nave
olhando na extenso da igreja na direo leste, a janela redonda pareceria um
imenso sol explodindo em inumerveis e deslumbrantes cacos coloridos de vidro.
         Jack podia visualizar a janela.
         - Gostaria de saber qual seria o tema que os monges iriam querer - disse
ele.
         - A Lei e os Profetas - disse Sally.
         Ele franziu a testa para a filha.
         - Sua vbora sonsa, voc j discutiu essa idia com o o prior Jonathan,
no foi?
         Sally fez um ar culpado, mas foi salva de responder pela chegada de Peter
Cinzel, um jovem cinzelador. Era um homem tmido e desajeitado, cujo cabelo
louro vivia caindo sobre os olhos, mas seus trabalhos eram lindos, e Jack se
sentia feliz por poder contar com ele.
         - O que posso fazer por voc, Peter? - perguntou.
         - Na verdade eu estava procurando Sally - respondeu o rapaz.
         - Pois bem, voc a encontrou.
         Sally estava se levantando, espanando migalhas de po da frente da
tnica.
         - Eu os verei mais tarde - disse ela, saindo com Peter pela porta baixa e
descendo a escada em espiral.
         Jack e Aliena se olharam.
         - Ela estava envergonhada? - perguntou Jack.
         - Espero que sim - disse Aliena. - Meu Deus, j est em tempo de ela se
apaixonar por algum! Est com vinte e seis anos!
         - Ora, ora, eu j havia desistido de ter esperanas. Pensei que estivesse
planejando ser uma velha solteirona.
         Aliena sacudiu a cabea.
         - No Sally. Ela  to sensual quanto qualquer outra mulher. S  muito
seletiva.
         -  mesmo? As garotas do condado no esto fazendo fila para desposar
Peter Cinzel.
         - As garotas do condado se apaixonam por homens grandes e bonitos
como Tommy, que fazem figura em cima de um cavalo e usam capas forradas de
seda vermelha. Sally  diferente. Ela quer algum inteligente e sensvel. Peter 
exatamente o tipo dela.
         Jack aquiesceu. Nunca pensara no caso daquele modo, mas sentia
intuitivamente que Aliena estava certa.
         - Ela  como a av - disse. - Minha me se apaixonou por um tipo
excntrico.
         - Sally  como a sua me, e Tommy como o meu pai - disse Aliena.
         Jack sorriu para ela. Estava mais bonita que nunca. Seu cabelo ficava
grisalho e a pele do seu pescoo no tinha mais a antiga lisura do mrmore, mas 
medida que ficava mais velha e perdia a redondez das formas da maternidade, os
ossos do seu lindo rosto tornavam-se mais proeminentes e ela assumia uma
beleza elegante, quase estrutural. Jack adiantou-se e acompanhou com o dedo o
desenho do queixo de Aliena.
         - Como meus arcobotantes alados - disse. Ela sorriu.
         Jack desceu a mo pelo seu pescoo e pelos seus seios. Eles tambm
tinham mudado. Lembrava-se de quando se lanavam do peito dela como se
fossem leves, os mamilos apontando para cima. Depois, com a gravidez,
aumentaram ainda mais e os mamilos se alargaram. Agora estavam mais cados e
macios, e balanavam deliciosamente de um lado para outro quando ela
caminhava. Ele os amara em todas as fases. Perguntou-se como seriam quando
ela envelhecesse. Ficariam murchos e enrugados? Provavelmente gostarei deles
assim mesmo, pensou. Sentiu o mamilo endurecer ao toque de sua mo.
Inclinou-se para beijar-lhe os lbios.
        - Jack, voc est numa igreja - murmurou ela.
        - No faz mal - disse ele, e deslizou a mo da barriga para a virilha.
        Ouviram-se passos na escada. Ele se afastou, culposamente. Ela riu da
sua frustrao.
        - A est o julgamento de Deus das suas intenes - disse, irreverente.
        - Verificarei isso mais tarde - murmurou Jack, num tom de voz
fingidamente ameaador.
        Os passos chegaram ao topo da escada e o prior Jonathan apareceu.
Cumprimentou a ambos solenemente. Seu ar era grave.
        - Quero que voc oua uma coisa, Jack - disse. - Quer ir at o claustro?
        - Claro. - Jack ps-se de p.
        O prior voltou para a escada em espiral e desceu. Jack parou junto 
porta e apontou um dedo ameaador para Aliena.
        - Mais tarde - disse.
        - Promete? - perguntou ela, com um sorriso.
        Jack seguiu Jonathan, descendo a escada e atravessando a igreja at a
porta no transepto sul que levava ao claustro. Seguiram ao longo do passadio
norte, passaram por garotos com lousas e pararam no canto. com uma inclinao
da cabea, Jonathan dirigiu a ateno de Jack para um monge sentado sozinho
numa salincia de pedra a meio caminho do passadio oeste. O capuz do monge
estava erguido, cobrindo-lhe o rosto, mas quando pararam, ele se virou, levantou
a cabea e rapidamente desviou os olhos.
        Jack deu um passo involuntrio para trs.
        O monge era Waleran Bigod.
        - O que esse demnio est fazendo aqui? - perguntou, furioso.
        - Preparando-se para ir ao encontro do seu Criador - respondeu
Jonathan.
        Jack franziu a testa.
        - No entendo.
        -  um homem derrotado - disse o prior. - No tem posio, no tem
poder nem amigos. Constatou que Deus no quer que seja um bispo grande e
poderoso. Viu o erro dos seus atos. Chegou aqui, a p, e suplicou-me que o
admitisse como um monge humilde, para passar o resto de seus dias pedindo a
Deus perdo pelos seus pecados.
        - Acho difcil de acreditar - disse Jack.
         - Eu tambm, a princpio - disse Jonathan. - Mas no fim percebi que
sempre foi um homem genuinamente temente a Deus.
         Jack assumiu uma expresso ctica.
         - Sinceramente penso que ele era devoto. Cometeu apenas um erro
crucial: acreditou que o fim justifica os meios a servio de Deus. Isso lhe permitia
fazer qualquer coisa.
         - Inclusive conspirar para assassinar um arcebispo!
         Jonathan ergueu ambas as mos, num gesto defensivo.
         - Deus deve puni-lo por isso, no eu!
         Jack deu de ombros. Era o tipo de coisa que Philip teria dito. No via
motivo para deixar Waleran viver no priorado. No entanto, era esse o jeito de ser
dos monges.
         - Por que voc quis que eu viesse v-lo?
         - Ele quer lhe contar por que enforcaram seu pai.
         Jack subitamente gelou.
         Waleran estava sentado to imvel quanto uma pedra, o olhar perdido no
espao. Estava descalo. Os frgeis tornozelos brancos de velho eram visveis
abaixo da bainha do hbito de tecido grosseiro. Jack constatou que ele no era
mais assustador. Estava fraco, derrotado e triste.
         Adiantou-se vagarosamente e sentou-se num banco a uma jarda de
distncia de Waleran.
         - O velho rei Henrique era forte demais - disse Bigod sem prembulo. -
Alguns dos bares no gostavam dele: sentiam-se restringidos demais. Desejavam
que um rei mais fraco o sucedesse. Mas Henrique tinha um filho, Guilherme.
         Aquilo tudo era histria antiga.
         - Isso aconteceu antes de eu nascer - reclamou Jack.
         - Seu pai morreu antes de voc nascer - disse Waleran, com um leve
resqucio da antiga empfia.
         Jack assentiu.
         - Continue, ento.
         - Um grupo de bares decidiu matar o filho de Henrique. Achavam que
se houvesse dvidas quanto  sucesso, teriam mais influncia sobre a escolha do
novo rei.
         O construtor examinou o rosto plido e magro do monge, procurando
uma evidncia de falsidade. Mas o velho s parecia fraco, vencido e cheio de
remorsos. Se estava com algum objetivo oculto, Jack no conseguiu perceber.
         - Mas Guilherme morreu no naufrgio do White Ship - disse.
         - Aquele naufrgio no foi acidente - disse Waleran.
         Jack ficou surpreso. Poderia ser verdade? O herdeiro do trono
assassinado s porque um grupo de bares queria uma monarquia fraca? Mas no
era mais chocante que o assassinato de um arcebispo.
         - Continue - disse.
         - Os homens dos bares puseram a pique o navio e fugiram num bote.
Todos os outros morreram afogados, exceto um homem que se agarrou a um
mastro e foi boiando at a costa.
         - Meu pai - disse Jack. Estava comeando a ver aonde aquilo ia chegar.
         O rosto de Waleran estava muito branco, e os lbios, lvidos. Falava sem
emoo, e no encarou os olhos de Jack.
         - Ele deu em terra perto de um castelo que pertencia a um dos
conspiradores, e o prenderam. O homem no tinha interesse em denunci-los.
Na verdade, nem sequer percebera que o navio fora afundado. Mas vira coisas
que teriam revelado a verdade aos outros, se lhe permitissem recuperar a
liberdade e falar sobre sua experincia. Assim, sequestraram-no, levaramno para a
Inglaterra e deixaram-no aos cuidados de algumas pessoas em que podiam
confiar.
         Jack sentiu-se profundamente triste. Tudo o que seu pai sempre quisera,
segundo Ellen, era distrair as pessoas. Mas havia algo de estranho na histria de
Bigod.
         - Por que no o mataram logo? - perguntou.
         - Era o que deviam ter feito - respondeu Waleran friamente. - Mas ele era
um homem inocente, um menestrel, uma pessoa que s dava prazer aos outros.
No conseguiram mat-lo. - Ele deu um sorriso desconsolado. - At mesmo as
pessoas mais desumanas no fim tm alguns escrpulos.
         - Ento por que mudaram de idia?
         - Porque com o tempo ele se tornou perigoso, mesmo aqui. A princpio
no ameaava ningum, no era capaz sequer de falar ingls. Mas aprendeu, 
claro, e comeou a fazer amigos. Assim, trancaram-no na cela da priso sob o
dormitrio. Ento comearam a perguntar por que ele estava preso. Ele se
tornou um estorvo. Perceberam que nunca poderiam ter tranquilidade enquanto
estivesse vivo. E nos disseram para mat-lo.
         To fcil, pensou Jack.
         - Mas por que vocs obedeceram?
         - ramos ambiciosos, ns trs - disse Waleran, e pela primeira vez seu
rosto demonstrou emoo, a boca retorcendo-se numa careta de remorso. -
Percy Hamleigh, o prior James e eu. Sua me falou a verdade: ns trs fomos
recompensados. Tornei-me arcediago, e minha carreira na Igreja teve um
esplndido incio. Percy Hamleigh tornou-se um importante proprietrio de
terras. O prior James ganhou um til acrscimo  propriedade do priorado.
         - E os bares?
         - Aps o naufrgio, Henrique foi atacado, nos trs anos seguintes, por
Fulk de Anjou, William Clito na Normandia e pelo rei da Frana. Durante algum
tempo pareceu muito vulnervel. Mas derrotou seus inimigos e governou por
outros dez anos. No entanto, a anarquia que os bares queriam acabou
acontecendo, quando Henrique morreu sem um herdeiro masculino e Estvo
subiu ao trono. Enquanto a guerra civil convulsionava o pas nas duas dcadas
seguintes, os bares exerciam sua autoridade como reis em seus territrios, sem
nenhum poder central para impor-lhes limites.
        - E meu pai morreu por isso.
        - E no fim nada deu certo. A maior parte daqueles bares morreu na
guerra, e alguns dos seus filhos tambm. E as pequenas mentiras que dissemos,
para conseguir que seu pai fosse morto,          acabaram voltando para nos
perseguir. Sua me nos amaldioou aps o enforcamento, e a praga dela
funcionou. O prior James foi destrudo pela conscincia, como Remigius disse no
julgamento. Percy Hamleigh morreu antes de a verdade vir  tona, mas seu filho
William acabou enforcado. E olhe s para mim: meu ato de perjrio foi atirado
de volta sobre minha cabea quase cinquenta anos mais tarde, terminando com a
minha carreira. - Waleran estava plido e exausto, como se o seu rgido
autocontrole fosse resultado de enorme esforo. - Todos ns tnhamos muito
medo de sua me, porque no estvamos certos do que ela sabia. Afinal nem era
muito, mas o pouco que sabia foi o suficiente.
        Jack estava to abatido quanto Waleran. Finalmente soubera a verdade
sobre seu pai, algo que quisera toda a sua vida. Mas no sentia nem raiva nem
vontade de se vingar. No chegara a conhecer seu verdadeiro pai, mas tivera
Tom, que lhe dera o amor pela construo, a segunda grande paixo da sua vida.
        Levantou-se. Tudo aquilo ocorrera h tempo demais para ele chorar
agora. Desde ento muitas coisas tinham acontecido, a maioria delas boas.
        Olhou para o velho contrito sentado no banco. Ironicamente, era
Waleran quem sofria agora a amargura do arrependimento. Sentiu pena dele.
Como devia ser terrvel chegar  velhice e saber que sua vida fora desperdiada!
Waleran ergueu a cabea, e os olhos dos dois homens se encontraram pela
primeira vez. Bigod estremeceu e desviou o rosto, como se tivesse sido
esbofeteado. Por um momento Jack pde ler os pensamentos do outro homem,
e teve certeza de que ele vira a piedade nos seus olhos.
        E para Waleran, a piedade dos seus inimigos era a pior humilhao de
todas.

        Philip parou no Porto Oeste da antiga cidade crist de Canterbury,
envergando o traje de gala completo, deslumbrantemente colorido, de um bispo
ingls e carregando um valiosssimo bculo incrustado de pedras preciosas.
Estava encharcado de gua da chuva.
        Tinha sessenta e seis anos de idade, e a chuva gelava seus velhos ossos.
Era a ltima vez que se aventurava to longe de casa. Mas no teria perdido
aquele dia por nada deste mundo. De certo modo, tratava-se de uma cerimnia
que coroava o trabalho de sua vida.
         Tinham se passado trs anos e meio do histrico assassinato do arcebispo
Toms. Nesse curto espao de tempo o culto mstico de Toms Becket
empolgara o mundo. Philip no tinha idia do que estava iniciando quando
conduziu aquela pequena procisso, iluminada por velas, pelas ruas de
Canterbury. O papa canonizara Toms com uma rapidez quase indecente. Havia
inclusive uma nova ordem de monges-cavaleiros na Terra Santa chamada de
Cavaleiros de So Toms do Acre. O rei Henrique no fora capaz de se
contrapor a um movimento popular to poderoso. Era forte demais para
qualquer indivduo cont-lo.
         Para Philip, a importncia de todo o fenmeno consistia no que
demonstrava a respeito do poder do Estado. A morte de Toms mostrara que,
num conflito entre a Igreja e a Coroa, o monarca sempre poderia fazer prevalecer
sua vontade graas  fora bruta. O culto de so Toms, contudo, provava que tal
vitria sempre seria sem substncia. O poder de um rei no era absoluto, afinal;
podia ser limitado pela vontade do povo. Essa mudana tivera lugar no decurso
da vida de Philip. E ele no se limitara a testemunh-la; ajudara a produzi-la. A
cerimnia desse dia comemoraria tal fato.
         Um homem corpulento, de cabea grande, caminhava na direo da
cidade, no meio da chuva. No usava botas ou chapu. A uma certa distncia 
sua retaguarda, era seguido por um grupo grande de pessoas a cavalo. O homem
era o rei Henrique.
         A multido conservou-se to silenciosa quanto num funeral, quando o
rei, encharcado pela gua da chuva, seguiu caminhando pela lama, na direo do
porto da cidade.
         Philip colocou-se na rua de acordo com o plano combinado antes, e foi
andando na frente do rei descalo, liderando o cortejo para a catedral. Henrique
seguia com a cabea baixa, o passo normalmente jovial e desembaraado
rigidamente controlado, a postura como um retrato de penitncia. Os
atemorizados habitantes da cidade contemplavam em silncio aquela cena do rei
da Inglaterra se humilhando diante de seus olhos. A escolta real seguia a
distncia.
         Philip conduziu o rei lentamente atravs do porto da catedral. As portas
imponentes da esplndida igreja estavam inteiramente abertas. Eles entraram,
uma solene procisso de duas pessoas que era o ponto culminante da crise
poltica do sculo. A nave estava lotada. A multido abriu caminho para deixar
que passassem. As pessoas falavam aos sussurros, atnitas com a viso do mais
orgulhoso rei da cristandade, encharcado pela chuva, entrando na igreja como um
pedinte.
         Percorreram devagar a nave e desceram os degraus para entrar na cripta.
Ali, ao lado do novo tmulo do mrtir, os monges de Canterbury estavam
esperando, juntamente com os bispos e abades mais poderosos do reino. O rei
ajoelhou-se no cho.
        Seus cortesos entraram na cripta atrs dele. Na frente de todos,
Henrique de Inglaterra, o segundo com esse nome, confessou seus pecados, e
disse que tinha sido o involuntrio causador do assassinato de so Toms.
        Depois de confessar, tirou a capa. Por baixo usava uma tnica verde e
um cilcio. Ajoelhou-se de novo, dobrando as costas.
        O bispo de Londres flexionou uma vara.
        O rei seria aoitado.
        Receberia cinco pancadas de cada padre e trs de cada monge presente.
Os golpes seriam simblicos, claro: como havia oitenta monges presentes, se
batessem de verdade o matariam.
        O bispo de Londres tocou nas costas do rei cinco vezes, de leve, com a
vara. Depois virou-se e entregou-a a Philip, bispo de Kingsbridge.
        Philip adiantou-se para aoitar o rei. Sentia-se feliz por ter vivido at
aquele momento. Depois, pensou, o mundo nunca mais seria o mesmo.
